Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte

Chapter 15

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--Como são sevéras as suas palavras, meu querido pae!... E diz-me o coração, que os seus sentimentos são os meus, e que, no meu caso, seria em tudo semelhante o seu procedimento... A prova d'esta minha convicção, está no silencio que tem guardado, quando muito bem conhece que o simples enunciado da sua vontade seria para mim uma ordem terminante... Porque me não ordena o que devo fazer?...

--Chega-me a minha vez de fallar, e principio por usar da minha auctoridade de enfermeira, lembrando ao impertinente doentinho, que não póde ainda entrar em conversações animadas... Sim, agora o mais bonito é isso!... Chorem, chorem ambos, mortifiquem-se bem, e não tenham pena de mim, que os heide aturar doentinhos!...

--És o melhor dos anjos, minha querida Maria!...

--Nem sou _anjo_, nem sou ainda _sua_, seu mau... Isso hade acontecer, quando se realisar um sonho que eu tive uma d'estas noites......O snr. Arthur Soares, figurava no meu sonho como um grande personagem, cercado de attenções e de respeitos, podendo dispensar protecção, e não tendo já que receiar dos maus juizos que o mundo fórma quando vê ligações entre duas pessoas que não pesam do mesmo modo na balança das conveniencias... Eu era sempre a mesma rapariga aldeã, que _V. Exc.^a se dignava elevar_ até á sua altura, e que caminhava para a capella tão contente por o meu esposo ser um _potentado_, como o estaria se elle fosse um simples _operario_...

--Basta, minha adorada Maria!... Fixa tu a epocha do nosso casamento...

--Está fixada, já lhe disse... Esperemos a realisação do meu sonho, que me diz o coração, que não havemos de envelhecer esperando... Quero que fiquem bem satisfeitos todos os seus caprichinhos... E agora, nem mais uma palavra, que te faz mal fallar...

X

VIAGEM DA RAINHA

«Foi então que se apossou da corôa.»

(A. HERCULANO--EURICO.)

«Crer e amar--é a unica religião verdadeira; crer e amar--a unica poesia verdadeira: uma não está sem a outra.»

(V. DE ALMEIDA GARRETT--HELENA.)

A guerra civil gastou a nossa energia, e converteu a dissenção armada em vinganças mesquinhas, em baixos enrêdos e ambiciosas abjecções. O povo, esmagado com o peso dos tributos e dilacerado pelas inglorias luctas dos bandos politicos, tinha perdido as crenças, e o amor ao systema liberal: o throno, á força de lh'o pintarem de ferro, figurava-se-lhe tyrannico. Foi então que uma feliz revolta militar levou ao poder os primeiros homens que pozeram em pratica a constituição.

Ferindo no ámago a roedora agiotagem por medidas energicas; apagando os odios politicos; equilibrando quanto possivel a receita com a despeza do estado; pagando em dia aos empregados da nação; garantindo as patentes aos officiaes do exercito, e fazendo este alheio aos baldões politicos; dotando o paiz de estradas e outros melhoramentos materiaes; dando accesso nos empregos aos homens de todas as côres politicas; segurando os direitos individuaes; e pondo, finalmente, em acção todo o machinismo de uma verdadeira monarchia constitucional,--o primeiro ministerio chamado _regenerador_, não desmentiu este nome redemptivo.[17]

Não contentes de haverem grangeado a estima publica pelos seus actos, aquelles vultos politicos do memoravel ministerio _regenerador_, quizeram dar ao povo portuguez um conhecimento perfeito das altas virtudes da familia real, e aconselharam-na a viajar pelo reino. Este passo teve o alcance meditado: o nobre povo portuguez ficou amando, como ella merecia, a senhora D. Maria II, e a sua dynastia.

Pouco tempo depois, a digna filha do rei soldado, foi chorada, na sua prematura morte, por todos os partidos; sendo para notar-se a parte distincta que tomou no lucto, o partido que era affeiçoado ao infeliz principe proscripto.[18]

Continuou, sob a regencia do sympathico e bondoso monarcha, o snr. D. Fernando, a sua bem assignalada gerencia, o ministerio regenerador.

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Era tudo rumor e gala no antigo solar dos Bandeiras, Mesquitas e Abendanhos. A respeitavel snr.^a D. Isabel, parecia ter voltado aos seus vinte annos, pela rapidez com que dava ordens e movia as chaves que lhe pendiam do cinto. Era justificado o regosijo e o afan, porque a velha fidalga esperava a honra de hospedar a familia real em seu palacio. D. Maria da Gloria acompanhava a mãe nos precisos trabalhos com vivo contentamento. D. Rosa deixara de ter questões com o marido,--para resolverem qual d'elles devia ter mais tempo no collo um robusto rapaz, fructo do seu amor, que era afilhado de D. Maria da Gloria e de Arthur Soares,--e tambem dava o seu contingente para os preparativos do palacio. João de Lencastre fôra encarregado por D. Maria de uma commissão diplomatica: era forçoso conseguir que Arthur apparecesse, fardado, á rainha!... Innocente capricho, chamou o ex-coronel á exigencia da sua Maria e, embora estivesse sempre em projecto o seu casamento, folgava de obedecer á vontade d'aquella que era tudo para elle. O capricho, porém, não era tão innocente como parecia. João de Lencastre tornara-se fallador, como todas as pessoas felizes, e havia contado a D. Maria, que Arthur fôra o official escolhido em Setubal, para levar a Sua Magestade os objectos que lhe eram destinados, e que foram tomados com um navio de guerra. Ora, esta revelação, fez conceber um plano á fidalga moça, que devia tornar realidade o sonho precursor do seu casamento.

Chegou a familia real, e foi recebida alli, da mesma fórma que em todo o seu transito, com as mais festivas demonstrações de leal affecto da parte do povo apinhado na estrada, que entoava freneticos vivas aos reaes viajantes, e os cobria de flôres.

N'um intervallo das enfadonhas etiquetas, a que mesmo em viagem está sujeito o primeiro magistrado de uma nação, conseguiu D. Maria da Gloria fazer-se ouvir da rainha. Pouco depois, foi apresentado Arthur Soares a sua magestade, que logo o reconheceu:

--Felicito-me, snr. official, por ter chegado o _tempo mais feliz_, a que me referi em palacio quando tive de agradecer-lhe o modo nobre e attencioso com que se houve n'uma commissão delicada. Dizem que os reis constitucionaes não podem fazer mercês a seu bel-prazer; mas se isso é regra, soffre excepção quando os ministros responsaveis possuem as qualidades d'aquelles que ora me cercam... Fica o snr. official com as honras de coronel do exercito portuguez, cujo uniforme veste; pertence, desde hoje, aos fidalgos da minha casa, e póde desde já assignar-se conde de Setubal... Agora, consinta á sua rainha, que lhe manifeste a vontade de ser testimunha e protectora do seu casamento... Sei que as formalidades indispensaveis ha muito esperam por a sua resolução, está a dous passos a capella do palacio, e eu tenho aqui o meu padre esmoller-mór...

--Senhora! Toda a minha vida será dedicada a vossa magestade e á sua real familia, como ha-de ser transmittida por mim a meus filhos, a obrigação de darem todo o seu sangue em defeza do throno e dynastia da minha muito amada rainha a senhora D. Maria II!

--Obrigada, conde... Ame muito a sua esposa, que as _Marias_ são dignas de um leal affecto... Levante-se condessa! É nos meus braços que eu costumo apertar as pessoas que têem a sua alma... Finda a ceremonia do casamento, quiz a rainha vêr, antes de retirar-se, o padre Alvaro, que foram chamar á residencia a toda a pressa. Logo que chegou, dirigiu-lhe sua magestade a palavra n'estes termos:

--Foi me descripto o seu caracter, por quem conhece as suas virtudes. Não lhe faço mercês porque sei que as regeitaria com evangelica abnegação; mas peço-lhe que distribua pelos seus pobres o dinheiro que lhe ha-de entregar o meu esmoller-mór... Peço-lhe ainda algumas orações para esta mulher corôada, que dentro em pouco tempo ha-de ser pó... Os medicos desenganaram-me... Queriam _remediar o mal infallivel_ não sei com que _medicinas preventivas_, que eu recusei formalmente, porque não tremo de morrer no meu officio de mulher, que é tão nobre, pelo menos, como o de rainha...

--De que preces póde carecer uma santa como vossa magestade?!...

--Sempre rese, padre Alvaro; bem sabe que o maior justo pecca muitas vezes...

--Resarei, real senhora! e será meu o proveito das orações, como ha-de ser de vossa magestade o reino do céu!...

[17] Quando revemos as provas d'este capitulo, annunciam os periodicos a realisação de um emprestimo nacional, nas mais vantajosas condições para o thesouro, de reis quarenta e tres mil oito centos e oito contos--tres mil oito centos e oito a maior do que o governo solicitava para a consolidação da divida fluctuante! É geral o contentamento, esperançosa, e proxima, a organisação das nossas finanças, e notavel o credito que o emprestimo nos faz ter nas principaes bolças da Europa. Outros factos, igualmente importantes, em bem do paiz, estão succedendo sob a gerencia de um governo composto das reliquias d'aquelle que louvamos.

[18] O snr. João de Lemos, publicou, por occasião da morte da snr.^a D. Maria II, a conhecida poesia--O FUNERAL E A POMBA--da qual consignaremos aqui estes edificantes versos:

Soldados, que ha vinte annos Com esforços sobre humanos Batalhaes por vossa fé, Soldados, eia, de pé! Respeitem-se aquellas mágoas, E do nosso pranto as agoas Lavem d'odio o coração; Não ha odios d'este lado, Nem se deshonra um soldado, Quando abraça seu irmão.

Ponham-se treguas á guerra, E ninguém manche esta terra Ao pé de funérea luz; Soldados, olhai a cruz! Demos pranto a quem prantêa, Demos dôr á dôr alheia, Nos dois campos lucto egual! Nenhum, nenhum se envilece, Unidos na mesma prece, Junto á loisa sepulchral.

Solemne melancolia, Seja n'hora da agonia Nosso tributo cortez; Que o tomem, que é portuguez! Portuguez d'aquelles peitos, Por tantos annos affeitos Na lealdade a soffrer; Portuguez que vem das eras, D'aquellas crenças sinceras _D'antes quebrar que torcer_.

Que o tomem; e nós, soldados, Ao vêl-os tão consternados, Respeitemos-lhe a sua fé; Amigos, eia, de pé! Era o seu chefe, e bandeira, Diziam-n'a companheira De infortunio e proscripção; Comprehendemos, pois, seu grito, Nós, soldados do Proscripto, Vinte annos gemendo em vão!

A cada um sua crença e dôres, Cada qual estreme as côres Do pendão que traz por si; Todo branco, é o nosso aqui. Mas, se d'elle voz sagrada Nos manda, por gloria herdada, Ou morrer ou triumphar, Tambem no alto do Calvario Outro estandarte, um sudario, Manda os tristes consolar.

Porque é de arraial opposto, Não córa o tributo o rôsto, A quem o toma ou quem dá; Soldados, lucto de cá! É tributo á monarchia, Por dois campos n'um só dia, Cada qual por sua lei; Um faz honras á Rainha, Outro á Princesa, sobrinha D'aquelle que jurou Rei!»

EPILOGO

EPILOGO

São decorridos cinco annos, depois do casamento de Arthur com D. Maria da Gloria, e estamos no dia do 4.º anniversario natalicio de uma interessante menina, que é a filha estremecida de tão venturoso par.

O filho de Rosa e de João de Lencastre, dous annos mais velho, dá-se ares de protector da priminha, que cérca de brinquedos e caricias infantis. D. Isabel prepara toda jubilosa a festa dos annos da sua netinha. João de Lencastre está narrando á mulher o que presenceára em casa do irmão, d'onde recolhia de o haver visitado, triste pelo definhamento em que vira Leopoldo. D. Maria e Arthur estão de mãos dadas contemplando as crianças, e trocando phrases embalsemadas de felicidade.

É de bem diverso effeito, a scena que vamos presencear na egreja parochial da freguezia. O padre Alvaro, envelhecido e quebrantado em extremo, está ajoelhado sobre a campa, que encerra os restos mortaes da mãe de Arthur, e lê esta passagem da Biblia:

«Disseram-lhe seus discipulos: Se tal é a condição de um homem a respeito de sua mulher, não convém casar-se. Ao que elle respondeu: Nem todos são capazes d'esta resolução, mas sómente aquelles, a quem isto foi dado. Porque ha uns castrados que já assim nasceram; ha outros castrados a quem outros homens fizeram taes; e ha outros castrados, que a si mesmos se castraram por amor do Reino dos Céus. O que é capaz de comprehender isto, comprehenda-o.»

A leitura d'estas palavras, que são, para a egreja catholica, a desculpa do padre celibatario, fez cahir o livro das mãos de Alvaro, e obrigou-o a dizer, em consternadora exclamação:

--Oh meu bom Deus! quando terão fim os meus remorsos?!... Quando poderei deixar a vida esperançado no vosso perdão, oh Senhor Misericordioso?!...

Lançou em seguida os olhos á Biblia, que no chão ficára aberta, e passados poucos momentos, empregados em lêr o que a Providencia lhe deparou com a queda do livro santo, estava o padre Alvaro radiante de alegria, erguendo as mãos e os olhos ao Céu em acção de graça!... As palavras que causaram a repentina mudança no attribulado espirito do bondoso padre, foram estas:

«Digo-vos que assim haverá maior jubilo no Céu, sobre um peccador que fizer penitencia, que sobre noventa e nove justos, que não hão de mister penitencia.»

Entrou n'aquella occasião na egreja toda a nova familia de Arthur, incluindo as creancinhas e a velha fidalga D. Isabel, que vinha buscar o padre para a festa dos annos.

Findo o alegre jantar, desceram todos ao jardim, á excepção de D. Isabel. Este local, é o mesmo em que se deram os acontecimentos descriptos no capitulo--Ao luar--da primeira parte d'esta obra, apenas melhorado com mais algumas plantações de arvores e flores, e commodos assentos.

Estava toda a familia assentada em frente das janellas do palacio; o padre Alvaro no centro com as crianças sobre os joelhos; D. Maria á direita d'elle, e junto d'esta João de Lencastre; e D. Rosa á esquerda, e junto d'ella Arthur. Umas pombas domesticas, saltavam do chão ao collo das criancinhas a depenicarem-lhes os dôces que tinham nas mãos.

As alegres expansões d'esta feliz familia, foram interrompidas pela presença de um escudeiro, que a apresentava, n'uma salva, a D. Maria uma carta tarjada de preto.

Todos se olharam receiosos e contristados, sem que nenhum d'elles se resolvesse a lançar mão da agoureira carta. Tomou-a o padre Alvaro, e pediu licença a D. Maria para abril-a, e lêr o seu conteúdo em voz alta, o que todos estimaram de ouvir, porque assim eram poupados ao desgosto da primeira impressão. A carta era do punho de D. Anna, e resava assim:

«_Minha boa Maria e presada irmã_:

«Estou viuva!... Nem os carinhos da minha profunda e constante adoração; nem a linguagem caridosa das tuas cartas, em que chegaste a pedir indulto para culpas que não eram tuas; nem os esforços, em fim, dos homens da sciencia medica, poderam roubar á morte o meu desditoso Leopoldo!... Mataram n'o os remorsos de não ter conhecido e compensado a tempo o meu immenso affecto!... Vê, por isto, quanto eu soffro, Maria!... Ha cerca de seis annos que todos os meus cuidados se resumiam na conservação da vida do unico homem que amei!... Perdi-o!... perdi-o para sempre, minha querida irmã!... E elle era bom, Maria!... Os arrebatamentos do seu genio terminavam por um terrivel soffrimento, com o qual sobejamente se castigava do mal causado aos outros!... Era tão bom, que o mataram uns mal entendidos remorsos!... E eu vivo ainda, minha irmã!...

«D'aqui a poucas horas, fechar-se-hão sobre mim as portas de um austero convento,[19] onde possa chorar e orar por meu marido, e onde quero repousar eternamente, quando Deus fôr servido livrar-me do fardo da vida...

«Teu marido que venha tomar conta d'esta casa, que tudo lhe pertence por minha disposição, como eu tambem a herdei pela de Leopoldo.

«Abraça a Rosa por mim; lembra-me a todos; sede felizes, e diligenciae evitar a vossos filhos, que de toda a alma abençôo, o remorso de qualquer falta, porque o remorso mata!...

«Adeus!

Tua infeliz irmã,

_Anna_.»

Finda a leitura, que o padre fez commovidissimo, assomou a uma das varandas do palacio o respeitavel vulto de D. Isabel de Abendanho, trazendo atraz de si meia duzia de pessoas das mais necessitadas da freguezia, todas uniformemente vestidas de novo, e, rindo com a tranquillidade de uma santa, disse para a familia:

--Não esperavam, que a _velha_ fosse capaz de preparar-lhes uma surpreza, no dia da festa da minha neta?... Pois saberão, meus _crianças_, que tive segundo jantar na companhia d'estes bons filhos adoptivos, que aqui lhes apresento todos pimpões, com os fatos novos de que a minha netinha lhes fez presente... Perdão, senhor reitor... O nome de _criança_ foi uma brincadeira minha, que nunca podia entender-se com o respeitavel senhor padre Alvaro...

O pae de Arthur, havia-se repentinamente tornado cadaverico! Apertara nas suas as mãos dos pequeninos que tinha no collo, inclinara a cabeça sobre o encôsto do assento, erguera os olhos ao céu, e balbuciara estas palavras:

--_O remorso mata_... mas Deus perdôa aos que morrem penitentes... Arthur... meus filhos... até logo!......

N'aquelle momento sombrio, uma das pombas saltou á cabeça do moribundo, o que lhe fez entreabrir o seu ultimo sorriso.

Um despedaçador grito de Arthur, fizera prostrar todos de joelhos.

Chegava alli, da proxima campina, a melancolica toada d'este cantar:

«Vou chorar e cortar fêno, quem trabalha tambem sente: as paixões trazem veneno encoberto na semente.

O nosso reitor, um santo, reza sempre, e tambem chora! N'um sepulchro verte o pranto sempre, sempre á mesma hora!...

Ninguem foge ao sentimento, ninguem foge ao seu destino... Quem d'amor soffre o tormento, no Céu tem Amor Divino.»

[19] É motivo de odios para os liberalões de má casta, o sustentar hoje a conveniencia da vida claustral!

Por verdadeiro affecto á liberdade, por sabermos seguir e presar o progresso do bem, é que entendemos absurda e tyrannica a extincção dos conventos. O claustro, em casos analogos ao d'aquella heroina do nosso «conto», era um refugio celeste: como suppril-o? Que liberdade é essa que tolhe as mais innocentes acções da criatura? Existiam abusos? E onde deixariam elles de existir, sem a vigilancia e o castigo dos poderes constituidos? Porque no parlamento se discutem questões impertinentes, porque no sanctuario das leis havemos presenceado scenas vergonhosas, já alguem se lembrou de extinguir a camara popular?

Consola-nos vêr sustentar a nossa opinião abalisados e insuspeitos escriptores liberaes de toda a Europa.

Dizemos desassombradamente o que sentimos: não sabemos comprehender o _celibato forçado_ e somos desaffectos á _extincção das ordens religiosas_ e a todas as medidas violentas oppostas á bem entendida Liberdade.

FIM DA TERCEIRA PARTE E ULTIMA

Ao snr. José Arnaldo Nogueira Molarinho, devo a delicada offerta da gravura em chapa, que serviu para a tiragem do meu retrato.

Orgulha-me a fineza de um artista, que no _Reglamento de exposiciones nacionales de bellas artes_, publicado em Madrid no anno de 1871, foi assim classificado: «Molarinho (D. José Arnaldo Nogueira), natural de Guimarães, discipulo del snr. T. M. de Almeida Furtado, caballero de la Orden de Cristo, medallas de plata en las Exposiciones Nacionales de 1857, 1862 y 1863.» Que no mesmo anno de 1871, na exposição de concurso das bellas artes em Madrid, obteve o segundo premio; que tem recebido do estrangeiro inequivocas demonstrações do grande apreço em que por lá é tido o seu talento, e que mais util ainda teria sido á patria, se os poderes publicos d'este nosso Portugal não tivessem o infeliz séstro de ignorarem a morada do verdadeiro merito.

Para o nosso primeiro gravador de medalhas, ainda não houve um _cantinho_ na casa da moeda! Se elle não é influente eleitoral!...

De sorte que o artista distincto, e pobre, n'este paiz, tem que empregar o seu genio em obrinhas que lhe dêem o pão de todos os dias!

Queriam que o snr. Molarinho concorresse á exposição de Vienna d'Austria?[20]

Os seis mezes que s. s.^a havia de gastar n'uma obra que lhe daria nome europeu, e gloria a Portugal, foram passados a gravar _colleiras para adorno dos sabujos de pessoas indinheiradas, que para tal fim procuram o notavel artista_, como algures escreveu um nosso espirituoso narrador.

Perdão... Não façamos injustiças. Nem todos os ministerios se esqueceram do snr. Molarinho: houve um que o emparelhou com qualquer regedor de parochia... O snr. Molarinho é cavalleiro do habito de Christo: não morre de fome.

Porto, 27 de agosto de 1873.

_Miguel J. T. Mascarenhas_.

[20] O snr. Molarinho, foi oficialmente convidado de Vienna d'Austria para entrar no concurso das medalhas para os premios da exposição: não lhe foi possivel acceder. Os trabalhos seus, que lá mandou, foram premiados.