Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte

Chapter 10

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--Ou o rio em que se reflectia o sabujo, que trocou a preza certa, que levava nos dentes, pela sombra que vira na corrente... Póde fallar-me com desassombro, que eu tudo sei affrontar pelo amor da mulher, que reune, á seducção material, a faisca do genio, com que me apraz emparelhar...

--É _nimiamente modesto_, o snr. Peixoto... Contou-me a origem dos espelhos, contar-lhe-hei a origem dos _orgãos_... São uns instrumentos de _vento_, compostos de _folles_, _teclado_, e grande numero de _canudos_... Querem os _chins_, que a invenção de tal instrumento seja devida ao seu imperador _Hoang-Ti_, que existio, antes de Jesus Christo, 2:601 annos... Se estivessemos no seculo 12.º, atrevia-me a chamar a _v. exc.^a_ um _magnifico órgão_...

--E porque não, n'este seculo das luzes, e de todos os _instrumentos_ possiveis?...

--Porque desde o seculo 13.º usam-se orgãos nas egrejas, e os logares sagrados não pódem agradar aos... _materialistas_...

--Não me assenta bem o nome, minha arisca formosura, porque o materialista não admitte no universo ente algum espiritual; e eu estou a reconhecel-o em Guimarães, aqui, n'este logar em que discorremos, na pessoa de minha... adversaria...

--Tambem é _diccionarista_?... A definição que acaba de fazer parece-me _textualmente_ lida n'um dos modernos diccionarios...

--Serei tudo que quizer chamar-me, menos _plagiario_. São exclusivamente minhas as ideias que expendo. Em mim realisa-se o phenomeno da sciencia innata. Não roubo alheios pensamentos, antes deixo que me roubem descaradamente as minhas famosas theorias sobre...

--Sobre _principios elementares de mathematica_, talvez, em que és fortissimo... Ora, acaba com a sécca, que nós tambem sômos gente, e sabemos que, duas vezes cinco, sommam dez...

--Deixem-me, apenas, concluir por fazer um convite a esta feiticeira... Quer assistir a um baile de costumes, que hoje se dá na casa do _Arco_?

--Como ha-de lograr introduzir-me lá?...

--Acompanhando-a, e dando-lhe uma das senhas, que servem para esse fim; e como só se tiram as _caraças_ na occasião da ceia, querendo conservar o incognito, retira-se antes d'ella... Serve-lhe?

--Talvez aceite...

--N'aquella, tão tolerante quanto illustre casa, consegues tu realisar todos os teus intentos... Se fosse em _Villa Pouca_...

--O Arco é mais popular...

--Será; mas Villa Pouca é mais escrupulosa... O que devéras nos espanta, é que tu não peças, _á tua Convidada_, qualquer remuneração pelo favor que intentas fazer-lhe...

--Eu não costumo sustentar _assedio_ por muito tempo; costumo, sim, tomar as praças _d'assalto_...

E, como para provar a sua fanfarrice quiz o fallador espadachim abraçar a joven mulher, que lhe auguara a fôfa verbosidade; mas teve de moderar os malcriados impetos, ao simples e carregado aspecto da que assim queria ultrajar.

O seu tentamen, foi presenceado por um novo personagem, que, n'aquelle momento, déra alli entrada, e que se lhe dirigiu n'estes termos:

--Se quizer, _senhor atrevido_, eu substituo esta senhora, para a realisação da sua vontade; e prometto-lhe que, o _abraço_ entre nós, ha-de ser dos mais apertados... Desculpem os restantes cavalheiros, que não tomaram parte no desejo do insulto, a minha linguagem com o que d'elle se queria fazer auctor...

A mulher assim inesperadamente defendida, exclamou, no auge da surpreza:--O snr. João?!....

--De Lencastre, accrescentarei, para que estes senhores fiquem sabendo que sou _filho d'alguem_...

A donzella Rosa, porque era ella, como o leitor terá adivinhado, após uma lucta instantanea, de que ella triumphou para o seu intento, disse, sacudidamente, a João Vidal, ou de Lencastre:

--Prohibo-lhe, snr., que toque n'aquelle cavalheiro!... É... o meu amante...

--Seu amante!!... Foi, esta ultima exclamação, sahida simultanea e admirativamente da bocca de todos os circumstantes; pronunciando-a, com indiscriptivel amargura, aquelle que fôra a causa de ella ter apenas brincado nos labios da donzella.

Depois de um silencio d'alguns instantes, pediu João de Lencastre, aos que alli estavam reunidos, com tão persuasiva eloquencia e vehementedor que o deixassem a sós com a donzella, que foi immediatamente por todos attendido.

O que disseram, e como se encontraram n'uma casa de libertinagem estes dous heroes do nosso «Conto», a seu tempo será explicado.

VI

UM BAILE EM COSTUMES

«David dançou diante da arca da alliança, e nos primeiros tempos da Egreja havia uma dança, que era a demonstração exterior da dependencia das creaturas, e uma expressão primitiva de reconhecimento.»

«O sabio e sisudo Socrates era summamente apaixonado pelas danças, que lhe ensinára Aspasia.»

«O grave e carrancudo Catão, aos 60 annos, tomou mestre de dança, para poder apparecer convenientemente nos bailes.»

(O PANORAMA DE 1837)

Abrira a nobilissima casa do _Arco_ os seus salões ao publico: dizemos--_ao publico_--, porque, o cavalheiro titular seu dono, era prodigo nos seus convites, como em todas as suas nobres acções. Dentro do seu palacete, nenhum dos seus convidados gosava de superioridade: todos eram iguaes, pelo tracto que recebiam; e se alguem, estranho á terra e ás pessoas alli reunidas, houvesse de notar algum acanhamento, isto é, menos liberdade em todas as suas acções, apontaria o distincto fidalgo que recebia. Tal foi sempre o especial condão de toda aquella sympathica familia, para pôrem á vontade os seus convidados.[12]

São tres os salões de baile, todos ao correr, havendo de cada lado do ultimo d'elles, e ao mesmo nivel, um lindo terraço ajardinado: para o do meio, dá entrada um soberbo salão de espera, com duas varandas, sobre o arco, que olham para a rua, assim como os terraços. Ao salão de entrada, e em sentido opposto aos do baile, seguem-se outros, parecendo todos, olhando-se do ultimo d'elles para os do baile, um--T.--De sorte que, a pessoa collocada no salão do meio defronte da porta da entrada, vê todos os salões e os terraços. A entrada do palacete é por uma larga e bem construida escadaria de pedra.

N'este baile, onde se vão dar algumas scenas do nosso «Conto», foram permittidas as _caraças_, tendo-se distribuido bilhetes, para os que assim quizessem conservar o incognito, por algum tempo, e animar a reunião com freneticas danças, e brinquedos innocentes.

Desde a escada até ao ultimo salão, como nos terraços que, pela profusão de luzes, se não sentia a falta do dia.

O mais exigente dos convidados, deparava, no seu logar, com os objectos que lá devessem apparecer.

Antes de affluirem os encaretados, já se viam, no principal salão, as nobres senhoras intimas da casa; o respeitavel senhor d'ella; Sebastião da Mesquita; Arthur Soares; Leopoldo, e seu irmão João de Lencastre. Estes nossos personagens foram alli hospedes, como parentes.

Completo o ajuntamento, era bello de vêr-se.

Aqui, um grupo de senhoras vestidas de camponezas dos arrabaldes de Guimarães, com as saias de muita roda, os capotilhos de fina baêta encarnada com as pontas crusadas no peito, e atadas nas costas, os seus grossos cordões, e immensas arrecadas de ouro,--offereciam confeitos, e raminhos de violetas.

Alli, os descuidados e jovens lavradores, com as suas fardetas azues de botões amarellos, camizas de linho bordado, e o inseparavel varapau, que lhes servia de encosto para contemplarem as suas namoradas, tendo cada um o braço esquerdo estendido sobre o pau, e a perna direita crusada sobre a esquerda.

Além, a irrequieta vivandeira, acompanhada de seu militar; o sevéro magistrado assestando a luneta; o antigo fidalgo portuguez de rabicho empoado, e de casaca e calções de setim bordado; matrônas respeitaveis, e jovens senhoras vestidas á época, no melhor gôsto, ostentando a antiga e bem merecida fama das formosas vimaranenses, e mostrando, pelas joias de subido preço, que as adornavam, o esplendor e nobreza de suas familias.

Rompeu o baile por uma scena campestre das que no Minho, a mais poetica provincia de Portugal, se notam com frequencia, e se apreciam sempre.

Dos grupos camponezes foi composta uma _tocata_, de rebecas, clarinetes e banzas; havendo um cantador, e uma cantadeira que, depois d'outros improvisos do seu _desafio_, concluiram assim:

«Foi o velho rei David, o primeiro dançador; vamos nós tambem dançar, cada um com o seu amor.

«Fazes mal, linda Maria, convidar em lar alheio; do temôr e d'altivez a virtude jaz no meio.

«Não te pedi o conselho, e vem tarde a correcção; quem á festa convidou, agradece a minha acção.

«O fidalgo que dá festa, incapaz é de ralhar; mas o sabel-o não deve, ser motivo p'ra abusar.

«Digam todos que me ouvem, se eu me quiz entremetter; seja a resposta o signal, para a gente s'entreter...»

E começou o baile, vivo, animado, delirante.

Nos pequenos intervallos do bulicio dançante, e em quanto eram servidos os convidados, tinham logar as _intrigas_ ou, sem cheiro de gallicismo, as mystificações.

A _vivandeira_, sempre pelo braço do _soldado_, fôra a que mais valente se tornara em phrases de mystificar. Dirigindo-se a todos os grupos, simultaneamente, e procurando dar á voz esse tom desconhecido que, nos bailes d'esta ordem, faz parecer igual o metal de todas as vozes, conseguiu, em pouco tempo, chamar sobre si todas as attenções. Além da agudeza e propriedade dos seus dizeres, concorreram tambem, para um tal resultado, a notavel elegancia da vivandeira, e o porte pretencioso e audaz do militar seu companheiro.

A Leopoldo, fallou a vivandeira assim:

--Porque não está aqui tua mulher?...

--Porque está n'outra parte... Tu querias conhecêl-a?

--Conheço-a, e conheço-te... Ella é uma creatura angelica, e tu és um marido ao qual assenta bem o adagio portuguez, que diz: «Horta sem agua, casa sem telhado, _marido sem cuidado, de graça é caro_...»

E finalisando com uma risadinha aquella allusão, foi dizer a Arthur Soares:

--Conheço a origem da sua habitual tristeza, cavalheiro... Pensa... _na dôr de Maria_...

--E não lhe parece motivo de grave meditação o soffrimento da Virgem?...

--Ha dôres muito semelhantes, que não merecem ao cavalheiro o menor cuidado...

--Porque talvez as desconheça...

--Não: é porque se não póde dividir _o __sentimento forte_...

--E, quando seja assim, o culpado sou eu?...

--Não é culpado, mas é _causa de culpas_... Quando as conhecer, saiba comprehendel-as e desculpal-as... Adeus!

Prepassou rapidamente por junto de João de Lencastre, e disse-lhe:

--A palavra do homem de bem é sagrada: conto com o seu silencio...

Em seguida foi collocar-se, sempre pelo braço do soldado, em frente de uma distincta senhora, á qual dirigiu a palavra n'estes termos:

--Por este meu companheiro, fui rogada, para dizer a v. exc.^a uma impertinencia: desejava _pagar-lhe o beneficio_ de me trazer a este baile... Dá licença que eu falle, minha senhora?...

--Dizia minha avó, que _triste da casa, onde a gallinha canta, e o gallo calla_... Mas como é para ser _pago_ um favor, venha de lá a tua impertinencia...

--Digo, fielmente, as palavras que me ensinaram: «_Queimou-se a fôrca, cahiu o tyranno_».

--Pena foi que elle cahisse, e ella se queimasse, antes de ter lá subido o atrevido que te ensinou...

--Eu, minha senhora, não tomo a mais pequena parte...

--Acredito, dei-te licença, e não te quero mal. Aconselho-te, porém, que te desquites d'esse companheiro: os da sua laia, substituiram a _fôrca_ pelo _punhal_, que é mais leve, _traiçoeiro_, e menos _apparatoso_...

O _careta_ vestido de magistrado, que ouvira o dialogo precedente, disse ao _fidalgo antigo_, que estava ao seu lado:

--Conheces aquella senhora, que respondeu á vivandeira com tanta vivacidade?

--Não é a viuva irmã do dono da casa?

--É. Que juizo fórmas da sua alma?

--Parece que não desgostaria de vêr continuar a _pernear_ os _malhados_...

--Como te enganas!... É a alma mais completa e mais sublime, que sahiu das mãos do Creador. As suas acções, são uma perfeita antithese das suas palavras...

A vivandeira, livre já do peso sob que parecia vergar com a commissão do companheiro, procurava alguem com anciedade. Percorridos todos os salões, sem encontrar quem desejava, foi a um dos terraços, onde Sebastião da Mesquita passeava, parecendo alheio á festa. A _vivandeira_, mal que o vira, despediu bruscamente o soldado, e dirigiu-se ao velho fidalgo:

--A tristeza de que v. exc.^a está possuido, procede do conhecimento da _fuga inesperada_ de uma donzella, companheira de infancia de sua exc.^ma filha, não é verdade?...

--Não conheço quem me interroga, nem sei quaes sejam os direitos que julga ter para me interrogar...

--Queria... desejava dar cumprimento a uma vontade e pedido da pessoa a que me refiro... Se V. Exc.^a désse licença...

--Tirando primeiro esse panno que lhe cobre a cara, póde fallar.

--É que... para o que tenho a dizer e a fazer, posso conservar o meu incognito... É só pedir, em nome _d'ella_, perdão a V. Exc.^a se algum desgosto lhe causou com o seu procedimento, e beijar-lhe a respeitavel e bemfeitora mão...

--João, Arthur, meus amigos, venham cá!... É preciso obrigar esta mulher a descobrir a cara...

--Senhor!... Uma tal violencia, sem auctorisação do cavalheiro dono da casa...

--Quero-o eu!...

A estas vozes, demasiado vivas, acudiu gente das salas, que repentinamente conheceu a origem da altercação.

A senhora, que déra licença á vivandeira para lhe dizer _uma impertinência_, foi a que primeiro a protegeu:

--Estranho que o primo Sebastião, um consummado fidalgo e cavalheiro, tentasse fazer violencia a uma fraca mulher... Esta pequena, senhora ou burgueza, fica, desde este momento, considerada como se fôra minha filha!... Conserva o teu incognito, que ninguem agora se atreverá a descobril-o...

--Se V. Exc.^a quer, snr.^a condessa, eu levo comigo essa menina para o convento...

--Obrigado, Eulalinha, pelo teu bom desejo. És uma criança tão formosa do corpo como da alma: Deus ha de proteger-te.

--Mas, minha boa irmã, V. Exc.^a bem sabe que devemos ao primo e snr. Sebastião da Mesquita, toda e qualquer satisfação que elle peça; não só pela qualidade da pessoa que é, como por ser nosso parente, e meu hospede... Talvez que essa creatura o offendesse, e...

--Um homem, como nosso primo, nunca póde dar-se por offendido pelo que lhe faça, ou diga, uma infeliz mulher... É a primeira vez, que ouço fazer distincção ao meu excellente irmão das _qualidades_ dos seus convidados... V. Exc.^a não se considerou, para assim fallar, o dono d'esta casa...

--De certo que não, nem podia, estando V. Exc.^a aqui.

--N'esse caso, eu já dei as minhas ordens.

--V. Exc.^a minha respeitavel thia e senhora, concede-me a honra de ser, no resto da noite, o cavalheiro d'essa dama?

--Agradeço-te a boa e fidalga intenção, meu presado sobrinho e snr. de Pindella. Has de vir a ser competentissimo para todas as nobres acções, assim o espero em Deus; mas és ainda muito novo para um protector.

--E para mim, prima condessa, não serão estas cans fiança sufficiente para receber a honra, que lhe pediu seu illustre sobrinho?

--A V. Exc.^a, meu presado primo e snr. de Villa Pouca, que reconheço habil para tudo que seja nobremente arrojado e distincto, peço até a especial graça de conduzir, quando ella quizer, esta minha protegida á sua habitação...

--Nobres senhoras, e amaveis cavalheiros!... Penhorada em extremo pelos favores e attenções, que me dispensam, não posso deixar, comtudo, de pedir-lhes, que reformem completamente qualquer juizo menos favoravel, concebido pelo procedimento do snr. Sebastião da Mesquita... Só quem o não conheça, o poderá considerar capaz de uma acção menos nobre... Aquelle respeitavel ancião, que nem talvez ouvisse do que VV. Exc.^as o accusaram, está soffrendo intimas dores, como paga da sua generosa bondade para comigo... Adoptou-me, e tratou-me como sua filha, e eu fugi repentinamente da sua vigilancia e carinho!... Procurei vir aqui, a este baile, só para vêr aquelle venerando velho, e beijar-lhe a bemfeitora mão... Queria fazel-o sem me dar a conhecer, e foi a minha teimosia em conservar o incognito, que o fez alvo de injustiças, que não merece!... De joelhos, e com a cara descoberta, lhe pede perdão de tudo esta infeliz, snr. Sebastião da Mesquita!...

--Rosa!!... Como póde conservar os sentimentos que acaba de manifestar, a mulher que... que eu não conheço!...

E Sebastião da Mesquita, assim fallando, virou as costas á donzella, retirando-se vagarosamente.

O baile continuou ainda por muito tempo, um pouco frio após estas scenas, e, para o fim, com a mesma animação do comêço.

As dôres alheias, não tolhem as festas dos felizes.

[12] Quando a snr.^a D. Maria II visitou o Minho, o sr. duque de Saldanha, que fazia parte do séquito da rainha, foi hospedar-se em casa do fallecido snr. do _Arco_. Constou ao povo, que o palacete estava custosamente adornado, e agglomerou-se á porta, para o vêr: os criados, não deixavam entrar; mas o illustre, e sempre chorado, titular, deu-lhe entrada franca, não consentindo que se despojasse dos seus _tamancos_, embora lhe inutilizasse riquissimos tapetes.

VII

TORMENTOS INTIMOS

«Correu-me a vida outr'ora delirante, Tive faceis amores, ledas glorias, Julguei-me um dia amado e outro amante, Sonhei promptas victorias, E vi, em limpo céu formoso e puro, Brilhante erguer-se o vulto do futuro. Tumulto, agitação, rumor, bulicio Compoz o meu viver.--Mas eis que um dia Paro e vejo o tremendo precipicio-- A vida, que vivia, Era vida ficticia e descorada... Um pouco de sussurro--e ao cabo... o nada!»

(SILVA LEAL JUNIOR.--PRIMAVERA.)

Logo que João de Lencastre chegou á falla com Sebastião da Mesquita, depois de lhe dar a rasão por que Arthur e Leopoldo o acompanhavam, e de lhe dar conta da entrega do dinheiro e onde ficara D. Maria da Gloria, occultando-lhe a parte que dizia respeito a Arthur Soares, porque este muito lhe rogara que assim procedesse,--noticiou-lhe Sebastião da Mesquita, com intimo pesar e viva inquietação, a fuga precipitada da donzella Rosa, encarregando-o de descubrir a sua paragem, e de saber os motivos que a determinaram a deixar a casa paterna, lançando sobre si indelevel estigma.

Não ficou o antigo escudeiro menos perturbado com a noticia, do que se mostrava o velho fidalgo ao dar-lh'a: preparava-se para ir procurar a donzella por toda a parte, quando um dos constantes visitadores da casa do Arco, muito fallador, e do numero de sujeitos que facilmente se relacionam com toda a gente que os quer ouvir, lhe deu, como novidade importante, a da chegada á terra de uma _rapariga de truz_, que parecia ser de _facil accesso_, pela pousada que escolhera, descrêvendo-a com toda a minuciosidade.

Agradeceu João a Deus, a veia falladora d'aquelle homem, que lhe poupára muitas fadigas; e não o enganou a sua esperança, porque era effectivamente Rosa a inculcada mulher, que elle foi encontrar na casa, e na occasiâo, descripta no capitulo--«Babel de Sabios.»

Depois que João conseguira fazer retirar os _petisqueiros_ adoradores de Rosa, e ficara só com a donzella, empregára, para a obrigar a fallar, persuasivos e sentimentaes discursos, orvalhados, por mais d'uma vez, com lagrimas de mal escondida affeição. Foi tão eloquentemente irresistivel, que a donzella confessou-lhe tudo: disse-lhe, que fugira do seu lar, e abandonára a protecção e carinho dos nobres fidalgos seus paes adoptivos, porque não podéra por mais tempo ter occulto no peito o seu affecto por Arthur Soares, affecto que d'ella se apoderára por tal arte, que só pela morte ou pela doudice podia terminar. Que sabia a existencia de um amor, igualmente invencivel, entre Arthur Soares e D. Maria da Gloria, senhora que ella amava como irmã; e que, para não prejudicar com algum irreflectido procedimento seu estes amores, resolvera fugir, e dar-se como _perdida_, embora tambem estivesse resoluta na sustentação da sua virtude, mesmo no meio dos mais arriscados perigos.

João Vidal, ou de Lencastre, que a escutára com a maior attenção, depois de um longo silencio, significativo de intimas dores, disse á donzella, que não podendo deixar de ser já um facto conhecido do publico, a sua fuga e paragem n'um local de descredito, inuteis se tornavam todas as reflexões tendentes á demonstração do êrro de um tal passo; mas que elle via um meio seguro, e menos arriscado, de tudo se fazer como a donzella queria. Que pelo casamento d'ella Rosa, ficavam igualmente livres os amores de sua irmã adoptiva, não se expondo a donzella á lucta terrivel que começara; lucta que, mesmo victoriosa que d'ella sahisse, lhe havia de trazer necessariamente a perca da sua boa reputação: que elle possuia um nome, e uma pequena fortuna, e que, se podéssem esquecer os 40 annos da sua idade, no seu coração havia logar para a entrada de um sentimento sério.

Rosa, respondeu-lhe commovida, que não era digna de semelhante honra; que apreciava devidamente o seu brioso e caritativo proceder, e que lhe devia por elle o nome de irmã, com a santa amisade de um tal titulo.

Foram baldados todos os esforços, que João empregára para demover a donzella do seu proposito, e combinaram o guardar-se absoluto segredo ácerca do que entre elles se déra.

No dia seguinte ao do baile, alugou João de Lencastre uma casa, situada defronte d'aquella a que a donzella regressara; e despediu-se de Sebastião da Mesquita, dizendo-lhe que acompanhava Arthur Soares ás _linhas_ do Porto, onde eram precisos braços leaes para a sustentação da causa do povo; sendo-lhe facil o convencer Arthur de que partisse sem elle, com promessa de lá ir ter, logo que podésse fazel-o; e recolheu-se secretamente á morada que alugára, para de lá espiar as acções de Rosa.

Arthur Soares, caminho do Porto, levava enluctado o coração. Sabia que era amado por D. Maria da Gloria; já se havia acostumado áquelle affecto, o unico da sua existencia; mas não podia desterrar de si o convencimento de que a fidalga lhe não podia ser dada por esposa. Era certa, e bem manifesta, a estima que lhe dava seu padrinho; mas essa estima, considerava elle mais como uma protecção das que usam conceder os nobres senhores aos que d'ella carecem, do que amisade verdadeira, que iguala e estreita os homens por laços fraternaes: possuia muitas provas do desapparecimento de affeições iguaes á que lhe concedia o fidalgo, logo que, pelo considerado e protegido, fosse ferido o orgulho de raça do protector. Pedia, pois, a Deus, que a sorte da guerra lhe désse occasião de elevar-se até poder chegar a D. Maria da Gloria, ou de fazel-o descer ao esquecimento eterno, com a gloria dos bravos por mortalha.

Leopoldo, cuja presença, na illustre casa da hospedagem commum, fôra tolerada por Sebastião da Mesquita em deferencia ás conveniencias sociaes, regressava tambem ao exercito da rainha, o grosso do qual se achava então em Coimbra, commandado pela primeira espada portugueza do nosso tempo.

Podia chamar-se um cadaver ambulante, o fidalgo militar, tal era o sombrio e estragado aspecto da sua pessoa. O soffrimento d'este desgraçado, que amava sem esperança, e que odiava por ciumes, era um severo castigo da Providencia. Caminhava para onde o chamava o dever, movido mais por um resto de brios, do que por empenho, e vontade, de servir a causa a que se devotára, depois de ter renegado a popular: n'elle só havia bem fixo, o sentimento do seu tormento intimo.