Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte

Chapter 9

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Ruy Mendes da Mesquita, filho do precedente, que acompanhou o infante D. Luiz, filho d'El-Rei D. Manoel, á tomada de Tunes, passando depois tambem á India, onde, por seus valorosos feitos, honrou as cinzas de seu pae, honrando a patria.

Fernão da Mesquita e Lima, o Novo, filho do precedente, que, aos 18 annos de idade, ganhou na guerra de Tangere, uma commenda da ordem de Christo, e, dous annos depois, foi capitão mór da Costa.

Diogo Lopes da Mesquita, irmão do precedente, que foi intrepido capitão da fortaleza de Maluco, na India.

Miguel Lopes da Mesquita, filho do precedente, e digno imitador do valor e virtudes da familia dos Mesquitas de Guimarães, que teve a honra de hospedar, na sua casa da rua da Infesta, o infante D. Luiz, filho de El-Rei D. Manoel, em agosto de 1548.

Diogo da Mesquita, outro filho de Fernão da Mesquita, o velho, _que, melhor que todos, realçou e eternisou_ seu nome. Foi mandado pelo viso-rei da India, Nuno da Cunha, por embaixador a um rei mouro; e, sendo captivo do rei de Cambaya, por não querer renegar a sua fé, e a sua patria, _foi posto na bocca d'uma peça de artilheria_, sem que um tal apparato o amedrontasse; e, porque só o quizessem intimidar, e não matar, o pozeram a resgate, e resgatado foi, _por subido preço_. Vingou suas affrontas, matando, em combate, o rei de Cambaya, _que era senhor de tres reinos_; e por este feito se accrescentaram ás suas armas _tres corôas e um alfange_, como diz Diogo do Couto, na decada 4.^a, livro 4.º, capitulo 9.º

Manoel da Mesquita, filho do precedente, que foi capitão da fortaleza de Chacel, na India.

Fernão da Mesquita, irmão do precedente, que serviu nas Armadas, no tempo d'El-Rei D. Sebastião.

Antonio Pereira da Silva, fidalgo da casa d'El-Rei, _morgado rico, e possuidor de casas nobres na rua de Santa Maria_, que acompanhou El-Rei D. Sebastião á batalha de Alcacer Quibir, onde foi captivo. Resgatado, embarcou para a India, e serviu como bom cavalleiro, na guerra contra os turcos.

Salvador Pereira da Silva, filho natural do precedente, que foi mestre de campo em Ceilão, sendo general D. Jeronymo d'Azevedo; e depois foi capitão mór da Armada, que foi ao cerco de Malaga.

Antonio Peixoto de Carvalho, moço fidalgo da casa d'El-Rei, morgado da Pousada, _com suas casas_ _na rua do Val de Donas_, que serviu na guerra da India, _contra os infiéis_, onde acabou a vida.

João Vasques Peixoto, irmão do precedente, ao qual fez doação do morgado, que tomou o habito de S. João de Rodes, e mostrou seu valor nas guerras de Malta, sendo feito commendador da sua ordem.

João de Sousa Alcoforado, moço fidalgo da casa d'El-Rei, _que deixou mulher, e filhos, e o morgado e casa de Villa Pouca_, para servir a patria, nas guerras da India, levando em sua companhia dous de seus filhos, Manoel de Sousa da Silva, e Francisco de Sousa Alcoforado.

Simão Rebello de Valadares, que embarcou para a India sem licença de seu pae, João Valadares, residente na rua de Santa Maria, e foi um dos mais valentes soldados do seu tempo. Morreu juncto da muralha de Ceilão, ficando-lhe, na escalada, os braços dentro da muralha.

João Martins, Annadel mór dos espingardeiros de Guimarães, senhor do morgado do Pinheiro, que deixou mulher e filhos, fretou uma náu á sua custa, e mettendo-se n'ella, _com gente e armas tambem suas_, acompanhado de seu irmão Fernão Martins, se offereceu a El-Rei D. Affonso V, para o seguir na viagem que fazia a Azamôr. Por seus valerosos serviços, mereceram estes dois irmãos, _grandes mercês e honras_.

Pedro Coelho, da rua de Santa Maria, que acompanhou El-rei D. Sebastião á Africa. Ficou captivo, e foi escravo _de dous senhores_. Resgatado, _com muito trabalho e dispendio de sua fazenda_, foi cavalleiro professo do habito de Christo.

Salvador da Costa e Almada, morador na _rua Nova do Muro_, embarcou para a India, onde foi _cabo de_ _tres fustas_, que o governador, Mathias de Albuquerque, mandou á costa de Ceilão.

Gregorio da Costa do Valle, tambem da rua Nova do Muro, thio do precedente, que foi capitão da Costa, por El-Rei D. Manoel, e morreu na India, pelejando com grande valor contra os turcos.

Gaspar Leite Pereira, da rua do _Cano das Gasas_, que embarcou para a India no anno de 1559, e, por seu valor, foi provido no cargo _de Tanaydar e Manorá, nas terras de Baçaim_. Foi depois mandado, por El-Rei D. Sebastião, á costa de Guiné, por capitão do navio--S. Nicolau--.

Antonio Leite d'Azevedo, sobrinho do precedente, que tambem, na India, mostrou o seu valor, como diz _A vida do irmão Pedro de Basto_, liv. 2.º cap. 13.º

Gonçalo Paes de Meira, da rua de Santa Barbara, que acompanhou Martim Ferreira na façanha da _Veiga das favas_, onde foi desbaratado o exercito de D. Henrique 2.º, de Castella, que tentava pôr cêrco a Guimarães; causando, por outra vez, em 1371, ao mesmo rei, graves desgostos, porque elle, e seus dois filhos, Estevão Gonçalves de Meira, e Fernão Gonçalves de Meira, acompanhados de quarenta cavalleiros, obrigaram o rei de Castella a levantar o cêrco.

Affonso Lourenço de Carvalho, que, estando de posse de Guimarães o rei de Castella D. João 1.º, serviu, _por sua traça_, de poderoso instrumento á conquista que d'ella fez El-Rei D. João I de Portugal. Foi o caso, que estando El-Rei de Portugal, com o seu exercito, _na ponte do Sueiro, juncto á ponte de Servas_, Affonso Lourenço de Carvalho lhe deu parte, que conseguira do porteiro e guarda da _porta do postigo_, que esta lhe abrisse, para elle metter em sua casa uma cuba em um carro; e, aproveitando El-Rei o aviso, entrou por alli, _com trezentos de cavallo_, ficando senhor de Guimarães, depois de combate.

Manoel de Valadares Vieira, que foi dos primeiros soldados filhos de Guimarães, que, na provincia de entre Douro e Minho, assentou praça, deixando o interesse de seu morgado, de que era unico herdeiro, para servir na feliz acclamação de D. João 4.º. Foi capitão e sargento mór de infanteria, e governador da praça de Monte Alegre.

André Pinto Barboza, que militou n'este reino e no Brazil, chegando a mestre de campo e governador da praça de Miranda, e provedor mór de Pernambuco.

Francisco de Meira Peixoto, que serviu em duas armadas, occupando tambem o posto de capitão de infanteria.

João Leite de Oliveira, que deixou a agricultura, que exercitava na sua quinta _de Pombeiro_, para se alistar _na milicia de Flandes_, onde, por seu valor, mereceu o posto de capitão, morrendo, no de general de artilheria, com grande nome e fama.

Sebastião Salgado de Faria, que, _na guerra de Flandes_ foi _um dos capitães de cavallo de couraças_ com melhor nome no exercito.

Jeronymo de Figueiredo, que, nas guerras com os castelhanos, chegou ao posto de _tenente de mestre de campo general_.

Dionisio da Cunha, que foi valente capitão de infanteria.

Pedro Coelho de Miranda, que foi capitão dos _privilegiados de Nossa Senhora da Oliveira_.

João Botelho Leite, que foi capitão de infanteria, e um dos que promoveram a feliz acclamação de D. João IV.

João Rebello Leite, filho do precedente, que, no _primeiro rebate que em seguida á feliz acclamação, os gallegos deram_ na fronteira do Minho, foi prisioneiro e levado, _com oito feridas_, ao castello de Compostella, d'onde, após dezoito mezes de prisão, fez _uma fugida valorosa_, chegando depois a mestre de campo, e, _com lastimosa desgraça, morreu de veneno_.

João Machado de Miranda, que, deixando em serviço da patria os bens em que succedia, militou com grande valor, chegando ao posto de mestre de campo de infanteria, _e de cavallos_; e, indo a Santarem _reformar o seu terço, foi captivo da morte por um reparado manjar, que lhe serviu a sua mulata_.

Fernão Ferreira da Maia; José Peixoto de Sousa; Francisco de Macedo; João Barroso de Azevedo; Jacintho Leite Pereira; André de Sousa Homem; José Machado Pinto, e Manoel Velho do Couto, que todos occuparam postos de _capitães volantes_, no exercito da provincia do Minho.

Diogo de Freitas, que foi capitão de infanteria.

Antonio Paes do Amaral, cavalleiro do habito de Christo, e _ajudante de cavallaria_.

Antonio de Andrade e Valle, que foi _ajudante de Infanteria_.

João de Sousa e Lima, que foi _alferes do mestre_ de campo de infanteria.

Paschoal da Costa, que foi capitão de infanteria.

Francisco Machado de Miranda, que foi capitão de infanteria; e Antonio de Barros, que foi _capitão de volantes_.

Esta lista seria infinda, se continuassemos a esgravatar nas gloriosissimas antiguidades d'este nosso Portugal, e aproveitassemos tudo, que respeita a Guimarães.

E não é só ao sexo forte, que o berço da monarchia deve o seu nome famoso: foi distinctissima vimaranense, entre outras de menor fama, Joanna Michaella, filha de Pedro Machado e Dionizia de Macedo, e esposa do tenente coronel de cavallaria Antonio Mendes de Brito. Era perfeita no conhecimento e uso da lingua materna, e sabia latim, italiano, grego e chinez: estudou philosophia, theologia, mathematica, astrologia, e musica; chegando a ser classificada como uma das senhoras portuguezas mais eruditas do seu seculo.

Foram, pois, justificadamente merecidas as immensas honras, privilegios e isempções, que os senhores reis d'este reino concederam aos moradores de Guimarães, como não tiveram por certo, nenhuns outros do paiz; e da mesma fórma, de toda a razão é o nobre orgulho, que ainda hoje sustenta a briosa raça de tão heroico povo.

E não resistimos ao estimulo de notar aqui meia duzia de nomes, que, na actualidade, provam não ter degenerado aquelle sangue portuguez, tão admiravelmente fertil.

Contamos com a benevolencia dos cavalheiros, por nós apontados, para que nos relevem o não lhes respeitarmos a modestia em preito á verdade; como esperamos desculpa das capacidades, que, involuntariamente, esqueçamos de nomear.

É natural de Guimarães, o snr. José Arnaldo Nogueira Molarinho, residente hoje na cidade do Porto, notavel curioso de obras de prata e de marfim, e celebre artista gravador de medalhas, algumas das quaes teem sido admiradas dentro e fóra do paiz.[10]

Nasceu tambem aqui o apreciavel rabequista, e maestro, Francisco de Sá Noronha, que, nas suas viagens, se tem feito admirar em quasi toda a Europa, recebendo honras, e condecorações de alguns monarchas.[11]

É distincto, em equitação, e talvez se possa chamar o primeiro cavalleiro peninsular, o snr. José Martins Minotes.

São profundos jurisconsultos, e como taes conhecidos em todo o reino, os senhores doutores Bento Antonio d'Oliveira Cardoso, e Antonio Leite de Castro.

É mimoso poeta e dramaturgo, o senhor doutor Antonio d'Oliveira Cardoso.

Tem logar conhecido entre os amadores das boas Lettras, o snr. doutor Francisco de Moraes Sarmento, apreciado já, nas suas obras, pelo nosso bom e fecundo romancista, o snr. Camillo Castello Branco.

Os que hoje representam os antigos fidalgos do «Berço da Monarchia», são todos pessoas estimaveis, caritativas, e uteis. Não existe aqui, onde a nobreza é verdadeira, esses enfatuamentos condemnaveis, que só prejudicam seus donos. Na casa do mais distincto cidadão vimaranense, tem facil entrada, e bom acolhimento, toda a pessoa que lhe bate á porta por mais humilde que seja. É tambem por isto, que a nobreza vimaranense, hoje como sempre, é por todos respeitada.

Peza a louza do sepulchro sobre as cinzas de tres condes, que, por sua popularidade, e importantes cargos que exerceram, deixaram no seu paiz honrosa memoria.

Tudo que dizemos, e muito mais que, em verdade, poderiamos dizer de Guimarães, tem desafiado a critica mordaz _dos fortes espiritos_ do seculo, que a chamam _terra retrógrada_.

É certo, que o progresso material não tem entrado aqui, com a velocidade que fôra para desejar; mas nem por isso deixam de ser plenamente satisfeitas todas as necessidades da vida. E a cada passo vemos, para comprovar a bondade da terra, adoptarem Guimarães, por sua patria, muitos estrangeiros, que n'ella encontram estimação.

Conservam-se, é tambem certo, alguns costumes de velhas datas; mas n'estes uzos, que os modernistas condemnam, sem bem os avaliarem, ha um certo sabôr de patriotismo, que satisfaz, e deleita, aos que não trocam o que foi bom, no passado, pelo que é, muitas vezes, futil, e mau no presente.

O auctor d'estas Linhas, para que o não acoimem de suspeito, declara que nasceu na cidade do Porto.

Fugimos um pouco do principal fim do nosso «conto», chamando os leitores para o local da acção, em que elle vae continuar, nos seguintes capitulos; mas d'este desvio se podem esquivar os mais exigentes, passando em claro as noticias vimaranenses, que damos por concluidas.

[8] Portugal deu á cadeira de S. Pedro dois naturaes seus: S. Damaso, de Guimarães, e Pedro Hispano, natural de Lisboa, freguezia de S. Julião, que por pouco tempo gosou as honras do pontificado, por morrer de um desastre no sumptuoso palacio, que mandou construir em Viterbo. S. Damaso foi o 39.º na serie dos pontifices romanos: foi-lhe disputada a eleição por Ursino, que as auctoridades civis desterraram, sendo confirmada a legitima eleição de S. Damaso; tambem o inculparam de adultero, mas foi absolvido por um concilio de 44 bispos, reunido em Roma. Entre outras obras de sua iniciativa, contam-se as basilicas de S. Lourenço, e a da Ardeativa, fóra de Roma, mandando concluir outras. Combateu valorosamente as seitas dissidentes, congregando varios concilios, e o ecumenico, em Constantinopla, no anno de 381, ao qual assistiram 150 bispos.

[9] Em um moderno artigo das «Artes e letras», que tem por epigraphe: «Gil Vicente e a custodia de Belem»--lê-se: «Contemplada a Custodia de Belem e confrontada com a Custodia de prata dourada que se guarda na collegiada da Oliveira em Guimarães, saltava ao espirito a existencia de uma mesma tradicção artistica, de uma mesma escóla. Seria Guimarães que teria influido sobre o gosto da ourivesaria em Lisboa? É certo que a tradição recolhida por Barbosa Machado, dizia que disputavam o nascimento a Gil Vicente, Lisboa e Guimarães. Este criterio nos dirigiu nas investigações, e no manuscripto de Christovão Alão de Moraes, datado de 1667, que tem o titulo de _Sedatura Lusitana_ encontramos estes factos preciosos: «_Martim Vicente, foi um homem natural de Guimarães; dizem que era ourives de prata; não podemos saber com quem casou; só se sabe de certo que teve a Gil Vicente._» Isto já bastava para acreditarmos que o auctor da Custodia de Belem era natural de Guimarães; mas o manuscripto genealogico é mais explicito, e declara-nos que esse Gil Vicente, filho do ourives de Guimarães, é o afamado poeta da côrte de D. João II, D. Manoel e D. João III «_Gil Vicente, filho unico d'este Martim Vicente, foi homem mui discreto e galante_, e por tal foi sempre muito _estimado dos Principes e senhores de seu tempo. Foi o que fez os autos, que em seu nome se imprimiram, e por sua muita graça foram sempre celebrados pelos melhores que se fizeram n'aquelle genero. Está sepultado em Evora._» O gráo de authenticidade que nos merece este manuscripto é irrefragavel; por que Christovão Alão de Moraes datou a Sedatura de 1667, e elle segue esta genealogia até 1668, em que figurava o seu trisneto Manoel Barreto de Pina, que viveu em Torres Vedras, e n'esse anno foi procurador em côrtes.»

[10] O mesmo artigo a que nos referimos em a nota que falla de Gil Vicente, diz: «... e mesmo em nossos dias o grande gravador de medalhas, José Arnaldo Nogueira Molarinho, representa para nós essa antiga seiva artistica de Guimarães.»

[11] O sr. Noronha é auctor da musica da «Beatriz de Portugal», drama lyrico em 4 actos, vertido em italiano pelo sr. Luigi Bianchi, e representado com applauso geral nos reaes theatros de S. Carlos, em Lisboa, e de S. João, no Porto. A letra do drama, é do sr. R. C. M.

V

BABEL DE SABIOS

«Alli se ajunta bando de casquilhos, A que o vulgo mordaz chama rafados; .......................................... Altercam mil questões; promptos contendem, Promptos decidem no que nada entendem.

(_Nicolao Tolentino de Almeida_)

--Antes queremos do de _Basto_, snr.^a Anastacia Mendes, do de Basto, que é macio, e tem corpo... Diga-me... todos nós somos de segredo, e bisarros mancebos, bem sabe... ha na sua afamada locanda algum _peixe_ fresco?...

--Que o houvesse, não era para os senhores, que vão comer a melhor _carninha_ do meu fumeiro... É dia de jejum, e n'esta casa, louvado Deus, ninguem _mistura_...

--Não quer dizer isso, snr.^a Mendes... O que o Andrade pergunta é se deu entrada ha pouco, no seu estabelecimento, algum animal da especie dos _infusorios_...

--Dos _rotarios_, snr.^a Anastacia, dos rotarios... Este Abreu é da mesma força do Andrade... Não sabem classificar as differentes especies de viventes, que ha no mundo...

--Pois o Ribeiro, nossa robicunda patrôa, é de egual ignorancia aos que censura... A fazenda, que procuravamos é da familia dos _zoophytos_...

--_Medusas_, snr.^a Anastacia, _são medusas_...

--Não é tal, são _radiarios_...

--São _enthelmentes_...

--São _arachnides_...

--São _crustaceos_...

--São _annelides_...

--São _molluscos_...

--São _mammaes_...

--São _amphibios_...

--Só vos esqueceram tres especies, carissimos commensaes, e eximios falladores: a dos _insectos_, a dos _peixes_, e a das _aves_...

--Para saber fallar é preciso saber ouvir... E quem és tu, ó mais _peixote_ de todos os Peixotos do mundo?!...

--Sou, com vossas licenças, talvez um cavallo, que é o unico animal que não sabe lisongear os principes do... talento... _Bias_, um dos sete sabios da Grecia, dizia que dos animaes ferozes, o mais temivel, é um tyranno; e dos domesticos, o peior, um lisongeiro...

--Que babel, senhora da Boa Hora, que babel!... Os _meninos_ são engraçadinhos, mas eu não os entendo... Escutem todos, e _caluda_... Chegou hontem _cousa_ de _arregalar_ o olho... Parece, pelo menos, _varoneza_... Isso é que ella sabe fallar!... Aquella ha-de entendel-os, de certo... E que palminho de cara!... Parece mesmo a _Madanela_ da procissão de passos..

--Bravo!...

--Bravissimo!...

--Excellente!...

--Soberbo!...

--Magnifico!...

--Surprehendente!...

--Bom achado!...

--Optima descoberta!...

--Venha essa phenis!...

--Appareça a bella!...

--Surja a estrella polar!...

--Dê entrada a feiticeira encantadora!...

--Queremos ouvir a cantadeira!...

--Venha a nós, a filha d'Eva!...

--Aqui estou, senhores, para matar-lhes a curiosidade, e matar em mim o nôjo da vida... Deixe-me com os seus _eruditos_ hospedes, snr.^a Anastacia, que eu farei por sustentar a fama dos seus elogios... Correspondo ao que de mim lhes disse a nossa _ingenua_ patrôa, senhores curiosos!...

--É arrebatadora!...

--Explendida!...

--Sublime!...

--Não busquem outros synonimos, amaveis _sabios_, que já consumiram palavras de mais em meu favor... Digam-me só, a que _especie de animaes_ fico pertencendo agora?...

--Á dos Anjos!...

--Classifica, então, os anjos de animaes, senhor... não sei como deva chamar-lhe?...

--Peixoto, o mais furioso dos seus admiradores... E como se chama... _V. Exc.^a_? Hade, ia apostar, ter algum nome de flôr, e patronimicos dos que entraram na peninsula com o exercito romano... Eu conheço a origem de todos os nobres appellidos: uns, procedem dos nomes das terras em que viveram os primeiros fidalgos, e n'ellas tiveram os seus solares; outros, de feitos assignalados na guerra; outros, finalmente, dos nomes de toda a casta de animaes, peixes, aves, e até de instrumentos... Como são os seus, minha formosa?

--Quanto ao meu nome, acertou, que é de flôr, e das mais _espinhosas_... Appellidos... Diga-me, meu caro snr. _encyclopedista_, os Bandeiras, e os Mesquitas, serão dignos da minha... _formosura_?...

--Lê-se, em Severim de Faria, Not. de Port., Disc. III, que o illustre portuguez Gonçalo Pires Bandeira, vendo, na _batalha do Touro_, que um cavalleiro castelhano levava preza a bandeira real de Portugal, investiu com elle, e lh'a tomou das mãos, e a libertou; e por este feito insigne, El-Rei D. João II, lhe deu por armas uma bandeira branca, com um leão n'ella, de prata; denotando, na bandeira, a real que libertára; e no leão, o valor e esforço que mostrára: e assim lhe deu tambem o appellido de Bandeira, com que hoje seus descendentes se nomeiam. Diz mais, o mesmo auctor, na mesma obra e disc. que quando El-Rei D. Affonso V passou á Africa, a tomar Arzilla, o acompanharam cinco irmãos da familia dos Pimenteis, naturaes de Villa Real; e como sendo entrada a cidade, os mouros se fizeram fortes na mesquita, d'onde faziam grande resistencia, sem poderem ser entrados; estes irmãos, tirando os cintos, e atados uns nos outros, os lançaram a uma ameia, e subindo por elles, levantaram uma bandeira, e por alli foi entrada a mesquita, e mortos os mouros. Por este feito tão honrado, lhes deu El-Rei D. Affonso V, por armas, em campo d'ouro, cinco cintos vermelhos, com fivelas de prata e tachões, e uma bordadura azul com sete flôres de liz; por timbre um meio mouro com uma azagaya na mão, e uma bandeira de prata; e por appellido o nome de Mesquita. São, pois, nomes bellicosos, que ficam perfeitamente bem a... uma leôa...

--Acho-os _encarnados_ de mais... A côr do _sangue_, apesar das _garras_ com que _V. Exc.^a_ me honra, affecta-me a sensibilidade nervosa... Ficarei só com o nome do baptismo... Antes da sua _historica_ dissertação, creio que estavamos na altura dos... _animaes anjos_?...

--Distingo: existem anjos _animaes racionaes_, desde que a cubiça, ou o amor, levou a nossa primeira mãe ao estado de completa nudez, pelo peccado commettido no Eden, onde vivia com o seu Adão; desde que um moço, das maiores esperanças, se precipitou no mais caudaloso rio da sua patria, levando as algibeiras carregadas de chumbo, porque a mulher a quem amava, querendo dar-lhe uma chicara de chá, teimou em laval-a primeiro, por se ter servido já d'ella para o mesmo effeito; e desde que eu, que recebi das Musas a chave de todos os seus segredos, de Minerva o cofre de todas as sciencias, e de Marte a _vazilha_ da intrepidez, me declaro em ruinas d'um pavoroso affecto pela pessoa de... _V. Exc.^a_!...

--O snr. faz-me recordar uma anecdota, que vou contar-lhe: O papa Adriano edificou um collegio em Lovaine, no qual mandou pôr a seguinte inscripção:--Utrecht me alevantou, Lovaine me deu agua, Cesar me deu esplendor;--um curioso accrescentou-lhe por baixo: Só Deus não fez aqui nada... Deixo a _moralidade_, á perspicacia do snr... Peixoto... Pareceu-me ter-lhe ouvido que assim se appellidava?

--Para em tudo lhe dar prazer, snr.^a... das anecdotas... Sem embargo do seu espirituoso apologo, minha bella, continuo a deixar sangrar a veia, dando-lhe parte, que os primeiros espelhos foram de metal; que Moysés faz d'elles menção; e que Cicero attribue o invento a Esculapio, deus da medicina. Foi no tempo de Pompeu, que se fabricaram em Roma os primeiros espelhos de prata. Plinio falla d'uma pedra brilhante, provavelmente o talco, susceptivel de dividir-se em laminas que, postas sobre um plano metallico, reflectem perfeitamente os objectos. Os primeiros espelhos de vidro appareceram na Europa no fim das cruzadas: Veneza, que primeiro soube fabrical-os, viu enriquecer os seus negociantes, e exportou estas manufacturas preciosas, para todos os estados do mundo, onde hoje tanto abundam... Só não tenho agora aqui, á mão, um d'esses primores da invenção humana!... Queria mostrar-lhe o quanto lhe fez realçar a peregrina formosura, a satyra com que tentou emmudecer-me, oh imperatriz das bellas!...

--_Copia_ admiravelmente de _memoria_, snr. Peixoto... Sinto dizer-lhe que, para _v. exc.^a_, só poderá servir de _espelho_ o lago em que _Narcizo_ se namorava da sua esbelta figura...