Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto

Part 26

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--Está decidido--disse o louro adamado--o homem reage. O remedio é facil. Procuremol-a. Elle por certo que a não confiou á familia para guardar. Deve estar escondida aqui.

--Batamos a mata. A gazella ha de apparecer.

E n'um instante principiou desordenada pesquiza em todo o aposento. Não houve movel nem escondrijo, que não fosse revistado.

--E na bibliotheca?--disse por fim uma voz.

--É verdade! Na bibliotheca!--repetiram os outros. E todos caminharam para lá.

Carlos tremeu por Cecilia.

--Prohibo-lhes que abram essa porta!--exclamou, com voz perturbada.

--Bravo! Acertamos! Ouvem-o?

--Ah! _diavolo_! Está fechada por dentro.

Carlos respirou.

--É a primeira vez que me lembra achal-a assim. Mysterio! Deixa ver se pela fechadura...

--Carlos, abre ou manda abrir esta porta.

--Escutem. Ha rumor lá dentro.

--Deixa ouvir.

--É ella.

O que espreitava, continuou:

--Pareceu-me que vi agora o vestido de uma mulher.

--Ah!

--Foi ler _Paulo e Virginia_. Conselho de Carlos, que está dado a leituras brandas.

--Ah! ah! ah!

--Pschiu! Calae-vos.

Carlos levantou-se desesperado.

--E eu exijo silencio. Alguem se aproxima. É ella. _Incessu patuit dea..._ É mais razoavel do que tu; veio ás boas.

Carlos lembrou-se da anterior tentativa de Cecília e receiou que se renovasse.

Agora já elle lhe não poderia impedir os passos. Perdeu com esta ideia toda a força moral; sentiu-se desalentado.

A chave girou na fechadura.

--Desbarretem-se, meus senhores. Eil-a emfim!--disse um dos do rancho.

Carlos fechou os olhos, como se na presença de perigo imminente; a mão apertava-se-lhe convulsamente sobre a caixa de revolvers que tinha perto de si.

Em vez porém do tumulto que esperava ouvir, e que Deus sabe a que excesso o arrastaria, seguiu-se tão profundo silencio, que o obrigou a erguer a cabeça surprendido.

Todos os rapazes, havia pouco ainda tão turbulentos, recuavam agora calados e descobertos e como procurando occultar-se uns com os outros.

No lìmiar da porta, que se abria, apparecia a figura candida e serena de Jenny, com o braço passado pela cinta de Cecilia, a cuja cabeça, suavemente animada por um sorriso de melancolia, sustentado a custo, servia o seu hombro de apoio.

Jenny conservou-se por algum tempo assim, olhando-os com gesto composto e admirado, que parecia subjugal-os.

Havia n'esta scena um quadro que impressionava.

As feições angelicas da irmã de Carlos revelavam tanta doçura e tanta nobreza ao mesmo tempo, e as de Cecilia tanta melancolia e tambem tanta confiança na amiga a que se amparava, que os mais levianos do bando curvaram respeitosamente a cabeça diante d'aquellas duas mulheres.

Só um olhar como o de Carlos, exercitado no estudo do rosto da irmã, podia notar-lhe nos labios um leve tremor, a denunciar que áquella apparente placidez não correspondia uma completa serenidade de coração.

Era comtudo affavel e segura a voz com que ella se dirigiu aos amigos de Carlos.

--Peço desculpa de os ter feito esperar. _Julgamos_ que meu irmão tinha já saído e _viemos_ ambas procurar um livro.

E depois, mostrando-lhes Cecilia:

--É minha amiga... ou mais do que amiga... é quasi minha irmã.--E acrescentou, sorrindo para ella:--Cêdo o será, não é verdade?

Cecilia estremeceu e voltou para Jenny o olhar admirado. Ia talvez a fallar.

Jenny reprimiu-a, apertando-lhe occultamente a mão; e proseguiu, sorrindo:

--Perdôe-me a indiscrição, Cecilia; talvez até nem indiscrição fosse já, porque... estes senhores são... os amigos de meu irmão Carlos.

E estas palavras soube dizel-as Jenny com delicada inflexão de ironia na voz, que augmentou o embaraço dos que a escutavam.

Curvando-se ligeiramente para elles, Jenny saíu da sala com Cecilia.

Carlos não ousou erguer os olhos para a irmã.

Vendo-a saír, voltou-se para os seus antigos companheiros, que principiavam a formular desculpas, e disse-lhes com provocadora frieza:

--Espero que estará satisfeita a sua curiosidade. Ordenam mais alguma cousa?

--Desculpa, Carlos; nós julgamos...

--Tu bem vês que não sabiamos...

--Ó menino, acredita que...

--Palavra, que pensei que era a do dóminó.

--Tambem eu.

--Espero que não leves a mal.

--Aquillo era brincadeira.

--Adeus, Carlos; apparece. Faze-te visivel.

--Mil perdões e... e parabens.

E deixaram o quarto.

Na rua diziam:

--E esta!

--Carlos casar-se!

--_Requiescant in pace_!

--Amen.

A porta a fechar-se sobre o ultimo, e Carlos a correr á bibliotheca para ajoelhar aos pés da irmã.

--Jenny! Jenny! O amor que eu te tinha é pouco para o que te devo. É preciso adorar-te, minha irmã.

Jenny ergueu-o, e, olhando-o com expressão triste e meiga, disse:

--Deixa esse excesso de affeição para alguem, que já agora tem mais direito a ella do que eu.

E apontou para Cecilia, que, chorando, escondia o rosto no seio da amiga.

Carlos dirigiu-se a ella commovido:

--Cecilia Cecilia, quererá perdoar-me?

Cecilia estendeu-lhe a mão, sem responder, nem levantar o rosto.

Carlos curvou-se para beijal-a.

Uma lagrima assomou aos olhos de Jenny.

Erguendo-os ao céo, murmurou, dirigindo-se talvez á imagem da mãe, presente á sua imaginação:

--Obrigada! obrigada!

Que lhe agradeceria Jenny? A inspiração que d'ella lhe viera, de certo.

XXXI

O QUE SE PASSAVA EM CASA DE MANOEL QUENTINO

Voltando ao principio da manhã d'este dia, vejamos o que se passára em casa de Manoel Quentino, que assim é indispensavel á intelligencia dos ulteriores successos que temos de narrar.

Ao acordar n'aquella manhã, Cecilia não tinha ainda resolvido se aceitaria o convite de Jenny. Prolongára-se até então a lucta de resoluções, entre as quaes vacillava.

Era dia santo, como já dissemos. Manoel Quentino não tivera portanto de saír cêdo para o escriptorio. Depois de proceder a uma _toilette_, mais escrupulosa do que a dos dias e trabalho, envolveu-se no classico capote de cabeção, traste rico em memorias da vida passada, e desceu ao quintal, a fazer horas para a missa. Ahi, passeiando por baixo das ramadas, que de todos os lados o orlavam, e que já n'aquella época do anno se revestiam de folhas viçosas, aproveitava Manoel Quentino os raios de um desanuviado sol de primavera, cedendo pouca attenção ás flores dos alegretes lateraes, e ao gorgeio dos passaros, que por sobre a cabeça lhe andavam festejando a manhã.

O pensamento de Manoel Quentino vagueava longe d'alli.

Efectivamente todo o sombrio cortejo de ideias tristes, que a melancolia de Cecilia, havia pouco tempo, lhe suscitára, voltava a assenhorear-se de novo d'elle, e com a passada persistencia.

--Tambem esta vida, que ella passa, é de tão poucas distracções! A fallar a verdade! Aos dezoito annos! Sim... É preciso espairecer. Em vez de estar aqui a perder tempo, o que eu devo é ir por ahi fóra com ella.

E pensando assim, foi caminhando para casa.

--Cecilia--disse, ao encontrar a filha--a manhã está tão bonita! Vamos nós por ahi fóra?

--Aonde?

--Por ahi. Damos uma volta, antes da missa. Nós que fazemos aqui mettidos?

Cecilia, julgando satisfazer os desejos do pae, condescendeu.

Meia hora depois saíram ambos. Cecilia pensava ainda se se resolveria a assistir á festa do anniversario de Jenny.

Poucas palavras se trocaram entre o pae e a filha, durante todo o passeio. Vieram terminal-o a Cedofeita, aonde assistiram á missa.

Á saída do cemiterio, que, segundo o costume, foram depois visitar, Cecilia pareceu pela primeira vez saír da hesitação, em que desde a vespera estava, e disse, parando á entrada da rua, que a devia conduzir pelo mais curto caminho a casa de Mr. Richard Whitestone:

--Nem sei o que faça. Jenny pediu-me para ir passar hoje o dia com ella.

-Hoje!

--Sim, escreveu-me para m'o pedir...

--Como quizeres, filha... Ainda que hoje é dia santo e eu...

Manoel Quentino ia exprimir a pena que lhe causava o prescindir n'aquelle dia da companhia da filha, mas calou-se, receiando com isso constrangel-a. Cecilia comprehendeu-o porém.

--Eu sei, pae, eu sei que não gosta de se ver só n'estes dias, que passa em casa--e bem poucos são! Mas olhe, ha tambem certas companhias, que mais nos entristecem do que ainda a mesma solidão; e a minha hoje não podia alegral-o muito.

--Que dizes, Cecília? Que lembrança!

--Acredite-me.

--E por quê?

--Porque me sinto triste, e não poderia, por mais que fizesse, constranger-me.

Manoel Quentino commoveu-se a ponto de lhe apontarem lagrimas aos olhos.

--Eu já tinha notado essa tristeza, Cecilia, já. Não m'a descobres tu, que ha muito ella me dá cuidado--Mas, já que me fallaste n'ella, dize-me a razão: o que te afflige, o que é que tens? Não te sentes boa?

--Não me pergunte nada, meu pae; que não lhe posso... que não lhe sei responder.

Manoel Quentino ficou por algum tempo com os olhos na filha, que desviava os seus, e não pôde soltar palavra.

--Pois então vae--disse por fim Manoel Quentino--vae. A menina Jenny é boa e estou que te saberá consolar melhor do que eu... Vae! não serei eu que te aparte da companhia d'aquelle anjo.

Cecilia beijou a mão do pae, que, ao separar-se d'ella, lhe viu lagrimas nos olhos.

Á entrada da rua, por onde Cecilia seguiu, permaneceu Manoel Quentino até a perder de vista.

--Aquellas lagrimas! aquellas lagrimas!--murmurava elle, de mal comsigo mesmo por não as saber explicar--E eu que a não posso ver assim sem me dar vontade de chorar tambem! É forte cousa!

E continuou, com a cabeça baixa, a caminhar para casa.

Manoel Quentino, de distrahido que ia, não cortejou a vizinhança, acto de polidez, a que raras vezes faltava; e por pouco não ia passando além da porta de casa sem a conhecer.

Antonia, ao vel-o entrar só, perguntou admirada:

--Então a menina?

--A menina não janta em casa.

--Ora essa! E não me disseram nada!

--Ella resolveu agora mesmo.

--Sempre fazem cousas! E aonde foi ella jantar?

--A casa de Jenny.

--De quem?!

--De Jenny, do snr. Whitestone...

--Que me diz!

--Sim; a casa do snr. Richard Whitestone.

--Está bom, está! Bem digo eu!

--Então que é que tem?

--Nada; não tem nada. Visto isso, quer que tire o jantar?

--Sim, tire.

Manoel Quentino jantou pouco. Jantar, a que não assistisse Cecilia, não era jantar que lhe prestasse.

--Então o senhor não come?--dizia-lhe, a cada passo, Antonia.

--Não tenho vontade.

--Boa te vae!

Manoel Quentino levantou-se da mesa e foi sentar-se á janella.

Antonia, depois de sacudir a toalha, tossiu como quem tinha alguma cousa a dizer.

Manoel Quentino não deu por isso.

Antonia resolveu-se a tomar a iniciativa.

--Ora agora que já jantou, sempre lhe quero dizer uma cousa, snr. Manoel.

--Diga lá.

--Ainda que, a fallar a verdade, eu não devia talvez...

--Pois então, não diga.

--Mas, por outro lado, é tambem da minha obrigação...

--Pois então, diga.

Antonia percebeu a grande indifferenca de animo, em que estava o patrão, e sentiu vontade de instigal-o um pouco.

--Ora diga-me, snr. Manoel Quentino, o senhor é cego?

--Julgo que não.

--Pois olhe que o parece. Então não tem conhecido mudança de genio cá na menina?

A pergunta alterou de facto o tom das respostas do velho guarda-livros; foi já voltado pàra a criada e com vivacidade, que respondeu:

--Tenho, sim, por quê? Você tambem?...

--Pois podéra! Aquillo são lá os modos d'ella?

--Não são, Antonia, isso não são.

--Nem para lá caminham.

--E você não sabe o que aquillo será? ella não se lhe tem queixado de algum mal, de alguma doença?...

--Doença? ora adeus! Que eu saiba não. Elle ha muitas doenças...

--Isso sei eu.

--Pois sim, mas... algumas, em que não pensa, é que... Doença do coração.

--Do coração!--exclamou Manoel Quentino, fazendo-se pallido--Pois Cecilia queixou-se do coração? Que diz, mulher.

--Adeus, que me não entende! Quero eu dizer... Olhe... a final as cousas são assim! A menina tem dezoito annos...

--Olhem que novidade! Isso sei eu; mas queixou-se?...

--Então se sabe, se sabe, snr. Manoel Quentino, e se se não lembra de mais nada, não sei que lhe faça.

Uma ideia surgiu pela primeira vez ao espirito de Manoel Quentino, e, força é confessar, que não veio muito cêdo.

--Pois será?...--voltando-se para a criada, acrescentou com modo grave:--Antonia, você diga o que sabe. Bem vê que preciso de olhar por isso. Falle, mulher.

--Pois n'esse caso... snr. Manoel Quentino--disse a criada, como se, sómente convencida d'estas razões, se resolvesse a fallar--eu não quero encargos de consciencia, e, para seu governo, sempre lhe digo que deve vigiar por este negocio.

--Que negocio? Por que negocio hei de eu vigiar? Eu não a entendo.

--Pois não tem visto devéras o que por ahi vae?

--Eu não; você bem sabe que eu fecho a casa com as costas e por isso...

--Então aquellas visitas do filho do inglez...

--Adeus, adeus! Cuidei que era outra cousa!--redarguiu Manoel Quentino, encolhendo os hombros--Ahi vem você tambem. Pobre rapaz! Lá por ter suas verduras, já não póde entrar em uma casa, que não digam logo... Que mundo este!...

--Ai, e julga que não é assim? Então está bom. Pois ande lá, ande...

--Mas na verdade você imaginou? Ó mulher, não viu como foi e porque foi que aquelle pobre moço veio aqui a primeira vez?

--Eu, não, senhor. Pois olhe que tenho pensado bem n'isso.

--Pois não se lembra d'aquella tarde em que eu tardei e que Cecilia...

--Se me faz favor, não foi essa a primeira vez.

--Foi, sim.

--Não foi, não, senhor.

--Ó mulher! que demonio de cabeça a sua! pois, na verdade, não se lembra?...

--Eu só me lembro de que, muito tempo antes d'esse dia, veio aqui uma tarde aquelle senhor; perguntou pela menina, disse que lhe queria fallar; eu mandei-o entrar para a sala; a menina foi ter com elle; ao vel-o fez-se vermelha, como uma romã, e mandou-me sair; e eu ouvi-os estar a conversar perto de meia hora...

--Você está douda, mulher?

--Não estou, não, senhor.

--Quando foi isso?

--Logo depois do entrudo. Lembra-me bem de que foi tres ou quatro dias depois d'aquelle em que deixou ir a menina com as do Mattos; cousa que eu, no seu logar, não fazia, mas...

--Mas Cecilia não me fallou nunca n'essa visita!

--Isso sei eu.

--E você?...

A menina recommendou-me que não lhe dissesse nada, porque era uma surpreza que lhe queriam fazer... Mas, por mais que eu lhe perguntasse o que era, nada de novo.

Manoel Quentino principiava a sentir-se inquieto. Comtudo a confiança que depositava em Cecilia era tal, que, não obstante conhecer o caracter leviano de Carlos, hesitava ainda em suppôr mal do que, pela primeira vez, ouvia.

--E depois voltou?

--Até o tal dia, em que o senhor adoeceu, não; mas quem o quizesse ver era chegar, ahi a certas horas da manhã, e ao cerrar da noite, á janella.

--Sim; eu lembro-me de que ás vezes...

--Alli, a estanqueira é quem me fez reparar.

--Mas isso lá...

--Pois não tem nada, bem sei; mas, quasi sempre a menina, ás mesmas horas, estava á janella...

--Cecilia?!

--É verdade. E d'esse tempo é que vem aquella mudança n'ella.

Manoel Quentino passou a mão pela testa, como para arredar de si uma ideia afflictiva.

--Depois então--continuou Antonia--veio o pé da sua doença e dos negocios do escriptorio, e ahi o tivemos mettido em casa. Então julga o snr. Manoel Quentino devéras que elle teria paciencia para assim aturar tanto tempo, se...

--Cale-se, mulher!--exclamou Manoel Quentino, com voz alterada--Carlos é generoso. Para servir um amigo, não hesita em sacrificios.

--Será; mas olhe que não fui eu só que desconfiei.

--Era preciso ser muito infame para abusar assim da confiança de um homem velho, honrado e doente... Não; nem Carlos nem Cecilia entrariam n'essa indigna combinação!...

--Eu não digo que fosse combinação de ambos; tanto não digo eu; mas emfim... além de mim, houve quem pensasse...

--Isso sei eu; e cá recebi o golpe. A carta anonyma não deixou de me chegar ás mãos. Mostrei-a a Carlos; e saiba então que foi elle, elle proprio, que resolveu não voltar cá mais.

--Ai, sim? pois essa não sabia eu! Agora é que vejo de que casta elle é. Então quer que lhe diga? Depois que elle deixou de cá vir, uma noite ouvi correr o fecho da porta do quintal.

Era noite de luar; ainda estava a pé e espreitei á janella. A menina descia a escada do pateo.

Manoel Quentino olhava para a criada com o gesto desfigurado, e a respiração quasi suspensa.

--E depois?

--Deu-me uma pancada no coração e fui, pé ante pé, pelas escadas abaixo. Cheguei ao quintal. A menina estava á janella de grades e fallava para a rua com alguem. Com mêdo de ser vista não pude chegar-me perto e não ouvi o que diziam. Fui dar a volta, pelo lado dos limoeiros, d'onde podia ouvir melhor, mas, quando cheguei, ia a menina embora. Fui á janella, e lá o vi a elle...

--Mente! mulher! você tem estado a mentir desalmadamente!

--Ora essa, snr. Manoel Quentino! Assim Deus salve a minha alma! Isto era lá cousa que eu dissesse, se não fosse verdade?!

Manoel Quentino levantou-se e pôz-se a passeiar no quarto, com agitação.

--Pois será possivel, meu Deus, que assim possa haver maldade no coração de um homem? Carlos! Carlos, a quem eu estimava como filho, a quem eu sempre defendia, quando o accusavam de estouvado! Carlos, que se dizia meu amigo! que parecia incapaz de uma acção infame!

--Por esse mesmo tempo andava elle de carro com as comediantes...

--Se tudo isto é verdade... então... Oh! mas Cecilia tambem... Cecilia! Ella dissimular, fingir... enganar-me! Ella!...

E o pobre velho quasi se suffocava a chorar.

--Custa-me estar a affligil-o assim, snr. Manoel Quentino; as então? que se lhe ha de fazer?--continuava Antonia--Quando ha pouco me disse que a menina tinha ido jantar a casa do inglez... veja lá, sabendo eu o que sabia... veja como devia ficar.

--Jenny foi quem a chamou; junto d'aquella nada receio por Cecilia... De todos posso vir a duvidar--quem sabe o que terei ainda de aprender?--mas de Jenny, d'essa!...

--E seria de facto a snr.ª Jenny quem mandou chamar a menina?

Manoel Quentino fitou a criada com olhar fulgurante de indignação.

--Que damnada tenção tem você hoje de me inquietar, mulher? Que maldita suspeita é essa, lingua de vibora? Não vê que póde matar-me com essas palavras envenenadas, não vê, demonio?

--Deus me perdoe, snr, Manoel Quentino, que não faço isto por mal. Mas, sabe o amor que tenho á familia, e não queria que alguma desgraça acontecesse...

--Cale-se, mulher, cale-se! Eu sei que são boas as suas intenções; mas Cecilia disse-me que Jenny fora quem a convidara.

--Pois eu não digo que não. Eu sei até que a menina hontem recebeu uma carta de mando da snr.ª Jenny; ella não me disse o que ella continha, nem eu lh'o perguntei. Mas, esta manhã, logo depois que saíram, veio ahi um criado de lá com outra carta; não era o mesmo, mas sim um que eu vi, no dia do passeio com a comediante, e que, pelos modos, é criado só do rapaz.--De quem vem essa carta? perguntei-lhe eu.--«Vem, disse o brejeiro, com modos avelhacados e sorrindo, vem de miss Jenny». Mas, eu não sei... a carta é tão differente das que...

--E essa carta?--perguntou Manoel Quentino, fóra de si.

--Essa carta está lá dentro.

--E Cecilia?...

--Esta não a leu ella, porque veio depois que saíram.

--Vá buscar-m'a.

--Mas talvez seja da filha, talvez; eu...

--Vá buscar-m'a--exclamou Manoel Quentino, elevando mais a voz.

Em poucos momentos foi executada a ordem.

Manoel Quentino passeiava, levava as mãos á cabeça, fechava os olhos, aspirava com ancia, parecia louco.

Antonia trouxe a carta. Manoel Quentino lançou os olhos para o sobrescripto e estremeceu.

Reconhecera o talhe da lettra de Carlos!

Deixou-se cair com desalento na cadeira que tinha proxima.

--Ó meus Deus! estarei destinado a este infortunio?...--murmurava elle, com a cabeça escondida entre as mãos, através das quaes passavam as lagrimas.

Depois, com movimento de raiva, tentou abrir a carta que conservava ainda nas mãos; mas suspendeu-se por um melindroso sentimento de delicadeza, que não conseguiu vencer.

--Não, não a abrirei! Não ha infamia que desculpe uma villeza.

Antonia, que promettera farto alimento á curiosidade, suspirou de despeito.

--Então não lê?

--Não--respondeu sèccamente Manoel Quentino, que principiou de novo a passeiar pela sala a passos largos. Depois, tomando uma subita resolução, parou e disse, erguendo a cabeça:--Antonia, o meu chapéo e o meu casaco.

Antonia abriu para elle os olhos espantados.

--Credo! que vae fazer, senhor?

--O meu chapéo e o meu casaco!

--Snr. Manoel Quentino! onde é que quer ir? O senhor não está em si!

--Não ouviu, mulher?! O meu chapéo e o meu casaco!

Havia na voz do pae de Cecília uma entonação especial, que, sendo nova para a snr.ª Antonia, não pôde a experiencia d'ella dizer-lhe de que seria presagio, e por isso prudentemente resolveu obedecer, sem mais commentarios.

Dentro em pouco, voltou com os objectos pedidos, dizendo apenas, como a mêdo:

--Mas, aonde vae, senhor?

--Saber a verdade--respondeu Manoel Quentino; e, sem ulterior explicação, desceu apressado as escadas.

Antonia parecia paralysada de espanto.

--Sume-te!--dizia ella--O homem vae varrido! Ora queira Deus! queira Deus que elle não vá para ahi fazer alguma! Nossa Senhora nos livre de tentações do demonio e dos mais inimigos da alma.

A snr.ª Antonia professava um odio, desenganadamente cordial, contra os taes inimigos que mencionou.

XXXII

OS CONVIVAS DE MR. RICHARD

Na mesma manhã, em que se realisaram os acontecimentos narrados nos ultimos capitulos, Mr. Whitestone, depois de muito lidar no jardim e na estufa, transplantando, mondando, alporcando, semeiando, regando as varias plantas da sua collecção, com não pequeno detrimento de muitas, recolhera-se emfim ao gabinete, e por curiosidade abrira o volume da _Vida e Opiniões_ de Tristram Shandy, mina inesgotavel de prazer e de instrucção para o bem disposto _gentleman_. De cada vez que o lia--e raro era o periodo de vinte e quatro horas que passava sem o fazer--descobria no livro cousas novas, sérias, jocosas, philosophicas, de profundeza especulativa, de utilidade prática, tudo emfim. Mr. Richard mostrava-se intimamente convencido da opinião expressa por o proprio Sterne, a respeito d'esta obra singular e de difficil classificação: «O verdadeiro _Shandeismo_ dilata os pulmões e o coração (diz elle algures), e á maneira de todas as affecções que participam d'esta propriedade, faz com que o sangue e os outros guias vitaes do corpo corram livremente em seus canaes e que gire livre e desimpedida a roda da vida.»

Ora effectivamente meia hora de leitura de uma pagina humoristica de Sterne era em Mr. Richard remedio efficaz contra melancolias e contrariedades na vida.

Abrira Mr. Richard o livro ao acaso, e lia agora a pagina, em que se diz como o pae de Tristram, ao saber da morte de um dos filhos, encontrára lenitivo, em lhe ser este acontecimento pretexto para considerações philosophicas a respeito da morte.--«Um bem que encadeiasse a lingua de meu pae (diz Tristram), e um infortunio que a soltasse, eram quasi iguaes para elle, e ás vezes era o infortunio o mais apreciado dos dois.»

Estas palavras deram que pensar a Mr. Richard; elle imitava estes apreciadores de vinho que conservam muito tempo no paladar cada gole que sorvem, e olham com indignação para os grosseiros bebedores, que despejam de um trago tão preciosa bebida.

--E é assim;--reflectia elle, pousando o livro e saboreando a consideração que lera--ou mais ou menos succede o mesmo com toda a gente. Se fosse possivel fazer correr o mundo tanto á vontade dos que d'elle murmuram constantemente, que se lhes tirasse todo o pretexto de murmurar, causar-se-lhes-hia não pequena mortificação.

Estes pensamentos foram interrompidos por o criado, que entrou para annunciar:

--Mr. Morlays.

--_Verbi gratia_--disse para si Mr. Richard, depois de ter dado ordem de mandar entrar o annunciado.