Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte

Chapter 14

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--Quer as provas?... Vá ouvindo... Passavamos aqui uma existencia relativamente feliz, eu a crear sonhos de ventura com o meu _idolatrado_ Arthur, e minha irmã Anna a lamentar-se de não ser comprehendida por V. Exc.^a no seu immenso affecto, quando veiu enluctar-nos uma carta de nosso pae, que me participava a resolução de casar-me em Guimarães... Soffri horrivelmente!... Fiquei em estado de não poder empregar sequer um raciocinio... A minha querida irmã, que era o symbolo da dedicação, imaginou conjurar a tempestade que ameaçava o meu futuro, chamando aqui o meu _muito amado_ Arthur... Comprehende?... Foi essa carta fatal, roubada no campo da gloria ao _meu idolo_ por um soldado do seu commando, que o tornou um assassino cobarde... Veja o sangue innocente, tornado ferrugem no seu punhal!...

--Misericordia, senhora, que me mata!...

--Não hade morrer, _senhor meu noivo_, em quanto não tiver bem esgotado o calix de amargura, que outros já tragaram por sua causa...

--É então o demonio vingador, em vez do anjo adorado?!... Mas como é que deseja unir-se ao homem que detesta, ao assassino de sua innocente irmã?!... Eu torno a enlouquecer, de certo!...

--Tambem não hade enlouquecer, porque me tem amor, e vae ser meu esposo... Socegue, que o aguarda uma existencia _singular_...

--Atterra-me o seu sangue frio, senhora! Não me dirá o logar que occupo no seu coração?...

--O meu coração está cheio, hade estal-o sempre, do _unico_ homem que eu amo, e do qual me separa a fatalidade... Não hade passar um minuto da minha existencia, sem que eu pague um tributo de lagrimas ardentes e saudosas á memoria de _Arthur Soares_, do amor da minha infancia, da alma mais nobre que existe na terra, e que só no céu me será concedido unir á minha... Que importa isto ao _meu futuro esposo_, ao viuvo de _minha irmã assassinada_!...

--Cale-se, demonio!...

--Hei de entreter os ouvidos de meu caro primo, e _feliz noivo_, com a fiel narração do estado da minha alma, que todos os dias voará em busca da que lhe é igual... Hei-de fazer-lhe conhecidas muitas particularidades do nobilissimo caracter de Arthur... Quer saber?... Foi elle que deu um dote á sua primeira mulher, ajuntando e vendendo para esse fim, todos os seus haveres...

--Que tormentos do inferno me quer fazer passar, senhora?!!... Peço-lhe antes a morte como o supremo beneficio...

--Quer saber mais?... Lembra-se da musica que eu lhe tocava todos os dias ao pianno durante a sua convalescença?... É uma composição minha... Fiz-lhe tambem uma letra, que lhe não cantava, porque não estava ainda em estado de comprehendel-a... Vou dizer-lh'a agora, para que fique sabendo que só o amor é verdadeiro poeta... Oiça:

«LAGRIMAS D'ALMA

«Vida ditosa da infancia amena, tornada pena, que me traz delirio!... Meu terno amante, meu poderoso rei, por amor fiquei n'um atroz martyrio!...

Ignora o mundo que cruel mysterio, ao cemiterio casta virgem leva!... Nem _Elle_ sabe quanto hei penado, Arthur amado, que minha alma enleva!

Aqui defronte do feroz tyranno, que deshumano duas vidas sóme, a irmã eu vingo, o amor vingando, Arthur amando com ardor sem nome!...

Ai! que saudade dos meus sonhos bellos, puros anhelos, que gostosa tinha! Ai! que tormentos o presente encerra, na crua guerra da vingança minha!...

Vida ditosa da infancia amêna, tornada pena, que me traz delirio!... Meu terno amante, meu querido d'alma, recebe a palma d'este cru martyrio!...»

O todo de Leopoldo revelava um tal soffrimento, que o mais desalmado executor de alta justiça se compadeceria ao vêl-o! E D. Maria da Gloria estava impiedosa! Chegara a um estado de exaltação, em que a mulher _senhora_, se torna a mais temivel das féras. Havia por muito tempo concentrado o seu rancor ao homem que lhe matara a irmã, e fôra causa, ainda que indirecta, de se lhe sumir o delicioso porvir que sonhara, e por isso era terrivel n'aquelle seu primeiro manifesto do odio que lhe enchia o peito.

Um escudeiro veiu entregar uma carta á vingadora que, reconhecendo n'ella a letra de Arthur, a recebeu com transportes da mais intima alegria, praticados febrilmente em face de Leopoldo.

O conteúdo na carta, que D. Maria lêu em voz alta, era este:

«Depois que o meu velho Alvaro lançou n'este pobre coração o desespero, com a noticia da resolução que v. exc.^a tomara de ser fiel á vontade de seu exc.^mo pae, tenho procurado a morte no campo da batalha, porque só ella me libertaria dos tormentos, que me esperam ao saber que outro homem é o seu esposo... Mas superior á minha vontade está o dedo de um Deus todo poderoso, que me afasta os perigos, e me cérca de espectaculos insinuantes!... Poderei vêr n'isto uma esperança?...

«Na ultima batalha a que assisti, e na qual ganhei a patente de coronel, deu-se um acontecimento, que vou narrar-lhe, porque tambem lhe interessa. Alistara-se ultimamente no regimento do meu commando um joven sargento, sobrio de palavras, que dizia chamar-se Paulo Virginio, e que era a sombra do meu camarada, o seu bondoso parente João de Lencastre. Não fizemos caso da assiduidade com que o sargento seguia de perto o seu tenente, porque ambos nós tinhamos sérias preoccupações, que nos não davam tempo a reparos curiosos. Quasi no fim da batalha, e quando já se ouviam por todo o campo os toques de cessar fogo, e de retirada das forças combatentes, estavamos todos tres cercados por soldados da cavallaria inimiga, um dos quaes apontou a sua pistola ao peito de João de Lencastre. Rapido, porém, como se fôra uma frecha, o intrépido sargento, colloca o seu corpo em defesa do tenente, e recebe no peito o ferimento que lhe era destinado! Dentro em pouco, apenas restavam no campo os mortos e feridos de ambos os lados. Fomos em soccorro do sargento: quem imagina v. exc.^a que descobrimos debaixo de um tal disfarce?... A heroica senhora D. Rosa, sua exc.^ma irmã!...

«De certo que avalia o nosso espanto e viva sensação, ao reconhecermos a nossa companheira de infancia, a minha quasi irmã, a querida de todos nós!...

«Apresso-me a dizer-lhe que sua exc.^ma irmã não morreu; mas antes de participar-lhe o desfecho d'esta tragica scena, preciso oriental-a de succedimentos anteriores.

«A snr.^a D. Rosa, chegou a persuadir-se que sentia por este seu indigno criado, um affecto irresistivel; e como sabia d'aquelle que occupa a minha alma, e que ella considerava correspondido, entendeu dever oppôr entre mim e ella a barreira da perdição simulada, fugindo, n'este intuito, do seu lar domestico, e dando entrada em Guimarães n'uma casa de perdição!... Foi alli surprehendida por João de Lencastre que, após porfiadas luctas, conseguiu arrancar-lhe o segredo do seu procedimento. Este meu brioso camarada, e digno parente de v. exc.^a, offereceu o seu nome, e a sua fortuna, á snr.^a D. Rosa, indicando-lhe este meio como o melhor para o conseguimento dos seus fins; isto é, para que entre mim o v. exc.^a nunca podésse haver suspeita do amor que ella julgava consagrar-me. Sua exc.^ma irmã regeitou, e conservou-se na mesma casa, até que João de Lencastre, que a occultas alugara uma sala proxima, teve occasião de a salvar de uma affronta, que um infame tentava fazer-lhe. Desde um tal dia, que a snr.^a D. Rosa abandonou completamente o seu arrojado e perigoso projecto, entregando-se á protecção do nobre salvador da sua virtude.

«O meu camarada, e honrado parente de v. exc.^a, ha muito tempo, como elle me confidenciou, que déra entrada a um sentimento sério pela senhora D. Rosa; sentimento que todas estas peripecias tiveram o poder de augmentar, por conhecer em sua exc.^ma irmã, a par de um genio viril, um nobilissimo caracter, e pouco vulgar talento. Ultimamente, em casa do meu prosado velho, tentou o meu camarada obter da senhora D. Rosa uma resposta decisiva aos seus vehementes desejos, que lhe foi negada.

«Dadas estas explicações indispensaveis, para a boa intelligencia do mais que tenho a narrar-lhe, vou dizer o que se deu em seguida ao ferimento do supposto sargento.

«A dôr e a desesperação que se apoderaram de João de Lencastre ao reconhecer na pessoa ferida a mulher que adorava, e que lhe parecia estar sem vida, sentí-as, mas não me é dado descrevel-as. Conduzimos o corpo inerte para a nossa residencia no quartel militar, e foram alli chamados os mais habeis facultativos da nossa brigada, que estiveram tres dias indecisos sobre o diagnostico que deviam dar. Ao quarto dia, o primeiro em que sua exc.^ma irmã recobrou o uso da falla, consideraram-n'a os medicos livre de perigo, ainda que mui gravemente ferida. Durante o periodo de prostração da snr.^a D. Rosa, não pude conseguir desviar o meu camarada da cabeceira do seu leito um só instante. Estava mais cadaverico ainda que a doente, e n'um quietismo idiota, que muito me assustou. Só deu accordo de si, quando sua exc.^ma irmã abriu os olhos, e os fitou ternamente n'elle, levando-lhe a mão aos labios... Então, arrebentaram-lhe as lagrimas com espantosa força, e tive de o tirar arrebatadamente de ao pé do leito, para evitar damno á doente.

«Horas depois, fui testimunha da mais commovedora scena que tenho presenceado: a snr.^a D. Rosa chamou-nos para junto de si, e fallou n'estes termos: «Não podia ser feliz n'este mundo, e louvo a Deus a sorte que me permittiu conservar a vida do homem que amo, a troco da minha... Agora, que vou morrer, hei de ser acreditada, por mais incomprehensivel que seja a minha confissão... Considerei-me presa de um amor invencivel pelo snr. Arthur Soares, que eu sabia cheio de um sublime affecto por minha irmã... Quiz pôr entre nós o impossivel, para conter-me, e fingi entregar-me ao vicio... Fui salva da minha temeridade, por uma affeição das que raramente os homens sabem ter... Esta dedicação, a que não tinha o menor direito, fez-me descobrir um novo rumo no sentimento que eu havia considerado immutavel!... Mas como fazer semelhante confissão?!... Segui o homem que amava, e ao qual devo a conservação da minha honra, na intenção de lhe dar a vida, como lhe havia dado o coração... Deus concedeu-me a ventura desejada... Crês agora em mim, Lencastre?...»

«O meu camarada, snr.^a D. Maria, praticou as maiores loucuras, a que póde levar-nos uma alegria sem limites!... Eu... pensava em v. exc.^a...

«Tenho dentro em pouco de ser padrinho da união d'aquellas almas angelicas perante o altar do Eterno... Partilho, por amizade, da ventura dos nossos amigos; mas que dôres não hei-de ter ao lembrar-me que igual ceremonia póde qualquer dia unir eternamente a snr.^a D. Maria da Gloria a...

«Cahe a penna da mão ao fiel servo de v. exc.^a

_Arthur._»

A leitura da carta, que produzira em Leopoldo o effeito de um choque electrico, augmentou o mau humor da vingadora, que redobrou as pungentes ironias e os crueis sarcasmos, com que torturava o seu futuro noivo...

Quando o desgraçado estava de todo succumbido, appareceram alli, sem se fazerem annunciar, dois importantes personagens: eram o padre Alvaro, e uma senhora com o rosto coberto por expêsso véu.

O bondoso levita, dirigiu-se a Leopoldo n'estes termos:

--Nunca se deve descrêr da misericordia divina, snr. Leopoldo!... Se na sua alma entrou o remorso e o arrependimento do mal que tem causado, posso dar-lhe uma esperança de que será perdoado por Deus... O seu crime, não teve o resultado fatal, que o fizera enlouquecer... Sua esposa escapou do ferimento que o senhor lhe fez, e vive ainda para lhe perdoar, e amal-o como sempre o amou... Eu, seu irmão e a senhora D. Rosa occultos em trajes de romeiros, e o honrado medico d'esta localidade, que logo asseverou não ser mortal o ferimento, combinamos deixal-a passar por morta, na caridosa intenção de pouparmos toda a familia aos escandalos de um processo crime; fizemos convencer a todos de que v. exc.^a enlouquecera com o desgosto; simulamos o enterro de um cadaver, e conduzimos secretamente a snr.^a D. Anna á habitação do medico, onde se conservou até se achar completamente curada, passando depois para a residencia d'este humilde servo do senhor...

Leopoldo, forcejou por levantar-se e ir ter com o vulto de mulher, que elle adivinhara ser a sua, mas não pôde conseguil-o, porque a violencia d'estas scenas o fizera cahir sem sentidos nos braços do bondoso padre.

As duas irmãs, ternamente abraçadas, confundiam as lagrimas e os soluços.

VIII

A CONVENÇÃO DE GRAMIDO

«O partido popular fica livre da deshonra. Cedemos desde que nos era impossivel combater; cedemos á força de tres poderosas nações. Perdemos tudo, mas salvamos a honra.»

(O n.º 63 do _Espectro_)[16].

Leopoldo ficára prostrado no leito, acariciado por sua esposa, e assistido da medicina, que procurava prevenir a volta da loucura.

D. Maria da Gloria, antes de sahir, na companhia do padre Alvaro, para a casa materna, tivera com sua irmã largas conferencias, e recebeu d'ella um escripto do punho paterno, em que lhe era concedida licença para unir-se com Arthur Soares. Este documento, fôra aquelle que Sebastião da Mesquita lhe _parecera_ ter escripto, e que effectivamente escrevera, durante a _visão_ de que tracta o capitulo assim chamado. Alcançara-o D. Anna, entrando a deshoras no quarto de seu pae, em cumprimento de um plano concebido por sua irmã Rosa, e auxiliado por João de Lencastre. Levava de prevenção o necessario para aquelle escripto, que humildemente rogára a seu pae lhe fizesse, e que o velho fidalgo, aterrado pela apparição da filha que elle julgava morta, e considerando ordem o que era rogativa, escreveu com mão trémula.

Arthur Soares, e os noivos João de Lencastre e Rosa, estavam na cidade do Porto, onde a revolução agonisava.

Arthur acompanhara os representantes da junta provisoria do governo supremo do reino a Gramido, onde tivéra logar a convenção, que poz termo á guerra civil, e que foi resumido nestes artigos:

1.º O fiel e exacto cumprimento dos quatro artigos da medeação, incluidos no protocollo de 21 de maio d'este anno, é garantido pelos governos alliados.

2.º As tropas de sua magestade catholica exclusivamente occuparão desde o dia 30 de junho a cidade do Porto, Villa Nova de Gaya, e todos os fortes e reductos d'um e outro lado do rio em quanto a tranquillidade não estiver completamente estabelecida sem receio de que possa ser alterada pela sua ausencia, ficando na cidade do Porto uma forte guarnição das forças alliadas em quanto estas se conservarem em Portugal. No mesmo tempo o castello da Foz será occupado por tropas inglezas, e no Douro estacionarão alguns vasos de guerra das potencias alliadas.

3.º A epocha da entrada das tropas portuguezas na cidade do Porto será marcada pelas potencias alliadas.

4.º A propriedade e segurança dos habitantes do Porto, e de todos os portuguezes em geral, ficam confiados á honra, protecção e garantia das potencias alliadas.

5.º As forças do exercito de sua magestade catholica receberão as armas dos corpos de linha, e voluntarios que obedecem á junta, entregando-se guia ou passaporte gratuito ás pessoas que tiverem de sahir do Porto para as terras da sua residencia, e dando-se baixa aos soldados de linha que tiverem completado o tempo de serviço, e aos quaes se alistaram durante esta lucta para servirem só até á sua conclusão.

6.º O exercito da junta será tractado com todas as honras de guerra, sendo conservadas aos officiaes as espadas, e cavallos de propriedade sua.

7.º Conceder-se-hão passaportes a qualquer pessoa, que deseje sahir do reino, podendo voltar a elle quando lhe convier.

8.º As tres potencias alliadas empregarão os seus esforços para com o governo de sua magestade fidelissima afim de melhorar a condição dos officiaes do antigo exercito realista.

Esta convenção foi publicada por um decreto e proclamação da junta, que termina assim:

«A junta felicitando-se a si propria, e á nação, por vêr terminada uma tão longa, e tão dolorosa guerra civil, espera que nenhum portuguez que seguisse a sua bandeira conserve a lembrança de qualquer aggravo que, durante a mesma guerra, possa ter recebido.

«A junta lisongeia-se de que o seu comportamento, durante os difficeis tempos em que foi chamada a reger estes reinos, em nome da nação e de sua magestade a rainha, lhe tenha grangeado a estimação do povo portuguez e do mundo civilisado.

«A junta considera terminada a sua missão de uma maneira nobre, e honrosa. A junta vai dissolver-se.

«Seus membros, voltando de novo ao seio da vida particular, levam comsigo a convicção de que sempre desejaram o bem, a liberdade e a gloria do povo portuguez.

«Não querem maior galardão do que a lisongeira recordação de que por tanto tempo presidiram aos destinos do povo mais benigno, mais virtuoso, mais heroico, e mais nobre da terra.

«E farão sempre os mais sinceros votos pela gloria de Sua Magestade a rainha, pela sincera reconciliação de seus subditos, e pela liberdade, e felicidade do povo portuguez.»

Assim acabou a mais notavel das guerras civis portuguezas.

Arthur Soares, antes de seguir jornada, com os noivos, para Penafiel, escreveu a D. Maria da Gloria estas palavras:

«Acabou a guerra e com ella a esperança d'uma morte gloriosa para mim. Recolho-me á residencia do meu santo velho, onde tudo me recordará o tempo feliz da minha mocidade, passado ao lado de v. exc.^a... Qual será o meu futuro?!...

«Acompanham-me os noivos, que tencionam pedir á snr.^a D. Isabel e a v. exc.^a um aposento no seu palacio.

_Arthur_».

Havia sido expedida esta carta ha poucos momentos, quanto Arthur Soares recebera outra d'este theor:

«Venha quanto antes abraçar a sua esposa. As barreiras que se oppunham á nossa ventura, quiz Deus sumil-as pela sua infinita bondade!

_Maria_.»

Avalie o contentamento de Arthur, aquelle dos nossos leitores, que tiver sinceramente amado.

[16] Referimo-nos por vezes ao _Espectro_, não só por ter sido o papel mais conhecido na epocha da revolta, mas tambem, e principalmente, para darmos ao seu redactor, e nosso primeiro jornalista, a honra, e a justiça, que se lhe devem. As más paixões teem querido desfigurar os factos, attribuindo a odio pessoal o que só fôra desharmonia politica; mas a verdade é--como já provamos--que o _Espectro_ foi o _unico_ periodico da opposição d'aquelle tempo, que teve a gloria de castigar os aleives da imprensa desenvolta, tributando o respeito devido á _pessoa_ e _virtudes_ da snr.^a D. Maria II.

IX

BRIOS DE PLEBEU

«Uns homens ha, que, na paixão ardente, Immolam tudo seu, Menos a propria estima; e, felizmente, D'esses homens sou eu: Sou, que de tudo o que no mundo prézo, Prézo mais não mer'cer o meu desprezo.»

[João de Lemos--CANCIONEIRO]

Uma d'estas revoluções moraes, que as grandes crises produzem no espirito humano, se operou em Arthur Soares. O filho do bom Alvaro era uma destas almas privilegiadas, ricas de sublime poesia, a que o mundo chama imaginações prodigas, porque lhe é vedado o entendel-as. Amara D. Maria da Gloria, que era rica e nobre, como se ella fôra a mais desprotegida camponeza. Prenderam-n'o os dotes moraes e physicos da fidalga moça, e nem por sombras o deslumbrara a fortuna e nobreza de sangue da sua amada. Tão prudente como gentil e cavalheiro, nunca d'elle partiria a iniciativa de uma declaração: era d'estes poucos homens, que sabem morrer com um segredo na alma, para não se exporem aos falsos juizos do vulgo, nem serem menos presados pelo alvo da sua estima. D. Maria da Gloria, possuidora d'uma alma semelhante á de Arthur, amando-o como era amada e manifestando o seu amor, seguira seus naturaes impulsos com feminil precipitação.

Sabendo que era amado pela filha do seu orgulhoso e fidalgo padrinho, a par do naturalissimo contentamento que uma tal certeza lhe deu, principiou Arthur Soares a comprehender o melindre em que o collocavam estes amores. Os acontecimentos, porém, precipitaram-se com tal velocidade, que, até ao momento do desenlace, não teve o nosso heroe o tempo material preciso para cogitar n'um procedimento digno de si.

Agora, que só da sua vontade estava dependente a sua ventura, Arthur hesitava, e sustentava uma lucta mortificadora, porque os seus brios de homem de bem lhe patenteavam, que no seu enlace com D. Maria não podia elle entrar com uma porção, se não igual, aproximada das conveniencias sociaes que ia receber. Se ao menos podésse apresentar as dragonas e condecorações ganhas no campo da batalha, seria já alguma coisa, e fôra provavel que acabasse a sua hesitação; mas o governo interino que lh'as concedera deixara de existir, e o de sua magestade não lh'as garantia.

Este brioso luctar contra o sentimento, se collocava Arthur Soares bem longe do bafo empestado das paixões mesquinhas e torpes, que são o apanagio de villões interesses, trazia-lhe a par a recordação dos tempos em que lhe soavam os alegres hymnos do amor e da saudade; em que era sustentado o seu affecto pela esperança de se tornar distincto no campo da honra, e poder assim encurtar a distancia que o separava de Maria; e o seu intimo soffrer tomava proporções assustadoras, que ameaçavam queimar-lhe ao fogo do coração os brilhantes sonhos de amor que o tinham embalado.

Ao passo que tudo respirava tranquillidade no palacio de D. Maria da Gloria, e que a vida prasenteira dos noivos se tornava communicativa aos demais habitadores d'aquelle nobre solar, existiam a dois passos d'alli, na residencia do padre Alvaro, duas almas consumidas pela melancolia; pae e filho eram victimas dos mesmos pensamentos, que nutriam sem os communicarem, e que nenhum d'elles sabia como destruil-os para o bem commum.

As forças physicas de Arthur tiveram de ceder ao prolongado e doloroso debate moral que elle sustentara, e cahiu em perigosa enfermidade. O triste pae, teve de envidar um resto de energia, para animar o filho querido, e chamou em seu auxilio aquella que era a involuntaria causa do soffrimento de Arthur.

D. Maria da Gloria, com a perspicacia inherente ás pessoas do seu sexo, educação e talentos, quasi que lia claramente na alma do seu amante e, por um fidalgo tacto, que só ensina o amor verdadeiro, desviara sempre as conversações do terreno em que poderiam declinar para expansões perigosas, esperando assim corajosamente o resultado da lucta, sem dar o menor indicio de querer accelerar o desfecho que tão grato era ao seu coração.

Assidua enfermeira do seu amante, pondo de parte as etiquetas e convenções do seu mundo, D. Maria não largava a cabeceira do seu querido enfermo. Nas crises mais perigosas da enfermidade, tinha a gentil e fidalga moça a coragem de mostrar-se risonha na presença do seu idolo, para dar, ás occultas, largas ao pranto, e á dôr que a definhava.

Os desvélos do pae e da amante, auxiliados pela constituição vigorosa de Arthur, arrancaram-n'o das bordas do tumulo. Já convalescente, tomou um dia as mãos do pae e de D. Maria, beijou-as religiosamente, e disse-lhes, com lagrimas na voz, e nos olhos:

--Porque me não deixaram morrer?!... Acabava tudo, e não os faria soffrer mais...

--Quer-me parecer, Arthur, que vão muito longe os teus brios, e que talvez degenerem em orgulho condemnavel... Ambos nós lêmos no teu intimo; eu, porque sou teu pae; e este incomparavel anjo, porque te ama, ainda além do que é permittido amar-se na terra... Querias morrer?!... E não será a manifestação de um tal desejo grave offensa á Divina Providencia, que tão prodiga tem sido em beneficiar-te?... Ou quererás tu tornar-me mais pungentes os remorsos, por te haver dado uma existencia a que chamas infeliz?... Mas fica certo, filho, que a tua ultima hora seria a minha, e que tu, deixando a vida, fugias á possivel felicidade n'este mundo, em quanto que eu, se um Deus misericordioso perdoar os meus peccados, encontro na morte o supremo bem!...