# Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto

## Part 22

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--Ah! Essa então! É aquillo que alli está. É uma boa menina, isso é; muito amiga da pobreza... Exquisita como todas as inglezas, mas no mais... Olhe que, desde que somos vizinhas, ainda não teve uma palavra que me dissesse! Á janella ninguém a vê, e quando passa por aqui, faz-me uma cortezia muito séria e mais nada.

--Ella é muito da menina lá de casa.

--É. Eu tenho visto a sua ama vir ahi muitas vezes.

--É uma boa familia esta.

--É, isso é. Não ha que se lhe diga.

--O velho julgo que é pessoa capaz.

--É, é assim meio maniaco, mas a final não é mau sujeito, não. Tem suas venetas, como quasi todos os inglezes... mas...

--E o rapaz mesmo...

--O snr. Carlos? Ai, por amor de Deus, não me falle n'isso.

A snr.ª Antonia chegára emfim ao topico desejado.

--Então?

--Isso é uma peça de fazenda!

--Que me diz!

--Faz lá ideia do que alli está! Um estroina assim não ha! Recolhe-se a casa lá porque altas horas da noite. Dorme até ao meio dia. Ora veja a snr.ª Antoninha que vida póde ser a d'elle.

--Então joga?

--Elle joga, elle fuma, elle passa a vida nos botequins e nos theatros, elle bebe, elle anda sempre com más companhias.

--Que tal! Hein!

--Isso não faz ideia! Em casa anda tudo a ferver por causa d'aquelle menino. Não falla com o pae, a irmã passa um martyrio com elle. Disse-me a Susana, que é ainda minha prima, e que esteve lá a servir oito dias, que aquillo é uma pouca vergonha. Ás vezes está a mortificar aquella pobre irmã, e ralha, e ralha, e torna a ralhar, e ella então, coitadinha, chora que é uma dor do coração. Ha dias em que não faz outra cousa.

--Arrenego eu o Judas Iscariote!

--E então, snr.ª Antoninha, é um menino a quem tudo faz conta. Não sei se me entende? Seda e chita é tudo panno para elle fazer obra. Dizia o Luiz, que foi muito tempo criado d'elle, que eram tantas as cartas que recebia de differentes, que era uma cousa por maior!

--Tratante! O que elle precisava...

--Diz que ahi com uma comediante do theatro gastou elle contos de réis ao pae. Até o velho quiz mandal-o para Inglaterra.

--Fosse e nunca voltasse! Arrenego-o eu!

--É da pelle do mafarrico. Depois então diz que bebe!

--Faltava mais essa!

--Pois se elle é inglez! Às vezes, quando vem para casa, já de dia claro, chega a ser preciso deital-o na cama, porque não da accôrdo de si.

--Olhem que vergonha! Uma pessoa fina, e... A gente sempre vê cousas!...

--Aqui ha tempos... Vá vendo a snr.ª Antoninha; ia eu já a abrir a porta da rua, pela madrugada, e entrava aquella creaturinha para casa. Vinha amarello, esgadelhado; bem se conhecia o estado d'aquella cabeça.

--Não, tambem com uma vida assim não póde ir muito longe.

--Pois não, não... E é até uma felicidade para elle, se morrer.

--Aposto que a estas horas ainda dorme?

--Abriu agora mesmo as janellas. Hoje madrugou.

--Então é alli o quarto d'elle?

--É, é alli mesmo á entrada. O pae e a irmã saíram logo pela manhã cêdo. Pelos modos diz que chegou da Inglaterra um inglez muito rico com uma filha, a quem elles foram visitar. Disse-me a Dorotheia, que é a despenseira, que o velho quer ver se casa o filho com a tal ingleza.

--E o rapaz?

--O rapaz?... bem pensa elle n'isso!... Olhe lá se elle os foi visitar.

Haviam chegado as duas mulheres a este ponto do dialogo, quando entrou na rua uma sege da praça, puxada com toda a força por dois vigorosos cavallos, e veio parar á porta da casa de Mr. Richard Whitestone.

O boleeiro saltou immediatamente da taboa para receber as ordens da pessoa que vinha dentro e que as gelosias corridas das portinholas furtavam á curiosidade das duas mulheres.

Em seguida tocou á campainha; appareceu-lhe, passado algum tempo, o criado particular de Carlos; trocadas poucas palavras entre ambos, este retirou-se, voltando cêdo depois com a resposta.

Tendo-a ouvido, o boleeiro veio abrir a porta da carruagem, da qual saiu então uma senhora de elegante apparencia, toda vestida de preto e cujas feições se occultavam em um longo véo, impenetravel aos olhos ávidos de Antonia e da sua amiga.

Esta senhora desappareceu pelo portão do jardim em companhia do criado de Carlos.

A snr.ª Antonia e a snr.ª Joséfinha trocavam entre si olhares eloquentes.

--Mas...--murmurou Antonia.

--Que é?... Diga.

--Não me tinha dito que o pae e a filha haviam saído?

--Ha mais de uma hora.

--Então...

--Então o quê?

Os olhos proseguiram algum tempo o dialogo.

--Ora sempre é desafôro!--disse a snr.ª Antonia, após o dialogo, dos olhos.

--É isto que vê.

--Conheceu-a?

--Eu não.

--Mas com este descaro?!

--É para que veja.

--Não, pois não saio d'aqui, sem descobrir quem ella é, ou pelo menos...

--Ora diga a snr.^a Antoninha se isto não é fazer pouco caso da vizinhança.

E as duas continuaram n'estes santos commentarios. A snr.ª Joséfinha chegou a adiantar algumas perguntas ao boleeiro, que lhe viera pedir lume para accender um cigarro. Este, porém, só lhe pôde dizer que era uma senhora ainda nova e bonita, que morava em Santa Catharina.

Antonia tomou conta na rua.

As conjecturas continuaram até que de novo appareceu no portal a pessoa que era objecto d'ellas. Agora acompanhava-a Carlos, que, com toda a galanteria, a ajudou a entrar no carro, entrando tambem atraz d'ella, depois de haver dado algumas ordens ao boleeiro.

E o carro partiu outra vez, com toda a velocidade, pelo caminho por onde viera.

Estavam estupefactas as duas espectadoras da scena.

--Reparou?--disse a snr.ª Joséfinha.

--É que já me não escapa mais.

--Pareceu-me nova.

--E bonita.

--Então que me diz a isto?

--Que estou atordoada!

--Já viu um descaramento assim?

--Eu não.

A snr.ª Antonia retirou-se d'alli, devéras indignada e decidida a intervir em casa do amo, para desmascarar o libertino, que se introduzira sorrateiramente n'ella a pretexto de serviços desinteressados e de falsa amizade.

Antonia conseguira o seu intento, enchera-se tanto de razão, que já ameaçava trasbordar por ella fóra.

XXV

TEMPESTADE DOMESTICA

Ás quatro horas da tarde d'este mesmo dia voltava Mr. Richard Whitestone a casa, com aquelle ar de satisfação ingleza, que já lhe conhecemos, e em passo vagaroso, como de homem que terminou as tarefas sérias e principiou a gosar as doçuras do _não fazer nada_. Parte da manhã passára-a com um compatriota, pae de uma nevada e loura lady, a quem de facto Mr. Richard estimaria ver matrimonialmente ligado o filho.

Como n'estas intenções do discreto inglez conseguira entrar a despenseira, não sabemos nós; mas é certo que, ou por força de logica ou por occulta inspiração, havia ella acertado, ao informar a snr.ª Joséfinha da Agua-benta. Comquanto o não ter sido acompanhado pelo filho n'aquella visita matinal houvesse algum tanto desagradado ao inglez, consolava-se, esperando que elle condescenderia em o acompanhar á noite, na segunda visita que tencionava fazer.

Ia pensando n'isto o velho commerciante, precedido da ligeira _Butterfly_, impaciente com a morosidade do dono, que tão a miudo a obrigava a retroceder.

Trauteando por entre dentes o predilecto: _cheer_, _boys_, _cheer_, caminhava vagarosamente Mr. Richard pela rua das Flores acima, e pascia a vista nas bem providas exposições de ouro, que adornam um dos lados da rua, quando de repente parou defronte de uma taboleta, como se impressionado por algum objecto que vira n'ella.

Por muito tempo durou este exame.

Havia alli o que quer que fosse que o inglez tomava a peito investigar. E não o conseguindo de fóra do mostrador, entrou na loja.

--Faz favor de deixar-me ver um relogio, que está ahi exposto?--disse elle para o ourives.

O ourives, com sorriso amavel e maneiras delicadas, satisfez-lhe promptamente ao pedido.

Mr. Richard examinou o relogio com minuciosa attenção.

--É um bello relogio!--dizia o ourives--Valioso por todos os respeitos.

Mr. Richard fez um signal afirmativo com a cabeça, e proseguiu calado no exame.

--É inglez, não é verdade?--perguntou d'ahi a instantes.

--É, sim, senhor. De fabricantes muito acreditados.

--E então... mandou-o vir directamente da Inglaterra?

--Não, senhor...

O ourives principiou a olhar para Mr. Richard com mais cuidado. O que estava pensando, ao olhal-o assim, não sei; mas uma sombra de desconfiança parecia anuviar-lhe o semblante. Passados alguns instantes continuou:

--Para fallar com franqueza a v. s.ª, ainda não ha muitas horas que o comprei.

--Ah! E... póde saber-se a quem?...

--Comprei-o a um rapaz, que eu conheço de vista, mas cujo nome ignoro... Supponho que é tambem inglez... Vinha em carro com uma senhora...

Mr. Richard abriu muito os olhos, fitando o ourives e repetiu:

--Com uma senhora?...

--Sim, uma senhora ainda nova, vestida de preto, que ficou á espera d'elle. O rapaz entrou aqui, disse que estava para ir para fóra da terra, e propôz-me a compra do relogio e da corrente... Entramos em ajuste...

--Bem, bem; pouco me importa isso--disse Mr. Richard, com ligeiras e convulsivas contracções de labios, que eram n'elle indicio de cólera reprimida.--Vamos a saber: Por quanto m'o vende agora?

O ourives fez valer os seus direitos a algum modico lucro, direitos que Mr. Richard não lhe contestou, vindo a final a comprar, pela segunda vez, o relogio e a corrente, com que havia já presenteado o filho.

Porque não havia para elle duvida, e escusa de a haver para o leitor, de que eram exactamente aquelles mesmos os objectos que tinha agora presentes.

Ao sair da loja, Mr. Richard ia com a physionomia outra vez serena, mas lá por dentro, quem o podesse perscrutar, encontraria um grau de irritação, a que raras vezes lhe subia o genio fleugmatico.

O criado, que estava á porta quando Mr. Richard chegou a casa, era o mesmo que recebera pela manhã a visita, que tanto indignára a snr.ª Antonia.

--A que horas saíu hoje o snr. Carlos?--perguntou Mr. Richard, em tom de voz sêcco e aspero.

--Ás... ás dez horas--respondeu, já sobresaltado, o criado.

--Só?

O rapaz teve vontade de dizer que sim, mas Mr. Richard fitava-o com um olhar, que lhe desvaneceu toda a impassibilidade precisa para isso.

--Só?--repetiu o inglez, com mais força.

--Não... não senhor...--respondeu o criado.

--Então?

--Com... com...

--Com quem?--perguntou Mr. Richard, cada vez mais imperioso.

--Com uma senhora, que... que veio procural-o... mas... era já de idade--acrescentou o homem, como correctivo.

Porém Mr. Richard já lhe havia voltado as costas, entrando para casa. Jenny estranhou-o. Habil na leitura d' aquella physionomia, nem uma só ruga, que accidentalmente a carregasse, podia passar-lhe despercebida e sem lhe excitar desejos de decifral-a.

Mr. Richard respondeu benignamente, mas em poucas palavras, ás perguntas de Jenny, e quiz saber se Carlos já tinha vindo para casa.

Recebendo resposta affirmativa, acrescentou que, antes de jantar, desejava ir ao quarto d'elle.

Era esta resolução tão extraordinaria, que Jenny, ao ouvil-a, olhou fixamente para o pae.

Conheceu que alguma cousa tinha occorrido, capaz de trazer após si uma d'essas scenas violentas, que ella tanto fazia por afastar.

Pretendeu conjural-a.

--Pois vamos--disse a sorrir, e dispondo-se a acompanhar o pae.

--Não, não--respondeu Mr. Richard, afastando-a com doce violencia.--Eu pretendo... preciso de fallar-lhe a sós.

Jenny soltou-lhe o braço, a que já se apoiára desanimada com a frieza, mal occulta, d'aquellas palavras.

Mr. Richard tentou abrandar a impressão do primeiro movimento, dizendo:

--É de negocios que se trata... Até já!... No entretanto, pódes mandar servir o jantar.

Jenny viu-o partir sobresaltada e procurando em vão adivinhar a razão d'aquella entrevista.

Mr. Richard n'este tempo appareceu no quarto do filho.

Muito longe de esperar aquella visita, Carlos, recostado no canapé, pensava... em Cecilia provavelmente.

Ao ver o pae, que tão raro o procurava no quarto, levantou-se com alvoroço e mal occulto espanto.

Mr. Richard caminhou para elle, e tirando do bolso o relogio e a corrente disse, quasi gaguejando, como sempre lhe acontecia quando sob o dominio de violenta commoção:

--Ahi tem. Quando vender as... as dadivas das... das... pessoas que... que o estimam... seja para... fins que... que o não envergonhem, nem... deponham tristemente contra... o seu caracter...

Á vista do relogio foi tal a commoção que se apoderou de Carlos, que nada pôde responder; baixou os olhos, confuso, corou intensamente, como se a consciencia lhe estivesse dizendo que a severidade das arguições do pae era merecida.

Estes signaes foram por Mr. Richard interpretados como tacita confirmação das suas suspeitas.

Cresceu n'elle com isto a irritação.

--Seja extravagante muito embora... mas... mas... nunca seja... nunca seja vil...

Carlos estremeceu ao ouvir aquella palavra, e levantou com vivacidade a cabeça.

--Senhor!--exclamou, mal conseguindo o respeito filial suffocar-lhe a indignação que sentira.

--Vil, sim--repetiu Mr. Richard com mais força, como se excitado por aquella apparencia de reacção.--Quero que não faça d'esta casa theatro das suas... aventuras... escandalosas.

--Mas...

--Lembre-se de que é aqui--proseguiu, sem o attender, o pae--aqui, debaixo d'estes tectos, que não tem a delicadeza de respeitar, que é aqui que embranqueceram os cabellos de seu pae... que foi aqui que sua mãe morreu... que é aqui que vive sua irmã.

--Creio que ainda não dei motivos para...

--Quem o procurou esta manhã? Com quem saiu de carruagem? Com que fim vendeu esse relogio?

Carlos calou-se. Parecia resolvido a guardar silencio, em relação áquellas perguntas; nem era de animo tão docil, que ouvisse, sem se irritar tambem, estas severas recriminações, feitas antes de julgamento minucioso.

O seu orgulho revoltou-se.

--Não posso explicar nada d'isso, mas dou-lhe a minha palavra que...

Mr. Richard atalhou-o:

--Nem eu quero tambem averiguar dos actos da sua vida. Teem-me chegado aos ouvidos rumores de muita extravagancia sua, de que não tenho feito caso. Mas quero, mas exijo... E inda tenho força bastante para o conseguir, póde crêl-o... Quero e exijo que se respeite o meu nome e... e a minha casa. Fique entendendo.

--Mas eu já lhe dei a minha palavra de honra de que todos os meus actos d'esta manhã não podiam deshonrar nem o seu nome, que é o meu tambem, nem esta casa, que eu respeito como...

--A sua palavra de honra! Não basta. Bem vê que tenho motivos para duvidar d'ella... e porisso...

--N'esse caso, como não tenho outra garantia a offerecer, calo-me. Depois de uma resposta como essa, quando é de um pae que a recebemos, não nos resta outro partido, além do silencio--disse Carlos, com decidida resolução de não continuar este dialogo, receiando com razão que a impetuosidade do genio o levasse a esquecer a qualidade da pessoa, que altercava com elle.

Mr. Richard calou-se tambem e deu em passeiar no quarto. Depois disse, ainda com severidade, mas em tom menos elevado:

--Parece-me que concordará commigo em que me assiste o direito de pugnar pelo decôro da minha casa?

Carlos não respondeu.

--É um dever imperioso de todo o chefe de familia. A excessiva benevolencia é também immoralidade--disse ainda o pae.

O mesmo silencio da parte de Carlos.

--Espero que não tenha deixado adormecer em si tão profundamente os sentimentos de honra, que não comprehenda já este dever da minha parte.

Nenhuma resposta ainda.

Mr. Richard, que conhecia o filho, percebeu que em vão esperaria d'elle defeza ou desculpa.

Saiu portanto do quarto.

Quando fechou atraz de si a porta, Carlos atirou ao chão, com movimento de raiva, que havia muito a custo reprimia, uma preciosa jarra da China, que se fez pedaços; em seguida pôz-se a percorrer o quarto a passos largos, e ai do objecto que encontrava na passagem!

A campainha soou emfim, chamando para o jantar.

Carlos tentou dar á physionomia um aspecto de serenidade, no que foi mal succedido. Lá estava o olhar de Jenny a espial-o, e não era ella a que se illudiria com estes fingimentos pueris.

Imagine-se como correu o jantar, principiado sob taes auspicios.

O tinir dos talheres e dos crystaes era o unico ruido que interrompia o solemne silencio da sala. Até os criados andavam em bicos de pés, dominados por aquella como atmosphera pesada, que se respirava alli dentro.

Jenny ainda tentava sorrir ás vezes, mas, coitada, gelava-se-lhe o sorriso nos labios, á vista das frontes ligeiramente contrahidas do pae e do irmão. E sem poder descobrir o motivo d'aquella animadversão entre elles! Como tão de repente se condensára esta tempestade, que ella nem tempo tivera para tentar desvanecer?

O jantar terminou como começára, silencioso e triste. Carlos foi o primeiro a levantar-se da mesa. Mr. Richard não teria d'esta vez companhia para o seu tão apreciado pospasto.

O inglez começava a sentir mentalmente os effeitos de uma mudança de pensar. Estava-lhe já parecendo que havia sido muito severo para com o delicto do filho.

Podia muito bem ser que tivesse peccado por inexacta a interpretação que dera ao facto, e ainda quando não fosse, era a final uma leviandade de rapaz, que talvez não merecesse tão asperas censuras.

O tolerante inglez só esperava por o primeiro ensejo para naturalmente, airosamente, realisar a reconciliação com o filho. Onde ia já o seu resentimento?

Ficou pois devéras mortificado, assim que viu Carlos levantar-se para saír, levando comsigo as esperanças do almejado ensejo.

Olhou para Jenny, a ver se d'ella partiria alguma tentativa para reter o irmão.

Jenny, absorvida a estudar a physionomia de Carlos, não deu pelo gesto do pae.

Já Carlos ia no meio da sala, quando Mr. Richard disse, em voz alta, as primeiras palavras que, desde que se sentára dissera:

--Chegou hontem á noite... Mr. Smithfield, de Londres...

Carlos parou, ficando por alguns instantes a olhar para o pae, como se esperasse ouvir d'elle mais alguma cousa; depois continuou a caminhar para a porta.

--Chegou Mr. Smithfield e a filha, Alice Smithfield--disse ainda Mr. Richard.

Carlos tornou a parar, e vendo que o pae não acrescentava mais nada, deu ainda alguns passos.

--É um homem, a quem a nossa casa deve muitos favores, tanto commerciaes como... pessoaes--disse Mr. Richard.

Estas palavras suspenderam outra vez Carlos, que ia já proximo da porta.

E como Mr. Richard se calasse, o filho estendeu a mão para o reposteiro.

--Estivemos lá, esta manhã, eu e Jenny.

Carlos não disse nada; esperou ainda.

Mr. Richard acrescentou:

--E ficamos de voltar esta noite... Elles partem ámanhã para o Minho e... Perguntaram por... por ti.

Mr. Richard realisára um grande esforço: pozera de parte o tom ceremoniatico com que até ahi tratára o filho.

Carlos, que já desviava o reposteiro, vendo que o pae não proseguia, curvou-se respeitosamente e saíu, como se não tivesse comprehendido o sentido d'aquellas insinuações.

Mr. Richard viu-o saír, e de novo se lhe carregaram as feições, que haviam já desanuviado de todo; ao mesmo tempo estalava-lhe entre os dedos uma avelã, com que estivera brincando, tal foi a força, de que a contrariedade lhe animou n'aquelle momento os musculos.

Jenny vira tudo isto, afflicta e irresoluta. Para sanar o mal, era necessario conhecer-lhe a causa, e ella ainda a não sabia. Levantou-se e foi encostar-se ao hombro do pae.

--Que tem?--disse-lhe com voz affectuosa.

--Faço quanto posso para viver em paz, mas já vejo que não é possivel.

--Então por quê?

--Pois não viste?

E levantou-se, dando alguns passos agitados na sala.

--Carlos tem vinte annos--acrescentou, passeiando ainda.--Aos vinte annos, ha já deveres para todo o homem... E se elle se esquece de que os tem e de que os deve e ha de cumprir... eu que sou pae...

À entrada de um criado interrompeu-o.

Mr. Richard sentou-se, pôz-se a ler o _Times_ e recaiu no silencio, de que nada mais o tirou. Seria o _Times_ que o absorvia assim? O que é certo é que em toda a tarde não desviou os olhos da primeira columna do jornal.

Muito enigmatica devia vir esta primeira columna, que tanto custava a ler!

Jenny dirigiu-se ao quarto do irmão.

XXVI

INEFFICAZ MEDIAÇÃO DE JENNY

Jenny foi encontrar o irmão apparentemente entretido a torcer as longas orelhas do _terra nova_; mas não era necessario ser muito versado em physiognomia, para perceber que lhe não estavam n'aquillo as attenções.

--Que foi isto, Charles?--disse Jenny, com a voz ainda turvada de commoção--Por amor de Deus, isto que é?

Carlos levantou a cabeça, e respondeu, fingindo sorrir:

--Não te assustes, Jenny. Eu e o pae representamos hoje uma peça do antigo repertorio, do repertorio da infancia. Elle lembrou-se de me ralhar, como a uma creança; eu fiz como as creanças costumam, amuei. Ora, aos dez e doze annos, scenas d'estas tinham para mim uma feição de tragedia; aos vinte, predomina n'ellas o caracter de perfeita comedia...

--Mas... o que se passou entre vós, que désse logar a isto?

--Nada ou quasi nada. Interpretaram mal uma acção minha. Eu podia, mas não devia, explical-a; afiancei porém, sob minha palavra de honra, que não era exacta a interpretação que lhe davam; e meu pae, que acabava de se apregoar respeitador e mantenedor da boa fama do nome Whitestone, foi o primeiro a manchal-o, duvidando de uma palavra de honra firmada com elle.

--Jesus, Charles!... Que has de sempre ter d'essas susceptibilidades com uma pessoa de quem não deves suspeitar que possa nunca fazer do teu caracter conceito algum desfavoravel!

--Mas se m'o assegurou!

--Pobre pae! E imaginas que era friamente que elle te reprehendia? Eu não sei ainda o motivo que deu origem a essa scena, que disseste, mas...

--Um motivo insignificante. Esta manhã precisei de dinheiro; era urgente a necessidade e a somma avultada. Não gósto de recorrer a outra pessoa, quando posso recorrer a mim. Demais, estava só em casa. Commigo só tinha um objecto, que promptamente me podia valer a quantia de que precisava. Era o relogio e a corrente, que recebi do pae quando...

--E foste?... Ó Charles!--disse Jenny, olhando com desapprovação para o irmão.

--Tirei da corrente este pequeno sinete de agatha, a parte menos valiosa do presente, para conservar uma memoria d'elle. Sabes que não é pelo preço dos objectos, que me offerecem, que eu os aprecio. Vendi o mais; confesso que vendi. Passadas horas o acaso fez-me o favor de conduzir meu pae pela mão justamente até á loja do ourives, onde relogio e corrente estavam já expostos á venda. Reconheceu-os, comprou-os de novo, e trouxe-m'os, dizendo-me por essa occasião algumas palavras que... que só a elle poderia, e deveria, ter a paciencia de ouvir.

--Mas... que má cabeça a tua! Para que foste vender aquelle relogio, que elle, coitado, com tanto gosto mandára vir para ti?

--Porque se tratava de alguma cousa mais importante e mais grave do que os arrufos de um pae, por mais respeitaveis que elles possam ser.

Jenny fez involuntariamente um gesto de duvida.

--Acredita-me, Jenny. Não duvides tu, como elle duvidou. Affirmo-te, tomando os mais sagrados testimunhos, que, se ainda se désse o motivo que se deu, não hesitaria, apesar do que houve, em vender outra vez este mesmo relogio e esta mesma corrente.

--Então que forte motivo foi esse?

--Não posso dizer-t'o.

--Já me não contas, como d'antes, os teus segredos, Charles?

--Este não é meu.

Jenny calou-se.

Carlos olhou por algum tempo para a irmã; depois veio pegar-lhe nas mãos, dizendo:

--Olha bem para mim, Jenny. Tu estás a duvidar tambem da minha palavra.

--Não... Charles... não duvido.

--Dize: pódes acreditar que teu irmão, com todos os seus estouvamentos, commetta uma vileza?

--Ó Charles! Que pergunta!

--Pódes acreditar que elle se esqueça por um momento do muito respeito e amor que te deve, Jenny? e da veneração que sempre teve pela memoria da mãe, que mal chegou a conhecer?

--Não, Charles, não. Para que me perguntas isso? Ninguem, melhor do que eu, te conhece o coração e te avalia os sentimentos; bem o sabes. Ninguem te faz mais justiça--respondeu Jenny, sensibilisada com a manifesta commoção, que se conhecia na voz de Carlos, quando lhe fallára assim.

