Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte
Chapter 7
Por milagre de esforço, de perseverança, de audacia mesmo, se deve aos nobres de Portugal, o termos algum dia sido o povo mais forte e mais respeitado da Europa. Um Affonso de Albuquerque, o fundador do imperio portuguez no Oriente, aquelle que os adversarios chamaram _leão dos mares_, fôra bastante, por seus heroismos, a justificar entre nós o justissimo orgulho da nobreza de sangue; que, ainda assim, tem mais remotas e egualmente verdadeiras glorias a que soccorrer-se.
Do natural desvanecimento dos que se gloriam de seus nobres antepassados, só a mesquinha inveja póde desdenhar. E muitos, e tantos, e de tamanho valor foram os nobres portuguezes, que não cabe n'este logar enumeral-os. E nem por isso elles ficam ignorados, que, a par dos heroes da espada, viveram os nobres d'outros feitos, os Camões, os Barros, os Coutos, os gigantes eternisadores das memoraveis façanhas de seus coevos, meritorios como elles, e como elles dedicados á grandeza da patria.
Sabemos que á civilisação repugna a _conquista_, embora tenha de conformar-se com os _factos consummados_; mas quem ha que duvide da boa fé com que pelejaram os nossos velhos portuguezes? Religião e patria, eram os seus estimulos; e á prodigiosa força de tão poderosas ideias, se devem attribuir as suas heroicidades.
Mas ser _nobre_, nem sempre quer dizer ser _fidalgo illustre_. A nobreza póde ser herdada, e a fidalguia, as acções briosas, não. Para ser nobre bastam os pergaminhos; para ser fidalgo illustre, não se dispensam as virtudes proprias, os actos insignes, os meritos individuaes, e até, e quasi sempre, os auxilios da caprichosa natureza.
Ha mais nobres do que fidalgos illustres, e ha illustres fidalgos, que não são nobres. É bom ser nobre; melhor é ser illustre fidalgo; e optimo, por sem duvida, é ser illustre e nobre fidalgo.
Arthur Soares, era illustre. Gentil de corpo e sem mácula na alma, reunia em si todas as qualidades physicas e moraes, que fazem o homem distincto. O encargo de vigiar pela vida intima da que lhe fôra companheira na infancia, tomára-o elle de boa vontade, porque entendeu que o fim de Sebastião da Mesquita era proteger a mulher que julgára infelicitar com o forçado casamento. Tardára-lhe porém, a protecção, e levado pelos seus brios a tomar iniciativa propria, teve de inventar para Anna um nascimento e um dote.
Ha mentiras salvadoras, que elevam tanto os que as sabem dizer, como os inventos tórpes malsinam os caracteres dos velhacos, que os engendram. Encobrir verdades que pódem fazer victimas, dar um sabor mysterioso a qualquer facto, determinar mesmo quaesquer circumstancias em sentido diverso do occorrido, para valer a infelizes sem prejuizo de terceiros,--são culpas venturosas de que só podem accusar-se as almas boas, e os espiritos elevados.
Uma vez entrado no caminho de protector, resolveu Arthur Soares sahir d'elle pelo da dignidade, que não conhece obstaculos, porque os sacrificios alargam-lhe todas as verêdas. Estava obrigado voluntariamente, e só pela sua palavra, é certo, mas por isso mesmo com obrigação completa, a entregar um dote á mulher de Leopoldo. A evidencia de um nascimento fidalgo, que tambem asseverára, menos cuidado lhe dava, porque ouvira a Sebastião da Mesquita affirmar o que elle repetira, e tinha toda a confiança no desempenho, mais ou menos tardio, da palavra do honrado velho. Além de que, o esclarecimento d'esta circumstancia, podia demorar-se, visto já ter lançado á imaginação de Leopoldo a existencia do mysterio: o essencial, o urgente, era o dote.
Escreveu Arthur Soares outra carta a Sebastião da Mesquita, perguntando-lhe se recebera a primeira. Respondeu-lhe affirmativamente, e que havia tomado as suas importantes revelações na devida consideração. Esta resposta não aquietou o animo generoso do voluntario protector. Queria obras, e não palavras, que elle achou frias em caso de tanto brio. Resolveu proceder isoladamente, e com segredo.
Obtida uma licença de alguns dias, dirigiu-se Arthur Soares á residencia de seu thio. Recebido pelo padre com a natural expansão de um affecto puro e vivo, n'elle depositou o segredo da promessa que o impressionava, e queria cumprir, pedindo-lhe conselho e favor. No fim da confidencia, ficou o padre mais ébrio de prazer do que se fôra elle o favorecido com o generoso compromisso de Arthur. Conduziu o mancebo ao pé de um velho movel, e disse-lhe:
--Estão aqui as nossas economias: são uns vinte e tantos mil cruzados. É dinheiro de muitos annos guardado por tua mãe sem prejuiso dos pobres. Trabalhava noite e dia, a pobre martyr... Quando eu brandamente lhe observava que podia adoecer com tão aturado labutar, respondia-me que Deus não havia de condemnar a ambição de mãe em converter as suas vigilias e o seu suor em dote para seu filho... Chegou á força de perseverança a poder commerciar em cereaes, principiando pelo mesquinho producto da roca... Como era boa a tua mãe, Arthur!... Já vês que não tenho parte n'essa accumulação de moedas, que te pertencem... Mas essa quantia, bastante notavel para nós, é ainda pequena para dotar a mulher de um rico nobre... Vamos já a Penafiel... Farei perante um tabellião o necessario documento, para que tu possas vender a raiz das propriedades, que foram de meus paes... A raiz só, porque o uso-fructo deve continuar a pertencer a uma infeliz familia, que lá está por disposição tua... De certo te não recordas já d'aquella tua _doação_... Eras muito criança ainda, mas com a indole que... que tu tens, meu Arthur!...
Velho e moço, sentiram a commoção de duas almas iguaes, quando são abaladas por acções celestes, e confundiram n'um longo abraço os soluços e as lagrimas. O respeitavel e sagrado nome de--pae--foi proferido por Arthur Soares, saltando-lhe do coração á bôcca. O padre Alvaro, ouvindo chamar-se por aquelle nome, fez-se d'uma pallidez mortal, e balbuciou:
--Obrigado meu filho, por teres pela primeira vez esse nome para mim!... Sou eu só a ouvil-o, e Deus, que sabe os meus remorsos, de certo me consente este innocente prazer... Obrigado!... Vejo, sinto que te não repugna o sacrilego... És bom, Arthur, meu filho adorado!... Crê que tenho soffrido muito!... E o maior, o mais terrivel do meu padecer, era o não poder chamar-te--filho--nem ouvir de tua bôcca o dôce nome de--pae... Diz-me, meu querido Arthur, diz que não desdenhas, que não amaldiçôas o teu nascimento... Perdoa-me o haver-te privado da paternidade legal...
--Perdoar-lhe?!... O quê, meu sempre amado pae?!... O ter-me dado esta alma, que é sua, e que me faz grande aos meus proprios olhos?!... O ter coberto a minha infancia e mocidade dos maiores e dos mais carinhosos extremos?!... O haver-me dado uma educação de fazer inveja aos mais poderosos da terra?!... O tornar amênos e felizes os dias da vida de minha santa mãe?!... O ter vertido lagrimas de sangue pela chamada culpa que me deu vida e felicidade?!... É isto tudo que eu tenho a perdoar-lhe, não é assim?... Oh! mas não sabe que o meu maior orgulho é o de ser seu filho?!... Que pae mais heroe, mais santo, mais martyr me podia dar o céu?!...
--Basta, Arthur, que me pódes matar de alegria!.. Bemdicto sejas, meu Deus e meu Salvador! Bemdicto e louvado pela tua Misericordia com este indigno padre!...
Deixemos o velho Alvaro nos braços de seu filho Arthur, nos momentos mais felizes da sua attribulada existencia, e vamos presenciar o que se passa no palacio de Sebastião da Mesquita.
Estamos no salão onde tiveram logar as primeiras scenas d'este verdadeiro conto. Estão lá outros moveis de mais recente data, mas ainda se alli sente o respeito devido ao que é antigo e bello, porque foram salvas do incendio as reliquias de familia: São ainda os mesmos os quadros, os retratos, e os brasões. Sebastião da Mesquita está fallando com muita solemnidade a João Vidal:
--É tempo de te fazer mui sérias e importantes revelações, João, que devem mudar completamente a tua posição social. Dir-te-hei tudo em poucas palavras: sou avêsso ás phrases de estylo em materias graves. Recebi-te em criança das mãos de uma santa abbadessa, que te salvou a vida criando-te dentro do seu convento. Conservei-te sempre ao meu lado, e dei-te, quando homem, a qualidade de escudeiro d'esta casa, tendo-te o carinho de pae, porque era impossivel, e prejudicial para ti, a revelação do teu nascimento. És filho bastardo de um nobre desnaturado, que sacrificou os seus brios ao dote da mulher, nobre tambem de pergaminhos, e villã de sentimentos. Agora que todo o perigo é passado, aqui tens os papeis, que provam o teu nascimento, e com elles recebe igualmente este dinheiro, e estes titulos, que tudo te foi legado pela religiosa tua salvadora, e tua thia-avó paterna, e depositado em minhas mãos para te ser entregue quando já não corresses o risco de ser perseguido, e talvez assassinado, pelos assalariados da mulher de teu pae. Ficas sabendo que és nobre, e na posse de dinheiro, e valores que orçam por cincoenta mil crusados, com a accumulação da parte rendivel. Fui máu administrador, porque deixei quieto e improductivo o dinheiro, que hoje podia estar treplicado; mas bem sabes que abomino todas as especulações, e que não sei commerciar. Antes que te surprehenda, com a leitura dos documentos que te entrego, a noticia de que és irmão de Leopoldo...
--Eu, irmão de semelhante malvado!... Snr. Sebastião da Mesquita, meu amo e unico pae que me apraz reconhecer.... Peço a v. exc.^a muito de mercê, que me continue a graça de o servir... Quero considerar-me sem parentes conhecidos... Quero ser o filho adoptivo de v. exc.^a, e o seu mais humilde criado...
--É impossivel. Pódes, sim, continuar a viver na minha companhia, se o quizeres; mas na posse do que te pertence, e na qualidade de amigo, e não de criado da casa. Escusado é instares por outra solução, que esta é-me dictada pela honra. A ultima ordem que te dou é a de extinguires em ti o odio que tens a Leopoldo...
--Mas, senhor...
--Esqueceste, João, da inflexibilidade do meu caracter?... Terminou a nossa audiencia, que outros deveres não menos graves me chamam a attenção. Leva o que é teu, e faz-me o favor de dizer a minha mulher e a minha filha, que venham a esta sala... Manda tambem chamar Rosa.
--V. exc.^a bem sabe que a menina Rosa ha tempo que não vem ao palacio, e que parece soffrer bastante...
--Sei. Digam-lhe que sou eu que a chamo, e quero-a aqui.
Sebastião da Mesquita, logo que João Vidal se retirou, ficou entregue a uma desusada agitação nervosa, que n'elle era infallivel symptoma da gravidade do assumpto que o preoccupava. Durou-lhe a inquietação só até ao momento em que sentiu aproximar-se a familia que chamara. Logo que deram entrada na sala D. Isabel, D. Maria da Gloria, e Rosa, serenou o velho fidalgo, que as convidou a escutarem-n'o.
--Dirijo-me a si em primeiro logar, Rosa, porque desejava saber os motivos da sua frieza com esta familia, que a estima devéras, e os que são causa de um soffrimento que a sua indiscreta face revela... Tem a queixar-se de alguem d'esta casa?
--Que pergunta, senhor!... Pois a planta parasita e inutil póde por ventura queixar-se dos cultivadores, que a querem tornar mimosa á força de cuidados e attenções?!...
--Se a sua elegante resposta não encobre nenhum resentimento, porque é então que não frequenta esta casa como costumava?
--A minha doença...
--E como se chama a sua doença?...
--Ainda não consultei a sciencia, e...
--Receia que a consulta seja inutil... Guarde, pois, os seus segredos, Rosa, que não quer depositar no coração de um velho, talvez por considerar a velhice incapaz de os comprehender, e preste toda a sua attenção ao que vou dizer a minha mulher e a minha filha... Minha prima e estimada esposa, e minha presada Maria: desde muito que sabeis o interesse e affeição que voto a esta donzella, e áquella infeliz que obriguei a casar com um homem que detesto... Consenti-me que ainda vos occulte os motivos de honra, que a tanto me obrigam, e que um dia vos serão patentes... É urgente, e indispensavel, que a mulher do _rico fidalgo_ e snr. Leopoldo tenha um dote capaz de suffocar na alma villã do marido o desprêso pela que foi obrigado a receber por sua legitima esposa... Para lhe dar esse dote necessito empenhar muito o teu patrimonio Maria, e a casa de v. exc.^a, minha prima...
--Para que me dá o primo parte das suas nobres acções?! Mereço-lhe que me suspeite capaz de ir de encontro a uma sua resolução, ainda que por ella fosse levada á extrema miséria?... É injusto, senhor...
--Deixe-me beijar-lhe a mão, minha santa prima!... Nunca duvidei dos nobilissimos sentimentos de V. Exc.^a; mas cumpria-me consultal-a, e pedir-lhe auctorisação para o que tenho a fazer, e bem sabe que não sei faltar ao que devo a mim mesmo...
--E eu, meu presado e respeitavel pae e senhor, tenho só a dizer a V. Exc.^a, que me é inutil um dote, porque estou resolvida a morrer solteira, e...
--Criança!... Não é preciso tamanho sacrificio... Vejo que entregas nas minhas mãos o teu futuro, e pódes estar certa de que ninguem o velaria melhor do que eu o farei... Temos de fazer uma séria reducção nas despezas, porque nos vae diminuir muito o rendimento. Possuia dinheiro e valores que entregaram á minha honra, e que acabo de restituir. Tenho, portanto, de vender bastantes propriedades... É custoso vêr passar a mãos alheias o que era de nossos avós; mas o dever primeiro que tudo... O que me diria, Rosa, se estivesse no logar de minha filha Maria?
--Desejaria saber dizer a V. Exc.^a as mesmas palavras que o coração dictou á minha querida mestra e senhora D. Maria da Gloria, porque são perfeitamente iguaes os meus sentimentos...
--Agradeço a todas...
Entrou precipitadamente na sala João Vidal, e Sebastião da Mesquita, um pouco enfadado, perguntou-lhe:
--O que quer, João?... Parece que vem como portador de novas importantes, a dar valor ao modo porque se aproxima de nós, ao que traz nas mãos, e ao demudado da sua côr?...
--É que, senhor, por mais indifferente que o dinheiro nos pareça ser, sempre sentimos algum estremecimento ao achar inesperadamente uma quantia importante... Os trabalhadores que andavam no pomar a compôr o muro, encontraram esta panella de ferro com o dinheiro que ella contém... Apressei-me a vir participar o acontecimento a V. Exc.^a, e peço que me desculpe o interrompel-o?...
--Deixe-me vêr a qualidade da moeda... Tenho visto, snr. João de Lencastre... Conheço este dinheiro, que passou do cofre em que lh'o dei, para a primeira panella que o João encontrou na cosinha... Foi pouco engenhoso na sua cavalheira mentira... Não sou facil de illudir; mas, em compensação, sou facilimo em perdoar acções como aquella que desejou praticar... Lembro-lhe, porém, João, que _só eu_ tenho direito a regular as minhas generosidades, e que não posso acceitar favores d'essa ordem... nem mesmo do João... Minha esposa e minhas filhas: dou-lhes parte que João Vidal, o escudeiro, passou hoje á posse do seu verdadeiro nome, e da fortuna que lhe veiu por elle. É bastardo da casa dos Lencastres, irmão de Leopoldo, e o unico que ha de sustentar em todo o brilho a gloria de seus antepassados. É, pois, na qualidade de nosso parente, e intimo amigo, que occupa desde hoje o logar que n'esta casa está sempre vago para os homens de bem.
--Agradeço de toda a alma a V. Exc.^a a immensa honra que me concede, e que só condicionalmente acceitarei... Perdôe-me a arrogancia da phrase... foi dictada por V. Exc.^a que me ensinou os deveres de cavalheiro...
--Venham as condições!
--É só uma: a de me consentir em ter parte na generosidade que vae praticar... Ouvi tudo... Quiz encobrir-lhe o meu desejo, e não pude, por que V. Exc.^a descobriu a mentira, que eu inventei para bom fim... Acabou o constrangimento, senhor, e não tenho já receio de affirmar ao snr. Sebastião da Mesquita, que se me não permittir o que rogo, fugirei para muito longe, para onde me não possa chegar...
--E que direito--disse Sebastião da Mesquita, interrompendo-o--é o seu para fazer um beneficio á senhora D. Anna?...
--É a mulher de meu irmão, senhor!...
João Vidal, pronunciou estas palavras com dignidade e consciencia tal, que as tres senhoras immediatamente estenderam as mãos ao ex-escudeiro.
Sebastião da Mesquita levantou-se com toda a soberania, e disse:
--Está terminada a conferencia... Ácerca do que pede, eu darei parte ao _primo_ João do que resolver.
III
CIUME
«................................ Invejo-te, Camões, o nome honroso, Da Mente creadora o sacro lume, Que exprime as furias de Liêo raivoso,
Os ais de Ignez, de Venus o queixume: As pragas do Gigante procelloso, O Céu de Amor, o Inferno do Ciume.»
(_Manoel Maria de Barbosa du Bocage._)
O ciume é, por sem duvida, a mais feroz e violenta das paixões, porque participa do amor e do odio, os mais agudos e incuraveis padecimentos do coração humano.
Os modos de manifestar tão perigosa como prejudicial paixão, variam tanto quantos são os temperamentos, as indoles, e as educações das pessoas sujeitas ao ciume.
O homem rude, que é brutal em suas expansões, não magôa mais, com seus castigos materiaes, a mulher que lhe faz sentir ciume, do que o burguez indinheirado, que ensina a consorte a decorar uma infinita taboada de favores, que lhe minguaram a burra.
O homem educado, da boa sociedade e com escola das conveniencias sociaes, tambem não é o que menos faz sentir á pobre filha de Eva o castigo de sua egoista paixão. Com a mascara da mais requintada polidez, fere com gestos, com sorrisos gelados, com subtilesas, com allusões, com toda a sorte de estudadas torturas, que nem consentem á victima a desfórra de uma resposta.
Fazemos distincção do ciume, dividindo-o em espiritual e material. O primeiro, o que procede da alma, não é selvagem nas suas consequencias, não escandalisa, e, sendo injusto, quasi sempre é debelado pela resignação e carinho da mulher, succedendo, algumas vezes, quando verdadeiro, conseguir a emenda e o arrependimento da culpada. O segundo, o que só tem origem nos sentidos corporaes, é arrebatado, não raciocina nem perdôa, sendo, por isso, sempre ruinoso e fatal.
Leopoldo luctava com o ciume espiritual pelo verdadeiro amor a D. Maria da Gloria, e com o ciume material pela esposa, que não podia amar.
Arthur Soares, por ser estimado pela fidalga donzella e conservar com D. Anna relações suspeitosas ao parecer do marido, tinha em Leopoldo um terrivel inimigo.
Depois d'aquelle dia, em que foi encontrar a esposa conversando a sós com Arthur, o fidalgo militar soffria um verdadeiro tormento intimo, de que D. Anna era participante, por esses infinitos actos de calculada severidade, e de frieza, que fazem do homem polido um carrasco civilisado, e da mulher innocente, e que os atura, uma completa martyr.
D. Anna, como não tivesse a mais pequena mácula de que accusar-se, attribuia todos os maus tractos de seu marido, unicamente a ter elle sido forçado a recebel-a por esposa, sendo ella plebêa e pobre. A triste senhora procurava na leitura, quando as lagrimas a deixavam, lenitivo aos seus pesares, e dava preferencia á Biblia, esse formoso rei dos livros, e n'ella ás divinas parabulas, essas inimitaveis phrases do Christo, que alliviam a alma, e derramam o mais suave dos perfumes sobre os sentidos de quem lê, e sabe comprehender e crêr.
Lia a contristada esposa o seu livro favorito na pagina que diz:
«E chegavam-se a Jesus os fariseus tentando-o, e dizendo: É por ventura licito a um homem repudiar a sua mulher, por qualquer causa? Elle, respondendo-lhes disse: O que vos ordenou Moysés? Elles lhe responderam: Moysés mandou dar o homem a sua mulher carta de desquite, e repudial-a. Respondeu-lhes Jesus: Porque Moysés, pela dureza de vossos corações, vos permittiu repudiar a vossas mulheres; mas ao principio não foi assim. Não tendes lido, que quem creou o homem desde o principio, creou macho e femea, e que deixarão pae e mãe, e ajuntar-se-hão, e serão dois n'uma só carne, não sendo já dois, mas uma só carne? Não separe, logo o homem, o que Deus ajuntou.»
Esta lei do Evangelho sobre a indissolubilidade do casamento, tornou pensativa a chorosa esposa, que pousou sobre os joelhos o sagrado livro, aberto na pagina que lêra, pendendo-lhe a cabeça para o seio. Era tal a preoccupação em que se achava, meditando, que não deu pela entrada do marido no seu quarto, Leopoldo, que espiava todas as acções de sua mulher, vendo-a tão enleiada, aproximou-se-lhe mansamente, e leu, por cima do hombro da esposa, as palavras que deixamos transcriptas, e que finalisavam a pagina em que se liam: ensaiou um dos seus mais ironicos sorrisos, deu á voz um tom de tão meliflua quanto refalsada ternura, e, juntando a acção ás palavras, disse:
--Virando esta pagina, minha cara esposa, talvez que encontre passagens de mais interesse... Não me enganei. Olhe, veja a continuação e conclusão das maximas, que tiveram o condão de a fazer ainda mais bella, levando-a a esse estado e posição elegante de heroina scismadora... «Eu, pois, vos declaro, que todo aquelle que repudiar a sua mulher, _se não é por causa de adultério_, e casar com outra, commette adulterio: e o que se casar com a que outro repudiou, commette adulterio: _E se a mulher deixa o seu marido e casa com outro, ella é «adultera._»
De certo comprehende bem o sentido d'estas palavras, principalmente d'aquellas que eu, ao lêr-lhe, sublinhei?
--O primo, quasi me assustava, pelo não esperar agora aqui!... Se comprehendo o sentido do que me leu?!... Não sei o que quer que eu comprehenda?!...
--Em primeiro logar, minha senhora e cara esposa, tomo a liberdade de lhe dizer que não me consta que haja entre nós parentesco algum...
--Foi o meu esposo, e snr. Leopoldo, que determinou este tratamento entre nós...
--Aconselhei-o, minha senhora, para as salas sómente, onde os _nobres_ teem obrigação de saber guardar todas as _conveniencias_: mas, aqui, escusa a minha estimavel esposa de usar de taes _constrangimentos_... Pelo que toca á comprehensão do que eu li, parece-me facilima, mórmente para o seu talento. Julgo que Jesus-Christo, com aquellas palavras, nos quiz dizer, que se não pécca repudiando a mulher _adultera_. Não lhe parece?...
--Quem melhor do que o meu esposo, que é letrado, póde entender o que lê?... Mas quer-me parecer que n'outro logar d'este sagrado livro, o bom Jesus perdoou á adultera, que ia ser apedrejada, tendo antes provocado dos queixosos o que se considerasse sem culpas que fosse o primeiro a lançar a pedra... Não nos dirá tambem esta humanitaria e sublime parabula, que se Jesus-Christo não tinha como peccado o desprezo da adultera, via, comtudo, que os homens, mais fortes, e absolutos legisladores para os crimes do meu sexo, nem sempre procedem com justiça?
--Imaginemos que é assim: apraz-me concordar com os seus _engenhosos_ corollarios, minha senhora... Mas, como estamos em _amigavel_ controversia, desejava ouvir a sua _esclarecida_ opinião sobre a _igualdade_ dos deveres... Parece-lhe que o _adulterio_ é o _mesmo crime_ da parte da mulher como da parte do homem?...
--Não sei como responder-lhe, meu esposo e senhor... Nunca pensei detidamente na gravidade do crime de que fallamos; e, pesando agora a fealdade d'um tal delicto, julgo quasi impossivel que haja mulher voluntariamente adultera. Talvez que essas infelizes peccadoras sejam levadas a uma tal degradação pelo contínuo desprezo e ardua severidade dos maridos, pelos maus exemplos, e pelas aleivosas seducções dos homens, que as conduzem á quéda, para as enlamearem em seguida...
--Para quem não tem _pensado_ no assumpto, desenvolve-o admiravelmente!... Dou á minha cara esposa _sinceros_ emboras pelo bem que falla da materia... Devo comtudo observar-lhe, como em descardo da _letradice_ com que ha pouco quiz honrar-me, que os _maus exemplos_ do homem nunca podem lançar no leito nupcial um _pequenino ladrão_... A minha _intelligente_ esposa comprehende-me bem, não é assim?