Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto
Part 14
--É verdade, pelo campo, eu... mas... certas ideias, dizia, que me haviam occorrido por lá. Agora vejo melhor; e penso que se não deve até viver tão ligado, como era costume na antiga vida patriarchal. É justa, ou desculpavel pelo menos, esta tendencia moderna para afrouxar um pouco mais os laços de familia, sem amortecer de todo os sentimentos que a animam e unem, mas tornando mais independentes os habitos de viver de cada um. E é assim. Que se lucra em reunir em um feixe apertado dois ou tres homens de indoles e de gostos diversos, só porque são parentes, a ponto de impedir-lhes os movimentos, e a liberdade de acção? O mais que succede, é nenhum d'elles poder dispôr de toda a energia das suas faculdades; incommodam-se reciprocamente, de apertados que estão, e... odio não direi... mas... ás vezes... certa má vontade... pequenas dissensões, e... quando menos se espera, mais azedas discordias ainda, são as inevitaveis consequencias d'isso.
Jenny abanava a cabeça, fitando o irmão, emquanto elle fallava.
--Que doutrinas!--disse ella por fim--que triste philosophia a tua... de hoje. Cada vez te comprehendo menos, Charles.
Carlos pôz-se a rir.
--Então porquê, Jenny? Que achas tu em mim de tão incomprehensivel?
--Ha dias... na manhã que se seguiu a uma das muitas noites, que passas fóra de casa, e quando era mais natural que estivesses n'estas ideias de agora, fallaste-me com eloquencia e convencimento nas doçuras da vida de familia; persuadirias d'aquella vez o mais extraviado. Foi, ainda me lembro, a proposito de uns versos, escriptos por um amigo no teu album. Hoje então...
--Tudo se explica; é pela razão, que eu disse. Tentei apertar-me nos taes ambicionados laços, seduzido pelas promessas dos romancistas moralisadores; a final vi que me magoavam como laços que eram... Mas que versos foram esses, que me despertaram tão salutares ideias? Não me recordo.
--Se queres que t'os leia?...--perguntou Jenny, pousando a mão na chave da porta da bibliotheca, como preparando-se para abril-a.
--Se quero? peço-t'o.
Os dois irmãos entraram na sala quadrada, onde, até a meia altura da parede, corria uma estante de palissandro, abastecida de magnificas brochuras e encardernações inglezas. Havia no meio da sala uma solida mesa rectangular, em estylo antigo, com embutidos de metal nos fechos, lavores de primorosa talha nas faces, e apoiada em grossos pés, torcidos em espiral,--um perfeito modelo d'essa bella mobilia ultimamente resuscitada, graças sobre tudo ás predilecções dos inglezes, que a teem tornado já rara, de muito que a procuram. Cobriam esta mesa varias publicações recentes, periodicos estrangeiros e do paiz, e gravuras; e em volta d'ella, commodas poltronas, e escabellos com assentos estofados parecia convidarem á leitura.
Jenny pousou a luz, e, pegando em um album, que estava entre os outros livros e periodicos, principiou folheando-o, emquanto o irmão se sentava ao lado d'ella.
--Se me não engana a memoria--dizia Jenny--é a traducção de uma lenda popular da Bretanha que se intitula...--Tendo encontrado justamente a pagina que procurava, concluiu:--_Amel e Pennor_.
--Não tenho já a menor ideia do que seja.
--Ora ouve então.
E Jenny principiou a ler, com suavidade e graça inexprimivel, a seguinte lenda, verdadeira ou falsamente attribuida por um moderno escriptor francez á musa popular da Bretanha.[1]
--Longe, longe d'aqui, nas costas da Bretanha, Poetico paiz, que um mar sinistro banha, Vivia, ha muito tempo, um pobre pescador, Que se chamava Amel, com a mulher Pennor. Tinham elles um filho, uma creança loura, Um anjo, que o porvir dos paes inflora e doura; Ao voltarem a casa, alegres, todos tres, Na praia os surprende a noite de uma vez. Crescia o mar veloz, medonho, ingente, forte! N'esse tempo as marés eram vivas. A morte Sobre as ondas boiava, indomita, cruel! Olhando para a esposa, assim lhe diz Amel: --«Pennor, vamos morrer! A vaga se aproxima! Viverás mais do que eu! Animo! Sobe acima Dos hombros meus, mulher. Pousa-te bem. Assim. E, ao veres-me sumir... ai, lembra-te de mim!» Pennor obedeceu. Firmando-se na areia, Desapparece Amel na vaga, que o rodeia. --«Amel! bradava a esposa; ai, pobre amigo meu! Qual de nós soffre mais?--tu, que morres, ou eu, Que te vejo morrer?»--E as aguas, que subiam, O corpo da infeliz no vortice envolviam. Olhando para o filho, assim lhe diz a mãe: --«Filho, vamos morrer! Olha a maré que vem! Viverás mais do que eu! Vá! filho, vá! coragem! «Sobe aos meus hombros, sobe! e ao tragar-me a voragem, Ai, lembra-te de mim e de teu pobre pae!» E o mar a submergiu. Chora a creança e vae Pouco a pouco afundir-se. Á flor da agua revolta, Apenas já fluctua a trança loura e solta... ...Uma fada passou sobre o affrontado mar; Viu o cabello louro, em baixo, a fluctuar; Estende a mão piedosa e, segurando a trança, Com ella attrahe a si a pallida creança. E, sorrindo, dizia:--«Ai, que pesada que és!» Mas viu cêdo a razão; inda segura aos pés Do filho estremecido, a pobre mãe começa A erguer tambem da onda a humida cabeça. Sorriu a boa fada, ao ver assim os dois, E repetiu ainda:--«Ai, que pesados sois!» É que, após a mulher, seguia-se o marido Estreitamente aos pés da terna esposa unido. Ao vel-o, inda outra vez a meiga fada riu, E, leve, para a praia o vôo dirigiu Com este cacho vivo, esta humana cadeia, Cujos élos o amor piedosamente enleia.
Pousando o livro, Jenny continuou:
--Seguem-se mais quatro versos, consagrados á moralidade do conto, os quaes talvez me julgues dispensada de ler, por inuteis.
--De certo. A allegoria é transparente, até sem commentarios. Mas, dize-me tu uma cousa, Jenny: que faria ou que diria a boa fada se, pairando sobre a praia, um dia, em que as marés não fossem vivas, nem o mar ameaçasse devorar a piedosa familia... que faria ou diria ella, se encontrasse os tres formando o cacho vivo da imagem, tão ridiculo n'esse caso, como tocante nas condições, em que o considera a lenda? A fada por certo que sorria tambem, mas acrescentando d'essa vez: «Ai, que varridos sois!» Dize-me agora se queres que eu ajunte alguma cousa tambem, correspondente aos taes quatro versos de moralidade, que supprimiste?--terminou Carlos, tocando levemente as faces de Jenny, e com um sorriso triumphante, ao qual ella correspondeu com outro, mas replicando:
--Não, não é preciso. Mas repara, Charles, que as tempestades no mar formam-se ás vezes em um momento. E ninguem póde prever a época, em que é para receiar o perigo. Não viste como os pescadores voltavam a casa, «alegres todos tres», portanto confiados no mar? Se, tendo esta confiança, se houvessem separado e não caminhassem com as mãos unidas? Ao vir a maré, nem Amel procuraria que a esposa lhe sobrevivesse, nem Pennor tentaria salvar o filho, nem o cabello louro da creança, vindo á tona da agua, attrahiria as vistas da fada bemfazeja, dando-lhe occasião de salvar aquelle ... cacho vivo... Entendes?
--E tão longe ando eu já, que vos não possa offerecer os hombros, se a maré vier um dia ameaçar-nos?
--Não, Charles; nem é a ti, tal como és, que eu ralho e quero mal; mas a um Charles, que ás vezes gostas de fingir. É singular! ha certas almas generosas que teem o vicio opposto ao da hypocrisia: esforçam-se por parecerem más! Para que has de estar a fazer mentir a tua bôca, dizendo o que não sentes?
--Não nego que houvesse algum mau humor nas minhas palavras de ha pouco, mas...
Jenny collocou-lhe a mão diante dos labios.
--Que esse «mas» fique para ámanhã. Por emquanto inda não confio muito n'elle.
--Então negas-me a justificação?
--Não vês que, melhor do que tu, te está a justificar a minha confiança? É por isso que não quero ouvir-te. É tarde. Boa noite, Charles.
--Boa noite, Jenny.
E os dois irmãos separaram-se, apertando cordialmente as mãos.
Carlos ía mais reconciliado outra vez com as doçuras da vida domestica. Ficára-lhe muito agradavel impressão d'este dialogo com Jenny, para que podesse deixar de ser essa a sua opinião final.
XVI
NO THEATRO
Dias depois, affixavam-se cartazes nas esquinas, annunciando a _Lucia de Lammermoor_.
Mr. Richard Whitestone não era assiduo frequentador do theatro lyrico.
Havia porém uma circumstancia, que, infallivelmente, o levava lá, uma vez pelo menos.
Tendo já desesperado de ouvir no theatro do Porto musica de compositores inglezes, como Haendel, Gray, Arnold, Bishop e outros, cujos nomes a cada momento citava com enthusiasmo, resignára-se a afagar sómente o seu acrisolado patriotismo com ir ao theatro, quando se cantavam aquellas operas, cujos librettos eram extrahidos de algumas das obras primas da litteratura ingleza.
O _Othello_, o _Macbeth_, os _Capulletos_, as _Prisões de Edimburgo_, os _Foscaris_, o _Marino Faliero_ e outras n'este mesmo caso, luctavam vantajosamente com o seu muito amor pelo fogão e traziam ao publico aquella physionomia, radiante de contentamento e expressiva de saude, que o leitor já conhece.
Preparava-se de antemão, n'essa tarde, relendo a obra, que servira de assumpto á opera, e ia depois com vontade para o theatro.
Não era porém Rossini, Verdi, Bellini, Ricci e Donizetti os que o attrahiam e enlevavam; era Shakespeare, era Byron, era Walter Scott, cujos grandiosos vultos lhe parecia estar vendo no palco evocados, por sua vez, pelos mesmos personagens, que o genio d'elles tinha evocado outr'ora.--A musica era o accessorio. Os applausos do publico roubava-os Mr. Richard, por patriotismo, aos maestros, para conferir áquelles seus famosos conterraneos.
No numero das taes operas contava-se _Lucia de Lammermoor_. Assumpto escossez, tratado por penna escosseza, e das mais admiraveis em desenhar typos sympathicos e immortaes, não era para Mr. Richard resistir-lhe. Havia de ir por força.
Foi; mandou tomar um camarote para aquella noite. A plateia nunca lhe agradou. Estava mais comsigo e com os seus no camarote; e isto de estar comsigo e com os seus tinha para elle a força de necessidade.
Era costume invariavel de Mr. Richard convidar Manoel Quentino, n'estas occasiões.
Grande mortificação causava a este tal convite, mas não se atrevia a recusar. Aceitava e agradecia até, porém, a occultas, suspirava por ter de privar-se uma noite dos suaves prazeres dos seus serões domesticos, das attenções e cuidados filiaes de Cecilia e até das monótonas reflexões do amigo José Fortunato; este não sentia menos pezar em modificar habitos já inveterados n'elle e prescindir do chá e dos bocejos do vizinho.
Mas não havia remedio. Manoel Quentino ía.
Depois de resolvido a isso, entendia então que tinha restricto dever de chegar a tempo. Era o guarda-livros a pontualidade em pessoa; em tudo observava o preceito de antes esperar do que ser esperado; e, comquanto não fosse provavel que esperassem por elle para começar o espectaculo, é certo que, pouco depois de anoitecer, viam-o já a passeiar no atrio do theatro, aguardando que lhe abrissem as portas dos corredores.
Assim fez n'esta noite.
Logo que as viu patentes, comprou o libretto da opera; porque nunca pôde tambem resignar-se a ouvir cantar, sem entender o que se cantava; subiu para o camarote e, á escassa luz que havia ainda na sala, pôz-se a ler.
Depois assistiu ao accender das serpentinas, á afinação dos instrumentos da orchestra, ao encher gradual da plateia, dos camarotes e das varandas, o que para elle constituia uma parte da divisão e não das menos curiosas. Aguava porém este inoffensivo prazer o cuidado que lhe estava dando a demora da familia Whitestone; temia já que ella não chegasse ao principio da opera. Isto não o deixava socegar.
Emfim ouviu abrir-se, atraz de si, a porta do camarote; voltou-se.
Eram Mr. Richard e Jenny, que chegavam.
Mr. Richard saudou, com familiaridade, o guarda-livros; Jenny apertou-lhe a mão com affecto.
--Não o esperava agora aqui!--disse Jenny, tirando a capa e reparando as leves desordens da sua _toilette_.
--O snr. Whitestone fez-me o favor de me dizer que viesse.
--E Cecilia?
--Cecilia!--disse Manoel Quentino, encolhendo os hombros--eu já lhe não digo nada. Para quê? Com'assim, não se resolve nunca a vir.
Mr. Richard, emquanto a filha se preparava, viera á frente do camarote passar um exame rapido á sala.
--E o Carlinhos?--perguntou Manoel Quentino a Jenny emquanto se encarregava, com soffrivel galanteria, de acommodar a capa, que ella acabava de tirar.
--É provavel que esteja cá--respondeu Jenny.
--Aonde? Na plateia?
--De certo.
--Tendo camarote! É vontade de gastar dinheiro!--pensou para si o economico Manoel Quentino.
Depois de tomarem todas as respectivas posições, Manoel Quentino, ficando junto da cadeira de Jenny, entendeu que não devia estar calado.
--Sempre me lembra--disse elle, portanto--quando venho ao theatro, de ver representar a celebre Josepha Thereza Soares! Aquillo é que era mulherzinha! Que tambem a Grata Nicolini... não sei se lhe diga... Se quer que lhe falle verdade, menina, agradavam-me mais as peças, que se representavam d'antes, do que as de hoje. Só os vestuarios e as vistas! Agora são salas e casacas, casacas e salas e acabou-se. É o pae que quer que a filha case com um velho rico; é a filha que quer casar com um rapaz pobre, que é poeta; é o rapaz a descompôr o velho; a rapariga a morrer... e passe por lá muito bem. Não lhe acho graça nenhuma. Eu queria que vissem: _D. José II, visitando os carceres_--_Camilla ou os subterraneos_--_O Barba rôxa_--_Ha dezeseis annos ou os incendiarios_--_Os sete infantes de Lara_--_A Ignez de Castro..._
E Manoel Quentino dispunha-se a continuar esta revista theatral, quando Jenny o interrompeu, perdendo assim a melhor occasião de se informar, entre outras cousas, dos merecimentos da celebre Josepha Thereza, de quem inda agora ouvimos fallar com saudades os frequentadores reformados, cujos legitimos successores são os _dilletanti_ de hoje.
--Carlos tem ido ao escriptorio?--perguntou Jenny, a meia voz.
--Esteve lá ... no outro dia, na terça-feira, por infelicidade minha--respondeu o guarda-livros, lembrando-se dos enganos a que dera occasião a tal visita.
--Porque diz por infelicidade?
Manoel Quentino ia a contar a Jenny a especie de auxilio, que lhe prestára Carlos no escriptorio; mas, parecendo-lhe ver em Mr. Richard, ainda que apparentemente distrahido, certos indicios de estar prestando attenção ao que elle dizia, julgou conveniente mudar de rumo e respondeu:
--É que eu, apesar dos meus cincoenta e cinco annos, não tenho mão em mim que não me distraia, vendo-o; e, com a minha palestra, nem trabalho eu... nem...
Aqui hesitou alguns instantes, porque lhe parecia demasiado lisongeiro o que ia dizer, mas a final sempre concluiu:
--Nem... nem... nem o deixo trabalhar a elle.
O proprio Mr. Richard mordeu os labios, para encobrir um sorriso.
Jenny, a mesma Jenny, não pôde conservar-se inteiramente séria; mas, sorrindo, agradeceu com gesto de bondade as generosas intenções do guarda-livros.
Pareceu-lhe, porém, conveniente desviar a direcção da conversa e porisso lembrou a Manoel Quentino:
--Mas ainda não me disse por que Cecilia não veio.
--E eu sei lá? Não vem, porque não quer. Já d'antes era uma santa historia para a resolver a aproveitar-se de qualquer convite, que a menina tinha a bondade de lhe fazer. É lá de um genio particular aquella pequena; e desde creança que assim a conheço! Que se lhe ha de fazer? Mas agora sobre tudo... A rapariga tem o quer que é a affligil-a. Isso é que tem. Ella bem faz por disfarçar; mas...
Manoel Quentino tomou n'este ponto ares de mysterio e proseguiu em tom mais baixo:
--Eu não sei, mas... acho-a outra ha dias para cá. Não lhe tenho querido dizer nada, porque... porque sei como ella é, e tenho mêdo de mortifical-a ainda mais, porém...
--Mas então--perguntou Jenny, sinceramente attenta ao que Manoel Quentino lhe dizia--o que é que lhe faz julgar?...
--Acho triste a rapariga. Olhos de pae não se enganam com essa pressa. Os outros nada vêem, mas os meus... A Cecilia não era assim; quem a viu d'antes! Ella ri e graceja ainda, é verdade; mas ha alli certo modo, que eu lhe estranho. A menina, que bem a conhece, ha de ter visto...
--Não; não tenho notado mudança n'ella.
--Não que tambem... eu lhe digo... Ora deixe-me ver... Ella não voltou a sua casa desde... desde terça-feira, não? É isso mesmo. De então para cá é que eu mais tenho notado...
Jenny escutava com crescente curiosidade o que Manoel Quentino dizia.
--Ahi está que hoje...--continuou elle--depois de eu chegar a casa... mas peço-lhe, por amor de Deus, que lhe não vá dizer estas cousas; ella põe-se por lá depois a scismar...
--Fique descansado--disse Jenny, procurando não perder uma só das palavras que ouvia.
--Pois esta tarde... Eu já notára que ella ao jantar não tinha comido quasi nada... e eu, a fallar verdade, não gosto de ver aquillo. N'aquellas idades é que é o comer, e as cousas não correm bem, quando não ha appetite. Pois não lhe parece?
Jenny fez um movimento de affirmação, comquanto eu não dê por assentado que ella tivesse sobre o appetite absolutamente as mesmas ideias que Manoel Quentino.
--E depois?--perguntou ella.
--De tarde--continuou o velho--a pequena, contra o seu costume, metteu-se para o quarto, a ponto de me assustar; não tive mão em mim, que a não chamasse. Não me respondeu logo. Lembrou-me se lhe teria dado alguma cousa, e, já sobresaltado, ia a descer as escadas, para ver o que era, quando ella me appareceu, mas... ó menina, ou me engano muito, ou a rapariga tinha chorado; ella vinha a rir, vinha, mas eu...
--Foi de certo illusão sua; por que havia Cecilia de chorar?
--Pois ahi está o que me afflige. É o não saber! Ás vezes lembra-me... serei eu a causa? Ora é preciso que lhe diga que eu antes queria trabalhar como um negro toda a minha vida, e não ter um triste bocado de pão para comer, do que dar motivo a uma só lagrima d'ella.
E havia um tremor na voz de Manoel Quentino, ao dizer isto, que commoveu Jenny.
--Socegue--disse-lhe ella, animando-o.--De certo não é a causa d'essa tristeza, que lhe parece notar em Cecilia. Que mais póde fazer por ella, do que o que faz?
--E tudo merece, menina, e mais! Assim eu podesse. É um anjo! Não imagina.
--Não imagino, sei; pois não é ella a minha mais querida amiga?
Manoel Quentino não pôde ter-se, que não tomasse as mãos de Jenny e as apertasse commovido.
N'isto rompeu a orchestra a symphonia da opera; fez-se silencio na sala.
As ideias de Manoel Quentino seguiram novo curso; esqueceu as confidencias que tinham deixado Jenny pensativa, e, prestando ouvidos á musica, fixou os olhos no panno, que esperava ver subir immediatamente.
--Pois a historia d'esta peca--dizia elle, emquanto o panno não subia--é bem bonita, mas muito triste. Pelos modos, era um fidalgo..., não me lembro agora d'onde...
E, depois de pensar um momento, acrescentou:
--De Hespanha, acho eu... Era, era de Hespanha...
Mr. Whitestone estava distrahido; mas não ha distracção possível que impeça um inglez de corrigir qualquer inexactidão, que, embora de leve, toque pela sua nacionalidade; por isso interrompeu immediatamente a narrativa de Manoel Quentino, emendando-a.
--Ho! não, não. De Hespanha! Ho! Da Escossia, da Escossia. _In the Lothian county_. _The bride of Lammermoor_, de sir Walter-Scott. É bem conhecido isso.
--Ai, é verdade, é da Escossia, é. Já me não lembrava. Pois este fidalgo, ao que parece, tinha lá umas birras com outro seu vizinho, tambem muito nobre, é verdade, mas sem nada de seu. Eram rixas velhas e até me parece que uma demanda dos meus peccados! Vae logo o... o S. Pedro e faz com que este tal se namore da irmã do outro. Que isto acontece muitas vezes.
N'este ponto foi o panno acima.
Manoel Quentino, depois de exame passado á scena, proseguiu:
--Esses homens de saias, que ahi estão, são os criados do tal fidalgo. Andam á cata do amante, que vinha fallar com a rapariga ao jardim.
O argumento exposto por Manoel Quentino proseguiu por este teor e estylo, sem que Mr. Richard nem Jenny lhe dessem attenção.
Depois da chegada do barytono e durante o recitativo d'este, ia Manoel Quentino vertendo em vernaculo as phrases italianas que percebia, por conseguinte aquellas que menos precisavam de ser vertidas.
«_Mortalnemico_»--recitava no palco o barytono.--«_Mortal inimigo_»--traduzia o velho do camarote.--«_Di mia prosapia_»--dizia um.--«_Elle mesmo confessa que tem prosapia_»--interpretava, e d'esta vez desastradamente, o outro.--«_Io fremo_!»--acrescentava d'ahi a pouco tempo o cantor.--«Diz que treme»--traduzia Manoel Quentino.
E assim por diante, até que Mr. Richard, ao principiar no palco a aria:
_Cruda... funesta smania_.
pôz termo com ligeiro _psiu_ aos luminosissimos esclarecimentos do guarda-livros.
Manoel Quentino calou-se logo, promettendo a continuação para o primeiro intervallo.
Antes do fim do acto, deu-se na plateia um incidente vulgar no nosso theatro, e cuja frequente repetição, em certos annos, mantem em perpetua tribulação o espirito dos emprezarios.
Á entrada da prima-donna, e antes d'ella soltar a primeira nota, romperam de um dos lados da sala alguns signaes de desagrado.
A maioria do publico, alheia ás altas questões de bastidor, elementos d'estas subitas tempestades, estranhou ver assim reprovar quem, dias antes, se applaudia com phrenesi, porventura exagerado.
Manifestou-se portanto reacção, extremaram-se os campos, desenvolvendo-se, de parte a parte, um ardor, que, durante alguns minutos, interrompeu o espectaculo.
Na plateia tudo era movimento e confusão; nos camarotes, os homens penduravam-se, para observarem, _au vol d'oiseau_, a borrasca humana que se lhes desencadeiava aos pés, e alguns, menos impacientes, formulavam, lá de cima, acerbas censuras, que se perdiam no espaço; as senhoras quasi desmaiavam de assustadas; outras, mais animosas, examinavam a binoculo as peripecias da contenda; a orchestra, deixando de tocar, e erguida em massa, passára a ser espectadora; os cantores cruzavam os braços e imitavam-a; os habitantes das varandas,--porventura os unicos espectadores de boa fé e de amor de arte sem mescla,--urravam de indignados; a auctoridade punha-se em pé no camarote e pedia para ser ouvida...
No meio d'este tumulto, Mr. Richard dava evidentes signaes de desagrado, traduzidos por muitos _hos!_ por muitos estalidos de lingua, por muito sacudir de cabeça, e por pancadas de impaciencia com os nós dos dedos no encosto do camarote.
Manoel Quentino, igualmente escandalisado, era mais verboso na expressão de sua indignação.
Esse fartou-se de fallar, de ralhar, de gesticular, de censurar as auctoridades, de formular projectos absurdos de policia theatral, e isto tudo, quasi debruçado no camarote, e fitando a massa escura da plateia, cujo alvoroto ia crescendo.
Jenny olhava tambem na mesma direcção, mas o motivo era outro.
No camarote proximo ouvira fallar com severidade dos amotinadores da sala, e, entre os nomes mencionados, escutára o do irmão. Jenny estremeceu, e d'ahi vinha o cuidado com que examinava a plateia.
No entretanto, Manoel Quentino bradava:
--Eu, se fosse á auctoridade, mandava todos para o Carmo. Isto é um desaforo. Vem uma pessoa para se divertir, e vae... e vae... e vae...
A hesitação no terminar a phrase era devida a ter alguma cousa attrahido a attenção do velho para um ponto da sala.
--Oh! oh!--disse elle por fim--Ora, se elle lá não havia de estar! Podera! A festa não se fazia sem elle. Estava de ver!
--Quem?--perguntou Jenny, receiando comprehendel-o.
--Lá está tambem o Carlinhos; pois não vê?
--Onde? Onde?--perguntou logo, com vivacidade, Mr. Richard.
Manoel Quentino sentiu ao mesmo tempo a mão de Jenny a apertar-lhe o braço, como para recommendar-lhe discrição. Antes porém de a sentir, já elle tinha percebido a necessidade de ser prudente.
--Acolá!--e apontou em direcção exactamente opposta ao logar, em que estava Carlos.
--Aonde, homem?... Não vejo.