Um club da Má-Lingua

Chapter 7

Chapter 73,914 wordsPublic domain

--Se o não escorraçei, responde em voz grave e compassada, mas algo trémula, foi unicamente por compaixão. Supplicava-me que esperasse, que lhe não dissesse que não. "Vá aprendendo a conhecer-me"--disse o senhor um dia, "e quando se houver convencido de que sou um homem de caracter digno, é possivel que me não rejeite." Foram estas as suas palavras, no principio das nossas relações, não as poderá renegar: E agora atreve-se a dizer, que o guardo para o não chega! Pois não percebeu, esta manhã, o meu aborrecimento por ver como antecipava de quinze dias o seu regresso? E todavia, não lhe encobri esse meu enfado, e o senhor foi o proprio a notál-o, visto que me perguntou se me não agastava este seu regresso permaturo. Chama então poupar um homem o não lhe poder encobrir o fastio que alguem experimenta em ver esse homem? Ah! Eu então guardava-o para o não chega!? Não! eu dizia commigo, a seu respeito: "Se não é demasiado intelligente, é bondoso, quando menos"... agora, comtudo, fiquei sabendo--a tempo, felizmente--que tem tanto de mau como de tolo, e só o que me resta é desejar-lhe boa jornada! Adeus!

A Zina volta-lhe as costas e caminha, de seu vagar, para a porta. Mozgliakov comprehende que tudo está perdido; referve-lhe a raiva.

--Ah! com que, eu, então, sou tolo! vociféra; tolo!--Muito bem! Adeus! Mas, antes de me ir embora, saiba que a toda a gente ha de constar a infame comédia que aqui estão representando... tanto a senhora como sua mãe. Vou contar tudo a toda a gente, que embebedam o principe, que o subornam! Ha de ouvir falar de Mozgliakov!

Estremece a Zina, vae para reponder, mas, volvido um instante de reflexão, encolhe os hombros, desdenhosa, e bate-lhe com a porta na cara. N'este conflicto, assoma aos hombraes Maria Alexandrovna. Ouviu as ultimas exclamações de Mozgliakov e adivinhou o restante. O Mozgliakov sem, se ir ainda embora! O Mozgliakov á ilharga do principe! O caso espalhado por toda a cidade pelo Mozgliakov! E todavia, é indispensável guardar segredo... Maria Alexandrovna, n'um relance, tudo calculou, a tudo preveniu, e urde um plano para aplacar o Mozgliakov.

--Que tem, meu amigo? diz estendendo-lhe a mão, cordial.

--Como _meu amigo_! exclama o outro furibundo. E depois de tudo isto; meu amigo! _Morgen Früh_[11], minha senhora. Metteu-se-lhe então em cabeça embaçar-me outra vez?

--Sinto, devéras, acredite, sinto immenso vêl-o em um estado de espirito tão estranho, Pavel Alexandrovitch. Que linguagem! Nem sequer méde as palavras em presença de uma senhora!

--Em presença de uma senhora!... Será quanto quiser... menos uma senhora.

(Ignoro o que é que elle queria dizer, mas, com certeza, devia de ser um qualquer ultrage, de esmagar.) Maria Alexandrovna com os olhos n'elle e um risinho de commiseração:

--Sente-se, diz, com tristeza, apontando para a cadeira na qual, um quarto de hora antes, estivéra sentado o principe.

--Mas no fim de contas, não me dirá, Maria Alexandrovna?... exclama Mozgliakov, desnorteado. Está-me tratando como se a senhora estivesse innocente e fosse eu o culpado! Não pode ser!... Vae muito além dos limites! É abusar da paciencia... de todo... digo-lh'isto!

--Meu amigo... responde Maria Alexandrovna--e deixe-me dar-lhe ainda este titulo, pois neste mundo não terá melhor amiga...--o senhor está afflicto, excitado, ferido no coração, e devo pois relevar-lhe semelhantes desmandos de linguagem. Pois bem, vou abrir-me com o senhor. Tanto mais que eu, até certo ponto, não deixo de ter culpas para com o senhor. Sente-se, pois, e conversemos. A voz de Maria Alexandrovna assumiu o auge da meiguice, é compungida a sua expressão phisionomica.

Senta-se Mozgliakov.

--Esteve escutando á porta, diz ella com uns modos de exprobação e de indulgencia, ao mesmo tempo.

--Escutei, sim! E por que não? Nem que eu fôra um asno!... Se quer ao menos fiquei sabendo o que andava a maquinar contra mim, responde Mozgliakov, haurindo valôr da propria colera.

--E resolver-se a senhora, com a sua educação, as suas maneiras, a representar semelhante papel! Santo Deus! Mozgliakov está aos pulos na cadeira.

--Maria Alexandrovna, não posso ouvir-lhe uma palavra mais! Melhor será que se lembre do que está fazendo, a despeito da sua educação e das suas maneiras, e diga-me se lhe assiste o direito de accusar a outrem!

--Ainda uma pergunta, prosegue ella sem responder. Quem foi que lhe suggeriu a ideia de escutar á porta? Quem será que anda por aqui a espiar-me os passos? É isso o que eu não se me dava de saber!

--Lá quanto a isso, tenha paciencia, não serei eu quem lh'o diga.

--Muito bem, eu tratarei de o saber... Dizia eu, pois, Pavel, que não deixo de ter culpas para com o senhor, mas, se é que póde julgar-me com conhecimento de causa, verá que se tenho alguma culpa é a de lhe querer bem em demasia.

--Com que então, quer-me bem?--Esta a caçoar commigo, e certifico-lhe que não torna a enganar-me; serei muito creança mas nunca até esse ponto!

E elle, n'um sarilho na poltrona, e a poltrona a tremer.

--Por quem é, meu amigo, socegue se é possivel, escute com attenção, e verá que ha de concordar commigo. Eu, a principio, tencionava contar-lhe tudo, pôl-o em dia com tudo sem que se lhe tornasse necessario aviltar-se ao ponto de escutar ás portas. Se o não fiz, foi unicamente porque o negocio se achava ainda em estado de projecto e podia mallograr-se. Bem vê a franqueza de que uso para com o senhor. E, acima de tudo mais, não se volte contra minha filha, que de nada tem culpa. É doida pelo senhor, e custou-me os olhos da cara arrancar-lh'a ao senhor e persuadil-a a acceitar o offerecimento do principe.

--E eu, que com os meus proprios ouvidos, ouvi,--n'este instante, provas d'esse tal louco affecto, replica ironico Mozgliakov.

--Muito bem! Mas em que termos se lhe dirigiria o senhor? É assim que se expressa um namorado? Será essa a linguagem propria de um homem de fino trato? Offendeu-a, irritou-a.

--Como se fosse questão de fino trato, Maria Alexandrovna! Esta manhã, ambas me faziam boa cara, mas assim que eu saí e mais o principe, puzéram-me pelas ruas da amargura.--Estou sciente de tudo... tudo.

--Bebido da mesma fonte ignobil, provavelmente, observou Maria Alexandrovna com risinho de desdem. É verdade, Pavel Alexandrovitch, púl-o pelas ruas da amargura e, confesso, Deus sabe quanto me custou. Quanto não tive eu que luctar com os proprios sentimentos! Mas bastará o facto de eu me ver na necessidade de o calumniar para lhe provar a difficuldade que eu encontraria em obter d'ella que desistisse do senhor! É possivel que não veja um palmo adeante do nariz? Se ella lhe não tivesse amor, eu teria alguma necessidade de appellar para calumnias? E ainda o senhor não sabe o melhor! Tive que valer-me da minha maternal auctoridade para lh'o arrancar a ella do coração! Em conclusão, depois de esforços inauditos, consegui alcançar uns arremedos de consentimento... E visto que esteve á escuta, não deixaria de notar que ella não me ajudou em presença do principe com uma palavra, sequer, ou com um gesto. Cantou para alli como um automato; em visiveis afflições toda ella, e foi por ter dó d'ella, que eu carreguei com o principe. Tenho a certeza, até, de que se pôz a chorar, assim que se apanhou sósinha. O senhor bem viu, quando entrou... Mozgliakov recorda-se de que effectivamente a Zina estava a chorar quando elle entrou.

--Mas a senhora, a senhora, por que é que está assim tão contra mim, Maria Alexandrovna? Por que é que me foi calumniar segundo é a propria a affirmál-o.

--Ora, isso agora é outro negocio; e se o senhor m'o tivesse perguntado em termos logo ao principio, ha muito tempo que lhe teria dado resposta. Sim, tem razão, fui eu que fiz tudo, eu, sósinha: não esteja a accusar a Zina. Por que foi que o fiz? E eu respondo-lhe: primeiramente, por interesse da Zina. O principe é rico, representante de nobilississima casa, tem relações, e casando com elle a Zina faz um optimo casamento. Emfim, se elle morrer, o que não poderá tardar muito, pois todos nós, mais ou menos, somos mortaes,--n'esse caso, a Zina, nova e viuva, pertencendo á alta sociedade, fica riquissima e casa com quem quizer. Ora, está claro que irá casar com o homem a quem ama, e que foi o primeiro a quem teve amor, e cujo coração terá martirizado casando com o principe. E bastará o arrependimento... O acto que terá mais a peito será o de remediar a propria falta.

--Hum! rosna Mozgliakov pensativo, a contemplar os bicos das botas.

--Em segundo logar... mas serei breve a semelhante respeito, é possivel que me não comprehendesse. O senhor só o que sabe é ler o tal seu Shakspeare, fonte aonde exclusivamente vae beber os seus nobres sentimentos; e d'ahi, o senhor está tão moço! Eu, comtudo, sou mãe, Pavel Alexandrovitch. Caso a Zina com o principe um tanto por causa d'elle tambem, visto que para elle o casamento pode representar a salvação! Ha tanto tempo que voto amizade áquelle honradissimo ancião, tão bondoso, cavalheiresco! Quero arrancál-o ás garras d'aquella infernal creatura que ha de pregar com elle na cova!... Invoco a Deus por testemunha em como foi patenteando á Zina todo o alcance do heroismo da sua dedicação que eu pude convencêl-a.

Arrastou-a o irresistivel prestigio da abnegação. Ella propria tem o que quer que seja de cavalheiresco. Submetti-lhe o meu projecto sob colôr de um acto christão. Vaes ser, lhe disse eu, o amparo, a consolação, a amiga, a filha, a beldade, o idolo de um homem que talvez que nem um anno tenha de vida. Mas sequer ao menos, extinguir-se-ha no dôce calôr do amor. Estes seus ultimos dias parecer-lhe-hão um paraiso. Onde é que vê n'isto egoismo, Pavel? Não! e não! É um acto de irmã de caridade.

--A senhora, então, procede desse modo, por amizade para com o principe... á laia de irmã de caridade? commenta o ironico Mozgliakov.

--Comprehendo essa sua pergunta, Pavel Alexandrovitch, é clarissima. Suppõe que estou fazendo uma confusão jesuitica dos interesses do principe com os meus. Pois bem, é possivel que me tivesse atravessado pela mente semelhante calculo, inconscientemente, porém, e sem resquicios de jesuitismo. Espanta-o esta minha franqueza? Peço-lhe apenas uma mercê, Pavel Alexandrovitch: não involva a Zina n'este negocio! Está pura que nem uma pomba. Não calcula; sabe apenas amar, pobre pequena! Se houve alguem que calculasse, esse alguem fui eu, e só eu! Indague, porém, sinceramente da sua consciencia e diga-me quem seria que no meu logar não haveria calculado? Calculamos os nossos interesses, as nossas mais generosas acções, até, sem darmos por isso, instinctivamente. Pois; se enganam, quantos alarmam que procedem movidos por pura nobreza de alma. Eu, porém, não quero enganál-o. Confesso que calculei. Mas, sempre quero que me diga, seria levando em vista o meu interesse pessoal? A mim, Pavel Alexandrovitch, que mais me será preciso? Vivi o meu seculo[12], calculei para bem d'ella, do meu anjo, da minha filha: e qual será a mãe que m'o lance em rosto?

As lagrimas inundavam o rosto de Maria Alexandrovna.

Pavel Alexandrovitch tem escutado com pasmo semelhante confissão: latejam-lhe as palpebras, esforça-se por comprehender.

--Qual seria a mãe, sim! diga lá!... pergunta elle, em conclusão.

Mas cae em si, acto continuo, e:

--Canta lindamente, Maria Alexandrovna, mas tinha-me dado a sua palavra, tinha-me alentado a esperança... Como posso eu supportar semelhante coisa? Terei que engulir a propria vergonha!

--E acredita talvez que não pensei no senhor, meu querido Pavel? Pelo contrario, em todos os meus calculos, o senhor tinha a sua parte. Ouso dizer, até, que foi por sua causa que eu emprehendi este negocio.

--Por minha causa! exclama Mozgliakov, desnorteado, d'esta vez. Como assim?!

--Meu Deus! Como é que se pode ser tão simples, ter vistas tão limitadas! exclama Maria Alexandrovna erguendo as mãos ao ceu. Esta mocidade! O tal Shakspeare! E ahi tem o que elle lhe arranjou, aquelle sonhador, aquelle phantasista! Viver da intelligencia e dos pensamentos alheios! E o senhor a perguntar--_meu bom Pavel Alexandrovitch_, qual é n'este caso o seu interesse. Para maior clareza, consinta-me uma leve digressão. A Zina ama-o, é incontestavel Mas tenho notado que, a despeito do seu manifesto amor, o caracter de Pavel Alexandrovitch, as suas aspirações lhe tem incutido uma tal ou qual desconfiança. Por vezes, e como que de caso pensado, contêm-se, é fria para com o senhor. Eis o resultado das reflexões que a levaram a desconfiar. Pois não reparou tambem n'isto que lhe estou dizendo, Pavel Alexandrovitch?

--Reparei, sim, hoje ainda. Mas que quer dizer com isso, Maria Alexandrovna?

--Bem vê, o senhor foi o proprio a reparar n'isso: logo, não me enganei. E acima de tudo, foi a estabilidade do seu caracter, a sua constancia o que mais duvidas lhe incutiu. Sou mãe, e não havia de conhecer o coração de minha filha! Ora imagine agora que, em vez de entrar aqui com exprobações, e até com injurias, em vez de a irritar, de a offender, de a melindrar, a ella tão bella, tão pura e soberba, e por esse facto, a despeito ainda da sua vontade, ir tornar-lhe mais firme a desconfiança com respeito ás suas inconstancias; supponha que acceitava com brandura a noticia, com lagrimas de magua, com desespero, até, mas com dignidade...

--Hum!

--Mau! Não me interrompa. Pavel Alexandrovitch. Quero expôr-lhe um quadro que possa ferir-lhe a imaginação. Ora imagine que ia ter com ella e lhe dizia: "Zina, amo-te mais que a propria vida, mas afastam-nos umas razões de familia. Comprehendo essas razões: trata-se da tua ventura e não me atrevo a insurgir-me contra ella. Perdôo-te, Zinaida; sê feliz se puderes!" E dito isto, lhe lançava uns olhos, uns olhos de cordeiro nas vascas da agonia, se me é licita a expressão. Ponha tudo isto na sua ideia e calcule o effeito que haveria produzido uma scena assim no coração della!

--Pois sim, Maria Alexandrovna, supponhamos tudo isso--É certo que eu podia ter me expressado d'esse modo... mas nem por isso deixaria de voltar pelo mesmo caminho com um não pelas ventas.

--Não, não, e não, meu amigo. Não me interrompa! Quero acabar de pintar-lhe o quadro para que no animo lhe produza uma impressão nobre e completa. Imagine, pois, que a vinha a encontrar; d'ahi a tempos, na alta sociedade, num baile illuminado _à giorno_, ao som de uma musica enebriante, no meio de um sem numero de beldades, e, no melhor da festa tão deslumbrante, o senhor, para alli, sósinho e triste, a scismar, pállido, encostado para alli, algures, a uma columna, mas de modo a dar nas vistas; o senhor a seguil-a com os olhos na vertigem da dansa; ao pé do senhor a vibrarem os divinos accordes de Strauss. Fuzila por todos os lados nas conversas o espirito da alta sociedade; e o senhor sósinho, enfiado, melancholico, immerso na propria paixão.

Considere--em que estado ficará a Zina quando o vir! E com que olhos o não ha de ella contemplar! "E eu," pensará ella, "que duvidei d'aquelle homem! Tudo me sacrificou! Despedaçou o proprio coração por minha causa!" Certamente, o seu amor de outr'óra resuscitar-lhe-hia lá dentro com força irresistivel.

Deteve-se Maria Alexandrovna para cobrar alento. Mozgliakov a barafustar na cadeira, que por pouco não estoira de todo. Maria Alexandrovna prosegue:

--A Zina, por causa da saude do principe, parte para o estrangeiro, para Italia ou para Hespanha, o paiz das murtas, dos limoeiros, do azulino céu do Guadalquivir, o país do amor, o país onde se não pode viver sem amar, onde as rosas e os beijos adejam por assim dizer no ar. E o senhor vae atrás d'ella, compromette a sua situação, as suas relações, tudo!... E principia então o seu romance de amor: amor, mocidade, Hespanha... Deus meu!... É certo que será platonico o seu amor, puro... mas o senhor... em summa, enlanguescem a contemplarem-se um ao outro... Espero que me haverá comprehendido, meu amigo?--Não faltarão, por lá, entes soêzes, vis, miseraveis para affirmar que não foi a lembrança do seu parentesco com o velho que o arrastou ao estrangeiro. Muito de proposito me referi ao platonismo do seu amor; não ignoro que haverá quem lhe atribua differente significação.

Mas sou mãe, Pavel Alexandrovitch e seria incapaz de o impellir para mau caminho!... É claro que o principe os não poderá vigiar a ambos; isso que importa, comtudo? Poder-se-ha fundar n'isso semelhante accusação?

Até que por fim, morre o principe abençoando o proprio destino. Ora diga-me quem é que depois ha de casar com a Zina, a não ser o senhor? É parente tão afastado do principe que o parentesco nunca poderia representar um impedimento ao consorcio. Acceita-a, joven, rica, princêsa, e em que ensejo? Quando os mais nobres senhores se poderiam ufanar da sua alliança! Por causa d'ella, entra na mais alta sociedade; obtêm um posto de summa importancia, promoções. Diz o senhor que dispõe de cento e cincoenta almas? Mas depois será rico. O principe não deixará de fazer um testamento nos termos, por isso lhe respondo eu. E em conclusão, o principal, é o ella estar segura dos seus sentimentos e o senhor vir a ser para ella um heroe pela virtude e pela abnegação. E ainda me pergunta, onde vae n'isto o seu interesse? Tem-n'o deante dos olhos, a contemplál-o, a rir-se para o senhor, e a dizer-lhe: "Aqui me tens!" Ora vamos, Pavel Alexandrovitch!...

--Maria Alexandrovna! exclama Pavel Alexandrovitch, a tudo fiquei percebendo, agora! Portei-me como homem grosseiro, vil, reles!...

Levanta-se com vivacidade e puxa pelos cabellos ás mancheias.

--E como homem inconsiderado, accrescenta Maria Alexandrovna, inconsiderado, eis o que o senhor é!

--Sou um asno, Maria Alexandrovna! exclamou com desespero o môço. E agora, está tudo perdido! E eu que a amava com loucura!

--É possivel que não esteja tudo perdido, declara Madame Moskalieva, baixinho, como quem está reflectindo.

--Ah! se fosse possivel! Ajude-me! aconselhe-me! Valha-me! E pôs-se a chorar o Mozgliakov.

--Meu amigo, diz em apiedada voz Maria Alexandrovna e estende-lhe a mão,--praticou esse seu acto no ardor do seu affecto, estava exasperado, nem sequer tinha consciencia do que fazia. E ella não deixará de o avaliar.

--Amo-a com loucura e estou prompto a sacrificar-lhe seja o que for! clama o Mozgliakov.

--Ora escute, justifica-lo-hei aos olhos d'ella.

--Maria Alexandrovna!

--Sim, fica tudo por minha conta: collocál-os-hei em presença um do outro. E o senhor diz-lhe tudo tal qual eu acabo de lh'o dizer.

--Ah! meu Deus! Que bondade a sua, Maria Alexandrovna!... Mas... não seria possivel procedermos a isso desde já?

--Deus nos defenda! Sempre é muito estouvado, meu amigo! Ella, então, que é tão soberba! Ia tomar isso como uma nova insolencia, um ultraje, até! Eu arranjarei tudo, e não ha de passar d'amanhã; agora, comtudo, vá se embora, vá até casa do tal negociante, ou para onde lhe apetecer... Ou, se, antes quer, volte esta noite, mas não serei eu que lh'o aconselhe.

--Vou m'embora! vou m'embora!

Meu Deus! Resuscitou-me! Mas uma pergunta, ainda: e se o principe não morre tão cedo?

--Valha-nos Deus! Sempre é muito ingenuo, meu caro Pavel! O senhor o que deve é rogar a Deus que conserve os dias d'aquelle vélhito, todo elle bondade, carinho, cavalheirismo! Devemos desejar-lhe longa vida, de todo o coração! E eu serei a primeira; noite e dia, com lagrimas, a rezar pela ventura de minha filha! Mas, ai de mim! A saude do principe, coitado, quer me parecer que está muito abalada! E demais, elle não deixará de fazer a sua visita á capital, de levar a Zina aos bailes, e receio muito, muito, acredite, que isso concorra a dar cabo d'elle! Orêmos, porém, meu caro Pavel, e quanto ao mais, entreguêmo-nos nas mãos de Deus! Espére, arme-se de paciencia, seja viril, e viril, acima de tudo! Nunca puz em duvida a nobreza dos seus sentimentos... Aperta-lhe com força as mãos, e o Mozgliakov sáe do aposento em bicos de pés.

--Até que em fim! Vi-me livre de um imbecil! diz com ares de triumpho. E agora vamos aos outros... Abre-se a porta e entra por ali dentro a Zina. Vem mais pallida do usual; fulgem-lhe os olhos com febril clarão.

--Mamã, veja se acaba com isto, que eu estou, que já nem posso mais; é tão nojento tudo isto que me vem tentações de fugir por ahi fora. Não me faça padecer por muito mais tempo, não me irrite! Este lodaçal causa-me engulho, entendeu?

--Zina, que tens tu, meu anjo?... Estiveste escutando á porta! exclama Maria Alexandrovna olhando de fito para a filha.

--Escutei, é verdade.--Veja se m'o quer lançar em rosto, como o fez aquelle imbecil? Juro-lhe que se porfiar em obrigar-me a representar semelhante papel em tão vergonhosa comedia, renuncío a tudo, e acabo com tudo, com uma só palavra. Não ha duvida que me resolvi a prestar-me á principal vilania, mas foi por me não conhecer a mim mesma; atabáfo com semelhante vergonha!

E sae atirando com a porta.

Maria Alexandrovna segue-a com a vista e fica a scismar.

"É andar ligeira, depressa! É de si que depende tudo, e em si que consiste o maior perigo, e se esses miseraveis porfiarem em se colligar contra nós, se principiam para ahi a dar á lingua, tudo está perdido! E ella não poderá resistir contra tantas arrelias e acabará por entregar-se mediante uma rejeição. Custe o que custar e sem demora, urge carregar para o campo com o principe. Prego commigo lá, n'um pulo, e carrégo com aquelle estafermo do senhor meu esposo para aqui. Sequer ao menos sirva para alguma coisa! E assim que o outro accordar, safamo-nos."

Toca a campainha.

--E então! a parêlha? pergunta ao creado que entra.

--Está prompta, ha que tempos, responde o criado.

(Maria Alexandrovna mandou pôr o trem no acto de acompanhar o principe ao quarto d'este.)

Veste-se á pressa e corre ao quarto da Zina para lhe transmitir o seu plano e dar-lhe as devidas instrucções. A Zina, comtudo, nem lhe quer dar ouvidos, debruçada no leito com o rosto enterrado no travesseiro ensopado de lagrimas; a arrancar com as niveas mãos os compridos cabellos; tem os braços nus até ao cotovêlo. Saccóde-a, a revézes, um estremeção. A mãe dirige-lhe a palavra, sem que a Zina consinta em erguer a cabeça.

Maria Alexandrovna insiste por instantes, depois, sae, inquietissima. Sobe para a carruagem e recommenda que espertem a parelha.

"O peor de tudo", vae ruminando comsigo, "é a Zina ter ouvido a conversa que eu tive com o Mozgliakov. Empreguei com ella e com elle quasi que os mesmos argumentos; ella é orgulhosa e offender-se-hia, talvez... Hum! o que a tudo sobreleva, é a necessidade de por mãos á obra, antes de que conste seja o que fôr! Que desgraça! E se eu, para mais ajuda, não fosse encontrar em casa aquelle meu imbecil?!"

Ante esta hypothese, enraivece-se, toma-se de um rancor que nada vaticina de bom para Aphanassi Matveich. E Maria Alexandrovna impaciente, a esfervilhar!

Os cavallos despedem a galope.

X

A carruagem não corre, vôa.

Dissémos que, n'aquella mesma manhã, emquanto ella andava em procura do principe, por todos os cantos da cidade, já havia accudido á mente de Maria Alexandrovna um alvitre genial: era o confiscar por sua vez o principe quanto antes, e pregar com elle no campo;--n'aquella aldeia onde floria em paz o beatifico Aphanassi Matveich. Ia pois realizar aquella sua inspiração. Mas não encubramos ao leitor que principiava a sentir-se atribulada por uma inquietação inexplicavel. Aos proprios heroes acontece outro tanto, e no ensejo, justamente, em que estão prestes a atingir seus fins. Advertia-a um qualquer instincto de que havia perigo na permanencia em Mordassov.

"Uma vez no campo, vire-se tudo isto pés, com cabeça, que a mim tanto se me dá!"