# Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto

## Part 15

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--Pois não será elle? Alli, ao pé d'aquelle sujeito de chapéo branco. O snr. Richard ainda não vê... Admira!... Olhe, elle lá vae embora... Olhe agora... Adeus, lá foi...

--Não era elle.

--Era, era... Até me parece que elle me fez signal de lá, como quem... sim... como quem... estava zangado com este desaforo.

Principiava Manoel Quentino a prejudicar a causa que defendia, levando longe demais a defeza. Era sestro seu.

Carlos achára-se effectivamente envolvido na maior força do tumulto, ainda que com fim louvavel, qual era o de pacificar dois amigos, prestes a entrar em combate por causa d'esta questão theatral. Levantando porém occasionalmente os olhos para o camarote, percebeu um signal de supplica e inquietação em Jenny, e porisso, emquanto os olhos de Mr, Richard, guiados traiçoeiramente por Manoel Quentino, o procuravam em outro ponto, cedeu elle o logar a novos apaziguadores e saiu da plateia.

Manoel Quentino, que lhe seguia os movimentos, respirou então, dizendo:

--Elle ahi vem; verá v. s.ª que não tarda. E tem razão em vir; não se pôde estar lá em baixo com similhante gente.

Effectivamente Carlos não tardou a entrar. O primeiro olhar foi para a irmã, que soube tranquillisal-o com outro, e habilital-o a comprehender o papel, que lhe convinha representar diante do pae.

Carlos, entendendo-a, foi severo para com os desordeiros, o que evidentemente agradou a Mr. Richard.

No entretanto, havia-se restabelecido a serenidade na sala; o primeiro acto terminou sem outra novidade mais do que a de ser no fim a prima-donna applaudida com enthusiasmo pelos mesmos que a tinham pateado á entrada.

Mysterios de theatro, os quaes nunca pude penetrar.

Mr. Whitestone saíu no intervallo; Carlos ficou.

Manoel Quentino tomou então a palavra para prégar um sermão a Carlos, sobre os perigos das más companhias. Carlos escutou-o, rindo e commentando-lhe as sentenciosas palavras com ditos jocosos, que não permittiam ao velho a manutenção d'aquella seriedade, que reclamava tão substancioso assumpto.

Passado tempo, principiou Carlos a analysar as differentes _toilettes_ e typos femininos, que adornavam os camarotes, critica em que nem sempre era em demasia benevolo. De uma das occasiões em que, para proseguir n'este exame, procurava limpar os vidros do binoculo, tirou do bolso um pequeno lenço de mulher, com cercadura de renda, para o qual se pôz a olhar admirado.

Depois, segurando-o por uma das pontas, e mostrando-o á irmã, disse, sorrindo:

--Ainda me tinha esquecido isto, Jenny.

--O quê?

--Outra apprehensão que fiz, com esperança de por ella obter esclarecimentos, e... que cabeça a minha!... nem já sabia que o tinha em meu poder...

--Mas a que te referes?

--Então esqueceste-te já da minha confidencia, no dia do carnaval?

--Ah!--disse Jenny, olhando immediatamente para Manoel Quentino.

As vistas d'este tinham-se tambem fixado no lenço, e parecia examinal-o cada vez com mais curiosidade.

--Dá-m'o--disse Jenny, estendendo a mão para recebel-o.

--Não posso--respondeu Carlos, retirando a sua, a rir.

--Dá-me licença?--disse Manoel Quentino, estendendo tambem a mão para elle.

--Para o entregar a Jenny depois?

--Não, não é; queria ver...

--Que tem você a ver com este lenço?--perguntou Carlos, dando-lh'o.

Jenny mostrava-se cada vez mais inquieta.

Manoel Quentino examinava o lenço com attenção.

--É celebre!--dizia elle--É exactamente um dos lenços que eu dei a minha filha no dia dos annos d'ella.

--Como?--perguntou Carlos, olhando para a irmã.

A inquietação de Jenny redobrava.

--Não que é exactamente!... as rendas... o bordado dos cantos... Só falta... Ah... mas a marca também!... um C.!... Este lenço é de Cecilia! Como é possível?!...

Jenny julgou que era tempo de intervir.

--Ora ahi temos o snr. Manoel Quentino embaraçado com uma cousa bem simples--disse ella, rindo.--Esse lenço, é de Cecilia, é; que duvida? Deixou-o ella, por esquecimento, ha dias... na terça-feira... em minha casa. Este buliçoso tem o costume de levar tudo do meu quarto, sem me consultar, e, julgando que era meu...

--Ah! bem me parecia que era o lenço que eu tinha dado a Cecilia. Estava admirado!

Carlos olhava para Jenny e para Manoel Quentino, como sem saber ainda bem o que pensar d'aquillo.

--Espero que m'o restituirás--disse Jenny--a mim é que compete entregal-o a Cecilia.

Carlos ia a responder, talvez imprudentemente, quando um gesto da irmã lhe impôz silencio e acabou de explicar tudo.

Emfim já não era mysterio para elle o nome da desconhecida do baile.

Tirando o lenço das mãos de Manoel Quentino e entregando-o á irmã, disse, com entonação de intelligencia, para esta:

--Tens razão, Jenny. És tu, a quem compete entregal-o. Acredita que foi por esquecimento que eu não te fallei n'este... roubo... O que reputo uma felicidade.

--Porquê?--perguntou Jenny, fazendo-se séria.

--Por... por causa da surpreza que veio agora causar ao nosso amigo Manoel Quentino.

--Não, eu só estranhei...

Jenny mudou o assumpto da conversa.

Carlos ficou pensativo. Voltou á plateia, ao principiar o segundo acto. Todos lhe estranharam a distracção e a indifferença com que assistia á discussão, que ainda durava, sobre o facto da pateada.

Nem mais attenções lhe mereceram os cantores e a opera.

Jenny observava-o do camarote, e não deixou de reconhecer essa indiferença na posição invariavel, em que elle se conservou durante dois actos e um intervallo inteiro, como alheio a tudo o que em volta de si se passava.

--Que resultará agora de todo aquelle meditar?--pensava a irmã.

Ao principiar o ultimo acto, Carlos voltou ao camarote.

Manoel Quentino, não podendo luctar mais tempo contra a força do habito, adormecera. Mr. Richard estava absorvido em um dialogo, com um seu compatriota, de cabellos e suissas côr de neve, gravata da côr das suissas, e tez côr de rosa de Alexandria; fallavam nos triumphos lyricos da celebre Malibran, que ambos tinham, quando rapazes, escutado em Londres; no estylo de canto da phenix dos tenores--o famoso Rubini, o qual haviam admirado em 1831, no _Queen's Theatre_; no _D. Giovanni_, de Mozart, musica de que nunca se saciam os tympanos britannicos; e na _Beggar's Opera_ de Gray--protesto do gosto nacional contra a escola italiana, que se riu do protesto.

Carlos, sentando-se junto da irmã, podia pois julgar-se a sós com ella.

--Então a minha bella incognita do dóminó de seda...--principiou elle.

Jenny olhou receiosa para Manoel Quentino.

--Não tenhas mêdo--disse Carlos.--Dorme e ameaça resonar.

--Estás agora convencido, Charles--disse Jenny ainda a meia voz--da verdade do que eu te dizia aquella manhã?

--A respeito?...

--A respeito da tua aventura da noite de carnaval. Cecilia é uma menina bem educada e de grande delicadeza de sentimentos. Deu imprudentemente aquelle passo, que Deus sabe quantos desgostos lhe poderia vir a causar, se a tua generosidade não prevalecesse a final sobre as tuas... loucuras; como ha de continuar a prevalecer ainda, assim o espero. Não estiveste tu mesmo para a perder no conceito dos que a não respeitam, porque a não conhecem? Não terias agora remorsos?

--Mas Cecilia...

--No mesmo dia, em que tu me fallaste n'isso, me veio ella contar tudo. Tambem tenho a sua confiança. E se soubesses com que receios o fez! se visses com que lagrimas não fingidas me interrompeu, quando eu lhe ia a confessar o que pensavas das mulheres, que se encontram sós e mascaradas n'aquelles logares!

--Pois tu disseste-lhe... Ó Jenny!...

--O bastante para a acautelar de passos, como aquelle; visto que nem sempre apparecem protectores que, no meio das suas velleidades, conservem ainda uns restos de sentimentos generosos...

--Valha-te Deus, Jenny! Mas... na verdade que me custa ainda a acreditar! Pois era Cecilia! Confesso-te, Jenny, que nunca suppuz que aquella rapariga tivesse tanta graça, tanta intelligencia, tanto...

--Não é d'essa injustiça que eu desejo ver-te arrependido, Charles, mas antes da do conceito que fizeste de Cecilia, do modo como a trataste, só por a veres onde nem quizeste suppôr que podesse estar tua irmã...

--E repito!--acudiu Carlos, com vivacidade.

--Pois bem, Charles--respondeu Jenny placidamente, mas em tom reprehensivo.--Digo-te eu então que as qualidades, que a vida inteira de Cecilia dão-lhe direito a exigir de ti tanta consideração e estima, como a que dizes ter-me. É ainda hoje a minha melhor amiga.

Carlos olhou para a irmã, admirado; tal era a gravidade, que lhe descobriu no olhar e na voz.

Devemos confessar que elle nunca viu em Cecilia outra cousa mais do que uma rapariga bonita, a qual muitas vezes lhe merecera olhares complacentes, mas de quem tão depressa se esquecia, como d'ella se afastava.

Recordo-me de haver dito, que esta qualidade, de não desafiar immediatamente impressões profundas, caracterisava a especie de belleza, que Cecilia possuia.

Nos seus dotes moraes nunca pensára Carlos; e para que havia elle de pensar n'isso? Por estes motivos a seriedade, de que se revestira subitamente o rosto de Jenny, impressionou-o.

--Bem, Jenny--respondeu elle, fazendo-se serio tambem.--As tuas palavras rehabilitariam até aquelles que precisassem de ser rehabilitados. E Cecilia, creio-o firmemente, não está n'esse caso. Censuras, em tudo isto, só as mereço eu. Hei de provar-te que assim o penso.

Jenny estendeu-lhe a mão.

--Agora reconheço-te pelo que és. Agradecida.

E depois, apontando para Manoel Quentino:

--Escuso de lembrar-te que elle ignora tudo.

--E ficará ignorando.

Manoel Quentino sonhava-se agora no escriptorio, a fazer uma baralhada conta de sommar.

Passados momentos, rodava pelas ruas da cidade a carruagem, que transportava a casa a familia Whitestone.

Das tres pessoas, que ella conduzia, nenhuma fallou durante todo o caminho.

XVII

CONTAS DE CARLOS COM A CONSCIENCIA

Impressionado pelas occorrencias d'aquella noite, que lhe afugentavam o somno, Carlos ao voltar a casa, encostou-se pensativo á mesa e abriu machinalmente um livro.

Quiz o acaso que fosse um volume das obras de Byron e nas _Horas de Ocio_. Carlos leu:

_Woman! experiance might have told me..._

a attenção já o não acompanhou ao segundo verso. Fora fatal a primeira palavra:--_Woman_!--mulher!--Apoiada n'este magico substantivo, a imaginação ganhou esforço e, deixando os sentidos seguirem os versos restantes, divagou, á sua vontade, mais rapida e por mais longe do que elles.

O caminho, que estes continuaram seguindo, provavelmente poderá o leitor encontral-o, se quizer, na sua bibliotheca: deixaremos porisso Byron em paz, e iremos, como podermos, atraz da imaginação de Carlos.

Principiou por se recordar da revelação que a um acaso devera momentos antes. Recordar, disse eu? Para com rigor me poder servir do termo, era necessario que tal descoberta lhe tivesse já, por instantes sequer, deixado livre o campo do pensamento; e teria? É licito duvidar.

Entrou depois Carlos em tarefa mais activa, qual foi a de tentar avivar a imagem de Cecilia, que apenas lhe apparecia como vaga reminiscencia, e velada por uma nuvem, que elle em vão procurava dissipar.

Se o leitor já alguma vez pôz hombros a emprezas d'estas, deve saber que desesperadoras difficuldades ellas trazem quasi sempre comsigo. Quanto mais ardente é o desejo de recordar uma physionomia, que ainda não temos bem gravada na memoria, tanto mais parece comprazer-se um maligno espirito de impacientar-nos, alterando-lhe completamente o typo, combinando os elementos physionomicos mais disparatados, debuxando a capricho o perfil, colorindo mentirosamente os cabellos e a tez, assombrando com a mais grosseira infidelidade as inflexões e os relevos.

Em uma palavra, Carlos, que tinha visto frequentes vezes Cecilia, ainda que nunca muito attentamente, não pôde, por mais que o tentasse, tirar da memoria uma imagem distincta d'essa rapariga.

Em compensação recordava-se do metal de voz sonoro, com que ella lhe fallára no baile, da graciosa maneira de rir, de tudo quanto lhe dissera, de todas as pequenas circumstancias d'aquella aventura do carnaval, de todas, e tão profundamente se deixou embeber n'estas cogitações que, apoiada a cabeça entre as mãos, os cotovêlos sobre a mesa, e os olhos meio fechados, nem se lembrava de Byron, que sinceramente julgava continuar a ler, nem sequer tinha consciencia do logar onde estava.

A luz amortecida diffundia no aposento soturna claridade, e o silencio era tal, que Carlos ouvia-se respirar.

De repente, como que tentando sair d'aquelle estado, afastou de si o livro com vivacidade.

Vergou a cabeça para traz sobre as costas da cadeira, e passou a mão pelos olhos, á maneira de quem desperta de um sonho. Mas, depois de avivar a luz, caiu de novo na mesma abstracção de que saíra.

Foi porém só a mão esquerda que se encostou á cabeça d'esta vez, emquanto que a direita pegou em uma penna e pôz-se a desenhar e a escrever á tôa sobre uma folha de papel branco, que lhe estava ao alcance.

Escusado é dizer que a alma não tomava parte n'isto.

Segundo a theoria de Xavier de Maistre, _la bête_ ou o _outro_, que, em nós, devemos distinguir do _eu_, cansára-se de ler e escrevia agora. A alma, essa continuava na tarefa anterior, meditava ainda.

Observo porém que são perigosas muitas vezes as occupações, a que o tal _outro_ se entrega, quando sacode por momentos o jugo do companheiro. O mesmo Xavier de Maistre aponta-nos exemplos d'isso.

Uma das distracções mais arriscadas é esta de escrever, A mão é indiscreta; e a razão se se descuida, está sendo atraiçoada, quando menos o pensa, por estes automaticos movimentos, que parecem sem significação.

Olhae por cima do hombro do homem absorvido em graves pensamentos, cuja mão move ao acaso a penna sobre uma folha de papel; entre muita cousa insignificante, é raro que uma ou outra palavra, um ou outro signal não symbolise, não denuncie a ideia dominante, que o possue.

Esse outro motor ou principio, que nos domina as acções, quando a consciencia não as regula e dirige, parece ter, como a alma, uma memoria tambem. Exerce-a sobre as particularidades insignificantes, que acompanharam qualquer acontecimento de importancia para o nosso destino. Impressionou-nos uma revelação? quando o pensamento se estiver occupando d'ella, a memoria do _outro_ reproduzirá a maneira de trajar da pessoa, de quem a ouvimos, a côr das paredes do aposento, onde a escutamos, uma phrase dita simultaneamente por um homem que passava. Ora, muitas vezes estes accessorios teem ainda bastante analogia com o facto principal, para que um espirito investigador, sabendo-os, possa ir por elles, de deducção em deducção, até o fundo dos nossos pensamentos.

D'ahi vem o perigo de confiar, em taes momentos, a penna da mão, que se move sob a vontade d'este guia, o qual não tem a discrição necessaria para não deixar no papel vestigios das suas curiosas memorias.

Era o que estava succedendo a Carlos.

Principiou por desenhar, distrahidamente, um elmo; isto parece nada ter que ver com as provaveis cogitações do seu espirito, n'aquelle momento. Cumpre-me, porém, declarar que, na occasião em que no theatro, pela primeira vez, Carlos reparou em Cecilia, passava por diante d'elle um individuo, embrulhado em um manto romano e com um elmo, exactamente similhante ao do desenho.

Depois do elmo, delineou a penna uma meia mascara; aqui já a analogia é mais evidente e dispensa commentarios; uma mão, depois; pensava talvez na de Cecilia, cuja belleza notára ao apertar-lh'a, á despedida. Adiante...--agora parece maior o desacerto--um lampeão de praça! É verdade que havia um a illuminar a mysteriosa incognita, no momento em que, na afflicção, invocára o nome de Jenny, e conseguira, graças a esse nome invocado, evitar a ulterior perseguição de Carlos. E é provavel que fosse esta a razão de similhante desenho, visto que, em seguida, a mão escreveu por muitas vezes, e em diversas fórmas de lettra:--_irmã, por sua irmã, por Jenny_! Depois chegou a vez de um orgão de igreja;--esboço, que só julgará incoherente quem se não recordar da santa do kalendario, da qual esse é o emblema. De facto, a ideia do sacro instrumento veio de Santa Cecilia, e a ideia da santa não era das que acudiriam á mente de um protestante, se, cá na terra, alguma homonyma, por canonisar, a não chamasse lá. Após isto, escreveu uma palavra absurda, singular, inqualificavel; foi esta:--_Ailicec_; mas inverta-a o leitor e cessará a estranheza, que ella lhe possa causar; seguiram-se-lhe outras, não menos exquisitas, e formadas de diversas combinações das mesmas sete lettras, que emfim appareceram dispostas por ordem natural na palavra: Cecilia. Mais abaixo,--singular transição!--escreveu Carlos em caracteres bem legiveis:--Papa;--depois:--Calvino; e, acto continuo, o nome de um compatriota e amigo seu, que, mezes antes, tinha casado com uma senhora catholica.--Veja o leitor se poderá interpretar estes signaes, e ao mesmo tempo diga se não estava sendo de grande indiscrição para a alma, o _outro_, companheiro inseparavel d'ella.

A final a mão traçou, muito de vagar, as duas seguintes palavras reunidas:--Cecilia Whitestone.

A razão pareceu então despertar, e, espantada com o que viu feito na sua ausencia, tentou pôr termo a similhantes imprudencias; e a mão subitamente passou um traço por as duas ultimas palavras, logo depois de escriptas.

Carlos levantou-se para passeiar no quarto.

Principiou então a convencer-se de que tinha de facto sido injusto em formar tão levianamente um conceito pouco favoravel da mascara, e menos cavalheiro do que devia, no seu procedimento para com ella. Jenny havia-o reprehendido por isso tudo--e Carlos julgou ouvir a propria consciencia applaudindo Jenny. Chegou a persuadir-se de que tinha remorsos, e pareceu-lhe necessario imaginar alguma maneira de remediar tão grandes culpas.

Ouviu duas horas, ainda a pensar n'isto.

Deitou-se vestido sobre o leito; e cada vez a parecer-lhe mais necessaria e urgente uma resolução n'aquelle sentido!

Eram tres horas, quando julgou ter somno. Deitou-se por baixo da roupa, e apagou a luz.

O socego, que o rodeiava, um d'estes socegos nocturnos, tão completos que até o roer da larva invisivel, occulta no seio da madeira, se ouve distinctamente, impacientava-o, longe de convidal-o ao repouso. Quando o espirito está agitado, quando uma ideia qualquer nos inquieta, o silencio, a tranquillidade exterior parecem-nos um escarneo e irritam-nos.

Em menos de um quarto de hora já a cama estava em desordem, e a travesseira no chão. Carlos accendeu de novo a vela, trouxe um livro para a cama e esteve meia hora com elle aberto nas mesmas paginas.

Sentou-se impaciente no leito, e imaginou que tinha febre.

E assim se conservou até ás cinco horas da manhã, que foi sómente quando adormeceu, ou antes se deixou caír exhausto por o cansaço, que produz a insomnia.

E que resultou de tanto pensar? Vêl-o-hemos brevemente.

Vamos agora a casa de Manoel Quentino, onde nos encontraremos com antigos conhecimentos.

Ao voltar do theatro, contára Manoel Quentino á filha, não só o enredo da _Lucia_, que não podéra concluir no camarote, mas todos os principaes successos da noite; esqueceu-lhe porém o episodio do lenço, ao qual não dera importancia.

Cecilia escutou-o calada.--Dir-se-hia que já a impacientava ouvir tantas vezes fallar em Carlos; porque, de facto, parecia proposito formado em Manoel Quentino o ter sempre que contar do rapaz, d'essé estouvado, a quem, apesar de todos os estouvamentos, o bom homem queria devéras.

A julgar pela apparencia de ligeira mortificação, que tomava n'esses instantes o rosto de Cecilia, devia suppôr-se que existia n'ella uma forte antipathia para com o predilecto do pae.--Mas será prudente não confiar demasiado no rigor logico d'estas deducções physionomicas, e muito mais em mulheres.

No dia seguinte pela manhã, ao partir para o escriptorio, Manoel Quentino não deixou a filha menos melancolica do que nos anteriores; até lhe pareceu mais falta de côr. Falta de côr! Deus sabe os intimos e dolorosos estremecimentos, que estas palavras desafiam no coração de um pae! São para elle as faces rosadas de uma filha, como o firmamento para estas organisações impressiveis em excesso, onde, ao toldar-se de nuvens o céo, se projectam as sombras da tristeza; onde, quando elle ostenta um azul sem mácula, se reflecte a luz das alegrias.

Imagine-se o cuidado, com que devia partir o bom homem.

Que tratos não dava á memoria! Que concepções mais ou menos extravagantes! que minuciosas investigações sobre todos os seus proprios actos e palavras não vinha fazendo pelo caminho, só para descobrir a causa d'aquella mal disfarçada melancolia! E tudo em vão!

No escriptorio não o deixou este cuidado; mais de uma vez, se surprendeu com a penna, a incansavel companheira, parada no meio de uma palavra, com os olhos fitos no papel, e sem verem cousa alguma; em completa abstracção, elle, tão pouco propenso a isso!

Depois da morte da mulher--havia quinze annos--, e da doença de Cecilia--havia seis--nunca tal lhe acontecera; estranhava-se.

Alguma razão tinha Manoel Quentino para estes cuidados.

Não que se podesse dizer Cecilia verdadeiramente triste; a imaginação do pae, excitada pelo seu muito amor, exagerava o mal, á força de o temer; mas perdera a despreoccupação, quasi infantil, que era natural n'ella; desgostára-se de repente de alguns passatempos, que, no meio das canceiras domesticas, ainda conservava de creança; tomára-se inesperadamente do gosto de passeiar só pelos corredores e pelas ruas do quintal, que não era proprio do seu caracter pouco meditativo, até então pelo menos. Manoel Quentino estranhava, por exemplo, não a ver fazendo saltar o agil e engraçado gato maltez, que não andava pouco sentido com a mudança; não a ouvir já cantar a meia voz, quando trabalhava á janella do quintal; ou formular observações, innocentemente satyricas, a respeito de alguns vizinhos, e as impertinentes perguntas com que, muito de proposito, costumava impacientar a criada; nem o mais ligeiro indicio denunciava agora n'ella uma indole propensa ao jovial.

Na manhã, em que Manoel Quentino luctava com as apprehensões que estas mudanças em Cecilia lhe despertavam, trabalhava ella no quarto com as janellas fechadas, contra o seu costume, e tão distrahida, que não era raro parar-lhe a agulha a meio caminho da costura.

Por mais de uma vez, Antonia, vindo consultal-a sobre negocios domesticos, foi constrangida a repetir a pergunta, porque Cecilia não a tinha comprehendido--o que, seja dito em abono da snr.ª Antonia da Natividade, não procedia de falta de clareza na redacção da phrase.

De uma d'estas fundas abstracções, tão repetidas n'aquella manhã em Cecilia, veio arrancal-a o toque impetuoso da campainha do portal.

A este som Cecilia estremeceu e dirigiu os olhos para o relogio da sala, com um gesto de surpreza. Pouco passava da uma hora; não podia ainda ser o pae que voltasse, e raras vezes outra mão que não a d'elle fazia assim soar a campainha--muito menos áquellas horas do dia.

A estranheza augmentou e quasi degenerou em inquietação e susto com a entrada da criada, cuja physionomia não era de facto, n'aquelle momento, para tranquillisar ninguem.

A veneravel matrona trazia estampado no rosto, vigoroso de expressão, o mais completo espanto.

Cecilia, vendo-a, ergueu-se de subito e fez-se pallida, como se já aguardasse uma má noticia.

--Menina!... menina!...--dizia, a custo, a criada, fóra de respiração.

--Jesus! Que é, Antonia? que é?--perguntou Cecilia, batendo-lhe o coração com tal violencia, que parecia despedaçar-lhe o peito.

--Ai que ainda não estou em mim! continuava a outra.

--Diga, mulher! diga o que é.

--Ora que ha de ser! Ai!... Não se assuste... Safa!... Eu sempre fiquei!...

--E não diz!

--Digo, digo, menina. Pois porque não havia de dizer? Para isso vim.

--Pois não parece. Não vê o susto em que estou?

--Susto?! Não é caso d'isso, socegue... É que... aí, deixe-me, por amor de Deus, respirar...

Cecilia ajuntou as mãos com impaciencia.

