Um contemporaneo do Infante D. Henrique
Part 2
É o primeiro ferimento recebido, ao serviço de Portugal, por Alvaro Vaz. Qualquer que fosse, porém, a sua gravidade, de novo o vemos a combater esforçadamente logo no primeiro combate regular que o infante D. Henrique ordenou contra os mouros.
«Mas o infante D. Henrique, vendo que o commettimento por aquella vez não succedia como esperava, e que sua gente recebia dos mouros muito damno, a fez recolher: de que ficaram até vinte christãos mortos e quinhentos feridos: e mandou ficar as bombardas e engenhos em seus alojamentos juntos com o muro d'onde tiravam, cuja guarda encommendou ao recebel-a ao capitão Alvaro Vaz e a outros, que, por estarem afastadas do arraial e pegadas ao muro, receberam dos inimigos muita affronta e trabalho: e elles, na defensão d'ellas e offensão que aos mouros faziam, deram de si claro testemunho de valentes cavalleiros»[29].
No segundo combate contra os mouros, o capitão Alvaro Vaz continua a assignalar-se:
«E n'este mesmo dia era fóra D. Alvaro de Castro, e o _capitão_, e Gonçalo Rodrigues de Sousa, e Fernam Lopes d'Azevedo, com setenta de cavallo: e, topando com quinhentos mouros de cavallaria e muitos de pé, pelejaram com elles e, a seu salvo, lhe mataram quarenta, e tornaram victoriosos a recolher-se com o conde (de Arrayolos) e com os outros, que dos mouros vinham bem perseguidos»[30].
Mas é sobretudo no tumultuoso embarque das tropas portuguezas, na retirada de Tanger, que o capitão Alvaro Vaz, de par com o marechal Vasco Fernandes Coutinho, que depois foi feito conde de Marialva, pratica um acto de extremada cavallaria.
Oiçamos o chronista:
«... o infante com muito resguardo fez recolher a gente, e encommendou ao marechal, e ao capitão Alvaro Vaz, que com alguma somma de bésteiros ficassem sobre o atalhamento do palanque, em um arrife que ahi sobre o mar se fazia, d'onde contrariassem os mouros por maneira, que os christãos embarcassem com mór segurança, e depois se recolhessem com sua ventura o melhor que podessem; e certamente assim como este encargo era de grande perigo a estes dois nobres homens, assim n'elle como esfoçados, se aproveitaram de muita honra e boa fama que n'elle ganharam, e não sómente n'esta, mas em todas as outras affrontas n'este feito passadas, elles por sua bondade d'armas, e grandeza de coração, foram havidos por especiaes capitães, e notaveis cavalleiros. A gente miuda, com desejo de salvar as vidas de que foram desesperados, embarcavam com grande desordenança a que se não podia prover, cá se lançavam ao mar soltamente, não esguardando se o batel era do navio, em que vieram, se de outro algum, e muitos d'elles por fazerem os mareantes em sua salvação mais attentos e diligentes tentavam-n'os com cubiça, offerecendo-lhes logo nas mãos, alguma provesa que ainda escapara; e isto começou de dar grande desaviamento á embarcação, e causar algum damno; porque a todos os ministros do mar venceu tanto esta aborrecivel cubiça, que suspendiam a entrada dos que alguma cousa lhe não peitavam, e os dispunham por isso a grande perigo, do que el-rei houve, depois, sabendo-o, gran desprazer, e segundo a mostrança de seu desejo, certamente este erro não ficára sem grave punição, se d'elle pudéra achar os certos auctores. O marechal, e o _capitão_, como a gente que guardavam viram embarcada, começaram de se recolher na melhor ordenança que puderam, mas os mouros, por acabarem de mostrar sua falsa concordia, e verdadeira imisade, como os viram mover para embarcar, ordenaram dos pavezes que achavam no palanque, uma forte pavezada, com que tão rijamente os commetteram, que muitos dos christãos, especialmente os bésteiros, não podendo soffrer um duvidoso perigo, tomaram para suas vidas outro maior, e mais certo, lançando-se sem algum tento ao mar, onde morreriam até quarenta. _E tanto era o primor da honra n'estes dois cavalleiros, que em chegando ao batel, que para seu recolhimento os esperava, e trazendo com a perseguição dos mouros a morte nas costas, á entrada d'elles ambos se rogaram, affrontando um ao outro a primeira entrada, procurando com palavras de muita cortezia e grande esforço, por cada um ficar por derradeiro em guarda do outro; e porem com todos estes revezes, ao domingo pela manhã eram já todos á frota recolhidos_»[31].
Este lance da biographia de Alvaro Vaz de Almada é, com effeito, de uma galhardia cavalheirosa, que inflamma o espirito de quem n'elle attenta, apesar de sermos chegados a um tempo em que estas proezas guerreiras têm já todo o caracter de factos longinquos e semi-phantasticos.
Á volta de Tanger, Alvaro Vaz torna-se verdadeiramente notavel pela superioridade com que sabe disfarçar a sua dôr pelo desastre soffrido.
D. Duarte estava em Carnide, quando «... chegaram em tanto a Lisboa dos que vinham de Tanger, muitos navios que certificaram o caso como finalmente passára, de que el-rei foi logo avisado, e certamente foi mui aspero de ouvir, que o infante seu irmão ficava em poder de mouros; mas por saber, que a mais da sua gente era em salvo, deu por isso muitas graças a Deus, e como rei virtuoso, humano e agradecido, deteve-se n'aquella aldeia, para vêr e agasalhar os que vinham do cêrco, dos quaes muitos, ao tempo que iam fazer-lhe reverencia, em disformes semelhanças e tristes vestidos, que para isso de industria vestiam, e com palavras a desaventura conformes, se lhe mostravam, e d'elles fingiam ser muito mais damnificados do que na verdade o foram, com fundamento de carregarem mais na obrigação para o feito de seus requerimentos, que alguns logo faziam e outros esperavam fazer, de que el-rei recebia publica dôr e tristeza; mas a estes foi mui contrario, o nobre e valente cavalleiro Alvaro Vaz de Almada, capitão-mór do mar, que como quer que no cêrco de Tanger de sua fazenda perdesse muito, e da honra por merecimentos d'armas não ganhasse pouca, como chegou a Lisboa, antes de ir fallar a el-rei, logo de finos pannos e alegres côres se vestiu, a si e a todos os seus, e com sua barba feita e o rosto cheio de alegria, chegou a Carnide, onde el-rei andava passeiando fóra das casas, e com elle o infante D. Pedro, e depois de lhe beijar as mãos e lhe dizer palavras de grande conforto, el-rei o recebeu mui graciosamente, e louvou muito sua ida n'aquella maneira, que não sómente lhe apontou cousas e razões, para não dever por aquelle caso ter nojo nem tristeza, mas ainda que por elle devia ser mui alegre e contente, estimando em nada o captiveiro do infante seu irmão, que era um homem só e mortal, em que haviam muitos remedios, em respeito da grande fama que n'aquelle feito em seu nome se ganhára, aconselhando-lhe mais o repique e alvoroço dos sinos, para honra e prazer dos vivos, que o dobrar d'elles que ouvia, por tristeza e pelas almas dos mortos; pelo que el-rei começou a mostrar que aquelle era o primeiro descanço que seu coração recebia, e por isso e por seus bons merecimentos lhe prometteu muita mercê, e grande acrescentamento; e sem duvida assim o fizera, se sua antecipada morte o não tolhera»[32].
Ferdinand Denis, referindo-se a esta passagem da vida de Alvaro Vaz, escreve: «Mostrou-se principalmente corajoso cavalleiro durante o cêrco de Tanger, onde ficou prisioneiro o infante D. Fernando, que morreu em Fez; se bem que quando voltou ao reino, o bom rei D. Duarte sahiu para o receber pessoalmente, a pé, fóra de Carnide, onde estava. Fez-lhe taes favores e mercês, como até então ninguem tinha recebido. Foi d'elle que o rei Affonso de Napoles e seu irmão o infante D. Henrique d'Aragão diziam que haviam encontrado em Portugal bom pão e bom capitão»[33].
Cumpre advertir que, segundo o testimunho do chronista Pina, o rei D. Duarte não teve tempo de fazer a Alvaro Vaz as mercês que desejava, e que as maiores que o famoso capitão recebeu não provieram de Portugal, mas de Inglaterra.
Muitos escriptores suppozeram que Alvaro Vaz de Almada fôra feito conde de Avranches pelo rei de França, e cavalleiro da ordem da Jarreteira pelo de Inglaterra; mas não padece a menor duvida que ambas estas graças lhe foram concedidas pelo monarcha inglez, Henrique VI, quando, como rei de França, senhoreava o ducado de Normandia.
* * * * *
Dois annos depois do desastre de Tanger, principia a agitar-se em Portugal a famosa questão da _regencia_, que havia de ter um tragico desfecho no combate de Alfarrobeira.
Em agosto de 1439 a rainha D. Leonor passou-se de Santo Antonio do Tojal, onde estava, para Sacavem, e o rei menino, Affonso V, tornou para Lisboa, onde estava o infante D. Pedro.
Este infante fez reunir em sua casa as pessoas de maior confiança, e entre ellas o «seu grande amigo Alvaro Vaz de Almada, capitão-mór do mar»[34], ás quaes se queixou da pequena parte que do governo lhe coubera nas côrtes, e communicou a resolução de abandonar por completo os negocios do Estado, retirando-se para as suas terras.
N'essa reunião particular, de caracter intimo, distinguiu-se Alvaro Vaz aconselhando o infante a que, se lhe não entregassem logo todo o poder da regencia, se recolhesse aos seus dominios, «porque perdia muito de sua auctoridade e estimação andando na côrte com tão pouca auctoridade»[35].
Era este um meio, habilmente procurado por Alvaro Vaz de Almada, para estimular o animo do povo, e apressar os acontecimentos no interesse do infante.
A rainha, por sua parte, tomava represalias irritantes contra os amigos e partidarios de D. Pedro.
Uma d'ellas foi despedir do seu serviço a irmã de Alvaro Vaz de Almada, por desconfiar que ella communicava ao irmão o que se passava na côrte.
Este e outros actos, como, por exemplo, a mercê que D. Leonor fizera a Nuno Martins da Silveira, aio do rei, dos varejos a que os mercadores de Lisboa eram obrigados de sete em sete annos, irritaram profundamente os partidarios do infante, entre os quaes eram numerosos os homens do povo.
Foram-se de parte a parte exaltando os animos, a ponto que a rainha julgou conveniente á sua segurança transferir-se de Sacavem para Alemquer.
N'este lance da narrativa encontram-se Ruy de Pina e Gaspar Landim, se bem que ambos elles se equivoquem, quando se referem a Alvaro Vaz de Almada, em attribuir a mercê do condado de Avranches ao rei de França e a da Jarreteira ao de Inglaterra, quando foram feitas, como sabemos, pelo mesmo rei, que ao mesmo tempo se intitulava rei de Inglaterra e de França.
«Os officiaes de Lisboa,--diz Ruy de Pina,--vendo esta mudança da rainha fizeram logo seu ajuntamento, onde Vicente Egas Homem, cidadão velho, entendido e de grave representação fez uma falla com largo recontamento, cuja substancia foi avisar a cidade dos males e perigos, que por as mudanças presentes se lhe apparelhavam; e como para terem por cabeça alguma pessoa que por ella os resistisse, lhe era necessario elegerem e tomarem alferes, _apontando logo o capitão Alvaro Vaz de Almada, que da cidade fôra o derradeiro alferes, como por outros muitos e mui dignos merecimentos e louvores, que d'elle com verdade recontou_; no que todos consentiram, e por dois cidadãos o enviaram logo chamar por quanto era fóra da cidade; e em chegando á Ribeira, sendo já sabida a determinação sobre que vinha, se ajuntou com elle a mór parte da cidade e assim acompanhado com grande honra foi levado á camara, onde por os vereadores com certas cerimonias e largas palavras _de grande seu louvor e muita confiança, lhe foi entregue a bandeira da cidade com suas condições_; e elle a recebeu com palavras cortezes, e discretas, e de grande esforço; porque era cavalleiro que _n'este reino e fóra d'elle por experiencias mostrou_, que isto e muito _mais de louvor havia n'elle_, cá em França por sua ardideza e bondades foi feito conde de Abranches, e em Inglaterra por sua valentia foi recebido por companheiro da ordem da Jarreteira, de que principes christãos, e pessoas de grande merecimento são confrades; e em Portugal por todas estas, e mais por sua linhagem e fidalguia mereceu ser como foi capitão-mór do mar»[36].
Ouçamos agora, na passagem parallela a esta, o testimunho de Gaspar de Landim:
«E tanto que em Lisboa se soube a mudança da rainha (_de Sacavem para Alemquer_), como não havia acto seu que não parecesse mal aos cidadãos e povo d'ella, se ajuntaram com os vereadores, e entre elles o costumado Vicente Egas como mais contrario das cousas da Rainha, e favorecedor das do Infante lhe fez uma pratica mui larga toda em seu favor d'elle, em qual encareceu grandemente os males e perigos que dizia estarem-lhes apparelhados áquella cidade e a todo o reino por ordem da Rainha, pelo que era necessario elegerem um capitão que lhe servisse de cabeça, e os defendesse, a quem obedecessem, para o qual effeito, pois que o Infante D. Pedro estava ausente (_em Camarate_), ninguem o podia melhor fazer que o capitão Alvaro Vaz de Almada, grande amigo e familiar do Infante, e para que não houvesse duvida na eleição d'elle recontou grandes feitos seus, e de seu pai João Vaz de Almada, encarecendo sobre modo seu valor e merecimentos; o qual logo de commum consentimento foi nomeado e eleito por defensor da cidade, capitão e alferes-mór, e para haver esta eleição effeito bastou saber que era mui contrario ás cousas da Rainha e suas cousas, e mui affecto ás do Infante; o qual foi logo mandado chamar a uma quinta onde estava, e em entrando na cidade, chegando á Ribeira se juntou todo o povo e cidadãos com elle para o acompanhar, e d'ahi o levaram á camara com grande alvoroço e muitas exclamações de libertador e defensor d'aquella cidade, e entrando na camara lhe foi entregue a bandeira com muitas condições e declarações todas em favor do Infante D. Pedro, e contrarias á Rainha; com as quaes elle a recebeu, e com palavras significadoras de grande agradecimento prometteu tudo cumprir.
«Os cidadaos e povo muito satisfeitos, confiados e a seu parecer seguros de todos os medos e destruições que sobre si fingiam haverem de vir, e lh'o faziam crêr, e por taes se deram com a eleição do seu defensor.
«Era Alvaro Vaz de Almada cavalleiro que assim n'este reino, como em outros, tinha feito grandes cousas por seu esforço em que cabiam aquelles e outros maiores cargos, ainda que foi notado de temerario e arrogante, e como tal deu muita cousa, e foi a principal parte da casa do infante D. Pedro, de sua honra e vida; e por seu esforço foi feito por el-rei de França conde de Abranches, e em Inglaterra por valorosos feitos lhe foi dada a honra da Garrotea, da qual n'aquelle tempo se honraram muitos principes, e em Portugal depois de tornado a elle foi feito por el-rei D. Duarte capitão-mór do mar».
Aqui temos Alvaro Vaz de Almada lançado na accesa lucta travada entre o infante e a rainha, e vel-o-hemos acompanhar sempre D. Pedro, até á morte, com aquella cega dedicação, que já era antiga, porque datava de Ceuta.
O povo de Lisboa, poucos dias depois da eleição de Alvaro Vaz, acclamára o infante D. Pedro como unico governador do reino, n'um acto solemne realisado na egreja de S. Domingos.
N'este momento, Alvaro Vaz é o braço direito do infante e o querido do povo, o homem escolhido para todas as missões importantes.
Assim, foi designado para ir solicitar do infante D. João que viesse a Lisboa, onde a sua presença se reputava necessaria.
O emissario logrou convencer o infante, que veio logo, hospedando-se na casa da Moeda[37].
Novamente se tornou a reunir o povo, agora nos paços do concelho, fallando por essa occasião o dr. Affonso Mangancha e Alvaro Vaz.
Ruy de Pina dá-nos a summula do discurso do famoso _Capitão_: «encommendaram logo ao _Capitão_ que désse sobre o caso sua voz, que a deu com cautelas e fundamentos de homem prudente, e mui avisado, em que concluiu mais além, que era crime e aleijão elrei ser creado em poder de mulheres; e não menos erro reger a rainha, não sem muitos merecimentos e grandes louvores d'ella, que tambem apontou para ser sempre servida e acatada: e que o infante D. Pedro devia reger»[38].
Como sabemos, o povo havia entregado a D. Alvaro a defeza e guarda da cidade de Lisboa. O infante D. Pedro confirmou, por um diploma official, a escolha que o povo fizera, nomeando D. Alvaro alcaide-mór do castello, investindo-o officialmente nas funcções, que já exercia, de defensor dos moradores de Lisboa.
«Dom Affonso etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que vendo nós e considerando os muitos e estremados serviços que o capitão-mór Alvaro Vasques de Almada, Rico Homem e do nosso conselho, fez a ElRei meu Senhor e Pai e a ElRei Dom João, meu Avô, e isso mesmo a nós e ao diante entendemos receber, e os muitos trabalhos e perigos em que foi assim fóra dos nossos reinos como em elles por honra d'elles, e querendo-lhe galardoar e conhecer, como todo bom Rei e theudo, aquelles que bem e lealmente servem, conhecendo sua grande lealdade, porém de nosso motu proprio, livre vontade, certa sciencia, poder absoluto, temos por bem e fazemol-o nosso alcaide mór do nosso castello da nossa mui nobre e leal cidade de Lisboa, pelo que nos fez preito e menagem uma, duas e tres vezes de nós em elle receber irado e pagado no alto e no baixo, segundo mais cumpridamente é, contheudo na fórma de sua menagem, a qual é escripta no livro das menagens que anda em a nossa camara é assignada por elle. E porém mandamos a todos os fidalgos, cavalleiros, escudeiros, corregedores, juizes, justiças, conselho e homens bons da dita cidade, que d'aqui em diante o hajam por nosso alcaide em o dito castello e outro nenhum não, não embargando que o até aqui tivesse D. Affonso, o qual nos praz nem queremos que o mais seja pelo assim entendermos por nosso serviço, aos quaes mandamos que lhe obedeçam assim como alcaide e saiam com elle e sem elle cada vez que por elle ou da sua parte forem requeridos em aquillo que a seu officio pertencer para se fazer direito e justiça. Outrosim queremos que tenha e haja de nós todas as rendas e direitos que á dita alcaideria pertencem segundo é contheudo em nossa carta, que d'isso tem, e os possa arrecadar, tirar e arrendar por si e por seus procuradores e homens como a elle mais prouver. E em testimunho d'isso lhe mandamos dar esta nossa carta. Dante (?) em Santarem cinco dias de abril por auctoridade do Senhor Infante Dom Pedro, tutor e curador do dito Senhor Rei, Regedor defensor por elle de seus Reinos e Senhorios. Martins Gil a fez, anno de Nosso Senhor Jesus Christo de mil quatrocentos e quarenta[39].
Mas Alvaro Vaz chegava para tudo, e o infante encarregou-o de ir tomar o castello da Ameeira, que estava por D. Leonor. A esse tempo a rainha havia-se entrincheirado no Crato.
D. Alvaro deu-se pressa em partir para ir desempenhar esta nova commissão.
Vejamos o que diz Ruy de Pina; prefiro, sempre que seja isso possivel, empregar a linguagem das chronicas, porque tem um sabor antigo, que se conforma melhor com o assumpto, tambem antigo, do que a nossa linguagem actual.
«O capitão Alvaro Vaz a que o cerco da Ameeira, como disse, era encarregado, partiu de Lisboa por terra com sua gente d'armas e de pé, que era muita e mui bem concertada, e assim com os artilheiros e provisões, que para o cerco convinham, e todo posto em mui segura e singular ordenança, _fazendo-o assim como homem que o vira, e passára em outros reinos já muitas vezes_. E tambem folgou de o ordenar assim por dar a entender n'este pequeno cerco, o que faria em outros maiores se lh'os encommendassem».
O resultado da Jornada da Ameeira foi satisfatorio, como todos os partidarios do infante esperavam, visto que a incumbencia tinha sido confiada ao valoroso _Capitão_.
O castello rendeu-se pouco depois de D. Alvaro lhe ter posto cerco.
O joven Affonso V, que estava então em Alemquer, tanto tinha ouvido fallar de Alvaro Vaz de Almada, que quiz vêl-o por força quando elle passava para a Ameeira. A sua imaginação de creança estava exaltada pela fama d'esse cavalleiro portentoso, que já tinha uma lenda de heroicidade, com que regressára do estrangeiro, e que em Portugal continuava a glorifical-o.
Referindo-se ao pequeno rei, diz Ruy de Pina: «desejou muito de vêr o Capitão, e sua gente na ordenança de guerra em que vinham, e sentindo-lhe Alvaro Gonçalves de Athayde, seu aio, este vivo orgulho e desejo, louvou-lh'o muito. E disse que era bem que cumprisse: mas por não errar em seu serviço e estado indo de proposito vêr uma sua cousa tão pequena, seria bem que como d'acerto fosse a caça, ao campo d'entre Castanheira e Villa Nova, e que ali como de recontro veria o Capitão, e a gente que então havia de passar. E a outro dia andando alli el-rei com seus galgos e gaviões, assomou o Capitão, e sabendo já que el-rei o queria vêr apurou ainda muito mais sua ordenança, e de sua pessoa com seus pagens armados se concertou com grande perfeição. Porque n'aquelle acto de armas, _por seu braço e por experimentadas ardidezas passadas, a elle n'este reino se dava muito louvor_, e tanto que foi atravez d'onde o rei olhava, se apartou só da gente armado sobre uma facanea, e com grande alegria e desenvoltura se lançou fóra d'ella, e a pé foi beijar as mãos a el-rei, e lhe disse:--«Senhor, assim como eu sou o primeiro que Vossa Senhoria vê n'estes habitos, assim, prazendo a Deus, não serei eu n'elles o segundo, em todo o que cumprir por vosso serviço, e por defensão de vossos reinos». El-rei folgou muito de o vêr, e com palavras e contenenças lhe fez mais honra e mór acolhimento, do que de sua pouca idade se esperava, e assim se despediu o Capitão, e seguiu sua viagem até a Ameeira, que logo cercou e combateu até que a tomou[40].
Um homem de tamanho vulto, como era D. Alvaro Vaz de Almada, por força havia de ter inimigos, especialmente n'uma época em que os interesses politicos da sociedade portugueza estavam profundamente divididos em dous campos oppostos.
Uma carta regia, que se encontra no archivo da camara municipal de Lisboa e é datada de 12 de maio de 1440, dá conhecimento de não ter sido permittido que Alvaro Vaz de Almada, alcaide-mór, intentasse acção, para se desaggravar do que contra a sua pessoa tinham dito e feito alguns officiaes da cidade; e recommenda-lhes que reciprocamente usassem d'aquella boa maneira e amizade, com que sempre se haviam tratado[41].
A reacção, por parte dos sequazes da rainha, decerto procuraria amesquinhar e desprestigiar D. Alvaro, a alma do movimento em favor do infante.
Parece que, entre outras accusações, lhe fizeram tambem a de haver impedido a entrada de um navio carregado de trigo, que era preciso ao consumo publico.
Mas, não obstante este e outros meios de reacção, a causa da rainha naufragava: D. Leonor fugira para Castella, segundo parece, no dia 29 de dezembro de 1440.
N'este momento desapparece-nos Alvaro Vaz de Almada do theatro dos acontecimentos, sem que os chronistas nos dêem a chave do enygma.
Apenas se sabe, por uma phrase vaga de Ruy de Pina, e por outra phrase, não menos vaga, do proprio infante D. Pedro, que elle estivera em Ceuta.
Julgaria D. Alvaro,--insaciavel de correr perigos e aventuras,--que a sua presença não era já precisa em Portugal ao infante D. Pedro, cuja causa estava ganha? Dar-se-ia em Ceuta algum acontecimento, que fizesse com que o infante, como regente do reino, entendesse ser necessario mandar alli o seu mais seguro e dedicado amigo?
Ficou em Ceuta D. Alvaro ou iria tambem ao estrangeiro, tentar novos feitos de armas, hypothese a que se inclina o collaborador do _Diccionario popular_?
* * * * *
Foi effectivamente durante esta sua ausencia que Henrique VI o encheu de mercês importantissimas.
«D. Alvaro Vaz estava então militando em Ceuta, e esse homem de nobilissimo caracter, que, emquanto D. Pedro foi feliz, se conservou afastado, voltando até, segundo todas as probabilidades, ao estrangeiro, porque não é natural que em 1445 Henrique VI de Inglaterra lhe conferisse todas as graças que dissemos, na sua ausencia, D. Alvaro, apenas soube o que se tramava contra o seu irmão de armas, veio logo para Portugal...»[42]