Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte
Chapter 6
Depois da terrivel mortandade que um general das tropas da rainha, em ataque ás forças realistas, mandara fazer na manhã do memoravel dia vinte de dezembro de 1846 nas ruas da cidade de Braga, que ficaram juncadas com cerca de quatrocentos cadaveres!--fizera o mesmo general, ingloria e tristemente vencedor, intimar o venerando prelado da diocese bracarense para o acompanhar na sua marcha.[5] Aterrado o bondoso padre por aquella inqualificavel violencia, após o luctuoso espectaculo que a precedera, fugira em direcção a uma das suas quintas das cercanias de Coimbra, fuga em que fôra auxiliado pela pessoa de Sebastião da Mesquita, e pela sua gente, tendo antes os dois velhos passado algumas horas em secreta e intima conferencia.
Havia-se operado em Arthur Soares uma completa transformação: o seu physico, como reflexo do soffrimento moral, alterou-se ao ponto de não parecer o mesmo homem; para o que tambem muito concorrera a repentina mudança de habitos. Os raptos das donzellas, por elle moralisados sob as indeleveis impressões d'aquella noite de luar, em que D. Maria da Gloria levantara uma nêsga do véu que lhe cobria o coração, eram por elle vistos como offensas directas de um rival abjecto. A sua alma sempre aberta a todos os sentimentos generosos, estava quasi entregue ao odio e á vingança. Sabia elle, porque desde infante o escutara diariamente ao padre Alvaro, que a religião manda perdoar, e que a doutrina da egreja quer que se recebam as humilhações em justa expiação das faltas commettidas; mas tambem não ignorava que, algumas vezes, sob as proprias vestes sacerdotaes, se encobrem violentas e desapiedadas cóleras. A sua razão, um pouco obscurecida pelas dôres, fluctuava, pois, á mercê das paixões mundanas; e de pouco proveito lhe eram os prudentes conselhos que a todo o momento lhe estava dando o padre Alvaro, inquieto com os estragos do corpo, e da alma, que elle via estampados nas faces de Arthur Soares.
Eram constantes da parte do apaixonado mancebo as deserções do seu arraial, das quaes nenhum caso parecia fazer Sebastião da Mesquita, porque possuia a quasi certeza da razão que as promovia.
A intrepida Rosa, com permissão do velho fidalgo, continuava usando do seu uniforme salvador, e a ser tida pelos estranhos á familia por um elegante e joven official. Calculadamente se affastava o mais que podia de Arthur Soares, sem deixar de notar as suas desapparições, e de as commentar mentalmente.
Chegara Sebastião da Mesquita com a força de seu commando ás alturas de Vianna, e fôra alli obrigado, conjunctamente com o povo, e a tropa da junta, a sitiar o castello, onde estavam refugiados muitos empregados publicos do partido do paço, e os militares de que fazia parte Leopoldo de Lencastre. Não se viu grandemente contrariado Sebastião da Mesquita, em ser levado ao extremo de batalhar, porque já lhe era um tanto sympathica a causa popular, principalmente pelos factos de Leopoldo pertencer ao partido da rainha, e da maior parte dos chefes dos bandos realistas, depois da morte de Mac-Donnell,[6] se terem reunido ao exercito da junta do Porto.
N'um dos intervallos do assédio, recebeu Sebastião da Mesquita da bocca de Arthur Soares a boa nova de ter descoberto o carcere das donzellas, que elle julgava ainda guardado pelo raptor em pessoa. Reuniu o velho fidalgo a toda a pressa o maior numero da sua gente em disponibilidade e, acompanhado tambem por toda a sua familia, voou a libertar as filhas.
Chegados que foram ás portas do palacio, e tudo disposto para n'elle entrarem á viva força, viu Sebastião da Mesquita, com espanto seu, ser-lhes a entrada franqueada. Tremeu o valente do receio de já não encontrar alli a quem buscava, e só recuperou o perdido animo quando susteve em seus braços a D. Maria da Gloria, e viu a seus pés banhada em pranto a seduzida Anna.
Foram expansivas, como natural era que o fossem, as demonstrações de regosijo intimo, em todos os membros d'aquella nobre familia, alfim de novo reunida.
Depois de ter dado o necessario tempo ás largas do contentamento de todos, dirigiu Sebastião da Mesquita a palavra a D. Maria da Gloria, n'estes termos:
--Maria!... Podes continuar a viver na companhia de teus paes?...
--Essa pergunta, meu presadissimo pae e senhor, devia V. Exc.^a fazel-a ao meu cadaver...--respondeu com firmeza a nossa heroina.
--Muito obrigado, Maria! Paguem-te estas lagrimas do mais puro amor, a nobreza e honradez da tua resposta!...
Ao passo que o pae assim fallava, cobria a moça fidalga de beijos e caricias maternaes, a respeitavel matrona D. Isabel de Abendanho.
--E tu, Anna, foste da mesma sorte feliz?
A timida interrogada, ficou silenciosa e interdicta...
O velho fidalgo, tomado instantaneamente de uma pallidez assustadora, alçou assim a voz:
--Padre Alvaro! Disponha immediatamente a capella d'esta casa, para uma solemne ceremonia religiosa.--Snr. Arthur Soares, dê busca a todo o edificio e traga-me já aqui o infame possuidor d'este lupanar!--Anna!.. Prepare-se para o mais serio acto da sua vida, com a coragem que lhe faltou para resistir á seducção!...
Apressaram-se todos a cumprirem as ordens dadas, que bem de conhecer era o não admittirem réplicas.
N'esta situação, fôra ouvido ao longe da estrada, que passava em frente do palacio, um extraordinario bulicio.
O pae de D. Maria da Gloria, mandou ao unico official de ordens que alli tinha--a metamorphoseada Rosa--que fosse reconhecer o barulho, e aguardou impaciente a chegada de Arthur Soares.
Caminhavam pela estrada de Vianna, cujo castello acabava de cahir em poder das forças populares, em direcção á praça de Valença, os prisioneiros de guerra, guardados por duzentas praças de linha e cercados de immenso povo, que pedia em altos gritos a morte dos empregados publicos, e de toda a guarnição prisioneira. Arduo trabalho havia tido a força conductora, para salvar até alli da sanha popular os que foram entregues ao seu brio e que, maneatados, só deviam pertencer ao poder das leis.
A custo se introduzira Rosa entre as fileiras da tropa, e conseguira, com a interferencia de um tenente que folgara de ter occasião de subtrair ao povo uma victima, soltar um dos officiaes prisioneiros, e trazel-o pelo braço fóra do alcance da furia popular:--era Leopoldo de Lencastre.
--Temos contas a saldar, snr. capitão, e será o seu formoso palacio o logar do ajuste.
--Conheci-a logo no seu disfarce, snr.^a Rosa, e a minha cobardia, se m'o concede, não é de tal quilate que me leve a bater-me com... o snr. tenente...
--Em sua casa será obrigado a entrar no repto.
E caminhando sempre, sem troca de mais palavras, deram entrada no salão, onde Sebastião da Mesquita acabava de ouvir, enfurecido, o ephemero resultado da busca a que procedera Arthur Soares.
--A proposito chega e condignamente conduzido é o villão ao seu prostibulo... Ajoelhe immediatamente aos pés d'aquella mulher, e peça-lhe a honra de ser sua esposa...
--Mas... snr. Sebastião da Mesquita... um fidalgo...
--Que serodios e infames brios!... É fidalga, é bem mais nobre do que o canalha que lhe cuspiu a vergonha, aquella que eu o obrigo a receber por sua mulher legitima.
--N'esse caso... se V. Exc.^a me affiança...
--Sebastião da Mesquita, snr. Lencastre degenerado, poderia ser levado a transpor as fornalhas do inferno, mas nunca a manchar a sua honra com a mentira... Para a capella, senhores!...
O nosso velho heroe, não querendo consentir, em nenhum caso, no casamento do perverso Leopoldo com D. Maria, e prevendo com acertado raciocinio que a docil Anna teria a fraqueza de se deixar vencer pela seducção, alcançára, na conferencia com o arcebispo de Braga, licença, em fórma, de qualquer padre, e em qualquer sanctuario, poder realisar o sagrado enlace que ia ter logar na capella d'aquelle palacio.
Finda a religiosa ceremonia, durante a qual esteve a capella repleta de muitos curiosos e de alguns devotos, cresceu de ponto o tumulto da estrada. Sebastião da Mesquita, que já alli se julgava desnecessario, sahiu á rua, e tentou pôr um dique ao excesso do povo. Foi impotente, d'esta vez, a sua respeitavel palavra.
O leão popular, mostrava-se indomito, e cruel. A facilidade que via no triumpho, aguçava-lhe o appetite de sangue. Os infelizes prisioneiros estavam prestes a cahir-lhes nas garras, das quaes só em pedaços sahiriam!
De repente, principia a turba a desbarretar-se, atirando com os joelhos para o solo!... Ficaram só de pé os prisioneiros e a força que os guardava. Estava domado o leão!..
Por quem?...
Por um velho, de negras mas sagradas roupagens, do mais humilde aspecto, da mais inoffensiva attitude!... Pelo padre Alvaro, que se arrastara até ao cume de um penêdo--d'onde era visto por todos--e que trémulo e silencioso, por lhe embargar a voz a commoção, alçara ao alto da veneranda cabeça um crucifixo com a imagem do Redemptor do mundo...[7]
Os presos foram recolhidos e agasalhados sem a menor resistencia popular, no palacio de Leopoldo.
O povo dispersou, a estas enthusiasticas vozes de Sebastião da Mesquita:
«Salvè! religioso e bom povo portuguez, salvè!...»
[5] O periodico «Estrella do Norte» publicou a noticia da _intimação_ e da retirada do exc.^mo arcebispo primaz.
Temos á vista vários jornaes d'aquella epocha calamitosa, que fazem, pela desenvoltura da linguagem e calúmnias que semearam, corar de pejo todos aquelles que saibam presar a dignidade da imprensa, e comprehender a sua nobre missão. Um dos mais repugnantes por certo, foi aquelle que se denominou--«Popular».--O melhor correctivo que, em seguida, podiam ter as suas atrevidas e mentirosas apostrophes, foi-lhe dado pelo primeiro jornalista portuguez n'estas honrosas verdades: «O jornalista é o sacerdote d'uma religião, d'uma crença social--expõe a sua doutrina, discute, convence ou é convencido. A sua alma deve respirar sempre amor, o seu apostolado é um apostolado de paz. Se o seu irmão pecca, deve dizer-lhe como o sacerdote do Evangelho--_Fili, peccasti; non adjicias iterum_.
«Para que é incitar o povo a que entre no palacio dos nossos reis e pratique ahi acções de canibaes? Que civilisaçâo é esta que injuría as victimas para as immolar?
«Não ha rainha mais virtuosa do que a nossa como esposa, nem como mãe de familias. A sua casa póde servir de exemplo a todas da Europa.
«Apraz-nos fazer esta justiça. Assim podessemos achar que louvar no funccionario como achamos no individuo.
«Por isso é que a nossa voz se levanta contra uma imputação injuriosa e falsa.--A moral respeita-se no adversario como no amigo.» («O Espectro» de 26 de Fevereiro de 1847.)
[6] Aquelle infeliz aventureiro, abandonado pelo partido que levara á rebellião, e apenas seguido de uns cem homens, foi morto por um sargento de cavallaria das forças da rainha. O «Diario do Governo» de 5 de Fevereiro de 1847, noticiando a morte de Mac-Donnell, diz assim: «A identidade da pessoa de Mac-Donnell foi reconhecida por diversas pessoas, e d'esta circumstancia se lavrou auto judicial.»
[7] Este facto, teve effectivamente logar quando foi tomado pelo povo o castello de Vianna.
FIM DA PRIMEIRA PARTE
SEGUNDA PARTE
CRIME
«Eu pintarei o caso com côres bem crimes.»
(_Chron. de Cister_.)
I ABYSMO
«Ai do viandante que não vê caminho! ai do mesquinho sem a luz da fé! ai! que, na falta d'um amor sublime, triumfa o crime, do ludibrio ao pé!
(_T. Ribeiro_--SONS QUE PASSAM.)
Foi talvez pouco sensivel ao leitor a desapparição de João Vidal nos ultimos capitulos da primeira parte d'este livro, por que lhe traçou papel secundario no «Conto Portuguez.» A ser assim, foi-lhe infiel o trabalho de imaginação e, temos para nós que por mais vezes, no deslizar pela fiel narração do conto, hade o leitor errar seus calculos.--«_Em romance ou folhetim, o verdadeiro é o menos verosímil_:»--escreveu com muita propriedade, em maré de chiste, um nosso festejado folhetinista.
João Vidal, o escudeiro, fôra mandado pelo amo reconstruir o solar, em parte presa das chammas, e tractar da administração da casa. Foi elle o escolhido por Sebastião da Mesquita, pela illimitada confiança que lhe devia, e tambem para o desviar dos logares da acção empregada no livramento das donzellas, onde a podia prejudicar o entranhado rancor do escudeiro a Leopoldo.
A resolução do velho fidalgo fazer sumir os vestigios do incendio mandado lançar pela esposa ao seu palacio, foi tomada d'accordo com D. Isabel. Louvára Sebastião da Mesquita aquella inopinada e fidalga acção, a que o desespêro da immerecida e violenta affronta condusira os brios de uma nobre senhora, que era mãe, mas facil lhe foi convencer sua mulher da sem razão de ficarem permanentes os signaes de um crime já reparado, que de mais os privava de viverem commodamente.
Não teve D. Isabel igual facilidade em destruir no seu esposo, o preconceito de que devia bater-se em duello de morte com Leopoldo: foi preciso o auxilio de D. Maria da Gloria, que teve a força de convencer seu illustre pae do respeito e das attenções com ella havidas durante o captiveiro, para conseguirem de Sebastião da Mesquita o esquecimento de tão absurda idêa, a que era levado pelo excesso da honra. E de presumir é que, mais ainda do que as boas razões dadas, imperasse no quietismo de seu animo, a certeza da partilha que tinha a esposa no que houvesse de soffrer seu marido: limitou-se, pois, o honrado velho, a varrer de si, e cortar com a sua familia, todas as relações com a mulher de Leopoldo, pelo desprêso a este votado.
Ao recolher-se com a familia á sua habitação, entregara Sebastião da Mesquita o commando da força popular a Arthur Soares, pedindo-lhe que se conservasse no alto Minho, e exercesse vigilancia sobre as acções intimas de Leopoldo, porque receiava haver feito uma victima da pobre _donzella_, que tivera em vista honrar pelo casamento com o seductor.
Algum tempo volvido, era Arthur Soares forçado pelo seu dever, a narrar, em longa carta a seu padrinho, o que podera saber pelos seus exforços habilmente empregados. Daremos ao leitor conhecimento d'um periodo daquella carta:
«Colhi a fatal certeza de que a snr.^a D. Anna soffre a seu marido constantes doéstos, em alguns dos quaes é menos respeitada a boa intenção do meu nobre padrinho, e senhor, porque se atreve a dizer, que _occultas razões_ determinaram a violencia do seu casamento com uma _rapariga pobre_! Não se queixa a paciente; mas traz escripto na face os signaes do seu pesar, e gradual definhamento.»
Esperou Arthur, com a ancia de um verdadeiro interesse, apenas producto de sua bem formada alma, que Sebastião da Mesquita, dando o pêso devido ao que lhe havia communicado, procedesse de modo a sanar aquellas rudes e vilãs provocações de um depravado senhor á sua escrava. Os dias, porém, succediam-se na sua marcha natural--que é morosa para os que esperam e pensam, e rapida para os que gosam descuidados--sem que o velho fidalgo désse accordo de si. Admirado Arthur de um tal silencio, que lhe deu margem a mil oppostas conjecturas, não podendo duvidar da entrega em mão da sua carta, porque o portador fôra seguro, resolveu empregar os seus proprios recursos para adoçar quanto possivel a situação amarga da infeliz Anna, que lhe fôra companheira e socia nos annos e nos brinquedos infantis. Tomada a resolução, seguiu-se o emprego de meios para chegar á falla com a mulher de Leopoldo.
Entremos pela segunda vez nas casas que serviram de forçado aposento a D. Maria da Gloria. Estamos na mesma sala onde tiveram logar as scenas descriptas no capitulo--_Amor_. Recostada em magnifico sofá, e vestida com singela elegancia, está uma sombra d'aquella Anna, que fôra discipula muito amada de D. Maria da Gloria: a seu lado, tomou assento Arthur Soares, em uma d'essas cadeiras cujo feitio se presta a todas as commodidades e posturas de phantastico confôrto. Escutêmol-os:
--Consinta-me, snr.^a D. Anna...
--Snr.^a D. Anna!...
--Sim, minha senhora, é esse o tractamento que hoje se lhe deve, e não serei eu que o esqueça. V. exc.^a soffre. Deixe-me aproveitar estes momentos, para bem claramente lhe dizer o que me obrigou a pedir-lhe esta audiencia. Fui encarregado pelo snr. Sebastião da Mesquita de saber se v. exc.^a era feliz: Não é. Sei que o seu viver intimo não está em harmonia com as seductoras apparencias do fausto que a rodeia. Quererá v. exc.^a confiar de um leal amigo, de um companheiro de infancia, do mensageiro de seu nobre pae adoptivo, todos os pesares que a consomem?
--Infeliz, eu?!... Pois não vê o senhor Arthur Soares, como estes aposentos estão repletos de esplendor e de magnificencia?!... Não vê esta mobilia, estes adereços, esta riqueza, este luxo, esta sumptuosidade régia de que partilho?!... Eu, a misera filha de um lavrador, apenas habituada ás palhas e ao fumo da cabana paterna!... Eu, que só por favor conhecia o palacio da minha querida mestra e senhora D. Maria da Gloria!... Podem por ventura ter entrada os dissabores, onde moram as preciosidades?!... Não, mil vezes não!... As estatuetas, os modelos em bronze e jaspe dos principaes monumentos da Europa, os bustos serios e caricatos de notaveis personagens do mundo civilisado, o ébano, a madre-perola, esses milhares de caprichos e de prodigios, as antiguidades, os _recocós_, as reliquias de toda a arte misturadas com os feitios e labores de toda a imaginação, tudo isto que me _cérca_, de que me chamam dona, que me obrigam a fitar, comprehender e decorar, e que me veiu conjunctamente com a posse de um esposo letrado e nobre,--não será o gôso, a felicidade, a completa ventura?!...
--E as lagrimas, que são o epilogo da formosa descripção que fez, o que significam, senhora D. Anna?...
--Oh!... Estas lagrimas são... de alegria!...
--E porque não diz de saudade?!... Saudade que ninguem tem o poder de condemnar na alma, que foge dos logares dourados, onde lhe fazem soffrer o peso de grandezas que não ambicionou, para se aninhar nas pacificas palhas da sua infancia e adolescencia, onde lhe fôra suave e salutar bafejo o contacto de outras almas lavadas, caridosas, verdadeiramente nobres em todas as suas acções... Por que não revela toda a verdade, que eu de sobra conheço na excitação que V. Exc.^a manifesta?...
--Toda a verdade!... Sabel-a-ei eu, senhor Arthur Soares?... Amo Leopoldo, que é meu senhor, e... e devo ser feliz n'este paraiso, para onde fui atirada em completa nudez, e no qual achei, como nos contos de fadas, tudo que uma princeza póde ambicionar...
--Disse o bastante, minha senhora. Agradeço a confiança que em mim depositou, e que lhe mereço, creia. Peço o favor de confiar-me tambem a cobrança de haveres que lhe pertencem. Ha um mysterio na vida de V. Exc.^a, de que eu estou senhor, que só mais tarde lhe póde ser revelado. Mysterio honroso, que a hade tornar respeitavel aos olhos de... de toda a gente. Os haveres de V. Exc.^a, se não podem equiparar-se aos de seu illustre esposo, são, com tudo, sufficientes para darem, em todo o tempo, a independencia necessaria a uma senhora. Concede-me, por escripto, a auctorisação que lhe peço?
--Vou escrever o que quizer dictar-me, meu bom amigo.
Aproximaram-se de um riquissimo e formoso movel, que serviu de escrivaninha, onde Arthur, em pé, dictou, o que Anna escreveu com punho firme. Concluido e entregue o documento, tiveram logar os agradecimentos, as despedidas e as recommendações, em que por muito entraram os sentimentos de gratidão que a pobre senhora nutria por toda a familia de D. Maria da Gloria, e o affecto filial aos singelos caseiros, que ella julgava seus progenitores. Durante estas naturalissimas expansões, agitou-se um reposteiro e entrou Leopoldo na sala. Vinha pallido, mas os passos eram seguros, o aspecto risonho e o porte ceremonioso. Dirigiu-se a sua mulher com requintada delicadeza, dizendo-lhe que a esperavam as suas modistas, e dando-lhe o braço para a conduzir. Cumprimentou attenciosamente Arthur Soares, e pediu-lhe o favor de o aguardar alguns minutos, dirigindo-se em seguida com a esposa para o interior do palacio.
Arthur esperou de animo resoluto, como quem descança na paz da consciencia, a volta do seu pronunciado inimigo.
--Creio que o não fiz esperar muito, senhor Arthur Soares?... Queira collocar-se á vontade, e dignar-se responder-me, caso me julgue com direito a fazer-lhe algumas breves e concisas perguntas.
--Ouvirei, senhor Leopoldo.
--Peço desculpa de não principiar pelos offerecimentos do estylo: julgo que minha mulher saberia fazer-lhe o que chamam as honras da casa?...
--A senhora D. Anna recebeu-me como uma senhora distincta costuma agasalhar um companheiro de infancia, um como irmão respeitoso e lealmente affeiçoado.
--Muito bem... Poderei saber o motivo porque se aproveitou a minha ausencia, para a visita com que V. S.^a quiz honrar esta casa?...
--Porque não me sendo agradavel a presença de V. Exc.^a, devo suppor que a minha egualmente o não seja ao senhor Leopoldo.
--Colhe alguma cousa essa franqueza... E o motivo da conferencia, é segredo para mim?...
--Não guardo segredos de uma senhora casada. Vim visitar a senhora D. Anna, em nome de pessoas que a presam, e pedir-lhe esta auctorisação:--«Dou a Arthur Soares os poderes necessarios, para receber toda a quantia ou valores a que eu tenho direito.»
--Vejo que se faz procurador de minha mulher, sem outhorga minha!... É para intentar divorcio, e pedir-me alimentos?...
--Pondo agora de parte as suas impertinentes ironias, assevero-lhe que S. Ex.^ma esposa _não é pobre_, e que, para cobrar o que lhe pertence, é que eu vim pedir-lhe este escripto.
--E que validade descobre V. S.^a n'esse papel, que não é authenticado por mim?... Pois não serei eu o competente para essa cobrança?...
--A esposa de V. Exc.^a ignorou até hoje, que era senhora de fortuna, como ainda não sabe do seu illustre nascimento: este mysterio, não póde ser já aclarado. Não se fatigue com perguntas, que não colhe mais esclarecimentos. V. Exc.^a tem o direito de receber, querendo, o dote da snr.^a D. Anna, garantindo-lh'o em bens seus. Para a recepção actual, sou eu o unico competente. Não peço mais documentos, nem dou a pessoa alguma o direito de duvidar da pontual entrega, que hei de fazer, do liquidado e recebido por mim.
--Por hoje, não quero demoral-o mais... Conto que V. S.^a não ha de recusar-se a dar-me, de futuro, quaesquer esclarecimentos...
--Sempre ás ordens de V. Exc.^a, para o que fôr do meu brio.
Retirou-se Arthur Soares, e o mesmo foi que abrir-se um dique á torrente do odio represado no coração de Leopoldo. Ficou o leão rugindo no seu antro, prestes a cahir no abysmo cavado a seus pés pelo amor e pelo ciume.
II
FIDALGUIA
«É que ha uma fidalguia de alma que nem sempre falta ao que chegou por si á grandeza, assim como nem sempre vem aos que a herdaram de seus antepassados.»
(_V. d'Almeida-Garrett_--HELENA.)
A chamada nobreza de sangue tem origem respeitavel.
Os homens que defenderam e ajudaram a republica, consagrando-lhe todas as suas forças e haveres, quando o perigo era commum de todos,--foram nobres. Os homens que souberam fazer valer os direitos da nação, sendo leaes guardadores das immunidades patrias, e em longinquas e perigosas paragens, exposeram as suas vidas, em quanto muitos outros gosavam as delicias caseiras,--foram nobres. Os homens que, dados a serios estudos desde a mais tenra infancia, conseguiram nome e gloria para as nações a que pertenciam,--foram nobres. Foram, e deviam sêl-o. Não lhes ficou barato o rôlo de papel--titulo de nobreza, porque o da fidalguia estava nos seus feitos--de que os descendentes, ainda hoje, e sempre, e com soberbas razões, se devem orgulhar.