Um novo mundo

Chapter 2

Chapter 23,713 wordsPublic domain

Os selvagens da Oceania, por occasião do descobrimento das diversas ilhas, na falta de utensilios de toda a qualidade, abriam covas no chão, enchiam-as de pedras levadas a alta temperatura, e deitavam sobre ellas as suas iguarias que cobriam com folhagem e terra: era d'este modo que cozinhavam.

Com esta alimentação simples, sentia-me agil e sem a enervação que produzem as carnes e outras substancias que o homem, á proporção que se hia civilizando, ou, para melhor dizer, asselvajando nas suas luctas com as féras, adquirindo com o cheiro do sangue, o instincto do bruto; ou, apertado pela fome, o habito de se alimentar das suas victimas, do mesmo modo que ellas, quando vencedoras, se refocilavam nas carnes do homem.

As enfermidades a que está sujeita a humanidade eram desconhecidas a esta raça primitiva; assim colligi da sua ignorancia da mais leve indisposição. A que attribuir esta admiravel conservação da especie humana, condemnada a viver nas entranhas da terra, em quanto que a humanidade, exposta a intemperies desconhecidas n'este meio; entregue a todos os prazeres e excessos que o progresso lhe proporciona, é victima de mil soffrimentos?

Á sobriedade unicamente? ou contribuiria tambem a invariavel egualdade de temperatura?

Quanto tempo levamos entregues ao mais acrisolado amor, sem nenhuma das perturbações que ordinariamente succedem, por uma falsa idea da vida e das pessoas, não sei!

Deveriam ter passado muitos mezes, pelas alternativas que constituiam as unicas divisões do tempo; mas séculos que fossem, nunca uma saudade do grande mundo me viria lançar uma sombra na vida.

Couza alguma tinha quebrado este encanto! Era a felicidade completa!

Uma vez, remechendo a areia da praia, notei a presença de ouro em pó.

O meu reparo levou-a a significar-me que havia em grande distancia muito d'aquelle metal, e dando-lhe a entender que o desejava ver, fez-me saber que depois do descanço me conduziria a essa região aurifera.

Effectivamente, quando acordei, encontrei-a amontoando uma quantidade de fructas em uma grande concha de tartaruga que o nosso batel deveria levar a reboque, preza por uma especie de cipó.

Comprehendi logo que era para uma longa viagem por mar.

Pozemo-nos a caminho por esse extenso e tranquillo lago, descançando de quando em quando para admirar aquelles soberbos cimbres até que se apresentou um arco abatido e, curvando-nos, penetramos por um estreito e extenso canal que conduzia a outra gruta de dimensões infinitamente menores, mas de deslumbrante effeito. Estavamos debaixo de uma montanha de ouro que, por occasião de estar toda aquella massa em fusão, ahi se formára como acontece, em ponto, relativamente, pequenissimo, nas nossas fundições, deixando aquellas paredes lisas e como burnidas.--O nosso batel aportou então a uma praia de ouro em pó. Extendi-me sobre aquelle areal: as proprias aguas, pelo reflexo, pareciam de ouro liquido: mergulhei n'ellas; quiz banhar-me na'quelle mar de ouro.

Peguei em punhados de area, e fiz-lhe comprehender que, se carregassemos o nosso batel d'aquelle pó e podessemos ganhar a superficie da terra, teriamos uma riqueza e couzas muito bonitas.

--Como isto? perguntou ella, tirando-me do cinto o cinzelado punhal com cabo de marfim que ella admirava frequentes vezes?

Muito mais! lhe fiz entender; e, com a extremidade ponteaguda do ferro, comecei a burilar um palacio, carruagens tiradas a quatro magnificos cavallos, homens, senhoras elegantemente vestidas, cavalleiros e cavalleiras, navios á vella e a vapor etc.

Ella, depois de examinar com muda, mas visivel surpreza, aquellas producções do genio do homem, cahiu em profunda melancolia.

Olhava para mim, e eu lia no seu meigo e limpido olhar tudo quanto se passava no fundo da sua alma. Ella comparava, evidentemente, o meu viver d'outrora com o presente, a nossa quasi nudez com aquellas esplendidas toilettes, a vida e movimento do grande mundo com a solidão que nos cercava, e dizia no seu intimo; porque sequestrei eu este moço, privando-o de todas essas grandezas que acaba de me mostrar?

Porque o não reconduzi á superficie do oceano quando elle desfaleceu, em logar de o trazer para o interior da terra, para este ermo, para esta sepultura da vida?

Era o remorso que germinava já, desconhecido até então no seu espirito!

Enlacei-a nos braços; cobri-a de beijos; e convenci-a que tudo quanto deixára traçado n'aquellas paredes aurifulgentes nada era comparado com o seu amor; que sem ella, eu não voltaria, mas queria que ella me reconduzisse ao Oceano e que fosse commigo gozar a vida no meio que o Creador tinha destinado á humanidade.

Então ella, apontando para uma mulher elegante que eu desenhára, conheci que despertava n'ella o sentimento do ciume.

Em vão quiz banir essa idea, e então fez-me comprehender a impossibilidade de satisfazer o meu desejo; que nas profundidades do mar estava o tempo que precizava estar, mas que, em chegando aonde havia um grande clarão, suffocava, e não podia avançar mais.

Caso extraordinario! Creada n'aquelle meio, carecia da pressão como os viventes das grandes profundidades.

Quando me salvou, chegava, provavelmente, até onde a sua organisação lhe permittia, e então occorreu-me que, sentindo já os effeitos da asphyxia, como era que não me afogára conservando-me, certamente mais tempo n'aquelle elemento, do que gastaria se tivesse podido remontar á superficie?

Teria eu, afundando mais, e entrando n'essa zona aonde a pressão das aguas é já sensivel, adquirido aquella propriedade singular de que ella era dotada?

Só assim explicava a minha extranha salvação.

Tinhamos regressado e repousado das fadigas d'aquella viagem.

Descrevia já, sem sombra de uma alma attribulada por sentimentos dolorosos, o que eu na gruta aurifera lhe mostrei.

Então, voltei novamente á minha insistencia para trocarmos aquelle meio por outro melhor; que a camada d'aguas que ella supponha de impossivel percurso, transpunha-se em tão pouco tempo que os seus effeitos asphyxiantes não eram para temer.

Uma sombra espalhou-se-lhe pelo rosto: apontou para o seu rebanho de cabras, unicas companhias de tantos annos, e duas perolas que eu recebi nos labios trahiram a sensibilidade d'aquelle coração: ella presentia, quem sabe, que em outro qualquer meio que não fosse aquelle, a felicidade não podia ser completa.

Um dia, o profundo silencio que nos cercava foi subitamente interrompido por um ruido longinquo, semelhante ao do trovão e, augmentando de intensidade, pareceu a detonação de mil canhões disparados a um tempo, e senti, não os effeitos d'um tremor de terra, mas uma trepidação propria do meio em que me achava, mas que, na superficie do globo, deveria ser um violento abalo, partindo do centro para as extremidades.

Venha d'ahi me acenou ella, como adivinhando o interesse que me deveria proporcionar o phenomeno maior do globo, e colhendo algumas folhas da viscosa Wygandia Macrophilia, salpicou-as de um pó vitrio que conheci ser producto vulcanico e que facilmente adheria á viscosidade da folha até formar uma camada uniforme.

Era, evidentemente, um isolador.

Assim armada, quebrou um ramo da arvore electrica que segurou na mão direita, e com a esquerda conduziu-me a passo apressado.

Em pouco estavamos á entrada de uma especie de corredor estreito e escuro, cujas paredes eram de lava preta, lisa como vidro.

O ramo que ella colhera, illuminava perfeitamente o caminho que terminou em uma vasta galeria tenebrosa que a claridade electrica illuminava mal.

Esta galeria estava innundada de vapores quentes.

Então ella collocou-me junto a uma abertura practicada na parede, d'onde eu deveria observar o que se passava do outro lado.

Um enorme lago de uma materia betuminosa em ebullição extendia-se diante de mim.

Era lava em fusão.

Derepente, da abobeda amollecida pela evaporação aquosa do lago, desprende-se uma verdadeira montanha para dentro da massa fervente.

O que que então succedeu foi espantoso. Senti estremecer o chão debaixo dos pés.

Espadanaram jactos enormes de lava que foram lamber a crusta superior com resaltos prodigiosos, ao tempo que uma onda colossal, partindo do centro para os lados, e refluindo de tres quartos de circulo, foi despenhar-se, com horrivel fracasso, pelos rebordos d'essa parte accessivel á formidavel maré, n'um abysmo d'aguas inferior áquella bocca.

Volumes de vapor desenvolveram-se então com incrível velocidade, irrompendo por uma garganta medonha e, chegando a certa altura, pareciam recalcados com violencia. Impellidos novamente debaixo com força irresistivel, attacavam a crusta do globo com prodigiosos esforços, acompanhados de estampidos e vibrações do sólo muito sensiveis, até que, os gazes, assim reprimidos, fizeram explosão na face da terra o que evidenciou a livre corrente ascencional.

Ella, então, encaminhou-me para outro ponto mais elevado da galeria e, por uma fenda da espessa parede que me separava da chaminé, vi passar na sua ascensão por essa garganta, rios de lava incandescente, e, redobrando d'intensidade, quando chegou ao rubro, converter-se em areas e escorias, ao principio abrazadas e declinando, gradualmente, da cor avermelhada, para o preto.

Houve então uma intermittencia, quando comecei a ouvir um borbulhar de materias crassas e subir, lentamente, pezadamente, um lodo espêsso que expellia de si um cheiro nauseabundo.

Finalmente, cessou de todo o movimento volcanico, e as fontes d'agua que, durante a erupção, tinham seccado, começaram novamente a correr.

Eu tinha sido mudo expectador das evoluções de um volcão em actividade, desde as repetidas cargas de vapores accumulados e o rompimento da crusta, até á ascensão das ondas lodosas vomitadas dos ultimos recessos do abysmo, derradeiro acto d'aquelle espantoso drama passado nas entranhas da terra.

Em quanto durou esta scena, terrifica de ver e ouvir, o calor tornára-se intenso e asphyxiante: sentia-me verdadeiramente torrado, porém a anciedade que experimentava d'observar este extraordinario phenomeno era superior a todos os soffrimentos physicos.

Quando abandonei o meu posto d'observação, a minha companheira tinha desapparecido.

Pode-se imaginar o horror da minha situação, vendo-me só n'aquellas trevas, sem poder attinar com o caminho que me reconduziria áquelle Eden aonde passára os melhores tempos da minha existencia.

Quiz chamal-a; mas como? se ella não tinha nome!

Dei um grito, e pareceu-me que mil gritos respondiam de todas as direcções.

Era simplesmente o écho da minha voz resoando nas abobedas d'aquelle vasto e deserto labyrintho.

O effeito foi tão assustador que me não atrevi a repetil-o. Julguei-me perdido, sepultado em vida, e perdida para mim, essa creatura por quem daria a felicidade eterna.

Estendi as mãos para apalpar um objecto que me podesse servir de apoio.

Encontrei o vacuo!

Receoso de dar um passo em falso, não me buli.

Então, é que comprehendi todo o horror da minha situação.

Nem ao menos, podia caminhar ás apalpadellas.

Derepente, pareceu-me distinguir um ponto luminoso semelhante á claridade electrica da gruta cristallina.

Seria alguma fenda que communicasse com ella?

Deliberei-me arrostar todos os perigos. Tudo era preferivel a morrer, lentamente, em meio de trevas eternas, e morrer, a peior das mortes; pela fome.

Sondando o terreno, passo a passo, e servindo-me das mãos como d'escudo, fui caminhando na direcção d'aquella diminuta estrella em ceu tétrico, unica esperança que me restava.

O ponto luminoso hia augmentando, e na mesma proporção, diminuia a minha agonia.

Reconheci que procedia do ramo que nos havia servido de guia em meio da tenebrosa escuridão da caliginosa noite do centro do globo.

Avancei reanimado: iria ter luz ao menos, mas se ella me tivesse desamparado, de que me serviria, se o contacto d'esse facho sem o isolador, era fatal!

Desamparado! repetia eu, de mim para mim!

Não! não é possivel! mil vezes não! Ella era o meu anjo da guarda!

Teria ella fugido espavorida d'aquelle espectaculo medonho e aterrador, e, esquecendo-se do perigo, tocado, com a mão desarmada, no fatal ramo?

Iria eu encontral-a morta?

Esta idea tornou-me louco!

Ja não tacteava o caminho; avancei, sem precaução para a luz n'um dilirio atroz. Tropecei e cahi: faltaram-me as forças para me erguer:--arrastei-me como um reptil.

Na minha anciedade de chegar, pareceu-me que a luz se afastava!

Gritei doudamente, e as cavernas da terra repercutiam o grito que me chegava sinistramente aos ouvidos.

Sentia que se me esgotavam as forças, e confesso-te que me senti repassado d'horror.

Mas a luz ainda lá estava: logo, o seu afastamento era uma illusão das minhas faculdades.

Ergui-me, caminhava já mais desembaraçado; uma quasi imperceptivel claridade permittia-me ver que não tinha obstaculo na minha frente, e ao passo que avançava o caminho via-se distinctamente.

Guiado pela luz electrica, entrei alvoraçado n'uma gruta e cahi de joelhos ante o corpo inanimado d'aquelle ente adorado.

Morta! meu Deus! exclamei, respondendo ás minhas apprehenções.

E os echos de novo repetiram: Morta!

Abracei aquelle corpo, uni o meu rosto ao seu, e soluçando, gritei--Perdida!... Perdida para sempre!

E os mesmos malditos échos repetiram,--Perdida!... Perdida para sempre!

Horrorisado, tomei-a nos braços para fugir d'alli.

Unindo-a então a mim, senti-lhe bater o coração.

Pousei-a novamente no chão:--um regato d'agua gelada, corria ao pé, enchi as mãos do precioso liquido e banhei-lhe o rosto.

Reabriu os olhos, sorriu-se, e lançou-me os braços ao pescoço.

Deixei passar alguns momentos, e empregando os unicos meios communicativos, comprehendi que, não podendo mais supportar o calor do volcão, se afastára, procurando o refugio da gruta, unico logar supportavel, e que ahi perdera os sentidos, quasi asphyxiada pelas emanações mephyticas dos ultimos paroxismos do vulcão.

Não sabia já exprimir a minha alegria.

Nunca sentira uma commoção tão forte: era a reacção do martyrio porque acabava de passar.

Cahi de joelhos, ergui as mãos ao ceu, e agradeci a Deus!

Qual não foi a minha surpreza, quando a vi junta a mim, na mesma postura!

Eu tinha-lhe feito comprehender a existencia de um Ente superior que creára as maravilhas que nos cercavam, a quem deviamos tambem, a existencia; e aquella creatura, mesmo dos profundos abysmos do globo, o estava adorando!

Admiravel inspiração que acompanha a humanidade desde a infancia do mundo, sem excepção de raças, embora com difinições diversas!

Depois, ergueu-se, lançou-me um olhar radiante de fé, armou-se do isolador e, empunhando o facho electrico, precipitou-se fóra da gruta levando-me pela mão.

Adivinhára que eu devia estar morto de fome, e effectivamente cahia de fraqueza: havia muitas horas que tinhamos estado privados de todo o alimento.

Quando entramos na esplendorosa habitação da fada destas regiões subterraneas, parecia-me ter voltado novamente á superfície do globo, tal o contraste entre aquelle paraiso e as galerias caliginosas do interior.

Proseguindo nas minhas investigações, observei uns pontos, superiores em brilho ao cristal.

Examinando-os bem, conheci serem gemmas de grande valor encrustadas na rocha.

Ella, vendo o meu empenho em arrancar uma pedra d'estas, gesticulou-me para desistir d'uma tentativa inutil.

Procurou então d'entre os seixos, um que lhe pareceu satisfazer ao seu designio, e pegando no machado de silex, partiu o seixo, apresentando-me um magnifico brilhante como nenhum soberano da Europa, ou Rajah da índia, possue.

Era um thezouro de que me não queria apartar; mas aonde guardal-o e para que, se eu me via condemnado a viver e morrer nas entranhas da terra!

Apoderou-se então de mim um pavor indiscriptivel: aquella idea esmagava-me, e cahi n'um estado de verdadeira prostracção moral.

Reparei n'ella.

Parecia estar lendo o que se passava no meu espirito, e a melancholia impressa n'aquelle rosto d'anjo dissipou instantaneamente esse doloroso sentimento para dar logar a outro mais doloroso ainda.

Teria eu coragem de me separar d'ella, mesmo quando se me offerecesse occazião?

Não! mil vezes, não!

Aquelle ente era para mim, tudo!

A par d'ella, que valor tinha o grande mundo para mim?

Nenhum! E sem ella, era a morte.

A minha mocidade, passada no isolamento, não me preparára para este mesmo meio, embora extraordinario?

La, nunca conhecêra a felicidade que agora gozava.

Para que imaginar o mal, aonde não havia senão o bem?

Um raio de verdadeira alegria fulgurou certamente no meu olhar, porque o seu illuminou-se tambem.

A tempestade tinha passado.

Ella tinha evidentemente, e nem podia deixar de o ter, o sentimento do bello, comparando o seu brilhante Eden com os antros medonhos que tinhamos percorrido por occasião da erupção volcanica.

Cingindo-me com um braço, levou-me para a enseada aonde se achava o nosso barco, e, convidando-me a entrar, tomou tambem assento, e começamos a padejar, costeando, d'essa vez, a margem do lago.

D'ahi, cêrca de uma hora, entramos n'uma bahia, e pouco depois, deparo com um espectaculo magestoso.

Um portico enorme abria-se na nossa frente.

Columnas colossaes de systematica egualdade e do mais formoso pórphyro encorporadas umas nas outras, formavam, como nas celebres grutas de Fingal, a entrada d'aquelle vasto recinto em que entramos.

O mais formoso templo do mundo não tinha tão rica collecçâo de marmores, polidos pela acção da agua que as banhava, cahindo-lhes pela face como um véo diaphano.

Era uma maravilha! e para que fosse completa, os reflexos d'aquella variedade de cores sobre as limpidas aguas do interior, davam-lhes a apparencia d'um pavimento de mosaico altamente polido.

Preocupava-me a mysteriosa faculdade que ella possuia de poder dispensar a renovação do ar nas grandes profundidades.

Era evidente que eu tinha attravessado essa zona e que, á propria pressão das aguas, devêra a existencia.

Lembrava-me bem, sentir-me desfallecer, e que, necessariamente, teria succumbido se não é entrar n'um outro meio, que só podia ser; ou ganhar a superficie, o que era já impossivel por ter perdido completamente as forças; ou então, submetter os pulmões a uma influencia que inutilizava as faculdades para que foram destinados.

Ficavam, por outra, dotados de faculdades duplas, á semelhança da tartaruga, da phoca, da rã e d'outros amphybios.

Discorrendo por esta forma, achei muito natural que ao homem não fosse negado o que o Creador concedêra a animaes tão inferiores como eram aquelles.

Queria conhecer essa nova vida que me permittia observar, á vontade, e sem a imperiosa necessidade de voltar amiudadamente á superfície do mar, differentes peixes desconhecidos e plantas marinhas, sobretudo os coraes magnificos cujas dimensões, eu já tinha podido notar, augmentavam na razão da profundidade.

Ainda mais; se essa faculdade era douradoura, como parecia ser, podia até descer ao fundo do Oceano e admirar a vida dos mares na sua maxima profundidade, vida que as recentes investigações declaravam riquissima, e dever ser de surprehendente effeito.

Communiquei-lhe os meus desejos.

A fixidez do seu olhar parecia penetrar no mais intimo do meu pensamento.

Temeria ella abrir a porta da gaiola ao passarinho?

Munindo-se, porém, do seu isolador, e partindo uma vara da arvore electrica, pozemo-nos a caminho, internando-nos por uma passagem subterranea e escura, guiados unicamente pela luz do nosso facho.

Chegados a certo ponto, resvalei: ella, que me segurava pela mão, com este movimento, cambaleou, e deixou escapar o ramo que cahiu junto a mim, mas felizmente sem me tocar. Senti porém um entorpecimento em todo o corpo, o cérebro enervado, a vista perturbada e sem poder distinguir os objectos.

Apenas percebi que estava sendo conduzido por ella, e só recuperei o pleno uzo da razão no seio das aguas.

Este incidente não permittiu orientar-me sobre a mysteriosa sahida para o mar.

Olhei para todos os lados; o facho só illuminava n'um certo raio; a terra tinha desapparecido.

Estavamos n'uma zona de mar quasi deserta de vida: raros peixes appareciam, e esses, pela sua marcha rapida e em linha recta, procuravam outras regiões, preferindo aquelle caminho menos frequentado, como querendo evitar seus adversarios.

Desciamos lentamente quando principiei a distinguir, abaixo de mim, uma claridade comparavel á aurora.

Á proporção que afundavamos, augmentava, até que a prespectiva assemelhava-se á que deve disfructar o areonauta, passando em balão e d'alto sobre uma vasta cidade illuminada, com a differença que, em vez da sua luz brilhante, e do movimento de uma população, via uma phosphorecencia n'uma extenção enorme e um formigueiro indescriptivel; um cruzar e recrusar de seres de todas as dimensões, feitios e côres, que naturalista algum seria capaz de classificar.

Era precisamente esse movimento continuo o motor d'aquella claridade que permittia ver-se perfeitamente o leito do Oceano, com os seus bosques e os seus prados, e, por entre esta agglomeração de objectos diversos, a vida animada d'esse campo, ora accidentado, ora extendendo-se em planicie.

Quando eu contemplava o extranho e maravilhoso quadro que me ficava inferior, um monstro de proporções enormes, semelhante a um crocodilo, os olhos em braza e de fauces abertas, avançava rapidamente para nós.

Istinctivamente, levei a mão ao punhal, como se uma arma tão fragil podesse penetrar as placas rijas d'aquelle encouraçado, cuja bocca era um abysmo prestes a engulir-nos ambos d'um só trago;--um sorvedouro!

Horrorisei-me!

Ella, pelo contrario, conservou-se tranquilla, e, no momento em que eu lhe via as fauces escancaradas, a meio metro de distancia, estendeu o braço e tocou-lhe com a sua vara.

Não foi precizo mais: as fauces fecharam-se, cerraram-se-lhe os olhos e, fulminado pela electricidade, desappareceu nas profundidades.

Ficava explicado o movimento brusco e expressão de horror que empregou para me afastar da arvore de apparencia metallica no primeiro dia.

Aquella arma era terrivel, rapida nos seus effeitos e unica a empregar em semelhante conjunctura, em que o perigo não era inferior ao dos campos da India. Os mares tambem tinham os seus tigres, as suas panthéras e os seus leões.

Assim nos conservamos muito tempo admirando aquella vida animada, aquellas florestas illuminadas e aquelles prados constellados de luz.

Á proporção que desciamos, hia este quadro tomando novo aspecto.

A floresta de coraes, sobre a qual pairavamos, parecia um vasto viveiro d'aves, umas abrindo passagem por entre a ramada, outras, e estas eram os peixes voadores, saltando de ramo em ramo.

Aproximando-nos mais, pareceu-me ver ninhos nos ramos e avesinhas abrindo de vez em quando, as azas e o bico como fazem os implumes ao approximar-se a mãe trasendo-lhes de comer.

Não queria acreditar os olhos: apalpei-as: eram effectivamente aves do mar, uns bivalvos que se abriam e fechavam á maneira da borboleta: esta pequena concha, encrustada na ramagem e terminando n'uma das extremidades em bico, illudia perfeitamente.[2]

Embrenhamo-nos então na floresta illuminada por uma multidão assombrosa de especies e de côres em constante movimento.

Os coraes eram uma maravilha.

O coral preto, sobre tudo, cujo tronco dois homens não abrangiriam, com a sua folhagem fina e arrendada á imitação de filigrana, era de surprehendente belleza. A seus troncos, altamente polidos, nenhum mollusco podia adherir, o que o tornava distincto de todos os mais.

O coral vermelho de troncos nús e nodosos, e o branco em gigantesco leque com as suas multiplas ramificações alvas de neve, formavam um conjuncto que ultrapassava a explendida vegetação das mattas virgens da America.

Estas duas ultimas qualidades offereciam um aspecto singular, com as suas encrustações de parasitas animaes e vegetaes de variadissimas especies: conchas diversas, esponjas, serpulas, vermes e insectos microscopicos que ahi tinham adherido, construindo suas instancias, consoante a sua natureza.