Um contemporaneo do Infante D. Henrique

Part 1

Chapter 13,930 wordsPublic domain

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UM CONTEMPORANEO

DO

INFANTE D. HENRIQUE

Carta a MR. MATHIEU LUGAN

POR

ALBERTO PIMENTEL

PORTO _Livraria Internacional de Ernesto Chardron_ CASA EDITORA M. LUGAN, Successor

1894

Todos os direitos reservados

UM CONTEMPORANEO

DO

INFANTE D. HENRIQUE

PORTO: TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA

Rua da Cancella Velha, 70

UM CONTEMPORANEO

DO

INFANTE D. HENRIQUE

Carta a MR. MATHIEU LUGAN

POR

ALBERTO PIMENTEL

PORTO _Livraria Internacional de Ernesto Chardron_ CASA EDITORA M. LUGAN, Successor

1894

Todos os direitos reservados

L'histoire d'Alvaro Vaz de Almada est généralement peu connue hors du Portugal; et en Portugal même la biographie de ce grand homme est environnée de details contradictoires.

FERDINAND DENIS--_Portugal_, pag. 85.

Meu prezado amigo:

Vivendo entre portuguezes ha muitos annos, quer v. corresponder á estima e consideração que d'elles tem justamente recebido, associando-se, como editor de obras litterarias, á commemoração solemne com que a cidade do Porto vai celebrar o quinto centenario do nascimento do infante D. Henrique, o Descobridor.

É nobre a acção, que v. se propõe praticar. E, procedendo assim, segue o exemplo de muitos estrangeiros, a quem Portugal deve gratidão pelo interesse que tem tornado em evidenciar á luz da verdade e da gloria os feitos d'este pequeno povo, que tamanhos serviços prestou no seculo XV á sciencia e ao commercio, á humanidade e á civilisação, especialmente no momento historico em que o infante D. Henrique apparece em scena para emprehender e estimular os descobrimentos maritimos.

Entre esses estrangeiros a quem devemos ser gratos, avulta, certamente, um compatriota de v., o illustre Ferdinand Denis, que tanto amou, com especial dedicação, o passado de Portugal nas suas gloriosas tradições e nos seus triumphos por mar e por terra, na guerra ou na paz.

Estamos, pois, habituados á sympathia de estrangeiros, e não é, por isso, de estranhar a deliberação de v. Mas é para agradecer e louvar.

Acceitando a missão de auxiliar o nobre alvitre de v., e achando-me collocado em frente do periodo mais brilhante da historia de Portugal, que o infante D. Henrique personifica, lembrei-me de que o assumpto, comquanto vasto, ha de ser amplamente tratado por muitos escriptores portuguezes, que mais ou menos se encontrarão n'um ponto de partida commum: a vida do infante, e a sua influencia na successão dos nossos descobrimentos maritimos.

Assim, pois, pensei que, sendo já conhecida, nas suas linhas geraes, a biographia do infante, eu poderia, sem atraiçoar a intenção de v., tomar outro rumo, estudando, dentro dos estreitos limites de uma carta, a feição proeminente de uma época, de que D. Henrique foi a culminação, mas que se assignalou pelo concurso de um grupo de homens colossalmente prestigiosos.

Como na vida de todos os heroes, ha manchas, claro-escuro na vida do infante Descobridor. Encarado em si mesmo o homem, teve defeitos, commetteu erros, mas não é esta a hora propria para os relembrar. O principe exerceu, e este é o ponto essencial e capital, uma acção benefica na historia da humanidade, e marca o periodo que, elevando Portugal, aproveitou ao mundo todo.

Mas, quanto á época, é justo, sem nunca perder de vista o infante, procurar medir a estatura dos portuguezes do seculo XV, que com elle collaboraram, nas viagens ou nas campanhas, e que constituem os elementos de caracterisação do espirito arrojado, leal, cavalheiresco, épico, dos inexcediveis heroes d'esse tempo.

A alma portugueza era então um mixto de poesia e valor, sobretudo de poesia no valor. Feita de bronze, não conhecia perigos, difficuldades, resistencias. O infante, estimulando a coragem para as emprezas maritimas, era a expressão do sentir de heroes, que avançavam sempre, contra o _Mar Tenebroso_, contra os moiros, os inimigos exteriores, ou contra as agitações da politica interna, sem medirem os percalços do commettimento.

A pureza dos costumes, nos homens e nas mulheres, dava um como perfume de santidade impeccavel ás ideas e aos sentimentos da época. A religião era mais alguma coisa do que o culto de Deus nos templos: era a lei por onde cada um regia as suas palavras e acções, os seus pensamentos e feitos, nas suas relações com Deus ou com os homens.

O fanatismo religioso levava a vêr inimigos n'aquelles que, não commungando na mesma religião, não poderiam attingir o gráo de perfeição moral em que todas as crenças se purificavam. Era um preconceito do tempo, eram as idéas da época. Mas ha n'esse sentir, que hoje se nos afigura barbaro, uma noção mal comprehendida, posto que sincera, de que o catholicismo era a unica expressão possivel da civilisação dos costumes.

Alongados os descobrimentos maritimos pela costa occidental da Africa, iniciado, com chave de oiro, o periodo dos factos gloriosos, que nos deram farta participação nos progressos da civilisação universal, fechava-se, simultaneamente, a porta do espirito cavalheiresco que dominára o coração dos portuguezes da idade-média.

Depois d'isso fomos guerreiros, mas não eramos já cavalleiros. Fomos ainda conquistadores, mas não eramos já impulsionados por um mobil limpo de ambições mesquinhas.

O joven rei D. Sebastião, voltando da sua primeira jornada a Africa, quiz desembarcar no cabo de S. Vicente, por uma noite de lua, e alli se demorou nove ou dez dias, como elle proprio contou, meditando ambiciosamente na grandeza de uma época, que dos rochedos do Algarve, como uma águia, havia no tempo de D. Henrique arrancado vôo para ir assombrar o mundo inteiro.

Tinha pena o joven e valoroso rei de não ser d'essa época. E com razão. Mas Portugal havia começado a descer: Alcacerquibir, o abysmo cavado pelas mãos do imprudente monarcha, breve se transformaria na sepultura de um seculo de gloria.

Não trarei, meu amigo, novos subsidios á biographia do infante Descobridor, de quem tantas pennas illustres se irão por certo occupar; mas procurarei desenhar, na vasta tela da sua época famosa, o vulto de um homem, que é um elemento importantissimo de caracterisação e de synthese, de um homem sem o qual essa enorme e brilhante conjugação de heroes, apostados em glorificar o nome da patria, ficaria incompleta.

Refiro-me a Alvaro Vaz de Almada, que foi contemporaneo do infante D. Henrique, e que bem se póde chamar o ultimo cavalleiro portuguez.

Herculano escreveu d'elle no _Panorama_: «D. Alvaro, caindo morto, era o symbolo da cavallaria expirando».

O proprio infante D. Henrique dizia de Alvaro Vaz de Almada que não sómente Portugal, mas tambem toda a Hespanha, podiam ter grande gloria de crear tão famoso cavalleiro.

E o rei Affonso de Napoles e seu irmão o infante D. Henrique de Aragão diziam que tinham encontrado em Portugal _bom pão e bom capitão_. _Bom capitão_: Alvaro Vaz.

Tal era o homem.

* * * * *

Resumirei, quanto me fôr possivel, o quadro genealogico de Alvaro Vaz de Almada.

D. Sueiro Viegas Coelho, fidalgo de velha estirpe, teve dois irmãos e uma irmã. D'elles, o mais velho foi frade; o outro, Gonçalo Magro, continuou-se n'um filho bastardo, Lourenço Gonçalves, que casou com D. Thereza Godins.

D'este casamento houve dois filhos, um dos quaes, Vasco Lourenço, teve por successor João Annes de Almada, que foi chamado o _Grande_, e foi védor da fazenda d'el-rei D. Pedro e d'el-rei D. Fernando.

É com este cavalleiro, que por seu bom conselho, reflectida experiencia, alta posição politica e apparatosa apresentação[1] mereceu o cognome de _Grande_, que principia, na sua familia, o appellido de _Almada_, pelo facto d'elle ser natural d'aquella villa.

Diz D. Antonio de Lima, no _Nobiliario_, que João Annes fôra por duas vezes enviado ao estrangeiro como embaixador, e que por lembrança sua mandára o rei D. Fernando começar a cêrca nova de Lisboa[2]. Ferdinand Denis tambem se refere a este facto[3].

Casado com D. Urraca Moniz, deixou um filho, Vasco Lourenço de Almada, que foi o instituidor do morgado da sua familia na villa do mesmo nome, e que morava em Lisboa nos seus paços de Valverde[4], junto ao Rocio.

Este Vasco Lourenço teve um filho e uma filha.

O filho, João Vaz de Almada, casou com D. Joanna Annes, de quem houve uma filha, e dois filhos: Pedro Vaz de Almada, primogenito; Alvaro Vaz de Almada, que por morte do irmão herdou o morgado instituido pelo avô[5].

Merece chronica a vida de João Vaz de Almada, pai de Alvaro Vaz.

Foi feito cavalleiro por D. João I depois da batalha de Aljubarrota[6].

Em 1400 enviou-o D. João I a Castella, com o arcebispo de Lisboa e o doutor Martim Docem para negociar um tratado de paz ou treguas, e em 1404 a Inglaterra, tambem com Martim Docem, para tratar do casamento de D. Beatriz, filha natural do rei, e irmã do duque de Bragança, com o conde de Arundel e de Surry[7].

Mais tarde, quando D. João I se apercebia para a conquista de Ceuta, enviou João Vaz de Almada outra vez a Inglaterra para levantar quatrocentas lanças ao serviço de Portugal.

Parece que João Vaz levou comsigo seu filho Alvaro, porquanto ha noticia de uma carta de Henrique V, rei de Inglaterra, ás auctoridades do porto de Londres, ordenando-lhes que deixem sahir livremente os homens de armas e trezentas e cincoenta lanças que Alvaro Vaz havia contratado para o rei de Portugal[8].

Não foram estes os unicos auxilios que D. João I mandou buscar a Inglaterra com o mesmo fim. Tambem Pedro Lobato trouxe d'aquelle paiz trezentas lanças «para o muito poderoso principe o infante D. Henrique, filho do dito seu tio--diz Henrique V n'uma carta aos seus almirantes,--_a fim de fazer a guerra aos incredulos e aos inimigos da fé catholica_[9].

Pormenor interessante: Este mesmo Pedro Lobato trouxe n'essa occasião uma armadura completa para o infante D. Henrique.

Vieram ainda mais sessenta lanças, com os respectivos cavallos e armaduras, a bordo de dois navios portuguezes, de que eram mestres João Affonso e Egydio João.

João Vaz de Almada acompanhou D. João I na viagem a Ceuta.

Conta Fernam Lopes que, tendo alguem visto um grande bando de pardaes sobre o castello d'aquella cidade, dissera:

--Não vêdes como aquelles pardaes alli estão assocegados? Que me matem se Salat-bem-Salat com todos os outros não é partido d'alli, e deixou o castello vazio, cá se assi não fosse, não estariam alli aquelles pardaes assi de assocego.

Foram dizer isto ao rei D. João, que respondeu:

--Pois que assi é, vão chamar João Vaz de Almada[10], que traz a bandeira de S. Vicente, e digam-lhe de minha parte que a vá logo poer sobre a mais alta torre.

Chamado immediatamente João Vaz, foi, com alguns outros, caminho do castello, levando o estandarte de S. Vicente, padroeiro de Lisboa.

Tentavam forçar as portas da fortaleza, quando sobre o muro appareceram dois homens, um biscainho e o outro genovez, que lhes disseram em castelhano:

--Não filheis trabalho em quebrar as portas, cá não tendes nenhum empacho em vossa entrada, cá os mouros são já partidos todos d'aqui e sómente ficamos nós ambos que vos abriremos as portas quando quizerdes.

--Ora pois, respondeu João Vaz de Almada, filhai lá esta bandeira e ponde-a sobre esse muro, até que nos vamos.

Este mesmo episodio é contado por mestre Matheus de Pisano[11], estrangeiro erudito, que foi chamado a Lisboa para escrever em latim a historia da guerra de Ceuta, como quer Herculano[12], ou para ser professor de D. Affonso V.

João Vaz de Almada levou a Ceuta os seus dois filhos, Pedro e Alvaro, que, depois da victoria, ahi foram armados cavalleiros: Pedro pela mão do infante D. Duarte, herdeiro da corôa[13]; e Alvaro por mão do infante D. Pedro.

Foi certamente n'esse dia que principiaram a estabelecer-se entre D. Alvaro Vaz de Almada e o infante D. Pedro, como consequencia tradicional d'essa cerimonia, os laços de lealissima amizade, que os uniu durante toda a existencia, e que não deixou sobreviver um ao outro mais do que alguns momentos.

D. João I deu a capitania e guarda da fortaleza de Ceuta a João Vaz de Almada, que a teve até á partida d'el-rei para o reino, ficando depois a cidade entregue a D. Pedro de Menezes, que foi o primeiro capitão d'ella.

Recolhendo a Portugal, João Vaz de Almada, malquistado, por motivos desconhecidos, com Gonçalo Pires Malafaia, esperou-o ás portas da Relação e maltratou-o corporalmente[14].

Malafaia, que já tinha sido escrivão da chancellaria de el-rei D. Fernando, seguiu, por morte d'este rei, a causa do mestre de Aviz, exercendo depois, e em annos successivos, os cargos de védor da fazenda real, e o de regedor (presidente) da Casa do Civel, além de receber por doação as propriedades confiscadas, no termo de Lisboa e Santarem, a João Fernandes Pacheco e a Fernam Gomes da Silva.

Como Malafaia foi nomeado regedor do Civel em 1457, mais de vinte annos depois da morte de D. João I, entende um escriptor moderno ser inverosimil a noticia d'aquelle conflicto como causa determinante da emigração de João Vaz de Almada, por isso que os codices dão Malafaia como exercendo o referido cargo n'essa occasião[15].

O facto dos chronistas lhe declararem a qualidade de regedor do Civel não invalida, a meu vêr, a noticia do conflicto, porque muitas vezes os escriptores antigos, referindo-se a um acontecimento qualquer, intromettem circumstancias que se deram antes ou depois, especialmente quando mencionam titulos ou actos de um mesmo individuo.

O conflicto causou escandalo e irritou D. João I, que, collocado entre dois homens a quem devia serviços e dedicações, cortou a direito, quiz fazer justiça contra o aggressor.

João Vaz de Almada teve de fugir para Inglaterra, onde já era conhecido; e levou comsigo os seus dois filhos, Pedro e Alvaro.

Fosse esta ou outra qualquer a causa determinate da sahida do fidalgo portuguez e seus dois filhos legitimos para Inglaterra (o auctor da _Historia Serafica_ limita-se a dizer: «os quaes ausentando-se do reino por razões, que para isso tiveram», parecendo comtudo querer occultar assim um motivo desagradavel), o que não padece duvida é que João Vaz de Almada emigrou para aquelle paiz, d'onde, tendo fallecido, vieram mais tarde os seus restos mortaes, bem como os de seu filho Pedro, para a capella de familia, que possuiam em S. Francisco de Lisboa[16].

Duarte Nunes de Leão diz que João Vaz de Almada acompanhára o rei de Inglaterra, que devia ser Henrique VI, até Rouen. Sendo assim, assistiria ao sacrificio de Joanna d'Arc (30 de maio de 1431). E que fôra agraciado com a ordem da Jarreteira__[17].

Pela minha parte não ouso confirmar estas noticias, mas apenas acceitar, como authentica, a morte de João Vaz de Almada em Inglaterra.

* * * * *

Fallemos agora de Alvaro Vaz de Almada, o _bom capitão_, o heroe famoso de um cyclo de heroes, que deu honra e gloria a Portugal.

O snr. Oliveira Martins figura Alvaro Vaz acompanhando o seu dilecto amigo o infante D. Pedro de Alfarrobeira logo ao principio da sua celebre viagem, logo que, como dizia o povo, começou a _correr as sete partidas do mundo_.

Á sahida de Castella, onde o infante fôra visitar D. João II, galopava a seu lado, segundo a expressão do snr. Oliveira Martins, o seu fiel Achates, Alvaro Vaz de Almada, fadado para um destino igualmente cruel.

Outras affirmações faz ainda o snr. Oliveira Martins. Precisamos conhecel-as.

«D'esta Jornada, agora começada, principia a amizade constante que ligou em vida Alvaro Vaz a D. Pedro, etc.»

«Dois annos haveria apenas que Alvaro Vaz voltára ao reino coberto de gloria. Batalhára pelos inglezes em Azincourt, no proprio anno da tomada de Ceuta, e o rei Henrique V dera-lhe o condado de Avranches, na _marka_ franceza, com a ordem da Jarreteira. Essas guerras de França, começadas havia tres annos, tinham de durar meio seculo, e talvez os viajantes partissem com idéa de tambem intervir n'ellas. Alvaro Vaz, cavalgando ao lado do infante, contar-lhe-hia os casos de bravura presenciados no dia famoso de Azincourt; e D. Pedro, em volta, lhe diria como fôra a jornada de Ceuta n'esse proprio anno»[18].

A amizade do infante e de Alvaro Vaz principiára antes da partida de D. Pedro para o estrangeiro. _Elles eram irmãos de armas_, circumstancia que, segundo o espirito da época, impunha deveres sagrados de reciproca amizade e lealdade[19].

Quando, annos depois, o duque de Coimbra, vendo aproximar-se a hora do combate com as tropas d'el-rei seu sobrinho, pergunta a Alvaro Vaz se está disposto a todos os sacrificios, incluindo o da morte, tem em resposta:--Não sou eu vosso irmão de armas?[20]

Eram. Porque ambos haviam sido armados cavalleiros no mesmo dia, em Ceuta, depois da victoria.

Alvaro Vaz tinha estado em Inglaterra com o pai, mas devia regressar pouco antes de partir D. João I para Africa.

Como já sabemos, João Vaz de Almada teve razões para refugiar-se mais tarde em Inglaterra levando comsigo os dois filhos legitimos[21].

Isto passou-se depois da tomada de Ceuta, onde pelas chronicas sabemos que estivera João Vaz de Almada, e onde seu filho, Alvaro Vaz, fôra armado cavalleiro, por mão do infante D. Pedro[22], tendo ambos, o infante e Alvaro Vaz[23], aproximadamente a mesma idade.

Não foi, como documentalmente provaremos, Henrique V que deu a Alvaro Vaz o condado de Avranches.

Não poderia Alvaro Vaz contar ao infante os casos de bravura presenciados no dia famoso de Azincourt.

E a razão é obvia. A batalha de Azincourt feriu-se em 1415, e n'este mesmo anno, em agosto, se realisou a tomada de Ceuta. Antes, João Vaz e Alvaro estiveram de passagem em Inglaterra, para levantar lanças; só posteriormente á viagem a Africa com D. João I é que emigraram.

Henrique V reinou de 1413 a 1422.

Depois de Ceuta, o genio ardente e o animo valoroso de Alvaro Vaz não lhe consentiram ficar indifferente á guerra que Henrique V movia contra o desgraçado Carlos VI para fazer vingar as antigas pretenções dos Plantagenets sobre a França.

Alvaro Vaz de Almada pagava assim, combatendo pela Inglaterra, a hospitalidade que elle e a sua familia receberam da Inglaterra.

Henrique VI, como veremos por documentos, remunerou-lhe, mais tarde, os serviços que elle havia prestado a Henrique V, e ainda as provas de amor, obediencia e dedicação que já no seu reinado Alvaro Vaz havia dado á corôa de Inglaterra.

D'aqui poderá inferir-se que Alvaro Vaz esteve ainda em Inglaterra depois que Henrique VI, contando alguns mezes de idade, succedeu a seu pai em 1422, e ahi prestou serviços, ou que, depois de ter regressado ao reino, voltasse áquelle paiz, como parece suppôr um escriptor nosso contemporaneo[24].

Pelo que deixamos dito, é mais que muito duvidoso que Alvaro Vaz partisse de Castella cavalgando ao lado do infante D. Pedro.

Qualquer que fosse o anno em que o infante partiu, sabemos que já estava na Allemanha em 1419, quando o imperador Sigismundo lhe concedeu a marka ou ducado fronteiriço de Treviso.

Foi justamente n'esse anno ou pouco antes que Sigismundo, já rei da Hungria, herdou de Wenceslau a corôa da Bohemia, e se achou a braços com os Hussitas e os Turcos.

Duarte Nunes, o auctor dos _Retratos dos varoes e donas_[25], e outros escriptores dão noticia de ter Alvaro Vaz de Almada combatido pelo imperador Sigismundo contra os Turcos.

Não custa acredital-o. Sabendo que o seu grande amigo, o infante D. Pedro, estava na Allemanha, decerto se daria pressa em avistar-se com elle, indo immediatamente ao seu encontro. Como não era homem para estar parado nem quieto, continuaria a ser alli «irmão de armas» do infante, combatendo por algum tempo a seu lado.

Um escriptor moderno affirma este facto, sem hesitações: «Tambem Alvaro Vaz de Almada militou nos exercitos do imperador Sigismundo da Allemanha, e ahi se encontrou com o infante D. Pedro, estreitando os laços de amizade que a elle o uniam, desde que fôra armado cavalleiro»[26].

É mais natural que Alvaro Vaz se encontrasse com o infante D. Pedro na Allemanha do que na Inglaterra, porque D. Pedro parece ter estado n'este paiz pouco antes de recolher a Portugal em 1428, visto que a concessão da Jarreteira, com que foi agraciado por Henrique VI, tem a data de 22 de abril de 1427, e Alvaro Vaz já em 1423 estava em Lisboa.

Ha um documento d'esta época, pelo qual Alvaro Vaz de Almada foi nomeado capitão-mór da armada de D. João I.

É o seguinte:

«D. João, etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que nós querendo fazer graça e mercê a Alvaro Vasques de Almada, cavalleiro nosso vassallo, por serviços que d'elle recebemos e entendemos a receber ao deante: Temos por bem e damol-o por nosso capitão-mór da nossa frota pela guisa que o era Gonçalo Tenreiro em tempo d'el-rei D. Fernando, nosso irmão, a quem Deus perdoe, e por a guisa que o foi Affonso Furtado em nosso tempo, e porem mandamos aos patrões, alcaides, arraes e pintitaes, comitres e bésteiros, galeotes, marcantes, marinheiros e a todos os outros, a que esta carta fôr mostrada, que o hajam por nosso capitão-mór, como dito é, e lhe obedeçam e façam todas as cousas que lhes elle mandar fazer por nosso serviço, e segundo a seu officio pertence, e que possa com elles fazer justiça, ou em cada um d'elles, assim como a nós fariamos outrosim se presente estivessemos, e mandamos a todas as nossas justiças que cumpram suas cartas e mandados, e lhe ajudem a fazer e cumprir direito e justiça em todas as cousas que lhe elle assim disser e mandar da nossa parte quando pertence a seu officio, senão sejam certos quaesquer que o contrario d'isto fizerem, que lh'o extranharemos gravemente nos corpos e haveres como aquelles que não cumprem mandado de seu rei e senhor: em testemunho d'isto lhe mandamos dar esta nossa carta, dada em Cintra a vinte e tres dias de junho. El-rei o mandou. Martim Vasques a fez, éra do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil quatrocentos vinte tres»[27].

Este documento, publicado nas _Provas da Historia Genealogica_, põe um limite preciso e seguro ás viagens de Alvaro Vaz. Por elle vêmos que o _bom capitão_ recolheu ao reino muito primeiro que o seu amigo, infante D. Pedro, isto é, cinco annos antes.

D. João I quiz certamente dar, com esta nomeação, uma indemnisação á familia Almada: honrar o filho, visto que não pudéra perdoar ao pai.

Até ao anno da desgraçada expedição de Tanger (1437) não teve Alvaro Vaz de Almada, na sua qualidade de capitão-mór da frota, motivo para se assignalar por feitos de armas.

Mas em Tanger o vamos encontrar derramando o sangue pela patria, e combatendo com o valor de que já havia dado sobejas provas em Ceuta ao serviço de D. João I, e na Inglaterra ao serviço de Henrique V.

O infante D. Henrique, tendo chegado a Tanger, estabelece arraiaes n'um outeiro que ficava contra o cabo d'Espartel, desviando-se das instrucções que a este respeito lhe havia dado seu irmão o rei D. Duarte.

«E em se começando a gente de alojar, sahiu uma voz, com um rumor sem certidão, que as portas da cidade estavam abertas e os mouros fugiam; e a este alvoroço acudiram muitos de cavallo contra a cidade, para entrarem, e commetteram o feito mui ardidamente, e se metteram entre o muro e a barreira, e combateram as portas tão rija e ousadamente, que de tres juntas que eram, romperam duas; e a terceira, que se diz o Postigo de Guyrer, commetteram com fogo: e, por ser forrada de ferro e sobrevir a noite, não foi entrada; e tambem porque os mouros a defenderam mui bravamente. E o conde de Arrayolos, por mandado do infante, foi recolher a gente que, alli e na porta do castello e nas outras da cidade, estava em combates repetidos: em que morreram muitos cavallos e alguns christãos, e sahiram muitos feridos: entre os quaes foi o conde de Arrayolos, de uma setta por uma perna, _e o capitão Alvaro Vaz d'outra por um braço_»[28].