Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto

Part 23

Chapter 23 3,913 words Public domain Markdown

--Pois de tudo isto me accusaram ha pouco... E foi meu pae!

--E julgas que o pensava, ainda quando t'o dizìa... se o disse?

--Se o não pensasse, calar-se-hia ao ver o mal que me causavam aquellas accusações e a maneira por que eu as repelli... mas insistiu.

--Perdôa-lhe tu tambem isso. Vamos; comquanto eu não faca a injustiça de te suppôr capaz de acções, tão carregadamente más, como essas que dizias, acredito tambem que não seja de tudo um justo este incorrigivel irmão que tenho, e creio que precisará um pouco da indulgencia, que recusa ter para com os outros. Tudo isso passou já. Olha, meu Charles, tu deves fazer como os lagos e como os prados, que não conservam vestigios das nuvens que os assombraram, ao passarem por diante do sol. Se visses como o pae ficou, assim que te retiraste da mesa! Coitado! Se foi injusto comtigo, está pagando bem cara a injustiça! Acredita que a sente mais do que tu. Eu estava a reconhecer n'elle o desejo de te pedir desculpa por alguma cousa, de que se arrependia já. Mas, que queres? estas passagens não se podem fazer assim depressa, ainda que haja a melhor vontade. E tu não lhe déste tempo. Serias um anjo, Charles, se fosses bom e generoso a ponto de...--E olha que era uma vingança tambem.--Se fosses bom e generoso a ponto de voltares para a sala e vires fazer companhia ao pae esta tarde...

--Tu, que me conheces, Jenny, como pódes lembrar-te d'essa proposta? Não sabes como eu sou? Percebeste alguma vez em mim a aptidão para dissimular, de que precisaria, se quizesse fazer o que me indicas? Os meus resentimentos são curtos, é verdade; mas, emquanto duram, não sei disfarçal-os. Ámanhã já nada terei na memoria talvez de tudo isto; mas hoje, mas agora, aggravaria o mal, se me apresentasse tão cêdo diante do pae.

Jenny não insistiu, porque reconheceu a verdade d'esta reflexão do irmão. D'ahi a pouco, disse-lhe:

--Dou duas horas de vida ao teu resentimento, e já é suppôl-o muito vividouro. Ao anoitecer, nem sombras haverá d'elle. Acompanhar-nos-has então a casa de Mr. Smithfield, o que será o maior prazer que pódes causar ao pae; e o dia de ámanhã virá sem nuvens.

--Não, Jenny, não vos posso acompanhar esta noite.

--Não digas que não, Charles. Então és assim reservado?

--Não; mas... tenho destino para esta noite já.

--E de tanta urgencia, que não possas...

--Não posso faltar, não.

--Ó Charles, não ouviste o que o pae disse?--«Mr. Smithfield é um homem que tem feito serviços á casa...»

--Hoje não posso; amanhã visitarei esse senhor.

--Ámanhã partem elles para o Minho.

--Tanto peior. Vêl-o-hei na volta.

--Vaes desafiar uma tempestade, recusando-te a tão pequeno sacrificio.

--Que querem? Digam a esse homem, que eu tenho mau caracter, que sou desagradecido, intratavel, grosseiro, egoista; e que por isso não deve estranhar a minha pouca pressa em ir dar-lhe os emboras pela sua feliz viagem.

Carlos disse tudo isto com impaciencia, que sobresaltou a irmã.

Foi com ligeiro tremor de voz, que ella lhe respondeu:

--Tu bem sabes que não é isso que eu posso dizer de ti, Charles, nem deixar que os outros, na minha presença, digam.

Carlos abrandou inimediatamente, ao ouvir estas palavras.

--Pobre Jenny! És a unica pessoa que me conhece devéras.

--E tu a que te conheces menos--respondeu a irmã, com doçura, e depois acrescentou:--Vens?

--Não posso.

-Charles!

--Mas se eu prometti!... Olha, Jenny, se és minha amiga, não insistas mais a este respeito; que não seja o dia de hoje tão aziago para mim, que esteja destinado a receber durante elle desgostos das pessoas a quem mais estimo.

As lagrimas assomaram d'esta vez aos olhos de Jenny.

--Era para t'os evitar, que eu insistia, Charles... Perdôa-me se...

E a commoção não a deixou continuar.

Carlos apoderou-se-lhe das mãos, que cobriu de beijos.

--Minha boa Jenny! minha generosa irmã! perdôa-me tu, perdôa a este estouvado, que nem sabe o que diz. De joelhos te devia implorar, filha, eu, que te pago em lagrimas os sorrisos que me dás. Tu a pedir-me perdão! Eu a perdoar-te, Jenny! O quê?... O conforto que me tens dado sempre?... Esta serenidade, que me fazes durar na vida, anjo? As caricias e cuidados de mãe que me ensinaste a conhecer? pobre mãe, só dois annos mais velha do que este mau filho, que não sabe senão affligil-a! É isto que tenho a perdoar-te? Dize. Não repares para as loucuras d'esta minha cabeça. E agora escuta-me. Eu desejava fazer-te a vontade, mas... hontem... o... Manoel Quentino mostrou-me desejos de celebrar na minha companhia o ultimo dia de reclusão, a que a doença o tem obrigado. Ámanhã já elle sáe. É uma pequena e suave festa de familia, e na qual sómente servem de galas os affectos e as flores. Esta manhã não pude ir visital-o, como elle me pediu... Era agora, á noite, que eu tencionava ir... Queres que eu deixe de satisfazer o desejo do pobre homem?

Jenny, depois de fitar por algum tempo o irmão, suspirou, baixando os olhos.

--Responde, Jenny--repetiu Carlos--e se julgares que, no meu logar, poderias fazel-o, sem que um pequeno remorso t'o estorvasse, eu obedeço-te e... não irei.

Jenny permanecia calada.

--Então?--repetiu Carlos.

--Que queres que te responda, Charles? Seria sem hesitação que eu te diria «vae», se estivesse convencida de que é esse sentimento de generosidade o que te chama lá.

--Então duvidas do que eu disse?

--Não. Mas duvido, e ha muito, do conhecimento que tens de ti proprio. Ensinaste-me a ler em ti, Charles, n'aquelles tempos, em que me communicavas todos os teus pensamentos; habituei-me então, e leio ainda agora, que evitas essas longas conferencias de outras épocas...

--Que evito! Pois imaginas?...

--Não imagino, sei. Cuidas tu, Charles, que tenho perdido de vista o irmão, que tão longe d'ella tem procurado andar? Ai, não tenho, não.

--E que tens visto a essa distancia?--perguntou Carlos, gracejando.

--O bastante para me affligir; o bastante para pedir a Deus que me inspire um dia, em que talvez seja mais carregada do que nunca a nuvem que venha ameaçar-nos.

--Visionaria!

--Oh! se o fosse!

--Não me dirás tu, Jenny, como te deu para seres tão apprehensiva d'esta vez! Logo d'esta, em que não é um capricho o que se apoderou do coração de teu irmão!

--Não é?

--Não, digo-t'o afoutamente, não é. É um sentimento novo para mim aquelle, a que ando sujeito... Ahi volto eu ás velhas confidencias de outros tempos; não reparas?

--D'esta vez, Charles, ha duas pessoas, que ambas me são caras, empenhadas n'isto; eis uma causa da minha inquietação. D'esta vez, se de um dos lados sómente houver sinceridade...--e será do teu lado, a havel-a sómente de um?--recaírá sobre o outro todo o peso de irremediavel infortunio; outra causa que me faz estremecer. E quando sejam sinceros ambos, não haverá tantas luctas a travar? tantos obstaculos a vencer? É de tudo isto que vem as minhas apprehensões.

--Socega, Jenny; eu tenho mais confiança no futuro do que tu.

N'este ponto, entrou um criado com recado de Mr. Richard a Jenny, de que eram horas de preparar-se para a visita a Mr. Smithfield.

--Então, Charles... Vens?--disse ella ainda uma vez para o irmão.

--Por quem és, Jenny, não insistas mais. Basta que te diga que não sei de motivo tão forte que me podesse obrigar hoje a faltar á minha promessa. O mais que fazes é perturbar-me o socego de espirito para toda a noite, com o remorso de não ter condescendido comtigo.

Jenny curvou a cabeça e saíu do quarto.

Carlos correu a retel-a á porta, para dizer-lhe ainda uma vez:

--Perdôa-me, Jenny.

Ella só pôde responder-lhe, commovida:

--Vae.

Passados minutos, vieram da parte de Mr. Richard perguntar a Carlos, se elle o acompanharia á visita ao compatriota Smithfield. Carlos respondeu que lhe era impossivel fazel-o aquella noite.

Recebendo esta resposta do filho, Mr. Richard pôz-se a esfolhar com impaciencia uma rosa que tinha na mão.

XXVII

O MOTIVO MAIS FORTE

Meia hora depois, ouviu Carlos o rodar da carruagem, que levava Mr. Richard e Jenny á hospedaria, em que estava alojado Mr. Smithfield.

Julgára que respirarìa satisfeito, quando tivesse emfim conseguido ficar toda aquella noite á sua propria disposição; mas cêdo reconheceu que o esperára em vão.

Ha situações na vida era que, para qualquer lado que a resolução nos encaminhe, gera-se-nos sempre no animo um remorso, mais ou menos intenso, por haver abandonado os outros.

Em uma d'estas dilemmaticas contingencias se tinha achado o espírito de Carlos.

Na vespera havia de facto promettido, não a Manoel Quentino, como á irmã dissera, mas a Cecilia, o que maior força dava ainda á promessa, que não faltaria á festa, disfarçadamente planeada por ella, para celebrar o restabelecimento do velho.

Era uma especie de innocente conspiração entre os dois; e é provavel que o leitor ou leitora não ignorem o ardor com que, de ordinario, o coração se vota a este genero de emprezas, com este genero de allianças.

Carlos não tinha coragem de faltar, nem que fosse para suspender aquellas lagrimas que vira imminentes nos olhos da irmã. Resistiu pois, como vímos.

Mas a resistencia deixou de si vestigios dolorosos; aquelle pezar, causado a Jenny, sentia-o ainda o coração de Carlos; ficára-lhe a dor intima, que até os alvoroços de prazer, excitados pela lembrança da proxima entrevista com Cecilia, pareciam exacerbar.

Porque ha d'estas contradicções nos sentimentos humanos; é por a mesma razão que, ás vezes, a negrura dos presagios mais se condensa entre os maiores fulgores da felicidade, e que se aviventa a luz de vagas esperanças nas mais tenebrosas situações da vida.

As horas porém adiantavam-se, e Carlos preparou-se para o serão festivo, que o esperava.

N'esta noite empregou na tarefa de se vestir um esmero, para que raras vezes lhe sobrava paciencia.

Parecia estar-se apromptando para um baile.

--Que importuna occasião escolheu este Mr. Smithfield para a sua visita!--pensava Carlos, emquanto ajustava ao espelho o laço da gravata de seda--Por causa d'elle é que Jenny me deixou assim pezaroso... Mas d'onde virá a exagerada apprehensão, que ella mostra d'esta vez?--E vestia o collete branco.--Não a devia tranquillisar o conhecimento que tem de Cecilia? Não devia até desejar que o meu coração se fixasse aqui, que não fosse mais longe? Só se receia de mim... Verdade é que o meu passado... Oh! mas d'esta vez...

No meio de uma turba de agradaveis pensamentos desvaneceu-se a impressão penosa, que lhe deixára a despedida da irmã.

Afagando-os a todos, terminou Carlos a sua acurada _toilette_ e dispôz-se a partir, acompanhado por um cortejo de esperanças, tão vivas e palpitantes, que nem lhe deixavam sentir já o ligeiro remorso que, de mistura com ellas, lhe havia entrado o coração.

Ia já a transpôr o limiar da porta, quando um subito rumor de vozes, de passos apressados e gritos agudos, como arrancados por a mais dolorosa tortura, o fizeram parar.

Informou-se, cheio de inquietação, do motivo d'aquelle ruido.

--É a snr.ª Catharina, que está com um dos seus ataques--respondeu o criado, a quem elle se dirigiu.

Eram tão frequentes estes accessos na velha Kate, que, desde que Carlos soube ser essa a causa do rumor que ouvira, não lhe deu mais importancia e caminhou outra vez para a porta.

Redobrou porém a violencia dos gritos, e tanta e tão crescente angustia exprimiam, que o génio de Carlos não lhe permittiu mais tempo ouvil-os impassivel; obedecendo a generoso impulso, subiu apressado as escadas e entrou n'aquelle mesmo quarto, onde já acompanhamos Jenny.

Illuminava o aposento apenas a froixa claridade de uma lamparina, quando Carlos entrou alli.

Em volta do leito da velha ingleza agrupavam-se todas as criadas da casa.

A pobre louca estrebuxava tão violentamente com os braços, que ellas mal conseguiam segural-os.

Gesticulando com movimentos desordenados, soltando, entre gritos agudos, palavras sem nexo, reunindo syllabas sem significação, descomposta e com os cabellos em desordem, aquella desgraçada inspirava ao mesmo tempo compaixão e terror.

Carlos aproximou-se do leito.

A velha Kate, vendo chegar uma nova figura junto de si, fitou n'elle um olhar de expressão quasi selvagem e, depois de algum tempo, pôz-se a rir e a bater as palmas, com os modos infantis proprios d'aquelles estados de embecilidade.

--Olhem!... É elle!... é elle!... --dizia ao mesmo tempo, reparando cada vez mais em Carlos--Como veio para aqui?... Inda bem que vieste!... Agora sim!... Quero ver agora quem me fará mal?... Vem cá, Dick, vem cá!... Agora sim!...

E acenava-lhe para que se aproximasse do leito.

Carlos condescendeu.

--Vejam! vejam!--dizia a velha, passando as mãos pelos cabellos de Carlos--É outra vez o Dick, que eu conheci... Este sim!... Já não tem nenhuns cabellos brancos... Este sim... Eu bem dizia que havia de voltar. O outro não era verdadeiro... Agora já não receio esses malditos, que me teem aqui presa ha tanto tempo!... Que venham!... Tu não me has de deixar só com elles outra vez, Dick, não? Olha que me matam!

--Socega, Kate, socega--disse Carlos carinhosamente--Ninguem te quer fazer mal.

--É porque tu não sabes ainda o que elles me teem feito!... Olha; repara... Não vês o cadeiado que me pozeram aos pés?... Nem os posso mover... nem os sinto!... E agora... metteram-me aqui no peito um ferro... aqui... cá o sinto dentro.... Arde, como se estivesse em braza... E este laço?... não vês este laço, que me deitaram ao pescoço?... não vês como está apertado?... suffoca-me!... Ai!... ai!...

E respirando a custo, apertava com ancia, o braço de Carlos, que a segurava.

--Então, Kate, vê se descansas;--dizia elle--eu vou já mandar tirar-te tudo isso, que te afflige assim...

--Então... manda... manda! Por compaixão, Dick, manda; não deixes martyrisar assim a velha Kate!... Por amor de teus filhos, Dick! Eu não tenho forças para soffrer tanto! Estou muito velha, Dick, muito velha!... tem compaixão de mim!...

E rompia em soluços tão expressivos de dor, que até as criadas não foram superiores á commoção.

Depois encostou a cabeça ao hombro de Carlos, dizendo-lhe ao ouvido, com expressão de susto e de mysterio:

--Foram ellas que me fizeram todo este mal, não foram?

--Não; socega...

--Foram! foram, sim!--bradou, elevando a cabeça com violencia e inflammando-se-lhe outra vez o olhar, que parecia despedir faiscas, como sempre que era contrariada.

--Pois foram, foram; mas...

--Então não fiquemos aqui. Vamos outra vez para a Inglaterra, Dick. Para que me trouxeste tu para esta casa? Para quê?

--Descansa, que havemos de ir; mas é preciso que estejas socegada.

--Estou... não vês que estou?... mas... não me deixes só, não?--acrescentava, com entonação de supplica, quasi infantil.

--Então não vês aqui tanta gente?

--Não a quero. Manda-a embora; a todos... manda-os a todos embora!... Eu quero estar só comtigo...

--Mas...

--Manda-os embora, por amor de Deus, manda-os embora!

Carlos não teve coração para resistir a este pedido da louca.

Á sua ordem saíram as criadas do quarto, deixando Carlos só com ella.

--Fecha, fecha essa porta, para que não entrem outra vez, fecha.

Carlos fechou a porta.

--E agora vem cá; senta-te aqui, ao pé de mim; eu não posso dormir, se tu aqui não estás... E eu queria dormir... Tenho somno.

E tomou entre as suas as mãos de Carlos.

Carlos sentiu que as d'ella começavam a arrefecer, d'essa frialdade de gêlo, que excita em nós uma repulsão instinctiva. Pela primeira vez lhe acudiu a ideia de que podia ser aquella a ultima noite da pobre mulher.

Este pensamento fel-o olhar para ella com mais attenção.

A escassa luz da lamparina ainda lhe permittiu conhecer a profunda alteração de feições, que a pobre demente apresentava.

Deram nove e dez horas, e Carlos não saíra de junto da velha criada, que, segura ás mãos d'elle, estremecia ao menor movimento que sentisse, como receiando ser abandonada outra vez. Era tal o terror que mostrava de ficar só, que tirou o animo a Carlos de tentar sequer deixal-a.

Assim as horas, que elle contava passar na companhia de Cecilia, iam-lhe correndo junto d'esta desgraçada octogenaria, que com discursos incoherentes, de mistura com risos e com prantos igualmente expressivos de desvario, o conservou alli.

Pouco a pouco, principiou a tornar-se-lhe mais tardia e inintelligivel a pronuncia, mais sumida a voz, mais ennevoado o olhar.

--Pozeram-me estes ferros...--murmurava ella, interrompendo-lhe a ancia, a cada instante, as palavras sem nexo que dizia--pensam que eu não sou... Kate?... sou Kate, sou!... Foi á viuva do fogueiro... que eu dei... o vestido verde... O fogueiro morreu... morreu no mar... É porque não são bons christãos... Não foi o gallo que cantou, foi a coruja... Dizia que eram esmeraldas e... assim é que a irmã se perdeu... O cedro chorava... era o pae d'ella...

Carlos, pousando-lhe a mão no pulso, mal o pôde já perceber... Tentou sair, para chamar alguem que ministrasse os soccorros precisos, mas a contracção, com que a velha o segurou, o estremecimento que lhe correu pelo corpo, ao sentir a tentativa de Carlos, obrigaram-o a desistir.

--E para quê?--pensava elle--ninguem já agora arrebatará esta presa á morte. Pelo menos que seja tranquillo o passamento. Deixal-a morrer em paz.

E ficou, ficou elle só, unico espectador d'aquella scena lugubre, d'aquelle espectaculo pouco talhado para a sua juventude, para a sua indole e para os vestidos de gala, com que, para bem outros fins, esmeradamente se preparára.

Era notavel o contraste. A velha caiu em silencio profundo, apenas cortado de surdos gemidos.

Dava meia noite, quando uma respiração mais ampla, após um profundo repouso, fechou o circulo d'aquella longa existencia.

Carlos conheceu que tinha diante de si um cadaver.

Depois de por algum tempo a encarar melancolicamente, desceu-lhe, com piedoso respeito, as palpebras sobre os olhos amortecidos.

Foi n'este piedoso mister que o vieram encontrar Jenny e Mr. Richard. Voltando da visita a Mr. Smithfield e sua filha, souberam no portal que Carlos não havia saído, em consequencia do violento accesso que acommettera Kate.

Ahi mesmo se desvaneceu toda a irritação de animo em Mr. Richard.

--Então não saíu?

--Não, senhor,--disse o criado--havia-se vestido para saír, mas até agora tem estado só no quarto da snr.ª Catharina.

O velho inglez, que tinha ainda pela que fora sua ama uma verdadeira affeição, sentiu-se commovido ao ouvir isto.

Elle e Jenny correram então ao aposento de Kate.

--Expirou agora--disse Carlos, ao vel-os entrar.

O pae e a filha acercaram-se apiedados do leito.

Jenny não recusou lagrimas de saudade áquella velha mulher, que ella, tão longe, quanto lhe ia pelo passado a memoria, se recordava de ver sempre junto de si.

Mr. Richard curvou tambem a cabeça, perante aquelle tão solemne espectaculo.

Carlos ficava-lhe defronte e ao lado a irmã.

Jenny, enxugando os olhos, voltou-se para elle.

E, como se obedecesse a irresistivel impulso do coração, apertou-o nos braços, dizendo:

--É n'isto que te reconheço, Charles. Quem poderá duvidar ainda da generosidade da tua alma?

Carlos correspondeu ao abraço da irmã, beijando-a affectuosamente na fronte.

E ao descingir-se-lhe dos braços, encontrou a mão de Mr. Richard, que se estendia francamente para a sua.

--O seu proceder foi o de um homem de bem e... de coração, Charles. Honra-o--disse, com voz tremula, o inglez.

Carlos apoderou-se d'aquella mão, que se lhe estendia, e curvou-se para beijal-a.

Perante aquelle leito mortuario desvanecera-se de todo a tempestade domestica.

Foi assim que Carlos faltou á promessa que tinha feito a Cecilia, falta que horas antes pensava e dizia não haver motivo tão forte que o levasse a commetter.

Resistiu de facto aos resentimentos do pae, resistiu,--e mais custoso lhe foi--ás lagrimas da irmã; mas não teve animo para resistir á compaixão por uma pobre mulher, velha, demente e moribunda.

Ficou, para lhe fechar os olhos.

Era assim o caracter de Carlos.

XXVIII

FORMA-SE A TEMPESTADE EM OUTRO PONTO

A snr.ª Antonia não perdera o seu precioso tempo, nem desaproveitára a sciencia adquirida por meio das observações da manhã.

Ao voltar a casa, encontrára na rua o snr. José Fortunato, e a elle, como fiel alliada, communicára logo alli o peculio de descobertas, com que enriquecera o thesouro dos seus já numerosos conhecimentos.

José Fortunato horrorisou-se com a serie de estupendas noticias, que ouviu de tão auctorisada bôca.

--Não ha que fiar nos homens de hoje!--foi a sentença que elle lavrou, depois de ponderar os famosos artigos d'aquelle libello diffamatorio.

--A mim não me enganou o melro--fez-lhe notar a snr.ª Antonia.

--Pois olhe que a mim...

--Agora o que é preciso é abrir os olhos fechados, que ha lá por casa.

--Abrir?!... Melhor seria fechar alguns, que já se abriram de mais para elle... Não sei se me entende?

--Entendo, entendo. Não ha de ter duvida. Socegue.

E a snrª Antonia, serenando assim as apprehensões do seu protegido, entrou para casa. José Fortunato ia pensando:

--Se eu avisasse o pae, mas de maneira que não soubesse que era eu...

Cecilia andava contente aquella manhã.

O seu bom coração deixára-se repassar todo de alegrias, d'essas alegrias travêssas, agitadoras, de quem não quer reflectir no que as faz nascer; alegrias que, vindo á luz, gosam da luz como as creanças, as quaes a festejam com risos e cantares, ainda sem saudades do passado, nem incertos temores do futuro, a amargurarem-lhes tão ingenuo prazer.

Pobre rapariga! Mal sabia ella, que bem de perto a seguia a nuvem, que havia de assombrar-lhe o fulgor d'aquelle contentamento!

Antonia machinava em silencio contra ella. Á similhança da aranha, em traiçoeira emboscada, aguardava paciente que aquella buliçosa borboleta, que voava em volta de si, viesse prender as azas na sua enredada teia.

Cecilia demorava-se porém pouco tempo junto d'ella, e pouco tempo em toda a parte. Lembrava uma avezita prisioneira, quando, ao amanhecer de um dia de sol desanuviado, após longos de nuvens e de chuva, bate as azas, salta de poleiro em poleiro, esvoaça de encontro ás grades da gaiola, e ensaia de novo o canto, havia muito interrompido.

Occupada com os preparativos do que ella chamava a festa do pae, Cecilia não parava um momento. Descia ao quintal, para colher flores; escondia-se no quarto, para formar ramos, e com elles enfeitar as jarras; passava á sala de Manoel Quentino, para que a ausencia não fosse estranhada, e com o fim de dizer ao pae algumas palavras de affecto; depois voltava ao quintal e sempre com a ligeireza e agilidade, proprias d'aquelle corpo flexivel e elegante e d'aquella nervosa compleição.

De quando em quando, chegava tambem á janella, esperançada em que um feliz acaso lhe satisfizesse não sei bem que secretas aspirações, as quaes talvez a leitora adivinhe.

Foi em uma d'estas occasiões, que Antonia, encontrando-se com ella no corredor, lhe disse á queima-roupa:

--Já esta manhã vi o snr. Carlos.

Cecilia perturbou-se; mas inquiriu, affectando indifferença:

--Aonde?

--Ia a saír de casa. Entrou com uma senhora nova para uma carruagem...

--Havia de ser Jenny, a irmã...

--Ai, não; não era, não, senhora. Essa tinha saído com o pae, logo pela manhã, que m'o disse a snr.ª Joséfinha. Esta tal, que eu digo, chegou de fóra. Pelos modos... é das taes comediantes do theatro... que elle conhece.

--Comediantes?!--disse Cecilia, não procurando já disfarçar a inquietação.

Após este preludio, a snr.ª Antonia entrou de alma e coração na materia, que esgotou completamente. Disse quanto ouviu, quanto viu e, mais ainda, quanto pensou e concluiu de tudo o que ouvira e vira, graças áquelle vigor de deducção logica, que era dos mais caracteristicos dotes d'esta senhora.

Cecilia, comquanto lhe parecessem exageradas as opiniões da criada, sentia que se lhe ia enlutando o coração ao ouvil-a; e que toda aquella disposição para rir e cantar, com que lhe principiára o dia, se lhe estava transformando em irresistivel desejo de chorar.