Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto

Part 25

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Carlos terminava por pedir a Cecilia, que lhe revelasse tambem o estado dos seus sentimentos. «Qualquer que seja a resposta, obrigar-me-ha a um passo decisivo para o meu futuro», terminava elle.

Acabava de assignar, fechar e sobrescriptar esta carta, e pensava na maneira de a enviar ao seu destino, quando ouviu um som de passos e de vozes, que cada vez parecia mais proximo, até que muitas, repetidas e violentas pancadas fizeram oscillar a porta do quarto, como se ameaçasse um arrombamento.

Carlos levantou-se em sobresalto, sem que lhe occorresse logo a explicação de todo aquelle ruido.

--Olá, santo ermitão--dizia uma voz pelo buraco da fechadura--abri a porta a uns pobres romeiros, que de longe vem, attrahidos pela fama da vossa piedosa vida.

--_Monsieur Charles_--continuava outra voz--_lás des soins d'ici bas, se retira loin du tracàs_, á maneira do rato da fabula, que se penitenciava em um queijo; queira Deus que este tambem...

--Por causa de uma mulher recolheu-se Achilles á tenda, abandonando os companheiros. Os invulneraveis teem destas fraquezas.

--Alto lá, a insinuação é grave ou, pelo menos, anticipada. Nada de condemnar antes de ouvir.

--Abre, abre, Carlos; por ordem superior!

Carlos teve ainda alguns momentos de hesitação.

A vozeria redobrava; repetiam-se, com mais violencia, as pancadas na porta.

Resolveu-se emfim a abril-a.

Entraram. Eram os principaes companheiros dos seus passados divertimentos, muitos dos quaes já encontramos n'aquelle jantar da Aguia d'Ouro. Fartos de o aguardarem todas as noites, sem que em nenhuma de tantas o vissem apparecer, tinham resolvido procurar esse transfuga dos seus arraiaes.

Operou-se completa mudança de scena, digna, pela celeridade, de um tablado inglez.--Em poucos momentos, um bando de rapazes invadiu o quarto; e cêdo, cadeiras, mesas, sofás e leito foram occupados por elles, como por um enxame de abelhas.--Tudo era desordem minutos depois.

--Então que é isto? que é isto? Que quer dizer esta mysteriosa reclusão?--perguntava um, estendendo-se no sofá, em postura digna do sultão.

--Como se ha de explicar este eclipse total de um dos mais luminosos astros da nossa brilhante pleiade? A Venus do proscenio de S. João chora por ti; o genio que preside á feitura das costelletas da Aguia esmorece; no Guichard a deusa do paradoxo lamenta um dos seus mais fervorosos servos; é uma serie de calamidades por ahi além. Como as explicas tu?--Isto dizia outro, vasando meio vidro de _curious essence_ sobre o fino lenço de bretanha.

--Expliquem-as como quizerem--respondeu Carlos, sentando-se com enfado, que não procurava encobrir.

--Ora que tem isso que explicar? disse o do sofá--Não fallaram ahi em eclipses? As minhas recordações de lyceu dizem-me que o eclipse é em geral o resultado da interposição de um astro entre nós e o eclipsado. Procurem aquelle que nol-o tem occulto...

--Imaginem que estive doente--acudiu Carlos, tentando desviar a conversa da direcção que este seu amigo lhe dera.

--Rejeitada a explicação por maioria--bradou um rapaz louro e de modos feminis, typo de Apollo de _cake_, cartaz vivo de cabelleireiros e alfaiates, ageitando ao espelho as complicadas madeixas de um cabello monumental.

--Por unanimidade--bradaram mais dois.

--Adopto-a eu--contradictou um occupado a despejar quantas gavetas encontrava, á procura de lumes para accender o charuto.--Carlos está doente, mas... do coração... Pois que é o amor?

--_Ah nhe d'amore La fiamma io sento_

trauteou o do toucador, cantando a aria de Rosina.

--A tua alma está doente, Carlos--sentenciou um estudante de medicina, que era tido na conta de espirituoso.--E essa pathologia é a minha especialidade.

--Que falle a sciencia então; que falle a sciencia--exclamaram alguns.

O estudante sentou-se ao lado de Carlos, revestiu-se de um ar de gravidade doutoral, e tomando-lhe'o pulso, principiou:

--A alma padece de mui variadas fórmas. Temos os pruridos da duvida, doença chronica nos philosophos que procuram a certeza; hypertrophias de crenças, mal frequente aos vinte annos; aneurismas de aspirações, muito vulgares em bachareis formados; ictericias de desespêro, nos chefes de familia numerosa; fracturas de caracter, nos homens politicos; luxações de senso commum, nos poetas; paralysias de ociosidade, nos empregados publicos; dyspepsias de indignação, nos contribuintes; _noli me tangere_ de susceptibilidades, nos deputados fluctuantes; convulsões de enthusiasmo, em afilhados de ministros; marasmos de desalento, em pretendentes sem protecção; cancros de exigencias, em diplomatas indispensaveis; epilepsias de ciumes, nos maridos; e as cataractas do amor, em...

--É a doença de Carlos, é a doença de Carlos.

Carlos moveu-se com impaciencia.

--Pois é terrível doença!--continuou o orador--Vejamos. Causas:--É hoje inquestionavel que esta especie de cegueira procede de ordinario da exposição do doente ao fogo e esplendor de uns olhos e ao halito embalsamado de uns labios de mulher. Para evitar o contagio construíram-se em tempo varios estabelecimentos hygienicos a que chamaram conventos. A doença porém zombou d'elles, como costumam fazer as verdadeiras epidemias dos lazaretos e cordões sanitarios, e até no famoso hospicio de Thebaida se manifestaram casos d'ella. A mocidade é condição favoravel para se contrahir o mal; porém na velhice é elle mais para temer, por de mais tristes consequencias. De resto, traz de ordinario comsigo esta molestia sérias complicações.

Carlos mordia os labios de impaciencia; o amigo continnuou, entre as gargalhadas dos outros:

--Os symptomas são variados. Em geral o doente tem physionomia de parvo caracteristica; no intervallo dos accessos cáe em uma especie de beatifica idiotia, da qual nem os causticos o arrancam. Nos paroxismos chega a arrepellar os cabellos, a amarrotar os collarinhos, a soltar gritos, que bolem com a vaidade dos tigres, e arrulhar de maneira que causa o desespêro dos pombos. Nos casos mais fortes, a doença toma um caracter de malignidade e o doente faz-se poeta. N'este estado o medico perde as esperanças e reclama os sacramentos... do matrimonio.

--E o tratamento? e o tratamento?--perguntaram alguns rindo.

--A hygiene é tudo, meus amigos; mal vae se a profilaxia não atalhou a molestia. Nas _Confissões_ de João Jacques allude-se, como preservativo, ás mathematicas. Não approvo. Para mim é averiguado que as mathematicas tem só por effeito o imprimir á doença a feição perniciosa. O mathematico amoroso é a mais rebelde especie de doente, de que ha noticia. Entra nos incuraveis. Os meus preceitos são outros. Recommendo a gastronomia, porque as funcções do estomago e do coração são antagonistas. Aconselho a leitura do _Feliz independente_, e de todas as obras de bom senso--antidoto do amor.--Mas se a molestia, apesar de tudo, progride, então o especifico mais heroico para radicalmente a curar...

--Qual é?--perguntaram simultaneamente.

--O casamento.

De todos os circumstantes foi Carlos o único que não applaudiu a dissertação do amigo. Passeiava a passos largos com impaciencia crescente.

--Peço-lhes, por especial favor, que me deixem em paz--disse elle, acalmada a trovoada de gargalhadas.

--Deves-nos uma confidencia--tornou-lhe o do sofá, tomando uma posição ainda mais orientalmente commoda.

--É uma satisfação--acrescentou outro, empunhando um florete, e pondo-se em posição de esgrima.

Carlos nunca se sentira de tão má vontade para com os seus amigos.

--A cousa é facil de explicar--disse elle sêccamente.--Sabem que sou, que sempre fui homem de caprichos. A agradavel convivencia dos meus amigos principiara a enfastiar-me de morte. Resolvi pois furtar-me ao prazer--invejavel--de os ver. Ahi teem. Passando-me isto, encontrar-me-hão de novo talvez, e talvez que não.

--Nada, nada. A camara, ouvidas as explicações do ministro, não se dá por satisfeita, nem passa á ordem do dia--replicou o do florete.--Ha ainda cousas a esclarecer. Você deve-nos um relatorio. Aquella celebre mascara? aquelle mysterioso dominó, que prometteu seguir até o fim do mundo, nas vesperas da sua sequestração? Nunca mais se fallou em tal, e ha quem insista em ver ahi o principio de tão subita conversão.

Carlos recebeu uma desagradavel impressão com a importuna lembrança e sentiu vontade de tomar a serio a posição bellica, que o interpellante conservava, e fazel-o arrepender de possuir tão boa memoria.

Limitou-se porém a responder:

--Não me perguntem cousa alguma a esse respeito, porque nada lhes posso dizer.

--Ah! mysterios!... Ai, amor! amor!--exclamou o do espelho, e continuou, cantando:

_Dove non ride amore Giorno non v'ha sereno..._

--Deixem Carlos; um juramento, feito a horas mortas, tendo por testimunhas as estrellas, e uns olhos, mais brilhantes ainda, é sagrado.

--Nada posso dizer, porque nada sei--acudiu Carlos, despeitado pela interpretação que deram ás suas primeiras palavras.

--E nada sabes, porque nada viste? Meu caro, a tua discrição vae sendo de mau gosto--disse o do sofá, executando um movimento, em virtude do qual lhe subiram as pernas cincoenta centimetros e lhe desceu outro tanto a cabeça.

--_Eureka_! _Eureka_!--bradou um que se aproximára da mesa--uma prova irrecusavel do crime!... O instrumento do delicto! Uma carta!...

A estas palavras Carlos estremeceu. O da descoberta empunhava com gesto triumphante a carta escripta momentos antes a Cecilia.

--Uma carta! E de que especie?--perguntava o côro.

--Ora! _papier rose_ e _odeur enivrant_--respondeu o outro, aproximando-a do nariz, com gesto expressivo.

Carlos teve vontade de atirar pela janella fóra aquelle seu amigo, que proseguiu:

--E o sobrescripto diz...

--O quê?... o quê?...--perguntaram todos, acercando-se d'elle com ardente curiosidade.

--É indiscrição de mais!--exclamou Carlos, levantando-se para lhe arrancar a carta das mãos.

Os outros detiveram-o.

--Que é isso? D'onde te surgiram, á ultima hora, esses escrupulos de donzella ingenua?

--Prohibo-lhes que... -- dizia Carlos, esforçando-se por se lhes livrar dos braços.

--Ora deixa-te de pieguices--respondiam elles, rindo e continuando a segural-o.--Lê tu d'ahi depressa, antes que o leão se solte. Olha que está furioso! Não imaginas.

--«Excellentissima senhora»--lia vagarosamente o da carta, como para prolongar mais a scena que o divertia.

--Ah... Ex... cel... len... tis... si... ma!--repetiam os outros, accentuando cada syllaba.

--Cecilia de...--continuava o que lia.

--Ce... ci... lia! Oh nome musical!

--Phylarmonica invocação!

--Santa patrona da harmonia!

--Inspiradora da harpa!

Por um movimento mais energico e imprevisto, Carlos conseguiu afastar o grupo, que lhe estorvava a passagem, e correndo á mesa, tirou finalmente a carta das mãos do que a havia descoberto.

--Ha certas familiaridades, para que não auctoriso ninguem--disse elle, pallido e agitado de indignação e de raiva.

Depois tocou a campainha com violencia.

Acudiu ao chamamento o seu criado particular.

Carlos entregou-lhe a carta, dizendo:

--Leva ao seu destino.

Ia o criado a retirar-se, quando elle o reteve para lhe dizer ainda a meia voz:

--Se te perguntarem... dize que é do mando de... _miss_ Jenny.

O criado, mostrando ter comprehendido, saíu.

Todos haviam guardado silencio até então, seguindo com pasmo os movimentos de Carlos.

Depois do criado se retirar, ainda este silencio se manteve por algum tempo; a final uma voz disse:

--Bonito final de acto! O criado sáe, Carlos senta-se sorumbatico, e os outros actores contemplam-o attonitos e... aparvalhados--_Tableau_.

A estas palavras, todos se entre-olharam e, como se se achassem uns aos outros ridiculos, soltaram unisona gargalhada.

Carlos julgou melhor sorrir tambem, ainda que interiormente se lhe estivesse redobrando a impaciencia.

--Palavra de honra!--continuou um--que nunca vi Carlos assim. Está romantico.

--Ultra!

--Furioso!

--Como um leão!

--Como um touro!

--Como um turco!--disse o de tendencias orientalistas.

--Vá, vá, Carlos; observa os bons principios. O amor fez te selvagem. Civilisa-te.

--Conta-nos a historia d'essa Cecilia.

--É alta ou baixa?

--Morena ou loura?

--Typo grego ou oriental?

--Aposto que é a do dóminó.

--Com certeza.

--Vá, homem; conta-nos como isso principiou.

--Olha que uma paixão concentrada é um ninho de aneurismas; cautela!--disse o medico das doenças de alma.

--Cecilia! É euphonico na verdade!

--Peço-lhes que não continuem a fallar assim de um nome que eu... respeito.

Uma risada geral acolheu o pedido.

--Ah! ah! ah! Estás muito bom!

--Está delicioso!

--Nunca o vi apurado a este ponto!

--Ó Carlos!

--_Povero amico~_!

O rubor de despeito e de cólera tingiu as faces de Carlos.

--Repito. Que eu respeito. Julgo que me darão licença para poder fallar serio alguma vez.

--Ah! de certo. Mas, sempre que isso acontecer, eu não me hei de poder ter com riso.

--Tu a fallares serio!

--Então de facto estás apaixonado? Pois conta-nos isso. Bem sabes que os amigos são para as occasiões.

--_Amicus certus..._

--Canta a tua aria de confidencia, que o côro te secundará...

--Quando não, procuraremos, descobriremos, e depois então seremos implacaveis, crueis! Vê lá!

--Fatal dóminó!

--Pois acreditas?

--É elle com certeza.

--Ó Carlos, acautela-te. Colheste a flor em mau terreno; apanhaste a perola em agua bem envolta, um baile de mascaras!

Carlos tentou obrigal-os ao silencio pelo silencio.

--Estou resolvido a não lhes dar explicações. Por isso quando quizerem deixar de ser inutilmente importunos...

Ainda por muito tempo não adoptaram elles essa resolução. A assembleia manteve-se em ruidosa e desordenada discussão por mais de meia hora. Carlos fingiu ler.

Emfim viu-os sair e respirou, como se livre de um peso, que lhe comprimisse o peito.

--Adeus, Carlos, _muchas venturas_!--dizia um.

--Faço votos pela tua felicidade--secundava outro.

--Adeus, adeus.

Um cantava:

Ai quem me dera em Sevilha, Onde a travêssa hespanhola Sob a elegante mantilha As negras tranças enrola.

E a alegre companhia abandonou tumultuariamente o quarto.

XXX

PESO QUE PÓDE TER UMA LEVIANDADE

Com a saída dos amigos, não se dissipou immediatamente em Carlos a má impressão que lhe deixára aquella visita.

Não sei que haja alguem tão indifferente e sobranceiro á opinião alheia, que possa ouvir, sem se commover e revoltar, o nome só que seja de qualquer pessoa estimada, pronunciado menos reverentemente por labios estranhos e de mistura com as phrases e palavras de uma conversa leviana.

Um delicado pudor de coração sobresalta-se, quando assim exposto a olhares profanos o idolo do seu mais puro e secreto culto.

Desgostoso com os outros, não estava Carlos mais satisfeito comsigo. Soltára inconsideradamente da mão a carta escripta a Cecilia, e só agora reflectia na pouca delicadeza com que o fizera, e na inconveniente escolha de emissario. Um outro motivo de inquietação o perturbava ainda. No momento de expedir o criado com a mensagem, esquecera-lhe que, sendo dia santo, Manoel Quentino estaria provavelmente em casa; e como poderia Cecilia occultar-lhe o conteúdo da carta, ainda quando lhe dissesse que era de Jenny?

Todas estas considerações foram, a pouco e pouco, levando Carlos a um d'esses estados de impaciencia e de agitação de espirito, inconciliaveis com o repouso do corpo, o qual provocam a acção, ao movimento.

As indefinidas aspirações que, em taes estados, sentimos, sendo superiores aos meios de que dispomos para satisfazel-as, accumulam em nós excessos de energia, que se revelam por uma actividade sem plano, sem fim, á qual cedemos como a necessidade organica, não tentando, nem conseguindo regulal-a ou conduzil-a.

Por isso, como se no limitado espaço do quarto abafasse, Carlos levantou-se para saír.

Transpunha já a porta, que abria do quarto para o jardim, quando o estalar da areia sob o pizo leve de alguem que caminhava na rua proxima, lhe fez desviar a cabeça.

Por pouco lhe escapava dos labios uma exclamação de prazer.

Era Cecilia.

Esta inesperada apparição vinha tão completamente realisar os secretos e vagos desejos, que o estavam agitando; parecia tanto ser o mysterioso effeito das evocações do proprio coração, que--illusões só concebidas por quem já assim as sentiu alguma vez--Carlos quasi acreditou ser verdadeiro milagre de amor a presença de Cecilia, alli, n'aquelle momento. E tanto se convenceu d'isso, que nem tentou dissimular o que estava sentindo. Viu-a e persuadiu-se de que viera ao appêllo, que elle lhe dirigira, de que a leitura da carta bastára para a determinar, de que, cheia de confiança, vinha para dizer-lhe que aceitava a homenagem do amor, que elle lhe offerecia, e o pagava com o seu.

Dominado por este pensamento, do qual rirá sómente o leitor, que tenha já passado os quarenta annos, Carlos estendeu a mão tremula para a pobre rapariga que, mais tremula ainda, o fitava, e murmurou:

--Oh! obrigado, Cecília; obrigado por ter vindo!

Cecilia olhava-o admirada; não comprehendia ou receiava comprehender demasiado o sentido d'aquellas palavras.

--Agora ouça-me, ouça-me por piedade, Cecilia; quero dizer-lhe tudo o que em mim se tem passado desde que pela primeira vez a encontrei; ouça...

E naturalmente Carlos conservava entre as suas a mão de Cecilia, e esta, como surprendida ainda pela subita scena que estava bem longe de esperar, parecia haver perdido a consciencia do que se passava, e nem tentava retirar-se.

Carlos proseguiu:

--Cecilia, se veio, foi porque acreditou que havia sinceridade nas palavras que eu lhe disse, não é verdade? Não é verdade que não suspeitará nunca mais que seja um simples galanteio, indigno de si, o que me leva a repetir-lhe uma, e mil vezes, que a amo?

Estas palavras restituiram a Cecilia a consciencia que perdera quasi. O sangue abandonou-lhe subitamente as faces, para cêdo affluir com mais violencia a ellas; saiu-lhe dos labios um grito que mal pôde reprimir, e tentou retirar a mão, que Carlos continuava a segurar nas suas.

--Snr. Carlos!--disse ella, com a voz agitada de sobresalto e confusão.

--Não se retire assim, Cecilia. Nada receie. Amo-a muito, mas respeito-a tanto, quanto a amo; e mais depressa...

Não pôde continuar; um rumor de passos e de vozes, que se ouviu na rua, e já proximo ao portão do jardim, fel-o estremecer.

Teve um presentimento; obedecendo-lhe attrahiu rapidamente Cecilia para dentro do quarto, em cujo limiar se passára esta curta scena, e fechou sobre si a porta com precipitação.

Cecilia olhava-o assustada.

Ia a bradar, quando Carlos lhe pôz a mão na bôca, dizendo:

--Silencio por piedade!

Foi prudente. O jardim era já de novo invadido por a mesma turba de estouvados que, momentos antes, abandonára o campo. Chegaram ainda a tempo de verem fechar a porta do quarto e saudaram a descoberta com gargalhadas.

Passados momentos, escutavam-se-lhes as vozes de fóra.

--Abre a porta, abre a porta; agora é inutil a dissimulação, Carlos. Seguimol-a, tivemos um presentimento; vimol-a entrar. Ha de ser ella. Não o negues. Abre!

Cecilia, ao escutar estas palavras, sentia-se desfallecer.

--Oh! meu Deus!--exclamou, erguendo assustada as mãos para o céo.

Carlos parecia fulminado.

--Então, Carlos, então? Abre, que maneiras novas são essas? Tu não eras assim.

--Isso fica-te mal.

--Só queremos vel-a e retiramo-nos.

--Vel-a e apresentar-lhe os nossos respeitos.

--Então, então?

Carlos teve um momento de desespêro. Sem bem attender no que fazia, sem calcular consequencias, deu um passo em direcção da porta, com o olhar inflammado e os labios tremulos de cólera.

Impediu-lhe porém a passagem Cecilia, que quasi lhe caiu de joelhos aos pés.

--Quer-me perder, snr. Carlos!--dizia ella com a voz tomada de afflicção--Quer-me perder?!

Carlos parou, e tentando erguel-a disse, não menos commovido:

--Cecilia; juro-lhe pelo que ha de mais sagrado que...

N'este momento uma das vozes dizia:

--Então, avarento, não nos queres mostrar essa tua Cecilia?...

Estas palavras fizeram estremecer a filha de Manoel Quentino.

Ao ouvir assim o seu nome pronunciado, e d'aquella maneira, por labios estranhos, ergueu-se com um movimento energico, cheio de orgulho e de dignidade revoltada, e, cobrindo-se-lhe as faces do rubor da indignação, disse, voltando para Carlos o olhar cheio de amargura:

--Em que lhe tinha merecido eu isto, senhor?

--Cecilia!...--balbuciou Carlos, empallidecendo.

Foi ella a que d'esta vez, afastando-o com soberana altivez, caminhou para a porta em passo firme e seguro.

Carlos collocou-se diante d'ella.

--Que vae fazer?--exclamou com voz supplicante.

--Deixe-me! Menos de receiar para mim é, alli fóra, a presença d'essa gente, do que aqui a sua protecção _generosa_.

Esta ultima palavra saiu-lhe dos labios quasi expressiva de despreso.

--Cecilia, pois julga?...

--Alli póde haver crueldade, que nem as minhas lagrimas commovam, mas aqui... ha peior... ha a infamia... que me feriu no coração.

E o tom commovido, com que disse isto, mostrava começar a dissipar-se já a energia, de que se inspirára ao principio.

Á palavra «infamia» Carlos deixou tambem o irresoluto embaraço, que o enleiára até então; tomando as mãos de Cecilia e olhando-a em face, disse-lhe, tendo na voz toda a eloquencia da sinceridade:

--Cecilia, não ha tempo agora para me justificar. Mas aceite-me um juramento. Pela memoria de minha mãe, pela vida de meu pae, pela felicidade de minha irmã lhe juro que não mereço essas suspeitas.

Um hypocrita poderia pronunciar este mesmo juramento, mas não com o tom de persuasão e de verdade que a voz de Carlos possuia n'aquelle instante.

Não se mente assim.

Cecilia acreditou-o; todas as suspeitas, que por momentos lhe haviam assombrado o espirito, se desvaneceram.

Extincta a indignação, com a força ficticia que emprestára áquella natureza feminina, readquiriu o imperio perdido á brandura propria do sexo, que com razão n'ella confia, como na mais irresistivel arma.

Assomaram-lhe por isso, e abundantes, as lagrimas aos olhos, e, cortada de soluços, só pôde murmurar, apertando convulsivamente a mão de Carlos:

--Salve-me! Salve-me então, snr. Carlos; que estou perdida!

O ruido que, durante esta rapida scena, mais rapida a passar-se do que a descrever-se, não havia cessado, redobrava agora de vehemencia.

Carlos só achou um meio para sair d'aquella situação. Correu á sala da bibliotheca, e abriu-a. Cecilia fugiu para ella e quasi instinctivamente fechou a porta atraz de si.

O expediente era arriscado ainda, porque os criados podiam ver apparecer Cecilia d'aquella parte da casa, o que não menos a comprometteria. Não occorreu outro porém á lembrança de Carlos.

Depois de procurar por alguns instantes desvanecer todos os vestigios da agitação, que a scena descripta lhe causára, foi abrir finalmente a porta aos seus importunos amigos.

--Então tomaram-me hoje para victima de motejos, meus senhores?

--Deixa-te de ares de tyranno de comedia, que te não vão bem. Vamos a saber que é d'ella?

--Quem?

--Ora, quem! A rapariga?

--Continuam as zombarias?

--Homem, não o negues. Encontramol-a alli acima, á esquina. Não sei qual foi de nós que teve um diabolico presentimento. Seguimol-a de longe. Vimol-a hesitar, ao chegar ao portão. Symptoma infallivel! A final entrou. Corremos. Ainda assistimos ao fechar da porta... e agora esta demora pouco delicada... a tua má vontade... Demais, a alguns pareceu ouvir rumor de vozes aqui dentro. Ora vamos; confessa.

--Não te faças piegas; que sentimentalismos são esses?

--Tu que n'estas cousas foste sempre dos mais exigentes; que sempre pugnaste por os direitos de boa camaradagem!...

--Eu que o diga. Lembras-te, d'aquella vez na Carriça?

--E em Leça commigo? Cheguei a desesperar com as exigentes curiosidades d'este senhor.

--Vê lá se preferes que a procuremos.

--Querem obrigar-me a ser incivil, mandando-os saír?

--Incivil estás tu sendo já.

--E tu a fazeres drama, Carlos! Desconheço-te.