Chapter 8
É certo, que ainda no proprio campo, não ha tempo para perder: tudo poderá acontecer, tudo... E n'essa conformidade, Maria Alexandrovna acha-se resolvida a concluir immediatamente o consorcio. O cura da aldeia procederá á ceremonia na propria residencia. D'alli a dois dias, no outro dia, talvez, em caso de urgencia. Quantos casamentos se não tem visto, aldravados para alli em duas horas! Quanto ao principe, é levál-o a acceitar como necessidade de bom sizo uma tal precipitação, semelhante ausencia de toda e qualquer festa. "Será mais decente e mais nobre"... Poder-se-hia até seduzil-o pelo lado romanesco do negocio e fazer-lhe vibrar assim a fibra sentimental do coração. Enebriál-o-ha, se tanto fôr necessario, mantêl-o-ha n'aquelle estado de embriaguez, e a Zina ha de ser princêsa.
Se houver algum escandalo lá por Petersburgo ou por Moscou entre a parentéla do principe, consolações não hão de faltar. Em primeiro logar, são coisas que ainda estão para vir; em segundo, Maria Alexandrovna está convencida de que, na alta sociedade, nada se faz sem escandalo, e muito mais tratando-se de casamento: que é estilo. Mas os escandalos da alta sociedade, a seu ver, tem uma côr mui particular de grandiosidade, no genero do _Monte-Christo_ e das _Memorias do Diabo_. Finalmente, a Zina bastar-lhe-ha mostrar-se, e a mãe ajudál-a com seus conselhos, e toda a gente ficará desarmada, acto-continuo, entre todas aquellas condessas e princêsas, não havendo uma só que seja capaz de resistir á mordassoviana habilidade de Maria Alexandrovna, sósinha contra todas ellas juntas ou contra cada uma em particular.
E é animada por semelhante pensamento que Maria Alexandrovna vem ter com Aphanassi Matveich o qual lhe é necessario, segundo seus planos.
Effectivamente, levar o principe para o campo é levál-o para casa de Aphanassi Matveich com quem o principe é possivel não se dar lá muito de travar conhecimento: mas se Aphanassi Matveich fôr o proprio a convidál-o, o caso muda de figura. E demais, a apparição de um chefe de familia, de edade veneranda, de gravata branca, casaca, chapeu na mão, acorrendo expressamente das suas propriedades, á noticia de que se acha em Mordassov o principe K... é caso para produzir optimo effeito no amor proprio d'aquelle ginjinha.
Até que por fim, havendo tragádo três verstas a carruagem, o cocheiro Safron pára junto ao patim de um comprido edificio com um unico andar, casarão de madeira, com uma extensa fieira de janélas, e envolto n'umas tilias venerandas. É a residencia estável de Maria Alexandrovna.
Já se acham illuminadas as janélas.
--Onde está o manequim? clama Maria Alexandrovna caíndo como uma trovoada, no vestibulo. Que faz aqui esta toalha? Ah! estava aborrecido, e ainda não saiu do banho! E sempre n'aquelle fadario do chá! E então! Para que estarás tu para ahi a esbogalhar esses olhos, meu idiota incuravel? Por que é que se não corta esse cabello?!
Grichka! Grichka! Por que é que não cortaste o cabello ao _barine_ conforme te dei ordem, a semana passada?
Maria Alexandrovna premeditára operar em casa de Aphanassi Matveich uma entrada menos violenta. Mas ao vêl-o entretido a sorver o seu cházinho, com toda a sua pachorra, não foi senhora de sopitar a indignação. Para ella, tamanhos cuidados, e para elle, para aquelle ente inutil, aquella paz podre! Semelhante contraste chóca de modo cruel Maria Alexandrovna. E todavia, o manequim, ou para nos expressarmos com mais urbanidade, aquelle a quem applicam o ápodo, está sentado em frente do samovár; inerte, bôcca e olhos escancarados, petrificado, quasi, pela apparição da consorte. O adormecido vulto do Grichka assoma ao vestibulo. O Grichka tosqueneja os olhos durante toda esta scena.
--Se elle não deixa... E ahi esta porque é que o não fiz, profere em voz encatarroada e socarrôna. Peguei na tesoira para ahi umas dez vezes, e a dizer-lhe: A _barinia_ não tarda por ahi e apanhamos ambos a nossa conta!--E vae elle e diz-me:--Não--espera ahi: quéro que me frizes no domingo; e é preciso para isso que o cabello tenha comprimento.
--Muito me contas: Com que então elle, friza-se? Inventaste então essa obra dos frizados, assim que eu virei costas?
Que termos são esses? Cuidas talvez que embellezas assim essa tua cabeça de idiota? Santo Deus! Que desordem que por aqui vae! E que cheiro! Não me dirás, miseravel, d'onde provém semelhante cheiro? vociféra a consorte a crescer de mais em mais ameaçadora para o innocente e assarapantado de todo Aphanassi Matveich.
--Ah... mi-minha mãezinha, balbucía o esposo sem se erguer e desfechando sobre o seu generalissimo uns olhos assustados e suplices, mi... mi... minha mãezi...
--Quantas vezes não tenho eu tentado encaixar-te n'essa cabeça de burro que não sou tua mãezinha, pedaço de pygmeu? Como te atreves a tratar por semelhante nome uma senhora nobre cujo logar é na alta sociedade, e não ao pé de um aguadeiro da tua laia?
--Mas, Maria Alexandrovna, tu com tudo isso não deixas de ser minha mulher em face das leis! e eu... estou-te falando... na qualidade de marido! Objecta Aphanassi Matveich, levando a um tempo a mão aos cabellos para os defender.
--Ah! Carranca! Cêpo! Se já se viu! Mulher d'elle em face das leis!... Que quererá dizer uma mulher em face das leis? Haverá na alta sociedade alguem que empregue semelhante termo de seminarista:--em face das leis?--E quem te deu o atrevimento de me recordares que sou tua mulher, a mim que faço quanto posso para o esquecer? E para que estavas tu a tapar a cabeça com as mãos?
Olhem para este cabello! Todo encharcado! Não está enxuto estas tres horas mais chegadas! Como hei de eu carregar com elle? Haverá meio de o arrancar d'aqui?--Que hei de eu fazer? Maria Alexandrovna péga ás carreiras pela casa fóra, a estorcegar as mãos. A desgraça é nulla e facil de remediar, não ha duvida, mas se ella não pode ter mão n'aquelle seu genio imperial, impaciente em presença do minimo impecilho! Sente que precisa de desabafar a colera na pessoa de Aphanassi Matveich, visto como a sua habitual tirannia desandou para si em necessidade. E depois, toda a gente sabe o acervo de inopinadas grosserias de que são capazes, longe das vistas dos mirones, uns certos entes delicados e pechósos da sociedade mais graúda. Aphanassi Matveich, estupido e tremelica, cança a vista a seguir com os olhos as evoluções todas da consorte.
--Grichka, exclama esta por fim, traze já, já, ao _barine_ tudo que é preciso para se vestir de ceremonia, calça, casaca, gravata e colete, brancos. Vá, despacha!
Onde iria parar a escova do cabello?
--Mas se eu acabo de sair do banho, minha mãezinha, vou apanhar algum resfriamento...
--Qual historia!...
--Estou com a cabeça encharcada!...
--Ênxuga-se. Grichka, escova o cabello ao _barine_, até que enxugue. Com mais força... mais... ainda mais... Assim!
O fiel e zeloso Grichka esfréga, com quanta força tem, o seu _barine_ a quem, para mais commodidade, agarrou pelo cachaço, encostando-o para trás no divan.
Aphanassi Matveich por pouco não desata a chorar.
--E agora, em pé!... Vê se o levantas, Grichka, dá cá a pomada...
--Vá, abaixas-te ou não, miseravel!
Abaixa-te, já te disse, meu papa jantares.
Maria Alexandrovna com as proprias mãos besunta a grenha ao marido, puxando sem dó nem consciencia pelos cabellos, bastos e grisalhos que elle, por sua desgraça, não deixou cortar. Aphanassi Matveich põe-se a gemer, a suspirar e aguenta, Deus sabe como, semelhante provação.
--Miseravel! Foste tu que murchaste as flores da minha mocidade!... Abaixa mais essa cabeça, não ouves! Abaixa-te!
--Mas como é que eu murchei as tuas flores, minha mãezinha? regouga o esposo de bruços no divan.
--Manequim! Nem sequer percebeste a allegoria! Agora vê se te penteias.
--Grichka, veste-o depressa, anda!
A nossa heroina senta-se n'uma poltrona a vigiar com olhos de inquisidor a ceremonia indumentaria.
Aphanassi Matveich lá conseguiu tomar folego, e, quando se chegou ao laço da gravata, afoita-se a ponto de emittir opiniões ácêrca do feitio e da perfeição da laçada. Em conclusão, assim que envergou a casaca, a distincta personagem tem reconquistado de todo o aprumo e pega a rever-se ao espelho com manifesto desvanecimento.
--Mas para onde é que tu me levas, Maria Alexandrovna? indága, a fazer moquenquices á propria imagem.
Maria Alexandrovna hesita em acreditar n'aquillo que ouviu.
--Não ouvem isto? Ora o manequim! E como te atreves tu a perguntar-me para onde é que eu te lévo?
--Mas já se vê que o devo de saber, minha mãezinha.
--Caluda! Torna-me tu a tratar de mãezinha, e muito mais no sitio aonde vamos, e ficas sem chá um mês inteiro.
O marido, espavorido, nem bole sequer.
--Se já se viu? Nem sequer conseguiu apanhar a mais réles condecoração?
Colherão de marmita!--exclama ao contemplar com desprezo a casaca do marido, casaca virgem de toda e qualquer insignia.
Até que por fim, Aphanassi Matveich sente-se melindrado.
--Eu não sou colherão de marmita, sou conselheiro, minha mãezinha, pondéra com assômo de nobre indignação.
--Quê--quê--quê?--A raciocinar, por mais que me digam! Ora o mujik, o ranhoso! Tenho pêna de me faltar tempo para te ensaboar esse bestunto, quando não... Mas não as perdes, deixa estar!... Grichka, dá-lhe o chapéu e a _chuba_[13]. Assim que eu saír, arruma estes três quartos e o quarto aberto. Vá, pega n'essa vassoira! tira as capas aos espelhos, aos relogios e quero tudo prompto em menos de uma hora! E tu, tambem, veste a casaca, e dá luvas aos criados! Ouviste, Grichka? Ouviste?
Sobem para a carruagem. Aphanassi Matveich está com uma cara espantada. Maria Alexandrovna dá voltas ao miolo para lhe encasquetar na cabeça e na memoria as recommendações mais essenciaes, elle, porém, interrompe-lhe as suas cogitações.
--Maria Alexandrovna, eu esta noite tive um sonho tão exquisito, diz, após breve silencio.
--Ápre! Manequim de uma figa! E eu que estava a pensar!... Como te atreves tu a vir-me para cá com esses teus sonhos de mujik? Escuta, e olha que t'o digo pela ultima vez, se te atreveres, hoje, a fazer a minima allusão aos taes sonhos ou ao quer que seja,... toma sentido... nem sei o que ha de ser de ti! Escuta bem: o principe K... está hospedado em nossa casa. Lembras-te do principe K...
--Se lembro! minha mãezinha, lembro-me muito bem! E por que é que elle nos dispensou tamanha honra?
--Cala-te, não é da tua conta! Tu, com a maxima amabilidade, e como dono de casa, vaes convidál-o a vir comnosco para o campo. Partimos ainda hoje. Mas se lhe disseres uma palavra só que seja, em toda a noite, ou amanhã... ou no outro dia... ou em toda a roda do anno, mando-te guardar gansos! Nem palavra! São essas as tuas funcções--e mais nada! Intendeste?
--Mas se me fizerem perguntas?
--Não importa! Cálas-te.
--Pois sim, mas uma pessoa nem sempre pode ficar calado, Maria Alexandrovna!
--Responde com monosylabos, um _hum!_... ou coisa que o valha, para que fiquem na persuasão de que és homem espirituoso e que reflectes antes de responder.
--Hum!...
--E atenta bem n'isto que te estou dizendo. Carrégo comtigo: ouviste falar do principe, e acto-continuo, doido de contente, deste-te pressa em vir apresentar-lhe os teus respeitos e convidál-o a ir para o campo. Percebeste?
--Hum!
--Para que estás tu já a dizer: _hum!_ meu parvalhôco! Responde.
--Está bom, minha mãezinha, tudo se fará á medida dos teus desejos. Mas, não me dirás por que é que eu tenho que o convidar?
--Quê, quê? pois ainda te mettes a raciocinar?! Que tens tu com isso? E ainda te atreves a fazer-me perguntas?
--Mas... é que eu, por mais que faça não posso perceber como é que eu o hei de convidar sem dizer palavra!
--Eu falarei por ti, e tu, fazes-lhe a tua cortesia, e mais nada, percebeste?--De chapeu na mão...
--Percebi..., minha mãe... Maria Alexandrovna.
--O principe é espirituosissimo: diga elle o que disser, ainda quando se não dirija á tua pessoa, responde-lhe a tudo com um sorriso bonacheirão e alegre, percebeste?
--Hum!
--E elle a dar-lhe com o _hum!_ Vê se acabas com o tal _hum!_--a mim, responde-me ao que eu te perguntar. Percebeste?
--Percebi, Maria Alexandrovna, percebi muito bem. E como é que eu não havia de perceber? Mas estou a dizer _hum!_ para me ir exercitando. O que tu queres é que eu me ponha a olhar para o principe, com um ar de riso... mas quando elle não me vir?
--Forte espantalho! Forte idiota! Cala-te, cala-te, e cala-te! Olha e sorri.
--Mas se elle é capaz de suppor que sou surdo!
--Olhem a desgraça! Sequer ao menos não ficará sabendo que és um imbecil.
--Hum! E se mais alguem me fizer perguntas?
--Ninguem t'as faz, deixa estar! E demais, não estará lá ninguem. E se por infelicidade, do que Deus nos defenda, apparecer alguem e te perguntarem alguma coisa, responde desde logo com um sorriso sarcastico. Sabes o que vem a ser um sorriso sarcastico?
--Uma careta muito espirituosa, pois não é verdade, minha mãezinha?
--Eu te darei o espirituoso, deixa estar, manequim! E quem é que te iria suppor capaz de ter espirito, meu asneirão? Um risinho de escarneo, percebeste? De escarneo e de desdem.
--Hum!
--Ai! Estou toda eu em suores frios por causa d'este estafermo! murmura Maria Alexandrovna. Não ha mais que ver, acho que fez uma jura em como me havia de murchar de todas as minhas flores! Teria sido muito melhor o prescindir delle.
A raciocinar por esta forma, Maria Alexandrovna tudo é olhar pela vidraça do trem e atiçar o cocheiro. Voam os cavallos, e ella a achar que se não mexem. Aphanassi Matveich, alapardado a um canto, a repetir mentalmente a lição. Até que emfim a carruagem alcança a casa de Maria Alexandrovna! Mas ainda bem a nossa heroina não tinha posto pé no patim, eis que vê passar ao lado do seu proprio trem um trenél coberto, de dois assentos, o trenél da Anna Nikolaievna Antipova.--Vinham n'elle duas senhoras. Uma dellas é a propria Anna Nikolaievna Antipova, a outra a Natalia Dmitrievna, duas amigas sinceras e recentes. Maria Alexandrovna olha para ellas, e o coração dá-lhe um báque. Ainda bem não abrira a bocca para exclamar, eis que chega outra carruagem, com outra visitante. Ouvem-se alegres exclamações.
--Maria Alexandrovna com o Aphanassi Matveich... ambos no mesmo trem! Feliz coincidencia! E nós que vinhamos passar a noite em sua casa! Agradabilissima surpreza!
As visitantes galgam a escada a pipilarem que nem andorinhas, Maria Alexandrovna contempla-as, estupefacta.
--E não vos tragar o chão! diz, lá comsigo; cheira-me isto a conluio... Pois sim!... vocês o que não tem é unhas para luctar commigo, minhas amiguinhas!... Esperem um nadinha!...
XI
Mozgliakov saíu de casa de Maria Alexandrovna, consoladissimo. Não foi a casa do Borodoniev, pois necessitava de estar sósinho. Sentia a cabeça atravancada de romanescos devaneios. Phantaziava a explicação solemne com a Zina, o generoso perdão, scena melancolica no baile, lá em Petersburgo; Hespanha, o Guadalquivir, o principe no leito da agonia a juntar nas proprias mãos as mãos dos dois amantes, e em conclusão, o amor d'uma mulher tão formosa, vencido por tanto heroismo; por aqui e por acolá, um ou outro favor de alguma baronêsa, ou condessa de alto cothurno, n'aquella sociedade onde semelhante casamento lhe daria certamente ingresso, um logar de vice-governador, dinheiro; n'uma palavra, toda a eloquente descripção de Maria Alexandrovna. Mas, emfim, como explicál-o?--Através de todos aquelles arrebatamentos eis lhe surge o seguinte pensamento, algo desagradavel, que, em todo o caso, tudo aquillo estava ainda em vêl-o-hemos, e no momento actual, elle, com o que ficara, fôra com um nariz de palmo! De subito, nota que se alargou demais pelo arrabalde menos central de Mordassov. Vem caíndo a noite. Pelas ruas, ladeadas de pardieiros, ladram, como aliás succede em toda e qualquer cidade provincial, aquelles innumeros cães que infestam de preferencia os bairros em que nada ha que guardar ou que roubar. Derrete-se a neve. De vez em quando, topa-se com algum _mestchanine_ retardado, ou com qualquer _baba_[14] enfunicada n'uma tulupa e a arrastar umas botifarras. Tudo aquillo principiava a irritar a Pavel Alexandrovitch: mau signal, visto como, quando uma pessoa está contente, a tudo acha risonho. Pavel Alexandrovitch lembra-se com despeito de que, até aquelle dia, era elle quem dava o tom em Mordassov. Era recebido por toda a parte como um noivo, uma situação tão interessante, e felicitavam-n'o, e elle todo desvanecido. E eis que, de subito, vinha a constar que se achava reformado; rir-se-hiam á sua custa por toda a parte. E com tudo isso não é exequivel estar a iniciar toda a gente ao segredo do tal baile de Petersburgo, da columna melancolica e do Guadalquivir!
Triste e pensativo, acaba por formular este pensamento que secretamente lhe faz sangrar o coração desde alguns instantes: "Mas tudo isto será verdade, realmente? Virá tudo a acontecer conforme m'o pintou Maria Alexandrovna?" Occorre-lhe, n'aquelle ensejo, exactamente, que Maria Alexandrovna é mulher arteira quanto possivel; que, apezar da estima geral que disfructa, é uma enredadeira de respeito, que mente com o maximo desplante, que é possivel que tivesse motivos particulares para o afastar; que, emfim, o descrever um quadro seductor não compromete a coisa nenhuma. Pensa na Zina, revóca aquelle seu olhar de despedida tão pouco compativel com um desatinado amor. Lembra-se de que uma hora antes foi tratado por ella na qualidade de asno--sem tirar nem pôr. Ante uma tal recordação, Pavel Alexandrovitch estaca de vez, como que pregado ao chão, e ruboriza-se a ponto de lhe virem as lagrimas aos olhos. E como que de proposito, d'ali a instantes, acontece um desagradavel incidente: escorrega e estatéla-se num montão de neve... Emquanto elle escabuja e patinha, um bando de canzoada, que vinham atrás d'elle a ladrar, accodem por todos os lados; um d'elles, o mais pequeno e mais atrevido, aferra-se-lhe á aba da chuba. Pavel Alexandrovitch desenvencilha-se dando ao diabo a cainçada e o destino e, com a aba do casacão esfarrapada e uma indefinivel tristeza na alma, lá se vae arrastando até á esquina da rua. Ali, percebe que vae perdido.
É sabido que um homem, quando se acha perdido em um bairro que lhe é extranho, e muito mais de noite, nunca se resolve a meter a direito por uma rua larga. Impelle-o, mau grado seu, um poder misterioso para toda a casta de betesgas que topa a geito. Em harmonia com este sistema, Pavel Alexandrovitch perde-se de todo. "Diabos levem tanta chiméra!" exclama e cospe com engulho. "Leve o diabo os sentimentos elevados e o tal Guadalquivir!"
Não me abalanço a afiançar, que Mozgliakov n'aquelle ensejo apresentasse aspecto por demais seductor. Até que emfim, extenuado, fatigado, em seguida a haver andado a êsmo para cima de duas horas, alcança a escadaria de Maria Alexandrovna. Fica espantado ao dar com os olhos em tanta carruagem: "Tem visitas? Alguma _soirée_? Com que intenção?"
Informado por um lacaio de que Maria Alexandrovna tinha carregado com Aphanassi Matveich do campo, de gravata branca, que o principe já está acordado, mas que ainda não desceu do quarto, Pavel Alexandrovitch, sem dizer palavra, vae lá acima ter com o tio. Acha-se n'aquella disposição de animo em que um homem de caracter fraco se decide pela ideia de maior malignidade, em favor da vingança, sem se lembrar de que virá talvez a arrepender-se, durante toda a sua vida.
Sobe. Dá com os olhos no principe, sentado n'uma poltrona em frente do seu toucador de viagem, com a caréca á vela, mas com a cara já rebocada e com as suissas e a pêra postiça já pegadas. O chinó está entre mãos do edoso criado particular, Ivan Pakhomitch. Ivan Pakhomitch está a penteál-o com modo absorto e respeitoso. O principe apresenta aspecto lamentavel. Não se acha ainda restabelecido d'aquella sua temulencia. Enterrado na poltrona, a tosquenejar as palpebras, todo elle engelhado, amarrotado, e a olhar para o Mozgliakov como se o não conhecesse.
--Como vae de saude, rico tiozinho? indaga Mozgliakov.
--Como? Ah! És tu? acaba por dizer o tio. Pois eu, manozinho, dormi a minha somnéca. Ai! meu Deus! exclama de subito, animadissimo. E eu que estou sem o chi... chi... n... nó!
--Não se assuste, tiozinho! Eu ajudo-o a pôl-o se quiser.
--Ora esta! E ahi estás tu senhor do meu segredo! Eu bem dizia que era pr... preciso fe... fe... char a po... rta! Pois então, meu amigo, vaes já, já, dar-me a tua palavra de honra que... que, não has-de abu... sar do meu segredo, e que não dizes, a nin... guem que é po... pos... tiça a minha cab... be... leira!
--Ora vamos, tiozinho, pois suppõe-me capaz de semelhante vilêza? exclama Mozgliakov que deseja agradar ao ancião.
--Está, claro... está... c... laro, e como eu sei que és cavalheiro... vá... la... vaes fi... car espantado: vou te des... vendar de todo os meus se... segredos--Que me dizes a estes bi... bigodes--m... meu caro?
--Um portento, rico tio, espantosos! Como é que os pode conservar do mesmo comprimento, por tanto tempo?
--Socéga, meu amigo... s... são postiços, diz o principe a olhar muito ufano para Pavel Alexandrovitch.
--Postiços!?--É inacreditavel! E as suissas, então? Confesse que as pinta, tiozinho!
--Não só as pin... into, como são postiças e mais que... que pos... tiças!
--Postiças! Isso agora, tenha paciencia, o tio está a caçoar commigo!
--Pa... lavra de honra, amigo! exclama o principe desvanecido. Ora põe na tua ideia, que toda a gente... sem excepção--anda ill... udida, como tu. A propria Stepanida Matveina não quer acreditar que o sejam, e olha que é ella quem m'as põe. Mas tenho a certeza, meu amigo, de que me has de guardar segredo--Dá-me a tua pa... palavra de honra...
--Conte desde já com ella, querido tio! Mas, insisto, suppõe-me então capaz de semelhante vilania?
--Ai! meu amigo! Que tombo que eu apanhei! Não fazes ideia! O Pamphili, tornou-me a virar a car... a carruagem.
--Pois elle tornou a pregar-lhe outro tombo? Mas quando?
--Iamos nós quasi a chegar ao... mo... mos... teiro...
--Já sabia, tiozinho!
--Não, não é isso... se ainda não ha duas horas. Fui ao mo... mosteiro. Foi elle que me levou... e pregou-me um tombo! Que susto que... que eu apanhei! Ainda nem tenho o co... coração no seu logar.
--Mas o tio estava a dormir?
--Está... c... laro... estava a dormir... E vae... d'ahi fui... vi... viajar... E d'ahi... d'ahi... talvez fosse... Ah! que coisa tão exquisita!...
--Afirmo-lhe que estava a dormir, tiozinho... que sonhou... Depois de jantar ferrou-se a dormir muito socegado.
--De... devéras?!
O principe pós-se a scismar.
--Sim... sim... effec... tivamente, talvez fôsse. E d'ahi, lembro-me muito bem do sonho... todo. Primeiramente, sonhei com um toiro muito bravo... com uns páus!... Depois com um pró... ó... curador... mas tambem tinha p... páus!
--Havia de ser o Nikolai Vassiliévitch Antipov, tiozinho.
--Está... claro... era elle... era... E depois tambem sonhei com Na... napoleão... Bo... bo... naparte. Não sabes, amigo, diz toda a gente que n... nos parecêmos?... De perfil... pelos modos... faço lembrar um papa... muito antigo: Tu, que dizes?... Achas que te... terei ares de papa?
--Acho que se parece mais a Napoleão.
--Está... c... laro... é assim... mesmo... de... de... frente. E d'ahi, tambem d'isso estou conven... cido, meu caro. Vi-o em sonho, sentado lá na sua ilha... Não sabes? A fô... legar... muito contente... muito lam... peiro!... Que graça que... eu lhe achei!
--Refére-se a Napoleão, tiozinho? indaga Pavel Alexandrovitch, todo elle absorto, a observál-o.
Principiava a surgir-lhe na mente um estranho pensamento, sem que elle pudesse formulál-o com clareza.