Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte
Chapter 3
--Das lições de V. Exc.^a é que ninguem aproveita... disse sacudidamente Rosa, que ha muito ardia por fallar, e que era contida pelo respeito devido á fidalga, e por se achar affectada com a inesperada direcção d'estes acontecimentos, que lhe descobriram o coração.
--Já me tardavam as provas de seu despeito, menina... Apraz-me têl-a por inimiga: das mulheres formosas, só nos deve magoar a indifferença...
--E o despreso, snr. meu primo?...
--V. Exc.^a despresa-me, minha nobre prima?... Tanto melhor, que posso usar sem constrangimento dos meus direitos de fidalgo e de parente de V. Exc.^a para annunciar ao mundo do bom tom, que a snr.^a D. Maria da Gloria Mesquita Bandeira de Abendanho, está ligada pelos vinculos _do mais apertado amor, com dispensa de sacramentos_, ao sobrinho do snr. reitor da freguezia...
Ainda o snr. Leopoldo não tinha acabado de pronunciar bem a ultima palavra do insulto, e já o som de uma estrondosa bofetada echoava nos ouvidos de todos.
As discipulas de D. Maria deram um abafado grito e retiraram-se da janella, a um pequeno impulso que lhes deu D. Maria. A fidalga, julgando ter sido Arthur Soares que déra o castigo ao insolente, ficou sobresaltada, e dirigiu-lhe, ainda que meigas, algumas censuras, a que o brioso mancebo respondeu, que outra mão, mais prompta que a sua, castigára o desaforado fidalgo.
Fôra o caso, que João Vidal, o escudeiro, andando na sua costumada ronda pelas cercanias do palacio, e ouvindo parte do dialogo, aproximou-se cautelosamente do sitio onde estava Leopoldo, e lá se conservou até ao momento em que o insulto feito á sua nobre ama, o levou a estender a mão na cara do petulante com força tal, que o snr. de Lencastre cahiu redondamente no chão do pomar. Logo que se levantou, ardendo em ira, partiu para o escudeiro de punhal na mão. João Vidal, suspendeu-lhe o braço homicida e arrancou-lhe da mão a arma cobarde, em menos tempo, tudo isto, do que se gasta a contal-o.
Vendo-se abatido, sem armas, e marcado pelo mais ignominoso ferrête que um homem póde imprimir n'outro homem, Leopoldo vociferou:
--Por um escudeiro!... Vergonha eterna!... Juro que a vingança ha de ser superior á affronta... Não posso medir-me comtigo, villão, mas quero e hei-de vingar-me... Vingar-me de todos... Ouviram?! De todos!... E a ti, canalha... escudeiro infame... hei de afogar-te como se afoga um cão vadio!...
Proferidas aquellas selvagens ameaças, retirou-se o possesso, a passos accelerados, não dando assim logar a maior castigo.
João Vidal, com toda a submissão e respeito, pediu á sua joven senhora desculpa para o que fizera sem premeditação, e levado unicamente pela violencia do insulto. D. Maria agradeceu-lhe com palavras vehementes, e ordenou-lhe que entregasse o punhal ao snr. Arthur Soares, o que o escudeiro fez, sem exitação, pedindo depois licença para retirar-se.
Arthur, surprezo com a ordem e a entrega, perguntou a D. Maria, que uso devia fazer d'aquella arma.
--Guarde-a--lhe disse a fidalga--até que eu lh'a peça.
--É perigoso este instrumento na minha mão, senhora, desde que me vejo causa involuntaria das mágoas de V. Exc.^a... Esta noite foi para mim ao mesmo tempo a vida e a morte... Tive sempre horror ao crime, e vejo-me levado pelo destino a ser necessariamente criminoso! Acolhendo em meu peito sentimentos, que nem ao dominio dos meus sonhos quereria que pertencessem, terei de luctar e de punir, de caminhar para a incerta felicidade por cima do cadaver de um inimigo, vilissimo é verdade, mas bem nascido e poderoso... O que devo fazer em tão apertada como temivel conjunctura?!... Não devo escolher entre dous crimes, aquelle de que só eu venha a soffrer as fataes consequencias?!... Nunca me persuadi de que havia de chegar uma hora em que assim fosse abalada a minha austeridade em principios religiosos!... Nunca imaginei que seria forçado a praticar, o que sempre tenho rebatido com todas as forças de uma profunda convicção!... Adeus, snr.^a D. Maria da Gloria!... Amanhã será entregue a V. Exc.^a esta arma por pessoa de confiança.... Peço-lhe que ao recebel-a se lembre com alguma saudade do martyr de umas certas crenças, talvez irrisorias n'esta epocha de... progressos... Adeus!...
--Ordeno-lhe que fique!... Disse D. Maria com um tal assento de voz, que obrigou Arthur a ficar como petrificado.
--O snr. Arthur Soares, pensar em suicidar-se?!... Onde escondeu a fortaleza do seu espirito robustecido pelo estudo?! Como assim esqueceu os salutares conselhos de sua boa mãe, que o snr. Soares muitas vezes me tem repetido?! Que fez das arreigadas crenças na religião de nossos paes, que o snr. Arthur dizia ser a mais racional e acceitavel de todas as religiões, mesmo desprendida do que n'ella ha de mysterioso e divino?!... Ah! snr. Arthur Soares, que me parece imperdoavel essa allucinação!... Já não quero fallar-lhe no abandono em que deixava as pessoas amigas, só pelo egoismo de não soffrer na lucta! Isso prova que as melhores almas tambem têem suas fraquezas... Lembre-se, senhor, que á vida de V. S.^a póde estar presa alguma outra vida; e que, querendo fugir a matar um inimigo vil, quando seja absolutamente indispensavel o fazel-o, póde assassinar _alguem_ com o seu suicidio...
--Pois V. Exc.^a?!!...
--Adeus, snr. Arthur Soares! Durma tranquillo e guarde bem essa arma que deve ser entregue por V. S.^a _em pessoa_ a mim, ou, de minha ordem, á minha amiga e discipula Rosa...
Ditas estas palavras, retirou-se D. Maria da janella, que fechou de manso.
Arthur permaneceu no mesmo logar por largo espaço de tempo, immovel, com os olhos fitos na formosa lua cheia, e o pensamento entregue ao vago de estranhas e indecifraveis sensações. Accordou d'este delicioso e pungente lethargo, á voz amiga de João Vidal, o escudeiro, que o acompanhou á residencia do thio.
IV
MÃE E MADRE
«Espero que essas pedras, que em outras foram de escandalo, sejam em v. m. padrões de espirituaes exemplos.»
(_Fr. Ant. das Chagas_--CARTAS ESPIRIT.)
Pelos fins do mez de janeiro de 1807, um cavalleiro envolto em larga capa, acompanhado de seus lacaios e creados a pé, desmontou, seria meia noite, defronte da portaria do convento e mosteiro, da invocação de Nossa Senhora das Candêas, de freiras de S. Bento, que fundou, nas casas em que nascêra na villa de Moimenta da Beira, o doutor Fernão Mergulhão, filho de Vasco Mergulhão e de sua mulher D. Leonor de Lucena, pessoas nobres e de vastos rendimentos.
O cavalleiro, bateu tão de rijo com a aldrava do portão, que a communidade inteira accordou ao estrondo produzido pelos repetidos embates da massa de ferro.
Em quanto as noviças alvoroçadas perguntavam em voz baixa umas ás outras, o que poderia significar uma visita a taes deshoras, e que a muito respeitavel abbadessa se erguia com inquietação, foi repetidas vezes renovado o chamamento com furia egual, se não superior, á das primeiras pancadas, até que a soror rodeira, toda espavorida, tendo-se vestido precipitadamente e sem esperar as ordens da superiora, desceu até onde podésse ser ouvida e, com a maior força que podia dar á sua voz septuagenaria, perguntou:
--Quem, a esta hora, vem assim perturbar o repouso da vida claustral?!
--Muito digna soror rodeira, tende a bondade de annunciar á senhora abbadessa, a urgentissima necessidade de escutar, por um pouco, a um de seus mais proximos parentes e ao mais humilde de seus servos.
A este tempo, já a madre abbadessa estava ao lado da soror rodeira e, reconhecendo a voz que a invocara, mandou que abrissem a porta sem demora. Introduzido o cavalleiro no palratorio, depois de ter alcançado a benção da abbadessa, fallou assim:
--Minha muito respeitavel e estimadissima thia e senhora! Venho aqui, a horas bem importunas, implorar de V. Exc.^a a minha tranquilidade domestica, porque ha já mezes que me é insupportavel a vida ao lado de minha esposa e prima D. Leocadia.
Não sei porque artes minha mulher descobriu a existencia do João, d'esse filho do peccado, que a minha boa thia e senhora quiz ter a caridade de recolher dentro d'estas sagradas paredes. E, desde que o sabe, ameaça-me de separar-se de mim e de levar todo o seu dote, que é, como V. Exc.^a sabe, a maior parte da minha casa, se eu não entregar o pequeno ao destino que ella lhe queira dar. Eu conheço o coração de Leocadia, e sei que ella é incapaz de maltratar o Joãosinho, e por isso...
--Suspenda, snr. meu sobrinho, suspenda o seu desnaturado pedido, que lh'o roga esta velha, em nome do Nosso doce Salvador Jesus. Entregar a uma inimiga declarada, o meu querido filho adoptivo, o innocentinho a quem salvei a vida com desvélos e cuidados, que talvez custem--quem sabe?--indelevel mancha ao convento de que sou indigna superiora?!... Nunca, snr.! Nunca espere semelhante acção de sua thia... Deu-me ha tres annos, por uma hora igual a esta, seu filho recem-nascido. Considerei-me, quando me vi forçada a recebel-o para evitar escandalos, escolhida pelo Nosso bom Deus, para exercer uma de suas infinitas obras de misericordia. Vi-me attribulada para conseguir mitigar a sêde ao anginho, que dava gritos dolorosos!
Fui eu mesma aos curraes buscar o leite necessario, e apartar depois a mais formosa das nossas cabrinhas, para servir de ama ao innocentinho... Não me foi possivel occultar por muito tempo, ás virtuosas madres minhas santas companheiras, a existencia do menino n'este recinto protector. Todas ellas tem affecto egual áquelle que eu dedico ao nosso bello Joãosinho. O nome, que recebeu no sagrado baptismo, é o do milagroso santo padroeiro d'esta villa, que ha de abençoal-o e protegel-o... É o enlevo de todas a triste creancinha; é o cofre em que depositamos as joias das nossas affeições mundanas. Este nosso affecto, não póde offender nem diminuir o que votamos ao nosso doce esposo e bom Jesus, que é todo caridade, todo amor, todo misericordia, todo compaixão para as fracas creaturas de que é pae extremosissimo...... Assim que o meu querido filho adoptivo completar dez annos, hei de separar-me d'elle, ainda que um rio de lagrimas me custe a separação, porque não póde, nem deve, continuar a viver aqui; mas eu escolherei o destino do abandonado infante. Pedirei ao nosso bom Deus, que me inspire, e tenho fé em que hei de acertar... É esta, meu sobrinho, a minha irrevogavel resolução. Recorde-se de que lhe ouvi, n'aquella noite assignalada da entrega que me fez de seu innocente filho, a inaudita blasphemia de que, se eu o não recebesse, o deixaria a qualquer canto de uma estrada!... Um pae que profere taes palavras, perde, desde esse momento, os direitos da paternidade... Snr. meu sobrinho! Digne-se Deus esquecer os seus erros!...
Assim fallando, com um tom imperioso e sêcco, deixou a madre abbadessa interdicto o seu interlocutor, que teve de retirar-se, não sem protestar haver pela força e violencia, o que á boa paz não pudéra conseguir, ameaças que ainda foram ouvidas pela respeitavel abbadessa.
Era fama por todo o Portugal, fundada em apparencias mais ou menos falsas, que as noviças e senhoras religiosas do convento de Moimenta da Beira attrahiam ás suas grades a flôr da mocidade das provincias da Beira e Minho, não só pela notavel belleza de muitas d'ellas, mas, principalmente, pelo modo affavel com que recebiam as suas visitas.
Dos mais assiduos frequentadores d'aquelle claustro, era um mancebo elegante, distincto em acções e nascimento, que já havia sustentado bastantes galanteios, com donzellas de todas as classes sociaes. Logo ao principiar a juventude, creára compromissos de homem feito; e declarava a sua vida intima, a todas as pessoas que o escutavam, com a leviandade propria dos annos ainda verdes.
Fôra muitas vezes, sem elle o saber, espreitado pela respeitavel madre abbadessa, em occasiões que se tornava expansivo com uma das mais lindas noviças d'aquelle convento, que o attendia e mimoseava, ao palratorio, com golodices e innocentes amabilidades.
Certo dia, foi-lhe alli entregue uma carta urgente, que pediu licença para lêr. O contheúdo no escripto, fizera-o mudar o semblante tão salientemente, que a formosa noviça não resistiu á tentação de perguntar-lhe, que má novidade o pozéra assim.
--Está muito doente, um filhinho que tenho...
--Pois o snr., que é solteiro, tem um filho?!...
--Tenho, e quero-lhe tanto como se elle houvesse nascido do mais legitimo matrimonio.
Amo as creanças em geral, e estremeço aquella a que dei a existencia. Todos os sacrificios seriam insignificantes para mim, quando se tratasse de salvar innocentes creancinhas. Sou novo, mas quer-me parecer que em tempo algum perderei os sentimentos de que já me orgulho. Só reconheço a legitimidade do sangue, que é perfeitamente igual nos bastardos como nos filhos do mais santo hymeneu.
--Graças, meu doce Senhor Jesus, que já encontrei o que fervorosamente pedia á vossa infinita bondade!... Disse uma voz, sahida do interior das grades, que ambos reconheceram ser a da senhora abbadessa.
Appareceu á grade, acto seguido, a trémula e veneranda cabeça da respeitavel superiora d'aquelle sagrado recinto, resplandecente de uma auréola de luz divina, e pediu, com a mais terna affabilidade, á noviça, que a deixasse ter um segredo com aquelle bondoso e nobre cavalheiro.
Revelou a santa velhinha ao mancebo, como em seu poder cahira do céu o pequenino João, que alli escapára ao abandono de paes desnaturados.
Disse-lhe que muito receiava que o pae do innocente, movido por vil interesse, tentasse apossar-se do filho pela violencia, o que não seria difficil conseguir em uma terra certaneja, onde não havia segurança nem para o asylo sagrado das esposas de Jesus Salvador. Pediu-lhe pelas sagradas dôres de Maria Santissima, que tomasse a seu cargo o futuro d'aquelle infeliz, que ella, amando-o como carinhosa mãe, confiaria do seu cavalheirismo, porque uma voz occulta, que nunca lhe mentira, lhe dizia que podia confiar. E quando, em algum dia dos poucos que tinha para viver, podesse haver ás mãos documentos que aproveitassem ao seu querido filho adoptivo, lh'os faria entregar por modo seguro.
Logo que os soluços e as lagrimas da santa freira deram logar a ser ouvida do mancebo, a quem fizera tão estranha revelação e ponderoso pedido, disse-lhe, com uma solemnidade inesperada, que podia ficar tranquilla, em relação ao futuro da creança, que elle, desde aquelle momento, tambem adoptava por seu filho.
Ás onze horas da noite d'aquelle dia, quem penetrasse até á porta das cellas das religiosas benedictinas de Moimenta da Beira, sentiria lá dentro lagrimas abundantes, porque todas choravam a ausencia de Joãosinho, fragil e inoffensiva creatura, que aquellas bondosas senhoras amavam com maternal affecto.
Ha sempre, mórmente em terras de poucos e incultos habitantes, vigias nocturnas, homens morcêgos, que devassam os mais insignificantes acontecimentos da rua, e que levam a sua audacia até ao ponto de pretenderem sujar o sanctuario da familia com inducções calumniosas, tiradas dos incidentes presenceados, a que não sabem nem podem dar verdadeira interpretação.
O fallar-se dentro do convento a deshoras, o bulicio de homens e cavallos, por occasião da entrada e tambem da sahida da creança, alguns indicios da existencia do pequeno João junto das freiras, o bom gasalhado que as trataveis madres davam ás suas visitas, e os commentarios exageradissimos dos vadios indagadores,--foram causas, tão indignas como infundadas, da extincção d'aquelle convento.
É assim, muitas e repetidas vezes, a justiça dos homens.
Ao leitor attento, escusado talvez seria declarar, que o mancebo a quem foi entregue o pequenino João, se chama, n'este conto, Sebastião da Mesquita. E a creancinha, salva da sanha de uma terrivel madrasta e da cobardia de um indigno pae, pela santa abbadessa,--madre e mãe adoptiva--tem aqui os nomes de João Vidal, o escudeiro.
V
UM LEVITA
«Apostolo é o pae que se afadiga Só para que descance o filho amado; Apostolo é a rocha em que se abriga Ave agoureira e pobre desgraçado; Apostolo é a lagrima que amiga Cae pela face em peito amargurado; E esse monstro do Céu que solitario Correu o mundo á busca do Calvario.»
(_J. de Deus_--FLOR. DO CAMPO.)
Em Santiago de Esporões--antiga vigairaria do arcebispado bracarense, onde Martim Ribeiro fundou uma capella chamada de Nossa Senhora da Caridade, e estabeleceu um celleiro para os pobres, com dinheiro por elle adquirido no Brazil--residia, no anno de 1799, uma honesta familia de pequenos proprietarios lavradores, composta de marido, mulher e um filho de nome Alvaro, rapaz de cinco para seis annos de idade.
Os apoucados lavradores, por mais de uma vez em tempo de más colheitas, tiveram de recorrer ao celleiro dos pobres, restituindo o emprestimo, quando mais farto era o anno, com o _avanço_ de seu alvitre, segundo o uso e lei do estabelecimento de Martim Ribeiro, que não marcou limite ao juro para os que o queriam e podiam dar.
É de mui antigas éras o costume portuguez, pronunciadissimo na provincia do Minho, dos paes imporem o destino aos filhos, quasi ao sahirem da pia baptismal. Este erro,--que tem origem na falta de illustração do povo, e tambem, o que peior é, em calculadas conveniencias familiares,--dá em resultado a troca de vocações, padrinho mal de muitas immoralidades e ruinas. Algumas vezes sem o quererem, na idêa até de evitarem imaginarios prejuizos, são os paes que forjam a completa desgraça de seus filhos, marcando-lhes, sem escrupoloso exame, a estrada a proseguir no transito da vida, trilho sempre difficil de aplanar, e impossivel de vencer sem desastres, para os que o percorrem violentados.
Os pobres lavradores de Esporões, convencionaram fazer do seu unico filho um vigario. Ter um padre na familia, ouvir-lhe a primeira missa e vêl-o cura d'almas, é a suprema ambição dos camponezes.
Alvaro, havia de ser padre, porque seus paes o queriam. Tinham feito todos os calculos; as propriedades que possuiam chegavam para o patrimonio; e para as despezas da ordenação, quando minguassem os rendimentos, passariam fome se tanto fosse necessario. As fortes e decididas vontades, não conhecem obstaculos.
Chegou a hora de Alvaro tomar logar nas aulas de Braga. Alcançara-lhe o pae alojamento na rua de S. João do Souto, em casas da morada de uma viuva bem reputada e muito moça ainda, que havia calculado augmentar o pequeno rendimento de seus poucos haveres com o lucro proveniente de apatroar um estudante.
É d'este modo que bastantes familias, nas populações onde ha lyceus e aulas publicas, diminuem as suas occultas necessidades.
Chamava-se Eugenia Soares a viuva, que o era de um alferes do exercito portuguez, e contava vinte e duas primaveras no anno em que acolheu ao seu lar o estudante Alvaro da Cunha. Este, havia completado 16 annos de idade, e preparava-se para fazer exame do latim, que principiara a estudar na sua aldeia, tendo por bom professor o parocho da freguezia.
Eugenia, não houvera filhos do seu matrimonio, nem conhecia parentes proximos que lhe fossem amparo. Vivia em companhia de uma creada, que já o fôra de seus paes antes d'ella nascer, que lhe queria como a filha, que todos os dias recordava as virtudes de seus velhos e fallecidos amos, e que era a sua unica conselheira e amiga. Antes de resolver a entrada de um estudante em sua casa, consultára Eugenia a sua Theresa, que apenas objectára dever ser o admittido ainda rapaz e não homem feito. N'aquelles felizes tempos, só depois dos trinta annos completos se gosava o nome de homem.
Quando a velha Thereza precisava de sahir ás compras, Eugenia e Alvaro prestavam-se mutuo auxilio nos afanos domesticos. Nasceu assim entre elles uma innocente intimidade, que os deleitava. Succedia repetidas vezes ter Alvaro a delicadeza de preceder a patrôa no amanho das iguarias, confundindo o seu trabalho com o de Eugenia, e dando isto logar a toques de mãos tão singelos como perigosos nas edades em que o calor do sangue traspassa a cuticula, e póde, pelo contacto, communicar as doenças physicas e os ardores moraes: d'aquellas, e d'estes, ha a temer, após a communicação, a reciprocidade de padecimentos, sendo o amor o mais fatal de todos, por ser incuravelmente nervoso.
A viuva e o estudante adoeceram da terrivel molestia, que se não cura tendo a séde na alma.
Decorreram cinco annos.
Faltava ao ordinando um exame, para completar o seu estudo e ficar preso á egreja. Mais alguns mezes passados, e acabaria o engano das almas de Eugenia e Alvaro, que já durava muito, livre de vicissitudes e de impurezas.
Chegou o menorista, de ter passado as férias grandes na sua aldeia, sem grande pesar de haver deixado a companhia dos paes, que trocava por outra havida por mais terna: é assim o coração humano.
O estudante deparou com Eugenia physicamente mudada, e sobresaltou-o tão rapida alteração. Viu pallida, magra, chorosa e pensativa, a mulher bella, como sempre nos parece a do amor, que deixara, quarenta dias antes, com todo o viço de uma feliz mocidade. Fez-lhe um montão de perguntas, e só teve lagrimas em resposta.
As gotas de humor aquoso que sáem a pares dos olhos da mulher estimada, transformam-se em ferros agudos, a rasgarem fundo na alma do homem que as sente.
Seccaram-se as lagrimas: como? Ao sol do amor, que o menorista fez nascer do soffrimento.
A mudez de Eugenia promoveu a de Alvaro. Em casos taes, o silencio é o requinte do sentimento.
A noite d'aquelle dia passou-a o estudante a scismar. Quando pelas fendas da janella do seu quarto conheceu o alvorecer, vestiu-se e sahiu. Não fez reparo em achar apenas cerrada a porta da rua, por que a sua preoccupação estava sobranceira aos factos materiaes. Caminhou sem direcção premeditada. Ao passar no largo da Sé, viu aberta uma porta lateral da egreja, e foi orar. Acabada a oração, reparou n'um vulto encostado a um confissionario, em posição de penitente, e estremeceu: não a vira, adivinhara Eugenia n'aquella confessada.
O que atravessou o espirito do ordinando por aquelle encontro?
Nem elle o saberia dizer. Só com grande esforço, conseguiu recolher-se a casa e deitar-se vestido sobre a cama. Passadas horas, e já quando se tornou reparada a falta de Alvaro á primeira refeição, entrou a velha Thereza no quarto do estudante e perguntou-lhe se estava doente.
--Doente, e muito. Diga á snr.^a D. Eugenia, que estou vestido, como vê, e que lhe peço a mercê de vir fallar-me.
Eugenia, entrou no quarto de Alvaro, e aproximou-se do leito com sobresalto. O doente, levantou rapidamente a cabeça e, sem dar tempo a perguntas, disse:
--A senhora tem a bondade de mandar a Thereza procurar um portador que vá já buscar meu pae?
--Para quê?!
--Para sahir d'esta casa e d'esta terra immediatamente, a vêr se posso curar-me do mal que me assaltou esta manhã, e passar o resto da vida como a passam meus paes... Já não quero ser... _padre_!
--Foi _elle_, foi, Alvaro, que me aconselhou a despedir-te!... Mas eu amo-te, ouves? e não quero que me fujas... Deus não póde ser tão severo como diz _aquelle_ seu ministro; ora não?... E eu morria se tu me faltasses; tenho a certeza de que morria... Vês? Só agora, que deveria proceder de modo bem opposto, se attendesse aos dictames do meu confessor, é que rompo o véu do meu coração!...
A severidade, talvez egoista, de um padre indelicado, accelerou o natural desfecho d'aquellas relações.
A missão melindrosa do confissionario, mais ainda que a do pulpito, só devia ser confiada a cabeças muito sãs, e a purissimas almas.
Alvaro, ficou e sarou logo: bem dever era, que ficava e que sarava. Depois de scenas assim expansivas, é que nós não _ficamos_ pela continuação da pureza no sentimento.