Um contemporaneo do Infante D. Henrique
Part 4
«E passados alguns dias depois estes conselhos, o infante não se esfriando em seu proposito, apartou só em uma camara o conde d'Abranches, e lhe disse--_conde, sabe que eu sinto já minha alma aborrecida de viver n'este corpo, como desejosa de se sair de suas paixões e tristezas, e considerados os seus combates que minha vida, honra, e estado cada dia recebem, com esperança de não minguarem, mas cada vez crescerem mais, certo se as cousas n'esta viagem me não succedem como eu desejo, e seria razão, eu todavia determino morrer e acabar inteiro, e não em pedaços, e como quer que tenho outros bons criados e servidores, que por suas bondades folgariam e não se escusariam de morrer comigo, porém em vós sobre todos tomei esta confiança, assim pela irmandade que comigo merecestes ter, na santa e honrada ordem da Garrotea em que somos confrades, e como por creação que vos fiz, e principalmente pela certidão que de vossa bondade e esforço tenho muito ha conhecido, e por tanto quero saber de vós, se no dia que d'este mundo me partir, querereis tambem ser meu companheiro, e com isso lembre-vos para satisfazerdes aos primores de vossa honra, que sendo vós tão conhecidamente meu criado e servidor, e tão publico imigo do conde d'Ourem e arcebispo de Lisboa, depois de minha morte não podeis ter vida, salvo reservada para com mãos d'algozes a perderdes em lugares vis, e com pregões deshonrados. Senhor,_ respondeu o conde, _para caso de tamanho contentamento, como foi sempre e é para mim viver e morrer por vosso serviço, muitas palavras nem os encarecimentos não são necessarios, eu vos tenho muito em mercê escolherdes-me para tal serviço, e eu sou muito contente ter-vos essa companhia na morte, assim como vol-a tive na vida, e se Deos ordenar que deste mundo vossa alma se parta, sede certo que a minha seguirá logo a vossa, e se as almas no outro mundo podem receber serviço umas das outras, a minha n'esse dia irá acompanhar e servir para sempre a vossa_».
Ferdinand Denis torna esta scena mais rapida, e por isso mesmo talvez mais verdadeira.
O infante teria perguntado a D. Alvaro, com uma simplicidade e rudeza proprias do caracter de ambos, se estava disposto a morrer por sua causa.
D. Alvaro responderia com laconica firmeza:
--Acaso não sou eu vosso irmão de armas?
Esta concisa resposta vale bem, segundo as ideias d'aquelle tempo, o discurso de Ruy de Pina.
Foi avisado um sacerdote, homem abalisado, o doutor Alvaro Affonso, para comparecer na egreja de S. Thiago.
Por mão d'este sacerdote commungaram o infante e D. Alvaro, jurando ambos, sobre a hostia consagrada, que juntos triumphariam ou morreriam.
Depois o infante visitou as egrejas da Sé, de Santa Cruz e de Santa Clara, com as quaes tinha particular devoção, e, recolhendo ao paço, deu ordem para que estivessem prestes os seus seis mil homens, e para que n'essa noite se abrissem e illuminassem os salões do solar.
Tendo cumprido os deveres de bom christão, queria despedir-se do mundo, na hypothese de ser vencido, se não era presentimento, como bom cavalleiro.
E elle, que tão modesto vivera sempre, deu ao sarau d'essa noite um esplendor verdadeiramente principesco.
«La veille de son départ pour Santarem, une fête fut donnée aux dames; et il y brilla de cette grâce de langage, de cette noblesse toute chevaleresque, qui l'avaient rendu maintes fois l'admiration des cours de l'Allemagne et de l'Aragon»[59].
Como que está a gente a vêr o amavel donaire d'esses dous cavalleiros, o infante e D. Alvaro, fallando ás damas, pisando gentilmente tapetes macios que encobriam a cratera de um vulcão ameaçador.
Ao romper da manhã, quando o sol da primavera aclarava docemente a paizagem formosissima de Coimbra, a cavallaria, a infanteria, a carriagem de bois e bestas, principiaram a mover-se, desfraldando duas bandeiras, cujos lemmas diziam, n'uma, _Lealdade_, na outra, _Justiça e vingança_.
O infante D. Pedro, tendo abraçado sua esposa, seguira o exercito que abalava em som de guerra.
* * * * *
Esta Jornada, a mais curta e ao mesmo passo a mais longa que o infante fizera, porque não regressou jámais, lembra até certo ponto a attracção da chamma sobre a borboleta. Tambem o infante e o seu fiel companheiro D. Alvaro pareciam attrahidos pela morte.
Iam procurando os templos famosos como para encommendar sua alma a Deus. Estiveram na Batalha, onde D. Pedro ajoelhou diante do tumulo de seus pais, quedando-se tambem algum tempo diante do jazigo que elle proprio devia ir povoar. Estiveram em Alcobaça, e d'alli seguiram para Rio Maior, onde o infante reuniu o conselho.
Todos, á excepção de D. Alvaro, aconselhavam D. Pedro a que não avançasse mais; diziam-lhe que, feita aquella demonstração de força, retrocedesse para Coimbra.
O infante ouvia-os engolphado n'uma abstracção melancolica. Mas deu ordem para que o exercito marchasse na direcção de Alcoentre: para a morte é que era o caminho.
Cbegados ahi, D. Alvaro Vaz de Almada pratíca um novo acto de bravura, de fogoso ardor militar.
Ayres Gomes da Silva, a quem coube a guarda das forragens, fôra cercado pelos esclarecedores do exercito real.
Mal que isto se soube em Alcoentre, no acampamento do infante, «o conde de Abranches com grande trigança logo sahiu, e com elle quasi todos os do arraial não guardando alguma regra em sua sahida, antes com muita desordem e desmando romperam por muitas partes o palanque, e deram com muita força nos corredores, de que alguns d'elles achando-se atalhados, querendo-se salvar cairam em um grande tremedal e lagoa, de que não poderam sahir, onde entre mortos e presos ficaram logo até trinta, e os vivos levaram logo ante o infante, entre os quaes o principal era um Pero de Castro, fidalgo e criado do infante D. Henrique»[60].
Impellido por este acontecimento, o exercito de D. Pedro avançou. Sahiu-lhe ao caminho a noticia de que D. Affonso V havia partido de Santarem ao seu encontro. Sabido isto, o infante mandou fazer alto, a pequena distancia de Alverca, junto ao ribeiro de Alfarrobeira.
O conde de Avranches, que era sempre o primeiro, foi observar o exercito do rei, que se aproximava.
Fez-lhe impressão a grandeza d'esse exercito. Mas, voltando, occultou a toda a gente a sua impressão, menos ao infante.
«... e alguns disseram que o Conde pedira e requerera ao infante, visto a desigual comparação que havia de uns a outros, que só se fosse e salvasse, e o deixasse com sua gente alli onde folgaria acabar por seu serviço»[61].
Se isto assim foi, o infante recusou o offerecimento. Lembrou porventura a D. Alvaro que o voto feito por ambos era de morrerem um pelo outro.
«Mas o que mais verdadeiramente ácerca d'isto se deve crêr, é que o Conde pela certa sabedoria que tinha do proposito do infante, que era morrer, e pelo consagramento que ambos por isso tinham feito, não lhe commetteria nem ousaria commetter tal cousa, em que ao menos ficava o infante por ser perjuro e fraco»[62].
Foi ahi, junto ao ribeiro de Alfarrobeira, que n'esse dia, uma terça-feira, 20 de maio, o infante D. Pedro esperou o exercito do rei.
O conflicto, rapido e decisivo, devia comtudo ficar memoravel na historia de Portugal. Uma setta, certeiramente despedida, fôra cravar-se no peito do infante, que pouco tempo sobreviveu.
Luiz de Azevedo[63], poeta do _Cancioneiro_ de Rezende, põe na bocca do infante moribundo lastimas que talvez lhe atravessassem o pensamento n'essa angustiada hora final:
Nam ha rreynos em Cristãos que em todos nam andasse, e que sempre nom achasse nos rreys d'eles doces mãos; Fydalguos e cydadaõs me seruiam lealmente, e agora cruelmente me matarom meus yrmãos.
Eu andey per muytas partes e por outras boas terras, muyta paz e tam bem guerras vy tratar per muytas artes. Mas aqueste dia Martes foy jnfeles pera mym; o meu sangue me deu fim e rrompeu meus estandartes.
Vamos, na confusão do rapido combate, procurar o conde de Avranches. O infante é morto. D. Alvaro ha de cumprir o seu juramento como o mais leal dos cavalleiros portuguezes.
Ruy de Pina escreve:
«O conde d'Abranches andando a cavallo em outra parte do arraial, provendo e resistindo em sua estancia, como bom e ardido cavalleiro, a muitas affrontas que o perseguiam, um moço chegou a elle e chorando lhe disse--_Senhor conde, que fazeis? porque o infante D. Pedro é morto._--E o conde com quanto esta embaixada era de morte, que sem escusa nem dilação desafiou logo sua vida, elle com a cara segura e o coração esforçado disse ao moço--_Cala-te e aqui o não digas a ninguem._--E com isto feriu rijamente o cavallo das esporas, e foi-se descer em seu alojamentor onde sem alguma turvação pediu pão e vinho, de que por esfoçar mais seu esforço comeu e bebeu alguns bocados, e tomou suas armas para com ellas honrar sua sepultura, que era a terra em que havia de cair, e saiu a pé pelo arraial, que de todas as partes era já entrado e vencido, e como foi conhecido, logo os d'el-rei uns sobre os outros carregaram sobre elle acommettendo de todas as partes para o matar, mas elle logo com uma lança que cortaram, e depois com sua espada os feria, e escarmentava de maneira, que os que a primeira vez o acommettiam, de mortos ou feridos não volviam a elle a segunda, e assim pelejou um grande pedaço como mui valente e accordado cavalleiro, não sem grande espanto dos que o viam trazendo as mãos, e todas suas armas cheias não de seu sangue, mas de muito alheio que espargiu; porque em quanto andou em pé e se poude revolver, nunca sua carne recebeu golpe que a cortasse. E emfim vencido já de muito trabalho, e longo cansaço, disse em altas vozes: _Ó corpo, já sinto que não podes mais, e tu minha alma já tardas._ E com isto se deixou cair estendido no chão, e uns dizem que disse, _ora fartar, rapazes_, e outros _ora vingar, villanagem_. Cujo corpo que já não resistia, foi logo de tantos golpes ferido, que em breve despediu a alma de si para ir acompanhar a do infante como lhe tinha promettido, e alli um seu amigo, que não usou do que devia, lhe cortou e levou a cabeça com que a el-rei foi pedir acrescentamento e honra de cavallaria, e o tronco ficou no chão feito em pedaços, até que por requerimento de João Vaz d'Almada seu irmão bastardo, que era valor d'el-rei, houve logo enterramento no campo, e depois sepultura honrada. E os outros fidalgos e nobre gente que eram com o infante, vendo tão caro seu destroço, cada um desamparou a defeza das estancias, que lhe foram encommendadas, e como desesperados das vidas não lhe fallecendo o coração e accordo para vingarem suas mortes, se soltaram pelo arraial á aventura que se lhes offerecesse, e emfim de mortos, feridos, ou presos não escapou algum».
Realmente, um frémito de enthusiasmo põe no nosso organismo uma vibração violenta, ao chegarmos a esta pagina, a ultima, da biographia de Alvaro Vaz de Almada. Os heroes da epopéa costumam cair assim. Na morte, esse homem extraordinario parece ainda sobrepujar a grandeza de toda a sua vida. Para os livros de educação popular, nenhum exemplo de valor militar e de leal amizade poderá ser mais apropriado do que este.
Os nobiliarios da Torre do Tombo referem entre as phrases finaes de Alvaro Vaz uma que o chronista aliás não cita. Contam que, embravecido em vingar a morte do seu amigo, o conde de Avranches, na vertigem do combate, pronunciára: «_Jantar aqui, ceiar no inferno_». Era um leão que se vingava, cego de colera, imponente de magestade.
Estes acontecimentos causaram uma profunda impressão em toda a Europa. D. Affonso V procurou attenual-a enviando embaixadores ás principaes côrtes, encarregando-os de explicarem os motivos do seu procedimento.
Mas a impressão foi tanto maior, quanto é certo que a vingança do rei ultrapassou o respeito devido aos mortos.
O cadaver do infante ficou insepulto sobre o campo, durante tres dias. Depois levaram-n'o sobre um escudo para a egreja de Alverca. Aquelle desgraçado principe, de quem o povo conta que, em vida, andou as sete partidas do mundo[64], ainda depois da morte errou n'uma longa peregrinação, porque os seus ossos foram successivamente trasladados de Alverca (onde o rei receiou que os fossem roubar) para o castello de Abrantes, de Abrantes para o mosteiro de Santo Eloy em Lisboa, e de Lisboa, finalmente, para a Batalha, a instancias da infeliz rainha D. Isabel.
Ao cadaver do conde de Avranches foi, como diz Pina, cortada a cabeça por um dos adversarios, aliás seu antigo amigo, que a levou a el-rei na esperança de obter mercê[65]. Feito pedaços, retalhado de golpes, o corpo de D. Alvaro ficou tambem insepulto sobre o campo de Alfarrobeira, até que a requerimento de seu irmão bastardo, João Vaz de Almada[66], e não sem difficuldade, foi enterrado honradamente na capella de familia.
Esta capella, que confinava com a casa do Capitulo em S. Francisco de Lisboa, era chamada _dos Abranches_ (corrupção de Avranches), por n'ella ter sido sepultado D. Alvaro Vaz.
«Está sepultado--descrevia no seculo XVII o auctor da _Historia serafica_--no meio d'esta capella, debaixo de uma pedra, na qual se vêem estas letras: _Aqui jaz um Christão._ Na parede sustentavam dous leões uma arca pequena, ennobrecida com as armas dos Almadas, em que estavam os ossos de seu pai João Vaz de Almada, e de seu irmão Pero Vaz de Almada, os quaes ausentando-se do reino por razões, que para isso tiveram, fóra d'elle fizeram celebre seu nome com muitos feitos cavalleirosos[67]. E por quanto uma ruina do tecto a tem feito em pedaços, e a mesma capella se ha de incorporar em a Casa do Capitulo, com mais gosto deixamos escripta esta memoria».
Por carta de D. Affonso V, de 10 de outubro d'aquelle anno de 1449, foram privados de todos os seus beneficios, dignidades, officios, honras, prerogativas, isenções, privilegios, liberdades, etc., os partidarios do infante que se acharam em Alfarrobeira.
O conde de Avranches não escapou a esta medida geral, que abrangia tanto os vivos como os mortos.
«Morto o conde de Avranches, foram-lhe logo os bens confiscados como de reo de alta traição: a casa da actual rua do _Almada_, sobre o Calhariz, campo então, e afastado, e mais uns terrenos em Caparica. Tudo se doou em 25 de agosto de 1449 a Alvaro Pires de Tavora, chamado o velho, filho de Lourenço Pires de Tavora e de Alda Gonçalves, e do conselho d'elrei D. Affonso V. Esses bens conservam-se ainda, na sua maior parte, em poder do actual representante dos Tavoras, o sr. marquez de Vallada, etc.»[68]
Quantos lisboetas ignorarão ainda hoje que foi o famoso conde de Avranches, espelho da cavallaria portugueza, como muitos escriptores lhe chamam, que deu o nome a essa aliás modesta rua, proxima do Calhariz!
Alvaro Vaz de Almada, primeiro conde de Avranches, casou duas vezes.
A primeira com D. Isabel da Cunha, filha de Alvaro da Cunha, quinto senhor de Pombeiro, o qual era filho de João Lourenço da Cunha e de sua mulher a celeberrima D. Leonor Telles[69].
A lista dos filhos de Alvaro Vaz de Almada, publicada nos _Retratos dos varões e donas_, é deficiente. Nos nobiliarios da Torre do Tombo encontra-se a seguinte noticia genealogica, que deve completar a sua biographia:
Do primeiro casamento, nasceram cinco filhos, a saber:
1.º D. João de Almada, cuja geração se extinguiu.
2.º D. Leonor, solteira.
3.º D. Violante da Cunha, primeira mulher de Fernam Martins Mascarenhas, capitão de ginetes, do qual se apartou.
4.º D. Isabel da Cunha, mulher de Alvaro Pessanha, filho de micer Carlos Pessanha, almirante[70].
5.º Dona V... da Cunha, que casou em Inglaterra.
Em segundas nupcias casou D. Alvaro Vaz de Almada com D. Catharina de Castro, filha de D. Fernando de Castro (casa Monsanto) e de sua mulher D. Isabel de Athayde.
D'este segundo cazamento nasceu D. Fernando de Almada, que veio a herdar o titulo de conde de Avranches, confirmado em França por Luiz XI.
D. Catharina não teve pela memoria de D. Alvaro o respeito que era de esperar, visto que não podia encontrar outro marido, que excedesse em gloria o primeiro.
Casou outra vez. Casou, depois da morte do conde de Avranches, com D. Martinho de Athayde, conde de Athouguia, seu primo co-irmão.
É triste recordar esta pagina de fragilidade feminina.
Mas a patria, essa, ficou eternamente viuva do grande cavalleiro.
* * * * *
De proposito deixei para o final d'esta carta um assumpto, vago e confuso, que anda lendariamente relacionado com a vida de D. Alvaro Vaz de Almada.
Os chronistas fazem d'este famoso capitão um dos _doze de Inglaterra_, emparceirando-o alguns, n'esta cavalheiresca aventura, com seu pai.
Não póde ser mais completa a confusão de datas e de nomes, que obscurece esta lenda em si mesma e na sua referencia á familia Almada.
Dêmos desde já um exemplo.
Ferdinand Denis, que com tanto cuidado estudava a historia de Portugal, diz a respeito de Alvaro Vaz de Almada:
«Il faisait partie, dit-on, des douze preux qui allèrent venger l'honneur outragé des dames anglaises; et Camoens l'a celebré en cette occasion, en alterant toutefois son nom»[71].
Ora, no episodio _dos doze de Inglaterra_, Camões apenas nomeia um só, que «Magriço se dizia». Onde o poeta falla do conde de Avranches é no canto IV, quando descreve a batalha de Aljubarrota. E ahi é que lhe troca o nome. Vejamos:
E da outra ála que a esta corresponde, Antão Vasques de Almada[72] é capitão, Que depois d'Abranches nobre conde, Das gentes vai regendo a sestra mão. Logo na rectaguarda não se esconde, Das quinas e castellos o pendão, Com Joanne rei forte em toda a parte, Que escurecendo o preço vai de Marte.
Quem esteve em Aljubarrota não foi Alvaro Vaz de Almada, nem podia estar, porque, sendo aproximadamente da mesma idade do infante D. Pedro, não teria ainda nascido: mas foi seu pai, João Vaz de Almada,--ahi armado cavalleiro.
Effectivamente, um cavalleiro, chamado Antão Vasques, de Almada acrescentam alguns, commandava a ala esquerda do exercito com o gascão Guilherme de Montferrant[73].
E este mesmo Antão Vasques, depois da batalha, cobriu os pés do Mestre de Aviz com a bandeira real de Castella.
Não se póde confundir este cavalleiro com João Vaz de Almada, a quem, antes de ser armado cavalleiro, não dariam o commando da ála esquerda do exercito. Já sabemos que João Vaz foi armado ahi, em Aljubarrota, o que prova que era muito novo então.
Assim, temos que Ferdinand Denis se equivocou dizendo que Camões altera o nome do conde de Avranches quando descreve o episodio dos _doze de Inglaterra_; e que Camões se enganou tambem dizendo que Antão Vasques de Almada foi depois conde de Avranches.
Vamos agora á lenda dos _doze_.
Será acaso nos _Lusiadas_ que pela primeira vez apparece noticia d'esta lenda?
Não é. A primeira edição do poema de Camões foi estampada em Lisboa no anno de 1572. Em 1567 imprimia-se em Evora o _Palmeirim de Inglaterra_, por Francisco de Moraes, e no capitulo CLXIII da segunda parte d'esta obra, faz-se menção de um combate cavalheiresco, que envolve o fundo da lenda dos _Doze_.
Mas o _Palmeirim de Inglaterra_ será uma obra original, uma traducção fiel ou apenas uma imitação? Moraes, que acompanhou em 1540 a França o embaixador portuguez, o segundo conde de Linhares, diz na dedicatoria á infanta D. Maria que trasladára a sua chronica de outra de Albert de Rennes, em Paris. Innocencio Francisco da Silva julga, porém, que Francisco de Moraes não traduziu servilmente, antes introduziu cousas de sua lavra.
No mesmo anno de 1567 imprimia-se em Coimbra o _Memorial das proezas da segunda tavola redonda_, de Jorge Ferreira de Vasconcellos, e ahi, no capitulo XLVII se lê: «Porque não se nega aos lusitanos, dês o tempo dos romanos que fizeram memoria dos feitos heroicos, um abalisado e raro grau de cavallaria. E em tempo d'elrei D. João de _Boa Memoria_ sabemos que seus vassallos no cêrco de Guimarães se nomeavam por cavalleiros da tavola redonda; e elle por rei Arthur. E de sua côrte mandou treze cavalleiros portuguezes a Londres, que se desafiaram em campo cerrado com outros tantos inglezes, nobres e esforçados, por respeito das damas do duque de Alencastro».
Aqui nos apparece a lenda já apropriada a Portugal, com a só differença de serem treze os cavalleiros em vez de doze.
O que se vê claramente do que fica exposto é que em 1567 a lenda a que nos vimos referindo andava em moda em Portugal. E talvez por estar muito viva a fama gloriosa do reinado cavalheiresco de D. João I, seria Jorge Ferreira de Vasconcellos o primeiro que a localisou n'aquella época.
Alguns escriptores nossos, e entre elles o auctor dos _Retratos dos varões e donas_, precisam a data da ida dos cavalleiros portuguezes a Inglaterra, collocando-a no anno 1390. Com effeito, esta era a época mais propria, por amor da verosimilhança, porque foi depois do casamento de D. João I com D. Filippa de Lancaster na Sé do Porto (1387) que se estreitaram as relações de Portugal com a Inglaterra[74], e foi depois da batalha de Aljubarrota (1385) que o espirito cavalheiresco se accendeu entre nós. Mas Fernam Lopes, a melhor auctoridade que podia fazer fé, não se refere ao caso.
Prosigamos. Mariz, nos _Dialogos da varia historia_, publicados em 1594, referindo-se a uma relação antiga, _Chronica antigua hujus temporis_, publíca uma narrativa do feito dos _Doze_, occorrido, segundo elle, no reinado de D. João I. Cita, entre os _Doze_, apenas quatro, mencionando o nome de _um que se chamava Alvaro de Almada_.
Faria e Sousa, commentando os _Lusiadas_, em 1639, tambem se refere a um _papel antiguo_, em que _toscamente_ se historiava o episodio dos _Doze_.
Ora, o velho chronista francez João Froissart, que falleceu em 1410, falla de uma ordem de cavallaria, a ordem da _Dama Branca_, que foi organisada para defeza das damas ultrajadas, _plusieurs dames et damoiselles, veufves et autres, estoyent oppressées d'aucuns puissants hommes_[75], e publíca o texto das cartas de armas pelas quaes _treze_ cavalleiros francezes, messire Charles d'Albret, messire Bouciquaut, marechal de França, Bouciquaut, seu irmão, Francisco de Aubrecicourt, João de Lignères, Chambrillac, Castelbayac, Gaucourt, Chasteaumorant, Betas, Bonnebaut, Colleville e Torsay, se comprometteram a defender as damas no anno da graça de 1399.
Em face do texto de Froissart, a prioridade seria dos portuguezes, porque a sua ida a Inglaterra é collocada por uns no anno de 1390, e por outros no de 1396. O duque de Lancaster, que para este feito cavalleiresco teria pedido o auxilio de D. João I, falleceu em 1399.
Mas nós abstemo-nos de reivindicar a prioridade dos portuguezes e, portanto, a filiação portugueza da lenda. Contentamo-nos com dizer apenas que esta lenda se tinha generalisado na Europa, querendo cada paiz aproprial-a a cavalleiros seus.
O catalogo completo dos _Doze_ portuguezes appareceu pela primeira vez no opusculo de Ignacio Rodrigues Védouro, _Desafio dos Doze de Inglaterra_, publicado em 1732[76].
Ora, segundo a tradição recolhida por Védouro, esses cavalleiros seriam: Alvaro de Almada, o _Justador_; Alvaro Gonçalves Coutinho, o _Magriço_; Alvaro Mendes Cerveira; Alvaro Vaz de Almada, primeiro conde de Avranches; João Pereira Agostinho, Lopo Fernandes Pacheco, Luiz Gonçalves Malafaia, Martim Lopes de Azevedo, Pedro Homem, Ruy Gomes da Silva, Ruy Mendes Cerveira e Soeiro da Costa. Como supranumerarios, João Fernandes Pacheco e Vasco Annes Côrte Real.
Este catalogo tem para nós muito pouco valor. Os nossos antigos chronistas não se preoccupavam com a chronologia. Assim é, por exemplo, que Luiz Goçalves Malafaia e Soeiro da Costa são incompativeis, chronologicamente, com a época dos _Doze de Inglaterra_[77]. Além d'isto, a vaidade das familias mais illustres de Portugal não deixaria de collaborar no catalogo, fazendo supprimir uns nomes para os substituir pelos de representantes seus.