Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto

Part 19

Chapter 19 3,844 words Public domain Markdown

Estes homens tinham celebrado o 1.° de abril--este dia que, não sei por quê, o uso popular consagra a reciprocas mystificações--ferindo no mais doloroso o coração de um pae! E ainda poderam rir!

Louvado seja Deus! Ha gente assim graciosa no mundo!

--Vão lá agora segural-o,--disse o mystificador--deixa-o, maior alegria o espera ao chegar a casa.

E voltou a divertir-se.

No entretanto Manoel Quentino proseguia n'aquella marcha rapida, desordenada, como se desejasse fazer desapparecer de subito a distancia, que inda o separava da filha, e ia murmurando:

--Cecilia... pobre filha!... Ó nossa Senhora!... que desgraça! que desgraça! para que saí eu?... Não póde ser... Mas para me virem assim chamar... Quem sabe se... Grande perigo! grande perigo, por certo! Virgem Santa! E este caminho é tão longo!... E ella morta talvez por me ver chegar... Ó filha, filha...

E as lagrimas caíam-lhe em fio pelas faces.

O atordoamento de cabeça augmentava; a energia muscular, que a nova recebida momentaneamente lhe dera, cedia de novo logar ao mesmo desfallecer, que, antes, lhe vergava os membros. O pobre velho aterrava-se ao perceber isto.

--Oh! dae-me forcas, Senhor, dae-me forças para chegar depressa! Por misericordia!--dizia elle, tremendo--A minha pobre filha!...

E os ouvidos zuniam-lhe cada vez mais; diante dos olhos, passavam-lhe, de quando em quando, faiscas, manchas avermelhadas, nuvens de sangue; ouvia o bater das fontes e das carotidas; furtava-se-lhe o chão debaixo dos pés; andava e não se sentia andar; já não tinha poder de regular os movimentos, que se succediam sem a coordenação regular.

Uns homens, que passaram por elle, pararam a examinal-o, e Manoel Quentino ouviu-lhes ainda dizer:

--Olha como vae aquella alminha! ha de custar-lhe a dar com a porta de casa.

Estas palavras affligiram ainda mais este pobre pae, já tão afflicto. Tinha chegado á capellinha do Padrão.

--Que angustias, meu Deus! Valei-me, nossa Senhora!--murmurou elle.

Encostou-se algum tempo ás grades da porta, porque já não podia andar.

Fez uma oração fervente, d'estas orações que, se não abrirem de prompto caminho até o throno de Deus, é porque para sempre se fecharam já as portas do céo a todas as preces da humanidade. Mais sentida, mais do coração, do que aquella, é que se não fazem no mundo.

Pareceu ganhar vigor por um pouco. Proseguiu, mas com o andar mais tardo e vacillante. Cêdo porém voltaram as ameaças do mal. Um entranhado terror apoderou-se-lhe do coração, uma como mysteriosa consciencia de proximo perigo.

As luzes da illuminação publica appareciam-lhe coloridas de vermelho. A perturbação de vista augmentou; tudo girava em volta d'elle; os objectos tornavam-se-lhe indistinctos, afigurava-se-lhe que o terreno descia de repente, e em uma descida tão rapida, que elle teve de parar para não caír. Encostou-se á ombreira de uma porta.

Ouviu a voz de alguem, que já nem viu, dizer-lhe:

--O senhor não está bom? Entre para descansar.

--Não--disse elle com certo desabrimento, como se aquelle conselho lhe desvanecesse cruelmente a illusão, que fazia por conservar ainda.

E de novo tentou caminhar.

Estava proximo do cemiterio publico, chamado do Repouso; deu mais alguns passos.

Os mesmos symptomas atacaram-o de novo e com maior violencia; a vertigem foi completa; o chão pareceu faltar-lhe.

O bom do homem ainda pôde murmurar:

--Senhor!... Senhor!... por piedade!... pois hei de morrer aqui, sem ver minha filha?!...

E caíu sobre um dos bancos de pedra da alameda que está em frente do cemiterio.

XXI

O QUE VALE UMA RESOLUÇÃO

Cecilia, pensando que o pae não prolongaria demasiado o passeio, voltou a casa ainda com dia.

Anoiteceu, porém, sem que Manoel Quentino apparecesse.

Tudo era sombras na rua: para o lado do mar coloria-se o céo do rubor inflammado do crepusculo... e ninguem!

O coração de Cecilia principiou a ennevoar-se de vagos receios, que ella até fugia de definir.

Mas estas nevoas foram-se condensando em cerração, á medida que descia a noite, e Manoel Quentino sem apparecer! A imaginação de Cecilia começava já a lembrar-lhe mil escuras explicações d'aquella extraordinaria demora.

A boa rapariga não podia socegar.

Vinha á janella com esperanças de avistar o pae no principio da rua, e retirava-se para dentro outra vez, pezarosa e assustada porque o não via.

Fallava a Antonia, desejando ouvir d'ella alguma supposicão, que a tranquillisasse; mas a criada, tambem assustada com a demora do amo, longe de a animar, aterrava-a com as suggestões da sua fertil imaginativa.

--Olhem agora!--dizia ella--Não que uma demora assim! Eu nunca vi!... Quem sabe lá? Não lhe fosse por ahi acontecer alguma!...

--O que lhe havia de acontecer, mulher? Você tambem!--disse Cecilia, tranzida de susto com esta vaga insinuação da criada.

--O que lhe havia de acontecer?--proseguiu esta--Ellas em qualquer parte se armam. Até na cama se quebra uma perna. Veja aquelle velho, que passava d'antes todos os dias por aqui para a alfandega. Então não escorregou um dia no degrausito da porta, que não tinha mais do que isto--e indicava uma mão travessa;--caíu, e de tal maneira, que no fim de oito dias estava enterrado.

Cecilia empallidecia só de ouvir estas palavras.

--Mas, se tivesse succedido alguma cousa, tinha já mandado dizer.

--Conforme, menina... Ás vezes acontecem os males em sitios, onde ninguem conhece uma pessoa, e se se não póde fallar... Ahi está que...

--Havia logo de succeder tudo mal. Nem que o pae fosse para algum sertão de selvagens. Você tem cousas!

--Pois sim, mas o que é certo é que se a demora fosse natural, elle é que já tinha mandado aviso. Pois então não havia de saber a canceira e susto que causava á menina?

Cecilia afastou-se, impaciente, d'esta Cassandra de cozinha, e voltou á janella.

Estavam já accesos os lampeões da rua. As sombras da noite parecia estenderem-se ao coração de Cecilia.

--A menina quer que traga luz?--perguntou a criada, entrando na sala.

Esta pergunta, obrigando-a a notar o adiantado da hora, soou funebremente aos ouvidos de Cecilia.

--Não--disse ella, com voz alterada.--Luz, tão cêdo!

--Cêdo?! Onde vão as sete, menina! Está de ver que não vem.

--Que não vem! Que não vem! Você está douda, mulher? Pois não ha de vir?--exclamou, com dobrada impaciencia e quasi com raiva, Cecilia, debruçando-se mais na janella.

--A menina não faz nada em o esperar assim. Lá por estar ahi não é que elle vem mais depressa--ponderou tolamente a snr.ª Antonia.

--Não lhe importe; deixe-me--disse-lhe sêccamente Cecilia.

--Uma cousa assim!--proseguiu a criada--Não que quando a gente mal se precata! Sáe uma pessoa muito socegada de sua casa e só Deus sabe para quê! Para onde iria tambem aquella creaturinha do Senhor? Quem póde lá dizer o que lhe succedeu? Sume-te! Eu lembro-me de que um dia meu pae...

--Vá buscar luz, vá--ordenou Cecilia, para escapar ao caso, que Antonia apparelhava, com o piedoso intento de tirar d'elle talvez uma inducção pouco de tranquillisar.

Antonia saíu.

Cecilia, de assustada que estava, já não sabia o que fizesse.

Qualquer vulto, que assomava ao principio da rua, lhe parecia o pae; seguia-o com anciosa curiosidade, cêdo transformava-se em desalento esta curiosidade, porque o via passar indifferente para além da porta da casa.

Andavam já bem perto dos olhos as lagrimas em Cecilia, quando Anlonia voltou com a luz.

--Então, ainda nada?--perguntou a criada.

Cecilia não lhe respondeu.

--Quer que feche as janellas?

--Não.

--Não tem que ver; a cousa não é natural. O pae é amigo de recolher-se cêdo e não era homem que não mandasse recado, no caso de, de todo em todo, não poder vir. Ninguem me tira d'isto. Aquillo foi cousa que lhe succedeu por lá.

O relogio deu meia hora depois das sete.

--Já sete e meia! Sempre é demais! Ó menina, eu vou extrahir o chá, não acha?

--Não; cale-se para ahi. Quero lá saber de chá. Bem me importa a mim o chá. Você perdeu o juizo?

--É que o snr. José Forrunato não tarda por ahi...

--Pois se vier, veio. Não tenho mais em que pensar, senão no snr. José Fortunato! Deixe-me, deixe-me.

Antonia era d'estas pessoas, a quem as maiores inquietações não fazem perder a ideia das suas obrigações habituaes. Emquanto o espirito se perturba e a bôca lhe traduz os pensamentos, as mãos, independentes da imaginação, proseguem na tarefa do costume.

Cecilia não; caracter apaixonado, era toda da ideia que a possuia. A irresolução, que devia áquelle estado de anciosa duvida, para tudo a inhabilitava.

Em nada consentia que lhe fallassem n'aquelle momento, nada queria escutar, de nada queria saber.

Anciada, nervosa, impaciente, febril, passava de uma para outra janella, voltava ao interior da sala, chegava ao patamar, e corria á janella outra vez.

Em uma d'estas occasiões ouviu duas mulheres, que passavam na rua, dizerem:

--Uma desgraça assim! Foram todos; uns morreram, outros ficaram aleijados para toda a vida.

O coração de Cecilia bateu com violencia ao ouvir aquillo. Não pôde reprimir-se, que não perguntasse ás mulheres de que desgraça fallavam.

E tremia de ouvir a resposta. Disseram-lhe que era de uma saibreira, que desabára na vespera sobre uns trabalhadores. Respirou!

De outra vez, era um homem que viera a correr desde o principio da rua e parára defronte da casa, irresoluto, como quem procurava reconhecer uma de entre aquellas diversas moradas. Cecilia queria perguntar-lhe quem elle procurava, mas quasi não tinha voz para o fazer, tal era o intenso terror, que se apossou d'ella, ao ver este homem.

Parecia-lhe impossivel que não fosse algum mensageiro de desgraças.

A final conseguiu fallar-lhe. O homem procurava um vizinho.

Cecilia guiou-o, ainda mal restabelecida do susto que sentira.

Tendo voltado á sala ouviu tocar a campainha do portal.

Estremeceu alvoroçada de esperanças e de temores.

--Será elle?

N'este tempo já Antonia vinha no corredor e com fleugma inalteravel atalhou:

--É o snr. José Fortunato; são as horas.

Cecilia voltou as costas despeitada e triste. Sentiu no coração uma quasi má vontade contra o nocturno visitador.

Era de facto o snr. José Fortunato que chegava.

--Muito boa noite, menina; passou bem?--disse José Fortunato, ao entrar para a sala.

--Muito afflicta, snr. José Fortunato, muito afflicta, não faz ideia!--respondeu Cecilia.

--Sim?!--tornou o outro, pousando os varios artigos do seu complicado vestuario, guarda-chuva, capote, _cache-nez_, luvas, chapéo, a caixa do tabaco, e tomando assento no logar do costume.

--Pois não quer saber?--continuou Cecilia--meu pae saíu esta tarde, a dar um passeio, e são as horas que vê, e não voltou ainda a casa!

--Na verdade, é... é celebre! Succeder-lhe-hia alguma cousa?

Pergunta suficientemente tola.

José Fortunato rivalisava com Antonia, na maneira de intervir na presente crise; as suas palavras, longe de serem tranquillisadoras, tinham por effeito exacerbar a inquietação e o susto.

Cecilia sentiu esse effeito, porque chegou logo á janella, com maior anciedade ainda, dizendo a tremer:

--Que lhe havia de succeder?...

--O snr. Manoel Quentino--continuava José Fortunato, placidamente sentado á mesa--havia já alguns dias que andava assim não sei como. Eu disse-lhe ainda antes de hontem:--«Homem, é preciso olhar por isso, antes que vá a mais; consulte alguem.»--Mas elle, não, senhor; _tinha_ lá aquelle genio.

A escolha do tempo para o verbo era para fazer redobrar os terrores de Cecilia. _Tinha_! Este bom homem de José Fortunato era d'estas cousas; dir-se-hia que, para elle, Manoel Quentino já não podia merecer as honras do presente de um verbo! Não contente com isto principiou:

--Estas mudanças de tempo não são nada boas, sobre tudo em certas idades. Tem havido por ahi muitas molestias repentinas. Ahi está que aquelle Gambôa, que era empregado na camara, teve hontem um ataque de apoplexia e foi-se, enquanto o diabo esfrega um olho.

--Jesus! snr. Fortunato; por quem é, não falle n'essas cousas!--exclamou Cecilia angustiada--Se tivesse succedido alguma desgraça a meu pae, não havia já de ter vindo alguem dizel-o aqui? Aquillo é que se demorou...

--Pois eu não digo, menina, que... mas ás vezes; olhe que a gente para adoecer basta estar vivo e depois um desastre... Ahi está que tambem o pae tinha um outro mau costume, de que eu tambem o avisei muitas vezes; ia sempre áquelles vapores inglezes, quando elles entravam, e, apesar de ser homem pesado, porque já não é creança, usava n'ísso de muito pouca cautela, e, ás vezes, na atracação... Olhe que é uma cousa perigosa! Para quem não sabe nadar...

As palavras de José Fortunato soavam aos ouvidos de Cecilia, como um dobre a finados.

--Snr. José Fortunato!--disse ella, quasi erguendo as mãos--Não vê que com essas palavras me mata? Demais, meu pae não tinha hoje de ir a bordo de vapor algum. Hoje ao domingo! Estou a dizer-lhe que foi passeiar.

--Socegue, menina. Eu espero tambem que não tenha succedido nenhuma desgraça. Isto era um modo de fallar. Deus é bom e sabe a falta que o snr. Manoel Quentino cá fazia ainda. Nem quero que me lembre similhante desgraça! Credo! Santissima Trindade! Ainda se elle fosse homem, que tivesse regulado os seus negocios; mas parece-me que não fez ainda disposições. Eu bem sei que tudo quanto elle tem é da menina, mas ainda assim, havia ahi uns dinheiros mal parados... e... e... sempre é bom olhar por essas cousas...

Cecilia não pôde reter o pranto, que lhe acudiu aos olhos a estas lugubres considerações do seu interlocutor.

--Então não se afflija--dizia este, no mesmo tom de voz.--Que fazemos nós em nos estarmos a affligir? não fazemos nada; por isso... E demais, se fosse vontade de Deus que alguma desgraça acontecesse, a menina não ficaria desamparada; tem amigos e protectores... Perdia um bom pae, isso perdia; mas.

--Ó snr. José Fortunato, pelas almas, não me falle assim! Isso é crueldade.

--Eu não digo isto para a affligir. Socegue. Mas n'estas cousas é bom suppôr o peior.

E, ainda que nas melhores intenções, continuou o snr. José Fortunato n'este homoeopathico systema de conforto.

A agitação de Cecilia augmentava.

--Antonia!--bradou ella, vendo passar a criada no corredor--Tenha paciencia; eu não posso socegar. Esta incerteza mata-me, vá, vá você ao escriptorio, vá por ahi, vá saber... vá procurar... O snr. José Fortunato está agora aqui e... Vá. vá.

--Ó menina! não vê que é noite fechada?! Uma mulher só por essa cidade abaixo, feita uma Maria tola!

--Ó creatura, então que tem?

--Ora essa? Então que tem?!

--Não é bonito, não--concordou José Fortunato, tomando posição mais commoda.

Cecilia não lhe deu resposta, correu de novo á janella.

A rua estava deserta.

--Olhe se lhe faz mal esse ar--dizia José Fortunato.--A menina parece que está já um pouco tomada da garganta. É preciso cautela; estas constipações despresadas... Seria bom beber alguma bebida quente.

Ah! snr. José Fortunato, snr. José Fortunato! ahi anda já um pouco de egoismo; a hora do chá vae passando. Ó barro humano!

--Não sei bem o que tem mão em mim, que não vou eu mesma!--exclamou Cecilia ao voltar da janella--E se isto continúa assim, não respondo por o que farei. Oh! Não ser eu rapaz!

José Fortunato não comprehendeu qual era o seu dever n'esta occasião. Foi defeito de percepção e não de vontade.

A intelligencia era-lhe ronceira e as boas lembranças acudiam-lhe, mas tarde; quando já não era tempo de realisal-as. Foi por isso que só teve a dizer:

--Pois olhem o milagre! Se a menina fosse rapaz!... Mas desengane-se, snr.ª D. Cecilia, se tiver succedido alguma desgraça ao pae, mais minuto, menos minuto, ella ha de saber-se.

--Agradecida, pela consolação!--não pôde deixar de dizer Cecilia, com manifesto mau humor.

--De uma vez tinha eu ido a um magusto, ahi para os lados da Cruz da Regateira, e ao voltar...

Lá parecia ao snr. José Fortunato aquella occasião apropriadissima para contar um caso.

Antonia dispunha-se para ouvil-o.

Cecilia fez um movimento de impaciencia e voltou para a janella.

No momento, em que chegou alli, avizinhava-se vindo da extremidade da rua, opposta aquella d'onde ella esperava o pae, um homem a cavallo.

Era Carlos; voltava do costumado passeio extra-urbano.

Cecilia reconheceu-o, e acudiu-lhe uma lembrança.

Emquanto o cavalleiro vencia a distancia que o separava ainda de casa, Cecilia voltou-se para dentro, dizendo:

--Então não querem ir saber de meu pae, não?

O emprego do verbo no plural foi um empuxão dado á pêrra intelligencia do snr. José Fortunato, o qual, pela primeira vez, se lembrou de que podiam ser de algum prestimo os seus serviços.

--Ó menina! mas não vê que é noite fechada?--disse Antonia, como, havia pouco tempo, dissera já.

O snr. Fortunato estava ainda elaborando mentalmente a descoberta que fizera. Cecilia não esperou pelo resultado de tal elaboração.

Carlos Whitestone estava por baixo das janellas d'ella, e cortejava-a.

Cecilia não hesitou.

--Snr. Carlos--disse com a voz tremula de sobresalto.

Carlos, surprendido por se ouvir chamar assim, aproximou logo o cavallo da janella.

--Minha senhora?

--Perdôe-me, por quem é, isto que faço;--continuou Cecilia--mas desde o principio da tarde que meu pae saiu e ainda não voltou a casa, nem d'elle tenho noticia! Imagine o meu susto! Sabe por acaso, se...

--E para onde foi elle, quando saiu?

--Disse-me que ia passeiar... mas...

--E não voltou!--atalhou Carlos, estranhando tambem aquella excepcional demora.

--Que lhe terá succedido, meu Deus?!--exclamou Cecilia, recebendo a communicação da surpreza de Carlos e transformando-a logo no mais apprehensivo terror.

As resoluções em Carlos eram tão promptas, como morosas em José Fortunato.

--Socegue, minha senhora. Eu vou já saber d'isso e conte que, dentro em pouco, lhe trarei aqui seu pae.

--Oh! muito agradecida, snr. Carlos, muito agradecida!--disse Cecilia, com a voz repassada de gratidão.

Carlos cortejou-a de novo e partiu a galope.

Ao vel-o partir, a consolação de uma esperança entrou pela primeira vez no coração de Cecilia.

Carlos era para ella um d'estes homens, que, se um dia tentam o impossivel, conseguem-o.

Ao voltar-se, achou Cecilia, a dois passos de si, Antonia e o snr. José Fortunato, que olhavam com physionomias estupidamente pasmadas.

--Que foi fazer, menina?!--disseram elles quasi ao mesmo tempo.

--Aquillo a que me obrigaram. Se podesse, ia eu. Ha muito que não estaria aqui já, cansando inutilmente o espirito a procurar explicações e só a encontral-as assustadoras; se tivesse mais alguem a quem recorrer, não iria incommodar uma pessoa, a quem...

--Mas, n'esse caso, porque me não disse? então não estava eu aqui?---perguntou José Fortunato, com a maior candura d'este mundo.

Cecilia fitou-o com olhar de raiva e nem lhe pôde responder.

--A fallar a verdade--disse Antonia--não sei o que parece! Pois a menina vae assim, sem mais nem menos, fallar da janella para baixo, com aquelle senhor?...

--Se a vizinhança por ahi visse...--acrescentava o outro, espreitando para verificar se a sobredita vizinhança teria de facto visto--E então quem? Um cabeça no ar... o filho...

--Basta!--exclamou Cecilia, não podendo já reprimir-se mais tempo--Era escusado isto, era, se outras pessoas tivessem tido já a lembrança e a caridade de o fazer. Ha uma hora que me vêem n'esta afflicção e só sabem dar-me consolações, que fariam rir a quem não tivesse no coração esta agonia que eu tenho. Agora então veem com os reparos da vizinhança; a vizinhança não me tira uma só das canceiras com que estou, para que eu me deva importar com ella.

José Fortunato estava deveras condoído por se não ter lembrado a tempo dos seus deveres. Era sestro do homem.

--Ó snr.ª Antonia, faz favor de me vir alumiar--dizia elle, procurando já munir-se dos seus numerosos petrechos de campanha.

--Onde vae? onde é que vae?--perguntou Cecilia--Já agora o que está feito, está feito. Quando o snr. Fortunato fosse ao fim da rua, já o snr. Whitestone teria corrido a cidade toda. É melhor ficar.

José Fortunato ficou.

Tambem era qualidade sua esta pouca tenacidade, com que pugnava pelas resoluções tomadas.

No entretanto Carlos voava por toda a cidade, que, em pouco tempo, atravessou de norte a sul.

Por milagre não atropellou ninguem. Muitos dos que escaparam áquella carreira impetuosa, áquella velocidade, comparavel á do acrolitho, ficavam a murmurar phrases, mais ou menos impacientes, contra o imprudente cavalleiro.

Chegou, no fim de alguns minutos, ao escriptorio da rua dos Inglezes.

O silencio d'aquelle logar, a essas horas, formava perfeito contraste com a animação que alli reinava nas manhãs dos dias de semana.

Carlos fez estremecer a casa com as rijas pancadas que descarregou na porta.

Alguns vizinhos chegaram á janella.

O criado do escriptorio correu a receber as ordens do seu patrão mais novo.

Carlos, mesmo a cavallo, perguntou-lhe se tinha visto Manoel Quentino n'aquella tarde.

Disse-lhe o criado que o vira atravessar o mercado do peixe, em direcção a Campanhã; que, sendo esse o seu passeio predilecto, era provavel que...

Carlos não ouviu o resto, partiu a galope outra vez, na direcção indicada.

--Sume-te!--disse o criado comsigo--Parece que leva diabo no corpo.

Com igual rapidez seguiu Carlos toda a margem direita do rio, horas antes trilhada por Manoel Quentino. Era preciso ser excedente cavalleiro, para se não esbarrar por um caminho d'aquelles, a taes horas da noite e com tal impetuosidade de carreira.

Carlos dirigiu-se ao armazem de vinhos, que a casa Whitestone possuía em Campanhã. Nas vizinhanças morava o mestre tanoeiro, que acudiu a saber quem era e o que pretendia o nocturno cavalleiro, que ameaçava rebentar as dobradiças das grossas portas de castanho do armazem.

Vendo Carlos, ficou espantado. Carlos perguntou-lhe por Manoel Quentino.

O homem respondeu que, ao cerrar da tarde, o vira subir a estrada do Padrão, e que devia ter já voltado a casa havia muito tempo.

Carlos proseguiu a sua corrida, deixando tão estupefacto este, como deixára o criado do escriptorio.

Na estrada passou por um grupo de sujeitos, que regressavam, cantando, do «bom retiro» campestre, onde, á mesa e á sombra da ramada, haviam passado a tarde inteira.

Carlos conheceu-os. Eram alguns dos mais folgazãos membros da classe commercial, pela maior parte conhecidos de Manoel Quentino.

Ia a passar-lhes adiante, quando se lembrou de informar-se com elles tambem a respeito do velho.

Responderam-lhe rindo e contaram-lhe da mystificacão, que o leitor sabe já, porque eram estes os mesmos que nós já encontramos. Os homens riam ainda, ao lembrarem-se da pressa com que Manoel Quentino galgára a costeira de Campanhã.

--Que estupida graça!--disse Carlos, preparando-se para seguir o caminho.

--Ora essa!--respondeu um do bando--Até será uma alegria para o velho, quando chegar a casa e vir que...

--Se não tiver morrido antes pelo caminho--atalhou Carlos; e, picando o cavallo, partiu a galope.

--O homem vae doudo--disse um.

--Esbarra-se!--acrescentou outro.

--É um inglez de menos. Que o leve o diabo.

E continuaram a cantar e a rir.

Carlos chegou em um momento á capella do Padrão.

D'ahi seguiu, a trote mais moderado, pela estrada, informando-se aqui e além a respeito de Manoel Quentino. Poucos indicios colheu, até que por acaso interrogou a mulher, á ombreira de cuja porta o velho guarda-livros se encostára.

Esta deu-lhe assustadoras informações do estado em que o viu, e agourou mal do destino do homem.

Verdadeiramente inquieto, proseguiu Carlos nas suas pesquizas, até chegar á alameda do Repouso.

Em um dos bancos de pedra pareceu-lhe distinguir o vulto escuro de um homem. Aproximou-se.

Com sentimento de verdadeira alegria, reconheceu Manoel Quentino.

Cêdo porém succedeu o susto a esta primeira impressão.

O velho estava immovel e com as feições transtornadas, como se fora cadaver já.

Carlos segurou-lhe o braço, que sacudiu com violencia.

--Manoel Quentino! Manoel Quentino--bradava elle.

Respondeu-lhe um som rouco e inarticulado.