Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte
Chapter 5
«Confiemos na protecção do eterno, e no esforço de nossos braços. Transmittamos á posteridade uma nova pagina de heroismo--a nossos netos uma rica herança de gloria, e um grande e novo exemplo de valor. Ás armas cidadãos! Ás armas! por Deus, e pela liberdade: e--Viva o Porto!--O Porto sempre grande, sempre intrepido, sempre heroico, indomito, invencivel!--Viva a Nação!--Viva a Liberdade!--E ás armas!--Palacio da junta provisoria do supremo governo do reino, em 8 de Dezembro de 1846.»
(Omittimos tudo que podesse recordar odios pessoaes.)
VIII
COMBATE
«O homem debatia-se ahi nas vascas da morte, e o sol passava involto na sua gloria sem corar das angustias d'aquelles, que em seu ridiculo orgulho se chamavam monarchas e conquistadores do mundo; sem lhe importar se os vermes vestidos de ferro, chamados guerreiros, se despedaçavam uns aos outros com o delirio insensato das viboras no momento dos seus amorosos ardores.»
(_A. Herculano_--EURICO.)
Em Porto Manso, logar situado pouco abaixo das Caldas de Arego, no dia 19 de Novembro de 1846--o seguinte áquelle das scenas descriptas no capitulo precedente--estavam postados á margem do rio Douro, em fortes posições, uns quinhentos homens commandados pelo aventureiro general Mac-Donnell, espreitando a passagem rio abaixo de um bravo, mutilado e honradissimo militar do tempo do cêrco, que servia ás ordens da junta, e que recolhia, com a força de seu commando, á invicta cidade do Porto.
Desprevenido da cilada, soffreu o liberal guerreiro de muitas e bem feridas batalhas, um vivissimo fogo de fuzilaria, despejado sobre as suas tropas embarcadas, pela emboscada guerrilha.
Travou-se combate.
No mais vivo da peleja, dirige-o um cavalleiro o seu corcel a toda a brida em direcção onde se achava o general da guerrilha, e segredou-lhe:
--General! Não é d'este modo que se batem os defensores de uma causa justa e sancta. Esta espera traiçoeira a uma força que nos não aggride nem mesmo podemos ter como inimiga declarada--é procedimento condemnado pelos bons estimulos, por todas as regras, e pelo decoro da briosa carreira militar. Se não manda já cessar o fogo, e tocar a retirar, retiro-me eu immediatamente.
--Faça o que lhe aprouver fazer, snr. Sebastião da Mesquita, que eu não desisto do meu empenho em aprisionar o _manêta_.
--Não o conseguirá. A Providencia, que muitas vezes parece dormir, é sempre protectora dos opprimidos. Recolho a minha casa, general, e não creio que nos tornemos a encontrar.
Verificou-se o vaticinio do nobre fidalgo.
Poucas horas depois d'aquelle curto dialogo, retirava a guerrilha de Mac-Donnell em completa debandada, deixando no campo do combate 17 mortos e 9 prisioneiros, escapando com difficuldade de ser tambem aprisionado o seu aventureiro commandante.
Quando Sebastião da Mesquita, acompanhado do seu fiel escudeiro João Vidal, seguia caminho de sua casa, viu ao largo, caminhando em direcção a elle, uma cavalgada que, sem atinar com o motivo, lhe fez profunda sensação. Ao aproximarem-se os dous grupos de cavalleiros, não pôde suster o velho fidalgo uma exclamação de espanto, reconhecendo sua mulher, o reitor, Arthur Soares e todos os seus criados. Apeiaram-se silenciosos. Era um descampado o sitio do encontro. D. Isabel abraçára seu marido, debulhada em lagrimas. Todos os rostos exprimiam a mais profunda tristeza. Houve um longo e doloroso silencio. Sebastião da Mesquita interrogou sua mulher com um olhar, que D. Isabel comprehendeu e revelou ao inquieto esposo o attentado do seu palacio, e as suas consequencias, sem esquecer a mais pequena circumstancia do occorrido. O velho ficára por instantes como fulminado. Quando pôde fallar, disse á esposa:
--Isabel! Acabas de dar-me, com a má nova, mais uma prova do quanto és digna do meu affecto. Procedeste como honrada mulher que és. O que resta a fazer, compete-me a mim, e crê que Deus me ha-de conservar a vida para a desfórra. As nossas filhas--chamo assim a todas--se não morrerem, hão-de voltar com honra ao nosso poder. A educação e o sangue, são, n'estes casos, melhores guardas do que o mais poderoso exercito. Socega.--Padre Alvaro, póde voltar a pastorear o seu rebanho. Não lhe agradeço o que fez, porque a verdadeira amisade vexa-se com agradecimentos.--Arthur Soares, sei lêr nos seus olhos a sua vontade e por isso lhe digo que militará desde hoje ao lado de seu padrinho. Faço-me coronel ou general, e dou-lhe o posto de meu ajudante...
--E para mim, snr. Sebastião da Mesquita,--interrompeu o velho reitor--reclamo o de padre capellão do seu regimento e, se fôr indeferida a minha pretenção, como estamos em tempos anormaes, despacho-me a mim mesmo, e sigo-o, ainda contra vontade de v. exc.^a. As minhas ovelhas ficaram entregues a um bom pastor, que eu previra a demora da snr.^a D. Isabel, e comprehendi que o meu dever era não me apartar um só instante da nobre senhora, que me honrara procurando o abrigo do meu tecto. Não tente demover-me d'este proposito, snr. Sebastião da Mesquita, que deve conhecer a mágua que a reluctancia de v. exc.^a me causava.
--Obrigado, padre Alvaro. Seja como quer, que deve ser como Deus manda.
Durante o tempo que durou este encontro, explicações e pactos, foram-se agglomerando em volta do grupo os guerrilhas que vinham fugidos do combate, e que haviam reconhecido em Sebastião da Mesquita o ajudante do general _inglez_, como elles chamavam a Mac-Donnell.
O velho fidalgo perguntou-lhes se queriam continuar a militar sob o commando d'elle, proposta que todos receberam com exclamações da mais expansiva alegria. Dentro em pouco reuniu o ex-ajudante, ou antes conselheiro, do aventureiro general, debaixo do seu commando, quasi toda a força de que Mac-Donnell dispunha antes do combate.
Dispoz Sebastião da Mesquita em acção de guerra toda a sua tropa, e proclamou-lhe a conveniencia de uma rigorosa disciplina, declarando-se-lhe intransigivel e inimiamente severo para qualquer infracção.
Estavam já em disposições de marcha, para pernoitarem na mais proxima povoação, quando o novo commandante viu aproximar-se-lhe um official a cavallo, que chegára alli á desfilada.
Déra a tropa caminho ao recem-vindo, por não haver que temer de um só homem, e pelo instincto de que havia utilidade n'aquella apparição. A um signal do esbaforido official, mandou Sebastião da Mesquita fazer campo, em que ficaram um tanto isolados da força o recem-chegado, elle e a familia.
Não cabe nas forças de um escriptor do nosso pulso, pintar satisfactoriamente as gratas impressões e o delirante contentamento de todos, ao reconhecerem, n'aquelle supposto mensageiro, a intrépida Rosa!
Fôra o caso, que chegando Leopoldo com as tres roubadas donzellas ao Bom Jesus do Monte, dos arrabaldes de Braga, e recolhendo-as á hospedaria, teve Rosa artes para communicar, por uma varanda, com o quarto immediato ao que em prisão lhe fôra dado, onde a sorte quiz que houvesse um completo fardamento de official ajustado ao corpo da nossa heroina. Conceber o seu plano, despojar-se dos feminis vestidos, substituil-os pela farda, descer á cavallariça, ordenar em tom positivo ao curador que apparelhasse o seu cavallo, montal-o e fugir--foram tudo actos tão seguidos e repentinos, quanto vigorosa e ardida era a vontade da donzella!
Contou Rosa a historia da sua fuga com as variantes e variadas peripecias a que forçosamente havia de sujeital-a a sua inexperiencia, narrou os succedimentos que da liteira poude presencear após os raptos, e foi no fim abraçada por todos com frenetico enthusiasmo.
No rosto de Arthur Soares, ao reconhecer Rosa, havia transparecido um raio de alegria, que foi de novo sumido nas trevas da sua profunda tristeza, mal que terminára a narrativa.
--Esta, já está salva! e hade ser o primeiro mobil da salvação das outras nossas filhas, Isabel!--Disse Sebastião da Mesquita, cheio do jubilo que em taes circumstancias podia abrigar no peito.
IX
AMOR
AMOR é a palavra, o brado eterno Solto por Deus ao vêr já feito o mundo, Que fez tremer as abobodas do inferno E o sol ficou da côr d'um moribundo: A primavera, estio, outomno, inverno, Terra, céu, alma pura, bicho immundo, Tudo ahi cabe á larga de tal modo Que n'essa concha Deus se fecha todo.»
(_João de Deus_--FLORES DO CAMPO.)
Á margem de uma estrada que serve de transito entre Vianna e a praça de Valença no alto Minho, em aprasivel e pittoresca posição, olhando as viçosas e celebradas cercanias do nosso poetico Lima,--está situado um sumptuoso palacio com suas suberbas fachadas das ordens Toscana e Dorica, esta decorando a frente principal, e aquella a do primeiro jardim, como tambem as suas respectivas torres ou pavilhões.
A escada principal d'este edificio, rivalisa com a do palacio episcopal da cidade do Porto.
A capella ostenta um elegante zimborio e grande profuzão de maravilhosos ornatos. Os seus aprasiveis parques e bellissimos jardins, com magnificas e espaçosas ruas, tornam aquella vivenda verdadeiramente encantadora. O interior corresponde ao exterior, se não o excede, na vastidão, luxo, e boa ordem com que está decorado.[4]
Fôra para aquelle paraiso, que o sr. Leopoldo de Lencastre fizera conduzir D. Maria e a sua discipula Anna, conservando-as separadas, ignorando a existencia ali uma da outra, e na maior vigilancia, para evitar outra fuga como a de Rosa.
Viviam as duas donzellas n'aquelle privado carcere rodeadas do mais asiatico luxo, e como feudaes princezas a que, no exilio, fosse concedido o eden por homenagem.
Anna facilmente se coadunára com a nova e extraordinaria existencia a que fôra levada pelo crime, por que--já o sabe o leitor--no seio de sua virginal pureza despontára um sentimento a ella desconhecido, de que o seu roubador fôra alvo, e que devia leval-a a debater-se na labareda que elle fórma, ou a consumir-se nas cinzas que essa mythologica chamma, denominada amor, conserva eternamente nos corações martyrisados pela voz do dever e da consciencia.
Outro era o estado de D. Maria da Gloria. A convivencia desde o berço com Arthur Soares, o cotejo que muitas vezes, e insensivelmente, fizera das qualidades moraes do sobrinho do reitor com os de mais frequentadores do seu solar--o que sempre dava em resultado innumeras vantagens para aquelle--e, sobre tudo, esse mysterioso aquecer do sangue ao girar perto de nós em natural fluido o de alguem que o bafeja, e essa constante e seductora visão da alma semelhante á nossa em corpo da nossa sympathia,--haviam sido outros tantos estimulos a conduzirem a fidalga moça á posse de um reservado e verdadeiro affecto por Arthur Soares, que ella julgava poder sempre ter sepultado no fundo do coração, em respeito ao culto da nobreza que herdára e que lhe fôra inoculado ao entrar na vida pelos seus educadores, reserva esta já trahida n'outra crise, e que d'esta vez corria gravissimo risco de acabar completamente. N'este estado, fôra-lhe tyrannico, sobre ser infamissimo, o cobarde e violento procedimento do fidalgo primo.
Leopoldo, estava apanhado na sua propria rêde. Levado por maus instinctos, e por sêde de vingança, premeditou e levou á execução, sem ao menos preceder o circumspecto exame da maldade precavida, o arrojado e perigoso projecto de roubar as donzellas. A primeira contrariedade soffreu-a elle immediatamente com a fuga de Rosa, á qual votava entranhado rancor, e anciava humilhar cruelmente, e abortára-lhe esse prazer. A segunda quebra dos seus devaneios veiu-lhe com a nimia facilidade que encontrou em sujeitar a timida e docil Anna a todos os seus caprichos, desfazendo-se-lhe d'este modo, como fatua bolha de sabão, um mal definido e peior agasalhado sentimento que, por aquella rapariga, lhe parecia a elle ter no peito.
Muitas d'estas velleidades, cunha a sociedade com o pomposo nome de amor, confundindo o appetecido contacto das epidermes com esse sentimento moral que subjuga o homem, que é o principio creador de todos os seus heroismos, que é a razão, o genio, a harmonia, o acto supremo da alma, a inspiração de Deus!...
O terceiro e o mais fatal de todos os castigos de Leopoldo cahira sobre o coração do desgraçado em frecha envenenada, que já começava a tolher-lhe as funcções moraes e o vital respiro da sua vida physica: amava o infeliz, sem bem o saber ainda, e amava D. Maria da Gloria!
Que terrivel lucta!
Fascinado a seu pesar pela belleza da fidalga prima e pelo seu nobre orgulho, abatido pelo desprezo que sentia merecer á sua victima, dominado pelas rijas impressões a que vivem subordinadas as paixões humanas, louco de furor pela certeza de existir um rival, um miseravel peão, preferido no coração do seu idolo, e sem poder, pelo seu caracter, elevar-se, no infortunio e no martyrio, á sublime condição dos espiritos privilegiados que o idealismo purifica--tormentos eram estes que a Providencia destinou a Leopoldo com o seu amor por Maria!
Achava-se o voluntario capitão das tropas da rainha fazendo parte de uma força militar que então occupava Vianna do Castello. Dispozéra tudo de modo a ter segurança na forçada posse das donzellas, que visitava sempre que podia, ignorando as encarceradas as repetidas ausencias a que era obrigado o seu fidalgo carcereiro.
Entremos com Leopoldo, chegado de Vianna, no palacio encantado, que elle escolhera deslumbrante no intento de maravilhar D. Maria da Gloria.
Acabava de anoitecer: penetrou o elegante fidalgo na parte da casa destinada aos seus cómmodos, e, sem descançar um só instante da fadiga da jornada, attendeu desde logo ao esmero e atavios da sua pessoa e vestuario, como se tivera de comparecer n'um baile de côrte. Assim disposto, tomou direcção dos aposentos de D. Maria da Gloria. Na ante-sala proxima d'aquella em que estava recolhida a fidalga moça, sentiu-se Leopoldo repentinamente assaltado de um mau-estar, d'uma fraqueza, d'uma indecisão e de uns receios taes, que o levaram a tomar assento n'uma poltrona que, do acaso, ficava fronteira de um riquissimo espelho. Ao vêr copiado no preparado vidro o seu transtornado aspecto, mudou Leopoldo de tenção, e dirigiu-se com paços ainda mal seguros para a parte do palacio, occupada pela docil Anna.
Deixemos sem testimunhas os faceis protestos do mentido amor, proferidos sobre-posse, áquella que já não podia nem sabia regeital-os, pelo homem que a seduzira e arrebatara, e entremos no salão em que D. Maria da Gloria gemia saudades e nutria, a par de sublimes affectos, esperança de proxima salvação:--as paredes estavam forradas de setim verde; as janellas todas adornadas de custosas cortinas de côres branca e amarella; os reposteiros eram de damasco encarnado com os cordões e as borlas de fio de prata, e os moveis todos de pau preto almofadados de setim branco. Se uma dama de caprichosa imperatriz tivera sido a encarregada de dispôr, alli como em todas as salas do aposento de D. Maria, e collocar em ordem essas infindas e minuciosas commodidades de uma senhora de régia estirpe,--não deslumbraria mais aquelle recinto. Lá dentro, era D. Maria senhora absoluta, obedecida por aias e criados ao mais leve aceno, sem que aquellas e estes deixassem de ser outros tantos vigias e guardas de seus movimentos e acções. Os grilhões, eram com effeito de ouro do mais subido quilate.
Estava a joven captiva a uma das janellas, olhando pela milesima vez os arrebatadores jardins d'aquelle palacio, quando sentiu cahir a seus pés um objecto arremessado de fóra, que se apressou a apanhar. Desfez o embrulho, e encontrou um punhal acompanhado de um papel escripto d'este modo:
«Ha mais de sessenta dias que apenas vivo para a vingança, cogitada de instante a instante no meio de torturas espirituaes que dementam!
«Descobri finalmente este infernal paraiso que a retem. Queria ser eu sósinho o salvador de v. exc.^a, mas as cautelas tomadas pelo infame obrigam-me a metter na melindrosa empresa o snr. Sebastião da Mesquita.
«Esse estylete é inutil nas minhas mãos e póde convir nas de v. exc.^a. Para a desaffronta dum homem, não deve servir a arma que se esconde em bolço falso como o sicario nas trevas da noite. A senhora D. Maria da Gloria comprehenderá melhor do que eu como póde fazer entrega do vil instrumento no malvado que o sabe usar.
«Está a soar a ultima hora do captiveiro. Creio em v. exc.^a como creio em Deus.
«_Arthur_».
Ao terminar a leitura do bilhete de Arthur Soares, que enchera de felicidade a D. Maria, correu-se um reposteiro e entrou na sala o fidalgo Leopoldo. Ao sentil-o, tomou a donzella, junto do fogão que ardia na sala, uma attitude de rainha quando concede audiencia aos seus subditos. Vira Leopoldo o papel nas mãos de sua prima, e a suspeita dera-lhe animo para fallar:
--Vejo que a minha nobre prima tem por estes sitios correio amoroso!... Poderei ter a honra de saber o conteudo n'esse papel?
Por unica resposta lançou D. Maria o bilhete á chamma do fogão.
--Continua a ser cruel, senhora, e eu submisso sempre! Vê como o amor torna os homens bons e generosos? Qual de nós é o captivo?...
--Infame!...
--Sempre esse burguez adjectivo! E porque sou eu infame?! Pois se o amor governa o mundo, podem-se por ventura impor deveres aos impulsos da alma?!... Solte a minha nobre prima uma palavra de esperança, e verá transtornado em manso cordeiro aquelle que imaginou ser um feroz tigre... O sentimento verdadeiramente moral que me domina, é sincero e augusto... Nasceu subitamente e nem por isso é possivel a sua cura... Conheço, desde que a avalio, toda a grandeza, todo o poder, toda a irresistivel força dos seus naturaes encantos, toda a magnitude da sua nobilissima alma... Amo-a e soffro muito, minha prima, tendo para mim este sofrimento na conta do maior prazer!... Adoro-a até no seu despreso por mim!...
--Infame!...
--É muito, senhora!... Não será prudencia abusar d'esse modo de uma paixão que deve conhecer verdadeira, e que é capaz das maiores virtudes como dos mais negros crimes... A par d'esta loucura que faz escorregar para o mais medonho precipicio, ou que nos salva d'elle, todas as differentes paixões da vida são uns simples brinquedos... Fechado na sua formosa mão, tem a minha nobre prima o meu destino e o de todos os seus... Até lá está tambem o esquecimento para dous homens que me fizeram ultrages, que só o amor tem o poder de perdoar... Abra essa mão, senhora, que em abril-a desponta-lhe a felicidade... Serei um escravo humilde da sua mais caprichosa opinião... Domarei todos os instinctos, todos os appetites, todas as tendencias que possam ir de encontro aos seus desejos... Somos ambos poderosos, somos fidalgos, somos parentes... A nossa união não póde ter obstaculos legaes e, que os tivéra, todos eu saberia dissipar pela força d'este amor que é a minha vida, ou que hade ser a minha morte... Quer sahir d'esta casa? Quer levar em sua companhia as suas discipulas? Quer um cortejo de princeza para acompanhal-a, em que eu serei o ultimo de seus servos?... Pois basta, para tudo isto se fazer immediatamente, que a minha nobre prima me dê uma simples palavra, uma singela esperança...
--Infame!...
--Oh! que é de mais!...
N'esta altura da entrevista, e quando talvez Leopoldo estivesse para ceder á violencia da sua paixão atrozmente insultada pelo sangue frio da nossa heroina, sentiram-se palmas cadenciadas, e tres vezes repetidas, na proxima ante-sala. Ao ouvir aquelle signal, de certo convencionado por elle, retirou-se precipitadamente o infeliz capitão, o senhor d'aquella casa, e por sem duvida o mais infeliz dos seus habitadores.
O chamamento fôra a communicar-lhe a urgencia de acudir a Vianna, para recolher com toda a força militar ao Castello, d'onde o commandante resolvera resistir a numerosas forças do exercito da junta do Porto, que se aproximavam, e do povo, que se reunia para as coadjuvar. Recebida a ordem, quasi com indifferença, voltou Leopoldo á presença de D. Maria, para lhe dizer com voz pausada e debil:
--Senhora!... Retiro-me por algum tempo d'esta casa, na qual V. Exc.^a fica substituindo o meu poder. Conservo as ordens dadas aos meus criados, e servos de V. Exc.^a para a guardarem com profundo respeito, mas altero-as ordenando-lhes, que não resistam a qualquer força que tente libertar a minha nobre prima... É possivel que seja esta a ultima vez em que a minha presença lhe provoque esse invencivel tédio... Este _malvado_, que podia ter colhido com novas violencias os fructos a que pareceu mirar pela primeira imprudencia, pede-lhe o seu perdão com _lagrimas_ de sincero arrependimento...
--Lave com ellas os pés de meu honrado e nobre pae, que deve ser o primeiro, senão o unico, a perdoar-lhe os desvarios... Agora que o considero inutil como defeza da minha honra, porque acredito nos seus remorsos, tome conta d'esse punhal, que lhe pertence, e que nunca deveria ter servido nas emprezas a que está vesado.
E com magestoso porte, atirou D. Maria ao meio da sala a arma villã.
Leopoldo, depois de alguns momentos de recolhimento, que lhe valeram seculos de indiscriptivel soffrimento, agitou o cordão de uma campainha e esperou o resultado d'esta sua acção. Appareceu um escudeiro, vestido na mais rigorosa etiqueta, que aguardou silencioso as ordens de seu amo.
--Pegue n'aquelle punhal, vista-lhe o cabo com um panno preto, e pendure-o á cabeceira do meu leito... Quem de hora ávante dá ordens n'esta casa é minha prima e senhora D. Maria da Gloria. Faça-o saber a todos os seus companheiros. Póde retirar-se.
Sahiu o escudeiro e Leopoldo ficou immovel e calado por alguns minutos. Depois, como se após intima lucta se fizesse luz no seu espirito, levantou repentinamente a fronte, encarou a donzella, d'esta vez sem acanhamento, e disse-lhe:
--Sou... serei um infame! mas um infame que a ama como V. Exc.^a nunca por outrem será amada, juro-lh'o!... Adeus, senhora D. Maria da Gloria!...
Ao retirar-se o attribulado mancebo, proferiu D. Maria, como para só d'ella serem ouvidas, estas significativas palavas:--«Ao menos foi uma hora verdadeiro fidalgo...» D'aqui a levar a sua clemencia ao ponto de perdoar ao primo os insultos que d'elle recebera, havia só a transpôr a barreira de Arthur Soares, que ella não queria nem podia vencer!
[4] Existe com effeito, dous kilometros e meio ao sul da villa de Monção no alto Minho, o edificio de que tiramos alguns traços, fundado em 1806 pelo commendador Luiz Pereira Velho de Moscoso. Diz o snr. A. A. Teixeira de Vasconcellos, nas notas do seu bello romance--«A Ermida de Castromino»--que aquella casa, chamada da Berjoeira, é de risco semelhante ao do palacio da Ajuda. N'esta, como n'outras descripções e nomes proprios d'este nosso _conto_, na parte romantica, não ha allusões a logares certos ou pessoas determinadas.
X
RELIGIÃO
«O mundo que nos tira até o que Deus nos deu, que nos não póde dar o que Deus nos tirou, que não tem bem que dure nem cousa que permaneça,--que cultos merece? que estimações se lhe devem?»
(_Fr. A. das Chagas_--C. ESPIRITUAES.)
Entreteve Sebastião da Mesquita a gente do seu commando, em marchas vagarosas, e por logares desoccupados de outras forças, porque era seu unico fito perseguir o insultador da sua familia, para libertar as donzellas raptadas; e não podéra seguir-lhe a pista com a ligeireza que requeria a sua anciedade paternal, por estar todo o Minho revolucionado, e pejado de tropas dos tres partidos em guerra. Em um dos seus forçados estacionamentos, teve Sebastião da Mesquita occasião de prestar um relevante serviço ao respeitavel ancião que por aquella epocha era arcebispo de Braga.