Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto
Part 21
Durante ella, manteve-se sempre em conflicto o espirito prático, o respeito ás velhas formulas, a experiencia intransigente do mestre, com o arrojo innovador, as tendencias simplificadoras e a aversão a inuteis complicações do discipulo.
Mais uma vez se verificou a eterna lucta entre a theoria e a prática; uma, com seus instinctos de joven, com seus habitos de actividade, com seus amores pelo futuro e pelo progresso; outra, com a frieza da idade madura, com uma indole, essencialmente prosaica e conservadora; fiel ao passado, que foi sem mestre, desconfiada do futuro, que não conhece, severa para com as ideias novas, cujos humores travêssos a impacientam. Uma, brincando e esperando no dia de ámanhã, como creança; outra, ralhando e suspirando pelo dia de hontem, como avó; uma, apaixonada do ideal e reparadora de _tuertos_, como D. Quixote; outra, odiando utupias, e contente com a ordem estabelecida de cousas, como Sancho. Em todos os campos da sciencia humana se encontram, frente a frente, estas duas filas de contendores. Emquanto o medico novo baseia raciocinios e assenta diagnosticos sobre recentes descobertas physiologicas, o prático velho encolhe os hombros, sorri, formúla ou opéra; emquanto o joven lettrado desenvolve theorias de sciencia social, vistas transcendentes de philosophia de direito; o jurista, encanecido no fôro, examina os artigos do codigo, esmiuça a lettra da lei, aconselha as partes e despacha os autos.
No exemplo que temos á vista, Manoel Quentino era o representante das ideias conservadoras; Carlos, o apostolo do progresso.
Por vezes o inabalavel rochedo da experiencia do guarda-livros foi rudemente açoutado pelas objecções, que a lucida intelligencia de Carlos contra elle despedia. Manoel Quentino fazia porém como o rochedo; não as repellia, deixava-as passar por si e ficava firme.
Manoel Quentino explicára, por exemplo, a Carlos a maneira de fazer os lançamentos, no caso de uma supposta remessa de lã para Liverpool.
Carlos combateu a longura e complicação dos processos seguidos, expondo a maneira como, no seu entender, se podia e devia simplificar a escripturação; parecia-lhe que muitas indicações feitas nos livros escusavam de ser registradas, e n'este caso estavam todas aquellas contas que, pelo processo de Manoel Quentino, eram creditadas e debitadas simultaneamente; desnecessario julgava fazer menção d'ellas, visto que ficavam logo por esse facto saldadas.
Os methodos indicados por Carlos eram tão simples, tão racionaes, tão despidos de minuciosidades defeituosas, despojavam os livros de tantas indicações superfluas, ronceiramente consagradas pelo habito, que Manoel Quentino não soube como combatel-os.
Imagine-se a contrariedade que experimentou com isto!
Não era elle homem porém que rompesse com habitos velhos e renegasse, perante as primeiras objecções de um rapaz inexperiente, o classico systema, a que fora fiel durante os muitos annos do seu tirocinio commercial; por isso retorquiu com acrimonia:
--Não sei de contos; assim é que se faz.
--Será; mas não se podia fazer tambem da maneira que eu digo?
--Podia... não podia... isto é... podia... não podia, não, senhor.
--Porquê?
--Porque não.
--Mas é, sem comparação, mais simples.
--E é com o que lhe dá! É mais simples, é mais simples... e acabou-se! Deixal-o ser!... Não se trata aqui de ser mais simples, nem menos simples... É como é e como deve ser... Estava-se mesmo á espera do senhor para vir fazer descobertas!... Até agora temos andado todos ás aranhas... Faltava cá o snr. Carlos com as suas simplicidades! Ora não está má!... É mais simples!... Pois peior; nós não queremos cousas simples... Será mau o processo, mas olhe que se tem feito e guiado muito boas casas com elle. Fie-se lá nas suas escripturações simples, e verá o que vae! Theorias!... Estou de pé atraz com ellas! Não provam bem. Negociante de theorias, fallencia no caso. É mais simples!... Olhem a grande cousa!... Mais simples era não fazer lançamento nenhum, se vamos a isso.
Carlos pôz-se a rir. Comprehendeu a repugnancia que devia encontrar Manoel Quentino em ceder n'aquella discussão e respeitou-lh'a. Recuando generosamente n'este campo, avançou n'outro; porque Cecilia soube ser grata áquella delicadeza de proceder para com o pae.
Manoel Quentino anciava por uma desforra; encontrou-a.
Duante a passada discussão, tendo-se fallado muitas vezes em facturas, o velho voltou-se agora de subito para Carlos, perguntando-lhe _ex-abrupto_ se sabia fazer uma factura. Carlos não respondeu logo.
O homem prático presentiu n'esse campo completo triumpho. Não admittiu, por cautela, explicações verbaes; mandou vir papel, penna e tinta, e disse para o discipulo:
--Risque e encha.
Carlos hesitou. Manoel Quentino saboreou as doçuras de uma victoria.
--Ora ahi está,!--exclamou elle--Ahi está do que servem as theorias! É isto sempre... Fallam que nem um bacharel... e vae-se a trabalhar e... passe por la muito bem! não atam nem desatam!... Então? Veja se se lembra de algum methodo mais simples de sair do aperto... Qual!... Aqui é que eu os quero ver... No fogo é que se conhecem os soldados... Isto de queimar polvora em fogos presos não presta para nada... Ora escreva, escreva lá, faça o que eu lhe disser e deixe-se de theorias. Não tenha vergonha de aprender. Todos aprendem até á morte.
E principiou a indicar-lhe a maneira de riscar o papel, as inscripções que tinha a fazer, as verbas que devia registrar, e isto tudo sem lhe deixar passar por alto a minima particularidade.
Carlos obedecia-lhe com tal docilidade de discípulo, que fazia rir Cecilia.
--Vá; escreva ahi, no alto da folha--disse Manoel Quentino--Factura de... agora um genero qualquer que queira carregar.
--De paciencia então, que é genero de que o Manoel Quentino bem precisa agora para aturar a molestia.
--Então! está a brincar ou que faz? paciencia preciso, mas é para o aturar a si.
--Paciencia confiada ao cuidado de meu pae!--dizia Cecilia--Valha-nos Deus! que não é homem que tenha cautela com a mercadoria.
--E adeus! Estão as duas creanças a brincar. E eu que as ature!
Se Manoel Quentino tivesse mais algum conhecimento dos pequenos mysterios do coração, não fallaria assim collectivamente de Carlos e Cecilia, isto de os confundir debaixo da denominação generica de creanças era imprudente, no estado actual dos sentimentos de ambos.
Proseguiu a indicação da maneira de encher a factura e com isto terminou a lição.
Em seguida, serviu-se o chá, que n'aquella noite não soube a José Fortunato, como de costume.
Manoel Quentino, apesar das suas impaciencias, estava, de si para si, espantado de tanto que sabia Carlos.
--Que esperteza de rapaz!--dizia elle para Cecilia, quando esta, depois de todos se haverem retirado, fazia engulir ao pae a ultima chavena de caldo d'aquelle dia e lhe arranjava os travesseiros para o somno da noite--Tem diabo! Como entende tão bem estas cousas de commercio, a que andou sempre estranho! Era capaz de enrodilhar outro, que não tivesse a experiencia, que eu tenho! Uma cousa assim! Parece até que adivinha! É até um peccado andar fóra da vida do negocio... Deem-lhe alguns annos de pratica, e verão o que d'alli sáe.
Cecília calava-se.
XXIII
DIPLOMACIA DO CORAÇÃO
A educação commercial de Carlos continuou e com os mais rapidos e auspiciosos progressos. Á segunda noite espantava elle Manoel Quentino, apresentando-lhe os lançamentos, que pela manhã fizera e nos quaes o experimentado guarda-livros nada teve que notar.
A custo pôde convencer o fogoso discipulo de que não convinha que elle proprio escrevesse nos livros geraes, onde era contra as praxes apparecer lettra de mais do que um individuo. Bastava, dizia o velho, e já não era pequeno serviço, que Carlos o auxiliasse no expediente e deixasse tudo preparado para que, ao terminar o seu impedimento, elle, Manoel Quentino, só tivesse a transcrever no _Diario_ e no _Razão_ as transacções operadas durante essa época.
No fim de tres ou quatro serões, Manoel Quentino já não tinha que ensinar mais ao discipulo.
Elle sabia tudo!
Terminaram pois as lições, mas não terminaram com ellas as visitas de Carlos, como seria natural que acontecesse. Mudaram apenas de caracter aquelles serões.
Carlos era agora o que se encarregava da leitura das folhas, com grande mágoa de José Fortunato, que não podia encontrar na diversão metade do prazer que n'ella recebia, quando a leitura era feita por Cecilia.
De mais a mais, Carlos divertia-se muitas vezes á custa do velho. Sabendo de Manoel Quentino que elle era possuidor de varios papeis de credito, raro era o dia em que, no decurso da leitura, não improvisava noticias e insinuações, que faziam entrever uma imminente baixa de fundos e porventura uma banca-rota.
José Fortunato declamava então contra os governos presentes, passados e futuros, com toda a acrimonia que lhe era possivel.
Quando os dois velhos tratavam ás vezes alguma discussão acalorada, Carlos aproveitava a occasião de entrar com Cecilia em um dialogo, cuja indole era cada vez mais perigosa para o coração de ambos. E senão, ouçamos.
Cecilia trabalhava, certa noite, em uma camisa de panninho para o pae.
--Que nome se dá a isso que está a fazer?--perguntou Carlos, curvando-se sobre a costura.
--É uma camisa--respondeu Cecilia, sorrindo. Pois nem conhece!?
--Que é uma camisa sei eu; não perguntava isso; mas... essa costura em que está agora a trabalhar, como se chama?
--Isto? É um posponto.
--Ah! um posponto!... Um posponto é a mesma cousa que um sobre-cosido; pois não é?
Cecilia desatou a rir a esta pergunta.
--Não, senhor, não é. Nem tem nada uma cousa com outra.
--Não?! Pois olhe... parece, porque... posponto é... como quem diz: depois do ponto; sobre-cosido, sobre ou depois do cosido, e portanto... depois do ponto tambem.
--Será; mas... em todo o caso, são cousas diversas.
--Então que differença fazem?
--Ora que curiosidade! Ha de interessar-lhe muito agora conhecer essa differença.
--E porque não? Não vê que ando com vontade de ampliar os meus conhecimentos? Não tem reparado na minha docilidade a ouvir as lições de escripturação?
--Mas essas podem servir-lhe.
--Mas vamos; um posponto é isso; muito bem. E agora um sobre-cosido?
Cecilia, rindo, procurou na obra, que estava a fazer, o exemplo já realisado de um sobre-cosido e mostrou-o a Carlos, dizendo:
--Ahi está um sobre-cosido. Agora estude a differença, a ver se a sabe explicar.
Carlos examinou-o com apparente attenção e a mais composta seriedade.
E Cecilia interrompia o trabalho, só por causa d'isto.
--Então?--perguntou ella maliciosamente, quando Carlos deu mostras de haver terminado o exame.
--Reconheço que de facto são cousas diversas, mas não posso bem dizer em que consiste a differença.
--O que o deve affligir muito.
--Mas diga--insistia Carlos, que parecia devéras empenhado em elucidar este negocio dos pospontos--todas as costuras se fazem a posponto?...
Cecilia não podia escutar com seriedade este inquerito inesperado.
--Não, senhor;--respondeu a rir--conforme a qualidade da obra, assim se prefere a qualidade do ponto.
--Ah! visto isso, o posponto... é um ponto tambem?
--Pois está claro. É um ponto que se dá assim. Ora repare.
E Cecilia, acompanhando a palavra com a acção, principiou a trabalhar com todo o vagar, ao passo que Carlos assistia á demonstração com a attenta seriedade de um discipulo. Ainda que me parece que menos vezes lhe seguiam os olhos os movimentos da agulha, do que se fixavam a admirar a perfeita modelação e delicado colorido da mão que a movia.
--Repare--dizia Cecilia--dá-se, supponhamos, o primeiro ponto; maior ou menor, conforme a delicadeza da obra, já se sabe. Assim. Ora agora, a agulha entra aqui mesmo pelo meio d'este primeiro ponto... Vê?... E vae saír adiante, de maneira que este segundo ponto tenha o mesmo comprimento do primeiro. Entende? A terceira vez entra por onde saíu a primeira, a quarta por onde saíu a segunda... e assim por diante... Entende agora?
--Muito bem. E o sobre-cosido?
--Mas como lhe deu para querer saber doestas cousas?
--É uma esquisitice. Concordo. Mas... então que quer? Mau é que eu tenha um d'estes desejos. Incommodo-me deveras, se os não satisfaço.
--Ah! Não sabia que era assim caprichoso!
--E não concebe esta maneira de sentir?
--Eu, não.
--Não diga que não. É impossivel. A imaginação feminina, sem duvida mais delicadamente sensivel do que a nossa, não póde ignorar estes pequenos caprichos. O capricho é, a meu ver, uma prova de superioridade moral em que o tem. Vamos; termine a minha lição.
--Então que quer saber agora?
--Que é um sobre-cosido?
Cecilia condescendeu ainda em lhe explicar o que era o sobre-cosido, como já lhe explicára o que era o posponto. Carlos deu-se no fim por satisfeito.
Agitou-se ainda algum tempo a discussão a respeito de assumptos d'esta natureza.
Carlos foi durante ella sempre serio; Cecilia, a cada momento, a interrompia com o riso, que lhe desafiava a estranha lição, que nunca esperára ter de dar a um discipulo d'este genero.
Em quasi todos os serões, passados em casa de Manoel Quentino, os colloquios entre Carlos e Cecilia versaram sobre objectos de igual transcendencia e sustentaram-se em um tom da mesma gravidade que este, que registamos.
Ahi estão uns colloquios inoffensivos e inconsequentes, pensará talvez o leitor. Pois engana-se, se pensa assim. Recorde-se da sentença de quem, n'estas cousas de amor, escreveu _ex-professo_:
_Parva leves capiunt animos_.
De facto, nada ha de tanta influencia para o coração como um colloquio assim, bem futil, bem insignificante, no estado a que haviam chegado os sentimentos de Carlos e de Cecilia.
Quanto mais ligeiro, quanto mais pueril é o assumpto de um dialogo d'estes, tanto mais se empenham os corações dos que o sustentam.
Os dialogos amorosos, que estamos costumados a escutar entre o galan e a primeira dama, no tablado dos theatros, ou a ler nos capitulos dos romances, dialogos cortados de interjeições e cheios de subtis theorias do mais acrisolado sentimento, são excepções na vida real; e, quando se dão, sáe-se d'elles mais livre, mais disposto a esquecer, menos propenso a sonhar; servem como de expansão aos affectos accumulados--expansão em que estes ás vezes completamente se dissipam. Mas os constrangimentos, os silencios, dos quaes a imaginação em vão procura livrar-se, e sobre tudo o conversar aturado sobre mil cousas futeis e indifferentes, isso sim, que é bem mais para temer; porque, emquanto dura a troca reciproca de formulas insignificantes, o coração põe em campo outros emissarios secretos e invisiveis, que adiantam consideravelmente as negociações pendentes e conseguem realisar a entrega da praça, sem o minimo combate manifesto.
Digam-o os numerosos pares, para quem voam as horas e desapparece o mundo, de enlevados que se entregam a esses interminaveis dialogos, motivo de zombarias apparentes e de occultas invejas dos que os não podem gosar; digam se, quando mais sinceros sentiam em si os affectos, eram metaphysicas e transcendentes especulações sobre o amor o que assim lhes absorvia as attenções e os cuidados; digam se, quando, ao terminar um d'esses felizes dias, tentavam reproduzir as impressões recebidas no decurso d'elle, recordando as palavras ditas e escutadas n'aquellas longas entrevistas, outra cousa lhes conseguia avivar a memoria que não fosse dialogos pouco dramaticos, banalidades sobre assumptos indifferentes, mas sob cujo disfarce o coração achára meio de dizer muito, e até mais eloquentemente, do que ainda poeta algum o pôde exprimir--nem o proprio Petrarca nos seus trezentos e dezoito sonetos.
Isto aconteceu a Carlos Whitestone. Poucas vezes voltára a casa mais possuido d'essa intima e indefinida alegria de quem assiste em si ao ateiar de uma paixão, do que na noite, em que se verificou o dialogo, que o leitor provavelmente julgou sem consequencias.
Prolongou-se este estado de cousas. O medico, a quem fora confiado o tratamento de Manoel Quentino, prudente em demasia, apenas lhe promettia esperanças de o deixar saír passada uma semana mais.
Carlos não pensava com frieza de animo no termo d'aquelle praso. Poderia, sem causar estranheza, continuar, ainda depois d'elle, as visitas que lhe eram já tão necessárias? Até alli servia-lhe o pretexto de vir dar contas a Manoel Quentino do serviço da manhã; mas depois?
Carlos continuou a ser diligente nos negocios do escriptorio. Mr. Richard ainda não acabára de conformar o espirito áquella mudança do filho.
Em casa de Manoel Quentino, só este era quem talvez não suspeitava um segundo motivo na assiduidade de Carlos. Antonia e José Fortunato já a commentavam havia muito.
E Cecilia? Respondam por mim as leitoras.
Uma noite ia o snr. José Fortunato a retirar-se, e entre elle e Antonia travou-se, já no portal, o seguinte dialogo:
--Então, snr.ª Antonia, que lhe parece este inglez aqui sempre mettido?
--Que quer que lhe faça? O que me admira é o snr. Manoel Quentino não reparar...
--Mas diga-lhe que...
--Eu?! Deus me livre! O snr. José Fortunato é quem...
--Eu?! Nada; n'essa me não metto; mas a snr.ª Antonia tem quasi obrigação de...
--Eu lhe digo... Eu, como o outro que diz, não quero fallar, sem primeiro me encher de razão... Hei de tirar umas informações a respeito do inglez, e depois...
--Informações de quem?
--Mesmo defronte da casa d'elle vive uma cunhada do homem da sobrinha de uma comadre minha, de quem eu sou muito conhecida e amiga; ámanhã, se tiver tempo, sempre hei de lá chegar. Porque a mim consta-me que este rapaz é um estoira-vergas dos meus peccados...
--Elle lá se vê!
--Ora o que nos havia de apparecer!
E os dois despediram-se; José Fortunato para ir curtir em casa as cruas mágoas do coração; Antonia para assentar, no repouso do travesseiro, sobre a maneira de obter da cunhada do homem da sobrinha da sua comadre as informações de que precisava, para se encher de razão.
XXIV
EM QUE A SENHORA ANTONIA PROCURA ENCHER-SE DE RAZÃO
A cunhada do homem da sobrinha da comadre da senhora Antonia habitava, como da bôca da dita senhora soubemos, defronte de Mr. Richard Whitestone. Era a morada uma pequena casa terrea, a cuja meia porta passava a inquilina metade do tempo, observando ou transmittindo aos outros o resultado das suas observações.
Se o amor de saber define etymologicamente o philosopho, difficil será encontrar algures individualidade tão bem acondicionada para se lhe encabeçar o disputado titulo, como a snr.ª Joséfinha da Agua-benta; que por este nome era sua graça conhecida em todo o bairro.
Era mais que amor de saber o que a possuia; era ancia, era febre, era delirio!
Ás nove horas da manhã do dia seguinte áquelle, em que entre José Fortunato e Antonia se tramára, _in limine_, aquella conspiração, de que lavramos acta, achava-se a diligente criada de Manoel Quentino, inflammada no santo ardor domestico, á porta da sua, conhecida e amiga, no louvavel intuito de colher informações a respeito de Carlos Whitestone.
--Snr.ª Joséfinha!--chamou a snr.ª Antonia para dentro de casa, elevando, em desentoado falsete, a voz inclassificavel.
--Hui!--respondeu de dentro outra voz, digna de emparelhar com esta.
--Passou bem?
--Mas quem é?
E uma figura de mulher de meia idade, perfeito typo de mulher de soalheiro, foi pouco e pouco tomando vulto e relevo no vão escuro da porta, e assomou emfim á cancella.
--Ai, pois é vocemecê, snr.ª Antonia? entre.
--Ai, nada, não entro, que não me posso demorar.
--Então que pressas são essas hoje?
--Bem vê que são nove horas, e preciso de olhar pelo jantar.
--Isso tem muito tempo--disse a snr.ª Joséfinha da Agua-benta, encostando-se á cancella, e proseguiu:--Então quem a trouxe por estes sitios?
--Fui alli adiante a um recado do patrão, e sempre quiz bater para saber de si.
--Muito obrigada. Então ainda se dá bem na casa?
--Vamos andando. Da maneira por que hoje as cousas estão, ainda não é das peiores.
--Diz bem. A soldada, a fallar a verdade... acho que não é lá das de tentar, mas...
--Está feito, está feito; ha-as melhores e ha-as peiores--disse a snr.ª Antonia, que não gostava de entrar em particularidades da sua vida, nem para isso vinha.
--Elle tambem...--insistia a outra--não póde alargar-se muito. Um caixeiro...
--Deixe lá. Ha por ahi patrões, que vivem em maiores apertos.
--Diga-m'o a mim, snr.ª Antoninha. Olhe a minha Luiza... Conhece? A filha do nosso Antonio. Pois esteve alli abaixo a servir seis mezes em casa do commendador Collaço e saíu de lá porque aquillo chega a pouca vergonha. Os criados passavam fome de rato. Olhe que chegavam a dar-lhe pão de uma semana e a comprar sardinha da caravella para a ceia d'elles. Pois quem via aquillo na rua, parecia que tinham as rendas do bispo.
--Pschi! E quando ao menos são promptos na soldada!
--Promptos?! Isso sim! A uma criada, que lá esteve tres annos, ainda hoje estão a dever um anno inteiro. Ora isso é mesmo uma dor de consciencia, não acha?
--Mas então que quer? O luxo é muito.
--É assim, é. Diz bem. É uma cousa por maior! Vocemecê ha de conhecer aquelle Maltez, que é não sei o quê na administração, um homem bem afigurado, que anda sempre com um cão preto...
--Ai, bem sei. O cunhado d'aquelle militar de quem dizem as más linguas...
--Tal e qual. Pois não sei se tem reparado no luxo com que se apresentam as filhas e a mulher. Ó santo Deus! Emfim uma cousa é ver, outra é dizer. Aqui ha dias passaram ahi todas e eu benzi-me e tornei-me a benzer! Não que nem a rainha póde luxar assim. Qual! Ora, veja a snr.ª Antoninha, o pae dizem que não ganha mais de trezentos mil réis por anno. Milagres não se fazem... O dinheiro não nasce no quintal...
--Deus sabe d'onde elle vem.
--Eu tambem sei alguma cousa, vamos lá. Sei a quem magoam muitas d'aqúellas grandezas. Olhe que a senhora d'elle tem chegado a pedir emprestado a uma rapariga, filha de uma amiga minha, que esteve lá a servir muitos annos. A rapariga, coitadinha, que se mata a trabalhar... porque ella hoje é engommadeira, teve vergonha de dizer que não, e adeus, minha vida.
--Tola foi; cá para mim é que elles vinham bem guiados.
--Por isso eu digo: a snr.ª Antoninha não é das que tem razão de queixa.
--Ai, não sou, não, senhora; isso não sou; graças a Deus.
--O passadio é bom?
--É bom, é, sim, senhora; lá n'isso não ha que dizer...
--O peior que alli tem é a prisão; pelos modos sáe poucas vezes. Tirante lá, aos domingos, o ir visitar o Senhor ao Carmo.
--Bem vê que o patrão quasi nunca está em casa... e é uma menina só...
--E a pequena não tem por ahi já a sua inclinação? Ha de ter...
--Não... Que eu saiba...
--Ha de ter, ha de ter. Hoje em dia! Olhe a snr.ª Antoninha aquella rapariga do Cosme Villas-boas, uma creança se póde dizer... pois o que ahi vae já com ella por causa do filho do escrivão!
--Sim. Então?...
--Ora! nem quero que me lembre! É um desafôro! O pae d'ella, no outro dia, pescou-o a fallar com a pequena, e correu para o rapaz com uma navalha. O rapaz fugiu, e a mãe d'elle veio então á janella e pôz-se a berrar com o velho. Sempre disseram cousas uma á outra aquellas duas creaturas! Um passo assim!
--Não que ha gente n'este mundo!
--O pae pelos modos queria-a casar com o brazileiro, que anda a fazer aquellas casas em Santa Catharina.
--Isso era uma mina para a rapariga!
--Mas então que quer? Virou-se lá para o filho do escrivão.
--Forte tola!
--E elle então que é uma figura! Não o conhece?
--Eu não.
--É mesmo cinco réis de gente. Um desconjuntado, um lorpinha...
--São gostos.
--É assim; diz bem. Mas então a sua ama...
--Essa... por emquanto... É aqui como a sua vizinha.
--Qual?
--A do inglez, a filha do patrão lá do meu amo.