Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte
Chapter 12
«O meu camarada Arthur Soares, retido no seu leito por virtude de um ferimento grave, mas não mortal, que recebeu em um ataque dado pelo inimigo ás linhas d'esta cidade, incumbe-me de escrever a V. Exc.^a em seu nome, para que termine o cuidado com que deve estar a Exc.^ma Snr.^a D. Anna, pelo silencio d'elle, depois de um formal chamamento. Só uma impossibilidade absoluta, como aquella que se deu logo em seguida á recepção da carta que o chamava, é que estorvaria o meu camarada e amigo, como elle affirma, de voar a cumprir as ordens de sua exc.^ma irmã adoptiva. Muito mais do que as consequencias do seu ferimento, tem o meu camarada sentido o vêr-se até impossibilitado de escrever; e eu, accedi aos seus rogos, para o tranquillisar, e abreviar a sua cura; podendo V. Exc.^a ficar certa--pela cruz da minha espada o juro--que, finda esta carta, esquecerei completamente o seu conteudo. Não vae dirigida á snr.^a D. Anna, porque tendo sido roubado, quando cahira no campo, o meu camarada Arthur, fez parte do roubo a carta que aquella respeitavel senhora lhe escrevera; e o ferido receia que ella fosse parar ás mãos _d'alguem_, que, por má interpretação, tenha ficado com suspeitas, as quaes augmentariam, por certo, sendo mais esta interceptada.
«Não obstante estar o meu camarada livre de perigo, os homens da sciencia recommendam toda a cautela, e marcam ainda alguns dias de recolhimento ao ferido.
«É de V. Exc.^a m.^o att.^o v.^or e cr.^o
«_O tenente da 2.^a comp.^a de voluntarios do Minho_.»
Desde o começo da leitura, que D. Maria da Gloria ficára excessivamente pallida e trémula; mas a sua dôr, por demasiado violenta, não deu accesso ás lagrimas. D. Isabel que sentira o estado da filha, perguntou-lhe o conteúdo da carta, que ella teve a coragem de lêr segunda vez, de modo que fosse ouvida por sua mãe.
--Assustas-me, querida Maria, mais com essa dôr surda, do que se te vira coberta de pranto... É então incuravel o affecto que nutres por Arthur?
--Só a morte o póde curar, minha respeitavel e muito presada mãe e senhora: se até agora o podesse duvidar, recebia n'este momento a mais solemne das provas... É a primeira vez que lastimo a minha condição de nobre, que me embarga o vehemente desejo de ir ser a enfermeira de Arthur... Dava ametade da minha existencia, para ser hoje uma camponeza, livre dos preconceitos e obrigações sociaes, que podesse seguir os impulsos do coração sem constrangimento nem temôr...
--E conheces bem, filha, as qualidades do homem por quem assim queres sacrificar-te?!...
--Conheço, e vai tambem avalial-as a minha querida e santa mãe: Arthur, sabe que é amado por mim, adora-me, e nunca da sua bôcca sahiu uma palavra, que meus paes não podessem ouvir. Podia estar ao meu lado, gosar a todo o instante d'esses prazeres innocentes e celestes, que só dá o verdadeiro amor, e fugiu-me, para não prejudicar a minha reputação, porque receia não poder desposar-me. Todas as acções de Arthur, são de uma fidalguia exemplar, unica, inimitavel. Encarregado por meu illustre pae de saber como a Annitas era tractada pelo marido, obteve a convicção de que ella era desprezada por ser plebêa e pobre: disse-o, por carta, a seu padrinho; esperou que o brioso fidalgo acudisse logo á sua protegida, á que adoptara por sua filha, á que obrigara a casar-se com o seu tyranno; demorou-se a protecção, e Arthur, que apenas fôra companheiro de infancia da nossa Anna, sem nenhuma obrigação legal ou moral, só porque ella não tivesse de soffrer mais alguns dias, alcançou do thio, o venerando padre Alvaro, todo o importe do futuro d'elle--trinta mil crusados--que veiu entregar a Leopoldo, dizendo que era o dote de sua mulher, enviado por meu respeitavel pae!...
--É grande, muito grande, o que me contas, Maria!... Por isso tu o amas, filha, e creio agora comtigo na impossibilidade de venceres o teu amor... Meu primo já sabe d'esse facto?
--Não sabe, minha senhora, porque Arthur rogou muito que se lhe occultasse.
--Então, Maria, sou eu que te digo, que pódes ter esperança de casar com Arthur. Teu pae é um fidalgo excessivamente orgulhoso da sua raça, bem sei; mas é tambem pela sua excedente alma, bom apreciador de todas as acções que ennobrecem quem as pratica.
--Não podêmos contar com este segredo, minha querida mãe, porque jurei a Arthur que o não revelaria, e não sei faltar aos meus juramentos.
--Mau é isso: no entanto, confiemos em Deus.
--Agora, minha boa mãe, deixe-me dizer-lhe mais, que outro sentimento, não menos forte do que o meu amor por Arthur, me obriga, e me domina: é a gratidão pelo generoso procedimento da nossa Anna. Escrever uma carta a chamar o homem que eu amo, por vér, talvez, na sua vinda aqui a minha salvação, arriscando-se a ser suspeitada pelo marido, e a soffrer-lhe as terriveis consequencias do seu ciume,--é a mais irrefragavel prova de uma verdadeira dedicação... Estou inquieta com a perda da carta; bate-me o coração com uma violencia desusada, e presinto grande desgraça... Vamos já ao quarto da Anna...
--Pois ajuda-me a terminar o meu vestuario... Vamos lá, filha, e socega, que Deus tudo fará por melhor.
Quando a mãe e a filha entraram no quarto mortuario, estava lá o cadaver só com os romeiros ajoelhados, porque o padre Alvaro fôra procurar o medico da localidade, ainda na vaga esperança de salvar a desditosa esposa.
As duas senhoras, consideraram-se por muito tempo victimas de um pesadêlo horrivel, ao depararem com aquelle funebre espectaculo. D. Maria da Gloria, sem bem saber o que fazia, acercou-se do leito, fitou-o com vistas desvairadas, apalpou-o automaticamente, fechou n'uma das mãos um papel manchado de sangue, curvou-se depois sobre o cadaver, pousou-lhe os labios na fronte, nos olhos, na bôcca, tudo feito como em delirio, levantou lentamente a cabeça, olhou para as mãos, abriu aquella que encontrara e fechara o papel, acompanhou a quéda natural d'elle com a incerta curiosidade de um innocente que deixa cahir o brinquedo, apanhou-o outra vez, examinou-o e, ao conhecer-lhe manchas de sangue, um tremor violento se apoderou d'ella...
D. Isabel, conservara-se immovel, como se fôra uma estatua, olhando, simultaneamente, e como louca, para o cadaver, para os romeiros e para a filha.
Os romeiros levantaram-se, e foram collocar-se, um ao lado de D. Maria da Gloria, e outro de D. Isabel; como para lhes servirem de amparo.
O que ficara juncto de D. Maria, tentou brandamente arrancar-lhe da mão o papel, ao que ella resistiu, com a reacção dos dementes contrariados, procurando em seguida lêr o seu conteúdo. Quando, após uma demorada leitura e indeciso exame, a fidalga donzella levantou a fronte, e fechou os punhos, o seu aspecto aterrava. Aquella feminil belleza, transformada pela dôr, afugentaria de si, n'aquelle momento, o seu mais apaixonado amante!
Demorou-se ainda alguns minutos silenciosa, e terrivel de vêr-se; até que, tomando uma deliberação repentina, curvou outra vez a cabeça, e disse ao ouvido do cadaver, n'um tom de voz indiscriptivel:
--«Assassinaram-te por minha causa, irmã!... O teu assassino, o monstro que nos roubou e te seduziu, ama-me... entendes?!!... Oh!... como tu vaes ser vingada!... Ha-de o infame soffrer mil mortes em cada segundo, até ao seu ultimo sôpro de vida... Juro-t'o pela honra do meu nome!...»
Em seguida tirou o punhal do peito do cadaver, metteu-o no seio sem o limpar, guardou a carta fatal, e, agarrando nas mãos de sua mãe, sairam ambas repentinamente.
Tiveram apenas tempo de transpôr os umbraes da porta d'aquelle recinto, quando um grito unisono, dos dous romeiros, as teria feito retroceder, se o estado em que fugiam lhes podésse deixar ouvil-o.
Aquelle grito fôra occasionado por ter parecido aos romeiros, que o cadaver abrira os olhos:--Ao tentarem verificar a sua illusão, estavam já acompanhados do padre Alvaro e do medico.
II
MYSTERIO
«Os conegos da sé de Evora, conduziram, sem pompa, á igreja de S. Domingos, entoando as orações dos finados, o cadaver truncado do duque de Bragança.»
(CHRONICA DO SECULO XV.)
Algumas horas depois que o padre Alvaro, os romeiros e o medico, tinham ficado no quarto mortuario, junto do cadaver, era publica a morte da infeliz D. Anna, que fôra attribuida a um ataque cerebral. Os creados e os visinhos do palacio, lamentavam sinceramente o funebre succedimento, e a fatal consequencia d'elle, que fôra a immediata loucura do _extremoso_ marido.
Para que esta mentira fosse a versão publica da repentina morte de uma das nossas heroinas, fôra preciso que o padre Alvaro empregasse com D. Maria da Gloria e sua mãe, a sua auctorisada e respeitavel palavra, para as convencer da necessidade de, por aquelle modo, estorvarem a acção da justiça, e a deshonra que o facto, commentado pelos ociosos, traria a todos; e tambem o grave desgosto, que elle causaria ao velho fidalgo Sebastião da Mesquita.
Accordado em que assim se publicasse ficou o bom do padre incumbido de tudo remediar, e assim o fez.
O que se passou entre o medico, os romeiros e o padre, antes que este viesse pactuar a util e generosa mentira, é, por emquanto, vedado aos leitores.
Houve desde logo todo o cuidado de não deixar penetrar pessoa alguma no quarto da finada, e de fazer desapparecer todos os vestigios do crime. Aos que notaram ser o cadaver conduzido immediatamente, em caixão fechado, á capella do palacio, sem preceder a demora, e a exposição costumada, foi-lhes revelado, que a defuncta deixára disposta antecipadamente a condição de não ser visto do publico o seu cadaver, e de se evitarem, no enterro, todas as pompas.
Até ao momento do caixão descer ao jazigo de familia, foi constantemente guardado por um dos romeiros.
Concluida a funebre ceremonia, voltou o padre Alvaro para junto das consternadas senhoras. O tranquillo aspecto do ministro de Deus, as suas palavras persuasivas, e a força de seus concludentes raciocinios, deram ás fidalgas mulheres a coragem necessaria, para continuarem com firmeza a encobrir o crime.
D. Maria da Gloria, deixou transparecer a ideia da sua medonha vingança, que o padre rebateu com evangelicas razões: foi um combate de palavras, entre dous adversarios valentes e convictos, que só teve em resultado firmar-se mais cada um d'elles no seu proposito. A donzella tinha n'alma a gratidão, e o padre a caridosa doutrina de Christo: D. Maria queria vingar de um monstruoso crime, a companheira e amiga, que por sua causa fôra victima; o bom Alvaro queria o perdão do criminoso, e pedia-o, a exemplo do que o Christo implorára para os seus matadores.
No mais caloroso do debate, entrou Leopoldo vagarosamente no local d'elle. D. Isabel teve medo d'aquelle homem, e conchegou-se á filha; o padre Alvaro ficou impassivel, e D. Maria da Gloria teve força para concentrar a sua cólera.
Leopoldo, com todos os modos de completo idiotismo, disse a D. Maria:
--Vá reconhecer o inimigo, snr. ajudante... Tenho um plano que nos dará infallivelmente a victoria... É um segredo que só direi a meu filho, por que vae commandar a emboscada... É verdade... peça a meu filho que me não bata... pede?... Eu sou tão amigo d'elle... Coitadinho!... está doido!... diz que lhe matei a mãe, e fustiga-me sem piedade!... Peça-lhe muito, sim?... Vá... vá, que eu espero a resposta no quartel general...
E sahiu com o mesmo vagar com que entrára, deixando as mulheres estupefactas, porque ainda ignoravam o facto da loucura de Leopoldo.
--Este homem está effectivamente louco?!...
--Está, sim, snr.^a D. Maria da Gloria...
--Eu julguei, que o snr. padre Alvaro teria combinado com elle o fingir-se demente por algumas horas, para melhor encobrir o seu crime...
--Não, minha senhora, era essa uma calúmnia desnecessaria, e pouco digna. O infeliz perdeu a razão, logo em seguida ao crime. Antes da sua vingança, senhora D. Maria, appareceu o castigo da Providencia...
--É preciso curar-lhe a loucura, e hade curar-se... Empregarei, para conseguil-o, todos os carinhos que dispensaria ao homem idolatrado... Quero vingar a minha querida Anna...
--Desconheço-a, snr.^a D. Maria da Gloria!... Pois, que vingança quer V. Exc.^a tirar, no estado d'aquelle infeliz?!...
--O snr. padre Alvaro não sabe o que é o coração da mulher _de raça_ quando ama ou quando odeia... O castigo que eu reservo áquelle malvado, se poder conseguir fazel-o recuperar a razão, a mim propria causaria terror, não me dominando a ideia de vingança...
--E não receia, com o seu procedimento, descobrir o crime a seu exc.^mo pae?...
--Socegue, que a dissimulação é a mais forte defeza das mulheres.
--Mas, minha filha, o snr. padre Alvaro diz bem... Tu não deves querer o que Deus não quer...
--Perdão, minha santa mãe.....Se não deseja vêr sua filha morta pela dôr, e pela saudade, deixe-a dar largas á sua gratidão...
Tres dias depois de ter logar o enterro, chegava áquelle formoso e triste domicilio, o velho fidalgo Sebastião da Mesquita, já sabedor pela voz publica, que se antecipára á parte dada pela familia, da morte de D. Anna e da loucura de Leopoldo.
III
BRIOS DE RAÇA
«Se de imitar meu nome te gloreias, As façanhas me imita, Ou na Patria Nação, ou nas alheias, O meu valor te incita: Ségue os meus passos, segue a meu exemplo, Se morar quéres, n'este honrado templo.»
(Filinto Elysio.)
Decorreu um mez, após a chegada do velho fidalgo ao palacio de Leopoldo.
Sebastião da Mesquita, já bastante alquebrado, e mal convalescido, cahira de novo na cama, muito magoado com a morte de D. Anna, e com a loucura do marido. Tornou-se grave o seu padecimento, que dava sérios cuidados ao seu assistente. Mais do que á sciencia, aos desvelos de sua esposa D. Isabel d'Abendanho, que passava dias e noites á cabeceira do enfermo, deveu o velho fidalgo as leves melhoras que sentia.
D. Maria da Gloria, toda entregue ao seu pensamento dominante, procurava fazer recuperar o juiso a Leopoldo. Consultara todos os medicos que visitaram seu pae, e ouvira d'elles opiniões de que os muitos cuidados e carinhos empregados com o louco e, mais tarde, algumas impressões violentas, poderiam, talvez, trazer-lhe a razão.
Quem presenciasse o cuidado permanente, que a fidalga donzella empregava com Leopoldo, diria que, a não ser uma sua extremosa amante, era uma filha dedicada ao triste dementado. E conseguira já muito: Leopoldo tinha alguns lucidos intervallos, em que parecia conhecer a sua gentil enfermeira, e em que vertia copiosas lagrimas. Succedia mesmo, nos curtos instantes em que a donzella se afastava, ser chamada pelo nome de filha, em altos gritos, e até procurada pelo infeliz, com a pertinacia da loucura.
Sebastião da Mesquita teve uma longa e religiosa conferencia com o padre Alvaro, despida de apparatos que, aos timidos, encurtam as horas de vida; conversação que augmentara as melhoras do velho fidalgo, e o predispozéra para este dialogo:
--Agora, meu bom amigo, que as suas evangelicas palavras conseguiram fazer-me esperar mercê da Providencia para os meus êrros, consinta-me que lhe falle do nosso Arthur...
--V. exc.^a assusta-me com esse modo solemne!.. Sabe alguma coisa má do seu afilhado?...
--Sou eu que peço agora resignação e coragem, áquelle que ha pouco me fallava com desprendimento das cousas terrenas... Bem sabe que tenho soffrido muito: posso, pelas minhas, avaliar as dôres alheias; mas tambem sei que o padre Alvaro é um martyr a quem Deus concedeu forças superiores ao commum dos homens...
--Acabe, senhor, se não quer vêr-me morrer de impaciencia!... Que desgraça pésa sobre meu filho?!...
--Póde ser mentira... Os periodicos muitas vezes desmentem no dia seguinte, o que asseveraram na vespora... Comtudo, eu li, em Guimarães, uma gazeta, que noticiava ter sido... gravemente ferido o meu afilhado n'um recontro com as tropas da rainha...
Um grito de suprema angústia, foi a unica resposta que ouviu o fidalgo, vendo em seguida fugir-lhe o padre, com a rapidez e o vigor da mocidade!
Deus por certo se amerciou com a mágua de aquelle pae, porque logo deparou com D. Maria da Gloria, que o susteve, e lhe disse que Arthur Soares estava livre de perigo, mostrando-lhe as cartas que tinha em seu poder, e pondo-o ao facto de quanto succedera.
--Obrigado, minha querida filha! O céu lhe compensará o bem que fez a este peccador... Não se póde vencer a natureza, e eu sou pae... De certo eram ficticias as forças que me deu o desespero, e eu não chegaria ao Porto com vida... não veria ainda uma vez o filho do... Perdôe-me v. exc.^a esta revelação do meu criminoso passado...
--Já sabia o que me diz... adivinhou-o o meu coração...
--É magnanimo o seu coração, minha senhora, e receio que d'essa extrema bondade lhe resultem sérios dissabôres... Arthur não é nobre, snr.^a D. Maria, nem sequer é um filho legal!... V. exc.^a fez mal em dar entrada ao sentimento que nutre por elle...
--Seu filho possue a mais verdadeira e sólida das nobrezas--a da alma--e eu amo-o!...
--E seu pae, minha senhora?!... Não sabe V. Exc.^a quanto elle é orgulhoso da sua raça?!...
--Diligenciarei convencel-o e, se não o conseguir...
--Por Deus, senhora D. Maria, não pense em desobedecer a seu illustre pae!... Desgraçados d'aquelles que na sua mocidade se deixam arrastar pelas paixões! Eu sei o que tenho soffrido, senhora!... Não queira augmentar os remorsos d'este pobre velho, com o mal causado por meu filho!... De joelhos lhe peço que me jure, que nunca procederá de encontro á vontade paterna...
--Quer, então, a minha morte?...
--Quero a sua salvação, senhora D. Maria da Gloria! Quero o cumprimento de um dever sagrado, que póde até tornar respeitavel o seu amor por meu filho. Se V. Exc.^a soffresse a maldição paterna, não haveria posição que lhe désse tranquillidade: infelicitava-se, e fazia seu cumplice aquelle que ama... Já não quero que attenda a este velho, que a implora, e que dentro em pouco será pasto dos vermes...
--Basta, snr. padre Alvaro!... Juro-lhe que serei sempre filha obediente e respeitosa, ainda que isso me custe a vida!...
--Obrigado, querido anjo!... Hade viver e ser muito feliz, porque Deus é justo... Deixe-me pedir-lhe perdão de ter estranhado a sua dureza, para com o desgraçado marido de D. Anna... Eu ignorava a causa do seu criminoso proceder e os motivos de gratidão que levavam V. Exc.^a á vingança... Ainda assim, peço-lhe que o deixe entregue ao castigo providencial que o pune...
--A esse respeito, é inabalavel o meu proposito, e serei tanto mais cruel, quanto mais contrariado fôr o meu affecto por Arthur... Vae de certo ao Porto, snr. padre Alvaro, e eu atrevo-me a pedir-lhe noticias do doente... Concede-me este pedido?
--Cumprirei essa obrigação, minha senhora.
Poucas horas depois de ter logar o encontro que acabamos de escrever, foi D. Maria da Gloria chamada por seu pae, que lhe dirigiu a palavra n'estes termos:
--É tempo, querida Maria, de te explicar alguns dos meus actos, e de te dar a minha opinião sobre o teu futuro. Deus sabe se me tornarei a levantar d'este leito, e desejo que o meu passamento seja o mais tranquillo possivel...
--O meu bom pae, e senhor, está livre de perigo, e ha de viver ainda muitos annos, para a nossa felicidade:
--É para que sejas feliz, que eu vou remecher no meu passado, e despertar factos que me remordem na consciencia. Quero que a minha vida sirva de exemplo á tua, seguindo-a no bem, e fugindo ao mal que os seus erros me trouxeram... Escuta-me: tive na minha mocidade sérias ligações, que acabaram com a morte de filhinhos que estremeci; e, já depois de casado, vi uma encantadora menina, cheia de virtudes, vivendo na companhia de seus paes de quem era o unico enlevo. As demandas da nossa casa, fizeram-me travar relações com o pae, o melhor jurisconsulto que então existia em Penafiel. Abusei da confiança que me deram, para me insinuar no animo da gentil e innocente criança, que em breve sentiu por mim um d'esses affectos, que são a felicidade ou a completa desgraça dos que os nutrem, segundo o bem ou o mal empregado d'elles. Amei-a... amei-a levianamente!... Quando os meus brios me fizeram conhecer a infamia do meu procedimento, quiz fugir-lhe, mas já não era tempo!... Um dia, a vigilancia paterna, arrebatou a infeliz Laura ao meu amor, e fez encerral-a num recolhimento... Mais tarde, entrava eu furtivamente, e a deshoras, na casa sagrada, para receber nos meus braços duas gêmeas recem-nascidas... E sabes quem eram aquellas criancinhas, que a minha criminosa leviandade fez vir a este mundo?... Eram as tuas discipulas Rosa e Anna...
--Minhas irmãs!!...
--Sim, tuas irmãs... uma das quaes está morta, e a outra... perdida!...
--Que diz, meu pae, perdida?!! A Rosa está perdida?!... Perdida, como?!...
--Ha muito que eu andava suspeitando da profunda melancolia de Rosa, e dos seus modos inteiramente oppostos á indole viril e folgasã que sempre lhe conheci. Antes da minha partida para Guimarães, procurei-a em casa dos suppostos paes, quando estes choravam a sua inopinada e inexplicavel ausencia... Esquecia-me dizer-te, que aquellas infelizes crianças encontraram carinhosas mães, em duas das minhas caseiras, cujos maridos tiveram a bondade de consentir na alimentação de seus verdadeiros filhos a peitos estranhos, para que as minhas filhas podessem ser amamentadas por suas esposas, e tidas como filhas d'elles por toda a povoação... Foi assim que sempre as pude ter perto de mim, ignorando, ellas e o mundo, que eram gêmeas, e que eu era seu pae...
--E é á simples _ausencia_ de Rosa, que o meu bom pae e senhor chama _perdição_?!...
--Encontrei-a em Guimarães, entregue a um homem desconhecido, talvez o seu amante, fazendo gala da sua liberdade... Soffri muito!... Os brios da minha raça, fizeram com que mais uma vez esmagasse o coração; mas tive forças para a desprezar publicamente... Já vês, que está perdida, e bem perdida!...
E uma torrente de lagrimas, serviram de epilogo á narração do velho fidalgo.
D. Maria da Gloria, estava cadaverica, mas não vertia uma só lagrima. Tinham sido tão violentos, e seguidos, os choques que soffrêra, havia n'aquella fidalga indole tamanha reacção contra a má sorte, que a donzella, imitando os que a adversidade torna heroes, reprimia todas as dôres, e concentrava todas as suas forças para a lucta.
--Minha irmã não podia entregar-se voluntariamente a qualquer homem, pisando aos pés a sua dignidade... V. Exc.^a, meu respeitavel pae, deixou-se illudir por falsas apparencias, e o tempo hade esclarecer o mysterio, provando-lhe que uma filha de Sebastião da Mesquita, não sobrevivería uma hora á sua deshonra...
--Como tu és boa, minha querida Maria!...
--Sou apenas justa, meu bom pae. Espero, com plena confiança, vêr um dia resurgir minha irmã Rosa, tão digna como eu da sua benção, e do seu affecto... Agora, se V. Exc.^a o consente, dir-lhe-hei, que lamento o não se poder legitimar o nascimento de minhas irmãs, pelo enlace de V. Exc.^a com a senhora que foi mãe d'ellas...
--Estamos chegados ao ponto principal d'esta solemne conferencia, minha querida filha... Peço-te que continues a escutar-me com a maior attenção, porque é de todo o melindre o que vou dizer-te... Para nós, os homens que na bruma de tempos immemoriaes temos escondida a nossa gloriosa origem, a nobreza não é o echo de pomposos nomes, nem o apparato de vaidosos titulos, nem a fama de notaveis feitos: é uma questão de _raça_. O rei póde fazer nobres; mas os fidalgos só os faz a _casta_... Não ha memoria de existir na minha familia uma alliança inconveniente... Gira em nossas veias um sangue tão puro, como possuira o primeiro fidalgo d'esta raça: é uma herança, que só póde deixar de transmittir-se pela morte da ultima vergontea da nossa arvore gigante...
--Meu Deus! que pesada herança!...