Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte
Chapter 8
--Se o comprehendo, senhor, devo tambem _observar-lhe_ que os _maus exemplos_ podem igualmente introduzir o mesmo _roubo_ em alheios lares... Feliz a esposa que sabe resistir a todas as tentações, embora tenha de ganhar a palma do martyrio; mas bem mais feliz aquella que encontra no marido um guia, e natural protector, em vez d'um tyranno egoista.
--Dou lhe palmas, minha _cara_ esposa! Isso é que se chama saber defender o terreno pollegada a pollegada... Proclamo-a rainha das defensoras da reciprocidade do crime de adulterio entre os conjuges...
N'esta altura do dialogo, que promettia mais serio azedume, foram interrompidos pela voz de uma criada, que annunciou a chegada, e a introducção, de Arthur Soares, na sala das visitas. A esta noticia foram differentes as sensações manifestadas pelos esposos. Leopoldo franziu a testa, e D. Anna mostrou na face o natural contentamento com que recebia a visita do seu companheiro de infancia, do seu protector e irmão adoptivo...
--O seu rôsto, minha _boa_ esposa, formosissimo, mesmo quando _v. exc.^a_ se acha em perfeita tranquilidade de espirito, está agora explendido de brilhantismo, pelo contentamento que manifesta com a noticia que nos deu a criada... Muito _feliz_ é esse snr. Arthur Soares!...
--Se a profunda estima de uma irmã, que não sabe ser ingrata, póde dar a felicidade, de certo que é feliz o meu companheiro de infancia, porque o sei presar como elle merece.
--Hei-de vêr se consigo haver d'elle, por _um sério estudo_, o segredo de tanto se fazer _apreciar_ das bellas... Vamos prestes ao seu encontro, que estou já ancioso por começar as minhas _experiencias_...
D. Anna continuava a não comprehender os remoques do marido. A boa fé, e a innocencia, são quasi sempre ingenuas.
Chegados á sala os dois esposos, foram cumprimentados por Arthur Soares, Leopoldo com polida frieza, e D. Anna com a expansão do _amor sem desejo_, que assim é definida a verdadeira amisade, ao que ella soube gentilmente corresponder, mau grado de seu marido, que principiava a manifestar, por contorsões nervosas, o inferno que lhe ralava o peito.
--Venho dar contas a v. exc.^a, e a seu illustre marido, do uso que fiz da auctorisação que me concedeu. Apenas consegui apurar trinta mil crusados, que entrego em papeis de bom credito, equivalentes a dinheiro de contado, e mais commodos no transporte. Com letigios, sempre impertinentes, incommodos e despendiosos, podia augmentar a cobrança; mas usando, e talvez que abusando um pouco, da auctorisação e da reconhecida bondade de v. exc.^a, passei quitação geral do seu dote pela quantia que recebi e apresento... Digne-se o snr. Leopoldo examinar e contar...
--Desculpe-me interrompel-o, snr. Arthur Soares. Eu não posso, nem quero, entrar no mysterio d'esse _dote_ da minha _prima_ e _cara_ esposa. Creio possuir o necessario para vivermos com algum allivio, e nunca _esperei_ receber quantia alguma de tal proveniencia... Se minha mulher _julgar digno_ o receber esse dinheiro, receba-o muito embora, que eu nunca procurarei saber qual seja a sua applicação.
--Não só a considero digna, mas até me parece obrigatoria a recepção. Diz-me o snr. Arthur Soares, que tenho um _dote_, que é meu, entrega-m'o, porque não hei-de recebel-o? Posso por ventura suspeitar que o meu companheiro de infancia, e bom irmão adoptivo, trouxesse a esta casa dinheiro meu de origem menos pura? Tambem não é de crer que haja quem se desaposse de _trinta mil crusados_, para fazer um beneficio gratuito. Além do que, se o meu esposo e senhor póde dispensar este dote; se eu mesma, por estar no gôso da munificencia de meu marido, não tenho immediata precisão d'elle, pódem de futuro existir outros interessados, os filhos, que não temos o direito de prejudicar. Acceito, e agradeço ao snr. Arthur Soares, o trabalho que teve para haver o meu dote.
--Estou mais que pago do que fiz, pela certeza de ter prestado a v. exc.^a um pequeno serviço.
--«A snr.^a D. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e Abendanho!...»
A este annuncio, que um escudeiro fez em devida fórma, ficaram como interdictos todos os actores da scena que descrevemos. São faceis de comprehender os motivos da interdicção, se o leitor tem attendido o «Conto portuguez».
Sebastião da Mesquita resolveu enviar a D. Anna o seu dote por D. Maria da Gloria, e que esta fosse acompanhada por João de Lencastre: explicada a inopinada apparição, e deixando á capacidade do leitor o avaliar como seriam recebidos os recem-vindos, continuaremos a interrompida scena, em que figuram agora mais dous actores:
--Antes de participar ao primo Leopoldo qual é a commissão de que venho encarregada por meu ex.^mo pae e senhor, peço-lhe licença para apresentar-lhe o snr. João de...
--Conheço _bastante_, minha querida prima e senhora, o seu escudeiro e fiel pagem, _que só poderia entrar n'esta casa, como entrou_, acompanhando a sua dona...
--Engana-se v. exc.^a, meu caro primo, quanto ao mister e aos direitos do meu apresentado. Este cavalheiro, que precisou de viver alguns annos sob o incognito, mais de amigo que de escudeiro da nossa casa, é bastardo da illustre progenie dos snrs. de Lencastre, reconhecido e dotado por uma sua thia avó paterna; é nosso primo e muito intimo amigo; é, finalmente, irmão de v. exc.^a...
--Não posso crêr que a minha apreciavel prima e snr.^a D. Maria da Gloria, queira honrar-me com um gracejo d'essa ordem, e...
--Quer provas? Aqui as tem... Depois de lêr ficam desterradas as suas duvidas, e atrevo-me a esperar do cavalheirismo de v. exc.^a, que dará todas as mostras de fraternal estima ao meu nobre apresentado...
--Não desejo só dever a esses pergaminhos a amizade de meu irmão... Embora por motivos justificados, commetti um acto rude, e offereço-lhe a face, para applicar n'ella a pena de Talião...
--Mais do que a essa humildade, que sei apreciar n'este momento, e tanto como aos laços de sangue que nos prendem, deve-se á vontade e nobreza de sentimentos da nossa querida prima e snr.^a D. Maria da Gloria, a espontaneidade com que o abraço, mano João!...
--Agradeço ao primo Leopoldo a delicadeza e fidalguia do seu proceder. Agora, passo a remir-me da obrigação que recebi de meu exc.^mo pae: faço-o mesmo em presença do snr. Arthur Soares, que pela muita amisade e consideração que todos lhe devemos, é estimado como pessoa de familia. O primo João, entregará ao primo Leopoldo, e á minha boa amiga e antiga discipula, um movel que contém setenta mil crusados, que tanto importa o dote d'esta excellente esposa, de que meu respeitavel pae estava de posse. Não foi entregue ha mais tempo, porque só agora se acabou de liquidar e receber...
Um raio, que n'aquella occasião tivesse cahido na sala, não deixaria ficar mais assombrados Leopoldo, Arthur e D. Anna, do que ficaram ao ouvirem aquellas palavras de D. Maria da Gloria! Póde comprehender-se, mas não é descriptivel, a scena muda que entre elles teve logar. Arthur Soares, pelo auxilio de seu natural talento, e por um d'aquelles raros expedientes, que Deus concede repentinamente ás almas que o merecem, abrangeu a difficuldade da situação, e desembaraçou-a maravilhosamente:
--É á snr.^a D. Maria da Gloria, que devo explicar o assombro em que ficaram estes felizes esposos, pela remessa que lhes faz meu illustre padrinho, e senhor Sebastião da Mesquita, logo em seguida a outra de igual genero de que eu fui portador... Tudo se aclara com a narração da verdade, ficando eu apenas com a macula de imprudente, por me precipitar na entrega... O snr. Sebastião da Mesquita, havia-me encarregado da cobrança de varios creditos e dividas, exigindo-me a maior actividade, porque pertenciam, me disse elle, ao dote da snr.^a D. Anna, que meu padrinho desejava entregar o mais breve possivel... O emprego do tempo n'essa cobrança, o desejo de prestar um serviço á minha companheira de infancia, e a necessidade de marchar immediatamente para a cidade do Porto, onde me chamam os deveres de voluntario da causa popular, tudo isto junto á irreflexão, que eu mesmo classifico de imprudencia, arrastou-me aqui, a fazer a entrega do por mim recebido, sem ter, como devia, uma prévia conferencia com o meu illustre mandatario, que, pelo que observo agora, desconfiou da minha actividade, e foi enviando o que já era em seu poder...
--Deve ter sido assim, snr. Arthur Soares. E como meu excellente pae sabe guardar bem os seus segredos, não me confiou essa missão de que o encarregára... É grande a quantia pelo snr. Arthur recebida?
--São, apenas, trinta mil cruzados.
--Então, já a minha Annitas tem um dotesinho rasoavel... cem mil cruzados... É um pequeno regato, que pouco volume augmenta ao oceano que possue o marido, bem sei; mas que já chega para alfinetes, e para ter meia duzia de dias, cada anno, hospedada a sua mestra... Consente, primo Leopoldo, que eu seja, por algum tempo, hospeda de sua esposa?
--A esse consentimento, é nossa prima D. Anna que hade responder. Da parte que eu tenho n'esta casa, dispõe V. Exc.^a como de cousa sua, que é... O que me parece descobrir na pergunta da minha querida prima D. Maria, é vontade de estar aqui só com a sua discipula; e eu sou obrigado, pelos meus deveres de militar da rainha, a senhora D. Maria II, a fazer-lhe a vontade, porque hoje mesmo devo retirar-me, para reunir-me ao exercito.
--N'esse caso, mano Leopoldo, vamos todos até Guimarães, onde fiquei de encontrar-me com o snr. Sebastião da Mesquita... Acompanha-nos, snr. Arthur Soares?
--Com todo o prazer, snr. João de Lencastre: não é grande a volta na jornada que tenho a fazer para a cidade do Porto, onde sou esperado na qualidade de soldado do governo supremo do reino...
Para melhor intelligencia da scena que se deu após as narradas, e com que vamos fechar este capitulo, é necessario descrever as posições que occupavam na sala os differentes actores.
D. Maria da Gloria e Arthur Soares, conversavam a meia voz no vão de uma das janellas de varanda, quasi no fim da sala, semi-occultos pelas cortinas, a bastante distancia das de mais pessoas. D. Anna, occupava, no meio da sala, um logar junto do precioso movel, onde movia maquinalmente alguns dos objectos que o adornavam. João Vidal, ou de Lencastre, estava sentado a um dos lados, folheando um album de pinturas; e Leopoldo, na extremidade da sala, opposta ao lado occupado por D. Maria e Arthur, conservava-se de pé, encostado ao pedestal de um magnifico relogio, com a cabeça levemente pousada sobre os dedos da mão esquerda.
D. Maria da Gloria e Arthur Soares, estavam muito interessados no seu confidencial dialogo. A joven senhora, não acreditára na explicação, dada por Arthur, ácerca dos seus trinta mil cruzados, e apertava-o com raciocinios, que deviam leval-o, inevitavelmente, á confissão da verdade.
D. Anna, reunia em sua mente as menores circumstancias de sua vida, avaliava os ultimos acontecimentos d'ella, e via, ainda que com pouca clareza, que estava sendo o alvo de generosidades extraordinarias.
Leopoldo, só era dominado pelo ciume: reconhecia, mau grado seu, as vantagens moraes do seu rival, e tremia de intima raiva.
João, o antigo escudeiro, e moderno fidalgo por bastardia, senhor de quasi todas as intrigas que agitavam os seus parentes e amigos, fingia prestar muita attenção ás paizagens que examinava, e não perdia um só dos movimentos dos que o cercavam.
D. Maria triumphara, em fim, do seu docil adversario: obrigara-o a confessar o que fizera, e a pedir-lhe segredo para o seu brioso procedimento. A gentil e fidalga donzella, vendo realisadas as suas suspeitas, e abysmada na grandeza d'alma do seu idolo, apertou-lhe as mãos meigamente, e saltaram-lhe dos olhos lagrimas alegres. D. Anna, vira aquelles movimentos, preadivinhára o que se havia passado, chegou-se a elles, e exclamou, entre lagrimas de reconhecimento: «Meus bons amigos!» deixando em seguida cahir a cabeça no seio de D. Maria da Gloria.--Era bello aquelle grupo!
Leopoldo, acompanhára aquellas expansões de gratidão com olhos ferinos. De repente, perdeu a côr, sacudiu fortemente a cabeça, e dirigia-se, com passos mal seguros, ao grupo encantador. Não podemos calcular o que teria succedido, se aquella prêsa do ciume não fosse logo interrompida nos seus passos pelo irmão que, com o album aberto, lhe disse:
--Tem bellissimas pinturas este album, mano Leopoldo... Esta, que parece ser o emblema do ciume, é realmente curiosa... Figura uma bella mulher com apparencia de inquietação, e ar de quem escuta... As suas roupas são da côr das ondas do mar: tem na mão direita um ramo de espinhos, e na esquerda um gallo... Mantém-se na attitude do desassocêgo e curiosidade, e a côr dos vestidos indica a perturbação da alma... O ramo de espinhos denota que os tormentos do ciume são acerbos e agudos, e o gallo é o symbolo da suspeita e vigilancia... É curioso, muito curioso!... O seu braço, mano Leopoldo, e vamos até á proxima saleta, onde quero fazer-lhe entrega do movel em que lhe fallou a snr.^a D. Maria da Gloria, e conversar em cousas de commum interesse...
E sem dar occasião a evasivas, foi arrastando Leopoldo, que se deixou conduzir sem resistencia, já mais ou menos conscio do ridiculo de que o irmão o salvava.
IV
O BERÇO DA MONARCHIA
«Querem alguns que seja esta villa o assento da cidade de Araduca, de que Ptolomeu faz menção; é porem incerta a conjectura, sendo certissima a sua veneranda antiguidade.»
(O PANORAMA DE 1867.)
«A antiga Guimarães foi fundada pelos gallo-celtas, quinhentos annos antes da éra christã.»
(PADRE CARVALHO)
«As fabricas de cortumes produzem annualmente um valor superior a cento e cincoenta contos de reis. O commercio das linhas pannos de linho e ferragens, é importante, apesar de ter decahido depois do tratado de 1810 e da independencia do Brazil: todavia ninguem ainda hoje negará o incontestavel merecimento dos tecidos de linho adamascados, fabricados em Guimarães, que em duração e primor d'obra por certo que não tem rival. Calcula-se que os tres ultimos productos industriaes que apontamos, não rendem menos de oitenta contos de reis por anno. Os doces de fructas confeitados n'esta villa, renderam, no anno de 1835, seis contos de reis.»
(GEOGRAPHIA DE URCULLU.)
Parece fóra de duvida, que esta bella povoação do Minho, elevada modernamente á cathegoria de cidade, teve, no seu começo, duas existencias distinctas, e muito separadas na ordem do tempo, ambas com o nome de--Guimarães--; se é que não serviu tambem de local á antiquissima cidade de Araduca, como querem muitos e mui abalisados auctores.
É Guimarães uma das terras heroicas de Portugal, por titulos honrosissimos. Mais do que ao facto de ter sido o berço do primeiro rei portuguez, o snr. D. Affonso Henriques, que após a gloria de ter fundado e consolidado o reino e a monarchia portugueza, morreu em geral opinião de santo, como é affirmado na chronica dos conegos regrantes de Santo Agostinho, e na terceira parte da Monarchia Lusitana; mais do que á contestada, ainda que muito auctorisada, versão de ter sido a patria do famoso Papa S. Damaso,[8] que mereceu, ao sexto concilio de Constantinopla, o dar-lhe os nomes de--Diamante da Fé--; mais do que á justa fama de ser um povo notavelmente commercial e industrial; mais finalmente, do que á sua immensa riqueza,--deve Guimarães, o seu bom nome, aos feitos emprehendedores e gloriosos de um grande numero de seus filhos, na guerra, nas artes, nas sciencias, em todos os ramos dos conhecimentos humanos, e á magnifica e incomparavel indole de todos elles, que sempre souberam reunir á bravura do leão a mansidão do cordeiro, á intrepidez a resignação, e ao uso da caridade a facilidade no perdão das injurias.
Nomearemos alguns dos mais antigos e gloriosos nomes dos heroicos filhos de Guimarães:
Gil Vicente, filho de Martim Vicente, o fundador do theatro portuguez, e distincto artista, que fez a Custodia de Belem.[9]
Pedro Alves, artista de notavel merecimento, que, com mais outros contemporaneos seus, tornou florescente a ourivesaria de Guimarães, pelos annos de mil quatro centos e cincoenta a mil quatro centos e oitenta.
João Gonçalves, mais conhecido pelo nome de _Engenhoso_, o introductor do serrilhado na moeda.
Payo Galvão, filho unico de Pedro Galvão e de sua mulher D. Maria Paes; entrou em tenra idade no convento de Santa Marinha da Costa, no anno de 1178; enviado á Universidade de Paris, recebeu lá o grao de mestre de theologia. Regressando ao seu convento e mosteiro da Costa, foi elevado á dignidade de mestre-escóla da real collegiada. El Rei D. Sancho I, o nomeou, em 1198, seu embaixador em Roma, onde foi muito estimado pelo Papa Innocencio III, que o fez seu vice-cancellario, poucos mezes depois da sua chegada: cardeal diacono, no anno de 1206; presbytero cardeal de Santa Cecilia, no anno de 1211; e bispo Albanense, no anno de 1215. Completou, este douto varão vimaranense, a sua gloriosa carreira, acompanhando, na qualidade de seu--legado apostolico--, o general João Breno, á conquista de Jerusalem, enviado pelo Pontifice Honorio III.
O doutor Gaspar de Carvalho, que foi chanceller mór do reino, do conselho de El-Rei D. João III, e tambem seu embaixador e testamenteiro.
O doutor Balthasar de Azevedo, que foi desembargador da supplicação.
O padre fr. Paulo do Valle, da ordem de S. Bento, que foi mestre de theologia na Universidade de Coimbra.
O doutor Diogo Lopes de Carvalho, senhor dos coutos de Abadim e Negrellos, que foi môço fidalgo da casa de El-Rei, e seu desembargador do Paço.
O doutor Gonçalo Dias de Carvalho, o primeiro legista portuguez, que começou a estudar em Guimarães, no Mosteiro de Santa Marinha da Costa, de frades Jeronymos. Foi o primeiro doutor que na Universidade de Coimbra tomou capêllo, e foi desembargador dos aggravos, e deputado da meza da consciencia.
O doutor Balthasar Vieira, môço fidalgo da casa d'El-Rei, que foi corregedor da côrte.
O licenciado Manoel Barbosa, que escreveu com muito conhecimento sobre a ordenação, que foi distincto antiquario e genealogista dos de mais credito.
O insigne doutor Agostinho Barbosa, filho do precedente, que foi bispo de Cisgento, e publicou obras utilissimas, apreciadas dentro e fóra do paiz.
O doutor Simão Vaz Barbosa, filho tambem do jurisconsulto Manoel Barbosa, que foi mestre em artes, e escreveu o seu livro do _Axioma_.
O doutor Antonio Pereira Cardote, que teve a gloria de vêr adoptada, pela Universidade de Salamanca, a doutrina que ensinou na Universidade de Coimbra. Dizem os mais auctorisados, quanto imparciaes, chronistas, _que se a villa de Guimarães não tivera dado de si outro parto, bastava este sujeito para o seu maior credito_.
O padre fr. Antonio da Luz, religioso de S. Bento, insigne theologo, e lente na Universidade de Coimbra.
O padre mestre, fr. José de Oliveira, religioso dos eremitas de Santo Agostinho, lente de theologia em Coimbra, e feito bispo de Angola, por El-Rei D. Pedro II.
O doutor Gaspar de Abreu de Freitas, commendador da Ordem de Christo, desembargador e conselheiro da fazenda, môço fidalgo da casa de El-Rei, e seu enviado a Hollanda, Inglaterra, e Roma.
O desembargador João de Guimarães, embaixador duas vezes á Suecia, Inglaterra, e Hollanda, moço fidalgo, commendador de capa-rosa, na ordem de Christo, e deputado da Mesa da consciencia.
O doutor João de Gouvêa da Rocha, desembargador na relação do Porto, na dos aggravos, em Lisboa, e no Paço, moço fidalgo, e cavalleiro professo de habito de Christo.
O doutor Pedro da Rocha de Gouvêa, irmão do precedente, desembargador do Brazil, e depois da supplicação, e cavalleiro da ordem de Christo.
O doutor José Peixoto de Azevedo, desembargador dos aggravos, em Lisboa.
O doutor Jeronymo Vaz Vieira, juiz das ordens militares, deputado da mesa da consciencia, desembargador dos aggravos, juiz da corôa, e desembargador do Paço.
D. Gabriel da Annunciação, conego de S. João Evangelista, que foi bispo de Annel, do arcebispado de Evora.
D. Manoel Affonso da Guerra, que foi bispo de Cabo-Verde.
O doutor Pedro de Sousa, que foi lente de Vespora.
O doutor Christovão de Azevedo, fisico-mór do reino.
O doutor Francisco Cibrão, medico notavel, e muito conhecido e apreciado em Lisboa.
Manoel Gonçalves, o trovador, morador no _burgo_ da rua de Couros, que foi o primeiro homem que n'este reino fez trovas.
Manoel Thomaz, que compoz a noticia das guerras d'entre Douro e Minho, em _oitava rima_.
Manoel de Faria e Sousa, homem que se fez conhecido e admirado, dentro e fóra do paiz, pelo acerto, erudição e credito de suas obras, em que se mostrou profundo conhecedor, não só das antiguidades de Portugal, como tambem da Africa, Asia, e America. Foi sepultado no Mosteiro de Pombeiro, ao pé do magestoso tumulo de D. João de Mello e Sampaio, antigo commendatario d'aquelle Mosteiro.
Martim Ferreira, que salvou Guimarães do sitio que tentava pôr-lhe o exercito castelhano, alojado na _veiga das favas_; e que, por uma cutilada que então recebeu no rôsto, ficou appellidado--o Martim Narizes.
Manoel Machado de Miranda, senhor do _casal dos Cavalleiros_, e residente no seu _palacio do arco_, na rua de Santa Maria, poderoso fidalgo, que prestou assignalados serviços ao rei e ao reino, obrigando seus filhos a continual-os.
Manoel Machado, filho do precedente, que morreu em uma batalha naval pelejada com os turcos.
Francisco Machado, irmão d'aquelle, que morreu na India, no posto de capitão de infanteria, batalhando pela patria.
Fr. Gualter Machado, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na religião de João de Rodes, que perdeu a vida em um assalto contra os turcos.
Fr. Martim Pereira d'Eça, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na religião de João de Rodes, que, depois de ter batalhado com notavel valentia ao lado de seus irmãos, regressou ao reino, que encontrou em guerras contra Castella, e logo tomou as armas em defeza da patria, sendo mestre de campo de um _terço de volantes_, e capitão duma _companhia de cavallos com o titulo de couraças_. Celebradas as pazes entre os dous reinos, entrou o guerreiro em mais brandas, fadigas: foi occupado em visitador das commendas da sua religião, d'onde passou a recebedor d'ellas; e, estando n'esta occupação, foi, por algum tempo, governador do priorado do Crato. Foi tambem commendador de Torres Vedras, e de S. João da Carvoeira.
João Machado d'Eça, irmão dos precedentes, que serviu importantes cargos no Alemtejo.
Gregorio Ferreira d'Eça, irmão dos precedentes, que foi capitão-mór de Guimarães, e governador de sua comarca, militar valente, fidalgo da casa d'El-Rei, e cavalleiro professo do habito de Christo.
Pedro Alvares de Almada, cavalleiro valeroso, possuidor do morgado e cazas do _Rocio da Tulha_, que, depois de ter batalhado n'este reino e no de Hespanha, passou a servir El-Rei Henrique de Inglaterra nas guerras contra os mouros; e taes valentias praticou, que mereceu a este rei um alvará, (datado de 2 de março de 1501) «_em que lhe entregou, e livremente doou, parte determinada de suas armas reaes, a saber: ametade de uma flôr de Lyrio de ouro, e ametade de uma rosa vermelha, em campo dividido em duas partes, e em duas côres, como é, de uma parte de verde, e da outra de prata; para que elle, e todos os seus descendentes, e parentes, assim conjunctos por sangue, ou affeniedade, possam usar das mesmas armas segura e livremente, aonde cada um quizer, assim como se forem suas proprias armas._»
Fernão da Mesquita, chamado--o velho--, possuidor da _casa da rua da Infesta, com sua capella de Nossa Senhora da Graça_, que acompanhou, com grande dispendio de sua fazenda, ao duque de Bragança, D. Jaymes, na tomada de Azamôr, no anno de 1513, partindo depois para a India, onde fez as suas proezas, que se lêem na Chronica d'El-Rei D. Manoel, cap. 46.