Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte

Chapter 13

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--Dizes bem, Maria, muito pesada... Senti-lhe todo o rigor, quando tive de sacrificar-lhe o coração... Poupa-me a narrativa de alguns detalhes, que me fariam córar de pejo... Basta saberes, que não obstante a existencia de ligações graves, que tive de quebrar, conduzi aos altares minha prima e tua santa mãe... Cumpri o legado da minha casta á custa de permanentes remorsos, aggravados depois com a existencia de tuas irmãs!... Vou hoje exigir de ti, minha presada filha, e unica representante do meu nome, não um sacrificio igual ao meu, porque de certo tens livre o coração, mas sim a tua palavra de receberes por esposo o distincto fidalgo que te escolhi...

--É impossivel, meu pae e senhor!... Eu tenho já o coração cheio de affecto por um homem dignissimo, e a nenhum outro posso entregar-me...

--Custa-me isso, filha, porque dei a minha palavra, embora reservasse o ter de ouvir-te primeiramente... Comtudo, o cavalheiro por mim escolhido, hade acceitar-me as rasoaveis desculpas, e tudo poderá combinar-se, sendo o teu preferido, como é de crer, um fidalgo de verdadeira raça...

Felizmente para a enleiada donzella, ao soarem as ultimas palavras do velho fidalgo, entrou sua mãe no quarto, acompanhada por João de Lencastre, e foi a bondosa _fidalga das chaves_ que respondeu ao marido:

--Não sei a que raça pertence o homem que nossa filha ama, meu presado primo e senhor, mas conheço-lhe as acções, e posso affiançar-lhe sob a minha palavra de _verdadeira fidalga_, que ninguem as tem mais illustres... Peço ao meu esposo, que desculpe a esta curiosa velha o ter escutado a sua conversação com a nossa filha... Sabia da sua bocca o que se havia de entre ambos passar, é certo; mas tinha maternaes razões, para não deixar só no campo esta sensivel criança...

--Então, pelo que escuto, era uma conspiração!... Entrou tambem n'ella o senhor meu primo João de Lencastre?... Ora deixem estar, que lhes hei-de fazer pagar caro o segredinho... Vamos lá a saber o nome do feiticeiro, que assim me roubou a melhor parte do coração de minha filha, e que teve artes para chamar a minha sancta prima ao seu partido... Venha, venha esse nome magico...

--Chama-se, simplesmente, Arthur Soares...

--O meu afilhado?!!... Deus não quiz que V. Exc.^a, snr.^a D. Maria da Gloria, calcasse aos pés as venerandas cinzas de seus avós, e matasse seu pae já proximo do tumulo... O snr. Arthur Soares, não póde ser... _seu marido_, porque... morreu!...

--Engana-se, meu pae, e senhor!... Arthur vive, e sempre viverá na minha alma!... Foi gravemente ferido, mas está livre de perigo... Ha-de viver longos annos... Ha de ser muito feliz, porque o merece, porque tem uma alma, que vale por todas as nobrezas da terra... Ha-de chorar todas as infelicidades que talvez esperem a minha raça, conservando-se constantemente á altura dos seus nobilissimos sentimentos... Affirmo-lhe, senhor, que nunca partiu d'elle a minima palavra ou o mais insignificante gesto, que v. exc.^a não podesse presencear... Amei-o, e hei-de amal-o eternamente... Mas sou fidalga!... Sou a herdeira de um nome que deve passar _immaculado_ á posteridade, continuando em mim uma infinda série de aristocraticas allianças!... Seja!!... V. exc.^a que diz de um Lencastre para meu esposo?...

--São de boa casta os Lencastres, minha filha; mas...

--Muito bem, meu pae e senhor!... Com quanto eu receba a cruz da minha herança, a escolha agora é minha... Findo o lucto pela morte de minha irmã Anna, serei esposa do snr. Leopoldo de Lencastre!...

Ficaram de tal sorte aturdidos os restantes personagens, com este inesperado desenlace, que nem uma palavra se ouviu mais, retirando-se a donzella cheia de magestade.

IV

VISÃO

«Um presentimento de terror, d'aquelles que batem no coração de repente, sem saber por quê nem d'onde vêem...

«Tem sempre fé em Deus, que hade querer o que fôr melhor para nós.

«E é trovoada isto, que se escurece tudo?... Não, são as sombras da Eternidade que vêem sobre mim.»

(VISCONDE DE ALMEIDA GARRETT--FRAGMENTO DE UM ROMANCE INEDITO.)

Conseguido o quietismo dos animos pela retirada de D. Maria da Gloria, veiu a cada um a consciencia do que lhe ouvira affirmar, com uma invencivel força de pasmosa vontade.

Sebastião da Mesquita, embora tivesse triumphado no seu principal proposito, não ficára tranquillo, porque lhe era antipathico o genro; mas o seu orgulho de raça podia mais n'elle do que todos os bons sentimentos que possuia: conheceu que sua filha era mulher de não retrogradar, e resolveu conformar-se, guardando silencio.

D. Isabel de Abendanho, comprehendendo mal o que se passára, esperava os acontecimentos com a confiança das almas puras.

João de Lencastre, ficára engolfado nos seus pensamentos, e só usou da palavra, passado bastante tempo, para responder a algumas perguntas que lhe fez Sebastião da Mesquita, e despedir-se dos velhos fidalgos, dizendo-lhes que ia seguir a sorte da guerra.

D. Maria da Gloria, mais do que nunca, ficára toda entregue ao tractamento do demente.

Ao dar meia noite do quarto dia, posterior áquelle em que a fidalga donzella tão inesperadamente desenlaçára o temivel nó, que seu pae lhe lançára ao collo, gemia Sebastião da Mesquita no seu leito as dôres de sua teimosa enfermidade, e as que procediam de um pesadelo medonho. Via as suas filhas bastardas, uma levantar-se do tumulo, e outra surgir do meio de uma turba de mulheres hediondas pela miseria e pela devassidão, pedirem-lhe contas dos carinhos maternaes, a que elle as arrebatara; de um nome que podessem usar sem pejo, que elle não podia dar-lhes; e de um futuro igual ao que esperava a sua filha legitima, que já não podia ser o d'ellas... O mais terrivel da visão, era o espectro da mulher de Leopoldo... D. Anna apparecia a seu pae, em todo o vigor da sua mocidade, criminando-o pela forçada ligação a que elle a levára, e que fôra causa da morte prematura que tivéra... O velho fidalgo, implorava o perdão de sua filha, e a victima exigia-lhe, em troca, nada menos que o completo aniquilamento da sua raça... Queria que seu pae désse por escripto o seu consentimento para D. Maria da Gloria poder casar-se com Arthur Soares... Apresentava-lhe penna, tinta e papel, e dizia-lhe, pela voz da eternidade:

«Em nome de Laura, a virgem que deshonrastes, e á qual nem foi dado depositar um beijo maternal nas faces de suas filhas!... Em nome das cruciantes dôres e das lagrimas de sangue, que levastes ao seio de uma familia honesta!... Em nome do desespero da filha, que o teu despreso atirou ao lôdo social!... Em nome, finalmente, d'esta outra filha, que fizestes morrer na flôr da vida; e para que todos te perdoem, e Deus se amerceie da tua alma,--escreve: «_Dou voluntariamente o meu consentimento para minha filha D. Maria da Gloria poder casar-se com o meu afilhado Arthur Soares. Ás portas da eternidade, prestes a comparecer perante o pae commum, reconheço que só é verdadeiramente nobre, aquelle que segue no mundo os preceitos de Jesus Christo==«Não faças a outrem o que não queres para ti, perdôa as injurias, e ama o teu proximo como a ti mesmo.»==Sebastião da Mesquita._»

E o torturado velho, banhado em frios suores, sem ter já forças para affastar de si a vingadora visão, que o aterrava, sem poder distinguir se tudo aquillo era sonho ou realidade, pareceu-lhe que cedia ás ordens da filha, e que estava escrevendo o que ella lhe dictava............... .......................................................................

Succedeu-se á visão um quebrantamento, que teve o velho fidalgo prostrado, por algumas horas, como se estivera morto.

Ao abrir os olhos, viu Sebastião da Mesquita junto da cabeceira a sollicita e carinhosa esposa. Diligenciou recordar-se, e communicou o acontecido a D. Isabel, em voz fraca, e cada vez mais duvidoso, se um sonho fôra, ou se tudo se passára na realidade. A bondosa senhora, aproveitou aquellas disposições do marido, para advogar a causa da filha. Pintou Arthur Soares com as mais bellas côres; revelou o que elle praticára em beneficio de D. Anna, porque entendeu que o juramento de guardar segredo, dado por D. Maria, a não obrigava a ella; descreveu com enthusiasmo o casto amor da donzella, e o que ella soffreria tendo de o sacrificar ao dever de esposa de um homem aborrecido; foi, finalmente, sublime de eloquencia maternal.

No fim das suas expansões, olhou D. Isabel para o marido, a vêr se lhe lia nos olhos o assentimento, que os labios não tinham proferido. Não conseguiu o seu intento, porque os olhos de Sebastião da Mesquita estavam completamente fechados... O remorso fôra um poderoso auxiliar da enfermidade...

Áquella hora, já o velho fidalgo sabia se lá nas alturas Deus permitte a distincção de _humanas raças_...

V

TRES SOLDADOS POR AMOR

«Tomai pensar mais solido e sizudo: O caminho segui que a honra indica; Trabalhai pela Patria, a Patria é tudo.»

(POESIAS DE ANTONIO JOAQUIM DE MESQUITA E MELLO).

Entremos na residencia do reitor de Santo Adrião de Penafiel.

Estamos na sala do oratorio, onde já vimos orar D. Isabel e o velho parocho, por occasião dos _raptos_, e do incendio, da primeira parte d'esta obra.

Ajoelhado aos pés de Christo, está um vulto de mulher, nova e bella ainda apesar do seu definhamento.

Assentados em um movel de junco de dous logares unidos, com as costas oppostas uma a outra, ficando por isso as pessoas a olharem-se de frente, estão a um canto Rosa e João Vidal ou de Lencastre.

A um lado, escrevendo, está o bondoso reitor.

Trajam todos rigoroso lucto.

Ouviremos o que dizem João e Rosa:

--Quando seccarão as lagrimas nos seus olhos, snr.^a D. Rosa?...

--Não ha muito que chóro, meu amigo, e ainda bem que posso chorar... Sou muito mais forte do que me julgam, e do que eu mesma pensava ser... Tenho atravessado de olhos enchutos crises violentas, que nem todos os homens atravessariam de animo frio... Mas saber, na mesma hora, que era filha de um respeitavel cavalheiro, e que meu pae morrera considerando-me perdida... é de mais, bem o conhece!...

--Não posso asseverar-lhe qual foi a convicção com que seu exc.^mo pae falleceu; mas ao despedir-me d'elle, julgando eu que ainda o veria muitas vezes, quando elle me pediu noticias suas, jurei-lhe, pelo meu nome, que v. exc.^a era em tudo sua digna e honrada filha. Este meu juramento, pelo conhecimento que elle tinha do meu caracter, e dado poucos momentos depois de sua exc.^ma irmã D. Maria lhe ter dicto, por uma sublime inspiração, que a snr.^a D. Rosa havia de resurgir pura de toda a mácula,--devia ser bastante para o convencer de que fôra precipitado em julgar por apparencias. Não posso adiantar-lhe mais, porque me era impossivel mentir-lhe, mesmo para seu bem. Estive lá, como sabe, quando fui acompanhar aquella desventurada martyr, que implora a Deus o perdão dos que a sacrificaram, e desconheceram suas virtudes;--mas não fallei com pessoa alguma da familia, porque assim era preciso... Poucas horas depois, já seu exc.^mo pae não era d'este mundo!

--Querido pae, e boa irmã!... É preciso que terminado o lucto, meu bom amigo, D. Maria da Gloria seja feliz.

--Sabe o que se fez, e o que se espera. O plano de v. exc.^a foi rigorosamente executado. Admiro-a, snr.^a D. Rosa!... Como Deus lhe dá forças para esmagar o coração!...

--Não me julgue de leve, meu amigo, que póde enganar-se nos seus juizos a meu respeito. É muitas vezes insondavel o coração da mulher... Eu mesma não saberia, talvez, dizer em verdade quaes sejam os estimulos do meu actual proceder...

--Quer a desgraça que os eu conheça, senhora, e que os sinta inabalaveis... São rarissimas as mulheres que sabem sacrificar o amor aos seus brios, á dedicação e amisade; mas ha exemplos, e v. exc.^a é das que póde praticar todos os extraordinarios...

--E não tenho podido conseguir fazel-o feliz com a minha illimitada estima... Veja que apoucado poder é o d'esta _extraordinaria_ mulher...

--O que quer, senhora?!... O ambicioso soffre e caminha continuadamente, até chegar ao cumulo da sua ambição, ou succumbir sem vêr realisadas as suas loucas esperanças... Cheguei a meio caminho do meu paraiso, é certo; deveria contentar-me, por que fôra alcançar já muito mais do que merecia; mas esse mesmo exito augmentou a minha loucura, e não posso ficar parado... Antes morrer com a esperança no pensamento, do que arrastar a vida sem essa dôce consolação dos que padecem...

--E como lhe ha de conceder _esperanças_, a mulher que o senhor salvou da _perdição_, onde ella se foi voluntariamente lançar por amor a _outro_ homem?!...

--Não lhe tenho eu jurado muitas vezes, que seria o mais extremoso e dedicado dos esposos?... Suspeita-me capaz, mil annos que vivessemos juntos, de lhe fazer a mais remota allusão a um seu passo impensado, que nem erro se póde chamar?...

--E julga que me satisfaço com tão pouco?!... Avalia-me com a capacidade de o victimar, para salvar a minha virtude?!... Como é injusto, João!... Se fosse possivel ter entrada no meu peito, para lhe dar, um affecto ainda superior ao que me levou a affrontar os prejuizos sociaes, seria então sua esposa, creia-o... Mas posso eu sentil-o?... E sentindo-o, não deveria occultal-o a mim propria, para não ter de córar da minha versatilidade?...

--Sou, pois, infallivelmente condemnado, não é verdade?!... Um pedido então, senhora, e será o ultimo... Deixe-me ir batalhar pela nação... V. Exc.^a já não carece dos meus serviços... tem a companhia d'aquella martyr, e d'aquelle respeitabilissimo ancião... Vou para junto do meu camarada Arthur... talvez que precise do meu auxilio, e juro-lhe que darei por elle a vida... Consente, não é assim?... Não me responde?!... Chora?!... Compadeça-se de mim, senhora, e deixe-me partir!...

Usando dos privilegios concedidos a todos os narradores, vamos agora lêr a carta, que o padre Alvaro acaba de escrever:

«_Exc.^ma Snr.^a D. Maria da Gloria, escolhida filha do bondoso Deus_:

«Não ha flôres por mais mimosas que a natureza as produzisse, que estejam ao abrigo das tempestades da terra; e por muito açoitadas e pendidas que ellas fiquem, o sopro de um Deus, mais poderoso do que o furacão da tormenta, em breve as alevanta e reanima. A minha linda flôr da Gloria, está sendo abalada pelos ventos do infortunio, com que o pae celeste costuma experimentar os seus escolhidos; mas, se como eu espero e creio, a christã resignação fôr uma das muitas virtudes de V. Exc.^a, não virá longe o dia em que hade ser compensada dos seus dolorosos soffrimentos. Tambem eu sei carpir saudades do meu unico e verdadeiro amigo, que nunca julguei que me houvesse de preceder na viagem da eternidade!... Ora, pois, enchuguemos o justificado pranto, e fallemos um pouco de nós outros, interinos habitadores d'este valle de lagrimas.

«Venho da cabeceira do leito de Arthur, que está livre de todo o perigo: mais alguns dias de repouso, e a seiva da vida apparecerá de novo. Foram muito graves os ferimentos, perigosos mesmo: deixaram vestigios permanentes, que mudaram immenso a physionomia do meu caro Arthur. Perdôe a este velho padre o dizer-lhe, que o rapaz me pareceu assim mais formoso ainda!... Eu, que devo impugnar os ardores guerreiros, como indignos da caridade e da misericordia do Senhor, achei bello aquelle aspecto marcial!... Na hora das despedidas, sahiu-lhe espontaneamente da bocca o nome de V. Exc.^a, proferido com igual respeito áquelle com que por vezes invocára o da sua querida mãe. Quizera responder-lhe com poucas palavras, mas foi impossivel. A despedida, durou mais tempo do que o resto da visita!... O padre, teve de ceder o seu logar ao homem, que, apesar de criminoso, é pae!... Que lhe direi mais, senhora D. Maria da Gloria?!... Arthur está preparado para todos os acontecimentos... Resignar-se-ha com tudo, afóra a ideia de que V. Exc.^a possa ser menos feliz do que merece.

«Peço a transmissão dos meus profundissimos respeitos á exc.^ma snr.^a D. Isabel, á qual me atrevo a rogar o seu regresso a estes sitios, onde me será mais facil a realisação do desejo de as vêr todos os dias, e acompanhal-as nas orações pelo eterno descanço do nosso chorado esposo, pae e amigo.

_Padre Alvaro._»

N'este mesmo dia, existiam só, além dos serventes, duas pessoas na residencia do padre Alvaro: elle, e a senhora que vimos orar, em quanto o padre escrevera e João e Rosa conversavam.

João de Lencastre, fôra o primeiro a retirar-se, com a morte no coração, porque de todo lhe fugira a esperança de ser correspondido no seu immenso amor.

Rosa, que o não prevenira da sua resolução, seguira-o pouco depois.

Quarenta e oito horas eram apenas passadas, quando, no Porto, a companhia de que era capitão Arthur Soares, contava mais dous voluntarios, que eram o tenente João de Lencastre, e um elegante sargento, que dizia chamar-se Paulo Virginio.

Arthur Soares, estava já completamente restabelecido.

VI

DENODO FEMININO

«Descavalgando, os dous guerreiros tomaram nos braços a irmã de Pelagio, e foram reclinál-a sobre um monticulo cuberto de relva e musgos.....

«O unico signal que n'ella revelava vida era o tremor convulso que violentamente a agitava.»

(_A. Herculano_--EURICO.)

A guerra civil havia chegado ao seu maximo desenvolvimento. Não existia em Portugal uma aldêa livre dos vexames da revolução. Os exercitos belligerantes entretinham-se em operações de pouca importancia, em conservarem para os seus governos os territorios occupados pela força, e não chegavam a travar uma lucta decisiva.

Um estado de coisas assim violento, não podia prolongar-se sem grave prejuiso da nossa nacionalidade.

O governo de Lisboa, fundado nas acclamações feitas a favor do snr. D. Miguel de Bragança, pedira a interferencia das nações signatarias do tractado da quadrupla alliança, por se achar em perigo a pessoa e dynastia da rainha.

Foi muito condemnada n'aquella epocha a medida extraordinaria da intervenção estrangeira, que é sempre um desaire para as nações a ella sujeita; mas é forçoso confessar, que lhe devemos immensos beneficios; e que, se não foi um bem absoluto a interferencia da França, Inglaterra e Hespanha, poupou comtudo a Portugal o derramamento de muito sangue, e os milhares de calamidades a que a duração da guerra nos tinha entregues.

No caso mesmo do vencimento provavel da causa popular havia a receiar que, após elle, a ambição do partido ante-dynastico, que se achava em força consideravel, désse muito que entender aos liberaes de boa fé, que apenas pelejavam pela prática genuina do systema constitucional, e que amavam de toda a alma a Liberdade, e a respeitabilissima pessoa da snr.^a D. Maria II.

A excelsa filha do rei soldado, a mais exemplar senhora da Europa, como esposa e mãe educadora, foi inconsideradamente arguida de facciosa, pela exaltação partidaria, que se esqueceu de levar-lhe em conta dos seus actos politicos as constantes suggestões dos conselheiros que a cercavam, aos quaes não se fartava de fornecer terriveis documentos para a catechese, a imprensa licenciosa da opposição, cuja linguagem desenvolta e ameaçadora bastaria a resolver qualquer monarcha, por mais resoluto que elle fosse, a entregar-se nos braços dos que se lhe mostrassem dedicados e leaes.

O certo é, que alguns dos officiaes superiores da junta do Porto, não viram com máus olhos a conclusão da guerra, pelo modo que ella teve logar, como por sem duvida, a maioria sensata do paiz, a recebeu com jubilo.

O batalhão a que pertenciam Arthur Soares, João de Lencastre e o sargento Paulo Virginio, achava-se em Setubal, fazendo parte da brigada do commando do honrado e mutilado general, que servia ás ordens da junta do Porto. Succedeu haverem sido interceptados a bordo de um vaso de guerra alguns objectos, que do estrangeiro vinham dirigidos á rainha, e entregues áquelle general, que immediatamente os enviou ao Paço por um dos seus officiaes;[15] e foi Arthur Soares, elevado por seus serviços ao posto de major, o escolhido para os ir apresentar, commissão que desempenhou galhardamente.

A snr.^a D. Maria II, commovida por um tão delicado quanto conveniente procedimento, acolheu o mensageiro com inequivocas demonstrações de estima. Não lhe fez graça nem mercê régia, porque, senhora como era de elevadissimos sentimentos e notavel intelligencia, não queria de nenhuma fórma melindrar o caracter de um soldado, que militava em campo que lhe era opposto; mas significou-lhe, em phrases insinuantes, o quanto estava reconhecida áquella fineza do bravo general, e o muito que desejava poder em dias mais felizes distinguir e galardoar o porte e delicadeza do attencioso mensageiro.

Dias depois, tivera logar a batalha de Setubal, que matou cerca de 600 homens de ambos os lados, em quatro horas que durou o fogo, e a que poz termo um armisticio, por uma especie de intervenção do coronel Wilde, que se achava n'aquellas paragens, a bordo do navio de S. M. Britanica _Polyphemus_.

N'esta batalha, achou-se o regimento de Arthur Soares fazendo parte da força que atacara a direita do inimigo, e que foi tomada de improviso pela cavallaria, que a fez debandar desordenadamente. O major Arthur Soares, o tenente João de Lencastre, e o sargento Paulo Virginio, fizeram desesperados esforços por conter os soldados, e tiveram de sustentar uma lucta desigual com a cavallaria inimiga. Na occasião em que o peito de João de Lencastre ia ser varado por uma bala sahida da pistola que lhe apontava um soldado, collocou-se de permeio o sargento Paulo Virginio, que recebeu o ferimento destinado ao seu superior. N'esta altura, ouvia-se por todo o campo da batalha o toque de retirada, e foi a elle que os dous officiaes deveram a conservação de suas vidas, e o poderem soccorrer o ferido, que tão denodadamente havia salvado um d'elles.

Imagine-se qual seria o espanto dos nossos heroes, ao reconhecerem, sob as vestes militares do sargento moribundo, o corpo mimoso da donzella Rosa!...

[15] Este facto foi publicado em alguns periodicos d'aquelle tempo.

VII

OS ESPINHOS DA FLOR

«Peço ao meu anjo da guarda, Se hei-de aqui ficar perdida, Que vá levar-te por sonhos Esta minha despedida.»

(_V. de Castilho_--O ACALENTAR DA NETA.)

Leopoldo havia recuperado a razão, graças aos cuidados da sua gentil enfermeira. Mal sabia o desgraçado, que novo supplicio lhe destinava a mulher que o salvára da demencia!...

Ouçamol-os:

--Diga-me muitas vezes que não sonho, querida prima, e que não é encantamento, ou uma nova crise da minha loucura, este celeste deslisar da existencia ao seu lado...

--É um facto muito real e verdadeiro, _caro primo_, que hade ter por desenlace o nosso casamento...

--Não posso crêr em tamanha ventura!...

--Duvída?!... Pois não sabe, que protestei a meu pae de sustentar o seguimento das _nobres_ allianças da minha raça?... Não vê como já me abandono ao seu dominio, separada de minha mãe, que foi para o nosso solar chorar a perda do marido estremecido, e longe de todos que no mundo me são caros?... Duvída?!... Alguma razão tem para duvidar, porque não é com premios taes que se costumam castigar os assassinos...

--Tenha piedade, senhora!...

--Piedade?!... De quem, e porquê?!...

--De mim, que só fui criminoso por amor e por ciume... A ferida que fiz n'um peito desleal, causou-me estragos, que só a prima teve o poder de reparar... e bem conhece que não são de _assassino_ estes soffrimentos...

--__A _ferida que fez n'um peito desleal_, diz o primo?!... Illude-se, e é chegada a hora de lhe tirar a venda... V. Exc.^a cravou ás punhaladas, com este villão instrumento que guardei para o sangue que o tinge me animar á vingança, o unico peito em que batia um coração que lhe era affecto... Minha irmã Anna amava-o, como ao seu unico e verdadeiro amor...

--Não brinque, prima, que me tortura!...