Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto

Part 29

Chapter 29 3,842 words Public domain Markdown

Que lhe competia fazer? Como devia sair da posição em que se achava? De que maneira compensar com uma resolução nobre, digna dos sentimentos que percebia no coração, a insuperavel timidez, que durante o jantar se apoderára d'elle.

N'isto pensava Carlos, quando o criado lhe entrou no quarto, annunciando que Mr. Richard Whitestone o mandára chamar ao gabinete.

Carlos esperava esta entrevista, que, depois do succedido, podia dizer-se inevitavel; elle proprio a procuraria talvez espontaneamente; mas, apesar d'isso, não se sentia preparado para ella; nem outra cousa lhe succederia, talvez, quando mais espaçada fosse.

Causou-lhe pois o effeito de imprevista.

Vacillavam-lhe os passos ao dirigir-se ao gabinete do pae, como se fora um réo, caminhando para o tribunal, em que vae ser julgado.

Quando Carlos entrou, Mr. Richard estava em pé, encostado ao marmore do fogão. Tinha a expressão tão severa, quanto era possivel á sua physionomia ingleza, e conservava na mão a carta de Carlos, como quem acabava de a ler n'aquelle momento.

Carlos parou no meio da sala, esperando que o pae lhe dirigisse a palavra.

Mr. Whitestone estendeu para o filho a carta aberta, perguntando com modo rapido e incisivo:

--Que ha de verdade n'isto que se diz aqui?

--Tudo--respondeu Carlos, procurando dar á voz a firmeza, que não sentia.

Mr. Whitestone enrugou a fronte ao ouvir a resposta; fez um leve movimento de hombros e de labios, e, passando a carta para o filho, apenas lhe disse:

--Ahi a tem. Rasgue-a, queime-a. Deve fazel-o... porque destruirá assim a prova de uma nova... infamia.

As faces de Carlos cobriram-se de intenso rubor.

--Meu pae!--balbuciou elle.

--Repito-o; de uma infamia--proseguiu Mr. Richard com redobrada acrimonia.--Não sou eu o primeiro que lh'o diz; e se já se calou vergonhosamente diante da primeira accusação, não é muito que escute a segunda com a mesma... humildade.

E acabando de dizer isto, pôz-se a passeiar no quarto, como costumava quando assim exaltado, e continuou:

--É falso orgulho esse que... todo se alvoroça ao ouvir uma palavra e com tanta facilidade se conforma, ao que é bem peior, á feia acção que ella exprime. É orgulho de theatro... Não comprehendo devéras.

Carlos respondeu:

--Eu posso estranhar que a accusação me venha de quem me devia conhecer melhor, e de quem não está dominado, como o primeiro que me accusou, por um excesso de paixão violenta, mas desculpavel. Estranho e lamento que, no curto periodo de alguns dias, tenha já ouvido duas vezes de meu pae a accusação de... infame.

Mr. Richard, que, emquanto o filho fallára, ia augmentando a velocidade dos passos, com que media a sala, parou repentinamente n'este ponto e fitou Carlos com um olhar cheio de fogo.

--Estranha, por quê? Faz favor de me dizer? Não me apontará algum nome mais exacto para dar ás suas acções?... Devéras que não sei... Julgo que não quererá arguir-me de demasiado severo?... Repito o que já lhe disse no outro dia. Tenho sido em excesso benevolente comsigo, tenho fechado de proposito os olhos a muitos desvarios seus, desculpando-lh'os com o verdor dos annos. Mas acções ha, que nem a creanças se desculpam... E, sempre que nos actos de um homem existe o caracter de... baixeza...

Carlos não pôde suspender um movimento instinctivo de reacção, ao ouvir esta palavra.

Mr. Richard, percebendo-o, repetiu com mais força, e olhando fixamente para o filho:

--De baixeza... e de villania!... Em taes casos, é criminosa a indulgencia; e nunca é demais toda a severidade de opinião contra esse homem. Escusa de protestar com esses movimentos e gestos. Mais severamente do que eu, o accusava ha pouco a sua propria consciencia, obrigando-o a calar-se e a abaixar a cabeça diante das arguições d'aquelle homem... que... que... que tentára deshonrar.

--Eu já lhe disse, senhor--acudiu Carlos, com vehemencia desusada para com o pae--que tudo quanto escrevi n'essa carta é verdadeiro. Seria imprudente, fui de certo; d'isso me accuso eu; mas diz-me a consciencia que estou sendo severamente julgado e por isso...

--Era bom que a sua consciencia tivesse acordado mais cêdo. Escusava de ter deixado que da bôca de um estranho, e diante de testimunhas, caisse sobre o nome de seu pae e de sua irmã uma accusação grave e que nós mentissemos para o salvar. Esses escrupulos veem bastante tarde. Deve confessar.

Carlos curvou a cabeça e ficou silencioso.

Mr. Richard ficou tambem algum tempo calado, depois proseguiu:

--É verdadeiro tudo quanto diz n'essa carta! Lembre-se de que ainda ha poucos dias marcava n'esta mesma casa, na casa em que habita sua irmã, entrevistas a...

Carlos não o deixou continuar:

--Peco-lhe que não renove essa insinuação, senhor; já dei a minha palavra em como ella era injusta. Não posso offerecer prova mais convincente, mas custa-me devéras ver que me recusam esta. No dia em que succedeu o facto, a que allude, n'esse dia em que pela primeira vez ouvi o epitheto de infame da bôca de meu proprio pae, já eu me sentia bem outro do que tinha sido até alli. Creia-me, senhor; não é uma vã inclinação, um ephemero capricho de rapaz, o que sinto por Cecilia. A unica importante mudança de caracter, que tenho experimentado na vida, operou-a ella sem uma palavra, sem uma tenção formada, sem denunciar um desejo. Adivinhei-a talvez, mas não que ella se me revelasse nunca. Cecilia só de per si conseguiu, e sera esforço, o que nem as reprehensões de meu pae, nem os conselhos e os pedidos de Jenny haviam conseguido nunca, por isso creio na sinceridade dos meus pensamentos para com ella, por isso...

Mr. Richard escutava o filho com manifesta impaciencia; parecia que lhe seria quasi tão desagradavel o ver Carlos conseguir justificar-se, da maneira por que o estava fazendo, como persistir sob a accusacão de menos leal, que lhe tinha sido feita.

O amor proprio de Mr. Richard--porque emfim é forçoso confessar que Mr. Richard tinha amor proprio tambem--não se sentia muito lisongeado com esta sincera paixão de Carlos por Cecilia, a filha do seu guarda-livros.

Um enxame de preconceitos se alvoroçava todo a esta ideia; preconceitos que a razão clara e forte de Mr. Richard se pejaria de reconhecer como legitimos, mas aos quaes, sem o saber, se sujeitava.

Eram de diversas ordens.

Preconceitos de inglez, primeiro que tudo; nunca é com absoluta indifferença que o filho da Gran-Bretanha vê uma mulher de outro paiz roubar-lhe o coração de algum dos seus parentes. Ha em toda a alma ingleza a profunda convicção mais ou menos declarada de uma superioridade de raça, que a não deixa encarar desapaixonada alliancas d'estas.

Depois sobrevinham os preconceitos de commerciante, o qual, por mais consideração e estima que tenha por um guarda-livros, não póde de todo em todo olhal-o como de natureza igual á sua, e não se lisongeia demasiado com obter nora ou genro em casa d'elle.

Ainda o preoccupavam preconceitos de capitalista; por mais philosophicas doutrinas que estes expendam sobre a vaidade das riquezas, na pratica da vida não abstrahem d'esse elemento quando combinam calculos para resolver o problema da felicidade. Finalmente até preconceitos de pae lhe offuscavam a luz da inlelligencia, pois não obstante a severidade das arguições que lhe ouvimos, é certo que poucas mulheres no mundo lhe pareciam dignas do seu Carlos. Tudo isto o fazia pois escutar de má vontade a declaração do filho, a quem interrompeu precipitadamente.

--Está bom. Eu não preciso saber a historia das transformações do seu caracter, o qual até me parece ser demasiadamente sujeito a ellas. E se é essa a garantia unica que tem da sinceridade dos seus sentimentos, ha de concordar que é bem fraca. Mas seja como for; depois do succedido, parece-me escusado indicar-lhe o melhor partido que tem a abraçar.

Carlos elevou para o pae o olhar interrogador.

Mr. Richard guardou, por instantes, silencio; depois acrescentou:

--Dentro em oito dias sae um vapor para Londres...

--Mas...

Mr. Richard fingiu não ouvir a interrupção, e continuou:

--Ha muito que se faz necessaria uma entrevista pessoal com Mr. Woodfall Hope, porque...

--Não sei se me será possivel obedecer-lhe, senhor.

Mr. Whitestpne voltou-se com vivacidade para o filho, e, visivelmente irritado, disse:

--Espero que não commetta a baixeza de querer demorar-se aqui, depois do que se passou. Não me faça envergonhar de o ter por filho.

Carlos desacostumára-se a arrostar por muito tempo com a severidade do pae. Sentia-se incapaz de reagir diante d'aquelle olhar. Baixou a cabeça e calou-se.

Mr. Richard acrescentou instantes depois, em voz ainda severa, porém já menos rispida:

--Póde retirar-se e faça por ser homem de bem. Ha erros que deixam vestigios, que nunca se apagam mais. Respeite as familias, porque o contrario é deshonrar a sua. Se se lembrasse de que tinha uma irmã...

N'este ponto ouviu-se rumor á porta do quarto.

--Que temos?--perguntou Mr. Richard, impaciente.

Era um criado que vinha do mando de Jenny perguntar se Mr. Richard a podia receber.

Mr. Richard fez um signal affirmativo, e voltando-se para Carlos:

--Saia. Sua irmã precisa fallar-me.

Carlos curvou a cabeça e saiu sem dizer palavra. Era ainda o réo que deixava o juiz, não o filho que se despedia do pae.

Carlos encontrou-se com a irmã na sala contigua. Ella estendeu-lhe a mão, dizendo:

--Vês, Charles, vês o resultado das tuas loucuras?

--Loucuras, Jenny! Pois ainda lhes chamas assim?

--Principio a ter vontade de lhe dar outro nome, principio; e é por isso que venho aqui.

--Que vens fazer?

--Advogar a causa de uma má cabeça, em attenção a um pobre coração, que não tem culpa nenhuma em andar unido áquella estouvada.

--Ó Jenny!--exclamou Carlos, tomando, cheio de confiança, as mãos da irmã.

--Então! Deixa-me, que o pae espera-me.

E separando-se do irmão, disse a rir:

--Que difficil papel me fazem representar em toda esta historia!

XXXVI

A DEFEZA DA IRMÃ

Jenny abriu vagarosamente a porta do gabinete de Mr. Richard.

Este andava ainda de um para o outro lado, a passos largos, com a cabeça baixa e as mãos atraz das costas.

Ao ouvir abrir a porta, parou, aguardando quem chegava.

--És tu, Jenny?--disse, ao ver o rosto da filha, e usando de uma affabilidade, que formava completo contraste com a aspereza com que se dirigira a Carlos.

Jenny aproximou-se do pae e, apoderando-se-lhe da mão, beijou-a com affecto.

--Que quer dizer isso, Jenny?--disse Mr. Richard, procurando retiral-a.

--Deixe-me agradecer-lhe, senhor, uma acção generosa, nobre, digna de si, e que me fez sentir, mais do que nunca, o orgulho de ser sua filha.

--Ora essa, Jenny. E foi para isso que vieste?--perguntou Mr. Richard, sorrindo e já sem o menor vestigio de rugas na fronte, momentos antes contrahida.

--E para mais alguma cousa--respondeu Jenny, com a respeitosa familiaridade de filha, a quem diz a consciencia que nada lhe será recusado.

--Então falla.

--Sabe tudo, não é verdade?

--Sei; infelizmente sei.

--E que tenciona fazer? E perdôe-me o querer assim penetrar as suas resoluções; mas tantas vezes voluntariamente m'as confia, que me animo...

--Fazes bem, Jenny, fazes bem--atalhou Mr. Richard, affectuosamente--Eu não me esqueço de que és uma boa conselheira.

--Bem; então d'esta vez?...

--Já reflecti; e tomei algumas providencias. Carlos partirá para Londres no vapor que...

Jenny moveu a cabeça, em signal de desapprovação.

Mr. Whitestone, percebendo o gesto da filha, olhou para ella em silencio alguns momentos.

--Parece que não approvas, Jenny.

Jenny calou-se.

--Responde, falla. Com toda a franqueza dize-me o que pensas d'esta medida.

--Pois bem; direi. Não era isso que eu esperava de meu pae.

--Então?--perguntou Mr. Richard, com levissimo tom de despeito.

--O seu proceder de ha pouco deixou-me esperar outra resolução mais... mais... mais acertada--concluiu, depois de modesta hesitação e corrigindo a força da phrase com a brandura da expressão.

--Que podia eu fazer?

Jenny, em vez de responder directamente, continuou:

--Quer obrigar a partir Charles, quando elle levaria comsigo, no coração, alguma cousa que o não deixaria ser feliz no desterro--porque é um desterro a que o vae condemnar; quer obrigal-o a partir, quando, atraz de si, aqui, deixaria alguem, que sentiria essa ausencia como uma condemnação cruel...

Mr. Richard olhou admirado para a filha, ao ouvil-a fallar assim; depois, com ar mais grave do que até ahi, respondeu, parando defronte d'ella:

--Não, Jenny; quero obrigar a partir Charles para acabar a tempo com um capricho, que podia vir a fazer a infelicidade d'elle e...--depois de hesitar por algum tempo, o velho inglez concluiu:--e d'ella, d'esse alguem de quem tu fallas, supponho eu. Não vês que é uma inclinação de dois dias essa de Carlos?

--Não é, senhor, não é. Eu sinto que não é. D'esta vez bem vejo que é sincera.

Mr. Whitestone encolheu os hombros, sorrindo.

--A Jenny ainda não aprendeu a conhecer seu irmão.

--Tenho seguido passo a passo, desde o principio, esta paixão de Charles. Já desconfiei d'ella tambem; já receei por Cecilia, e tentei dissuadir meu irmão do que imaginei não passar n'elle de um capricho. Depois reconheci que me enganára.

Mr. Richard abanou a cabeça, em signal de duvida.

--Ha quanto tempo te convenceste da sinceridade d'essa paixão em Carlos?...

--Ha muitos dias; desde...

Mr. Richard sorriu...

--E se eu tiver provas de que, ainda ha bem poucos, teu irmão era ainda o mesmo irreflectido e estouvado rapaz de outros tempos?

--Provas?...

--Se eu te mostrasse que elle hoje, ainda como d'antes, não hesita, para satisfazer doudas e pouco delicadas phantasias, em cortar por certas contemplações, respeitaveis para quem possue intactos os sentimentos de familia, ridiculas talvez para elle?

--É injusto... demasiadamente severo para Charles, senhor.

--Pergunta-lhe se foi em homenagem a essa rapariga, por quem o imaginas apaixonado ha tanto tempo, que elle vendeu o relogio, de que no dia de seus annos eu lhe tinha feito presente. Affligiu-me este facto, não por o valor do objecto, mas porque me revelou uma fraqueza na alma de meu filho, uma tibieza nos sentimentos de dignidade, que não esperava encontrar n'elle.

--Charles affirmou-me que fora um motivo poderoso o que o obrigára...

--Mentiu!--disse Mr. Richard com azedume.

--Ó senhor!--exclamou Jenny, como exprobrando-lhe a dureza da expressão.

--O motivo sei eu qual foi...

--Terá provas certas de que o sabe?

Mr. Richard vacillou a esta pergunta, dizendo depois:

--Quasi evidentes.

Jenny sorriu ao repetir:

--Quasi.

Mr. Richard, como excitado por aquelle sorriso, insistiu:

--De certo não foi Cecilia a pessoa que n'esse dia procurou teu irmão e o acompanhou de carruagem até á loja do ourives, onde se effectuou a venda.

Jenny soube pela primeira vez estas particularidades, mas, animada pela confiança que o irmão lhe souhera inspirar, disse sem hesitação:

--E são esses os unicos fundamentos da accusação?

--E julgo que...--e mudando repentinamente de tom, acrescentou:--Mas, deixando isso, a não fazer o que fiz, que querias tu que eu fizesse?

Jenny, desviando os olhos para um periodico de gravuras que estava sobre a mesa, respondeu:

--Não sei que mal haveria em ceder ao impulso d'aquelles dois corações, visto que...

Mr. Richard bateu, algum tempo impacientemente, uma pancada com a mão na secretária, junto da qual tinha parado.

--Julguei que Jenny não conhecia o mundo por o ter visto nas paginas dos romances.

--Não, senhor; não o conheço d'ahi; mas tambem o não conheço por experiencia pessoal. Das lições de meu pae obtive o pouco que d'elle sei; por isso avalio o bom e o mau das nossas acções na vida, á luz do dever e da consciencia. Não foi o que me ensinou?

Mr. Richard aceitou com um sorriso a correcção filial.

--Pois foi á luz do dever e da consciencia que eu procedi.

--Julguei que, depois do acontecido, o dever lhe aconselharia outra cousa.

--Algum absurdo? Loucuras?... Phantasias? És mulher a final, Jenny!

Jenny aproximou-se do pae, que viera sentar-se em uma cadeira junto do fogão; apoiou-se-lhe ao hombro e, a meia voz, disse-lhe como a brincar:

--Desejava agora, por um momento só, deixar de ser sua filha, senhor.

--Para quê?

--Para me atrever a fazer-lhe uma pergunta.

--Auctoriso-te a fazel-a, Jenny--respondeu o inglez, completamente desarmado contra a diplomacia da filha.

--Auctorisa? Eu sei?!

--Exijo até que a faças.

--Sou mulher a final! disse o pae... Póde ser... E como mulher tenho talvez o meu fraco pelo sentimento--preconceitos do coração... Não é isto?... Mas... era a pergunta que eu, se não fosse sua filha, lhe quereria fazer: mas esse seu espirito, recto, esclarecido e forte... julgará sem preconceitos d'esta vez?

--Que preconceitos queres que sejam os meus?--perguntou Mr. Richard, desviando os olhos.

--Quem sabe lá? Cecilia é filha de Manoel Quentino, um homem honrado, mas... subalterno; fiel, mas pobre; um caracter generoso, mas... educado na escola da obediencia; capaz de se sacrificar por nós, mas... vivendo dos ordenados da nossa casa.

--Douda! Então não me fazes a justiça de acreditar que a força da minha razão seria bastante para vencer esses preconceitos de educação... quando os tivesse?--disse Mr. Richard, porém de modo, que estava justificando Jenny.

--Assim o espero; por isso é que...

--Não--interrompeu Mr. Ricnard--não é isso o que me faz hesitar. O motivo é diverso. É porque não creio na duração dos sentimentos de Carlos; é porque lhe conheço o caracter leviano, e hesito por essa razão em fazel-o chefe de uma familia, que elle não saberia guiar e que tornaria desgraçada.

--Não é justo para com seu filho, senhor. Elle herdou os dotes do seu coração. É leal e generoso. E será salval-o, fazel-o entrar pelo coração no caminho do dever.

--Dizes-te amiga de Cecilia, Jenny, e não hesitas em arriscar-lhe assim imprudentemente a felicidade?

Jenny demorou algum tempo sobre o pae um olhar quasi malicioso.

--Eu, pelo menos--disse ella por fim--tenho uma garantia: é o coração de Charles, que está do meu partido; mas ainda ha bem pouco tempo que o pae concebia outra alliança para meu irmão, á qual até este pequeno auspicio faltava. Que fez da confiança, que então depunha em seu filho, ao querer fazel-o chefe de uma familia? Por que não hesitava então, e hesita agora? Ser-lhe-hia indifferente a felicidade de Alice Smithfield, da filha do seu amigo? De certo que não; mas é que sabia que Charles, promettendo fazel-a feliz, havia de ser fiel a essa promessa. E agora...

Mr. Richard não atinou com a resposta que désse a este argumento da filha.

Ergueu-se e voltou a passeiar.

D'ahi a instantes parou, e dirigindo-se a Jenay, disse:

--E demais, se, depois do que succedeu diante de testimunhas, eu fosse seguir o teu conselho, não soffreria a reputação d'essa pequena com isso? O mundo não veria n'este acto, que póde ser... que creio mesmo que seja, muito justo, mas que é preciso confessar tambem que não é natural, não veria n'esse acto a reparação de offensa maior?

Jenny sentiu-se alentada ao ver a nova face, que o pae dava á discussão.

--E a partida repentina e inesperada de Charles, depois dos factos que succederam, não dará logar a vozes menos favoraveis ainda para ella, para elle e... para nós todos?

Mr. Whitestone não respondeu.

--Eu conheço pouco o mundo, é verdade;--proseguiu a filha--mas parece-me que, em todo o caso, elle fallará; o que se tem a fazer é dar ás nossas acções a feição mais natural, para que menos curiosidade lhe excitem. Conduzamol-as de modo a deixar-lhe entrever os motivos, que nos convier que elle supponha; mas sem mostrarmos o proposito de revelar-lh'os, para que não desconfie da intenção e procure então os verdadeiros.

Mr. Richard olhava para a filha com um sorriso, já muito desanuviado.

--Bravo! que machiavelismo! Não te sabia tão diplomata. Vamos á applicação ao caso presente.

Jenny sorria tambem, mas de intima satisfação, porque se presentia victoriosa.

--Trata-se de diminuir pouco a pouco a estranheza do acto, que o faz hesitar; preparar as opiniões para aceital-o como natural.

--E como? Que queres que eu faça?

--O que lhe dictar o coração. Não é a mim que compete aconselhal-o.

Mr. Whitestone baixou a cabeça, com ar de reflexão.

Jenny principiou a dizer, como se fallasse para si propria, mas de maneira que fosse escutada por o pae:

--O mundo é assim. Dá-se-lhe a verdadeira explicação dos factos, raras vezes a acredita. Forja-se outra ás vezes menos natural e plausivel, quasi sempre a prefere. Principalmente se a verdadeira é generosa e nobre, e a falsa interesseira e mesquinha. A alliança de Charles com a filha de Manoel Quentino, tendo por explicação sómente o affecto dos dois, seria estranha e incomprehensivel; mas se Manoel Quentino, em vez de ser guarda-livros, fosse um socio da casa...

Mr. Richard, ouvindo estas palavras, desviou para a filha o olhar. Viu-a distrahida, examinando, com apparencias de attenção, um pesa-papeis de crystal.

Mr. Richard teve uma lembrança.

Aproximou-se da secretária, e, tomando uma folha de papel, escreveu n'ella algumas linhas.

Jenny sorria, como se estivesse de longe lendo tudo o que o pae se pozera a escrever.

No fim o inglez releu com attenção o que havia escripto; dobrou cuidadosamente o papel e entregando-o á filha, disse com rapidez, como se receiasse que a resolução, que abraçára, lhe fugisse ainda:

--Ahi tens. Entrega isso a Manoel Quentino. É uma memoria dos teus vinte e dois annos.

Jenny, que astuciosamente deixára ao pae o prazer e a gloria da boa ideia, cuja insinuação viera d'ella, suspeitou logo qual a natureza do escripto e disse com effusão:

--Agora sim! Torno a reconhecer o seu coração generoso.

--Então já sabes o que isso contém?

--Adivinho-o sem o ler. Attendendo aos antigos serviços prestados por Manoel Quentino á casa Whitestone, meu pae associa-o de hoje em diante ao negocio e á sua firma. Não é verdade?

--Quasi por formaes palavras--respondeu Mr. Richard, passando amigavelmente a mão por as faces da filha.

--Que mais ordena, miss Jenny?--perguntou jovialmente o inglez.

--Peço mais uma cousa.

--Dize.

--Peço para não fazer desde já uso d'este papel.

--Então?

--Este facto, que serve para preparar a opinião publica para o outro... não é verdade?

--Eu não prometti ainda...

--Este facto--continuou Jenny, fingindo que não ouvia a resposta--causaria ainda estranheza, se não fosse preparado tambem com antecedencias.

--Como?

--Recordo-me de que não ha muitos dias o pae me fallou de um negocio commercial, em que esteve para tomar parte a casa Whitestone, o que não fez por instancias de Manoel Quentino, instancias que a salvaram de um abalo, talvez fatal para ella. Não foi assim?

--Foi. O homem mostrou d'essa vez um tino commercial...

--A quantas pessoas fallou já d'esse serviço do seu guarda-livros?

--Que eu saiba a nenhuma. Certas tentativas, por felicidade frustradas, não é muito conveniente revelal-as, pois podem abalar a confiança na prudencia da casa...

--Pois, se me permitte dar-lhe um conselho, deixe que se faça d'esta vez excepção á regra. Durante esta semana, eu se estivesse no seu logar, fallaria a toda a gente n'aquillo. O nome de Manoel Quentino havia de andar, n'estes oito dias, nos ouvidos de todos. Toda a Praça havia de ficar sciente dos seus prestantes serviços... e depois que haveria que estranhar quando se enviasse ao pae de Cecilia este documento, em cujas dobras vae a felicidade de duas pessoas?

--E julgas tu que a gratidão é facto mais natural para o mundo, do que a iniciativa no beneficio? Se subtrahires da explicação o elemento «interesse», o facto será incomprehensivel.

--N'esse caso é deixar ao mesmo tempo suspeitar que Manoel Quentino tem conseguido accumular riquezas, e que da nossa parte...

Mr. Richard sorriu.