Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto

Part 28

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--E sendo Mr. Richard Whitestone um dos raros caracteres honrados que se encontram na vida--terminára Mr. Morlays--e sendo miss Jenny Whitestone em tudo digna filha de Mr. Richard Whitestone, eu faço votos pela felicidade de Jenny Whitestone, para que possa assim recompensar Mr. Richard Whitestone pela sua honradez, probidade, cavalheirismo; recompensa que Mr. Richard Whitestone não póde nem deve esperar do mundo. Sendo demais miss Jenny Whitestone a terna irmã de Mr. Charles Whitestone, coração leal, generoso, sem fermento de maldade social, eu, bebendo á saude de miss Jenny Whitestone, brindo tambem Mr. Charles Whitestone, porque o sentimento fraterno faz uma só d'aquellas duas almas, da mesma sorte que miss Jenny Whitestone receberia, como dirigido a si, um _toast_ a Mr. Charles Whitestone, seu affectuoso irmão. De maneira que este brinde individual a miss Jenny Whitestone transforma-o a sympathia cordial que liga esta familia exemplar em um brinde collectivo á familia Whitestone. Miss Jenny Whitestone!

E bebeu.

--_Hear_! _hear_!--applaudiu Mr. Brains, batendo com os nós dos dedos na mesa, o que já fizera durante todo o _speech_, mais por força de habito, do que por se tornar necessario o recommendar attenção em tão limitada e attenta assembleia.

Jenny agradeceu modestamente o eloquente discurso.

Mr. Richard brindou os hospedes em termos não menos laconicos.

Carlos, em poucas palavras, desempenhou-se de identicos deveres.

E os _toasts_ succediam-se e o nivel do liquido descia nas garrafas de crystal.

Jenny levantou-se. Era tempo de deixar sós os convivas. Ia soar para elles a hora de liberdade.

Carlos viu com inveja o movimento da irmã. Não a poder imitar! Ficou porém.

A desapparecer atraz do reposteiro da sala a ultima dobra do vestido branco de Jenny e uma transformação completa a operar-se na scena.

Mr. Brains passou a perna por cima do braço da cadeira e deixou-se escorregar até ficar com a cabeça á altura da mesa. Mr. Morlays estendeu os cotovêlos por esta adiante, metteu a cabeça entre as mãos, posição na qual as faces lhe tomaram um geito de caricatura, eminentemente comico; Mr. Richard, esse fez balançar a cadeira sobre os dois pés posteriores.

Àccenderam-se charutos, cobriu-se de fumo a atraosphera da sala, encheram-se e despejaram-se copos sobre copos.

Os criados retiraram-se discretamente.

--Uma canção, Mr. Brains--disse Mr. Richard Whitestone.

--Mr. Morlays que cante--respondeu aquelle.

--Ho! Mr. Morlays! Seria capaz de nos cantar um _dies illa_--notou Mr. Richard, rindo.

Mr. Morlays fez uma careta, com pretensões a sorriso.

--As digestões costumam reconciliar Mr. Morlays com a humanidade--dizia Mr. Brains.

--As feras saciadas são menos terriveis--acrescentou Mr. Richard jovialmente e batendo com familiaridade no hombro do seu amigo Morlays.

Este tornou a sorrir, a seu modo.

--Vamos á canção!--insistiu Richard, voltando-se para Mr. Brains--Vamos á canção.

--Mas a presença aqui do amigo Morlays faz receiar que succeda como no brinde de Lucrecia. Lembra-se? Se nos saía vinho de Syracusa?

Depois dos risos, concedidos á reflexão de Mr. Brains, este dispôz-se a cantar.

Nós, os portuguezes, que mais de que uma vez alcunhamos de sorumbaticos e melancolicos os nossos alliados bretões, somos talvez na Europa o povo mais sisudo e grave dos tempos modernos.

Eu creio que nem a philosophia e o _landwehr_ da Allemanha; nem o _knout_ e a sombria política da Russia; nem os fuzilamentos e o militarismo da Hespanha; nem os _meetings_ e os _fenians_ da Inglaterra; nem o suffragio universal e a febre napoleonica da França, teem conseguido tornar as respectivas nações mais avêssas ao canto, do que a nossa. Com o nosso céo, com a nossa vegetação, com os nossos vinhos e com a nossa lingua e com tão pouca disposição para nos occuparmos de cousas sérias--e n'esse particular nenhum povo nos leva a palma--esta quasi aversão que temos ao canto, denota uma indole essencialmente sisuda e pouco de gente do meio-dia.

Em qualquer jantar nacional, qual seria o conviva que teria coragem para imitar Mr. Brains, satisfazendo ao pedido do seu amphitryão e dispondo-se a cantar?

E, se algum houvesse, com que olhos de escandalisados o não encarariam os outros?

Ninguem ha mais pussillanime diante do ridiculo do que o portuguez; ninguem que mais corajosamente o encare de face, do que o cidadão britannico. Ora o ridiculo imita os costumes insidiosos de certos cães, que mordem as pessoas que lhes fogem, e recuam diante de quem os espera a pé firme.

O que é verdade é que Mr. Brains, vergando-se sobre as costas da cadeira, com as pernas estendidas, os olhos meios fechados, a mão pousada sobre o corpo, principiou a cantar com voz de impossivel classificação, em timbre nazal e em musica inglezamente monótona, uma canção de Sharpe feita para occasiões como esta.

O sentido era pouco mais ou menos este:

Vá! sem mêdo enchei os copos De vinho, côr de rubim; Levem-o aos labios as damas; Consagral-o-hão assim.

No peito o vinho alimenta Da amizade o almo calor, E o engenho d'elle regado, Ascende em vôo maior.

Enchei os copos, fiae-vos N'esta bebida de reis Com tanto que...

Estava escripto que os dotes vocaes e os talentos artisticos de Mr. Brains não seriam devidamente apreciados. A lembrança da scena do banquete da Lucrecia fora até certo ponto fatidica!

De facto, quando o inglez chegava áquelle verso da canção, um forte e cada vez mais proximo rumor, como de passos precipitados, de vozes em confusão, de supplicas e de ameaças, partindo da sala immediata, veio emmudecer a larynge do cantor e enrugar a testa de Mr. Whitestone, a quem, á hora solemne do jantar, impacientavam interrupções.

Quando ia a elevar a voz para saber a causa d'aquelle desacato, abriu-se com violencia a porta da sala, e aos olhos espantados de todos os presentes desenhou-se a figura de Manoel Quentino, pallido, agitado, como nenhum d'elles o tinha ainda visto.

Ao mesmo tempo Jenny, attrahida pelo ruido, apparecia á outra porta da sala.

Mr. Richard Whitestone olhou pasmado para o guarda-livros.

XXXIV

MANOEL QUENTINO ALLUCINADO

Melhor do que qualquer dos personagens d'esta scena, prevê o leitor os motivos do apparecimento de Manoel Quentino na sala e do estado de perturbação em que se apresentou.

As revelações da criada tinham-o feito já, como vimos, sair desorientado. Chegando a casa de Mr. Richard, soube do criado de Carlos, que Cecilia havia entrado pela manhã no jardim; mas conjecturava este que ella provavelmente se retirara já, porque a não vira mais em casa.--Os criados, que serviam á mesa, confirmaram a conjectura, assegurando a Manoel Quentino que Cecilia não tinha assistido ao jantar.

Não é possivel dizer que ideias se succederam no espirito de Manoel Quentino ao ouvir tudo isto. Correu-lhe pela vista o véo das nevoas, que antecedem uma vertigem. Tomou-se-lhe o coração de dor e de cólera; esqueceu todas as considerações que poderia ainda sopeal-o, e rompendo, em vociferações incoherentes, por entre os criados que o rodeiavam, appareceu, como vimos, verdadeiramente allucinado diante de Mr. Richard e dos estupefactos convivas.

O olhar de Manoel Quentino, animado por expressão estranha, correu em um momento a sala.

A ausencia de Cecilia acabou de perturbar o velho.

Fitou Carlos, cheio de raiva prompta a fazer explosão, e atravessando, com andar mal seguro, o espaço que o separava d'elle, veio pousar-lhe a mão no hombro, dizendo em voz suffocada e tremula por o esforço que fazia a reprimir a violencia da paixão crescente:

--Snr. Carlos, eu venho aqui saber de minha filha.

A estas palavras, Jenny descórou. Os dois inglezes conservaram-se boquiabertos; Mr. Whitestone não desviou mais de Manoel Quentino e de Carlos o olhar penetrante.

--Snr. Carlos!--repetia Manoel Quentino, com uma expressão em que se revelava ao mesmo, tempo a angustia e a cólera--Sou eu!... eu ... repare bem! É um pae, que lhe vem pedir contas de sua unica filha!

Carlos, a quem a surpreza parecia haver paralysado,--a surpreza e porventura ligeiros remorsos de consciencia tambem,--olhava para Manoel Quentino e, córando e empallidecendo, permanecia como subjugado pelo olhar de irritação d'aquelle velho, que o interrogava assim.

Manoel Quentino, ao ver esta perturbação, perdeu todo o poder que ainda conservava sobre si.

--Carlos--disse elle--o senhor abusou da confiança do homem que lhe abriu sem hesitar as portas de sua casa; o senhor zombou cruelmente d'estes cabellos brancos, que foram creados em serviço honrado e sem vergonha; o senhor esmagou o coração que se lhe abrira, como o de um pae... o senhor é... é um infame!

Quem visse a postura e o rosto de Carlos julgaria verdadeira a accusação. Surprendido inesperadamente por ella, faltou-lhe a reacção para repellil-a.

Mr. Whitestone, ao escutar as ultimas palavras de Manoel Quentino, empallidecera, phenomeno raro n'elle, e que se julgaria irrealisavel.--Cêdo porém o sangue reagiu contra a repressão que o expellira das faces, e affluiu com maxima intensidade a ellas. Os olhos, brilhando com fulgor extraordinario, não se desviavam do filho, como á espera de vel-o protestar contra aquella grave accusação.

Jenny, erguendo a cabeça, por um movimento cheio de dignidade, adiantou-se na sala. Subira-lhe tambem ás faces um rubor de impaciencia, vendo o irmão emmudecer perante uma accusação, que ella sabia ser injusta.

Com fogo no olhar e vivacidade na voz, que eram pouco do caracter d'ella, disse, dirigindo-se a Manoel Quentino:

--Manoel Quentino, acaba de fazer uma accusação, que o deshonra, porque é falsa.

O velho guarda-livros voltou-se para Jenny, e em lucta entre a duvida e a esperança, perguntou anciosamente:

-Falsa?

--Sim, falsa;--repetiu Jenny com firmeza--tão falsa, como cruel! Eu sei o que a motiva.... Mas se, em dezoito annos de convivencia com Cecilia,--que são todos os que ella tem de vida,--Manoel Quentino aprendesse a conhecel-a, se depositasse mais fé nos nobres sentimentos d'aquelle coração, que é obra sua, se tivesse mais confiança na sua propria filha, hesitaria sempre ao accusal-a, e não viria aqui soltar essas expressões que a poderiam perder, embora innocente...

A porta da sala, em que Cecilia ficára, abriu-se, e a filha de Manoel Quentino appareceu, pallida e sobresaltada, porque tinha reconhecido a voz do pae e suspeitado tudo.

Jenny, vendo-a, caminhou apressada para ella, e, apertando-a nos braços, disse para Manoel Quentino:

--A filha, de quem vinha saber, estava commigo. Receia ainda por ella?

Manoel Quentino correu para Cecilia e abraçou-a com phrenesi.

Mas as suspeitas, que as informações de Antonia lhe haviam feito nascer, não estavam de todo suffocadas n'aquelle espirito.

Reparando na pallidez e no ar de abatimento da filha, e lembrando-lhe a anterior confusão de Carlos, Manoel Quentino afastou-a brandamente de si, fitou-a por algum tempo em silencio e perturbado, e depois disse com tristeza e affecto:

--Por que estás assim pallida e commovida, filha? Por que perdeste aquella alegria de outros tempos? Por que choraste?

E, voltando-se para Carlos, acrescentou já sem a primeira vehemencia, mas ainda com amargura:

--A quem hei de eu pedir contas d'estas lagrimas, snr. Carlos? Das d'ella... e das minhas?

Cecilia, ouvindo-o dizer isto, encostou-se vacillando ao seio de Jenny.

--Basta, Manoel Quentino!--disse esta com voz severa--Respeite-se! Essa exaltação é indigna de si. Respeite-se e peça perdão a Deus do que está fazendo padecer a este anjo com essas palavras. Vamos, Cecilia, não podemos ficar mais tempo junto de quem, devendo ser o primeiro a fazer-lhe justiça, é o primeiro a offendel-a, duvidando de si. Vamos.

Manoel Quentino ergueu as mãos para Jenny.

--Espere! espere! E se tem poder para me tirar do coração isto, que m'o esmaga, faça-o, faca-o! Por muito que os outros soffram, quem soffre aqui mais sou eu!

Havia na voz do pobre pae a commoção mais sincera!

Jenny parou a escutal-o.

Manoel Quentino estendeu para ella a carta de Carlos, que trouxera comsigo.

--Quem escreveu esta carta a minha filha?

Jenny ficou enleiada á vista da carta; olhou para Carlos, cuja physionomia lhe disse tudo.

Cecilia ergueu tambem a cabeça com espanto.

Em Manoel Quentino, que notou a perturbação de Jenny, redobrou com isto a anciedade, e sem attender a que ia sacrificar Cecilia, insistiu imprudentemente:

--Quem escreveu esta carta a minha filha? Esta carta recebida ainda ha poucas horas? Ella ahi está ainda como me chegou ás mãos. Abram-a, leiam-a, e, se o que contiver não justificar as minhas suspeitas... se...

E Manoel Quentino, ao dizer isto, ia já abrir a carta, quando a voz de Mr. Richard o deteve.

--Não é preciso. Essa carta é minha.

Eram as primeiras palavras ditas por o velho inglez, desde o principio da scena, á qual assistira até então immoyel e silencioso. Mr. Richard Whitestone era homem de rapida percepção e de resoluções não mais demoradas.

Entrando-lhe a intelligencia em uma corrente de pensamentos, em poucos instantes lhe attingia o fim e, acto contínuo, formulava a si mesmo um plano de procedimento, que logo punha em pratica. Tinha já comprehendido tudo; a confusão de Carlos e o seu grau de culpabilidade, os fundamentos da accusacão de Manoel Quentino e a generosa e nobre intervenção de Jenny. Previu a imminente derrota da filha, perante um documento, cuja existencia ella não suspeitava; previu as consequencias d'esta scena; o perigo que corria a reputação de Cecilia; o descredito que resultaria para o nome de Carlos, que era tambem o d'elle--Richard--e o de Jenny; e immediatamente talhou para si papel em uma situação na qual elle só poderia intervir com bom exito.

Manoel Quentino, ouvindo ao patrão aquellas palavras, ditas em tom firme e seguro, ficou a olhal-o embaraçado.

Jenny fitou as feições inalteradas do pae e comprehendeu-o.

A boa e generosa menina sentiu desejos de se lhe lançar ao collo, para lhe agradecer aquella prompta e feliz resolução.

Carlos conheceu que lhe córavam as faces, ao ver quanta magnanimidade havia no procedimento do pae.

Era a segunda lição, que, n'aquelle dia, recebia dos seus; lição de grandeza de alma, salvadora da reputação de uma pessoa, que elle sinceramente amava, mas que, com actos irreflectidos, segunda vez ia perdendo.

--Esta carta é de v. s.ª?--repetia Manoel Quentino, deixando insensivelmente cair a carta, que conservára na mão.

Jenny correu a apanhal-a e passou-a para as mãos de Mr. Richard, que trocou um olhar de intelligencia com a filha.

Travára-se n'aquelle momento tacita alliança entre os dois para salvar a reputação de uma rapariga, innocente e indefeza.

--É minha, sim--continuou Mr. Richard, tomando a carta e abrindo-lhe naturalmente o fecho.--É minha... ou melhor, é... de nós ambos--acrescentou, designando Carlos com a mão, mas sem o fitar.--Tinhamos resolvido preparar uma surpreza a Jenny hoje, que é dia de seus annos, convidando Cecilia, que ha muito tempo não viamos aqui. Mas gorou-se o plano, porque Jenny, já antes de nós, a tinha convidado; e fez muito bem. Ahi está o que é... Esta carta foi escripta por Carlos e dictada por mim... E se duvída?--concluiu, fazendo o gesto de entregar a carta a Manoel Quentino.

Era um d'estes expedientes heroicos, que tudo podem perder ou salvar.

Servem-se d'elles, em occasiões assim, os homens de coragem e de sufficiente confiança em si proprios, para não receiarem trahir no semblante a posição critica, em que ficam collocados, depois de os empregarem.

A esses taes é quasi sempre o meio efficaz e salvador.

Manoel Quentino não ousou aceitar a prova, que se lhe offerecia.--Os habitos de respeito, contrahidos em longos annos de serviço e que um momento de indignação, quasi de delirio, lhe tinha feito esquecer, dominaram-o de novo, restituindo-lhe a sua natural brandura e timidez de caracter.

--Perdão--disse elle, quasi com humildade e como arrependido já da excitação anterior.--Perdão; eu julguei...

--Está bom, está bom--atalhou Mr. Richard com modo de quem não desejava continuar no assumpto.--É preciso ser menos... prompto em obedecer a... certas exaltações... inconvenientes.

O epitheto foi dito depois de alguma hesitação em adoptal-o.

Manoel Quentino ia ainda a abrir a bôca para desculpar-se, porém Mr. Richard o impediu.

--Não fallemos mais n'isto.... Não vale a pena. Sente-se e faça-nos companhia á mesa.

--Perdão, Mr. Richard, mas...

Mr. Richard fingiu que o não ouvia; chamou por um criado para preparar logar e talher para Manoel Quentino. Este sentou-se, quasi sem bem reparar no que fazia.

Jenny e Cecilia saíram outra vez da sala.

O jantar continuou.

Tinha porém perdido para sempre a feição jovial do principio.

O que se passára e a presença de Carlos e de Manoel Quentino, qual d'elles mais constrangido e sombrio, inutilisavam todos os esforços de Mr. Richard para restabelecer no dialogo a perdida animação.

As libações repetiram-se, mas sem longos _toasts_.

--A seu sobrinho, Mr. Brains!--dizia por exemplo Mr. Richard, bebendo.

Mr. Brains fazia uma mesura a agradecer. Os outros levavam os calices aos labios.

--A seu amigo Roxboy, Mr. Whitestone!--dizia em seguida Mr. Brains.

Mr. Whitestone agradecia; os outros repetiam a saudação como anteriormente.

--Mr. Morlays, a seu tio das Indias!

Mesura de Mr. Morlays. Os outros como antes.

Estes mesmos laconicos _toasts_ terminaram. A feição da assembleia carregava-se cada vez mais.

Mr. Richard fez um ultimo esforço para a desanuviar.

--Outra canção, Mr. Brains!--disse elle, enchendo-lhe o copo.

O inglez fitou Mr. Richard com olhos de estremunhado.

--Eu cantar! Para a transição ser menos sensivel, que cante Mr. Morlays primeiro.

Mr. Morlays grunhiu um monosyllabo imperceptivel e esvasiou até á ultima gotta o calix, que tinha defronte de si.

--Então cante Mr. Morlays--insistiu Mr. Richard, sem grandes esperanças do convite ser aceito.

Contra a espectativa geral, o sorumbatico inglez levantou-se e enfiando as mãos nos bolsos do collete, pronunciou, era tom funebre, o nome da canção que se propunha a cantar.

--_The old saxton_--o velho cóveiro--de Park Benjamin.

Mr. Brains fez um gesto de arripiado. Mr. Morlays, imperturbavel, principiou cantando.

Eis o sentido da canção que elle, com exquisito tacto da opportunidade, julgou dever escolher:

«Junto de uma sepultura, cavada de pouco, estava o velho cóveiro, encostado á enxada, já gasta pelo uso. Tinha terminado a tarefa e parára á espera do cortejo funeral que transpunha n'aquelle momento a porta aberta do cemiterio. Era uma relíquia do tempo passado este velho! Os cabellos estavam-lhe tão brancos, como a espuma do mar; e dos labios tremulos saíam-lhe, em voz submissa, estas palavras:--Venham venham! que eu os guardo todos! Eu os guardo todos!

Sim, eu os guardo! Para homens e para creanças, anno após anno, uns de pezares, outros de alegrias, edifiquei essas casas que por ahi jazem em torno, em cada recanto d'este funereo terreno. Mãe e pae, filhos e filhas, um por um, vieram acolher-se á minha solidão. Mas, ou estranhos ou parentes, venham! venham! que eu os guardo todos! Eu os guardo todos!

Sim, eu os guardo! Muitos estão commigo, e comtudo estou só! Eu sou o rei dos mortos! Meu throno faço-o de um sepulcro de pedra ou de frio marmore, e o meu sceptro de commando é a enxada, que empunho. Todos os homens são meus vassallos, quer cheguem da choupana, quer cheguem das salas, todos, todos, todos! Agitem-se embora na ancia do prazer ou na ancia do trabalho! Venham! venham! que eu os guardo todos! Eu os guardo todos!

Sim, eu os guardo! Seu leito final é aqui; aqui debaixo, no escuro seio da terra.»--«E o cóveiro calou-se, porque o cortejo funeral passava silenciosamente n'aquella planicie. E eu disse commigo: Ao findar dos seculos, uma voz, mais poderosa do que a d'este velho cóveiro, bradará mais alto do que o tremendo clangor da trombeta final: Venham! venham! que eu os guardo todos! Eu os guardo todos!»

Imagine-se o effeito que a voz do cantor, a musica e a lettra da canção produziriam depois de um jantar.

A musica obrigava a repetir por mais de uma vez o estribilho final de cada estancia no original.

--_I gather them in, gather, gather, gather, I gather them in_--cantava Mr. Morlays, com entonação, que fazia lembrar um sino dobrando a finados.

Não se concebe estomago que ficasse imperturbado após uma sobremesa d'estas.

O cantor seguia com malignidade, verdadeiramente satanica, o effeito do canto sobre o acto visceral dos seus amigos.

Mr. Brains reprimia a custo a indignação que sentia.

Acabando de cantar, Morlays sentou-se e bebeu novo calix de vinho.

Apenas um monosyllabo sêcco de Mr. Richard Whitestone o congratulou.

A misanthropia de Mr. Morlays, azedada com o escandalo de Manoel Quentino, folgou com a vingança que tomára. D'ahi por diante todos somente suspiravam por se levantar da mesa.

Mr. Brains foi o primeiro, que ousou fazel-o. Á indole jovial do Democrito inglez repugnava a atmosphera pesada que estava respirando alli. Mr. Morlays imitou-o. O mau humor d'este crescera de ponto com as occorrencias do dia. As suas caprichosas digestões estavam em risco de serem perturbadas, e em consequencia d'isso teve a humanidade muito que soffrer no conceito de tão hypochondriaco personagem.

Carlos retirou-se tambem ao quarto.

XXXV

A SENTENÇA DO PAE

Manoel Quentino, ficando só na presença do patrão, não se sentia á sua vontade. Foi pois com verdadeira satisfação que recebeu um recado de Cecilia, a pedir-lhe que a acompanhasse a casa.

Despediu-se de Mr. Richard, a quem dirigiu pela segunda vez mal formuladas desculpas, que o inglez recebeu com affabilidade, e ao mesmo tempo com ares de quem preferiria não ouvir fallar mais em tal.

Manoel Quentino foi ter com Cecilia, que estava na outra sala com Jenny.

--Cecilia, perdôa-me se duvidei de ti;--disse elle com a voz suffocada--perdoa a minha imprudencia de ha pouco, filha; foi uma loucura. Bem o vejo agora. Perdôa-a ao muito amor de teu pae...

A commoção não o deixou continuar.

Cecilia lançou-se-lhe, chorando, nos braços.

--Manoel Quentino, que está a fazer?--disse Jenny--Não vê como a afflige?

--Menina--respondeu Manoel Quentino, voltando-se para ella--perdôe-me tambem se pude imaginar que a sua protecção de santa...--de verdadeira santa, miss Jenny--que essa abençoada protecção podia deixar-se vencer. E, por quem é, não se esqueça de velar por ella, por minha filha!

--Mais valiosa protecção encontra Cecilia era si mesma--respondeu Jenny.--É um coração forte.

Manoel Quentino tinha a cabeça da filha encostada ao peito; ouvindo estas ultimas palavras, cingiu-a ainda mais a si, e murmurou para Jenny, procurando não ser percebido por Cecilia:

--Forte?... Era... emquanto lhe pertencia.

Jenny demorou o olhar nas feições do velho.

Aquella resposta dava a entender que algumas suspeitas lhe restavam ainda da verdade; que elle podia estar convencido já da innocencia da filha, que podia julgar com menos severidade e duvida as tenções e procedimento de Carlos, mas sem haver fechado de tal maneira os olhos á evidencia, que suppozesse que nada havia de commum entre os corações dos dois.

Jenny respondeu, percebendo isto:

--Forte ha de sel-o sempre; resta fazel-o feliz.

--Se miss Jenny o não conseguir, quem mais o conseguirá?

--Trabalharei--disse Jenny, sorrindo.

--Dê-lhe a serenidade do seu coração e tel-a-ha salvado.

Jenny, que abraçava n'este momento Cecilia, ouvindo estas palavras, meneou a cabeça, e, entre risonha e melancolica, disse ao ouvido da sua amiga:

--Não é assim que eu desejo salvar-te.

Pela primeira vez a tratava por tu.

Emquanto se passava esta scena, Carlos de volta ao quarto engolfava-se em pensamentos profundos. Tudo quanto succedera lh'o estava reproduzindo a memoria, e cópia de affectos e de paixões agitavam-lhe o coração em palpitar desordenado.