Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte

Chapter 11

Chapter 113,814 wordsPublic domain

Sebastião da Mesquita, chorava com lagrimas paternaes a má sorte a que se entregára a donzella Rosa. Arrependera-se do seu arrebatamento no baile, desejára poder remedial-o, receber nos braços a donzella, perdoar-lhe a primeira leviandade, acolhel-a de novo, talvez ainda innocente e pura, e estorvar assim a quéda infallivel, e horrenda, da que elle considerára sempre como sua filha. Mas era já tarde; e o seu natural orgulho não lhe consentia desmentir, com um procedimento contradictorio, o severo porte de que usara publicamente.

Este facto, a par da violenta dôr que lhe entorpecera as forças physicas, fizera pensar Sebastião da Mesquita, com muita gravidade, no futuro de sua filha Maria da Gloria.

Por maior que seja a confiança que se deposite no caracter e virtudes de uma filha, quando vemos no caminho da perdição outra mulher, que nos é cara, lembra-nos logo a possibilidade de um desvio, e queremos remedial-o com prevenções, algumas vezes, e não poucas, com bem peiores resultados do que haveria no imaginado mal, que tentáramos evitar.

O velho fidalgo, depois de ter conferenciado com varios cavalheiros do berço da monarchia, onde se deteve pelo prostramento em que estava, escreveu a D. Maria da Gloria uma carta d'este theor:

«_Minha muito presada Maria_:

«O meu paternal carinho, leva-me a pensar que seja tempo de escolher-te um esposo digno de ti, que possa, na minha falta, proteger-te socialmente contra as ciladas sempre preparadas para as donzellas do teu merecimento, e do teu dote. Aqui, n'esta antiga e gloriosa terra de Guimarães, presumo eu que existe o que nos convém. Convido-te, pois, a que venhas quanto antes ter comigo, para avaliares por ti a competencia da minha escolha.

«Ainda hoje recebi carta da tua santa e respeitavel mãe, que é sempre o bom anjo do nosso lar. De certo tambem sabes, que ella está de boa saude, por que não haverá dia em que te não escreva, como á pessoa que ella mais ama.

«Recebe a benção, e uma saudade, do teu extremoso pae,

_Sebastião._»

D. Maria da Gloria, embebida nos fagueiros sonhos de um futuro risonho, a que aspirava pelo seu amor a Arthur Soares, e entretida a desvanecer, com expansivas provas da sua amisade e bom juiso, os dissabores da sua discipula Anna, que todos eram a quasi certeza de não ser já amada por Leopoldo, nem por sombras podia prever a fatalidade de que estava ameaçada, com aquella ordem paterna.

O padre Alvaro, continuava a sua vida de oração e penitencia. Pastor exemplar, possuia o acrisolado amor das suas ovelhas, porque sabia praticar, para com todos, a caridade que aprendêra de Christo. Ainda assim, soffria constantemente, e muito. Havia uma campa na sua parochial egreja, ao pé da qual elle esquecia o filho idolatrado, as suas penitencias, o seu evangelico proceder, para tão sómente se recordar de que fôra peccador.

Feliz, quanto se póde ser n'este patrimonio de Eva, de todos os personagens do nosso «Conto», só era a respeitavel e bondosa matrona, D. Isabel de Abendanho, que tinha fechada a sua existencia em aldeia pacifica, e resumidas as suas ambições na direcção do seu casal, no respeito e amisade ao esposo, e no elevado amor a sua filha.

VIII

A MULHER CAHIDA

«A justiça de Deus lhe infundira no coração abundancia de remorsos, e a dos homens lhe entornava sobre a fronte amplo vaso farto de ignominia.»

(_A. H._--Fragmento de um livro inedito.)

Por mais que os homens doutamente célebres de todos os seculos tenham querido collocar essa formosa e apreciavel parte do genero humano--a mulher--na altura que lhe é devida, nunca a fonte sublime do amor, a mãe e o apoio da meninice, o esteio da vida, deixou de ser conduzida por nós a todos os sacrificios: raro é o homem que se aproxima da mulher sem que a macule; e feita escrava de seus caprichos, é a deshonra e o villipendio, que lhe dá em premio!

A mulher, na sua juventude, só ambiciona o nosso amor; alinda-se para agradar-nos, e nós damos-lhe, em vez do que nos pede, a paixão material que a enlameia: consome-se, para conservar-nos, em sua idade adulta, porque nos alimenta a seus peitos, arruinando a sua belleza; e nós córamos de um pejo infame, se a maternidade não teve logar dentro de umas certas condições sociaes, que nos imprimem a _legitimidade_: levanta as mãos ao céu na velhice, porque a mulher é naturalmente religiosa, dedica os ultimos annos de sua vida a orar por seus paes, por seus filhos, por todos os desvalidos; e nós alcunhamol-a de impostôra e de bruxa!

Existiram sempre _philosophos_, escassos de comprehensão, e mal avindos com a mulher, que attribuem a esta preciosa parte da nossa existencia o vicio do sensualismo, que nos provoca. Covarde mentira!

A perversão da moral, e o desenfreamento das vis paixões, tem sido, em todos os tempos, o resultado forçoso de infinitas circumstancias, em que a mulher não toma parte.

A corrupção da Grecia, como a romana sua filha, teve origem na philosophia de Epicuro, nos mancebos que a seguiam, e não nas vilipendiadas matrônas d'aquellas nações.

Antes das torpezas de Messalina, já Cesar tinha manchado o seu thálamo imperial.

Seriam as mulheres culpadas nos crimes, que abrazaram as duas cidades nefandas, de que nos falla o Génesis?!

Corteja-se a formosura da mulher; empregam-se aleives para seduzir a incauta; fazem-se promessas mentirosas; servem todas as villezas ao nosso proposito: um, é o dilecto de seus carinhos, e consegue o seu amor; aconselha-lhe a fuga da casa paterna; cerca-a de algumas commodidades passageiras; sacia-se; desampara-a; precipita-a na profundeza da desventura; deixa-a na miseria, e no desabrigo de toda a consolação humana!

A nudez e a fome, tomam então logar juncto ao umbral solitario da infeliz!... Que lhe resta?!... Vender-se!... Pedir ao primeiro que passa, que lhe estampe na fronte o ferrete do aviltamento pelo óbulo da infamia!...

Depois, as dissoluções, a velhice prematura, a miseria e a doença!...

Depois, a enxerga da caridade!...

Depois, a valla commum do cemiterio!...

Depois, nem uma só lagrima que lhe aqueça as cinzas; nem uma só flôr no seu jazigo; ninguem que ore por ella a Deus!...

E o _elegante seductor_?...

Passou a fazer novas _conquistas_; gastou o melhor do seu vigor e da sua fortuna, em atirar com muitas irmãs na desgraça ao lado da sua primeira victima; pensou mais tarde em casar-se; escolheu _convenientemente a esposa_, fez-lhe a _mercê_ do seu nome e, para vingar-se de uma _affronta_, que _não podia_ ter o seu perdão, assassinou a mulher adultera!...............................................................

Rosa, luctava com animo viril contra as tentações de todo o genero de que se via rodeada no bordel a que voluntariamente se acolhêra. Eram-lhe, porém, já muito pesadas essas luctas desiguaes. Mais ainda que os atrevimentos e ciladas dos vadios frequentadores d'aquella casa, causavam asco á virtuosa donzella as suggestões das infelizes do seu mesmo sexo, pervertidas até ao extremo de tentarem chamar ao seu grémio as que não tinham mácula.

Principiava a entrar na alma de Rosa o arrependimento do passo precipitado a que se abalançara. Conhecêra, ainda que tarde, a borda do precipicio em que estava, receiava pelas suas forças, e tremia de não saber como fugir-lhe.

Uma noite, foi a donzella mais atacada pelo terror: pareceu-lhe, a deshoras, ouvir estranhos rumores, fóra do seu pequeno e pessimo quarto. A pouca segurança da porta, e da fragil fechadura, augmentava o receio da donzella: apromptou luz, e vestiu-se.

O rumor aproximou-se, a porta foi violentada, e Rosa agarrada fortemente pelos pulsos:

--Não esperava esta desfórra do seu _militar_, amavel _vivandeira_?!...

--Deixe-me... largue-me... acudam!...

--Não espante as pulgas, menina... _Esta boa terra dorme toda ás nove horas_, e já passa da meia noite... Só poderia esperar beneficio da minha generosidade, e eu, confesso, não tenho o fraco de generoso...

--Não realisará a malvadez que intenta, em quanto eu tiver um sôpro de vida...

--É o que vamos a vêr...

E o malvado homem empregava todas as suas forças, em dobrar a mulher, que não podéra seduzir.

Rosa, debatia-se com toda a furia e, mais que outra qualquer, resistira por muito tempo.

Quando estava proxima a matar-se ou a ser preza do infame, quebrou-se repentinamente um vidro da janella, e varanda, que dava para a rua, abriu-se a porta d'ella, e penetrou no quarto um homem, possesso da furia do leão, que descarregou sobre a cabeça do aggressor uma fortissima pancada, com o castão de um chicote de força, estendendo-o logo sem accordo de si.

--O snr. João de Lencastre!!... Oh, leve-me d'aqui!... Salve- me!... A mais forte das mulheres, cercada d'estas infamias, é impotente e fraca!... Agora o conheço!... Mas... como appareceu tanto a proposito?!...

--Habito aquella casa, alli defronte, e estava sempre de vigia, e preparado com uma taboa forte e larga, para lançar da minha janella á varanda d'esta casa, quando, como agora succedeu, lhe fosse necessaria a protecção de... seu irmão, senhora...

--Que nobre alma a sua, João!... Vamos... deixemos este inferno, e em sua casa combinaremos o que deva fazer-se...

IX

O PERIGO DAS CARTAS

«......e bem se manifesta, Que são grandes as cousas, e excellentes, Que o mundo encobre aos homens imprudentes.

(_Camões_--LUSÍADAS.)

D. Anna e D. Maria da Gloria, passavam as horas em longos desafógos e amigaveis confidencias, suavisando assim as saudades e as mágoas que soffriam. Nas suas respectivas posições, não era aquella a epocha mais infeliz da vida das duas amigas. Quando podêmos depositar em peito amigo o que nos impressiona, quasi desapparece o pesar que sentimos, pelo allivio que nos dá a certeza da partilha na dôr.

Estava, porém, marcado pelo destino, que poucos deviam ser os momentos de quietação, para as heroinas do nosso «Conto».

A carta que Sebastião da Mesquita escrevera á filha, viera terminar o gôso das confidencias, e tornal-o em prantos amargos. Para D. Maria da Gloria, o ser forçada a casar-se com outro homem, que não fosse Arthur Soares, era peior do que a morte. Sabia-o D. Anna, que tomou uma deliberação arrojada, para salvar a sua amiga, sem lh'a communicar. Mandou um expresso a Arthur Soares, com uma carta d'este theor:

«_Meu presado irmão adoptivo_:

«Confiada no seu cavalheirismo, de que já possuo bastantes provas, ouso pedir-lhe que venha a esta sua casa, logo após a recepção d'esta minha carta. Leopoldo está ausente, como sabe, e _nós_ esperamos o snr. Arthur _com a maior anciedade_.

_Anna_.»

Isto feito, tratou de convencer a sua mestra, e amiga, de que devia accusar ao pae a recepção da carta, e dizer-lhe que estava doente, e que cumpriria as suas ordens, logo que o seu estado de saude lhe permittisse fazel-o; porque assim ganhava tempo, que podia muito bem mudar a face dos acontecimentos. D. Maria da Gloria, inhabil para o raciocinio, sujeitou-se a tudo quanto lhe ensinuou a sua amiga.

Por este tempo, marchava sobre as linhas do Porto, o general em chefe das tropas da rainha, com o grosso do seu exercito.

As tropas da junta provisoria do governo supremo do reino, haviam soffrido desastres, sendo, o mais notavel, a _incomprehensivel desgraça_ de Torres Vedras;[13] mas as activas e energicas providencias dos homens do governo, juntas á dedicação popular pela sua causa, tudo remediavam como por encanto. Em vez de diminuir, augmentava o numero de soldados, por cada batalha que se perdia!

E apesar dos desastres, do grande dispendio com as reorganisações do exercito, e de só pagarem tributos moderados os povos sujeitos ao poder da junta, poude esta exemplar quanto energica governação decretar, entre outras medidas de bom senso e muito alcance, e de algumas pensões avultadas, _que as mulheres dos officiaes prisioneiros na batalha de Torres Vedras recebessem uma prestação mensal de 12$000 reis, e as das praças de pret 60 reis diarios, em quanto seus maridos estivessem em poder do inimigo_.[14]

O quartel general do real exercito estava em Oliveira de Azemeis: foi escolhido um official para commandar uma força, que fosse em conhecimento junto das linhas do Porto, e recahiu essa escolha em Leopoldo. Ao saber-se da aproximação de forças inimigas, tocou a rebate dentro dos muros da cidade invicta, e as linhas foram immediatamente guarnecidas em fórma.

Arthur Soares, commandava uma companhia de voluntarios da guarnição, que occupava, casualmente, o lado da estrada de Lisboa. Conhecida a pequenez da força inimiga, os insoffridos populares saltaram as linhas, e foram atacal-a. Arthur quiz, mas não o conseguiu, conter os do seu commando. Havia recebido ha poucos instantes a carta de D. Anna, e não podia, nem queria, arriscar temerariamente a vida n'aquella occasião. Anciava que terminasse aquelle passageiro incidente da guerra, para correr ao chamamento da sua companheira de infancia. Batia-lhe apressado o coração, porque um presentimento lhe segredava, que D. Maria da Gloria não era estranha no conteúdo da carta; mas como não podéra refrear o impeto dos voluntarios, forçoso lhe foi acompanhal-os.

Empenhado o tiroteio entre as pequenas forças inimigas, cahiu ferido Arthur Soares, que ficára por morto no campo. Um soldado, d'aquelles a que os proprios camaradas dão o epitheto infamante de _pulhas_, despojou logo o official inimigo de todos os objectos de algum valor, que elle tinha em si: entre os demais despojos, ficou tambem possuidor da carta de D. Anna, que teve a curiosidade de lêr; e como visse lá o nome de Leopoldo, e soubesse que assim se chamava o seu commandante, com a mira em qualquer recompensa, quando por ventura com elle se entendesse aquella carta, foi immediatamente entregal-a a Leopoldo, dizendo-lhe que a encontrára perdida no logar da refrega...

Aquella bala de papel, fôra mais fatal ao marido de D. Anna, do que a de chumbo ao amante de D. Maria da Gloria...

Leopoldo retirou precipitadamente com a força do seu commando; e o corpo de Arthur Soares foi recolhido pelos seus camaradas, que lamentavam com desespêro a sorte do bondoso e bravo official.

[13] Em proclamação do primeiro general da junta do Porto, datada de Coimbra de 29 de Dezembro de 1846, lê-se: «Soldados!--Nem a desgraça da nossa valente segunda columna vencedora em Torres Vedras, e depois anniquilada por uma _incomprehensivel desgraça_; nem a conspiração dos elementos, que tornaram perigosa e terrivel a nossa marcha, na qual centenares de individuos ficaram em poucas horas descalços, e muitos em risco de morrerem, tem podido abater vossa coragem!»

[14] Decreto da junta de 11 de Janeiro de 1847.

X

O CRIME

«O espirito não lhe dava coisa que vislumbrasse senso-commum. A carta era o seu maximo supplicio.»

(_Camillo Castello Branco_. MYSTERIOS DE FAFE.)

D. Isabel de Abendanho recebera carta do marido, communicativa da sua resolução de casar a filha com um cavalheiro vimaranense; e dizia-lhe que fosse, acompanhada do padre Alvaro, á residencia de D. Anna, e de lá viessem todos ter com elle a Guimarães.

A chegada de sua mãe, e do padre Alvaro, foi para D. Maria da Gloria novo motivo de abundantes lagrimas. A velha e nobre senhora preadivinhara a rasão d'aquelle pranto, e desde logo protestou dar á filha o seu maternal apoio. O padre Alvaro, senhor da causa que assim amofinava as tristes mulheres, deu-lhes a consolação das suas evangelicas palavras, e prometteu empregar, com Sebastião da Mesquita, os brandos meios da persuasão para o dissuadir da effectividade de um enlace repulsivo á noiva. Todos de accôrdo em demorar quanto possivel a ida a Guimarães, confirmaram a Sebastião da Mesquita a noticia do incommodo de D. Maria da Gloria, que afinal não era mentirosa, porque a donzella estava doente, e de molestia que podia matal-a, se não tivesse força para resistir á vontade paterna.

Rosa, salva da vergonha e da deshonra por João de Lencastre, resolveu aproveitar-se da protecção do seu salvador, e assentaram de viver, em Portugal, ou no estrangeiro, debaixo de rigoroso incognito, mostrando a donzella desejos de vêr as suas queridas companheiras antes da sua completa desapparição, embora lhes não podésse fallar; e o antigo escudeiro, que não tinha vontade alheia á da sua protegida, cogitava no modo de fazer-lhe a vontade.

Nenhum dos mais fortes inimigos do homem, empenhado em fulminal-o, e dispondo de todas as convulsões do mundo, teria conseguido produzir em Leopoldo uma sensação semelhante á que sentira com a leitura da carta, que o soldado lhe entregara. Por momentos, julgou-se victima de um sonho, e o seu olhar desvairado era terrivel de vêr-se. Depois, de subito, sahiu-lhe do peito um como rugido feroz, e todas as suas acções foram impetuosas e allucinadas. Mandou tocar á retirada, entregou o commando ao seu immediato, e precedeu muitas horas, tal foi a sua vertiginosa carreira, a chegada da força ao quartel general. Alli, fez, como lhe cumpria, o relatorio dos successos militares, de tal sorte contradictorio e obscuro, que lhe não foi difficil obter a licença, que febrilmente implorava, porque os superiores o suspeitaram victima do começo d'uma alienação mental.

Era alta noite, e dormiam todos os habitadores do seu palacio, quando Leopoldo chegou alli, vindo do acampamento. Quem o tivesse visto jornadear de noite, ora esporeando o ginete de modo a fazel-o saltar por todos os obstaculos, que lhe estavam defronte, ora deixando o caminhar em direcção incerta, e com as rédeas soltas, dizia que era um sêr phantastico dos que algumas vezes nos agitam o somno. Gastára algumas horas a percorrer os arredores da sua principesca habitação, para conseguir introduzir-se lá, sem que fosse apercebido.

Estava a romper a manhã, quando podéra obter entrada por uma janella baixa, que ficara mal fechada, e caminhar, tateando, e com passos incertos, até ao seu quarto de cama, onde se apossou do punhal que pendia da cabeceira do seu leito, abrindo em seguida as janellas, e expondo ao ar a sua abrazada cabeça.

Ao voltar a vista para o interior do quarto, já um pouco alumiado pela frouxa luz do crepusculo, pareceu-lhe que a sua cama não estava deserta, e foi ajuntar-se-lhe ás violentas commoções que o infernavam mais um mixto de curiosidade e de terror, como teria o bandido que deparasse inopinadamente, na casa que julgara dezerta, com uma testimunha de seus crimes.

No leito de Leopoldo dormia tranquillamente o somno da innocencia, a suspeitada esposa. Tivera que sahir dos seus aposentos, occupados até então por ella e por D. Maria da Gloria, á chegada alli de D. Isabel, para que esta ficasse junto da filha.

Reconhecida pelo marido a mulher da qual julgava possuir um incontestavel documento de adulterio, as feições do dementado assumiram as repugnantes proporções da mais repelente das mumias; e monologou terrivelmente:

«Estás no teu sepulchro, maldita!... O mesmo leito que manchaste com a infidelidade, será manchado pelo teu sangue villão!... Não mais acordarás d'esse ultimo somno, em que os sonhos de megéra te hão de trazer ainda junto dos labios o halito do canalha, que eu hei-de devorar após de ti!... Far-te-hei abrir os olhos, apenas para vêres a tua carta, que o diabo me levou ás mãos, e nem uma palavra te deixarei pronunciar, porque antes terá este punhal atravessado o teu infame coração!....»

E, fazendo o que disséra, sacudiu violentamente a infeliz D. Anna, apresentou-lhe diante dos olhos, mal abertos, a carta homicida, e enterrou-lhe em seguida o punhal no peito!...

A desgraçada senhora, teve apenas tempo para dar um grito revelador da suprema agonia, e cerrar os olhos.

Ao ouvir aquelle brado de morte, fitou o vingador de imaginaria affronta um olhar tresvairado em redor de si, e ficou, como se estivera pregado ao chão, sem forças nem deliberação para fugir. Estava assim havia já muito tempo, quando se abriu uma porta, e entraram por ella duas pessoas em traje de romeiros que andam em peregrinação. Os recem-chegados, ao tomarem conhecimento da tragedia que tinham á vista, ficaram por um pouco, como assombrados de raio: um d'elles, o que primeiro conseguiu mover-se, foi cahir com a cabeça sobre a da assassinada, lavando-lh'a com as lagrimas que vertia. O outro, com um sangue frio ainda mais terrivel que o desespêro, aproximou-se de Leopoldo, encarou-o longo tempo, como olharia para o maior dos monstros, e exclamou por fim:

--Assassino!... Miseravel e cobarde assassino de mulheres!... Não posso eu ser o vingador d'aquella infeliz, porque--desgraça! disseram-me que era teu irmão!... Mas Deus a vingará, malvado!... O teu futuro hade ser de cruel expiação, crê!... O maior castigo que te espera, é o prolongamento da vida que tens a viver!...

E deixando-o, sem lhe tocar, foi apalpar o seio da assassinada:--«Ainda lhe pulsa o coração, e o padre Alvaro está aqui!...» E saiu rapidamente do quarto, voltando, minutos depois, acompanhado do pae de Arthur.

O ministro do altar, entrou no sagrado exercicio do seu alto e sublime ministerio: serviam-lhe os dous romeiros de ajudantes, e Leopoldo estava ainda, immovel, no mesmo logar, em que ficára de seguida ao crime.

O padre Alvaro foi tocar de manso no hombro do assassino, e disse-lhe com brandura:

--Irmão! Ajoelhe, que está na presença de um Deus misericordioso e vingador!

Ao contacto d'aquella mão, e ao sussurro d'aquellas palavras, fez Leopoldo um movimento de cabeça, assomou-lhe aos labios um riso idiota, e tartamudeou:

--Não acordem a minha segunda esposa... Com esta casei eu por amor... Não me hade trahir que é nobre... O punhal está guardado... Ella disse-me que era uma arma villã, e eu escondi-o no peito da Anna... Hade amar-me depois da batalha... Sou general, e hei de vencer... Terei um duello com o meu rival... Depois, a felicidade... E meu filho, que me não conhece!... Meu filho, que me chama assassino, que me cóspe injurias a todo o instante, que me espanca sem piedade!!... Perdão!... Perdão!...

--A loucura e os remorsos na propria hora do crime!... Aquella que ajudo a bem morrer, é menos desgraçada do que o seu assassino!...

Haverá quem não trema da vossa justiça, meu Deus?!...

FIM DA SEGUNDA PARTE

TERCEIRA PARTE

REMORSO

«Para que venha sobre vós todo o sangue dos justos, que se tem derramado sobre a terra...

(S. Lucas, XI; vida de N. S. Jesu-Christo).

I

GRATIDÃO

Tira-me já do p'rigo, amigo honrado, Depois solta a prelenda.

(_Filinto Elysio_--APOLOGO)

É menos vulgar a existencia do homem grato do que a do homem sabio; mas a compensação do rigor d'este axioma, está na raridade com que se faz um favor desinteressado. Contam-se em pequenissima quantidade as pessoas reconhecidas; mas é grande o numero das que sabem calcular o provento, mais ou menos proximo, de suas generosidades.

O genero de maior consumo no mercado da vida humana, é o egoismo, a que chamaremos, por antonomasia, o _verme do coração_.

Os factos, porém, de todos os tempos, levam-nos a exceptuar a mulher da regra geral do egoismo do homem, por que é d'ella, na maior parte das suas acções, a santa abnegação: a mulher perde-se pelo amor, o homem gloria-se com elle; a mulher serve á ambição do homem, e é por elle escravisada; a mulher morre sempre por seus filhos, e o homem renega-os muitas vezes........................................................... .......................................................................

Quasi á mesma hora em que tinham logar as tragicas scenas do final da segunda parte d'este livro, e quando ellas ainda eram ignoradas pelos restantes habitadores do palacio, recebia D. Maria da Gloria, recolhida nos seus aposentos, uma carta que abrira, sobresaltada, com prévio consentimento de sua mãe, e que dizia assim:

«_Exc.^ma e respeitavel senhora_: