Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto
Part 16
--É um senhor--disse por fim Antonia--um senhor todo asseiado e bonito, que quer... Ai! sempre se me pregaram umas dores de cabeça!
--Que quer o quê, Antonia?
--Que quer fallar á menina.
--A mim! Você que diz, mulher? Isso póde lá ser!
--Tanto póde, que elle lá está.
--Lá! Aonde?
--Na sala das visitas.
--Pois mandou-o entrar?! Valha-me Deus!
--Então que havia eu de fazer? Se elle procurava a menina... Não, a delicadeza não fica mal a ninguem; sobre tudo com pessoas delicadas tambem. Havia de ver que modos aquelles tão bonitos! Obsequio vae, obsequio vem; senhora para aqui, senhora para alli; não é lá como estes cabouqueiros, que ás vezes veem por ahi, que julgam que todos foram creados a borôa e a caldo verde, como elles. Não, senhora; bem se vê que este é pessoa fina...
--Mas... é impossivel. Ha engano; não póde ser a mim que elle procura... Você ouviu bem?
--Ouvi, menina, ouvi. Ora que scisma! Graças a Deus não estou tonta de todo. Ia agora deixar entrar assim, sem mais nem menos, um homem pela casa dentro, sem ouvir, sem perguntar... Credo, menina! melhor conceito faça de mim. Olhem agora! Ora essa não está má! Não, se eu não entendia aquillo, estava bem servida com a minha vida! Por as palavras se entende a gente e nosso Senhor nos dê sempre ouvidos para ouvir, olhos para ver e juizo para entender. Amen.
--Está bom, está bom. Já agora não ha remedio senão ir ver quem é. E o pae não estar em casa!...
--Ora não temos nenhum ataque de ladrões. Nem que fosse alguma cousa do outro mundo... Se a menina estivesse só, não digo ... mas na companhia de uma pessoa de ... de representação...
Cecilia parecia ainda irresoluta.
Antonia insistiu:
--Então, menina! Olhe que isso até parece mal tambem. Fazer esperar assim aquelle senhor! A final não sei de que tem receio. Então se a gente vae a...
--Ora cale-se, mulher, cale-se. Se eu sei o que você tem estado para ahi a prégar...--interrompeu-a Cecilia, já impaciente--Que hei de ir, sei eu. Já que o mal está feito...
--O mal! Ó menina, não me diga isso, por quem é. Então queria que eu...
Cecilia, depois de rapidamente se ageitar ao espelho, voltou as costas á snr.ª Antonia, e dirigiu-se para a sala onde a criada introduzira a estranha visita, que tanto a estava inquietando.
Antonia seguiu-a, resmoneando o resto das suas reflexões.
Ao entrar, não viram ninguem. A pessoa, que alli esperava, saíra para a varanda de pedra, que deitava sobre o quintal. Voltou porém, logo que percebeu que as duas haviam entrado na sala, mas, como ficasse com as costas voltadas á luz, não foi logo possivel a Cecilia reconhecer quem fosse.
Cecilia deu alguns passos, com hesitação, dizendo:
--Ao que parece, v. s.ª deve ter vindo enganado.
--Não, minha senhora, não vim. É v. exc.ª mesma que eu procuro.
Cecilia parou estupefacta. A voz, que assim lhe respondia, era-lhe conhecida; a pessoa não o era menos.
Ella reconheceu Carlos Whitestone.
O sobresalto e a confusão, que se apoderaram da filha de Manoel Quentino, n'esse momento, são indescriptiveis, mas faceis de conceber por quem tenha escutado, com Jenny, a dupla confidencia, de que atraz fizemos menção.
Cecilia teve de apoiar-se ao encosto da cadeira proxima, para disfarçar a sua turbação, as faces córaram intensamente e a custo pôde dizer, em voz tremula e sumida:
--Ó snr. Carlos!... V. s.ª aqui!...
--Venho cumprir um dever, minha senhora.
--Queira sentar-se--disse Cecilia, quasi constrangida ella propria a fazel-o para não cair.
--Tem duvida, minha senhora, em me escutar a sós?--perguntou Carlos, designando Antonia, com o olhar.
Cecilia, ainda mal senhora sua, fez signal á criada, que, collocada no limiar da porta, mostrava poucas disposições de abandonar o posto, e por isso fingiu não perceber a ordem, apesar de ter entendido bem até as palavras de Carlos.
O genio de Cecilia precisava de reagir contra o enleio, que a tomára; encontrou auxiliar na impaciencia com que repetiu a ordem, acrescentando com certo desabrimento:
--Saia.
Antonia não resistiu. Subiu as escadas, de mau humor, resmungando:
--Olhem agora o peralvilho! Ora já viram! Louvado seja Deus! Sempre ha gente n'este mundo! Que não vá eu descobrir o grande segredo! Melhores barbas do que as d'elle teem confiado na filha de meu pae. O snr. doutor Raposo, um lettrado de mão cheia... pois não punha nenhuma aquella em fallar diante de mim dos seus autos e demandas. Servi tres annos o doutor Dionysio, e, depois de jantar, contava-me tudo o que via e ouvia por casa das familias, onde tratava de medico. E, graças a Deus! nunca tiveram de se arrepender d'isso. Está para nascer o primeiro que tenha razão de queixa da minha lingua... Olha agora .. O lerma, o magricellas, o dois de paus...
E procurando parodiar burlescamente os modos de Carlos:
--Tem duvida, minha senhora, em me escutar a sós?!... Tem duvida, tem, sim, senhor; e então que acha?... Ou, se não tem, devia ter... Então escuta-se assim um creancelho, um homem, que nem põe navalha na cara, sem estar presente uma pessoa de juizo? Hein?--E ella então: «Saia!» Gósto d'isto! «Saia»; não que elle não ha mais «Saia». Não sáe, não, senhora, não sáe assim com essa pressa. Ora ahi está... Ou se sáe é porque... é porque... é por a gente querer viver bem com todos; é o que é... não é por mais nada!
A palinodia prolongou-se n'esta afinação; e a reputação de Carlos ficou de rastos no conceito da snr.ª Antonia.
Logo depois de se perder nas escadas o som dos passos de Antonia, Cecilia, tremula e confusa, continuou:
--Não posso ainda imaginar a que deva a honra...
Carlos não a deixou proseguir.
--Perdão, minha senhora, v. exc.ª deve suppôr qual o fim, que me levou a solicitar este favor...
--Eu?!--perguntou Cecilia, a tremer.
--Sim, minha senhora--continuou Carlos--se v. exc.ª me conhecesse, se tivesse aprendido a fazer-me justiça, devia prever, ao ver-me entrar hoje aqui, em sua casa, que só um motivo me podia trazer.
--E era?--murmurou Cecilia, quasi receiando-se da resposta.
--Pedir-lhe perdão, minha senhora.
--Perdão!...
Cecilia sentiu o atordoamento precursor da vertigem, ao ouvir aquellas palavras.
--Sei tudo, minha senhora--proseguiu Carlos--e acredite que tenho sinceros remorsos de não haver adivinhado logo; nunca senti assim o effeito das minhas leviandades.
--Mas... sabe... o quê, senhor?--balbuciou Cecilia, como se tentasse ainda duvidar do que era já certeza para ella.
--Não me quer poupar ao desgosto de recordar uma scena, em que eu fui tão culpado?
--Pois Jenny disse-lhe?--exclamou, quasi involuntariamente, Cecilia, como fallando comsigo mesma.
E os olhos brilharam-lhe de lagrimas, prestes a desprenderem-se-lhe pelas faces.
Carlos atalhou-a:
--Não, minha senhora; Jenny não foi indiscreta. O acaso revelou-me tudo o que eu, desde aquella noite, tanto desejava saber. Minha irmã apenas me fez comprehender bem toda a pouca delicadeza do meu procedimento e a necessidade de uma justificação; é essa que eu venho aqui offerecer-lhe. V. exc.ª tem direito a ella, como o teria Jenny e como eu o exigiria de quem tratasse minha irmã... tão grosseiramente, como eu tratei v. exc.ª
--Mas, snr. Carlos, toda a culpa tive-a eu...
--Não diga isso! Insistir em não me reconhecer culpado é apenas uma maneira delicada de recusar-me o perdão que, de proposito, vim aqui implorar-lhe.
Cecilia não respondeu; Carlos proseguiu:
--V. exc.ª é a melhor amiga de Jenny; ella mesma, hontem, m'o disse. Peço-lhe que me não julgue indigno da sua amizade tambem, minha senhora. Eu supponho-me igualmente o melhor amigo de minha irmã. Duas pessoas, que teem assim a estima de um anjo, como aquelle, devem estimar-se uma á outra; não lhe parece?
--Mas eu, snr. Carlos, nunca tive motivos para... não tenho direito para deixar de... estimal-o.
--Perdôa-me portanto?
Cecilia guardou por algum tempo silencio, depois, fazendo esforço sobre si mesma, disse com vivacidade:
--Snr. Carlos, não fallemos mais n'isto, peço-lhe... Esqueçamos tudo, como se tivesse sido um sonho... mau.
E terminando assim o pensamento, baixou os olhos, como desfallecida pela violencia da lucta, que sustentára.
Carlos não replicou immediatamente. Houve um silencio de alguns segundos, incommodo para ambos; emfim, olhando para Cecilia:
--Esquecer!--disse Carlos, de uma maneira, que parecia mostrar não lhe ser demasiado grata a proposta, e depois acrescentou:--Pois sim... Esqueçamos, visto que assim o quer. Mas eu tenho a esquecer, arrependendo-me; já o fiz; v. exc.ª, perdoando; por que recusa fazel-o? Perdôa?
Cecilia ia de novo negar-se a admittir-lhe a culpa, mas, erguendo os olhos, viu Carlos que lhe estendia a mão e, sem bem attentar o que fazia, estendeu também a sua, murmurando:
--Perdôo.
Quando, reflectindo, a quiz retirar, e juntamente a palavra, já não era tempo.
Logo que ouviu de Cecilia o perdão, que viera de proposito solicitar alli, Carlos levantou-se.
--Obrigado, minha senhora--disse elle.--Cumpri o meu dever; agora parto satisfeito.
A pobre rapariga não podia responder mais nada; se ainda lhe estava parecendo um sonho tudo aquillo!
--Mais duas palavras só;--disse ainda Carlos, pegando no chapéo--quando v. exc.ª chegou, não estava eu aqui dentro; reparou? N'esse momento, minha senhora, acabava de fazer uma singular decoberta.
--Uma descoberta?!
--Muito singular. Ha poucos dias--continuou Carlos, aproximando-se da janella, junto da qual estava já Cecilia--passeiava eu n'aquelles pinheiraes... acolá. Meditava... nem posso bem dizer em quê. Não sei de que maneira me attrahiu a vista, e depois me occupou a imaginação, uma casa, que avistei d'alli. Tinha a varanda revestida de trepadeiras, uma roseira no intervallo das duas janellas e, no andar de cima, apparecia frequentemente uma senhora, toda occupada em trabalhos domesticos, n'esse lidar modesto, que rodeia, a meus olhos, de suave perfume de poesia as mais bellas figuras de mulher.
Cecilia baixou os olhos, córando, e pareceu entretida a examinar a andarella do castiçal de vidro, que lhe ficava á mão.
--Imagine agora a minha surpreza, quando, ha pouco, chegando aqui, reconheci esta varanda, esta janella, esta roseira, por as mesmas que de tão longe me haviam chamado a attencão. D'ahi--acrescentou, sorrindo--facil me foi concluir quem era a senhora. Não haverá mysterio n'isto? Não parece que esta roseira queria aconselhar-me de longe o passo que hoje dei? Eu, por mim, estou tentado a crêl-o, e tanto que, por gratidão, peço-lhe licença, minha senhora, para levar commigo uma memoria d'ella. Permitte-me que córte uma d'aquellas flores?
Cecilia só pôde sorrir em resposta, baixando a cabeça.
Carlos aproximou-se da japoneira e cortou um botão, ainda mal desabrochado; voltando á sala, curvou-se respeitosamente diante de Cecilia, e, depois de mais outra phrase de cumprimento, saíu.
Ella viu-o saír, sem que fizesse o menor movimento, e por muito tempo permaneceu no mesmo logar e na mesma posiçao em que havia ficado.
Dominava-lhe o espírito um turbilhão de ideias, que ora o mortificavam, ora, não sei de que maneira, o embalavam agradavelmente.
Foi ainda Antonia quem fez cessar mais esta abstracção.
--Então quem era a final este senhor de tantos recatos e cautelas?--perguntou a criada, a quem a curiosidade mordia com verdadeira sofreguidão.
--Pois não conheceu? Era o filho do snr. Ricardo, do patrão do pae...
--Ai sim?! Como está um homem! A ultima vez que o vi, era elle uma creança... Pois olhe que... a respeito de educação... póde com a que tem... Sempre é herege!
--Por que diz isso?
--Então não viu o descôco, com que lhe pediu, e na minhã cara, para me mandar embora? E a menina então... foi logo! E que queria por fim este chincharabelho?
--Nada... E sabe?... Escusa de fallar a meu pae... n'esta visita...
--É porque... Jenny... e o irmão querem causar uma surpreza a meu pae... para o dia dos annos d'elle e... avisam-me... por isso...
Decididamente Cecilia não tinha geito para mentir; hesitava, córava, a dizer isto, que não era possivel illudir-se ninguem.
A criada que, segundo ella mesma dizia, tinha olhos para ver, notou este rubor e confusão, e commentou-os a seu modo:
--Aqui anda cousa. Ora queira Deus, queira!... Nem sei se diga ao snr. Manoel Quentino... Mas nada, nada; ella lá sabe voltar o pae para onde quer e a final quem fica mal sou eu. Lá se arranjem... Humh! Uma surpreza para o dia dos annos. Pois não foste! Para mim é que elles veem com isto!
Cecilia, procurou encerrar-se no quarto; pegou de novo na costura; mas posso afiançar que não adiantou o trabalho.
Manoel Quentino tinha razão; alguma cousa affligia a filha.
XVIII
CONTAS DE JENNY COM A CONSCIENCIA DE CARLOS
Saíndo de casa de Manoel Quentino, Carlos não ia menos agitado, do que deixára a filha do guarda-livros.
Aquella visita de Carlos, visita que, a seus proprios olhos, elle procurava fazer passar como a mais natural reparação de uma das suas muitas leviandades, talvez perante a analyse imparcial tenha de receber outra qualificação, que não a de um cumprimento de dever.
Se se tratasse de outra mulher, que não fosse Cecilia, de outra com menos graças attractivas, embora com mais direitos ainda á reparação, talvez Carlos não chegasse a convencer-se tão profundamente e tão depressa, como parecia ter-se convencido, da instante e imperiosa necessidade d'aquelle passo que dera; talvez o pensamento de tal visita o não tivesse possuido toda a noite e, pelo menos, não se resolveria por certo a realisal-o, sem haver consultado Jenny, a sua boa conselheira em todos os actos da vida; mas, longe de a consultar, antes lhe andou occultando com cuidado o projecto emquanto o meditava, como com receio de ser dissuadido d'elle.
Ha certos homens, escrupulosos respeitadores da lettra das leis, que praticarão desafogados qualquer acção, averiguadamente illicita, sempre que possam sophismar os artigos do Codigo de maneira que se resalvem da pronuncia judicial; dando-se-lhes pouco que o espirito, que os dictára ao legislador, fique muito maltratado pelo sophisma.
Isto, que se pratíca com as leis civis, poucos são os que, todos os dias e a cada momento, o não fazem tambem em relação ao codigo intimo da consciencia. Raros ousam, se alguns, arrostar contra as prescripções d'este juiz inflexivel e perscrutador, e confessar o delicio desassombrados; quasi todos as discutem, as torcem, as commentam, alteram e sophismam, até as pôrem em accôrdo apparente com os actos que praticaram.
O orgulho leva muitas vezes o criminoso a recusar defender-se nos tribunaes humanos; nem o despreso geral, nem as severidades da lei são bastantes para o obrigarem a vergar a cabeça; tem coragem para adoptar o crime, deixando-lhe o nome de crime; mas esse mesmo, a sós, no tribunal da consciencia, procurará com ardor pleitear a causa, que abandonou perante juizes, de cujas mãos pôde saír a sentença de morte.
Longe de nós o querer estabelecer analogias, muito intimas, entre estes perpetradores de grandes maldades e Carlos, que, para com a consciencia, só tinha a justificar-se de um d'esses peccaditos que, mais ou menos, ha de forçosamente commetter quem tenha nas veias um sangue de vinte annos.
Mas é um tal jury o da consciencia, que, sempre que taes pleitos são necessarios no seu tribunal, a causa é já por isso má. Para as justas dispensa advogados.
Não procuremos illudir-nos nós, como Carlos; sem querer duvidar dos bons sentimentos d'elle, póde-se ir buscar outras razões para a visita, cujos promenores no ultimo capitulo relatamos.
O que é fóra de duvida é que depois d'aquella vigilia, em que o leitor o viu, não teve Carlos pensamento e imaginação, senão para descobrir um meio de tornar a encontrar-se com Cecília, e de fallar-lhe.
O resultado foi o que sabemos.
Se havia sido tão profunda a impressão produzida por a casual revelação do theatro n'aquelle espirito affectado já de vagos preludios do mal, mais a fundo se gravou ainda depois da visita feita a Cecilia.
Parecia que nas poucas palavras que n'essa entrevista Cecilia pronunciára, Carlos tinha decifrado sentidos occultos; pensava n'ellas.
Depois a coincidência de ter sido quasi evocado por aquella mal distincta figura de mulher, quando dias antes fitára de longe distrahidaraente os olhos em uma janella, avultava-lhe agora como uma cousa acima do simples acaso; por pouco estava a acreditar que a secreto influxo lhe haviam n'esse dia obedecido os olhos.
Vejam se não é serio o estado do coração de Carlos, que assim está quasi a tornal-o supersticioso.
Eram duas horas da tarde, quando Carlos chegou a casa. Tomando logo por a rua do jardim, para onde se abriam as janellas do quarto da irmã, parou por baixo d'ellas, e bateu nos vidros uma leve pancada.
Pouco depois agitaram-se, afastando-se, as cortinas, e o vulto de Jenny acudiu áquelle signal.
--És tu, Charles?! A estas horas!
--Pódes fallar-me, Jenny?
--Entra.
Carlos tornou outra vez por a rua, por onde viera; entrou no portal; atravessou alguns corredores e dentro em pouco achava-se no quarto de Jenny.
Jenny estava occupada na feitura do enxoval de uma creança recem-nascida, cuja pobre familia era soccorrida por a bondosa menina.
Carlos sentou-se ao lado da irmã.
Jenny continuou a trabalhar.
--Então que milagre é este? As magnolias do jardim haviam de fazer um espanto ao verem-te entre si a estas horas do dia!
--Sabes d'onde eu venho?--perguntou Carlos, em vez de responder, e brincando machinalmente com um colar de coraes, que tirára de cima do toucador.
--Eu, não--disse Jenny sem olhar para o irmão.
--Venho de casa de Manoel Quentino.
--De casa de Manoel Quentino? E a que foste lá?
--Pedir perdão a Cecilia.
Houve um intervallo de silencio.
Jenny voltára-se subitamente para Carlos, fixando n'elle o olhar serio e penetrante; Carlos com a cabeça baixa parecia todo absorvido na tarefa de contar o numero de coraes, de que se compunha a enfiadura.
--Dizes a verdade, Charles?--perguntou Jenny, ainda immovel, e continuando a fital-o.
--Então por que não ha de ser isto verdade?--replicou Carlos, tambem na mesma posição.
-E fallaste-lhe?
--Fallei.
--Que lhe disseste?
--Confessei-me culpado de quanto tivera logar n'aquella noite do baile e... pedi-lhe perdão...
--E ella?...
--E ella...--proseguiu Carlos, pousando emfim o colar--depois de algumas modestas hesitações... perdoou-me.
--Ah! Charles, Charles! Essa tua cabeça!...--disse Jenny a meia voz, e com inflexão benignamente reprehensiva.
--Então--tornou-lhe Carlos com modos de ligeiro enfado--Não fiz bem? Não era esse o meu dever? Eu esperava até que me applaudisses a acção e tu...
A estas palavras Jenny não pôde reprimir um movivento de impaciencia; arredou a costura em que trabalhava, tomou as mãos de Carlos, e fitando nos d'elle os olhos limpidos e serenos, como o céo de primavera, perguntou-lhe com um meio sorriso:
--Falla-me a verdade, Charles. A verdade só, entendes? Para que procuraste tu Cecilia?
--Que pergunta! Pois não te disse já? Não era do meu dever?...
--Não, não era. Melhor seria fingires sempre que ignoravas tudo, do que dares áquella pobre menina motivo para córar na tua presença. Esse acto, que dizes eu devia applaudir, não partiu do teu coração, que é muito bom e muito generoso, partiu mas foi d'esta cabeça--e pousava-lhe a mão na fronte;--d'esta cabeça, que é uma estouvada.
--És injusta d'esta vez, Jenny.
--Não sou. Quero acreditar que te illudisses a ti proprio; mas, se pensares melhor, verás que tenho razão. Hontem, ao saíres do theatro, estavas triste. Bem o senti. E por que estavas triste? Eram remorsos pela má opinião, que tinhas formado de quem te merecia sómente respeitos, que não tiveste?
--Eram.
--Não eram, Charles, não eram. Para que procuras tu enganar-me? Não eram. Tu sómente lamentavas o fim de uma aventura, á qual tinhas imaginado mais longa duração. O caracter da pessoa, de que se tratava, mostrava-te, depois que a conheceste, que eram sem fundamento as tuas esperanças, e tu então...
--Jenny!
--Para que o queres negar? Olha que eu tenho a vaidade, e o orgulho tambem, de saber ler nos teus pensamentos. Ha muito o aprendi e tu mesmo me auxiliaste.
Carlos baixou os olhos e principiou a torcer machinalmente a corrente do relogio.
Desde este momento a victoria era de Jenny. Ella comprehendeu-o e proseguiu:
--Depois a imaginação, essa travêssa imaginação, que nós ambos conhecemos, pôz-se a trabalhar. Ella não podia resignar-se a ver terminar tão depressa o romance, que phantasiára tão longo, e lidou, e lidou, e apesar de te recolheres hontem mais cêdo, não durou a tua vigilia menos do que a d'aquella celebre noite do carnaval; não é verdade? Confessa. E o coração a dizer-te, muito baixo, que devias... que era mais generoso deixar acabar tudo alli, e a imaginação a crear difficuldades, a inventar deveres, a entreter-te de não sei que pontos de honra muito exigentes; e então o coração, o pobre coração, que cada vez ia perdendo mais terreno, a lembrar-te que pelo menos consultasses tua irmã, Charles, e a outra, a má, nem isso te concedeu; provou-te a vantagem de me occultares tudo! Tinha mêdo de que eu podesse dissuadir-te! E tu a obedeceres á imaginação, e a levantares-te, a partires, a procurares Cecilia, e a pedir-lhe um perdão de creança, que em outras circumstancias te faria rir, e a pobre menina a conceder-t'o, sem bem saber o que fazia. Confessa, Charles, confessa, a verdade d'isto.
Carlos não pôde disfarçar um sorriso, e, levando aos labios a mão que a irmã pousára na sua, murmurou:
--Feiticeira!
Jenny sorriu tambem.
--Na verdade!--proseguiu ella, d'ahi a pouco--é uma forte imaginação essa tua, que tanta cousa consegue de ti! e comtudo...--acrescentou, cobrindo-se de repente de mais seriedade--e comtudo eu prefiro ainda dirigir-me ao teu coração, que tambem é forte, porque é muito sensivel e muito generoso e que a ha de poder vencer; não é verdade? É a elle que eu vou fallar, Charles, e espero que serei escutada.
--Falla, Jenny, falla. Aconselha-me. Bem sabes que ha muito te tenho por meu bom anjo. Falla--disse Carlos, affectuosamente.
--Ora dize-me, Charles--continuou Jenny, cada vez mais commovida:--não imaginas o que póde resultar d'essa tua phantasia, a deixares-te assim arrastar por ella? Cecilia até hoje tem sido feliz. No passado não tinha nada que a envergonhasse ou que lhe désse pena; no futuro não antevia nuvem, que de longe a ameaçasse. Era uma vida aquella tranquilla e serena, como não imaginas. Mas Cecilia tem dezoito annos, Charles, e um coração cheio de confiança e uma imaginação... um pouco á similhança da tua... Conheço-a, a ella tambem. Se alguma vez se apoderar d'aquelle bom espirito qualquer ideia, se passar uma hora a acalentar qualquer illusão, acredita que já não será sem esforço, e sem dor, que a arrancará de si. E dize-me, Charles: a tua consciencia, que é justa, não havia de querer mal, e muito, á tua phantasia, que é uma enganadora, se ella fizesse, com seus conselhos, nascer essa illusão, obrigando-te a sacrificar ao capricho de uma manhã o futuro inteiro de uma existencia?
--Mas de que maneira imaginas tu esse sacrificio?--interrogou Carlos, levantando os olhos para a irmã.
--De que maneira? Pois dize-me: se Cecilia, que podia esquecer aquella scena do baile e todas as suas consequencias, principiasse, depois da tua visita, a pensar mais n'ella? se, sabendo-te senhor de um segredo seu, principiasse a... a pensar mais em ti? se, córando na tua presença de acanhamento ao principio, pouco a pouco... quem sabe lá?... viesse a córar... de commoção... de... amor?...
E, ao pronunciar esta palavra, as faces de Jenny tingiam-se de desmaiado carmim.
Carlos sorriu, vendo-o.