Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto
Part 27
Effectivamente o inglez, que chegava, era um d'estes pessimistas, para quem o universo inteiro se apresenta tingido das mais escuras côres; era uma victima, ao mesmo tempo lastimavel e insupportavel, do _mau humor_, que o douto _Feuchtersleben_ chama--prosa vulgar da vida, irmão do tédio e da preguiça e envenenador que lentamente traz comsigo a morte.
Mr. Whitestone, homem laborioso e contente do mundo, estava em constante opposição ao seu compatriota e amigo, que era d'estes que teem feito adquirir aos nevoeiros de Londres a immerecida fama de fomentadores do _splen_--fama, contra a qual principiam, com muito criterio, a protestar os homens pensadores, descobrindo antes na ociosidade, favorecida por as fabulosas riquezas de alguns _lords_, a causa d'aquelle mal de suicidas.
O aspecto de Mr. Morlays denuncial-o-hia á medicina antiga como uma victima d'esse mysterioso humor negro, que ella chamou _atrabilis_. Era a variedade do inglez, que póde denominar-se escura; e a escuridade, que lhe estava no rosto, projectava-se-lhe tambem nas disposições moraes.
O gabinete, em que se reuniam os dois inglezes, era um compendio do quanto póde tornar o curso da vida facil e suave; tudo alli respirava conforto; tudo favorecia aquelle doce repousar de fadigas melhor do que por ninguem saboreado pelos _Her magesty's subjects_, residentes nos nossos climas meridionaes.
Cadeiras de varias fórmas e mecanismos, nas quaes se esmerára o genio inventivo em multiplicar e variar as molas, em distribuir as articulações, em combinar os movimentos, em contornar os angulos e saliencias até accommodal-as, o mais possivel, a todas as posturas, por mais caprichosas e extravagantes, que o instincto do repouso as podesse suggerir; tapetes, onde os pés se profundavam como na relva dos campos; cortinas a temperarem a intensidade da luz, e finalmente o fogo, companheiro inseparavel d'estas organisacões do norte, ainda n'aquelle mez quasi de estio, a crepitar e a lamber com a lingua inflammada as grades do fogão. Mr. Whitestone pensava como S. Francisco de Salles, a quem attribuem a opinião de que o fogo é bom durante doze mezes no anno.
Mr. Morlays encontrou em tudo isto motivos para observações de critica atrabiliaria.
--Maus habitos, Mr. Richard, maus habitos! Estes costumes elanguescedores são os que tem operado a visivel degeneração da raça humana. As escrofulas...
--Misericordia, Mr. Morlays! Que feia palavra para antes de jantar!--exclamou Mr. Richard, rindo.
--São os males da civilisação. Depois do assucar, o peior inimigo do nosso organismo é o fogão.
--Então o assucar tambem?
--O assucar! Eu tenho para mim que a mais lastimosa descoberta da industria do homem foi a d'esse pó insidioso, que traiçoeiramente nos tem envenenado o corpo todo, misturando-se ao sangue...
--É celebre! Eu tinha ideia de que Mr. Morlays era até apaixonado pelo doce!
--E que prova isso? A nossa natureza é feita assim. Adquirido o habito do mal, até o mal, até a dor, lhe é indispensavel.
Mr. Richard ficou algum tempo calado, como a meditar sobre a lei do habito enunciada pelo seu amigo.
Depois perguntou:
--Não haverá meia hora na vida, durante a qual Mr. Morlays veja este mundo com bons olhos?
--O defeito não está nos meus olhos, creia; mas no que a elles se apresenta de contínuo. Este é o peior dos mundos, acredite.
--Tristram Shandy--disse Mr. Richard, sorrindo--lamenta tambem não ter nascido na lua ou em outro qualquer planeta, excepto Jupiter e Saturno, por causa de serem muito frios; por isso que, diz elle, em outro qualquer não lhe podiam ter corrido as cousas peior do que n'este, o qual elle julga ter sido feito com os acrescimos e as aparas dos outros... Eh! eh! eh!... Mr. Morlays não hesitaria em dizer o mesmo; estou vendo.
--E por que havia de hesitar?
O criado, entrando outra vez, annunciou Mr. Brains.
--Oh! oh!--disse Mr. Richard--ahi vem o antidoto contra a sua influencia pessimista.
--Este vê tudo azul-celeste!--notou Mr. Morlays, com sorriso de commiseração.
Ouviu-se no corredor uma voz cantando jovialmente:
_God save Victoria! Long live Victoria! God save the Queen!_
E Mr. Brains, inglez que reagia pertinazmente contra a sisuda etiqueta nacional, entrou com grande exhibição de cumprimentos e mesuras para a direita e para a esquerda, simulando atravessar por entre filas de personagens, que o saudavam, e ia dizendo:
--Mylords! myladies! gentleman! sem incommodo! sem incommodo!--e chegando perto de Mr. Richard:--Bons dias, lord Whitestone, bons dias; folgo muito de vos ver tão bem disposto. Oh! nosso leal subdito, lord Morlays!--como vae o diabo preto, que vos acompanha para toda a parte?
--Não tão bem disposto como o diabo côr de rosa de Mr. Brains.
--Nem por isso, nem por isso. Descuidou-se hoje, deixando-me varrer todas as ostras do mercado, sem me reservar nenhuma! Cheguei a acreditar que Mr. Morlays tinha razão; o mundo tem provações! Eh! eh!...
--Ria, ria. Eu confesso que me seria difficil imaginar outro mundo peior.
--Oh! Para isso basta supprimir as ostras da creação. Perde logo cincoenta por cento do valor que tem. Eh! eh! eh! Uma comida leve, que não compromette o estomago! antes o predispõe a mais substancial refeição.
Não acompanharemos, através das diversas transições, o longo e substancioso dialogo mantido entre os tres inglezes.
As questões mais graves, que agitavam então as intelligencias e pejavam de papeis os gabinetes diplomaticos da Europa, o destino das nações, a futura sorte dos povos, tudo, n'aquella manhã, foi tratado por elles e decidido em termos categoricos e com tanta consciencia e infallibilidade, como só a dá e permitte o fôro de subdito inglez, cujos privilegios, debaixo d'este ponto de vista, parece não terem limites. Monarcas, generaes, ministros, diplomatas, publicistas, todos passaram em comprida procissão aos olhos d'este triumvirato, que os julgou e sentenciou com a impavidez e precisão proprias do espirito britannico.
A guerra da Crimeia historiaram-a elles a seu modo: com grande exaltação da Inglaterra, e acerba critica da França, a cujo exercito nada mais concediam senão uma fanfarronice, ás vezes feliz.
Escusado será dizer que tudo isto era condimentado com reflexões lugubres de Mr. Morlays e com ditos joviaes de Mr. Brains. O primeiro, para deprimir a França, inventava exemplos de crueldade, e quasi de canibalismo, commettidos pelo soldado francez: o segundo, com o mesmo patriotico fim, contava anecdotas comicas, nas quaes se demonstrava o quixotismo dos alliados da velha Inglaterra. Mr. Whitestone aceitava tudo de boa vontade.
A illacão, que dos seus arrazoados tirava Mr. Morlays, era quasi sempre esta:
--Este mundo é um covil de feras!
A de Mr. Brains formulava-se de ordinario assim:
--Este mundo é um grande theatro.
Pouco a pouco, ascendeu a conferencia a mais sublimados assumptos. A questão politica abriu campo a mais vasta questão social, onde os dois inglezes continuaram a conservar cada um a sua provada individualidade ao serviço da causa da patria commum.
Mr. Brains, o optimista, abraçava-se com entranhado affecto ás utopias. N'este momento, estendendo a vista através dos seculos futuros, estava percebendo ao longe a tão almejada unidade dos povos, realisada por uma só nação, por uma legislação unica, por uma lingua commum; a suppressão da palavra «guerra» d'esse vocabulario universal, em consequencia de não ter objecto a que se applicar; e depois a materia, subjugada pela intelligencia, obrigada a trabalhar, e o espirito, livre da attenção as impertinentes exigencias da vida positiva, a entrar em especulações de ordem superior, em concepções metaphysicas.
--Então é que se realisará o ultimo fim do homem na terra! Que não viva eu, Mr. Whitestone, para saudar esse grande dia! Que não possa dizer, na lingua universal de então, o meu «bom dia» ao sol que romper!
Mr. Richard, sorrindo com ares de quem não tinha fé muito ardente em tão dourado futuro, perguntou:
--E que lingua será essa, Mr. Brains? alguma das existentes hoje, que se generalisará; ou outra nova, que terá de se formar ainda?
--Quem o póde dizer, Mr. Richard? Isso é segredo do futuro. Mas não ha duvida que existem grandes plausibilidades a favor da ingleza.
--Ah! sim?
--Por certo. Primeiro que tudo, é a Inglaterra a primeira nação colonial. Em todas as cinco partes do mundo é já familiar o inglez. A joven America, nos seus elementos mais vigorosos, nos que hão de vencer os outros, é de origem ingleza tambem. E depois, meu caro Mr. Richard, a França tem em si inoculado o principio destruidor, que ha de sacrifical-a; a França é papista, o que vem a ser o mesmo que estar condemnada á morte. Demais, o caracter philosophico da lingua ingleza...
Não o seguiremos agora na dissertação philologica, cujo corollario foi que, com o andar dos seculos, toda a humanidade fallaria inglez--lei que, se se realisasse, talvez concorresse a produzir grave desafinação na celebrada harmonia dos orbes, pelo lado da humanidade.
Mr. Morlays tomou a palavra para ir á mão ao compatriota.
Como era de prever, não tinham tanto de lisongeiras as vistas de Mr. Morlays sobre os destinos sociaes. A humanidade, principalmente a que não era ingleza, não devia, pensava elle, bater as palmas ao futuro, que se lhe antolhava.
Sempre que meditava n'estas cousas, Mr. Morlays, em vez de sorrir a utopias, sonhava catastrophes. Foi por isso que ponderou em tom lugubre:
--Não creio, Mr. Brains, não creio que seja possivel realisar-se d'essa maneira e por o successivo progresso dos povos essa nacionalidade univesal. Segundo o que eu tenho lido, o mundo, em que pousamos os pés, é essencialmente sujeito a convulsões; encerra um nucleo inflammado, que, a cada momento, lhe está alterando a superficie. Grandes cataclismos tem já presenciado a humanidade, e quem sabe quantos presenciará ainda? Parte dos continentes que habitamos, segundo se lê nos livros dos naturalistas, foram outr'ora todos cobertos de aguas; sendo de crer que nações de outros tempos estejam sepultadas hoje nos abysmos do mar. Ora, se no futuro se operarem ainda d'essas revoluções, como é plausivel acreditar, a parte continental do globo será submergida e do seio das aguas surgirão superficies não povoadas. O que é possivel é que, em virtude das especiaes condições geographicas da Inglaterra e da sua natureza insular, ella não participe da sorte dos grandes continentes, dos quaes está desligada; que prevaleça e sobreviva á ruina e submersão d'elles, vendo até acrescerem ao seu territorio as novas terras, que o cataclismo arrancar do fundo dos mares. Então talvez, e só assim, se poderá realisar o futuro, que Mr. Brains imagina, sendo os inglezes os unicos possuidores do globo.
Depois, como se receiasse que esta tão extravagante como patriotica theoria geologica não tivesse sido comprehendida, acrescentou:
--Porque... reparem. Vejam este chapéo--e tomou para exemplo o chapéo de panno, que servia a Mr. Richard durante as suas operações horticolas.--Supponhamos esta copa o mundo; sendo as saliencias das dobras os continentes, e as cavidades os mares; aquella pequena saliencia do meio, que fica isolada das outras, seja a Inglaterra. Carregando eu nas saliencias exteriores, até as desfazer, as cavidades elevam-se e vão augmentar a saliencia do meio. Vêem?
E, como para não perder a feição pessimista ainda n'esta concepção, concluiu:
--Talvez fosse uma felicidade que todas as saliencias se desfizessem de vez!
Já vêem os leitores que, embora por processos differentes, os dois compatriotas de Peel aguardam com fé viva o mesmo phenomeno na historia do futuro:--O soberano predominio da nação ingleza sobre o mundo inteiro.
Esta é de facto a crença de todo o verdadeiro inglez, diversificando apenas, como os dois grandes exemplares que o leitor tem á vista, na maneira de concebel-a realisada.
Mr. Richard sorriu á theoria historico-geologica do amigo.
--Será bom que, por cautela, nos vamos passando para a ilha, Mr. Morlays. O fundo dos mares não é grande clima para viver, e o consul de sua magestade não nos isentará de sermos engulidos como simples portuguezes.
Mr. Brains applaudiu cordialmente a observação do amigo Richard.
Á medida que se adiantava a manhã e que os odoriferos vapores da cozinha, atravessando as salas, chegavam ás pituitarias, britannicamente apuradas, dos convivas, a conversa principiou a baixar das alturas, por onde pairara, para assumptos mais terrenos e comesinhos.
Ás tres horas, sentindo o instincto a impellil-os para a mesa do jantar, abandonaram os tres inglezes o gabinete de Mr. Richard e passaram para a sala de recepção, onde Jenny e Cecilia, sentadas uma junto da outra, conversavam intimamente.
XXXIII
EM HONRA DE JENNY
--Oh! fez bem em vir, Cecilia;--disse Mr. Richard, caminhando com a mão estendida para a filha de Manoel Quentino--fez bem em vir alegrar a festa de Jenny.
--Alegrar!--repetiu Cecilia, trocando com a sua amiga um olhar de melancolia e de intelligencia.
--Alegrar, sim--respondeu Jenny, apertando-lhe as mãos com affecto.--Então cuida que não é alegria sufficiente a que a sua presença nos dá?
Cecilia suspirou.
--Está doente, Cecilia?--perguntou Mr. Richard, reparando para o ar de abatimento que se lhe lia no semblante.
--Uma ligeira indisposição, de que me prometteu hoje mesmo curar-se, em attenção aos meus annos, não é verdade?--respondeu Jenny por ella e em ar de gracejo.
Mr. Morlays, o lugubre, aproximou-se n'este momento de Jenny.
--Miss Jenny--disse elle--eu costumo saudar com jubilo os anniversarios das pessoas que estimo, como mais um passo dado para o livramento da vida.
--Oh! Mr. Morlays--respondeu Jenny, sorrindo--tão pesado lhe parece o captiveiro, para assim suspirar pelo termo d'elle?
--Deixe-o fallar, miss Jenny;--acudiu Mr. Brains--o mau humor de Mr. Morlays explica-se até pela presença de algumas brancas entre os seus cabellos ruivos e pelas duas sinistras pégadas de pata que já se lhe divisam no canto das orbitas.
Mr. Morlays fez uma careta e encolheu os hombros; mas não respondeu.
--Nós outros--acrescentou Mr. Brains--nós outros, os feios e fortes da humanidade--eh! eh! eh!... temos razão para nos lamentar, á aproximação das horas do occaso; mas as que na vida nos servem de astros... essas são sempre brilhantes; porque, até no occidente, nos encantam as estrellas. Veja pois sem cuidado correr o tempo, miss Jenny.
Esta galanteria, de um requinte britannico, mereceu a desapprovação de Mr. Morlays.
--É inexacta comparação--tornou sisudamente--essa dos astros á vida do homem. A quéda e o extinguir dos astros são ficticios. Occultam-se-nos, mas não se apagam. Melhor se compararia a vida a um foguete.
--Oh! A um foguete? Singular comparação!--exclamou Mr. Brains, rindo.
--Vamos lá a ver, vamos lá a ver--disse Mr. Richard Whitestone, sentando-se.
Mr. Morlays, medindo a sala a passos largos, desenvolveu a imagem, assim:
--O homem, como o foguete, principia a animar-se por uma faisca que se ateia; eleva-se então com chamma e estrondo, pára um momento... e depois... estoura, e cáe veloz, silencioso, extincto, deixando na terra sómente o esqueleto que o fogo já não anima.
Mr. Richard sorriu á original imagem do seu amigo e conviva.
Mr. Morlays tem razão.
--E quando daremos nós o estouro da metaphora?--perguntou o risonho Mr. Brains, mostrando uma fileira de bem ordenados dentes, e depois acrescentou:--Concordo com Mr. Morlays; mas peço-lhe que note que se ha foguetes que descem como elle diz, silenciosos e extinctos, a arte pyrotechnica tem inventado tambem alguns, cuja quéda é alumiada por lagrimas de côres, que os acompanham até á terra. Eu por mim imitarei ao caír o foguete de lagrimas... Eh! eh! eh!
A conversa continuou n'este teor e fórma, até á chegada de Carlos.
Cecilia, vendo-o entrar, aproximou-se da janella, onde Jenny se lhe foi em breve reunir.
Mr. Brains saudou Carlos, cantando:
_I'm afloat! I'm afloat, etc., etc._
que são as primeiras palavras de uma popular canção ingleza.
Carlos correspondeu, sorrindo, ao cumprimento.
Mr. Morlays não foi menos caracteristico do que o companheiro.
--Ainda mais outro anno nos encontramos aqui, Mr. Charles. Quem sabe onde para o anno terá de ir quem nos quizer procurar?
Mr. Brains apressou-se a responder.
--Ao cemiterio do Campo Pequeno, de certo que não, Mr. Morlays; porque, quando para alli resolvesse ir, escusado seria procural-o lá, porque é de crer que não estivesse de humor para tratar de negocios. Eh! eh! eh!...
A hilaridade não se communicou a Mr. Morlays, que pelo contrario ficou mais sombrio.
Mr. Whitestone, desde que o filho entrára, occupava-se em uma singular tarefa. Foi sentar-se ao piano e principiou a correr os dedos pelas teclas com presteza e com uma desharmonia só supportavel ao seu ouvido inglez.
Esta especie de divertimento era d'aquelles, a que, por excentricidade, mui frequentemente se entregava.
Felizmente para os dois convivas, os ouvidos d'elles não eram mais pechosos em cousas de harmonia, do que os de Mr. Richard; porque se não fosse isso, nem eu sei calcular os resultados gravissimos que podia ter aquella barbara occupação.
Cecilia, Jenny e Carlos, esses estavam muito absorvidos por os proprios pensamentos, para que os incommodasse o selvagem prazer de Mr. Whitestone, sob cujos dedos gemia, como um suppliciado, o magnifico piano de Erhard, victima d'esses caprichos anti-musicaes.
Emquanto isto se passava, Cecilia dizia a Jenny:
--Por favor lh'o peço, Jenny! Deixe-me ficar aqui! Eu não sei se poderia por muito tempo suster esta tristeza que se me pôz no coração. Tenho mêdo de chorar.
--Creança!--respondia Jenny--Não estou eu ao pé de si? Não seja assim fraca. Esse seu coração deu-se agora a phantasiar desgraças impossiveis, que não se concebem.
--Impossiveis?!
--Impossiveis, sim. Olhe, Cecilia; eu andei primeiro do que a menina em imaginar futuros negros. Cecilia ria ainda e eu estava já séria. Este Carlos tem-me obrigado muitas vezes a isto e d'esta vez sobre tudo...
--Jenny!
--D'esta vez sobre tudo, porque eu sabia que era um coração que elle encontrára no caminho e... aquelle estouvado podia não reparar... e magoal-o. Avisei-o.
--Ó Jenny!
--Avisei-o; porque, bem vê, Cecilia, todos os sacrificios são dolorosos. Sacrificar orgulhos, sacrificar vaidades, sacrificar até caprichos, tudo é sacrificar; e eu não imagino que isso se faça sem esforço; mas os sacrificios do coração... oh! esses...
--Matam!--concluiu Cecilia, quasi insensivelmente.
--Pois não matam? Isso sabia... quero dizer--emendou a sorrir--isso suppunha eu. Por isso pedi a Carlos que se esquecesse... Sim, que se esquecesse; no tempo em que eu lhe pedia isto, talvez ainda não viesse d'ahi grande mal.
Cecilia não respondeu. Um suspiro respondeu por ella.
--E quem sabe--proseguiu Jenny, olhando-a--se seria eu que me enganava ao pensar assim? É certo porém que meu irmão não me obedeceu.
--Não?--interrogou Cecilia, com expressão de duvida.
--Não; longe de esquecer, avivou impressões, e em poucos dias eram já tão fundas, que me assustavam.
Cecilia meneou a cabeça ainda, como quem duvída.
--Vamos, Cecilia; não me olhe d'essa maneira. Quem lhe ensinou a desconfiar assim? Com quem aprendeu esses modos de sorrir, tão pouco da sua idade?
Cecilia baixou, silenciosa, a cabeça.
--Convencida de que se passavam cousas novas no coração de meu irmão...
--E convenceu-se d'isso?
--Convenci. Não eram os antigos caprichos, muito meus conhecidos. Não eram aquellas phantasias, que tão bem se davam com os seus habitos de vida, que nem o obrigavam a alteral-os.
--Não eram?
--Não. Com grande espanto meu, vi-o mudar. Fez voluntariamente o que nem os meus rogos...--pois eu creio que bem vontade teria de me satisfazer--o que nem os meus rogos haviam conseguido. Desde que o percebi, desde que assim o vi tão outro do que sempre fora, mudei tambem de pensar. O meu unico fim, Cecilia, creia, era a felicidade de Carlos e a sua. Emquanto julguei que ella estava no esquecimento a tempo, trabalhei por apressal-o; desde que me convenci de que este esquecimento era impossivel, desde que me convenci de que não era n'elle que estava a felicidade... então... voltei os esforços em direcção diversa.
Tocou a campainha, annunciando o jantar.
Os dois inglezes, tão insensiveis ao escandalo musical perpetrado por Mr. Richard, estremeceram agora á voz do instrumento, tocado pela desembaraçada mão do escudeiro na sala do jantar.
--Para a mesa!--exclamou Mr. Richard, deixando em paz o piano--Não temos a esperar por ninguem.
Em consequencia da recente morte de Kate, os convites não se tinham estendido além dos dois intimos da casa--Morlays e Brains.
Os dois inglezes e Carlos encaminharam-se para as duas senhoras.
Cecilia, vendo-os, disse segurando a mão de Jenny:
--Jenny, Jenny; se é minha amiga, deixe-me ficar aqui!
--Que diz, Cecilia?
--Não posso, sinto que não posso forçar-me a ponto de...
Calou-se, estremecendo.
Carlos estava junto d'ella, offerecendo-lhe o braço para a conduzir á sala do jantar.
Jenny tinha fitado attentamente a sua amiga, e parecera convencer-se de que lhe seria effectivamente custoso o constrangimento de algumas horas, a que se ia sujeitar.
--Não, Charles;--disse, em vista d'isso e sem desviar os olhos d'ella--Cecilia não póde fazer-nos companhia. Está incommodada e precisa de alguns minutos de repouso.
Mr. Richard aproximou-se, perguntando o que era.
--Nada;--respondeu Jenny--mas seria crueldade constrangel-a. É um incommodo passageiro, mas, em todo o caso, é um incommodo.
--Será bom retirar-se ao quarto de Jenny.
Cecilia escusou-se, dizendo que ficaria bem alli.
Jenny prometteu vir em breve fazer-lhe companhia.
Mr. Whitestone indicou uma poltrona propria para descanso, e foram jantar.
--Que quer isto dizer, Jenny?--perguntou Carlos, encontrando-se com a irmã á porta da sala.
--Que está a chegar o momento de dizeres adeus ás tuas leviandades, Charles. Quero ver que fundo de sisudez ha n'este meu estouvado irmão.
--Mas...
--Repara que esperam por nós.
E entrando para a sala, tomaram logares á mesa.
O leitor não espera de mim a fiel enumeração de todos os pratos, com que se adornou n'este dia a mesa, sempre abundante e variada, de Mr. Richard.
Nada faltou de tudo quanto possue o cunho caracteristico da cozinha britannica, desde o _roast-beef_ ao _plum-pudding_, desde a batata ao _chester_.
Os tres inglezes fizeram as devidas honras á maestria do cozinheiro. Mr. Morlays chegou a sorrir; Mr. Brains esgotou todas as interjeições do vocabulario patrio e assegurou que nem no _Erectheum club_, em St. James _square_, se jantava melhor; Mr. Richard Whitestone contou todas as suas historias e expôz theorias de culinaria.
Jenny e Carlos eram os unicos silenciosos e preoccupados. Jenny via com impaciencia a morosidade do jantar e escutava distrahida os cumprimentos dos convivas. Carlos tremeu, como nunca, perante o inesgotavel thesouro das reminiscencias paternas.
Com todos os vagares foi o jantar aproximando-se d'aquella phase critica dos jantares, especialmente inglezes, em que a gravidade e a etiqueta são postas de lado inteiramente, em que a parte feminina levanta arraiaes e foge amedrontada ante as bandeiras da orgia que, aos primeiros _toasts_, começam a desenrolar-se; e em que os convivas masculinos, livres do unico laço que os refreiava, preparam-se a reproduzir nas salas scenas vulgares em mais baixos tablados.
Nada falta: vinhos entornados, crystaes partidos, _toasts_ interminaveis, discussões em que ninguem sabe o que discute, corpos estendidos por debaixo da mesa e, em alguns, um somno digno dos sete dormentes.
Tinha attingido o jantar de Mr. Whitestone este periodo de transição.
Jenny agradecera os primeiros brindes que lhe foram dirigidos.--O proprio Mr. Morlays fora diffusissimo na sua saudação, que parecia haver modelado por a de um personagem de Dickens, como se verá do seguinte excerpto: