# Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto

## Part 30

Book page: https://www.cyberlibrary.org/pt/books/uma-familia-ingleza-scenas-da-vida-do-porto-16443/index.md

--Mais aceitavel será o facto á opinião, ainda que... É uma trabalhosa semana a que me destinas! Não recuso porém a tarefa; veremos o que é possivel fazer. Mas o meu egoismo não me consente ver-te assim desoccupada, emquanto eu trabalho.

--Então em que tenho a occupar-me?

--Na justificação de teu irmão. O meu assentimento aos teus ultimos projectos, Jenny, fica dependente d'essa condição. Emquanto não me convenceres de que foi nobre o motivo que levou Carlos a vender aquelle relogio, não esperes de mim...

--Mas Charles insiste em occultar-m'o.

--Pois fosse a empreza facil, que não a confiaria de ti. Não julgues isto capricho da minha parte. Tu bem deves comprehender a importancia d'essa justificação. A fé não basta; é mister provas. Os teus planos baseiam-se na excessiva confiança em teu irmão; é fraca base para a felicidade da pessoa, de quem advogas a causa.

--Procurarei obter provas.

--Então dentro de oito dias.

--Dentro de oito dias.

E o pae e a filha separaram-se do melhor accôrdo.

Os preconceitos de Mr. Richard não haviam absolutamente serenado; mas Jenny tinha conseguido, por assim dizer, destacal-os do intimo, em que elles viviam dominando, e apresental-os á vista do pae que, envergonhando-se d'elles, os renegou.

Mr. Richard estimaria ainda encontrar outra solução á crise presente; mas por causa alguma consentiria já em se mostrar sob o imperio dos seus preconceitos clandestinos.

XXXVII

COMO SE EDUCA A OPINIÃO PUBLICA

No dia seguinte Manoel Quentino saíu cêdo para o escriptorio.

Andou toda a manhã pensativo o guarda-livros.

Quanto mais reflectia na scena da vespera e em outras antecedentes, tanto mais confirmada lhe parecia a vaga desconfiança de que não fora inteiramente verdadeira a explicação de Mr. Richard.

Mas não lhe queria mal por ella o velho guarda-livros; antes inteiramente lh'a agradecia. Assustava-o porém o estado do coração de Cecilia. Seria ainda tempo de arrancar de lá aquella affeição tão louca, que por imprevidencia deixára crescer.

Nisto pensava ainda Manoel Quentino, quando entrou no escriptorio um dos mais sisudos e abastados negociantes da Praça, e muito affavelmente o cumprimentou, dirigindo-lhe as mais lisongeiras expressões sobre os seus relevantes serviços á casa Whitestone e applaudindo a sagacidade com que antevira a suspensão de pagamentos de uma poderosa casa de Londres e evitára que a firma Whitestone soffresse na quebra. Manoel Quentino ficou surprendido com o inesperado cumprimento. Elle já nem pensava n'aquillo, nem imaginava que Mr. Richard, unico que o podia contar, o conservasse tão presente na memoria.

O grande conceito, em que tinha o negociante que lhe fallára, não deixava porém ser-lhe indifferente o louvor recebido d'elle.

A surpreza do velho augmentou, quando a este primeiro se succedeu outro e quando todos os que n'aquella manhã entravam no escriptorio pareciam apostados a reproduzir, com pequenas variantes, phrases iguaes de louvor.

A consideração que Mr. Whitestone gosava na Praça fizera com que por toda ella se espalhasse com rapidez a fama dos serviços prestados por Manoel Quentino, a quem o honrado inglez, fiel ás promessas que fizera a Jenny, exaltou com uma vehemencia de phrase e de expressão, pouco habitual á sua fleugma britannica, e que por isso mesmo leve dobrado effeito.

Como sempre acontece, á medida que a noticia se transmittia, ampliavam-se os serviços de Manoel Quentino. A opinião publica, que até então nem attentára n'elle, suppondo-o um ente inteiramente nullo, soffreu um d'estes reviramentos subitos, de que por certo os leitores hão de conhecer exemplos.

Em um grupo de negociantes, estacionados no passeio da rua dos Inglezes, discutiu-se toda a manhã Manoel Quentino. Um insistia em dar a entender aos collegas que havia muito adivinhára o homem; outro proclamava-o já o primeiro guarda-livros do Porto; outro fazia valer o seu profundo conhecimento da lingua ingleza; outro a sua perfeição calligraphica; outro a sua actividade, o seu desembaraço em operações e escripta commerciaes, e a sua longa pratica, etc., etc.

--Disse-me ha pouco Mr. Whitestone--acrescentou a isto tudo um barão--que o homem tem já o seu peculio bem bonito.

Mr. Whitestone não se esquecera d'esta parte do plano de Jenny.

--Que duvida!--disseram alguns.

--Sabem o que alli está?--fez notar um brazileiro--É um bom director de banco.

--E olhe que é verdade.

Esta opinião prova a que ponto subira, em poucas horas, o credito de Manoel Quentino. Julgal-o apto para director de um banco era o mais alto grau a que podia eleval-o o conceito publico. Tal foi o effeito do artificio de Jenny.

Mr. Richard via com prazer o bom exito do plano. O amor proprio de artista estava a suffocar o resto de preconceitos, que ainda sobreviviam n'elle. Por prudencia chamou de parte Mr. Brains, que viu na Praça, e deu-lhe a entender que convinha não fallar na scena do jantar da vespera.

--Porque, Mr. Brains--disse elle--bem vê que aquelle pateta de Carlos portou-se de maneira, que será pouco airoso para um inglez se se vier a saber...

Feita esta reflexão, o orgulho nacional terminava a obra, encadeiando a lingua de Mr. Brains; a de Morlays tambem a mesma causa foi, além da misanthropica incommunicabilidade, sufficiente para a refreiar.

N'esta mesma manhã, Cecilia, achando-se só em casa, julgou ouvir uma carruagem parar-lhe á porta.

Indo á janella, ficou agradavelmente surprendida vendo Jenny, que descia de um elegante carro descoberto, entrar para o portal.

Cecilia correu a recebel-a nos braços.

--Este sol não me deixou desde pela manhã ficar quieta, Cecilia--disse-lhe Jenny.--Appeteceu-me tomar ar e vim, para me fazeres companhia.

--Eu?

--Sim, tu; e desde já te declaro que não me sinto de animo para aceitar desculpas. Veste-te e vamos.

--Mas, Jenny... repare...

--Reparo que são dez horas e que não tenho paciencia para esperar mais. Queres que te leve á força?

--Mas estou só...

--Emquanto te vestes alguém virá de certo, e se não vier... Emfim estou resolvida a cortar por todas as objecções, ainda que seja de uma maneira absurda. Vê lá se pódes luctar commigo.

Cecilia sorriu a este capricho de Jenny; era tão pouco sujeita a elles, que a filha de Manoel Quentino suspeitou que alguma ideia occulta andava n'isto.

Retirou-se porém para obedecer-lhe.

Jenny ficou só na sala.

Não esteve muito tempo sem que ouvisse passos na escada.

Era Antonia que voltava de fóra.

Antonia não suspeitava a presença de Jenny em casa. O jockey, para evitar o resfriamento da horsa, conduzira o carro até o fim da rua, de maneira que Antonia, ao chegar, nada viu á porta, que lhe denunciasse a visita.

Achando a sala aberta, suppôz que era Cecilia que estava alli e ainda do corredor principiou a clamar:

--Bem se diz: não ha nada que o tempo não descubra. Agora mesmo acabo de saber aonde mora a tal sujeita, com quem o snr. Carlos saiu de carruagem aquella manhã. Não que nem de proposito! Ia eu...

Aqui interrompeu-se de subito, porque reconheceu que estava fallando a Jenny, em vez de Cecilia.

--Boa te vae--exclamou Antonia, mortificada. Mas já tinha dito bastante para que Jenny não a deixasse retirar.

--Espere, acabe. Aonde mora essa senhora? Diga.

Antonia estava visivelmente embaraçada.

O typo inglez de Jenny mostrou-lhe immediatamente que era na presença da propria irmã de Carlos, que ella tinha imprudentemente avançado aquellas palavras.

Jenny não lhe deu tempo de dominar esta primeira impressão e de tomar um partido.

--Não se constranja. Falle. Está diante da irmã de Carlos. Sei o facto a que se refere. Eu tambem tenho o maior interesse em conhecer a pessoa de quem fallava. Por isso acabe o que ia a dizer...

--Ora nem vale a pena. A minha ideia não era....

Jenny resolvera não abandonar aquelle ensejo de resolver o mysterio, que se promptificára a elucidar em oito dias. Um secreto presentimento lhe assegurava que d'esta pesquiza resultaria a justificação do irmão.

--Vamos--insistiu ella, dando ás palavras o tom de familiaridade propria a inspirar confiança.--Dizia que tinha descoberto a morada d'aquella senhora...

--Eu não disse...

--Não negue. Ouça-me. Eu sei tudo o que se tem passado entre meu irmão e Cecilia.

--Sabe?!

O que Jenny não sabia era quaes as ideias da snr.ª Antonia sobre este assumpto, e por isso continuou com a maior precaução:

--Sei, e bem vê que, não só como irmã, mas como amiga, devo... preciso de...

--Mas quaes são as tenções da senhora?

--Concorrer para evitar o infortunio de ambos--respondeu Jenny, ambiguamente.

Antonia interpretou a seu modo a resposta.

--Pois bem; eu sei que a senhora tem muito juizo, e por isso digo-lhe, esta manhã...

N'isto ouviu-se Cecilia fechar a porta do quarto.

--Silencio;--disse Jenny--Cecilia vem ahi. Vamos sair juntas. Não lhe diga nada, emquanto não fallar commigo. É para bem d'ella. Ámanhã pela manhã procure-me. Sabe onde moro?

--Sei, sim, minha senhora.

--Então não falte. Vocemecê é uma mulher de juizo, e por isso quero fallar-lhe. E não diga a Cecilia!

--Esteja descansada--disse Antonia, a quem as ultimas palavras de Jenny tinham em extremo lisongeado e ganho de coração para a causa d'ella.

Cecilia chegou á sala.

Dentro em pouco, ambas aquellas duas mulheres de belleza incontestavel, ainda que de tão diversa indole, partiam no elegante carro, conversando e rindo, com a despreoccupação da juventude.

Jenny tinha com anticipacão dado as ordens para o passeio.

Seguiram pela estrada da Foz. Passaram quasi toda a manhã á beira-mar. Jenny parecia outra. A sua seriedade ingleza cedera o logar a uma vivacidade de conversação e a um contentamento, quasi de creança.

Tudo lhe era motivo para alegria, que pouco a pouco se communicou a Cecilia tambem.

Ha poucas cousas tão fatalmente contagiosas como a alegria das pessoas sérias.

Foi uma deliciosa manhã a das duas raparigas. Cecilia estava muito longe de prever em que terminaria aquillo.

Á uma hora voltavam para o carro e ás duas entrava elle, com grande surpreza e sobresalto de Cecilia, pela rua dos Inglezes, então em plena actividade commercial.

A presença das duas amigas causou sensação na Praça. Todos conheciam Jenny; raros, se alguns, podiam dizer quem fosse Cecilia.

Um inglez veio cumprimentar Jenny. Ella aproveitou a occasião para lhe apresentar Cecilia. Dentro em pouco corria voz na Praça de que era a filha de Manoel Quentino a senhora que acompanhava a ingleza.

Mr. Whitestone veio receber a filha ao portal. Ao ver Cecilia, trocou um sorriso de intelligencia com Jenny. Com toda a galanteria as ajudou a descer do carro.

Foi grande a surpresa de Manoel Quentino, vendo entrar a filha no escriptorio.

Jenny applaudiu o espanto do velho, rindo com vontade. Mr. Richard tambem não ficou sério.

Não menos surprendido foi Carlos com o encontro, que estava bem longe de esperar.

Entre Cecilia, Carlos e Manoel Quentino conservou-se invencivel constrangimento.

Perto das tres horas, os grupos que estavam ainda na Praça, viram sair do portal do escriptorio a familia Whitestone, Cecilia e Manoel Quentino, e todos tomarem logar no carro. Momentos depois este, guiado por Carlos, atravessava por entre esses grupos, e seguia toda a extensão da rua, deixando atraz de si uma esteira de commentarios.

Manoel Quentino ia enleiado; Cecilia, pensativa; Jenny, contente.

XXXVIII

JUSTIFICAÇÃO DE CARLOS

No dia seguinte pela manhã, era a snr.ª Antonia introduzida com muita deferencia no quarto de Jenny. A criada de Manoel Quentino estava penhorada com tantas attenções, e era já, de corpo e alma, creatura da inglezinha, como ella chamava a Jenny Whitestone.

Jenny fel-a sentar junto de si e pediu-lhe que lhe dissesse quanto sabia da tal senhora, a quem alludira na vespera.

Antonia com muitas digressões, a que era inclinada, contou como n'aquella manhã, passando por a rua de Santa Catharina, vira estar o snr. Paulo, segundo caixeiro do escriptorio de Mr. Richard, fallando, da rua para a janella, com uma senhora, que lhe sorria com affecto. Antonia, obedecendo a natural curiosidade, affirmou-se na tal senhora e reconheceu-a a mesma que procurára Carlos e saíra com elle n'aquella manhã, em que Antonia viera colher informações da snr.ª Josefinha da Agua-benta.

--Era ella sem tirar nem pôr. Emquanto a mim, alguma comediante do theatro, porque dizem... mas perdôe-me a senhora o eu estar com isto.

Jenny fingiu não attender á opinião de Antonia e perguntou:

--E diz então que mora?

--Na rua de Santa Catharina.

E entrou na minuciosa descripção da casa, com todas as particularidades, que a podessem fazer conhecida.

Jenny já não tinha nada mais a saber de Antonia.

Ao recompensar generosamente a boa vontade da informação, disse, como para acalmar os escrupulos ficticios de Antonia:

--Creia que lhe fico ainda obrigada por o que me contou. E agora tenho a pedir-lhe outra cousa.

--Diga, minha senhora, diga.

--A snr.ª Antonia não ha de dizer que veio aqui.

--Ora essa!

--Estou certa de que não diz; além d'isso, falle verdade, quer muito mal a meu irmão?

--Eu, minha senhora?--disse Antonia, visivelmente enleiada com a interpellação.

--É provável que sim. Quasi todos são injustos para Carlos, antes de o conhecerem. Depois, vendo como elle é bom, generoso e delicado, acabam por adoral-o.

A snr.ª Antonia ficou abalada nos seus juizos a respeito dos dotes criticos da cunhada da sobrinha do homem da sua comadre.

--Ora diga--continuou Jenny--não são prevenções sómente as que tem contra meu irmão?

--Sim... eu... quero dizer... a fallar a verdade...

--Pois bem; só lhe peço que, durante alguns dias, não pense bem nem mal de Carlos, até... até ter noticias minhas.

--Ó minha senhora, pois eu pensava lá...

--Vá, vá, snr.ª Antonia, para que Cecilia não desconfie. Não lhe diga cousa alguma, nem falle na tal senhora...

--Esteja descansada.

Logo que Antonia saiu, Jenny deu ordem para prepararem o carro.

E quando lhe annunciaram que esta ordem estava cumprida, desceu ao portal e entrando para o carro, disse ao criado, que a ajudou a subir:

--Ao alto de Santa Catharina.

Em pouco tempo, achou-se transportada lá. Jenny, pelos signaes que recebera de Antonia, e conservava de memoria, pôde reconhecer a casa da tal senhora e mandou parar defronte d'ella.

Só então hesitou pela primeira vez n'esta serie de actos, a que obedecera como subjugada por quasi instinctiva violencia.

--Em casa de quem vou eu entrar?--pensou ella---Que mulher será esta? Carlos afiançou-me... porém...

Á porta da casa contigua estava um criado, olhando com curiosidade para o carro era que viera Jenny.

Jenny mandou perguntar a este criado informações a respeito da senhora que vinha procurar.

Obteve a resposta de que morava na tal casa uma senhora viuva, na companhia do filho.

Jenny não hesitou mais; saltou para o passeio e tocou a campainha.

Passados minutos, era recebida em uma modesta, mas asseiada sala, por uma senhora ainda bella, apesar de haver já passado o verdor da juventude.

Jenny foi direita ao fim da visita.

--Minha senhora--disse ella--eu chamo-me Jenny Whitestone.

A senhora estremeceu de surpreza. Jenny proseguiu com uma concisão, verdadeiramente ingleza:

--Venho de proposito procural-a, e não sei ainda a quem tenho a honra de fallar. O fim da minha visita é este: Meu irmão, Carlos Whitestone, saíu ha dias de casa na companhia de uma senhora; entrou em uma loja de ourives, e vendeu um relogio, que, pouco tempo antes, recebera de meu pae.--Este facto foi sabido; meu pae experimentou com isto grande desgosto, e esta acção de Carlos tem sido interpretada de maneira desfavoravel para elle e trazido comsigo dissensões domesticas, que trabalho por aplacar. Meu irmão afiança não ter sido indigno o motivo do sacrificio que fez d'aquella dadiva do affecto paterno; insiste porém em não o explicar. Eu creio na palavra de Carlos, porque o conheço; mas nem todos depositam n'elle a mesma confiança. Soube por acaso que era v. exc.ª a senhora, que n'aquella manhã acompanhava meu irmão. Poderei obter de v. exc.ª provas para a justificação de Carlos?

Emquanto Jenny fallava, a senhora mostrava-se cada vez mais agitada, como se diversas sensações se combatessem n'ella. Ao ouvir-lhe esta pergunta, respondeu com as lagrimas nos olhos:

--Póde, sim, minha senhora; mas... depois de v. exc.ª as ver, dirá se me será possivel deixar de pedir-lhe que não use d'ellas.

--Como?--perguntou Jenny, admirada.

Em vez de responder, a senhora levantou-se e aproximou-se de uma secretária, que abriu. Voltou dentro em pouco, trazendo alguns papeis na mão.

--Eu sou a mãe de Paulo, o caixeiro do escriptorio do snr. Whitestone.

--Ah!

--Queira ler esta carta, minha senhora.

Era uma carta de Paulo á mãe.

Jenny leu; a meia leitura, saltavam-lhe já as lagrimas dos olhos e comprehendia tudo.

N'esta carta Paulo confessava-se criminoso e dizia-se perdido para sempre. O muito amor, que tinha á mãe, tornára-lhe insupportavel a ideia de que a menor privação fizesse sentir á pobre senhora as amarguras de unia existencia, para cujo amparo só elle ficára, depois da morte de seu pae.--Este sentimento piedoso perdeu-o. Não bastando para tratal-a, como desejava, os ordenados do escriptorio, contrahiu dividas primeiro; para as saldar, jogou nas loterias; acresceu o mal; e mais tarde, em um momento de desespêro, durante o mez da doença de Manoel Quentino, subtrahiu uma avultada somma da caixa, fechando os olhos ás consequencias.--A confiança de Carlos era facil de illudir; mas na vespera do regresso de Manoel Quentino ao escriptorio, Paulo previu que o desconfiado guarda-livros cêdo descobriria tudo. Após o susto, veio o remorso, e após o remorso, a resolução desesperada. Para evitar o suicidio, resolveu fugir da cidade. N'esta carta despedia-se portanto da mãe, e recommendava-lhe que pedisse protecção a Mr. Richard e sobretudo a Carlos, em cujo caracter generoso o pobre rapaz confiava cegamente.

--Ó meu bom Charles!--disse Jennv, ao acabar de ler--eu bem sentia que havia de ser digno de ti o motivo, que te levou áquillo. Comprehendo tudo, meu irmão...

--Seu irmão é uma alma sublime, a quem Deus pagará em venturas as lagrimas de gratidão, que elle me tem feito derramar.

Jenny apertou commovida as mãos da senhora, que chorava.

Contou a mãe de Paulo os promenores das scenas, que se passaram n'aquella manhã: como, ao acordar, dera pela ausencia do filho e encontrára esta carta a explical-a; o seu desespêro, a sua irresolucão; a ignorancia, em que ficou sobre o destino de Paulo.--Disse depois como o bilhete de um amigo desconhecido, indicando a Paulo a hora a que devia estar a bordo do navio, lhe dera indicios.

Depois contou toda a entrevista com Carlos, a quem ella recorrera desesperada. A prompta disposição d'este para valer-lhe, como, obtida com a venda do relogio a somma do alcance de Paulo, Carlos a acompanhára á Foz, até bordo do navio, e lhe restituira o filho, que ella já suppunha perdido.

--Horas depois--concluiu ella--recebia eu em casa este bilhete de Paulo.

Jenny leu-o. Dizia apenas:

«Tudo está salvo, minha boa mãe. A generosidade do snr. Carlos livrou-me da deshonra. Resta-me o dever da regeneração, que sinto agora mais vivo do que nunca.»

--E agora diga, minha senhora, devo accusar meu proprio filho? Não era por mim que elle se perdia? E devo pagar-lhe assim? É de justiça, bem sei; mas... perdôe-me se me falta a coragem. Não desculpará esta fraqueza a uma mãe?

Jenny abraçou-a com ternura.

--Tranquillise-se, minha senhora. Não é a esse coração que eu pedirei tal sacrificio. Deus me inspirará algum meio de valer a todos. Sinto-me agora com força para tudo.

--Pobre Paulo! O muito amor que me tem foi que o levou áquillo. Ainda hoje sente remorsos tão vivos!... Elle bem faz por se alegrar, mas... conheço que lhe peza esta pena dentro da alma. «Se eu fosse só--disse-me elle ha dias--se a minha desgraça não podesse cair sobre a cabeça de mais ninguem, eu já teria confessado tudo! Envergonho-me de mim mesmo, quando penso no meu silencio.» E eu, senhora, que abençoaria a hora, em que espontaneamente elle o confessasse, não tenho coragem para dizer-lhe: Falla! Parece-me quasi uma ingratidão... Era como se eu propria, sabendo que elle se deshonrára por mim, o apontasse deshonrado aos olhos dos outros.

Jenny consolou a pobre mãe e prometteu-lhe não revelar a alguem o que d'ella acabára de saber.

Saíu d'alli com a alegria no coração a generosa irmã de Carlos.

De caminho ia pensando na maneira de proceder para patentear ao pae a innocencia de Carlos, sem trahir a confiança, que a mãe de Paulo depositára n'ella.

De subito acudiu-lhe uma ideia, que a fez sorrir. E, em vez de voltar para casa, como tencionava, deu ordem para que a conduzissem ao escriptorio da rua dos Inglezes.

Mr. Richard, que passeiava na Praça, vendo chegar a filha, aproximou-se d'ella sorrindo.

--Que madrugada é esta, Jenny?

--Admira-se? pois ha muito que ando por fóra.

--Então é dia de feira?

--Não, senhor; mas tenho hoje de lhe dar contas de um trabalho de que me encarreguei.

--Qual?

--Um problema que prometti resolver em oito dias.

--Ah! e então?...

--E então, nem tanto tempo me foi preciso; já possuo a solução; agora só me resta uma difficuldade.

--Qual é?

--Achar a maneira apropriada de lh'a fazer saber.

--Isso não custa a imaginar.

--Não é muito facil, porque prometti que não serei eu que a diga.

--E então quem ha de ser?

--É o que venho procurar.

--Aqui?

--Lá acima, ao escriptorio, onde me deixará subir e demorar algum tempo.

--Como quizeres. E póde saber-se se a solução é satisfactoria?

--A melhor possivel.

--Duvido.

--Verá.

--Verei.

--Duas palavras mais; os seus caixeiros sabem todos inglez?

--Manoel Quentino...

--Esse sei que sim; os outros?

--Paulo não o falla, mas entende-o; o outro nem o entende, nem o falla.

--Bem. Outra cousa. Ha de fazer-me uma promessa.

--Dize.

--Quando souber a solução do problema, se reconhecer que foi severo de mais para com seu filho, será, em compensação, indulgente para com o verdadeiro culpado.

--Pois ha culpados?

--Promette?

--Mas...

--Prometterei, porém...

--Até logo. Ou eu me engano muito, ou, d'aqui a meia hora, póde vir saber o resultado.

--De ti?

--De mim não. Até logo.

E desappareceu, subindo com ligeireza as escadas carunchentas do escriptorio.

Ao entrar alli dentro, Jenny revestiu-se de um d'aquelles ares graves e pensativos, que tão bem lhe iam á physionomia sympathica.

Estavam na sala Manoel Quentino, Paulo e o outro caixeiro, e todos se levantaram, ao verem entrar a joven ingleza.

--Por favor, deixem-se estar como estão--disse ella, sentando-se ao pé de Manoel Quentino.--Quero descansar algum tempo aqui; mas não interrompam os trabalhos.

--Estava bem longe de a esperar hoje por estes sitios, miss Jenny--disse Manoel Quentino, continuando a trabalhar.

--Precisei de fallar com o pae... Mas que tem, Manoel Quentino? Parece-me triste; Cecilia como está?

--Graças a Deus, menina, Cecilia... não está mal.

--Então não esteja triste. Para tristezas basto eu.

--Então miss Jenny está triste?

--E não pouco, Manoel Quentino.

Manoel Quentino sorriu, como quem duvidava.

--De que se ri? Julga-me incapaz de sentir a tristeza?

--Não, mas não vejo o que possa causar-lh'a.

--Então ouça e diga se o motivo não é para estes e peiores effeitos.

Jenny, passando de repente a fallar inglez, como se desejasse ser sómente comprehendida por Manoel Quentino, a quem se dirigia em tom confidencial, proseguiu:

--Charles tem excellente coração, como sabe; mas uma cabeça!... Sem o querer, é o motivo de continuados desgostos em casa. Ahi está que se dá agora com elle um facto, bem singular, que é a causa da minha tristeza.

E Jenny principiou a contar a Manoel Quentino a historia do relogio, o desgosto de Mr. Richard, a insistencia de Carlos em occultar as razões que o moveram áquella venda, razões que elle se limitava a affirmar não serem vis.

