Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto

Part 5

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Esta musica era a de uma das melodias de Russell, popularissimo compositor e vocalista inglez, a cujas salas, por aquelle tempo, corria em Londres a multidão ávida e enthusiasta, com o fim de o ouvir cantar as proprias composições, que elle mesmo acompanhava ao piano. Nas salas, nos theatros, nas ruas e nos campos, tanto na Inglaterra, como na America do Norte, lê-se em noticias d'essa época, repetiam-se as composições d'este musico notavel, cujo caracter nacional se aperfeiçoara na convivencia da escola italiana, sem perder com isso, diz-se, o cunho da originalidade.

De entre a collecção de melodias, ou cantos populares, publicadas n'aquelle anno em Londres, e procuradas com alvoroço pelos amadores nacionaes espalhados por todo o mundo, havia uma que Mr. Richard sobre todas amava. Era essa a que vinha trauteando ao entrar na sala.

Tanto na indole d'este musico, como na da lettra, que assigna o nome do dr. Mackay, encontrava-se de facto muito do caracteristico genio inglez, para justificar de sobra esta preferencia.

É um canto de animação aos numerosos bandos de emigrados, que de todos os pontos da Gran-Bretanha partem a cruzar os mares, á procura da riqueza, e, sem lagrimas, se despedem do berço natal, que todavia amam com fervor. Se é licito admittir que, n'estas luctas travadas no seio da sociedade actual para conquistar a riqueza, póde ainda incidir um raio d'aquelle esplendor épico, de que se illuminam os trabalhos analogos do mythologico Jason, de certo os inglezes são os heroes d'essas epopeias modernas. Aquelle desprendimento com que se separam do que amam quasi com fanatismo--a patria e a familia--, aquella coragem estoica, que os alenta nos revézes, e a firmeza de animo, que nas victorias lhes evita os somnos perigosos, dão a esses argonautas do commercio um prestigio respeitavel, que certas ridiculas exterioridades não podem suffocar.

Como complemento ao estudo do caracter de Mr. Richard Whitestone daremos aqui a traducção dos versos do dr. Mackay, por ser o conceito d'elles afinado pelo sentir do honrado negociante.

Era esta mesma canção a que os soldados inglezes entoavam na Crimeia, durante a campanha d'aquelle tempo; e ao partirem da patria, emquanto os instrumentos marciaes soltavam aos ventos as notas d'este canto popular, milhares de espectadores cantavam unisonos:

_Cheer, boys!, cheer..._

que são as primeiras palavras do hymno, que traduziremos assim:

«Eia! rapazes, eia! Longe de nós a ociosa tristeza. Almas varonis, a coragem nos alentará no caminho! A esperança impelle-nos para diante, e mostra-nos um esplendido ámanhã; esqueçamos portanto a escuridade de hoje.

Adeus, pois, ó Inglaterra! Ficam-te ainda muitos filhos, que como nós te amem.

Nós enxugaremos as lagrimas, que ao principio derramamos. Porque havemos de chorar, ao soltarmos as velas em busca da fortuna? Adeus, pois, adeus, Inglaterra! adeus para sempre.

Eia! rapazes, eia! pelo paiz! pelo paiz natal!--Eia, rapazes! a vontade forte imprime vigor ao braço. Eia! a riqueza recompensa o trabalho honrado; eia! eia, rapazes! pela nova terra, pela terra feliz!

Eia! uma favoravel briza sopra para nos impellir livremente sobre o dorso do oceano; o mundo seguir-nos-ha pela esteira que deixarmos; no Occidente brilha a estrella do imperio. Aqui temos fadigas e pouco a recompensal-as; além a abundancia sorrirá ás nossas penas; e nossas serão as planicies e as florestas, e o grão dourado amadurecerá para nós em campos sem limites.»

Foi pois a musica correspondente a esta canção que Mr. Richard interrompeu quando, ao entrar na sala, viu que com um unico talher estava preparada a mesa.

--Carlos está ainda na cama?--disse, voltando-se para Jenny e n'um tom, em que se revelavam ligeiros indicios de mau humor.

Cumpre-me avisar aqui os leitores de que, para dupla commodidade, minha e sua, farei fallar portuguez a Mr. Richard e até segundo as regras de uma grammatica, cuja auctoridade elle nunca reconheceu.

Jenny sentiu a necessidade de advogar a causa do irmão junto de Mr. Richard, que, já bastante indisposto com a ausencia de Carlos no dia do seu anniversario, encarava agora com maus olhos taes excessos de indolencia filial.

Profundo admirador das bellezas d'este mundo sublunar, Mr. Richard olhava o somno como um invejoso, que nos furta algumas horas de prazer n'esta vida, e ao qual, obrigado a fazer ligeiras concessões, tratava sempre como inimigo.

Á interrogação paterna, Jenny respondeu:

--Ainda.

--Ho!--acudiu Mr. Richard, com a sua monosyllabica e guttural interjeição de desgosto, acompanhando-a dos accessorios do costume.

Jenny acrescentou:

--Charles teve de se recolher hontem mais tarde...

--Escolheu bem o dia.

--Não se lembrava...

--Exquisito!

--Creia que se não esqueceria assim, se se tratasse do dia 3 de julho, do anniversario do pae.

Mr. Richard sentou-se e pôz-se a ler o _Times_.

Jenny sentou-se defronte d'elle, mas arredada da mesa.

--E, como se deitou tarde--proseguiu ella, passado tempo--e eu receei que a falta de descanso lhe podesse fazer mal, ordenei que o não chamassem.

--Então veio muito tarde?

--Julgo que ... ás duas horas...--balbuciou Jenny.

O criado, que começára a servir Mr. Richard, pensou fazer um obsequio corrigindo:

--Perdão, miss Jenny, passava já das quatro.

--Ho!--repetiu Mr. Richard.

Jenny olhou para o criado de maneira, que lhe deu a conhecer a inconveniencia da correcção.

--Foi uma promessa, que Charles fez a uns amigos...--disse ella--e só soube o dia que era, quando já não ia a tempo de recusar.

Mr. Richard não precisava de ouvir mais nada, para suspender as suas censuras. Tinha já perdido o habito de discordar da filha. Porisso só respondeu, lendo o _Times_:

--Sim, sim. Está bom. O mal d'essas extravagancias é d'elle e porisso...

N'isto entrou, aos saltos, na sala um d'esses pequenos cães felpudos, pretos e pardos, verdadeiros Atilas dos ratos e rivaes dos velhos exterminadores d'esta raça perseguida.

--_O' Butterfly, good morning! How do you do, sir?_--exclamou Mr. Richard, saudando o seu cão predilecto, que lhe estendeu a pata como para um _shake-hand_. Havia n'isto um requerimento a uma fatia de fiambre, o que o inglez não indeferiu.

O pequeno quadrupede sentou-se então com familiaridade na cadeira devoluta ao lado do seu dono, fazendo a devida justiça ás sobras do _lunch_, que lhe cabiam em partilha.

Jenny erguia-se a cada momento para servir o pae, attendendo a particularidades, futeis de mais para merecerem a observação do criado ou de outrem, que não fosse uma filha.

N'uma d'estas occasiões, Mr. Richard, como se não tivesse perdido ainda o fio da conversa anterior, disse a meia voz:

--É que ha oito dias, que nem apparece no escriptorio e ... é feio isso.

Jenny não respondeu.

Era claro que durante todo o tempo, em que tinham guardado silencio, o mesmo pensamento occupára o espirito de ambos.

Receio que os redactores do _Times_ não tivessem d'esta vez conseguido captivar a attenção do seu leitor.

Levantou-se por fim o inglez.

Lavando as mãos e estendendo a vista pelos floridos taboleiros do jardim, murmurava ainda:

--Parece mal. É mau costume.

E saíu da sala para o gabinete.

Jenny acompanhou-o.

--E demais nem tanto custa--dizia elle ainda, pelo caminho.

Enfiando o sobrecasaco e aceitando das mãos de Jenny o chapéo e a bengala, continuou no mesmo tom:

--Dá logar a que se diga ... a que se repare...

Calçando as luvas de pellica côr de canna, por uma exquisitice patriotica mandadas vir de Inglaterra directamente, resmoneou ainda:

--Não sei que custe muito estar alguns minutos no escriptorio.

E, passado um momento:

--É feio, é feio.

Parecia emfim disposto a saír, mas Jenny, costumada a observal-o, descobria-lhe certa hesitação, como se se travasse n'elle uma lucta entre duas resoluções encontradas.

--Até logo, Jenny--dizia Mr. Richard, mas sem acabar de partir.

--Não sei o que me esquece!--murmurou depois com manifesta perplexidade.

Jenny correu os olhos pelo quarto.

--O lenço?--perguntou, offerecendo-lhe um que vira sobre o toucador.

--Ah! o lenço, sim ... o lenço...

Era evidente que não estava satisfeito ainda.

--Agora ... não me falta nada; adeus.

Jenny julgou que d'esta vez sempre saíria.

--Ah! sim--continuava elle, parando novamente.

Jenny fitou-o com olhar interrogativo.

--Não sei o que... Ah!... Então... então Carlos... não se levanta esta manhã?

--Se quer que o chame?

--Não, não... É que...

E depois, interrompendo-se:

--Não é nada.

--Deseja que lhe dê algumas ordens?

--Não... mas... Emfim, o que é tem tempo.

--Mas diga; Charles não deve tardar a erguer-se...

--É que...

E Mr. Richard, com certo modo embaraçado, aproximou-se da secretária, abriu-a e tirou de lá um magnifico relogio e corrente, de construcção ingleza, objecto que expressamente havia encommendado de Londres para presentear o filho no dia dos annos d'elle.

A ausencia de Carlos na vespera impedira-lhe realisar o affectuoso intento.

Agora como que sentia vergonha de ter a sua affeição resistido inteira ao delicto filial, e de não lhe restar já no coração força bastante para reprimir as expansões d'ella.

--Ahi está--dizia Mr. Richard a Jenny, procurando com um tom sacudido tirar ás palavras a menor sombra de affecto.--Se quizeres, pódes dar isso a teu irmão. Para elle é que eu o destinava, se hontem...

Jenny tomou o relogio das mãos do pae, a quem agradeceu com um sorriso de ternura.

Mr. Richard proseguiu:

--Que eu não sei se Carlos o quererá; ainda que é objecto de preço...

--O maior preço é ser uma lembrança sua, senhor.

Mr. Richard resmoneou um monosyllabo inglez e ensaiou um gesto de inveterado scepticismo, que não lhe saíu muito expressivo.

Jenny acrescentou:

--E de mais preço ainda, se das suas proprias mãos o recebesse.

--Queres talvez que vá acordar Carlos, para que me faça o favor de me aceitar as minhas prendas?--perguntou o pae com certo azedume.

--Mas se... logo ao jantar...

--Talvez não nos dê a honra de nos fazer companhia.

--Oh! se Carlos soubesse...

--Nada, nada. Entrega-lh'o tu, se quizeres.

E, dizendo isto, saíu da sala, atravessou o jardim e dentro em pouco tempo transpunha o portão da rua.

O criado, que o encontrou no corredor, ouviu-o murmurar ainda:

--Parece muito mal.

Mas, chegando á rua, já ia apparentemente satisfeito. Caminhava com a rapidez, peculiar ao povo para o qual o tempo é dinheiro, dirigia ao favorito _Butterfly_ phrases de cordial affecto e trauteava por entre dentes o popular--_Cheer, boys, cheer!,..._

VI

AO DESPERTAR DE CARLOS

Jenny ficou ainda por muito tempo immovel junto da porta, onde se despedira do pae. O olhar corria-lhe pelos objectos que a rodeiavam; o pensamento porém não acompanhava o olhar.

Aquellas feições, em que se podia reconhecer, mysteriosamente, combinada á candura de uma creança não sei que severidade, toda maternal, tomavam agora um ar de preoccupação e melancolia, uma d'essas sombras, que as ideias graves parece projectarem no semblante de quem não aprendeu a dissimulal-as.

Jenny presentia haver chegado uma nova occasião de ser necessario intervir com a sua influencia pacificadora e angelica para dissipar a nuvem, embora tenue, que assomava no horizonte domestico.

Exercera já de um dos lados essa influencia, conseguira adoçar as disposições acerbas de Mr. Richard para com o filho; faltava-lhe porém o resto, estava ainda incompleta a obra; era preciso ensaial-a sobre Carlos tambem.

E Jenny, que bem conhecia o irmão, tinha fé em que o não tentaria debalde.

Rompia porisso um raio de confiança por entre as sombras d'aquella preoccupação.

Foi n'este estado de espirito que chamou André para que fosse acordar o irmão.

André era o mais antigo criado da casa, especie de mordomo jubilado, que servia Mr. Whitestone desde o seu estabelecimento no Porto e trouxera já ao collo os dois filhos do inglez.

--Vá,--disse Jenny--diga a Charles que eu o espero na bibliotheca.

Carlos dormia tranquillamente, quando o velho André lhe entrou no quarto. A respiração profunda, pausada e regular denunciava um somno, livre de pesadelos e de sonhos importunos.

O criado, depois de escutar algum tempo aquelle som, unico que, com o do bater da pendula vizinha, se percebia no quarto, caminhou com precaução, bem escusada a quem vinha para despertar, até uma das janellas, que entreabriu.

Espalhou-se então no aposento uma meia claridade, coada através das longas cortinas que, soltas das abraçadeiras douradas, rojavam pelo tapete.

Pôde então o velho observar a completa desordem que ia n'aquella sala.

Estes raios de luz, menos felizes do que os evocados pelo _fiat lux_ do _Genesis_, póde dizer-se que vieram ainda illuminar um cháos; pois difficilmente se encontraria mais apropriada expressão para designar o aspecto do aposento, a cuja vista se dissolveu em sorrisos toda a sisuda gravidade, desenhada nos labios e nas feições do mordomo.

A scena, de facto, escapa á mais esmiuçadora descripção.

Parecia que todos os objectos, alli contidos, haviam, durante a noite, entrado em dança phantastica, de tal sorte os surprendera o dia, deslocados da natural situação.

As cadeiras, amontoadas em desordem no meio da sala, haviam usurpado as attribuições dos guarda-roupas; estes, abertos de par em par, patenteavam o interior desordenado e quasi vazio, como após um saque de cidade conquistada.

Nas mesas, nos sofás, em _voltaires_, no chão, por toda a parte emfim, menos nos logares competentes, via-se casacos, coletes, calças, mantas de differentes côres e feitios. O pavimento achava-se literalmente alastrado de objectos de impossivel enumeração; aqui, umas luvas, calçadas pela primeira vez na vespera e já postas de lado como inuteis; alli, alguns ramos de flores desfolhadas e murchas, cuja posse, procurada talvez com incansavel insistencia, trouxe depressa após si o abandono e o esquecimento; n'outros pontos, charutos meio consumidos, os fragmentos de uma preciosa jarra de porcelana da India, um livro, que commettera o delicto de não excitar a curiosidade, uma cadeira derrubada com o fardo que lhe pesou sobre o espaldar; cartas, collarinhos, retratos, lenços, chicotes. As esporas no logar do relogio; este pousado na beira do marmore do fogão; sobre o leito, um dominó de setim; pendente á cabeceira, o jornal da vespera e um longo cachimbo com tubo de gutta-percha; aos pés polvorinho de caça, o robe-de-chambre de damasco e o teliz da horsa favorita; no velador, um tinteiro de prata, transformado em cinzeiro de charutos; um chapéo pendurado na chave da porta; o candieiro no chão, alguns livros e mappas geographicos quasi debaixo da cama. Um _abat-jour_ de cartão envernizado com figuras extravagantes, representando chins em posições todas chinezamente ridiculas, servia de barrete ao busto de Shakespeare, cujo pescoço estava além d'isso diplomaticamente enfeitado com uma gravata de baile; defronte, Byron, coberto com chapéo de feltro de abas largas, o qual lhe pendia galhardamente sobre a orelha esquerda, parecia fitar com petulancia o seu illustre conterraneo; no outro angulo, era aquella figura séria e bondosa de sir Walter Scott, com não sei que ares de acanhado debaixo do barrete turco, que a guerra da Crimeia pozera então á moda; e finalmente um quarto busto occultava, sob mascara de setim preto, a expressão de candura e de soffredora tristeza do cantor dos combates dos anjos e demonios, o sublime Milton.

Dir-se-hia que estes grandes personagens da litteratura ingleza, obedecendo á voz do carnaval, haviam surgido da sepultura, para virem celebrar tambem entre si, com as suas cabeças pallidas, a mais estranha mascarada.

No meio de toda esta confusão, um enorme _terra-nova_, de ventas leoninas e corpulencia de touro, languidamente recostado nas molles almofadas do sofá luxuoso, pousava as patas musculosas e pelludas sobre um magnifico album de gravuras, com a mais absoluta irreverencia pela preciosidade, que assim lhe servia de cabeceira e de estrado.

Imagine-se o resto.

André, o methodico André, sorria e abanava a cabeça no meio de tanta desordem. Demorou-se alguns instantes a examinar todo aquelle desarranjo, que bem simulava os vestigios de recente lucta; depois caminhou para o leito, afastou vagarosamente, de má vontade ainda, as cortinas brancas, que o resguardavam, e curvando a cabeça, fitou os olhos na fronte espaçosa e liza de Carlos, sem que se resolvesse a acordal-o de dormir tão tranquillo.

Carlos tinha a physionomia sympathica e expressiva. O melhor do typo saxonio encontrava-se alli. Os cabellos louros, curtos e naturalmente annelados, deixavam-lhe livre a fronte ampla, de bossas proeminentes, e cujos angulos se prolongavam por sobre as temporas; as côres eram do alvo delicado, proprio dos typos septentrionaes; o nariz de perfil, em que não entrava o elemento da mais desvanecida curva; os labios, algum tanto grossos e levemente encrespados n'um sorriso, entre ironico e affectuoso, prompto a caracterisar-se com facilidade igual n'um ou n'outro d'estes sentidos; as palpebras longas, salientes e nas quaes, em curvas azuladas, transparecia uma rede de pequenas veias, e em torno ás orbitas o circulo de côr desmaiadamente rôxa, vestigio de longas noites de agitadas vigilias; taes eram os traços principaes d'aquella physionomia aberta e attrahente, que, em alguns d'elles, offerecia o que quer que era de Byron. Os olhos, n'aquelle momento velados, possuiam fogo correspondente á vivacidade do espirito que os animava; as feições, paralysadas agora pelo somno, gosavam em vigilia de mobilidade extrema e eloquente, outro ponto de analogia com as do poeta inglez, segundo a crença dos seus biographos.

André acabou emfim por o chamar, mas com voz, que parecia de quem desejava não ser escutado.

--Snr. Carlos--disse elle.

Apesar de pronunciada em tom baixo, e quasi a mêdo, bastou esta palavra para o despertar.

Abriu immediatamente os olhos, fitou-os no criado e, estendendo os braços n'aquelle quasi involuntario movimento, com que todas as manhãs despedaçamos as ultimas cadeias com que nos algema o somno, deixou-lh'os cair em volta do pescoço, como para apoiar-se, dizendo ainda com voz mal distincta:

--Bons dias, André. Que horas são?

--Meio dia.

Foi a resposta que obteve, acompanhada de significativo sorriso.

--_Save us!_--exclamou Carlos, imitando a despenseira ingleza, de quem era esta a phrase habitual, e ao mesmo tempo voltou os olhos para o relogio fronteiro, o qual, como em resposta a esta mimica interrogatoria, bateu doze lentas e sonoras pancadas.

--Pois não me parecia--continuou Carlos, ao acabar de contal-as.--Ia até estranhar-te a madrugada, sabes tu? E... e... o pae?

--Saíu já.

--E... e que disse?

André encolheu os hombros, respondendo:

--Nada.

Era a maneira de exprimir que alguma cousa dissera.

Carlos comprehendeu isto mesmo, mas não perguntou mais nada.

--Toca a pôr a pé, que são horas!--dizia o André, occupando-se a levantar alguns dos objectos que via pelo chão.

--Deshumano, cruel, que me recordas?--respondeu-lhe Carlos em tom de recitação tragica.

--Vamos, vamos, preguiçoso.

Carlos abriu ainda outra vez a bôca em gesto quasi sentimental de despedida ao somno que se afastava; afagou com a mão o colossal _terra-nova_, que veio pousar-lhe a cabeça nos joelhos, e abriu ao acaso o livro que encontrou á mão, um romance de Dickens, do qual leu algumas linhas distrahido.

--Então?--insistiu o André, vendo-o pouco disposto a levantar-se--Fica ahi?

--Vae-me buscar o almoço, homem. Traze-me só café. Parece-me que inda agora terminei aquelle turbulento jantar de hontem.

--Então quer almoçar aqui?

--E julgo que é uma resolução muito louvavel.

--Mas...

--Mas o quê?... Que objecções lhe pões? Falla.

--É que miss Jenny espera-o na bibliotheca.

Carlos de um salto sentou-se na cama.

--Ó pateta! e inda agora me vens com isso? Depressa--chega-me d'ahi esse robe-de-chambre.--Isso não... não vês que é um dominó?... Anda... avia-te... Aquelle lenço... O outro... Bem... Vae... Dize a Jenny que n'um momento estou com ella.

E depois de proceder com a maior celeridade áquelle ligeiro _toilette_ de manhã, Carlos entrou na bibliotheca, onde Jenny o esperava.

Era n'esta bibliotheca que muitas vezes os dois irmãos se entregavam a leituras communs, restos de habitos adquiridos na infancia, quando pelos mesmos livros estudavam, formando um gracioso grupo de cabeças louras, objecto das contemplações apaixonadas e das bençãos cordiaes de Mr. Richard Whitestone.

--Bom dia, Charles--disse Jenny, estendendo-lhe a mão, que elle apertou affectuosamente.

--Fiz-te esperar muito, filha? Perdôa-me; mas aquelle pateta não soube dizer-me logo que tu...

--Desculpa mandar-te acordar, mas...

--Fizeste bem; senão, dormiria até á noite.

--Vieste hontem muito tarde, Charles--disse Jenny, abaixando-se disfarçadamente para acariciar o _terra-nova_, que se lhe deitára aos pés.

--Pois ouviste-me?

--Ouvi.

--Então acordei-te, Jenny? Não foi por falta de cautela, porém... sempre sou um desastrado!

--Não, não acordaste. Eu não tinha adormecido ainda.

--Não tinhas adormecido! Ás quatro horas! Estiveste doente, Jenny?

--Não, mas...

Carlos olhou para a irmã com uns modos, que procurou tornar severos.

--Querem ver que foi por minha causa?... Então que te tenho eu dito, Jenny? Fico de mal comtigo se tornas a ter essas canceiras por mim, a ponto de...

--Não, não foi por canceira, é que...

--É que tu és uma teimosa e o que merecias...

--Não se trata agora d'isso. Dize-me: vens hoje mais cêdo?

--Hoje! Á terça-feira de entrudo! Ó Jenny! Deixa ao menos passar o carnaval, deixa já agora acabar esta maldita época, e depois... depois verás que hei de ficar muitas noites em casa ao pé de ti e de... Tens-te enfastiado muito aqui só, não tens, pobre pequena?

--Ora, não fallo por mim; mas... é que... isso faz-te doente por certo, Charles. Esses jantares tão longos... Essas noites tão mal dormidas...

--A mim?! A mim nada me faz mal, filha; lá por isso...

--E depois... Olha, Charles, ha devéras tanto tempo já que te não vemos comnosco, á noite... Não é por mim que fallo, repito; mas o pae... bem sabes, antigos habitos... gosta de nos ver reunidos todos... a certas horas. Coitado! Não digo sempre, mas... ás vezes, de quando em quando, se te não custasse...

--Pois sim, Jenny, pois sim. Deixa voltar o verão, que eu prometto... prometto que, muitas vezes até, hei de fazer o que dizes. Mas as noites de inverno! As noites de inverno, não obstante tudo quanto imaginou aquelle bom Thomson nas suas _Estações_, são tão longas para se passarem em casa!

--As de estio... depois... já sei... has de achal-as tão formosas que...

--Não--replicou Carlos, sorrindo;--então depois de eu te prometter havia de... Mas, olha cá, Jenny, tu és muito boa, e já sei que me vaes até ralhar por o que eu vou dizer; mas deves concordar em que de facto é pouco agradavel, para um rapaz da minha idade pelo menos, a maneira por que o pae costuma passar aqui as suas _soirées_. Aquelle eterno _Times_, aquelle _Times_ sem fim aterra-me, Jenny. A _Biblia_ é um livro que respeito e admiro, mas tremo um pouco das paraphrases dos nossos reverendos lettrados; confesso que tremo. O _Tristam Shandy_ do Sterne já o sei de cor; no _Tom Jones_ de Fielding, quando o não tivesse ainda lido, não haveria já capitulo de que não fosse bem informado, á força de o ouvir citar; e, a fallar verdade, ter de passar uma noite a escutar, mais uma vez, os commentarios a um e outro, com que fatalmente nos flagella o inesgotavel enthusiasmo paterno... a fallar verdade!

--Charles!--disse Jenny, em tom reprehensivo.