Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte
Chapter 4
Na epocha propria, fez o estudante o exame que lhe faltava, e ficou habilitado a tomar ordens ecclesiasticas. Seguraram-lhe os paes o patrimonio em todos os seus bens, e vieram pernoitar á cidade, em companhia do filho, na vespora do dia em que elle devia ficar para sempre ligado á egreja, que houve por bem condemnar os seus ministros á mais terrivel das solidões,--á solidão d'alma!
Chegada a hora da ceremonia, foram vêr o religioso e solemne apparato, os paes de Alvaro, acompanhados por Eugenia e pela creada Thereza. Quando o ordinando appareceu revestido do habito clerical, cahiu a desditosa Eugenia, com o sangue gelado, nos braços de Thereza. A boa da serva, ficou tambem semi-morta.
Estavam finalmente realisados os ambiciosos sonhos dos velhos lavradores de Esporões.
Alvaro, era presbytero!
VI
CELIBATO
«Deus me livre de discutir materia tantas vezes disputada, tantas vezes exhaurida pelos que sabem a sciencia do mundo, e pelos que sabem a sciencia do céu!»
_Alex. Herc._--EURICO.
O padre Alvaro, foi residir, em companhia de seus paes, para a terra da sua naturalidade, onde cumpria rigorosamente todos os deveres de seu ministerio sagrado, procurando os infelizes para os consolar com a palavra e com a esmola, fazendo colheita de lagrimas, e escondendo de todos as que lhe vertia o coração. Vivia só para a caridade e para a dôr. Decorando, no Evangelho, a vida de Christo, identificou-se com Elle no amor da humanidade. Conseguiu augmentar ao casebre do seu patrimonio um novo e separado repartimento, na solidão do qual, fóra das horas obrigadas aos seus deveres, fechava cuidadosamente as suas mágoas.
O soffrimento de um filho, não póde ser, por muito tempo, estranho aos que lhe deram a vida. Os bondosos lavradores de Esporões, conheceram, mais por instincto do que por sagacidade, que seu filho padecia, e quizeram profundar a causa de suas tristezas. Espreitaram-no a horas mortas, e ficaram surprezos do que viram.
--Que peregrinação será aquella do nosso querido Alvaro, em noites de tempestade, Maria?!--Perguntava o velho a sua esposa, ambos de volta de suas pesquizas.
--Eu sei-te lá, homem! Só te digo, que isto tudo me faz chorar... Elle come quasi nada, anda tanto por esses montes e outeiros, vae pelas cabanas á cata dos necessitados, passa o pouco tempo que lhe resta de dia a lêr e a escrever, e ainda sahe de noite e com um tempo assim!... Deus me perdôe, mas quer-me parecer que o nosso filho se fez padre de mais!
--Não ha gosto perfeito n'esta vida, é certo. O prazer com que lhe ouvimos a primeira missa, farta recompensa de todos os nossos sacrificios, desandou, dentro em pouco, n'estas lagrimas! Mas deixa estar, que eu ainda tenho vigor, e não canço nas minhas pesquizas, que podem trazer-nos tranquillidade. D'aqui por deante, quero ser eu só a vigiar o nosso Alvaro, porque fico mais á minha vontade. Tu, entretanto, ficas na cama a pedir a Deus por nós, sim?
--O que tu queres, quero eu sempre, Antonio.
Uma das noites em que Alvaro foi espreitado pelo pae, entrou este, após a sahida do filho, no repartimento da casa habitado pelo padre. Analysou, com olhos paternaes, os mais insignificantes indicios de soffrimento, physico e moral, que por alli estavam dispersos. Entre outros, pareceu-lhe descobrir signaes de que o seu Alvaro cuspia sangue, supposição que fez verter da testa, ao triste pae, esse humor rubro que nos circúla nas arterias e veias. Encontrou no chão um papel com letras, que não sabia lêr, e guardou-o. Na madrugada do seguinte dia, foi o lavrador á residencia do seu parocho e velho amigo pedir-lhe o favor de lêr o escripto. Resava assim:
«Não, disse S. Gregorio, que o laço do matrimonio era o nucleo do genero humano, o esteio da vida e o centro da piedade?
«Para quê, os concilios d'Elvira e de Trento?...
«Celibato puro!!...
«Para quê, decretar contra a natureza?!...
«Oh Christo? Não quizeste Tu nascer de Maria?... Se não tivesses por consorte a Cruz da Redempção humana, fugirias Tu a completar, quando homem, a Tua existencia no mundo?...
«Porque não ha de ser para todos os filhos do peccado, a mulher, resumo do bem possivel, a casta mensageira entre o céu e a terra?!...»
O parocho, que era um padre intelligente e bondoso, pediu á sua ovelha, que fosse depositar aquelle papel no mesmo sitio em que o achara, e passou, depois, largas horas em colloquio amigo com o pae do que fôra seu discipulo.
Quinze dias depois da conferencia do parocho com o velho Antonio, ao cahir da tarde, chegava o lavrador, na rua de S. João do Souto, á cabeceira do leito em que Eugenia, cadaverica, estava recostada. Houve um longo silencio: ambos temiam o rompimento. Animou-se finalmente o velho a dizer:
--Então de que mal padece a snr.^a Eugenia, não me dirá? As mulheres sempre são muito fracas! Pois a molestia que tem, é lá cousa para estar com esses quebrantos?! Será isso mimo?...
--Vou dizer-lhe tudo por uma vez, snr. Antonio, antes que as forças me faltem... Amo seu filho e sou amada por elle... Um padre e uma viuva!... Deus castiga-nos, e bem o tinha agourado o meu confessor... _Elle_, está cavando a sepultura, bem o vejo; e eu quero, e hei de morrer antes...
--Em quanto viverem os velhos como eu, não podem morrer assim depressa os novos como vossas mercês, descancem... Mas porque não fallaram a tempo?! Porque não confiaram de mim esses incuraveis amores, quando fossem ainda horas de os legitimar aos olhos do mundo?...
--Não o quiz eu, snr. Antonio, porque tive mêdo de ajuntar ao meu crime o seu odio, ou de praticar novo crime, levando Alvaro á desobediencia.
--Foram bons sentimentos esses, foram; mas fôra melhor que ambos tivessem mais alguma confiança nos corações dos outros... Em fim, isso lá vae, e o que não tem remedio remediado está. Agora, cumpre fazermos todos da nossa parte para se viver o melhor possivel, o que se hade conseguir com o favor de Deus...
A este tempo sentiu-se rumor á porta do quarto, e ouviu-se distinctamente a voz de Thereza dizer: «É seu pae!...»
--Entra, Alvaro;--disse em voz clara e de modo a ser ouvido de fóra, o sympathico e honrado velho. Entrou o padre, ajoelhou aos pés do pae, e titubeou a palavra:--Perdão.
--Levanta-te, que és mais infeliz do que culpado, e para os infelizes reservou Deus a sua divina misericordia. Sei tudo, e tambem o sabe tua mãe. Não te louvamos nem condemnamos; choramos as tuas dôres, que são as nossas, e procuramos-lhe allivio. É preciso que vivas, e que viva tambem a snr.^a Eugenia. Eu mando, pela voz da religião que tenho n'alma, pela do sangue e pela da honra, como a entendem os homens do campo. Se fôr condemnado pelos fanaticos, já tenho a absolvição do meu santo pastor, que mais vale. A um pobre, que sempre foi honrado, não falta a Providencia nas occasiões precisas. Tu, meu Alvaro, vaes ser nomeado reitor da freguezia de Santo Adrião de Penafiel, que assim m'o prometteu o snr. fidalgo de Porto Carreiro, que nunca faltou á sua palavra. É um presente que me faz, disse elle, por eu lhe ter pago com toda a pontualidade, ha quarenta e cinco annos, um fôro, de dois carros e meio de pão meiado, limpo e sêcco. É um fidalgo ás direitas, que sabe conhecer o que vale o suor da pobreza. Ora, a reitoria, fica lá para o valle de Sousa, nas proximidades de Penafiel, muito longe d'aqui. Eu e tua mãe de certo lá não poderemos ir; mas tu, que estás na força da vida, virás amiudadas vezes visitar-nos. O snr. padre reitor de Santo Adrião, tem na aldeia da sua naturalidade uma irmã viuva, que póde ter um filhinho que talvez precise do auxilio do thio padre... Repito, eu mando, e quero ser obedecido. Não sei o que dizem os livros sagrados nem os profanos, porque me não ensinaram a lêr: tenho só aprendido o que me diz a minha consciencia honrada. No tribunal do Deus justo, darei eu as contas por tudo isto. Do escandalo, é que as não hei-de dar, porque tenho toda a segurança nos bons sentimentos d'aquelles que preferiam a morte, á quebra publica dos seus deveres.
Quando Antonio acabou de insinuar as suas ordens, dadas n'um tom prophetico e inspirado, é que fez reparo no quadro que, havia já minutos, alli se via. Estavam a seus pés, ajoelhados, cada um de seu lado, regando-lh'os de lagrimas doces, os amnistiados da paternidade, que representa Deus na terra.
Era bello de vêr-se a mocidade cadaverica pelo mal d'amor, abraçando commovida até ás lagrimas, a honra envelhecida no rude trabalho do campo, fresca e vigorosa como a carvalheira secular liberta da podridão das cidades!...
No dia 27 de agosto de 1819, recebia o primeiro sacramento da egreja, na cidade de Braga, um recem-nascido do sexo masculino, a que foi posto o nome de Arthur. Os padrinhos, por procurações de Sebastião da Mesquita Bandeira de Mello e de D. Isabel de Abendanho e Sousa, foram Antonio da Cunha e Maria do Espirito Santo, os honestos lavradores de Esporões, que deram a existencia ao reitor de Santo Adrião de Penafiel.
Estava o padre Alvaro ha mais de tres annos de posse da reitoria, sendo acatado e tido na conta de exemplar pelo povo, quando recolheu na sua residencia uma irmã viuva com um filho. Cresceu o amor e o respeito do povo pelo padre reitor e pela familia, na razão directa do augmento de beneficios e de consolações que recebia. Eram seis mãos sempre abertas á pobreza, e duas santas boccas a semearem palavras animadoras aos dous sexos, o que o povo encontrava na residencia do reitor de Santo Adrião de Penafiel. Por isso, o reitor, irmã e sobrinho, ganharam a estima geral, ao ponto de fazerem dividir, nos corações de todos os habitantes do valle de Sousa, a antiga e bem fundada sympathia pela familia do fidalgo Sebastião da Mesquita.
Um dia, chegou ao conhecimento do publico, que havia luto na residencia do padre Alvaro. Foi lá toda a gente da povoação. O reitor, leu, commovidissimo, ao seu rebanho, uma carta que recebera do seu amigo e mestre, o parocho de S. Santiago de Esporões. Dizia assim:
«Dei hontem sepultura a dois cadaveres, Alvaro, e dou hoje cumprimento a uma triste imposição da amisade. Está devoluta a residencia do teu patrimonio. Teu pae morreu ás dez horas, e tua mãe á uma da tarde do mesmo dia. Presenciei a morte de dois justos. Disseram-me, para te communicar, que iam pedir a Deus por ti... Resignação.»
As lagrimas do padre confundiram-se com as de todos que o escutavam.
Arthur, que então teria sete annos, trepou aos joelhos do sagrado pastor, pousou-lhe os rosados e frescos labios nas faces crestadas pelo fogo das lagrimas, e disse-lhe:
--Não chores, thio, que os avós estão no Céu. Sabes o que hasde fazer? Manda occupar as casas, que elles deixaram, pelos pobresinhos lá d'essa terra, sim?
--Pois sim, querido amor, e hei de dizer-lhes que foste tu o da lembrança...
Arthur andou nos braços de todos, e foi devorado com beijos. N'esta occasião, deu entrada na sala o fidalgo Sebastião da Mesquita, acompanhado de uma creada, que trazia ao collo uma interessante menina de treze mezes de idade. O povo formou respeitosamente duas alas, e o reitor recebeu, com agrado, mais aquella visita.
--Que fez o meu afilhado para merecer tantos affagos?--perguntou o fidalgo, depois de ter saudado a todos.
--O que havia de ser, snr. da Mesquita?... O rapaz parece não ter mau coração: destinou a habitação dos avós fallecidos para residencia das pessoas mais necessitadas da freguezia d'elles; e as boas almas d'estes meus filhos todos, pagaram-lhe a lembrança em fartas caricias.
--Então já assim caminhamos para o Céu, snr. meu afilhado?! Muito bem, muito bem!... Vou dar-lhe a primeira paga da sua nobre acção...
--E assim fallando tomou Arthur nos braços e, aproximando-o da filhinha, fez com que se beijassem os dous innocentes......
Treze annos depois d'estas scenas, em dia de trabalho, e por horas em que estão dezertas as egrejas das aldeias, entrava Sebastião da Mesquita no templo parochial de Santo Adrião, e batia de manso nas costas de um padre, que estava curvado sobre uma sepultura. Ao levantar-se o padre, tremeu involuntariamente o fidalgo, de encarar nas transtornadas feições do seu amigo.
--Nem tanta penitencia nem tamanha dôr, padre Alvaro, que podem não ser do agrado de Deus. Não precisa, Arthur, agora mais que nunca dos seus cuidados?
--Basta-lhe a protecção do nobre e honrado padrinho... A minha vida, está n'esta sepultura, onde talvez cahisse uma condemnada ás penas eternas!...
--Não conta com a bondade do Pae para com seus filhos, e por uma culpa involuntaria, desvanecida por innumeras virtudes, só quer vêr o castigo, em vez do perdão?!
--E as leis da egreja?!...
--E as leis da natureza; a misericordia divina; os votos de seus honrados paes; a consideração, a estima, o respeito geral; as bençãos dos infelizes e a tranquillidade da consciencia, pelo que toca a todas as demais acções da sua vida?...
--Viverei, snr. Sebastião da Mesquita, e o tempo que me sobrar da penitencia dal-o-hei á sua heroica amisade!
VII
RAPTOS
«Que póde valer á hebrêa Sentir n'alma chamma infinda? como a linda Ester ser linda, e amada como Rachel? Se o coração da judia se entre-abre do amor aos lumes, não lhe dá tempo aos perfumes o seu destino cruel.»
(_T. Ribeiro_--SONS QUE PASSAM).
«O vicio está por tal fórma naturalisado que não ha razão para espantos nem sequer para censuras.»
(_Camillo C. B._--O CONDEMNADO.)
Foi ephemero o triumpho para a revolução do Minho, denominada--Maria da Fonte.--Cahiu o ministerio ao rugido popular, foi certo; mas a seis de outubro do mesmo anno, o governo constituido ao grito dos revoltosos, teve, por vontade régia, sorte igual á do seu predecessor. A esse facto, que se deu fóra das praxes constitucionaes, chamou-se--_emboscada palaciana_--e deveu-se a mais formidavel das guerras civis portuguezas.
A heroica cidade da Virgem foi o centro da resistencia ao chamado governo de facção, constituindo dentro de seus muros, a nove de outubro de mil oito centos quarenta e seis, uma _junta provisoria do governo supremo do reino_, que ousou prodigios bem dignos de causa mais santa, como seria a defesa da patria contra estrangeiro dominador. Exaltaram-se os partidos, e de todos os angulos do paiz voava a mocidade portugueza a alistar-se sob as bandeiras hasteadas em guerra fratricida. O enthusiasmo guerreiro tocou o delirio. Raro, bem raro, seria encontrar-se um portuguez de braços cruzados ante o flagicio geral.
Além dos bandos constitucionaes, achou tambem ensejo de desfraldar bandeira o velho e respeitavel partido absolutista: respeitavel na sua quéda, e ostracismo sem limite, pela coragem da abnegação, e pelo inquebrantamento da sua fé. Este ultimo grito de revolta, chamou tambem os velhos ao campo da batalha. Acabaram então os indifferentes: todos os portuguezes, cada um a sabôr das suas paixões, ficaram empenhados na luta.
Sebastião da Mesquita foi convidado por um general estrangeiro--Mac-Donnell--, que se dizia commissionado do snr. D. Miguel de Bragança, a tomar parte activa no pronunciamento ante-dynastico. Recusou-se. Pediu-lhe o general que fizesse, ao menos, parte do seu estado maior, para lhe dar conselho e força moral, e apresentou-lhe um autographo do principe proscripto,[2] que fez abalo na rigidez do velho fidalgo. Esta conferencia teve logar nos primeiros dias do mez de novembro de mil oitocentos quarenta e seis; e não se passaram muitas horas depois d'ella, sem que o aventureiro general visse caminhar ao seu lado, para Villa Real, o respeitavel pae de D. Maria da Gloria, tendo previamente recommendado ao seu afilhado, Arthur Soares, que auxiliasse a esposa na vigilancia do seu casal.
Quem podesse espancar as trevas da tempestuosa noite de dezoito do mez e anno referidos, e penetrar no terreiro da frente do palacio de Sebastião da Mesquita, veria alli tres liteiras e seus guias, um formidavel cortejo de lacaios, e cêrca de cem homens armados, todos recolhidos ao maior silencio. O capitão d'aquella força e apparato, era o fidalgo Leopoldo. Conseguira aquelle posto no exercito da rainha, em batalhão addido á brigada do commando de um general que, por aquella epocha, se aproximou da cidade do Porto, no intuito de lhe serem abertas pela traição, que se dizia combinada, as fortes linhas defensivas do baluarte da Liberdade.[3]
Não podemos averiguar como o snr. de Lencastre conseguira desviar aquella força da sua direcção para as cercanias do Porto. O que sabemos é que aquella gente caminhara de noite, por verédas escusas, no manifesto intento de evitar encontros com os sublevados. O mais, ficou sendo um segredo do voluntario capitão, e do general commandante da brigada.
No interior do palacio, e no quarto reservado a D. Maria da Gloria, onde tambem estavam Rosa e Anna, que ficaram sendo constantes companheiras da fidalga desde a ausencia de Sebastião da Mesquita, á mesma hora da chegada ao terreiro do já descripto e bellicoso apparato,--havia uma conversação, a que o leitor, ainda hoje, tem direito de assistir:
--Conheço agora, minhas boas amigas, toda a verdade do rifão--«diz-me com quem vives, saberei os fracos que tens.»--Estou supersticiosa com a nossa Annitas! Não sei o que me adivinha o coração... A ausencia do meu illustre pae e do João Vidal, e o escrupulo do snr. Arthur Soares, em não querer pernoitar n'esta casa, são naturaes acontecimentos, bem o conheço, mas despertam-me uns certos receios que até hoje não conhecia em mim!...
--Querem vêr que ainda lhe lembra a má catadura do irritado primo n'aquella noite de luar?!... Não pense em tal, minha querida snr.^a D. Maria, que a tempestade, se o foi, passou sem resultados fataes, e só deve restar d'ella, ao seu auctor, o pesar de a ter provocado.
--É de certo pela minha natural timidez que eu, partilhando os sustos da snr.^a D. Maria, vejo cahir sobre nós a tempestade, como a Rosa lhe chama, e fazer-nos victimas do seu louco furor...
--Por melhor o fará Deus, Anna... Comtudo, parece-me prudente não desprezar estes presentimentos, accordar a minha presada mãe e senhora, e pôr os criados de atalaia...
--Credo! o que ahi vae!... E o mais é que são capazes de reunir em mim, ao pêso d'esta tenebrosa noite de inverno, o mêdo do terror de que as sinto possuidas...
E as tres donzellas, como se fossem tocadas por occultas molas, saltaram fóra dos leitos, e vestiram-se apressadamente.
Ao mesmo tempo que se manifestava nas tres donzellas o máu presentimento revelado no dialogo a que fizemos assistir o leitor, sentira igual panico a velha fidalga D. Isabel de Abendanho e Sousa. Não são virgens estes casos. Muitos exemplos attestam o ter sido uma familia atacada de funestas ideias, e de iguaes padecimentos physicos, em alguns de seus membros ao mesmo tempo, vivendo até distanciados uns dos outros. Não sabemos se ha sciencia que explique o phenomeno; mas é certo que se tem dado.
Fez a dona da casa levantar os criados, que collocou de sobre-aviso, indo em seguida escutar á porta do quarto da filha, para certificar-se de se havia por alli em que fundar os seus receios. Na mesma occasião era aberta a porta por D. Maria e, juntas as quatro habitadoras do palacio, confidenciaram os seus mysteriosos sustos. Teriam apenas tempo de trazer a lume a mais diminuta parte de suas apprehensões, quando sentiram tropel de criados, tomando a direcção do quarto, que procuravam a senhora fidalga, para, entre temerosos e espantados, lhe darem parte de que o palacio estava cercado de tropa.
Foi então que aquellas quatro mulheres, tímidas momentos antes por ideias de imaginarios perigos, mostraram que o sangue frio e a coragem, quando chegam as verdadeiras tempestades da vida, não são qualidades alheias ao sexo chamado fragil.
Era, com tudo, tarde para se tomarem acertadas providencias contra qualquer aggressão. Um dos serventes da casa, comprado pelo ouro de Leopoldo, abrira uma das portas do palacio. Foram, pois, surprehendidas as tristes senhoras pela multidão de homens armados, á testa dos quaes se via o imprudente auctor d'aquelle attentado, e impossibilitadas de resistir aos intentos de seus perseguidores.
Entre alguns dos criados do palacio, e a força violadora d'aquelle lar, houve uma pequena luta--até aquelles serem subjugados pela vantagem numerica--perecendo apenas n'ella o criado traidor, ás mãos dos assalariados por aquelle que lhe comprára a fidelidade.
As tres donzellas foram brutalmente amarradas e conduzidas ás liteiras.
A velha fidalga presenceou tudo com denodo varonil, sem fazer o mais leve rumor, representando, na sua mudez e aspecto sublimes, uma perfeita estatua de concentrado soffrimento. Era uma «Vilhena» a meditar vingança condigna de tão atroz delicto. Ao arrancarem-lhe as donzellas, disse-lhes D. Isabel com voz severa:
--A infamia não vence a honra. Sabei morrer sem vergonha, que eu vos abençôo como Deus vos abençoará. Adeus, Maria!...
Retirados que foram os assaltantes com as suas presas, ficou o palacio occupado pelos fieis creados, agglomerados em volta de sua ama D. Isabel. Esta heroica matrona, teve força para recolher ao coração as lagrimas da saudade, o fel do desespero e do seu justificado odio ao malvado parente que a deshonrava, e para dizer com apparente tranquillidade aos que a cercavam:
«Quizera antes ter de vos lamentar mortos, e de vos mandar suffragar as almas, do que vêr-vos aqui sem aquellas em defesa das quaes deveriam todos acabar seus dias, porque eram vossas amas, vossas enfermeiras, e vossas amigas... Já agora não ha tempo para mais reflexões. Apparelhae todos os cavallos que estão nas cavallariças,--um d'elles para que eu o possa montar--soltae os animaes recolhidos nas lojas, colhei todos os retratos de familia que encontrardes, e deitae immediatamente fogo a este palacio. Não deve mais ser visto de meu marido, o logar onde um fidalgo villão insultou a mulher e a filha de um verdadeiro nobre. Reparae que eu _quero_ caminhar para a residencia do snr. reitor, alumiada pelas chammas da casa que foi habitação de meus avós!...»
Foram rigorosamente cumpridas as ordens da fidalga, que effectivamente caminhara para casa do reitor ao clarão que despedia o fogo lançado de seu mando ao seu solar, e ao som do toque de sinos a rebate, que o incendio provocara.
A meio caminho da residencia encontrou D. Isabel Arthur Soares, que o toque dos sinos despertara, ao qual referiu o succedido.
Duas horas depois das scenas narradas, quem fosse á sala do oratorio da residencia, encontraria uma senhora e um homem--dous velhos--ajoelhados, a orarem ao Creador. Eram o reitor e a fidalga D. Isabel.
Á mesma hora, passeava Arthur Soares, como louco, no seu quarto, brandindo um punhal, aquella detestavel arma, já conhecida do leitor, que D. Maria lhe legára.
[2] Verdadeiro ou imitado, mostrava Mac-Donnell ás pessoas mais importantes do partido realista, um escripto do punho do snr. D. Miguel de Bragança.
[3] É notavel a linguagem d'esta proclamação: «Portuenses!--O general *** volta de novo com a força de seu commando a aproximar-se das linhas do Porto. Elle não confia em si. Confia na traição. Mas engana-se. A junta está prevenida. Ninguem ousará dentro dos muros do Porto levantar um grito criminoso, fazer uma tentativa culpada. Ninguem o ousará. E ai d'aquelle que o ousasse! As medidas convenientes estão tomadas. Porto! A Europa nos contempla! Com a ajuda de Deus, pela intercessão da Virgem, protectora de nossas armas e de nossa gloria, o Porto será sempre vencedor--nunca vencido. A liberdade nos inspira! Os escravos que vem trazer os ferros, e a assolação a esta cidade ficarão petrificados deante de nossas bayonetas. O Porto é a cabeça de Medusa deante da qual os tyrannos estremecem e gelam de terror.
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