Um contemporaneo do Infante D. Henrique

Part 3

Chapter 33,785 wordsPublic domain

Por minha parte pendo a acreditar que D. Alvaro não sahiu de Ceuta, mas devo dizer, francamente, que caminho apenas por conjecturas.

É possivel que a morte do pai e do irmão mais velho, ignorando eu comtudo a data certa em que falleceram, levasse Henrique VI a galardoar em D. Alvaro os serviços que anteriormente havia recebido d'elle proprio e da sua familia.

Mas é mais provavel que, «por esforço do infante D. Pedro», como diz Landim, lhe fossem feitas aquellas mercês.

As duas phrases, de Ruy de Pina e do infante D. Pedro, que logo citaremos, fallam apenas de Ceuta; supponho, por isso, que D. Alvaro Vaz de Almada não iria mais longe n'essa segunda ausencia.

O que é certo é que as mercês de Henrique VI a D. Alvaro são do anno de 1445, em que o valoroso _Capitão_ estava fóra de Lisboa.

Os documentos comprovativos das mercês encontrou-os o snr. Figanière, e indicou-os pela primeira vez no _Catalogo dos manuscriptos portuguezes existentes no muzeu de Londres_ (Lisboa, 1853), por esta fórma;

«N.º 6.298. _Fol. 316_--Noticia de D. Alvaro Vaz de Almada, conde de Abranches, cavalleiro da Jarreteira.

«_Fol. 317_--Cópia de um documento passado sob o sêllo privado (_copy of Privy Seal_) em que contém a eleição de D. Alvaro de Almada, como cavalleiro da Jarreteira, e creando-o conde de Abranches em Normandia. Datado de Westminster a 4 de agosto do 23.º anno do reinado de Henrique VI, rei de Inglaterra; isto é, de 1445.

«_Fol. 319 verso_--Cópia de outro semelhante documento, concedendo ao mesmo D. Alvaro de Almada, conde de Abranches, a somma annual de 100 marcos. Datado de Westminster a 9 de agosto do mesmo anno.

«_Fol. 320 a 321_--Cópia de outro semelhante documento, dando ao mesmo D. Alvaro de Almada uma taça de ouro do valor de 40 marcos, a qual continha 100 marcos em dinheiro. Datado de 13 de agosto do já referido anno.

«Os quatro precedentes documentos estão collocados em seguida uns dos outros».

Eis o que dizia o _Catalogo_. Tres annos depois, no _Panorama_, o snr. Figanière publicava na integra os documentos, cuja traducção vamos dar em seguida:

«Nos Archivos da Torre de Londres, rotulo de França, anno 23, maço 6, pergaminho 2.º

«Henrique, por Graça de Deus Rei de Inglaterra, de França e Senhor da Irlanda, aos Arcebispos, Bispos & saude.

«De grandes louvores devem ser cumulados, e com singular gloria exaltados os que com ardente zelo se empenham em sacrificar o seu tempo e até a propria vida á salvação da Patria; que se expõem aos perigos para assegurar a tranquillidade publica, e que acima de todas as cousas d'este mundo ambicionam fama illustre e nome immortal, e se dão por felizes quando julgam poder com os seus serviços e lealdade promover o publico bem. Oh benemerita classe de homens! sem os quaes não poderiam gozar de segurança as cidades, as fortalezas, os reinos, os dominios, os Principes da terra, nem mesmo a propria Terra. Oh muito illustres e justos varões! sob cuja administração exemplar todas as virtudes se avigoram e florecem, os máos são reprimidos e os criminosos castigados. Ninguem ha, certamente, que com digno louvor possa celebrar por escripto ou de palavra almas tão nobres. N'este numero se deve contar e celebrar o insigne e preclaro varão, o bravo e glorioso militar, D. Alvaro de Almada, que desde _tenra idade, apenas saido da infancia_, apaixonado de gloria militar e ambicionando os premios dos valentes e a salvação commum, com todo o esforço e zelo se applicou aos exercicios militares, e logo que chegou á idade mais propria para a guerra, cresceu-lhe o esforço com a idade, e em defeza do Estado se portou com tão superior coragem que nada lhe parecia agradavel, digno de estima ou de apreço se não se encaminhasse ao bem commum; e tal valor mostrou nos perigos da guerra, e tal prudencia no remanso da paz, que com toda a justiça se devem premios ao seu trabalho. Por estas razões considerando nós a nobreza d'este varão, e as eminentes qualidades que, unidas a seus feitos, lhes dão grande realce, e outrosim as gloriosas façanhas por elle praticadas no _tempo do Christianissimo Rei de gloriosa memoria nosso Antecessor, realçadas ainda pelas provas de amor, obediencia e dedicação que a nós e nossos reinos elle tem dado_; o nomeamos cavalleiro socio e irmão da ordem da Jarreteira por voto unanime d'esta Ordem; e em testimunho de nossa Real Munificencia e das suas virtudes o nomeamos e estabelecemos Conde de Avranches no nosso Ducado de Normandia; e cingindo-lhe a espada o investimos n'este nome, dignidade e titulo e com elle effectivamente o honramos. Queremos e mandamos por nós e por nossos herdeiros que o dito nosso leal Dom Alvaro conserve perpetuamente para si e seus herdeiros varões, seus descendentes havidos em legitimo matrimonio, o nome e dignidade de Conde de Avranches. Foram testimunhas os veneraveis Padres: I. arcebispo de Cantuaria; I. arcebispo de Yorck; Thomaz, de Norwich; Will, de Sarum; I. Bathon e Wellen, bispo de Gloucester, tio materno do nosso carissimo Duque Humfredo; e os nossos carissimos parentes os duques João Exon, e Humfredo Buck; e Wilhelmo, marquez de Suffolk; João, visconde de Beaumont e seus amados e fieis soldados Radulpho Cromwell e Radulpho Bottler, thesoureiros de Inglaterra, e o chanceller Mestre Adam Moleyns e outros. Dado por nossa mão em Westminster a 4 de agosto. Por carta de sello privado passada n'esta mesma data»[43].

«Nos Archivos da Torre de Londres, rotulo de França, anno 23.º, maço 6.º, pergaminho 2.º

«Eu El-Rei aos que esta virem & saude.

«Tomando em consideração a lealdade, intelligencia, circumspecção, affecto, serviços e todas as mais cousas dignas de menção que _a nosso amantissimo Pae de feliz memoria, e tambem a nós_ com singular desvelo prestou o nosso leal D. Alvaro de Almada, Conde de Avranches, do conselho do nosso Parente o muito excellente Principe e poderosissimo Senhor Rei de Portugal, e capitão mór em todos os seus reinos e dominios, e Alcaide mór da cidade de Lisboa, e querendo outrosim que taes serviços não fiquem em esquecimento e sem recompensa: por nosso motu proprio concedemos ao mesmo D. Alvaro em quanto viver cem marcos de pensão annual, a receber do nosso Erario de Inglaterra por mão do nosso thesoureiro e officiaes que então alli servirem, e a vencer em porções eguaes pela Paschoa e pelo S. Miguel. Em fé do que é. Testimunha R.»

«Westminster 9 de agosto»[44].

«Sello particular do Governo, 13 de agosto 23 H. 6.--Nós, tomando em consideração os bons serviços, grande zelo, e bom amor que nosso fiel e bem amado Alvaro de Almada, cavalleiro de Portugal, nos tem feito e prestado e aos nossos muito nobres antepassados, o temos feito e creado ha pouco tempo conde de Avranches, e além d'isso temos concedido ao dito Alvaro uma pensão de 100 marcos por anno durante a sua vida. Nós vos ordenamos de lhe entregar uma taça de ouro do valor de quarenta marcos[45] e a somma de cem marcos contidos na dita taça»[46].

Estas mercês foram feitas por Henrique VI na sua dupla qualidade de rei de Inglaterra e duque de Normandia em França. Insistimos n'este ponto para combater o erro em que tantos escriptores nacionaes e estrangeiros têm cahido, de suppor que Alvaro Vaz recebera do rei de Inglaterra a ordem da Jarreteira, e do rei de França o condado de Avranches, que estava incluido no antigo ducado de Normandia. O rei era um só. A este respeito com inteira razão nota o snr. Oliveira Martins que nem se concebe que, estando em guerra os dous reinos, o mesmo homem fosse feito conde de Avranches pelo rei de França e cavalleiro da Jarreteira pelo rei de Inglaterra[47].

Em 1447, o joven rei D. Affonso V pede a seu tio o infante D. Pedro que lhe entregue as redeas do governo, o que immediatamente consegue.

É então que principia a agitar-se em torno do infante ex-regente a intriga atiçada pelo duque de Bragança.

Os conselheiros de D. Affonso V diziam-lhe, segundo conta Pina, que «por segurança não sómente de sua vida, mas da justiça e fazenda tirasse, como logo tirou, todos os officios, que os criados de seu tio na côrte tinham de qualquer qualidade que fossem, pondo suspeições e testimunhos falsos, a uns que erravam na justiça, e a outros que roubavam a fazenda, e a outros que dariam peçonha a el-rei, segundo a cada um em seus officios podia tocar, e para parecer que o queriam provar, não falleciam logo pessoas induzidas, que com medo de pena, ou com esperança de galardão, que lhe promettiam, na sua vontade o testimunhavam»[48].

O que é certo é que, apesar de todas estas machinações dos inimigos do infante D. Pedro, o joven rei Affonso não se mostrou severo, nem mesmo reservado, com D. Alvaro Vaz de Almada quando elle recolheu a Lisboa.

É que, como logo veremos pelas palavras do infante D. Pedro, Alvaro Vaz tinha augmentado a sua gloria militar, praticando _em Ceuta_ novos e brilhantes feitos de armas.

N'este lance da narrativa, precisamos recorrer mais uma vez ao testimunho de Ruy de Pina, transcrevendo um capitulo da sua _Chronica_:

«_A este tempo chegou tambem a Lisboa, que vinha de Ceuta_, o conde d'Abranches, que sobre todos era grande servidor e muito amigo do infante D. Pedro, e publico imigo do conde d'Ourem, e em sua chegada não foi então d'el-rei e de sua côrte assim agasalhado e honrado, como seus serviços presentes e merecimentos passados requeriam. Porém o conde assim como era de nobre sangue, assim não fallecia n'elle uma graciosa soltura de dizer, com mui esforçado coração e singular agradecimento, com que ante el-rei e os de sua côrte, no publico e no secreto defendia muito a honra e estado do infante D. Pedro, com claro exemplo e vivas razões de sua mui louvada lealdade, afeando muito com grande audacia os movimentos e maldades, que seus imigos tão sem causa contra elle moviam. E como quer que el-rei fosse induzido, que não ouvisse o conde e o mandasse ir fóra de sua côrte, pondo-lhe que em todas as culpas do infante elle era muito culpado, porém porque el-rei era de alto coração, accêso no ardor de actos cavalleirosos, suspirando para grandes empresas, folgava muito de o ouvir, e começava dar-lhe de si muita parte e acolhimento, especialmente porque o infante D. Henrique ante el-rei muitas vezes por cousas muito assignaladas em que o vira, dizia por elle, que não sómente Portugal, mas Hespanha toda se devia de haver por honrada crear tal cavalleiro. E porque os imigos do infante viram, que a vontade d'el-rei ácerca do conde não terçava por elles como desejavam, lançaram-lhe amigos d'elle lançadiços, e pessoas de credito que com resguardo de grande segredo o aconselhassem, que se fosse fóra da côrte, e não entrasse em um conselho publico que se então fazia, avisando-o manhosamente que n'elle por cousas do infante D. Pedro o haviam de prender. Mas o conde com a cara cheia d'essa forçada segurança, lhe disse--_Amigos, certamente pelos muitos e grandes serviços que tenho feitos a esta casa de Portugal, eu lhe mereço mais villas e castellos com que me acrecente, que prisões nem cadêas em que sem causa me ponha, e por tanto com todo o que me dizeis, sabei que não hei de fugir do conselho e serviço d'el-rei nosso senhor, pois leal e verdadeiramente sempre o segui. E porém se tal cousa, e por tal causa se move contra mim, sabei certo que em defender minha honra, e limpeza d'aquelle senhor, eu me mostrarei hoje digno de ser confrade da santa Garrotea que recebi, e espero em Deus que sem ociosidade de minhas mãos, os que me quizerem visitar antes seja na sepultura, que nos carceres nem cadêas, e por isso não hajaes dó nem compaixão de minha vida porque minha morte honrada a fará com louvor viver mui viva, e muito mais honrada nas memorias dos homens para sempre._ Pelo qual o conde depois de com esta determinação despedir estes manhosos e dobrados conselheiros; porque a hora do conselho se chegava, a que determinou ir, se vestiu de pannos finos mui bem e muito melhor d'armas secretas, com que entrou no paço, onde seus imigos, vendo a segurança de sua pessoa, foram claramente certificados do esforço e bondade de seu coração. E estando el-rei na casa do conselho, onde eram muitos senhores presentes e os principaes imigos do infante, o conde e com cara que mais parecia que ameaçava que temia, lhe tocou em sua prisão que lhe fora revelada, e assim lhe fallou com muito repouso e grande auctoridade nas cousas do infante e suas, approvando sua bondade e lealdade por termos, e com razões a todos tão manifestas, que se não podiam contrariar; concluindo, que quaesquer pessoas de qualquer estado e condição que fossem, que do contrario tinham informado a El-Rei, eram com reverencia e acatamento de sua real pessoa, a Deus e a elle e ao mundo máus e traidores, e que com licença e consentimento de sua senhoria os combateria por armas, _e em campo a tres d'elles os melhores juntamente_[49]. A resposta d'el-rei para o conde foi então graciosa e branda, e com mostrança que lhe pesara de o ouvir, que para o mau fundamento dos que tratavam a morte do infante, foram mui tristes signaes, e por arredarem el-rei do infante D. Henrique e do conde, que começavam ser causa, que de todo impedia seu damnado proposito, o levaram a Cintra aforrado».

Este ultimo periodo de Ruy de Pina tem sido interpretado por alguns escriptores com manifesta confusão. Suppõem elles que Alvaro Vaz é que foi levado para Cintra, e não o rei. Eu entendo o contrario. Em Major a redacção póde suscitar duvidas; diz o erudito inglez: «Apesar da frieza, que lhe mostraram (ao conde de Avranches) por sua amizade a D. Pedro, foi sempre seu caloroso e perseverante defensor, e tal poder tinha sua influencia, que os maus conselheiros de elrei julgaram conveniente fazel-o retirar para Cintra»[50]. Soares da Sylva, deixando-se arrastar pelo equivoco, escreve: «N'este mesmo tempo veio á Côrte o Conde de Abranches D. Alvaro Vaz de Almada, que até alli estava _em Cintra_[51].

Ora, em face do texto de Pina, vê-se que Alvaro Vaz veio de _Ceuta_, e que os cortezãos, para subtrairem D. Affonso V á influencia do conde, levaram o rei _aforrado_ para Cintra.

D. Antonio de Lima, no _Nobiliario_, diz que Alvaro Vaz de Almada armou tres navios contra os genovezes que andavam no Estreito, que lhes tomou uma carraca, e praticou outros feitos valorosos. Não diz, porém, em que época isto succedeu. Mas poderá talvez presumir-se que fosse n'esta segunda ida a Ceuta, e que sejam estes os feitos a que o infante D. Pedro se refere.

Os genovezes tinham n'aquelle tempo uma poderosa marinha, e póde bem ser que affluissem ao estreito de Gibraltar com a mira em Ceuta, chegando a fazer uma investida, que Alvaro Vaz teria repellido victoriosamente.

Os nossos chronistas guardam silencio sobre o assumpto. Mas não custa a acreditar que o motivo que levou novamente a Ceuta Alvaro Vaz fosse a ameaça dos genovezes, contra os quaes elle acudiria com tres navios armados á sua custa.

Sendo assim, ficaria explicado o facto de ter abandonado temporariamente o governo do castello de Lisboa, como explicadas ficariam tambem uma phrase do infante D. Pedro e a admiração que o joven rei manifestou mais uma vez pelo insigne capitão, a ponto dos cortezãos julgarem conveniente retirar D. Affonso V para Cintra, para evitar a repetição de entrevistas que davam vantagem ao conde de Avranches.

Acaso governaria já Affonso V quando o conde partiu para Ceuta? Parece que não. Se esta viagem tivesse sido um meio de o tirar de ao pé do infante D. Pedro, se tivesse sido «um castigo», como explicar que o rei lhe conservasse o castello de Lisboa, que só lhe retirou quando D. Alvaro Vaz voltou de Ceuta? E como explicar igualmente que recebesse o _Capitão_ com tanto agrado?

Parece mais verosimil e provavel que Alvaro Vaz partisse para Ceuta durante a regencia e por indicação do infante, em razão talvez do perigo que offereciam alli os genovezes.

Por fim, como era natural que acontecesse, dada a idade impressionavel de Affonso V e a insistencia dos inimigos do infante, o joven rei acabou por ceder e tirar a D. Alvaro o governo do castello de Lisboa[52].

Durante a regencia, o infante D. Pedro não só havia conservado ao _Capitão_ o cargo de alcaide-mór, mas tambem lhe fizera importantes doações, como se póde vêr por documento existente no Archivo National[53].

O infante magoou-se profundamente com o acto pelo qual seu sobrinho tirára o governo do castello de Lisboa a D. Alvaro: não só o feriam directa e pessoalmente, imputando-lhe crimes atrozes, mas tambem na pessoa do seu mais dilecto amigo o queriam ferir.

Na celebre carta que o infante dirigiu de Coimbra, em 30 de dezembro de 1448, ao conde de Arrayolos, que de Ceuta viera expressamente para defendel-o, dizia D. Pedro:

«... por me fazerem deshonra tiraram o castello de Lisboa ao conde d'Avranches, o qual se tinha feito serviços a estes Reynos e aos Reys delles por que lhe esto devesse de ser feito vós sabees; deram-lhe por elles _e em especial pollo que agora fez em Ceita_, ho gallardam que dam a mim de meus serviços e trabalhos».

Este periodo da celebre carta mostra não só o profundo resentimento do infante D. Pedro, mas tambem que D. Alvaro _viera de Ceuta_, onde praticára novos e gloriosos feitos.

Não podemos precisar o anno em que o conde esteve pela segunda vez em Ceuta. Mas, pelo dizer o infante, sabemos que no fim de 1448 já tinha regressado, e por outra noticia sabemos tambem que em 1446 estava em Lisboa.

Certamente n'este ultimo anno[54] veiu a Portugal Jacques de Lalain, famoso cavalleiro da côrte do duque de Borgonha. Foi recebido pelo joven rei Affonso V e pelo regente D. Pedro com grandes honras e festas. Quando De Lalain se aproximava da cidade de Evora, sahiram a recebel-o, em nome do rei, Alvaro Vaz de Almada e outros senhores e cavalleiros portuguezes[55].

Não houve justas nem torneios, porque a De Lalain foi dito, em nome do rei, que elle não podia consentir que nenhum cavalleiro portuguez fizesse armas contra outro da casa de Borgonha, a que estava ligado por estreitos laços de parentesco e affecto.

Perdeu-se assim uma excellente occasião de vêr o conde de Avranches justar, em Portugal, com um cavalleiro estrangeiro dos mais afamados, porque Alvaro Vaz de Almada não teria certamente prescindido d'essa honra e gloria.

Vamos agora caminhando rapidamente para Alfarrobeira.

Depois de fallar ao rei, Alvaro Vaz correu ancioso a abraçar o infante D. Pedro, que estava em Coimbra, nas suas terras.

O infante D. Henrique acampanhou-o.

Houve então alli um como conselho de familia para se deliberar sobre o que cumpria fazer. O momento era angustioso; a resolução difficil. A reunião do conselho repetiu-se quando se soube que o duque de Bragança tinha sido chamado á côrte.

Alvaro Vaz de Almada opinou que a todo o custo o infante devia impedir a passagem ao duque[56].

Este parecer foi acceito.

Para o executar, D. Pedro moveu a sua gente, que de Penella seguiu para a Louzã, e da Louzã para a aldeia de Villarinho, sendo a vanguarda confiada a D. Jayme, filho do ex-regente, e a D. Alvaro Vaz de Almada. O proprio D. Pedro commandava a rectaguarda.

Quando chegaram ao logar de Serpiz, soube o infante que o duque de Bragança estava apenas a meia legua de distancia.

Logo que isto constou a D. Alvaro, não lhe soffreu o animo mais delongas. Sem dizer nada ao infante, metteu esporas ao cavallo, e foi vêr o arraial do duque. Quando voltou, vinha radiante; mas D. Pedro acolheu-o com tristeza, pesaroso de que elle o não tivesse consultado primeiro.

Perguntou-lhe o infante o que tinha visto.

D. Alvaro respondeu com decisão:

--Senhor, venho de vêr vossos inimigos, de quem prazendo a Deus, e ao bemaventurado S. Jorge, vos eu darei hoje se quizerdes mui boa vingança, e peço-vos por mercê que a não dilateis para mais, e ahi logo dar n'elles; porque na desordem e tristeza em que estão, dão já certos signaes de serem cortados com medo e meio desbaratados, e não percaes tão bom dia; porque já em vossa vida nunca havereis outro tal, e não alongueis a vida a quem se lh'a hoje dais, sabei que a encurtára mui cedo a vós, tendo por certo que o duque na maneira em que se repaira e afortallesa não quer vir ávante, e ou se tornará para traz como veio, ou escondido se salvará por outro caminho»[57].

O infante D. Pedro, querendo certamente adiar o derramamento de sangue, não acceitou o conselho, nem acreditou a prophecia.

Mas D. Alvaro fôra n'essa occasião um vidente.

O duque de Bragança conseguiu atravessar furtivamente a serra da Estrella, escapando-se d'este modo ás mãos do infante, e seguindo jornada para Lisboa.

D. Pedro e os seus tornaram para Coimbra.

Ahi foi surprehender o infante uma carta de sua filha, a rainha. Dizia-lhe ella que no dia 5 de maio (estava-se em 1449) D. Affonso V o iria cercar, e que, se elle infante fosse vencido, seria morto, encarcerado ou desterrado.

D. Pedro mostrou-se alegre e tranquillo perante o mensageiro, mas ficou profundamente abatido.

Reuniu o conselho dos seus amigos. As opiniões dividiram-se. D. Alvaro, sem fazer a menor allusão á boa occasião que o infante havia perdido, disse com inabalavel firmeza:

--Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado.

Desenvolvendo esta these, aconselhou que, vestindo todos as suas armas, fossem caminho de Santarem, onde a côrte estava, para que o infante mandasse pedir a el-rei que ou lhe permittisse defender-se na presença de seus inimigos ou haver pelas armas satisfação das injurias que propalavam, e que se el-rei nenhuma d'estas concessões quizesse fazer, e sobre elles viesse, que se defendessem no campo como bons e esforçados cavalleiros[58].

_Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado_: estas heroicas palavras calaram no animo, até ahi indeciso, do infante D. Pedro.

Conheceu que a razão e a honra estavam do lado de D. Alvaro. Acceitou-lhe o conselho. As duas almas entendiam-se, completavam-se. Tinha chegado o momento decisivo: só restava apparelhar para elle. _Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado._ Tal era o dilemma. A voz da cavallaria portugueza fallára pela bocca de D. Alvaro.

Preparou-se o infante D. Pedro para a sorte das armas, qualquer que ella fosse.

Ruy de Pina, que segue os moldes de Tito Livio, pondo longos discursos na bocca dos personagens historicos, descreve d'este modo a scena intima, que se déra entre D. Pedro e D. Alvaro: