# Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto

## Part 12

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--Então? era ou não era plano? Eu logo vi--exclamou Manoel Quentino, exultando.

--Balas perdidas--replicava o outro, encolhendo os hombros com desdem.

--«Os soldados--proseguia Cecilia--pedem com enthusiasmo ao general em chefe, que dê a batalha»--e, acabando de ler isto, fez um gesto de aversão.

--Pois vão para lá!--respondia o snr. José Fortunato, como homem que conhecia a preceito os recursos de defeza da praça.

--«Em Sebastopol ha duas mil bôcas de fogo»--lia ainda Cecilia.

José Fortunato olhou para o seu amigo, com gesto provocador e triumphante; parecia que o convidava a atacar, propondo-se elle a defender com aquelles auxiliares.

Em seguida Cecilia leu que Vassif-Pachá acabava de tomar o commando do exercito da Asia.

Foi a vez de Manoel Quentino pagar o gesto do outro, como se depositasse grande confiança no Vassif e nas operações campaes do exercito da Asia. Mas o gosto de triumpho foi maior ainda quando ouviu que, a 30 de janeiro, partira para a Crimeia, Ulrich, que elle não sabia quem era, com a guarda imperial franceza; José Fortunato só teve, a compensar-lhe o receio d'esta acommettida, a noticia de que estavam seis mil russos em Pruth.

As noticias locaes eram o terreno neutro, onde caminhavam a par, e sem conflicto, as curiosidades do auditorio.

Uma cousa não podia Cecilia perdoar aos localistas, era que tratassem levianamente certos assumptos tristes: a prisão de um pobre, uma desordem domestica, uma tentativa de suicidio, por exemplo. Impacientava-se com isto, e formulava um voto de censura, que Manoel Quentino e José Fortunato apoiavam.

O noticiario vinha então abundante de descripções de desastres, causados pela cheia do Douro.

Era com consternação que Cecilia lia a narração de tantas miserias. Commoveu-a sobre tudo um facto verdadeiramente tragico, do qual ainda haverá talvez no Porto quem conserve memoria. O irmão de um piloto de um dos navios que a corrente arrebatára, depois de tentar em vão salvar o irmão em perigo, perdeu a razão, vendo-o succumbir; e esta dupla catastrophe feriu de morte o velho pae de ambos. Manoel Quentino, que tinha razões para saber o que era o amor de pae, limpou uma lagrima a occultas. José Fortunato, com ser boa creatura, tinha, em circumstancias assim, certas observações sêccas, de fazerem perder a paciencia a um santo.

Ouvindo ler aquillo, disse:

--Ora! Isso é historia! Os gazetilheiros ás vezes...

--Historia! Ó snr. Fortunato, por quem é!--exclamou Cecilia impaciente--Lembre-se de que é um irmão a querer salvar um irmão, e a vel-o morrer; de que é um pae que perde dois filhos; não acha ainda razão de mais para a morte ou para a loucura?

--Pois então o outro que não fosse metter-se ao perigo; devia lembrar-se...

--Ora devia lembrar-se!... quem se lembra de nada n'aquelles momentos? O snr. Fortunato tem cousas!

Fortunato já estava arrependido do que dissera.

--Com menos motivos--acudiu Manoel Quentino--se arriscou ha tempos na Foz o Carlitos, lá o filho do meu patrão. Virou-se no meio do rio um pequeno barco valboeiro, que ía governado por duas creanças, uma das quaes nem sabia nadar; e elle, que andava ás gaivotas com outros inglezes--que é o seu gosto--não esperou mais nada e zás... mergulhou como um peixe e salvou a creança. Depois continuou a caçar, com a roupa molhada no corpo, inda por muito tempo, em termos de ganhar qualquer doença.

Cecilia estava tão entretida a examinar não sei o quê, que vinha no periodico, tão perto tinha os olhos das lettras, que julgo nem dava attenção ao episodio, narrado por Manoel Quentino.

É verdade que, assim que o snr. José Fortunato, depois de ouvil-o, disse, com os seus modos sêccos:--«Estroinices», Cecilia levantou a cabeça com impeto e fitou-o córando e com uma expressão, pouco lisongeira para o velho.

Eu não sei bem explicar este movimento em uma pessoa distrahida, como ella estava, movimento, que aliás não teve consequencias, pois, voltando á posição anterior, passou a ler o folhetim.

Esta parte ouvia-a Manoel Quentino dormitando. Não lhe levem isto a mal os folhetinistas. José Fortunato, pelo contrario, ouvia-a com ardor; a maneira de ler de Cecilia inoculára-lhe o gosto dos romances. Tomava agora pelas peripecias um calor exagerado. Para elle era ponto de fé que tudo aquillo acontecera, e que tinham vivido, ou viviam ainda, os personagens, entre quem se travava a acção. Censurava por isso com a mesma violencia, e louvava com a mesma satisfação esses heroes phantasiados, como se fossem membros reaes da sociedade.

Lido o folhetim, Cecilia passava o jornal ao snr. Fortunato, e ia tratar do chá. Fortunato lia para si os annuncios.

Manoel Quentino passava então pelo somno.

Depois travava-se entre os dois um dialogo, todo cortado de bocejos contagiosos;--os assumptos eram para estes effeitos. Eis o programma d'esta noite:

Primeira parte:--Fortunato principia por dizer--«Pois é verdade.»--Replica-lhe Manoel Quentino--que a vida estava para elle.--«Queixe-se, que tem de quê»--diz o outro--«E não tenho pouco»--responde Manoel Quentino. Dois bocejos de ambos os lados, e pausa.

Segunda parte:--Manoel Quentino queixa-se de umas dores de cabeça.--Fortunato attribue-as ao tempo e esfrega os olhos. Manoel Quentino inclina-se a que seja antes do estomago. O outro aconselha-lhe que não use de café ao almoço. Bocejos reciprocos.

Terceira parte:--O snr. Fortunato, olhando para o tecto, nota que a sala tem diminuto pé direito. Manoel Quentino responde que, para a largura, é o bastante. O outro diz algumas palavras sobre as vantagens dos estuques. Manoel Quentino concorda e procura uma transição para fallar contra os senhorios; Fortunato responde-lhe com uma diatribe contra os caseiros. Reproduz-se um bocejo em Manoel Quentino, que se transmitte ao outro.

Quarta parte:--Fortunato diz que está a expirar o carnaval. Manoel Quentino replica que lhe não deixa saudades. Fortunato faz igual declaração. Manoel Quentino vê com maus olhos a chegada da quaresma, por causa das confissões. Discute-se quaes os confessores mais passa-culpas. Manoel Quentino lembra-se de perguntar quem inventaria isto de confissões. Fortunato fal-as remontar ao tempo dos romanos, supremo grau de vetustez, e d'elle conhecido.

D'esta vez os bocejos ficaram em meio, graças á entrada de Cecilia e de Antonia com o taboleiro do chá.

Era notavel a transformação, operada em Fortunato. Alegrava-o o aspecto das tostas e do leite. Então que querem? Não era que o homem precisasse d'aquillo; mas emfim todo aquelle apparato bulia-lhe com a sensibilidade gustativa e, por os mysteriosos laços do physico e do moral, lá se lhe ia entender com a alma por fim.

Esta satisfação interior desentranhava-se em amabilidades para com a Hebe domestica d'aquella ambrozia--a snr.ª Antonia.

--Ai, snr.ª Antonia--dizia elle--assim é que é; cada vez mais nova.

--Não me diga isso, snr. Fortunato; logo eu, que estou acabada.

--Acabada! Ainda mal principiou...

Eu não sei se era intenção do snr. Fortunato terminar aqui a oração, cujo sentido fica um tanto obscuro. E não o sei, porque n'este ponto Cecilia interrompeu-o, dizendo-lhe:

--Faz favor de ver se está bom do assucar, snr. Fortunato.

--Excellente, menina; mas faz-me favor de mais uma colherinha. Assim, muito bem; mais uma agora e mais nada... assim... agora mais não. Está muito bem.

Depois de cada um tomar a sua posição respectiva, o snr. Fortunato principiou a fallar, misturando na bôca as palavras com chá, com leite, e com tostas e bolos.

--Pois, menina, eu estou morto agora por ver se o tal meliante escapa da prisão.

--Pois quem foi preso?--perguntou Manoel Quentino, que, tendo estado a dormir, não sabia que o seu amigo se referia ao romance, que vinha na folha.

--Então não ouviu?--disse o snr. Fortunato, engulindo um bolo--Ella foi bem pilhada, isso lá foi. Porque o homem, pelos modos, não sabia que o desconhecido era o pae da rapariga, e tanto que elle ficou espantado quando o outro lhe appareceu, vestido de preto, e lhe disse...--Aqui o snr. Fortunato engrossou a voz.--«Eu sou a ultima das tuas victimas!»--E o filho então é que veio a saber d'isto: sim, porque até alli não sabia nada. Veio então a saber que a irmã do amigo do commendador é que tinha dado o dinheiro, que elles entregaram á tal viuva do cunhado do escrivão.

Manoel Quentino mexia machinalmente o chá, olhando boquiaberto para o amigo, sem que percebesse uma só palavra, apesar do snr. Fortunato gesticular, voltado para elle.

--Que diacho de embrulhada é essa? Eu se o entendo!

--Então não leu?--teimava o outro--Elles tinham combinado que, logo que partisse o navio, o rapaz fosse accusado do roubo feito ao commendador; e para isso mandaram dizer aos tios do defunto que as joias foram encontradas na caixa do escudeiro do desconhecido, mas...

--Mas quem demonio é essa gente toda? Que mexerofada de cousas!--exclamou Manoel Quentino, devéras impaciente.

--Então não ouviu?--insistiu o snr. Fortunato, cuja natural difficuldade de expressão se exacerbava ao expôr as enredadas aventuras de um romance francez.

Cecilia, que ao principio não attentára no dialogo comico, que se estava trocando entre os velhos, não pôde deixar de rir com vontade, ao dar por elle.

--Mas onde aconteceu isso tudo, homem?--perguntava Manoel Quentino.

--Em Paris. Pois não...

--O pae não vê que o snr. Fortunato está a fallar do romance?

--Ah! isso sim.

--Pois que cuidava?

--Eu sei lá o que cuidava. Eu cá de romances não entendo. E agora por isso lembra-me que aquelle endiabrado rapaz, o Carlitos, teimava que me havia de emprestar lá uns romances... Eh! eh! Tem diabo o rapaz.

--Tambem está um estroina!--disse o snr. Fortunato, que era dos que tinham Carlos na conta de homem perigoso.

--Mas deixe lá, que é uma boa alma!--respondeu Manoel Quentino--Ninguem lhe póde querer mal. É capaz de tirar a camisa do corpo para soccorrer um pobre. Ahi está que uma vez viram-o, era ainda dia claro, entrar na cidade, trazendo o cavallo á arreata e na sella vinha uma pobre velha, que elle encontrou na estrada com um pé desmanchado; outro que fosse... Ó Cecilia, então? onde tens tu o sentido, que nem reparas que alli o snr. Fortunato tem ha tanto tempo a chicara vazia?

--Ai, perdão--disse Cecilia, córando pela distracção em que caíra.

Não sei bem por que isto a fez córar assim; mas o facto deu-se.

O snr. Fortunato, que havia muito tossia e suspirava com o fim de chamar para si, e para a chicara, as attenções, disse por delicadeza:

--Não tinha pressa.

Manoel Quentino continuou tecendo louvores a Carlos.

--Mas emquanto á tal historia da mulher--dizia Fortunato, recebendo de Cecilia a outra chavena--isso tambem foi parlapatice no rapaz, pois...

--Então; faz favor de ver se quer mais assucar--disse Cecilia, com um certo modo desabrido, que eu tambem não sei explicar, e que contrastava com a doçura que lhe era habitual.

O snr. Fortunato notou-o.

--Está muito bem, menina--disse elle.--Faz-me o favor de mais uma colherinha. Está muito bem.

--Menos isso, snr. Fortunato--continuou Manoel Quentino.--Bem se vê que não conhece o Carlitos. De imposturas é que elle nunca foi. Já em creança...

--Meu pae, sirva-se antes d'estes bolos--disse Cecilia de modo tão affectuoso, que alvoroçou a sensibilidade do velho.

--Deixa estar, filha, que eu cá me vou servindo.

--Pois sim--insistia o snr. Fortunato--mas que elle não é lá de muitos bons costumes, isso é que é verdade.

--Antonia, sirva aqui o snr. Fortunato--disse Cecilia sêccamente, ordem que, por excepcional, surprendeu a todos.

Tambem não sei bem explicar a razão d'esta ordem.

--Tudo isso não passa de rapaziada--proseguiu Manoel Quentino.--Mas o que se chama fundo, boa alma, isso tem.

--Olhe, snr. Manoel Quentino, homem que não toma rumo de vida...

--Tambem ha muitas más almas á testa de grandes estabelecimentos, snr. Fortunato. Se um modo de vida fosse garantia e probidade!--disse Cecilia com ironia.

--Pois bem sei que não, menina, mas...

--Mas, mas, meu caro--disse Manoel Quentino--o que ninguem póde negar é que está alli um homem de bem... é verdade isso... Muitos fazem peior com menos a desculpal-os.

O dialogo proseguiu, discutindo-se muito Carlos. Cecilia porém absteve-se de tomar parte n'elle.

Terminou o chá. O ardor da conversa baixou. Manoel Quentino presentia o somno. José Fortunato sentia-se a digerir. Cecilia trabalhava e ás vezes ficava parada com os olhos fitos na luz, como se ella lhe offerecesse qualidades novas a examinar. Davam emfim nove horas.

--Ora vamos até casa--disse José Fortunato erguendo-se.

--Olhe se se agasalha--recommendou-lhe Manoel Quentino.

--Antonia, venha alumiar--disse Cecilia.

E o snr. Fortunato, feitos os seus cumprimentos, descia as escadas, conversando com Antonia até á porta da rua a respeito de frieiras, e mettia-se em casa, onde a imaginação teimava em recordar-lhe a doce figura de Cecilia, e tudo quanto lhe dissera.

--Estranhei hoje os modos da rapariga--dizia elle ao deitar-se.

Uma perfida paixão começára, havia muito, a minar o coração do pobre homem.

Manoel Quentino, como tinha de se levantar cedo, ia-se deitar pouco tempo depois de Fortunato sair.

O dialogo entre o pae e a filha d'esta vez consistiu n'isto:

--Este snr. Fortunato ás vezes!...

--É caturra, é...

--E tem umas ideias! Boa noite, meu pae.

--Muito boa noite, minha filha. Deus te abençoe.

Cecilia retirou-se.

Apesar de na vespera se ter deitado tarde, como o leitor sabe, Cecilia não sentia somno. Parecia-lhe estar ainda experimentando o atordoamento do baile. Lembrava-lhe tudo quanto Carlos lhe dissera, e o mais que de Jenny tinha sabido, e affligia-se então. Depois vinham as reflexões de Fortunato, depois as palavras do pae e os episodios que de Carlos Whitestone referira. A final cedeu ao somno. Pouco lucrou na transição. Ha certo dormir que fatiga mais que a vigilia. Trava-se uma lucta de sonhos, que nos deixa extenuados.

Cecilia imaginou que ia n'um barco, levado pela corrente impetuosa do rio, em direcção da barra. O perigo era certo, e comtudo o barco ia cheio de mascaras que dançavam. Cecilia gritava, mas ella propria não escutava a sua voz. O barqueiro era o snr. Fortunato, e, cousa singular, ao mesmo tempo que remava, ia tomando chá. Depois vinha Carlos, com um cavallo pela rédea; mas o que mais a surprendia era que vinha pelo mar. Carlos queria salval-a, tirando-a do barco, mas as outras mascaras e o snr. Fortunato não deixavam. Porém o snr. Fortunato já não era o snr. Fortunato, mas sim um dos personagens do romance, que tanto o impressionára; e o mar tambem já não era bem mar, porque tinha camarotes em volta. E comtudo o perigo persistia, sem saber bem como ou em quê, e agora era ella a que fugia de Carlos.

Finalmente, o sonho era de um enredo complicado, tendo por elementos os diversos acontecimentos e assumptos, que mais tinham preoccupado Cecilia n'aquelle dia, mas tudo em desordem completa.

Em consequencia d'este sonho, acordou de manhã, pallida e abatida--o que não pouco inquietou Manoel Quentino.

XIV

IMMINENCIAS DE CRISE

Emquanto Cecilia passava assim pacificamente o serão d'aquella noite, andava Carlos procurando com anciedade, por todos os salões de mascaras, a sua desconhecida da vespera.

Jenny notára a impaciencia, com que o irmão tinha aguardado a noite e, ao vel-o sair, disse-lhe com modo particular:

--Adeus, Charles; quer-me parecer que te não recolherás d'esta vez pelas quatro horas da manhã.

--Quem sabe, Jenny?

--Adivinho-o.

Effectivamente não eram ainda duas horas, quando Carlos Whitestone, cansado de procurar em vão, em cada dóminó e sob cada mascara de seda, a incognita do ultimo baile, voltou a casa em pouco agradavel disposição do espirito.

Jenny, que o sentiu chegar, sorriu de novo e disse comsigo mesma:

--Inda bem, que terminou o carnaval. Charles, dentro em dois dias, já pensará em outra cousa.

Acabára de facto o carnaval. Expirára essa época votada á folia e á loucura sem rebuços e abria-se agora a da penitencia e dos sermões.

Em qual das duas ha mais verdades, mascaradas sob falsas apparencias, deixo aos moralistas decidir. Ia principiar o reinado dos véos, durante o qual a piedade e a moda levam ás sextas-feiras a multidão para a igreja de S. João Novo, e ao domingo despejam meia cidade nos arrabaldes proximos, para assistir á procissão dos Passos e ao respectivo sermão do encontro.

Quasi toda a manhã de quarta-feira de Cinza passou-a Carlos em casa.

Contra o que era de esperar do caracter d'elle, dominava-o ainda a lembrança da mysteriosa mascara; o despeito de a ter deixado escapar, sem que lhe ficassem vestigios, pelos quaes podesse um dia vir a saber quem ella fosse, concorria para o não deixar tranquillo agora. Estava dando tratos á imaginação, para se lembrar de qualquer meio conducente á solução d'aquelle problema de carnaval. Mas nenhum alvitre lhe offerecia a imaginação atormentada.

Saíu emfim, sem saber para quê, nem para onde; em vez de procurar os centros de reunião mais concorridos, e onde, de ordinario, se fazia ver e ouvir, mudou de rumo, deixou-se ir ao acaso e, passado tempo, caminhava por entre os pinhaes, que orlam a parte ainda não edificada da rua da Boa Vista.

Nos seus habitos de vida, essencialmente urbana, eram tão raras as occasiões de se ver assim entre arvores e fóra do povoado, principalmente áquellas horas do dia, que o facto estava-lhe causando uma impressão singular.

Parecia-lhe um mundo novo; e alli, a dois passos de casa!

Internou-se por pinhaes e campos, até perder de vista a estrada. Parou emfim. N'um estado moral, como o de Carlos n'aquella manhã, não são necessarios os grandes espectaculos da natureza para incitarem o pensamento a uma d'essas divagações, a que anda tão sujeito o dos poetas.

A vastidão do mar, o horizonte amplissimo, que se descobre do alto das montanhas, o fragor da cataracta, que se despenha no valle, subjugam e obrigam a meditar até os menos propensos a contemplações abstractas.

Haja porém um fermento de poesia no espirito de qualquer homem, ou tenha-se apoderado d'elle a melancolia, que é uma poesia tambem, e menores causas bastarão para se produzirem effeitos ainda maiores.

O caminhar do insecto ou o rastejar do verme por entre as folhas sêccas do chão, a lande, desprendida do ramo e arrebatada na corrente, o raio do sol, que vae colorir a maravilhosa teia que a aranha teceu nas tojeiras, nas praias o movimento de expansão das actinias, ou rosas do mar, esses verdadeiros forcados das fragas, e outros iguaes phenomenos, sem importancia para quem os vê com animo distrahido, são já alimento bastante para phantasias mais apuradas.

Carlos tinha a imaginação predisposta para estas impressões subtis, e, como raras vezes se sujeitava a ellas, recebia-as agora com duplicada intensidade.

Era pelas tres horas da tarde de um dos mais formosos dias, que nos póde conceder fevereiro. Havia no campo aquella frescura, aquelle renascer de vida que, após longos dias de chuva, traz um dia de sol claro. O céo não tinha uma nuvem, nem lhe empanava o azul o véo transparente de nebrinas. Os pinhaes estavam silenciosos, como se, julgando-se já na primavera, se tivessem calado para escutar as aves; o vento, de debil que era, mal podia agitar as folhas movediças das arvores que o inverno respeita. Era tal a serenidade da tarde, que o fumo das casas rusticas subia ao ar lentamente, em columnas direitas, sem que uma viração as quebrasse, e só muito alto se dissipava na atmosphera.

Do logar onde parára, Carlos ouvia distinctamente a voz das raparigas do campo, chamando o gado, rindo ou cantando.

Era de longe que partiam aquellas vozes, mas a amenidade da hora e o silencio deixavam-as chegar até alli sonoras e perceptiveis.

Carlos sentiu-se enlevado por tudo aquillo.

--É uma singular loucura--pensou elle--julgar que se aproveitam os dias da juventude da maneira por que eu vou passando os meus. Do homem, que teve a minha vida, emquanto novo, costuma dizer-se que soube gosar d'ella em tempo. E como é que eu d'ella gosei? Na atmosphera asphyxiante de um café; na plateia de um theatro, onde se falla e pensa em tudo menos na belleza da arte; nas assembleias semsabores; nas esquinas das praças, ou em lojas á moda. Na verdade, que delicioso viver! E o espirito, que parece sentir-se palpitar, agitar-se em nós, quando assoma a mocidade, acaba por embotar-se, por adormecer; torna-se incapaz de nos proporcionar certa ordem de gosos, para os quaes temos faculdades creadas. E diz-se então que soube gosar da vida o que voluntariamente se privou das mais gratas impressões, que podem sentir-se n'ella!

Isto dizia, ou antes, pensava Carlos, ao entranhar-se cada vez mais no pinheiral, e respirando a pleno peito a atmosphera balsamica do logar.

--Nem eu sei--proseguia elle--como ainda experimento prazer, ao achar-me aqui só. Nos habitos de vida, que fiz meus, perde-se até a faculdade de saber sentir assim, a sós; quando é talvez d'esta maneira que a imaginação mais subtil se mostra...

Vejam os leitores até onde iam já arrastando Carlos os attractivos d'aquella solidão suburbana!

Operou-se porém uma transformação nas suas ideias, que parecia vogarem, e á vela cheia, seduzidas pelas doçuras da vida de anachoreta. Um pensamento, menos misanthropo, mais social, fel-as mudar de rumo.

--Mas não--reconsiderou elle--não basta sentir; é necessario transmittir as expressões dos nossos sentimentos, e os troncos das arvores, a final de contas, não são os confidentes mais proprios. Tudo precisa de reflectir-se, para não perder na immensidade; a luz, n'um espaço vasto, dissipa-se; o som esmorece; o sentimento parece tambem enfraquecer, se outra oração, reflectindo-o, o não reforça. É porisso que a presença de um amigo... Mas que amigos tenho eu?

Tremo devéras pelos chamados amigos de Carlos, ao vel-o disposto a responder a esta pergunta, que fez a si proprio.

--F...,--continuou elle--cuja amizade não resistirá á primeira falta de senso que lhe notar n'um folhetim; C..., que romperá commigo, se eu tiver a franqueza de lhe apontar o menor defeito de equitação; L..., que abandonaria o amigo, logo que o visse seguir um terreno, onde elle corresse o perigo de enlamear as botas de polimento..., e todos os mais da mesma força. Vão lá escolher um d'esses homens para companheiro n'estas _viagens sentimentaes_.

Aqui interrompeu-se para observar um pequeno e agil lacerto, que fugiu espavorido ao sentil-o aproximar, e do buraco, onde se occultára, continuava espiando-lhe os movimentos com os olhos vivos e como scintillantes. Carlos achava curiosissimo este espectaculo vulgar. Depois seguiu caminho, distrahido ainda, e pensava:

--Ahi está; se eu dissesse a qualquer que me entreteve esse pequeno reptil, correndo por entre os fetos e por sobre as pedras musgosas d'aquelle muro, zombaria da minha candura; chamar-lhe-hia pieguice... Ha certas vibrações de sensibilidade, que não se póde communicar... a não ser... a não ser a um coração de mulher... Ellas sim, teem certas puerilidades sublimes, que... Ora adeus! Temos outra como a dos amigos. Se me recordar de algumas mulheres que tenho amado, que vejo eu? A S..., mulher nervosa, que teria um deliquio só ao ver aquella sardonisca--sensibilidade de toucador; a C..., essa então, mulher forte, que só um terremoto como o de Lisboa seria capaz de commover; a E..., belleza de salão, que se levanta ao meio dia, admira a natureza... nos jardins, e lamenta que a solidão não tenha gente que veja como ella a sabe apreciar...; e as outras regulam por isto. Verdade é que eu tambem com isto me satisfazia; quem sabe se procurando de outra maneira...

N'este ponto tomaram as suas meditações outro caracter. Alguns passos mais adiante, já elle meditava:

--Á força de me rir, em sociedade do amor sincero, desinteressado, dos casamentos de paixão, da vida de familia, quasi me deixei persuadir de que me ria convencido. E comtudo, se me sondar devéras... se aproveitar estes momentos raros, em que sou franco e expansivo commigo mesmo...

