Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto
Part 8
Além de Manoel Quentino, compunha-se o pessoal do escriptorio de dois segundos caixeiros e um rapaz de serviço, a todos os quaes o guarda-livros accusava constantemente de mandriões e ao mesmo tempo quasi os impedia de trabalhar, pela excessiva disposição que tinha para fazer tudo por suas mãos.
Momentos antes de Carlos chegar, Manoel Quentino havia dado aos escripturarios duas cartas insignificantes a copiar e entregára-se elle, com todos os seus cinco sentidos, á redacção da correspondencia para Londres.
Dos escripturarios, um, tendo terminado a sua facil tarefa, aproveitou-se da distracção de Manoel Quentino, tirou ás escondidas da escrivaninha um romance de Paulo de Kock e pôz-se a lel-o, com a sôfrega curiosidade dos dezesete annos; o outro occupou o tempo a escrever uma carta de amores á dama dos seus pensamentos, carta em que, por incidente, foram inclusas algumas allusões epigrammaticas ao guarda-livros, a quem entre outras cousas se chamava «Argos desapiedado»; o rapaz de serviço, deixado tambem em disponibilidade, entretinha-se a perseguir as moscas da vidraça ou a traçar com o dedo lettras maiusculas nos vidros, que humedecia com o bafo. Qualquer d'estas tres occupações, sendo pouco ruidosa, mantinha-se no escriptorio um silencio, que agradava a Manoel Quentino.
Elle era o unico a interrompel-o, graças ao singular monologo, que estava de contínuo murmurando á penna com que escrevia.
Dava-se effectivamente em Manoel Quentino uma illusão singular.
Á força de lidar com a penna, á força de tão indissoluvelmente a ver associada ao seu destino, o velho guarda-livros acabára por julgal-a quasi dotada de certa intelligencia e fallava-lhe, animando-a, reprehendendo-a, sopeando-lhe os impetos, como a caprichoso corcel que se pretende guiar.
--Anda, anda,--dizia elle--que ronceira que estás hoje! Olha que não temos esse tempo, que julgas... Então?... Que é isso agora?... Pois já queres mais tinta? Depressa gastaste a que bebeste! Vá, avia-te... Bonito R! Isso não esperava eu de ti!... Adeus! Agora mais este cabello!... E sujas-me todo!... Trapalhona!... Ai, que impertinente que estás!... Adiante! adiante! adiante!... Espera, espera... Lá te esqueceu um D!... E agora?... Agora vê se te mexes entre essas duas lettras... Assim... Ah! ... não toques nos SS ... assim... Bem... Continúa, mas com tento... Então! Não querem ver que páras outra vez? Ora isto é demais!... Deixa estar que... Oh!
Era um borrão, que lhe caía no meio da pagina e lhe inutilisava a correspondencia quasi no seu termo.
«Trai la rai, la rai, larai lai Trai, larai, larai, larão, lão Trai larai lai, larai larai lai, Trai lari, lari, lari, larão lão. Trai lari, lari, lari, larão lão.»
Isto era a trautear o hymno da Carta, cousa que elle fazia sempre n'estas occasiões criticas. E sem mais alguma observação pôz a folha suja de lado, preparou outra e encetou nova correspondencia, não sem primeiro substituir a penna, dizendo-lhe ao deixal-a:
--Descansa. Hoje não estás nos teus dias. Vem cá tu--dizia para outra.--Vê lá como te portas!
E, olhando fixo para ella:
--Umh! Não tens lá muito boa cara! não... Ora vamos a ver... Vá, despacha-te, que tenho mais que fazer!... Abre os bicos... abre... Assim... bem! Sim, senhora!... Bravo... Ninguem havia de dizer que tu... Caspite!...
E com estas palavras de animação ia applaudindo o bom serviço da penna e quasi lhe parecia vel-a trabalhar com mais ardor, assim estimulada.
Foi n'este momento que um valente encontrão abriu a porta do escriptorio, e o _terra-nova_, precedendo Carlos Whitestone, invadiu o até alli silencioso e tranquillo recinto, principiando logo por entornar a infusa com agua, collocada a um dos cantos da sala.
Manoel Quentino, que estremecera com a subita apparição do quadrupede, ao ver o estrago que a sua impetuosidade produzira, pôz-se a olhar silencioso para elle e em seguida para a porta, como se contasse com mais alguma invasão, não menos revolucionaria do que esta.
Effectivamente Carlos não se fez esperar.
--_Good Morning_, Mr. Manoel Quentino!--bradou Carlos do limiar, fazendo para o guarda-livros uma reverencia muito rasgada.
--_Good Morning_, Mr. Charles--respondeu Manoel Quentino, encolhendo os hombros e dando ás feições um ar de paciente resignação, uma especie de bondoso mau humor.
Cumpre advertir aqui que Manoel Quentino fallava o inglez, graças á sua longa convivencia com os _Her Majesty's subjects_ residentes na nossa cidade; mas o inglez de Manoel Quentino era, até certo ponto, como o portuguez do patrão. Causava especial sensação ouvil-o pronunciar todas as palavras inglezas n'um tom, inflexão e maneiras, do cunho mais genuinamente portuguez. Podia dizer-se que Manoel Quentino fallava portuguez em inglez.
--Ditosos olhos que o vêem!--disse elle a Carlos; e depois para o rapaz do escriptorio:--Olha aquella agua que se entornou...--e para Carlos outra vez com gesto velhaco:--Então esteve doente?
--Eu? Tenho gosado a mais florescente saude do mundo--respondeu Carlos.
--Como não tem apparecido!--Anda, avia-te rapaz!
--Tenho-lhe talvez feito aqui muita falta?
--Umh!--resmungou Manoel Quentino.
Os caixeiros, que com a entrada de Carlos haviam escondido, um o romance, outro o modelo epistolar, sorriram entre-olhando-se.
--E você como tem passado por aqui sem mim, minha flor?--perguntou Carlos, mexendo-lhe nos papeis--Cada vez mais bonito, cada vez mais contente.
--Adeus, adeus. Não bula ahi, homem! Que é o que quer? que é o que quer?
--Lumes. Não ha lumes n'esta casa? que diabo!...
--Eu logo vi. Não pensa senão em fumar. Espere lá, espere lá. Não me desarranje isso. Eu dou-lhe lumes, eu dou. Ora ahi tem. E deixe-me.
Carlos accendeu um charuto e offereceu outro a cada um dos caixeiros, que os afagaram com olhares ávidos, mas sem se atreverem a aceital-os.
--Fumem--insistia Carlos.
Manoel Quentino levantou os olhos e fixou-os nos dois rapazes.
Sob a influencia d'aquelle olhar, hesitaram ainda.
Carlos obrigou-os porém a aceitar, offereceu-lhes lume para accenderem, e emquanto o faziam, voltou-se para Manoel Quentino, e vendo a cara de contrariado com que ficava, aproximou-se d'elle:
--Que tem você, Manoel Quentino? Deixe fumar os rapazes. Não seja fossil.
--Se o pae vier por ahi, cuida que ha de gostar de... E demais a mais, é distrahil-os do serviço...
--Que serviço? Olhem o grande serviço que elles faziam!--Rapaz--acrescentou logo depois, dirigindo-se ao perseguidor das moscas da janella--vae á rua de Santo Antonio saber se aquelle meu casaco está prompto... e chega de caminho ao theatro de S. João, pergunta pelo bilheteiro e dize-lhe que vaes de meu mando tomar seis cadeiras para a recita de quinta-feira... entendes? Seis cadeiras; depois...
--E faz favor de me dizer quando é que elle ha de levar a correspondencia ao correio?--perguntou com mau humor Manoel Quentino.
--Eu sei lá d'isso? Anda, vae...
--Mas...
--Ora! mande ao correio quem quizer... Avia-te. Salta.
O rapaz saíu a correr.
Manoel Quentino encolheu os hombros.
Carlos dirigiu-se á janella, que abriu de par em par. Uma rajada de vento, entrando na sala, fez esvoaçar toda a papelada da banca de Manoel Quentino.
--Lá vae! lá vae! lá vae tudo com os diabos!--exclamou o guarda-livros--Adeus, minha vida; estou arranjado!
Carlos desatou a rir.
--Isso; ria-se, que tem muita graça! Então os senhores que fazem?--perguntou, descarregando as iras sobre os caixeiros--Ponham-se á palestra e a fumar, e eu que trabalhe; hein?
--Deixe estar que eu apanho isso--disse Carlos, continuando a rir.
E todos quatro principiaram a apanhar os papeis, dispersos por a sala.
--Vão lá saber agora...--proseguiu Manoel Quentino--vão lá saber agora a ordem em que eu tinha tudo isto! Olhem... olhem... Ficou bonita a carta do correspondente de Liverpool! Sim, senhores! Olhem para estas contas da gerencia da capella ingleza! Tambem ficaram asseiadas! Pois estas apolices... E o maldito cão a afocinhar-me na agua aquella minuta!... Passa fóra! Eh!... passa fóra, tratante.
E voltando á escrivaninha pôz-se a coordenar outra vez os papeis.
--Ó Manoel Quentino--perguntou-lhe Carlos já da janella--quem é aquella rapariga que está aqui defronte no terceiro andar? Aquella cara é nova para mim.
--Eu sei lá d'isso, homem? Tomára que me deixassem.
--Quem é, ó Paulo, você ha de saber. Um rapaz da sua idade...--disse Carlos, dirigindo-se familiarmente a um dos caixeiros.
Era este um rapaz ainda imberbe, pallido, com certo fundo de melancolia, transparecendo por debaixo do jovial sorriso, proprio dos seus, ainda incompletos, dezoito annos.
Á pergunta de Carlos, aproximou-se da janella.
--Não sei--disse depois de ver a pessoa designada--não a conheço. O Pires ha de saber.
Pires era o nome do outro caixeiro, que por sua vez foi chamado.
E todos tres, em resultado d'esta conferencia, ficaram encostados á varanda, praticando em varios assumptos de igual momento.
Manoel Quentino, que já tinha posto por ordem os papeis, olhava de quando em quando para a janella e principiava:
Trai la rai...
trauteava o hymno da Carta.
O vento, depois de prejudicar a papelada do guarda-livros, dirigiu os seus furores contra a pituitaria do mesmo; Manoel Quentino começou a espirrar.
--Deus me salve!--dizia elle de cada vez.
Á quinta não teve mão em si, que não dissesse a Carlos:
--O' snr. Carlos! Ora a fallar a verdade, homem! Isso sempre é um gosto exquisito! Ahi posto á janella com este vento dos diabos! Eu já estou...--e espirrava outra vez--já estou constipado.
--N'esse caso recolho-me--disse Carlos, fechando a janella e vindo debruçar-se na escrivaninha de Manoel Quentino, o qual começára de novo a correspondencia.
--Sim, senhor, snr. Manoel Quentino;--dizia Carlos expellindo uma baforada de fumo, á qual o velho fez caretas--você será parente de Quentino Durward, de que falla o Walter Scott? Você sabe quem era o Walter Scott, Manoel Quentino?
--Eu não, senhor...--respondeu o velho, continuando a escrever.
--Walter Scott era um romancista. Sabe o que é ser romancista? Diga-me, já leu algum romance?
--Não, senhor, que tenho mais que fazer.
--Pois deixe estar que lhe hei de emprestar romances para ler...
--Muito agradecido.
--O primeiro ha de ser _O Cavalheiro de_...
Os dois caixeiros fungaram do outro lado da sala.
--_De Harmental_--concluiu maliciosamente Carlos--e acrescentou:--Não sei de que se riem estes senhores.
--É porque teem a vida muito canceirosa--respondeu Manoel Quentino.
--Depois hei de emprestar-lhe a _Mademoiselle_...
O mesmo effeito nos caixeiros.
--_Mademoiselle de La Seiglière_--delicada concepção de Jules Sandeau--concluiu Carlos, olhando-os com gravidade comica.
--Adeus, já me fez enganar!--exclamou Manoel Quentino--Por sua causa escrevi agora--cavalheiro--em vez de--Companhia.
--Isso emenda-se.
--Ha de emendar boas cousas.
--Emenda, sim. Olhe d'esse _a_ faz-se bem um _o_; depois o _m_ fórma-se do _v_ e do...
--O remedio é outro...
E com exemplar paciencia começou nova carta.
--Oh! com os diabos! Então vae outra vez principiar?
--É o que o senhor faz.
--O caso é que você tem bonita lettra! Invejo-lh'a. Se me ensinasse a escrever assim!
--Não precisa.
E, para fixar a attenção, ia dizendo em voz alta o que escrevia:
--Recebi o seu favor de 14 do corrente e em resposta...
--Não preciso? Preciso tal--proseguiu Carlos--rapariga a quem eu escreva...
--Do nosso ajuste--dizia Manoel Quentino, e fallando para Carlos alternadamente:--Elle ahi vem com as raparigas; o que eu lhe queria eram os cuidados!...--O preço do genero...
--Então parece-lhe indigno o assumpto? Ora diga, Manoel Quentino, diga se, quando era rapaz, não massava tambem com o tal assumpto os velhos do seu tempo.
--E a competente commissão.--Não que eu, quando era rapaz, já tinha mais em que cuidar...--Em vista pois das ordens recebidas...--Cuida que me levantava ao meio dia para pensar em moças, e que me deitava lá por altas horas, inda por causa d'ellas?
--Então que fazia você?--insistia Carlos, tomando a penna e desenhando uma figura na margem do jornal do dia.
--Com lucros provaveis...--O que eu fazia bem o sei; ainda me não esqueceram as madrugadas dos meus vinte annos...
--Ah! madrugadas!... Bem entendo!...
--Para trabalhar, para trabalhar! Está muito enganado, se cuida que todos tiveram a sua vida. Bom era isso!--A fallencia da casa Rodrigues e...
--Grande vida a minha!--continuava Carlos--Ha lá nada mais semsabor? Veja que precioso tempo perdido n'esta soturna sala.
E ao dizer isto ia, insensivelmente, sem reparar no que fazia, aproximando a penna da borda da carta, que Manoel Quentino escrevia, e quasi principiava a desenhar algum ornato n'ella.
--Oh! oh!--exclamou o velho, arredando-lhe a mão--Que ia fazer? Se lhe parece, suje-me agora a carta.
Carlos ergueu-se rindo e pôz-se a passeiar na sala.
--O pae inda não veio hoje aqui?
--Ha que tempos!
--E não volta?
--Ha de voltar, se Deus quizer.--É preciso fechar isto mais cêdo hoje--continuou Carlos.--Estes senhores precisam de gosar o carnaval.
--Bom carnaval é o d'este mundo!
--Que horas são?
--Duas e vinte minutos--Respondeu Manoel Quentino, sem olhar para o relogio e não errando meio minuto.
--Se meu pae...--principiava a dizer Carlos, mas foi interrompido pelo ranger das botas de Mr. Richard, que se ouviu nas escadas.
Restabeleceu-se a ordem no escriptorio.
Os caixeiros pozeram-se a escrever, e o proprio Carlos pegou em uma folha ingleza e fez que a examinava na secção commercial.
Manoel Quentino curvou-se ainda mais sobre a banca e moveu com maior agilidade a penna sobre o papel paquete, em que estava escrevendo.
Mr. Richard entrou no escriptorio com o rosto jovial e assobiando uma das suas predilectas toadas inglezas; mas, graças ao duro ouvido musical de que era dotado o velho _gentleman_, tão transtornada lhe saía ella, que o proprio auctor lhe custaria de certo a reconhecel-a.
O _Butterfly_, com a leveza, que justificava o nome de lepidoptero, que lhe tinham posto, atravessou a sala e foi cumprimentar o seu companheiro _terra-nova_, o qual, sentado, com a lingua de fóra, o recebeu com benevola, mas sisuda, magestade.
Todos se ergueram á entrada de Mr. Richard, em cujo rosto um olhar, exercitado em estudal-o, facilmente descobriria certa expressão de contentamento, despertada pela vista do filho, o qual, elle, n'aquelle dia, estava bem longe de esperar alli.
O plano de Jenny sortira bom effeito.
Mr. Richard dirigiu-se immediatamente ao seu gabinete particular. Carlos foi ter com elle, para lhe pedir a benção e ao mesmo tempo aproveitou a occasião para lhe agradecer o relogio e para desculpar-se de não ter assistido na vespera ao jantar de familia.
Mr. Richard Whitestone já não tinha cousa alguma no coração contra o filho. A vinda d'este ao escriptorio fora bastante para dissipar a menor sombra de resentimento.
--Não teve duvida--repetia elle muitas vezes, interrompendo a longa justificação de Carlos--não teve duvida, não teve duvida... Pois... esse relogio é de um fabricante muito acreditado, e, segundo o homem affirma aos compradores, não fará differença de meio minuto em cinco annos! Talvez seja confiança de mais!--acrescentou, rindo com vontade.
--Ou cegueira paternal--observou Carlos, rindo como elle.
--Sim, sim, ou isso, cegueira paternal, sim--concordou Mr. Richard, rindo cada vez mais e experimentando elle mesmo tambem os effeitos da tal cegueira.
E em seguida destapou duas garrafas de cerveja de Bass, tirou do armario uma copiosa provisão de bolacha e, na companhia do filho, celebrou a sua terceira refeição d'aquella manhã.
Passados minutos, voltaram ambos ao escriptorio nas melhores disposições d'este mundo.
Se Jenny os podesse ver então, como exultaria de contentamento!
Mr. Richard encaminhou-se para a escrivaninha de Manoel Quentino, Carlos sentou-se na escrivaninha opposta, e fingiu examinar os livros commerciaes.
Mr. Richard dirigiu varias perguntas ao guarda-livros, sobre alguns negocios pendentes, ás quaes Manoel Quentino deu respostas laconicas, mas peremptorias.
O inglez consultou depois algumas cartas, entregou outras ao guarda-livros, tomou notas, expediu ordens, examinou a escripturação, abriu o copiador e, de repente, voltando as costas a Manoel Quentino e dirigindo-se a Carlos:
--Já leste a carta do nosso correspondente em Londres?--perguntou com affabilidade.
--Ainda não, senhor.
--Manoel Quentino! Então porque lh'a não mostrou?!--disse o pae, voltando-se outra vez para o guarda-livros; e depois acrescentou de novo para Carlos:--Ha noticias importantes e que fazem prever a probabilidade de ser este um anno de vantajosas transacções, se por acaso...
--É um homem diligente, Mr. Leeson--notou Carlos, querendo dizer alguma cousa, mas com tanta infelicidade, que trocou o nome do correspondente de Londres pelo do de Liverpool.
--Ho!--disse logo Mr. Richard, mortificado--Leeson!... de Londres! Repara!... de Londres!?
Carlos conheceu que tinha sido inconveniente a observação, mas o peior era que não sabia corrigil-a, pois que de todo lhe esquecera o nome do tal correspondente.
--Ai, de Londres...--dizia elle embaraçado.--Eu julguei que... sim, de Londres; é que me pareceu...
Mr. Richard esperava ouvir o verdadeiro nome, pronunciado por o filho; mas não succedeu assim.
Manoel Quentino, que tinha bem fundados motivos--motivos, que o leitor deve prever quaes fossem--para não julgar de instante necessidade pôr Carlos Whitestone ao corrente das noticias commerciaes, abriu comtudo a escrivaninha e, procurando a carta em questão, levou-a a Carlos, não podendo disfarçar um sorriso, ao qual este correspondeu com ligeiro movimento de hombros.
Carlos, em vez de citar o nome do correspondente, pôz-se portanto a examinar a carta.
--Falle-lhe n'aquelle negocio da aguardente--disse Manoel Quentino quasi ao ouvido de Carlos, antes de se retirar outra vez para a banca onde escrevia.
Mr. Richard pozera-se a passeiar na sala, esfregando as mãos, e de quando em quando parava junto da vidraça, onde tocava um ligeiro rufo. Não estava ainda de todo restabelecido da má impressão que lhe causára o haver encontrado o filho tão pouco sciente do nome dos correspondentes da casa.
Carlos ficou a olhar para a carta commercial, mas julgo que nem a lia. Estava pensando como havia de aproveitar o conselho, pouco explicito, de Manoel Quentino e fallar ao pae no tal problematico negocio da aguardente, para elle inteiramente mysterioso.
Temia, referindo-se-lhe aventuradamente, aggravar as difficuldades da sua posição, longe de diminuil-as.
Manoel Quentino continuava a escrever, lançando para Carlos, ao molhar da penna, um sorriso malicioso.
Este pousou a carta.
O pae olhava-o obliquamente, como a esperar alguma reflexão.
Carlos fitou ainda Manoel Quentino, o qual lhe fez um imperceptivel signal.
Carlos aventurou-se:
--Emquanto ao negocio da aguardente...--disse elle com certa hesitação--nada...
O effeito foi maravilhoso!
Mr. Whitestone voltou-se com viveza e, sem disfarçar a intima satisfação, que lhe causava ver o filho tão bem informado, exclamou:
--Ah! tambem reparaste? Foi o que logo me deu que entender. Cuidei que nem estavas ao facto!
Carlos, animado com o resultado, proseguiu com mais coragem:
--Como era negocio de vulto...
Manoel Quentino fez porém uma carêta, que o levou a corrigir.
--Isto é... de vulto não digo... mas...
--Mas que podia bem vir a sel-o para o futuro ... é assim--atalhou Mr. Richard.
--Exactamente--concordou o filho.
Manoel Quentino sorria.
--Mas já estive a pensar--proseguiu Mr. Richard--talvez influissem n'isto as condições do mercado em Londres. Subiria o genero a ponto de exceder o maximo indicado nas nossas cartas.
--Póde ser, mas...--dizia Carlos, olhando para Manoel Quentino, á espera de receber inspirações d'alli.
Este affeiçoou os labios como para pronunciar uma palavra, que a Carlos pareceu dever ser «juro». Por isso abalançou-se outra vez a dizer:
--E tambem o juro...
Parou, porque devéras não sabia o que devesse dizer do juro, nem se era natural imaginar que tivesse subido ou descido.
Manoel Quentino moveu a cabeça em direcção do tecto, exprimindo mimicamente a primeira hypothese.
--Talvez o juro subisse--concluiu, em vista d'isto, Carlos Whitestone.
Mr. Richard aproveitou a insinuação do filho, e evidentemente satisfeito notou com vivacidade:
--Effectivamente o juro está muito alto em Londres.
--Ha muito tempo que o não tivemos tão desfavoravel--apressou-se Carlos em dizer, d'esta vez sem hesitar, visto que dava apenas nova fórma á mesma ideia.
--É verdade que não. Creio até que ainda n'estes ultimos dez annos não subiu tanto, como agora.
Carlos percebeu em Manoel Quentino um movimento de desapprovação, que o animou a dizer:
--Isso é que não sei; dez annos será demais, comtudo...
--Olha que não é demais--insistiu Mr. Richard, devéras admirado das informações do filho; e, depois de meditar algum tempo, continuou, voltando-se para o guarda-livros:--Em que anno teve logar aquella quebra da casa Blackfield de Londres, Manoel Quentino?
--Em outubro de 1847--respondeu este, sem levantar os olhos da escripta.
--Em 47?--Ai, então tens razão, tens; 47 a 55... 8... É isso... Porque eu lembro-me de que estava então o juro a 8 por cento.
--E d'essa vez--acrescentou Manoel Quentino--o cambio era-nos mais desfavoravel que hoje.
--É isso, é isso.
Esta conversa prolongou-se por algum tempo com visivel satisfação de Mr. Richard, com bastante difficuldade para Carlos e com superior diplomacia do bondoso Manoel Quentino, que estava sendo collaborador de Jenny, na obra de pacificação domestica, encetada por ella.
Ouviram-se emfim tres horas na torre de S. Francisco, e Mr. Richard, depois de ultimo exame aos livros e algumas recommendações mais, saíu do escriptorio, dando as boas tardes a Manoel Quentino, fazendo a Carlos um signal de despedida, menos sêcco do que de ordinario, e, o que mais era, afagando na passagem o _terra-nova_, cousa que não praticava, senão em occasiões de grande harmonia com o filho.
Ainda mal se tinha perdido nas escadas o som dos passos de Mr. Richard e o dos latidos de contentamento do _Butterfly_, impaciente de liberdade, já a carta do correspondente de Londres, descrevendo uma parabola, vinha caír na escrivaninha ao lado de Manoel Quentino, e Carlos accendia novo charuto e dispunha-se a seguir o exemplo paterno.
--Até que soou a hora da redempção!--exclamou elle, pondo o chapéo na cabeça.
--Então já se vae embora?--disse Manoel Quentino, maliciosamente.
--E acha você que não tomei dóse bastante de commercio esta manhã? Isto em pleno carnaval? Que impiedade!
--Eh! eh! eh! E que me diz do tal negocio da aguardente? Então com que, está alto o juro, hein? Eh! eh! eh!
--Vi-me devéras embaraçado com a tal aguardente!
--Mas saíu-se bem.
--Agradeço-lhe o auxilio.
--Quer mandar dizer alguma cousa ao correspondente a tal respeito?
--Que vá para o diabo! Não me pôde occorrer o arrevezado nome d'esse maldito. Como se chama elle?
--Então não sabe ainda? Woodfall Hope... Uma das primeiras firmas commerciaes de Londres; e n'este negocio da aguardente...
--Não, isso mais devagar, Manoel Quentino--atalhou Carlos--não lhe aturo nem mais uma palavra a respeito do tal negocio da aguardente. Boas tardes. Adeus, meus senhores. Deixem isso e vão ver as mascaras. Adeus.
--_Farewell_! Mr. Charles... Eh! eh! eh!...
Dentro em pouco, ouvia-se o descer apressado de Carlos, e a pancada violenta da meia cancella do portal impellida de encontro ao batente.
O escriptorio voltou ao primeiro silencio. A Praça estava quasi deserta. Como era terça-feira de carnaval, terminára mais cêdo a azafama do commercio. Os caixeiros bocejavam e o chiar da penna de Manoel Quentino augmentavam o effeito somnifero do logar.
De repente porém foi mais ruidosamente interrompido o silencio por o «Trai larai, larai, larai, lai» do guarda-livros.