Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto
Part 13
O leitor sabe de certo até onde podem chegar as excursões do pensamento, quando no terreno que o de Carlos ia seguindo agora; muito mais se, como elle, se está em pleno bosque e longe do rumor da cidade; se o sabe, não estranhará que, momentos depois, já assim estivesse pensando Carlos:
--Um amor bem verdadeiro, uma vida bem intima com uma mulher, a quem se queira como amante, que se estime como irmã, que se venere como mãe, que se proteja como filha..., é evidentemente o destino mais natural ao homem; o complemento da sua missão na terra...
Quando Carlos Whitestone chegára a formular, no pensamento, esta profissão de fé, que, uma ou outra vez, concebeu toda a cabeça de vinte annos, ainda das mais azadas para desvairamentos, attingia a borda do pinheiral opposta áquella, por onde havia entrado.
D'alli por diante o terreno, mais desimpedido de arvores, era occupado por campos em cultura, vinhedos, quintas, e por as casas respectivas; umas juntas, outras dispersas, e mais ou menos graciosas todas.
Carlos sentou-se no pequeno muro de demarcação do pinhal. O horizonte que tinha diante de si, era vasto, e o olhar foi, quasi ao extremo d'elle, fixar-se em uma das mais distantes d'aquellas casas, ainda que o espirito não tomasse a menor parte n'aquella apparente contemplação.
Tinha esta casa dois andares; era a face posterior a que se avistava d'alli. A varanda do primeiro andar estava toda entretecida de trepadeiras, que subiam do quintal. No intervallo das duas janellas florescia, em uma especie de alegrete, um arbusto, ao que parecia, de camelias. Na varanda do andar de cima via-se, pendurada de uma corda, que se estendia em todo o comprimento d'ella, alguma roupa branca, sobre a qual o sol batia em cheio, fazendo-lhe realçar a alvura.
Como disse, demoraram-se n'aquelle ponto da perspectiva os olhos de Carlos, sem que os seguisse, desde logo, o pensamento, absorto como estava ainda na sequencia de meditações sobre os destinos do homem n'esta vida.
Mas, instantes depois, alguma cousa se passou, que foi como que o laço de união entre o objecto das contemplações dos olhos e o das do espirito, que, desde então, se associou áquelles, no exame da modesta vivenda, em cujas vidraças o sol simulava a apparencia de um vasto incendio.
O phenomeno nada tinha de extraordinario comtudo. Na varanda de cima apparecera uma mulher; nada mais. Mas esta mulher, ainda que a distancia mal permittisse distinguil-a, mostrava, pela elegancia de estatura e pela vivacidade de movimentos, ser ainda joven. Não era para estranhar que a imaginação de um rapaz de vinte annos a suppozesse tambem formosa.
Viera examinar a roupa, que estava a córar ao sol; tirava uma e substituia-a por a que trazia de dentro; mais adiante, mudava a face exposta de outra; de quando em quando interrompia o trabalho e olhava para fóra, pondo a mão por cima dos olhos, como a abrigal-os da intensidade da luz; outras vezes, voltava-se para a sala e parecia fallar a alguém de dentro. Depois desapparecia; voltava de novo, e sempre, com manifesta solicitude, applicada ao trabalho.
Carlos seguia com prazer o ir e voltar d'aquella mulher, que a custo distinguia, mas que nem por momentos imaginou que podesse ser uma criada.
Elle, que estivera sonhando com os encantos do viver intimo, aprazia-se de imaginar agora, n'aquella casa, um d'esses mundosinhos modestos, que lhe estavam a appetecer.
--Uma esposa, nova por certo, canceirosa com os negocios domesticos...--pensava elle--Deve ser um prazer indefinivel sentir-se a gente viver sob os cuidados de um d'estes entes, votados assim inteiramente á nossa felicidade...
Era natural, desde que pensou isto, que se lembrasse de Jenny. Lembrou-se, é verdade; mas a imaginação sorriu affectuosamente áquella doce imagem, e deixou-a. Ao estado do seu coração não satisfazia só o sorriso fraternal e meigo que animava de bondade as feições da irmã. A seu pezar, surprendia-se a aspirar a mais.
A tarde adiantava-se, e Carlos não se desviava d'alli; prendia-lhe as attenções aquella casa e a sympathica visão da varanda.
A final fecharam-se as janellas. Pouco faltava para o sol se esconder de todo no mar. Carlos reparou então que era tempo de voltar a casa.
Olhou mais outra vez ainda, e com saudade quasi, para a varanda. Os seus poucos e imperfeitos conhecimentos da topographia d'aquella parte da cidade não lhe permittiram conjecturar sequer qual fosse a rua a que pertencia a habitação.
A nossa costumada discrição impede-nos de compensar este defeito.
Seguindo outra vez o caminho, por onde viera, Carlos voltou a casa, mas a passos mais apressados.
Já proximo da porta, sentiu uma mão, que se lhe pousava no hombro. Voltou-se; reconheceu um de seus amigos.
--Que fazes tu, homem?
--Recolho-me.
--D'onde vens?
--Do campo.
--Ah! cultivas a bucolica? a poesia pastoril?
--Ás vezes.
--Dou-te os pezames. Gessner envelheceu; Florian dorme o somno dos inoffensivos. A proposito, já te mostrei o meu folhetim de critica, a respeito do volume do Serrão?
--Ainda não.
--Apparece então no Guichard esta noite. O livro é um pretexto; o que eu procuro é caracterisar a litteratura moderna, estremando os campos, hoje um pouco confusos, de romanticos e de classicos. Sabes que é o meu systema investigar nas pequenas apparencias as grandes revelações? É o que faço d'esta vez ainda. Assim, n'este estudo, serviram-me de ponto de partida duas palavras apenas; uma colhida de Racine, na _Berenice_; outra de Victor Hugo, no _Ruy Blas_. São as palavras finaes de uma e de outra tragedia. Antiochus vê partir Berenice e exclama: _Helas_! Ruy Blas morre nos braços da rainha e murmura: _Merci!_ Basta-me isto.--_Helas_!--é o grito de dor, é o desespêro, é a falta de coragem no infortunio; é a ultima palavra de uma litteratura, que não tem confiança no futuro, de uma litteratura, que vive só do passado. _Merci_!--é, pelo contrario, a resignação, a esperança, o apuramento do padecer até á essencia inebriante do soffrimento proprio, que chega a confundir-se com o prazer... é pois a phrase digna de uma litteratura viva, inspirada do futuro...
A prelecção continuou; e Carlos reconheceu, pela impaciencia com que a estava escutando, a nenhuma disposição que tinha para apreciar n'aquella noite a sociedade de seus amigos. Separou-se d'este o mais depressa que pôde.
--Não serei eu que vá ao Guichard esta noite. D'esta vez farei a vontade a Jenny. Ficarei em casa--disse elle, logo que conseguiu despedir-se.
E entrou justamente quando já a campainha chamava para o jantar.
Jenny, vendo-o chegar, e notando o ar grave que trazia, murmurou comsigo:
--Ainda é cêdo para o restabelecimento. Esperemos.
XV
VIDA INGLEZA
O jantar correu, ao principio, silencioso, como de costume.
Mr. Richarde, apesar de tudo quanto promettia aquelle seu ar de satisfação, fazia as honras da mesa, usando de monosyllabos, e não se dava ao trabalho de formular uma oração inteira, sempre que com qualquer palavra solta lhe era possivel exprimir o pensamento.
--_Roast beef_?... Salame?... Fiambre?... Ostras?--Era a maneira, pela qual elle perguntava a Carlos ou a Jenny quaes os pratos, de que preferiam servir-se.
--Mostarda... Queijo... Aquillo... Isto... Traz... Tira... Leva...--Eram as ordens, que recebiam os criados, os quaes manobravam com uma promptidão, seriedade e silencio, essencialmente britannicos.
Carlos não se mostrava mais expansivo. Além da pouca disposição para fallar, que em regra sentia diante do pae, estava n'aquella tarde muito fóra das habituaes condições de espirito, e em outra qualquer companhia de certo lhe estranhariam igualmente a taciturnidade.
Jenny dava algumas ordens, em voz baixa, aos criados, que se inclinavam diligentes para escutal-a; fazia, no mesmo tom, uma ou outra observação a Carlos, e aventurava até algumas perguntas ao pae, sem que lhe fosse possivel comtudo generalisar conversa.
Tudo isto, a regularidade e perfeito methodo de serviço, a gravidade e asseio dos criados, e a meia claridade da sala, dava não sei que aspecto solemne ao acto, como se fosse uma ceremonia funebre.
Á medida, porém, que se repetiam as libações e que o effeito dos variados vinhos se combinava na cabeça de Mr. Richard, o velho inglez principiou a despir-se d'esta soturna gravidade e a lingua a desencadeiar-se-lhe, rompendo aquella especie de mutismo, que lhe impunham as regras da etiqueta britannica.
Verificava-se n'isto uma opinião de Fielding, escriptor que disputava a Sterne as predilecções litterarias de Mr. Richard; diz effectivamente o auctor do _Tom Jones_ que o vinho tem a propriedade de trazer á luz o verdadeiro caracter dos homens, caracter que, nos periodos de sobriedade, o artificio consegue dissimular muitas vezes. Ora, como dissemos, Mr. Richard Whitestone era sorumbatico, por convenção; mas no fundo permanecia a jovialidade, que vinha á superficie, á medida que se adiantava o jantar.
Ainda na presença de Jenny, já elle começára a ensaiar alguns gracejos, a contar passagens da sua vida de Londres, travessuras da meninice, e algumas extravagancias do tempo de rapaz.
Carlos procurava então maliciosamente o olhar da irmã, a qual, pelo contrario, evitava com discrição o d'elle; porque estas historias ambos as sabiam já de cór, tão infalliveis ellas occorriam em determinadas circumstancias.
Sempre que, em taes alturas do jantar, Carlos via servir um perú recheado, esperava já a narração de como, na sua infancia, Mr. Richard, então chamado ainda o pequeno Dick, com mais outros companheiros do collegio, tinham conseguido roubar uma d'estas aves do pateo do reverendo Jackson, seu mestre, e do detestavel assado que depois, ás occultas, fizeram com ella.
O lombo de vacca inevitavelmente lembrava a anecdota apocripha d'aquelle rei de Inglaterra, que em um accesso de bom humor armou cavalleiro este saboroso artigo comestivel, ao qual, desde então, se concederam as honras de _baronet_, como parece indicar o nome de _Sirloin_ ou _Sir loin_, com que os inglezes o designam.
Um prato de avelãs trazia quasi sempre comsigo a historia de uma celebre aveleira, que havia em certo parque das proximidades de Londres, pelo tronco da qual tantas vezes Mr. Richard, ainda creança, trepára com feliz exito, até um dia em que, escorregando, ficou suspenso de um galho por espaço de alguns minutos.
O _pudding_ era pretexto para fallar no monstruoso _pudding_ que se cozinhava na Inglaterra, em não sei que solemnidade popular, e d'ahi a enumeração de muitos outros usos, e costumes nacionaes e de varias festas notaveis. Entre essas, a mais detidamente descripta era a do Lord Mayor; n'esse dia, guardado por toda a City, como dia santo, o personagem eleito para aquelle alto cargo é processionalmente levado á presença do Lord Chanceller, com o fim de ser por elle confirmada a sua eleição. Mr. Richard sabia e descrevia todas as particularidades do ceremonial, bem como todas as attribuições dos multiplicados cargos de que se compõe a excepcional corporação de Londres, desde o alto Lord Mayor até o mais modesto bedel de parochia.
Como na procissão fluvial pelo Tamisa, celebrada n'aquelle dia, Mr. Richard estivera de uma vez em riscos de se afogar, a referencia minuciosa d'este caso pedia a de um outro analogo que lhe succedera por occasião dos tumultos populares occorridos durante o processo de divorcio de Jorge IV, e varias particularidades, pouco edificantes, a respeito da rainha Carolina e do seu favorito Bergamy.
Carlos ouvia tudo isto calado, com ar de resignação e deferencia filial; Jenny com uma physionomia mais attenta, ainda que nem sempre a attenção do rosto lhe estivesse no espirito tambem.
Jenny era a primeira a retirar-se da mesa, segundo o discreto costume, hoje mais seguido, mas originariamente britannico.
Então tomavam maior incremento ainda as libações de Mr. Richard Whitestone.
Accendia um charuto e dava-se uns ares de familiaridade, que em nenhuma outra occasião se repetiam.
Carlos, de ordinario, perdia tambem então um pouco do habitual retrahimento para com o pae, e, fumando defronte d'elle, entrava com mais desafogo n'este dialogo.
N'aquella tarde, porém, conservou-se ainda pouco expansivo, e quasi distrahido, perante a crescente communicabilidade.
N'este dialogo _inter pocula_ eram infalliveis as referencias do negociante ao seu livro favorito--O _Tristram Shandy_, de Sterne.
Mr. Richard apreciava tudo n'aquelle livro extravagante. Sabia-o quasi de cór e, apesar d'isso, lia-o ainda e de todas as vezes ria com a mesma vontade, não obstante não encontrar no decurso da leitura já alguma cousa imprevista.
Carlos, ainda quando não tivesse lido a obra, tinha já razão para a conhecer a fundo, graças ás quotidianas citações do pae; era porém obrigado a escutal-o, como se tudo fosse novo para elle.
As dissertações philosophicas do pae de Tristram, as ingenuidades e venetas guerreiras do tio Tobias, as argucias e façanhas do Corporal Trim, as interminaveis e extravagantes divagações de Tristram, o supposto auto-biographo, tudo Mr. Richard citava com enthusiasmo e com vivacidade.
Nem lhe passavam por alto os episodios e as dissertações, que respiram certas liberdades, verdadeiramente rabelesianas, capazes de alvoroçar os ouvidos menos pechosos. O episodio dos amores do tio Tobias e os do seu fiel camarada, de indole menos quixotesca, eram até das passagens favoritas e das que com mais cordiaes risadas commentava.
Vinham luzes e proseguia o dialogo, nem sempre demasiado ingenuo.
Ao levantar da mesa, tomavam-se posições ao fogão; a conversa continuava, mas o ponto culminante da loquacidade e da viveza de Mr. Richard Whitestone tinha passado já.
N'este primeiro periodo de declinação sobrevinham as citações do _Tom Jones_.
Mr. Richard não se cansava tambem de exaltar aquelles soberbos perfis da penna de Fielding e as judiciosas reflexões que o auctor mistura á narrativa.
Depois, a proximidade do calor do fogão, as exhalações do carvão inglez, a preponderancia dos vapores do tabaco, e mais tarde o _punch_, deprimiam ainda mais os espiritos do commerciante.
Passava a fallar de politica, citava o _Times_; n'esta noite disse a Carlos que Lord Palmerston estava resolvido a dissolver o parlamento, no caso de não encontrar apoio na camara dos communs.
Isto já foi dito em tom soturno. Carlos era de todo indifferente aos destinos do parlamento inglez.
Depois fallou nos principaes movimentos e feitos de armas do exercito alliado na Crimeia e no provavel exito da campanha; e d'aqui entrou em considerações sobre o estado do commercio em Londres. Carlos luctava heroicamente para reprimir bocejos de fastio.
Era noite cerrada; a voz de Mr. Richard tinha já umas entonações surdas, que, combinadas ás pancadas do relogio da sala, produziam em Carlos um effeito soporifero irresistivel.
Jenny, quando pelo silencio que reinava, sentia que tinham chegado as cousas a este periodo critico, voltava outra vez á sala. Era então que o irmão aproveitava a occasião para saír.
N'esta noite ficou.
Jenny olhou-o admirada.
Carlos respondeu-lhe, encolhendo os hombros, como a exprimir a resolução de ser condescendente aquella vez, ficando.
A irmã agradeceu-lhe com um gesto; mas pensava comsigo:
--Bem sei. Ainda não te passou o desgosto pelo mau resultado da tua aventura. Paciencia!
Carlos voltára a casa, como dissemos, reconciliado com a vida domestica e convencido de que estava bem disposto para saborear os prazeres de um serão inglez.
Resolveu por isso ficar. Mas a suspeita de Jenny era tambem fundada.
Desalentado pela falta de indicações em relação ao mysterio da mascara, na qual a seu pezar pensava ainda, mingoava-lhe animo para saír, sem esperanças de o elucidar.
Mas a vida domestica, tal como se passava ao fogão, junto do qual Mr. Richard quasi dormitava, não era a que o podia satisfazer.
O viver intimo, cujos encantos Carlos julgára ter concebido aquella tarde, era apenas o accessorio de alguma cousa mais essencial ao coração, de alguma cousa, cuja necessidade começava a sentir emfim. Sorria-lhe o conchego domestico, mas aquecido, mas illuminado por outras chammas, que não eram as que lambiam o _fender_ do fogão; animado por mais ardentes sentimentos do que os de um affecto fraterno, ainda que dos mais estreitos, e do que os do respeito filial, ainda que dos mais arreigados e extremosos.
Estava por isso experimentando agora o desengano, e a comparar a monotonia d'aquella noite ingleza, com o prazer que imaginára poder saboreiar-se, sem abandonar os lares domesticos.
Isto fazia-o ainda mais silencioso e sombrio, do que estivera em outras noites que passára como aquella em casa.
Depois que veio Jenny succedeu o que quasi sempre succedia tambem. Mr. Richard manifestou desejos de a ouvir tocar.
Em virtude d'isto, passaram a uma das salas proximas. Mr. Richard sentou-se ao lado do fogão, tambem accêso alli; Carlos, proximo d'elle; Jenny ao piano.
Jenny, conhecendo por experiencia as predilecções paternas, abriu a collecção dos _Cantos populares_ de Russell e procurou uma poesia de Morris; a qual tanto o pae como o irmão ouviam sempre com piedoso recolhimento.
O motivo d'esta attenção estava sobre tudo na lettra, que parecia feita de proposito para avivar, em toda esta familia, saudades da vida passada. Foi a meia voz, mas com verdadeiro sentimento, que Jenny cantou essa poesia, intitulada a _Biblia de minha mãe_, cuja traducção é a seguinte:
«Este livro é tudo quanto me resta d'ella! Ao vel-o, sinto rebentarem-me irreprimiveis as lagrimas dos olhos; com os labios tremulos, com a fronte turvada, aperto-o ao coração. É esta a arvore de familia, á sombra da qual já muitas gerações se teem abrigado.--As mãos de minha mãe folhearam esta Biblia; foi ella mesma quem m'a legou ao expirar.
Ai, como me estão lembrando aquelles, cujos nomes me veem de envolta com estas memorias! Tantos que, em torno do lar, costumavam reunir-se após a oração da tarde, a conversar no que dizia este livro, em um tom que me calava no intimo do seio; ha muito que elles estão com os mortos silenciosos; mas sinto-os viver ainda aqui.
Meu pae lia este livro sagrado aos filhos, ás filhas, á familia toda! Como era sereno o olhar de minha mãe, ao curvar a cabeça para escutar a palavra de Deus! Aquella figura angelica! Ainda a estou a ver!--Que memorias me occorrem em tropel n'este momento!--De novo parece reviver, dentro das paredes d'este quarto, aquelle pequeno grupo.
Tu, ó Biblia! és o mais seguro amigo do homem! Eu tenho já experimentado a tua constancia! Quando todos me trahiam, achei-te fiel; vi em ti um conselheiro, um guia! As minas da terra não possuem o thesouro, que me compre este livro. Ensinando-me a maneira de viver, elle tambem me ensina como se deve morrer.»
O assumpto da canção ingleza, depois que Jenny a terminou, fez caír naturalmente a conversa sobre diversas passagens da Biblia; Mr. Richard citou um versiculo, outro e outro, até que uma duvida lhe impediu de proseguir: d'ahi o pedido feito por elle á filha, para verificar a exacta redacção do texto.
Jenny abriu pois o livro, que em todas as salas se encontrava sempre á mão, e leu.
Carlos gostava de ouvir ler a irmã aquellas singelas e sublimes paginas da Biblia.
Diz-se muito mal da lingua ingleza, e, de facto, ouvindo fallar certos filhos da Grã-Bretanha, lembra logo os conhecidos versos:
O mundo a porfiar que os bretões grunhem E os bretões, etc., etc., etc.
porém uma voz, como a de Jenny, meiga, melodiosa, e modulada com intelligencia e graça, parece transformar essa lingua ingrata em não sei que cantar de aves, que tem attractivos, até para os que não a comprehendem.
O recolhimento religioso, com que Jenny lia os mais bellos episodios do Velho ou do Novo Testamento, augmentava o effeito agradavel da sua voz.
Infelizmente, porém, a leitura descarnada e despida de commentos d'aquellas paginas não bastava ao fervoroso anglicanismo de Mr. Richard Whitestone, porisso, a cada passo, a interrompia para citar as interpretações de alguns dos reverendos doutores da sua episcopal igreja, ou os recentes desenvolvimentos, que ouvira ao ecclesiastico inglez na missa protestante, do Campo Pequeno.
Jenny olhava para o irmão e fazia-lhe signal para que se reprimisse, e pelo menos simulasse attenção ás divagações do pae. Serviu-se ás dez horas chá preto, e Mr. Richard readquiriu um pouco de animação para, a proposito do chá, fallar na importancia da companhia das Indias Orientaes, nos serviços feitos por ella ao commercio, na sua historia, nas difficuldades com que luctou, e nos meios de que dispunha. Em seguida expôz um projecto de lavra propria sobre o engrandecimento das colonias inglezas, formulou acerbas censuras ao systema colonial portuguez, e em seguida uma expressa condemnação da politica franceza em geral.
Mr. Richard odiava cordialmente a França. Ou elle não fosse inglez.
Emfim, ás onze horas cessou Mr. Richard de fallar; as palpebras começaram a pesar-lhe; a chamma do fogão a amortecer, sem que as tenazes fizessem o seu officio, avivando-a.
Meia hora depois, separava-se a familia, não tendo Carlos, em toda a noite, dito uma duzia de palavras.
Jenny acompanhou ainda algum tempo o irmão através dos corredores, que conduziam ao quarto de cada um.
--Então que tens tu a dizer da minha conversão? d'esta commovente e miraculosa regeneração do filho prodigo?--perguntou Carlos a Jenny, quando chegavam á porta da sala da livraria, onde deviam separar-se.
--Que não sei se será muito duradoura--respondeu a irmã.
--E como queres que o seja, Jenny? Não viste que narcoticas delicias as d'este conversar ao fogão? Dormir é um prazer; mas na minha idade!
--Então, Charles!--disse Jenny, olhando para elle, com ar de reprehensão.
--Olha, minha boa Jenny, acredita o que te digo; eu fui hoje sincero devéras nas minhas tentativas de reconciliação com a fada do lar domestico, com aquelle genio bom, que protegia a «gata borralhenta» na historia que nos contavam em creança. Vim para casa, sonhando umas delicias de viver intimo, as quaes, infelizmente, tive o desgosto de achar que eram illusorias. Tanto azul e dourado que via transformou-se em uma côr... pardacenta...
--Talvez tu sejas muito exigente.
--Ai, não o era, não. Mas que queres? Posso ter coragem para ouvir ámanhã e depois e sempre a historia do perú do reverendo Jackson? a das festas do Lord Mayor? a das assuadas á rainha Carolina? ou deve-se-me estranhar que deserte diante das subtilezas theologicas dos doutores da nossa igreja, ou...?
--Tens razão; é preciso principiar por educar o coração, antes de tentar regenerar-te.
--O coração?! Que queres dizer?
--Tu vens para casa, como vaes para o theatro; procuras distrahir-te. Ora é claro que este viver de familia não entretem uma imaginação como a tua, se é só para satisfazeres a imaginação que ficas; e concebo que tudo isto te deve ser insupportavel, se o coração se fechou já de todo aos unicos gôsos, que nós podemos prometter-te.
--Não me faças tão endurecido, que não saiba já apreciar os tocantes prazeres d'essa convivencia intima, Jenny. Julgas que não sei o que vale a tua affeição e até a do pae? Mas ouve, filha, e não sejas muito severa commigo. Emquanto o pae ha pouco fallava, muito á sua vontade, na portentosa companhia das Indias Orientaes, eu estava a pensar...
--Em quê?
--Estava a pensar em que eram inteiramente falsas certas ideias, muito bonitas, que, esta tarde, durante um passeio, que dei pelo campo...
--Pelo campo!... Tu?!