Chapter 4
Maria Alexandrovna calculou optimamente o lance.
--Obrigada, Zina. Ha dois annos, pois, que frequentava esta casa, por causa do teu irmãozinho, do Mitra, que Deus tem, um _utchitel_.
--Mas para que foi que a mamã assumiu esses modos tão solemnes, para que estará a desperdiçar toda essa eloquencia, esses pormenores tão escusados e penosos que ambas estamos fartas de conhecer? interrompeu a Zina com enfado.
--Porque a mim, que sou tua mãe, Zina, me assiste o dever de me justificar a teus olhos. E demais, quero apresentar-te este negocio, todo elle, sob uma luz nova para ti e que é a unica verdadeira. Emfim, sem estas promessas, não poderias comprehender a conclusão que d'ellas pretendo deduzir. Não creias, minha filha, que intento fazer pouco dos teus sentimentos. Não Zina, has de encontrar em mim uma verdadeira mãe, e quem sabe se não serás tu a propria a cair-me aos pés, lavada em lagrimas, a supplicar-me que conclua essa reconciliação á qual o teu orgulho se nega ha tanto tempo. Tenho pois que recapitular as coisas desde o principio, ou calar-me.
--Fale, repetiu a Zina, a maldizer de todo o coração a grandiloquencia maternal.
--Continúo, Zina. Esse tal _utchitel_ da escóla communal, um fedêlho, por assim dizer, produziu em ti inconcebivel impressão. Contei sempre com que o teu sizo, a elevação dos teus sentimentos e tambem a indignidade do individuo, (visto que é preciso dizer tudo) evitariam qualquer approximação entre tu e elle. E de repente, vens ter commigo e declarar-me com firmeza que tens tenção de casar com elle. Foi uma punhalada que me déste no coração, Zina! Soltei um grito e caí sem sentidos, mas... não deixarás de te lembrar do incidente. É certo que julguei necessario empregar n'aquella occorrencia toda a minha auctoridade: e por signal que a acoimaste de tyrannia. Reflécte, pois: um garotête, filho d'um _diatchok_,[4] com um salario de doze rublos mensaes, um escrevinhador de máus versos que lhe imprimem por dó na _Bibliothéca de Leitura_, que não sabe falar em outra coisa a não ser n'esse maldito Shakspeare,--aquelle fedêlho, teu marido! marido da Zinaida Moskalieva! São coisas que só acontecem nas novéllas pastorís de Florian. Perdão, Zina, mas quando me lembro de tal, saio fóra de mim! Neguei-me a consentir. Não houve influencia que conseguisse convencer-te. Teu pae, naturalmente, manteve-se na neutralidade, incapaz de comprehender-me quando tentei expor-lhe o caso e sem saber fazer outra coisa além de pestanejar. Mantens relações com esse garoto, proporcionas-lhe até ensejo de te ver, e o que é ainda muito peor que tudo isso, tens o arrojo de lhe escrever! E as más linguas desde logo a trabalhar! Fazem allusões offensivas na minha presença. Estão a pular de contentes, a embocar as mil trombetas da calumnia. As minhas antecipações a semelhante respeito vão se realizando uma por uma. Dá-se entre ti e elle um desaguizado e elle manifesta-se indigno de ti. Ameaça-te de mostrar as tuas cartas, e tu, num assômo de justa indignação, dás-lhe uma bofetada!... Sim, Zina, conheço tambem essa circumstancia, estou inteirada de tudo--de tudo, sim! Esse traste, n'esse mesmo dia, mostra uma das tuas cartas áquelle miseravel do Zanchine, e, d'alli a uma hora a carta está em poder da Natalia Dmitrievna, minha inimiga figadal! Á noite, aquelle, doido, arrependido já de semelhante acção inqualificavel, por toleima tenta envenenar-se! N'uma palavra, um escandalo medonho! Aquella pécora da Nastassia accode toda assustada, a participar-me que ha uma hora que a Natalia Dmitrievna se acha de posse da tua carta: não se passarão duas horas, sem que a cidade em pêso apregôe para ahi a tua vergonha. E eu a esticar os nervos para não caír para ali inanimada. Que lance, Zina! Aquella descarada, aquella desavergonhada!
A Nastassia exige duzentos rublos para inutilizar a carta. Eu propria, deito a correr, com os sapatos de trazer por casa, até, atravéz da neve, para ir a casa do judeu Bumschtein empenhar o meu abrochador, recordação da minha virtuosa mãe! D'alli a duas horas tinha a carta em meu poder: roubou-a a Nastassia: arrombou uma boceta e está salva a tua honra. Nem vestigios, sequer! Mas que dia de angustias! Logo ao outro dia, encontrei entre os meus cabellos immensos fios brancos,--os primeiros, Zina! Tu foste a propria a avaliar até que ponto era indigno de ti aquelle garoto, pois concordas agora, não sem amargura, talvez, que teria sido uma loucura entregar-lhe o teu destino. Depois, comtudo, pégas a atormentar-te, a soffrer, não podes varrêl-o da lembrança,--não a elle,--foi sempre coisa tão rasteira que a tua vista nem sequer podia deter-se n'elle,--mas ao teu primeiro sonho de amor. Hoje, esse desgraçado está a expirar--nem sequer já se levanta.--Dizem que morre tisico, e tu--anjo de bondade,--não queres casar emquanto elle fôr vivo; para lhe poupar soffrimento, visto que é ciumento... e não obstante, nunca te teve amor, tenho a certeza, amor sincero, elevado! O que o não impede de espionar os passos do Mozgliakov, de te rondar a casa, de tirar indagações...--Tens dó delle, minha filha, adivinhou-te o meu coração, e Deus sabe as lagrimas amargas que me tem encharcado o travesseiro.
--Veja se acaba com tudo isso, mamã! atalhou Zina com enfado. O seu travesseiro não vem cá fazer coisa nenhuma! Não poderá falar com singeleza?
--Não me acreditas, Zina! Não me trates tão mal, minha filha! Já lá vão dois annos, e não faço outra coisa senão chorar, mas tenho-te encoberto as minhas lagrimas, Zina, durante esses dois annos mortaes!... Ha muito tempo que conheço os teus sentimentos. Medi todo o alcance da tua magua. Poderá alguem lançar-me em rosto, minha querida, o haver considerado semelhante ligação como uma phantasia romanesca, nascida sob a influencia do tal maldito Shakspeare? Qual seria a mãe que condemnasse os alvitres de que tenho lançado mão e achasse rigoroso em demasia o modo por que avalio este caso? E comtudo, a mim propria represento o teu longo padecer, comprehendo e apprecio a tua sensibilidade. Acredita: comprehendo-te melhor, talvez, do que te comprehendes a ti propria. Estou certa de que o não amas, a esse garoto ridiculo: a quem tu amas é ao teu sonho, á tua ventura mallograda, ao esvair das tuas illusões. Eu tambem amei, não cuides que não, e com mais excesso de paixão do que tu; tambem eu padeci; tinha tambem as minhas illusões!... Não falo pois sem experiencia, e se affirmo que uma alliança com o principe representaria para mim a salvação, mereço talvez que me dêem ouvidos.
A Zina ouviu com espanto aquella estirada declaração, farta de saber que a mamã nunca assume aquelle tom pathetico sem designio occulto. E comtudo, a conclusão deixa confundida a joven.
--É pois a sério, que fala em casar-me com o principe? exclama pasmada a considerar a mãe que assumiu attitude majestatica; não é então uma hypothese, como se dissessemos? É tenção firme e assente, pelo que vejo? Mas... como é que poderia salvar-me semelhante casamento? E... e... que relação terá tudo isso com o que acaba de expôr-me, com essa historia toda?... Declaro que a não percebo, mamã.
--E a mim, meu anjo, espanta-me que o não percebas! exclama Maria Alexandrovna, com subita animação. Primeiramente, o facto só por si de teres de transferir-te para outra sociedade, para um mundo differente; de teres de dizer adeus de uma vez para sempre a esta nojenta cidade das duzias, semeada para ti de tão temiveis recordações, á qual te não prende a minima affeição, onde te assacaram calumnias, onde essa sucia de pêgas te detestam por causa da tua formosura, esse facto só por si, repito, é já capital. E depois, podes, ainda esta primavera, ir para o estrangeiro, para a Italia, para a Suissa, para a Hespanha,--Zina--para a Hespanha, onde irás ver a Alhambra, o Guadalquivir! Não estarás farta d'este immundo riacho de Mordassov, com aquelle seu nome inconveniente?
--Mas se me dá licença, mamã! está falando como se eu já estivesse casada, ou pelo menos como se o principe me tivesse já pedido em casamento...
--Lá quanto a isso não te dê cuidado, meu anjo, sei o que estou dizendo. Deixa-me continuar. Eu disse _primeiramente_, e ahi vae o segundo ponto: Comprehendo, minha filha, quanto te contraría o dares a mão de esposa a este Mozgliakov...
--Sei muito bem, nem preciso de que m'o digam--que nunca serei sua mulher! interrompeu Zina com arrebatamento.
--Se tu soubesses, meu amor, como eu avalio essa repugnancia! É terrivel o ter que jurar perante o altar de Deus amor e fidelidade áquelle a quem se não pode ter amor! É terrivel o pertencer a um homem a quem se não pode respeitar. E todavia, exigir-te-hia amor; foi para te possuir que elle casou comtigo: isso adivinha-se nos olhos que elle te deita quando não olhas para elle. Mas como simular perpetuamente amor? Ah! minha filha, aqui estou eu que ando a padecer ha vinte e cinco annos com esta comedia necessaria. Teu pae deitou-me a perder. Posso afirmar, até, que envenenou de todo a minha mocidade, e quantas vezes não terás visto correr as minhas lagrimas?
--O papá está no campo; não esteja a atacál-o, por quem é!
--Sim, tu saes sempre em sua defêsa, bem o sei... Ah! Zina! Confrangia-se-me o coração quando a prudencia me obrigava a desejar o teu casamento com o Mozgliakov! Com respeito ao principe, com esse não tinhas tu necessidade de representar nenhuma comedia. Escusado é dizer que lhe não poderás dedicar o que se chama amor. E demais, elle proprio é _incapaz_ de exigir semelhante amor.
--Que disparate, meu Deus! E eu affirmo-lhe que se engana de meio a meio: não tenciono sacrificar-me,--ignoro aliás o fim com que o faria. Fique sabendo que não quero casar. Não casarei seja com quem fôr; ficarei solteira. Tem-se farto de me atormentar ha dois annos para cá, por causa de eu ter rejeitado quantos noivos me tem apparecido, mas não tem remedio senão conformar-se; não quero, já disse!
--Zinotchka, não te alteres, pelo amor de Deus, sem me ouvires, meu amorzinho! Que cabeça tão esturrada! Consente em que eu te exponha o caso em conformidade com o meu modo de ver, e verás que has de vir a concordar commigo. O principe poderá ainda viver um anno, dois, talvez, mas não vae além, com certeza. Ora, mais vale ser viuva e nova do que velha solteirona, isto sem falarmos em que depois de elle fechar o olho ficas sendo princêsa, rica e livre. Minha querida, desprezas talvez estes meus calculos baseados na morte de um homem, mas sou mãe, e quem haverá ahi que condemne a minha previdencia? Em conclusão, se tu, anjo de bondade, ainda tens pena d'esse tal garoto, se tu, conforme eu suspeito, não queres casar emquanto elle fôr vivo, considera que, se casares com o principe, vaes resuscitar aquelle a quem amas! Se é que a elle lhe restam ainda uns vislumbres de bom senso, comprehenderá, manifestamente, que o ter ciumes a respeito do principe, seria coisa fora de proposito, ridiculo. Comprehenderá que não casas com este velho a não ser por interesse, por necessidade. N'uma palavra, comprehenderá... quero dizer--depois de fallecido o principe, já se vê,--que poderás casar segunda vez, se fôr da tua vontade...
--Casar com o principe, expoliá-lo, e estar á espera de que elle morra para depois ir casar com o meu amante, não é assim? É muito habil; quer seduzir-me propondo-me... Percebo-a á legua, minha mãe, percebo-a optimamente. Só o lembrar-me eu de que não pode deixar de fazer alarde de nobres sentimentos, até, n'um negocio tão pouco limpo? Seria muito mais estimavel o dizer-me, singelamente: "É uma ignominia, Zina, mas é lucrativa; e portanto, acceita." Sequer ao menos era mais franco.
--Mas que teimosia será essa tua em encarar o negocio no ponto de vista da trapaça, da arteirice, da cobiça? Consideras os meus calculos como uma soez hypocrisia; mas, em nome de quanto venéras como mais sagrado, onde estará a baixeza, onde a hypocrisia? Vê-te bem n'aquelle espelho: és formosa o sufficiente para conquistares com esses teus olhos, sem mais nada, um reino! E tu, tão formosa, sacrificas a um velho os teus melhores annos; tu, estrella magnifica, vaes embellezar-lhe o occaso da vida; tal qual a hera viçosa, florir na sua velhice! Está afeito á companhia de uma feiticeira que o sequestra lá n'um canto do mundo, e d'essa feiticeira, és tu, tu, Zina, quem vaes ser successora! O dinheiro e o titulo d'elle podem lá equiparar-se ao teu valor? Onde vês pois n'isto a baixeza, a hypocrisia?
Nem sabes o que estou dizendo, Zina!
--O dinheiro e o titulo d'elle valem mais do que eu, visto que para os alcançar, teria que resignar-me a casar com um enfermo. Dêmos ás coisas os seus nomes: é uma ignobil hypocrisia, mamã!
--Pelo contrario, minha querida, pelo contrario! O caso pode até ser encarado de um ponto de vista superior, christão. Declaraste-me, um dia, em um assômo de enthusiasmo, que querias ser irmã da caridade: o teu coração exaltara-se de amor ao pensares nos humanos soffrimentos, outro qualquer amor parecia-te tibio e mesquinho. Pois bem! Se ainda queres acreditar no amor, acredita na dedicação, com sinceridade, tal qual uma creança, com candura. Dedica-te, e abençoar-te-ha Deus! Tem padecido este velho; é desditoso, perseguem-n'o. Conheço-o ha muitos annos e sempre lhe dediquei incomprehensivel simpathia, carinho, por assim dizer: presentia o futuro. Sê sua amiga, minha filha, seu brinquedo, até, se é forçoso dizêl-o, mas aquenta-lhe o coração e fál-o por amor de Deus! Admittamos que é ridiculo? Elle nem sequer d'isso tem consciencia. Não chega a ser a metade de um homem. Tem dó d'elle, tu, que és christã. Contrafaze-te; com força de vontade consegue-se domar a alma para semelhantes façanhas. Quanto não custa o pensar as chagas nos hospitaes, com que repugnancia se não respira o ar viciado dos lazaretos: mas não ha anjos que desempenham sem asco essas repugnantissimas taréfas e que ainda dão graças a Deus pela triste sorte que lhes coube? E ahi está o remedio de que tanto necessitava o teu magoado coração: uma tarefa heroica! Onde vês tu n'isto egoismo? Baixeza? Não me acreditas, suppões que estou representando uma comedia, não podes comprehender que uma mulher mundana, n'este meio de viver leviano, possa ter uns sentimentos de tanta elevação? Pois bem, não me acredites, minha filha! Desconfia do coração de tua mãe! mas sequer ao menos concorda em que as minhas palavras são sensatas e salutares. Esquece que sou eu quem te estou falando, fecha os olhos, volta-me as costas e põe na tua ideia que é uma voz misteriosa que estás ouvindo... O que acima de tudo te prende, é a questão de dinheiro, essa apparencia de compra e venda. Pois bem, rejeita o dinheiro visto que lhe tens tamanha aversão, acceita apenas o necessario, e o resto, dá-o aos pobres. Por exemplo, estende o teu braço áquelle desgraçado que está ás portas da morte.
--Elle nunca acceitaria, disse a Zina, baixinho, como se estivera falando comsigo.
--Dado o caso de que elle rejeite, lá está a mãe para o acceitar em nome d'elle, responde Maria Alexandrovna sentindo que conseguiu acertar-lhe com a corda sensivel. Acceitará sem que elle proprio o saiba. Já vendeste os teus brincos (presente de tua tia) para lhe accudir, ha seis meses, que eu bem o sei, e tambem sei que a mãe, a pobre da velha, anda a lavar roupa para sustentar o filho.
--Dentro em pouco deixará de precisar seja do que fôr.
--Comprehendo-te! apanha de relance Maria Alexandrovna, (accode-lhe uma inspiração, uma verdadeira inspiração.) Dizem que morre tisico: mas quem é que o affirma? Indaguei a seu respeito, ha dias, do Kalist-Stanislavitch... Pois sou a primeira a interessar-me pelo pobre rapaz, tambem tenho coração, Zina! E o Kalist-Stanislavitch respondeu-me que a doença é grave, não ha duvida, mas que, até hoje, existe apenas uma forte affecção dos bronchios,--tu mesmo lh'o podes perguntar. E accrescentou que a mudança de clima, impressões fortes, podiam curar o doente. Contou-me elle que, em Hespanha--e já não é a primeira vez que o oiço... li-o, até--ha uma ilha extraordinaria, Malaga, creio eu... emfim, um nome que lembra o de um qualquer vinho--onde não só os que padecem do peito, mas até os proprios tisicos saram de todo, graças ao clima. Vão ali tratar-se fidalgos, e commerciantes ricos. Que elle, effectivamente, a Alhambra--esse palacio encantado--as murtas e os limoeiros, os hespanhoes a cavallo nas mulas, não será o sufficiente a produzir impressão n'uma natureza de poeta? Suppões que rejeitaria o teu dinheiro?... Enganas-te se tens dó d'elle! A mentira é perdoavel, quando d'ella depende a vida. Alimenta-lhe a esperança, promette-lhe o teu amor, dize-lhe que casarás com elle quando enviuvares,--tudo se pode dizer com nobreza: tua mãe não era capaz de te dar maus conselhos, Zina!--Has de fazer tudo isso para o salvar e o bastante para te justificares. Recuperará alento assim que souber que está esperando por ti. Tratar-se-ha, seguirá rigorosamente as recommendações do medico, ha de querer resuscitar para a ventura. Se elle se curar, ainda quando não viesses a ser sua mulher, sequer ao menos têl-o-has salvo! e se a desventura o tiver mudado, se o houver tornado digno de ti, casarás com elle. Effectuada a cura, poderás alcançar-lhe uma situação na sociedade, facultar-lhe uma carreira. O teu casamento, n'estas condições, tornar-se-ha possivel. Hoje!... que é que os espera a ambos, se porfiassem em perpetrar o acto de loucura de casarem. O desprezo de toda a gente e a miseria.
Pensas acaso que a leitura entre ambos do seu Shakspeare lhes havia de compensar tudo isso? Ficariam a vegetar aqui em Mordassov até que elle morresse, o que não tardaria, aliás. Mas se está na tua mão o incutir-lhe gosto pelo trabalho e pela virtude!
Perdoa-lhe e adorar-te-ha. O remorso d'aquelle seu acto vergonhoso apavóra-o! O teu perdão tudo irá ápagar e reconciliál-o-ha comsigo mesmo.
Passa ao serviço activo, sobe postos, e se morrer, sequer ao menos morrerá feliz, nos teus braços (visto que poderás achar-te a seu lado), seguro do teu amor, do teu perdão, á sombra das murtas e dos limoeiros, debaixo da cupula azul de um ceu exotico. Ah! Zina! Tudo isto se acha nas tuas mãos; basta que consintas em casar com o principe.
Cala-se Maria Alexandrovna. Segue-se prolongado silencio. A Zina acha-se no auge da afflicção.
Não nos abalançaremos a descrever os seus sentimentos: não os conhecemos. Mas, a julgar pelas apparencias, Maria Alexandrovna encontrou o verdadeiro caminho para o coração da filha. Não ha duvida de que a excellente mãe andou um tanto ás apalpadélas, até que por fim conseguiu pôr o dedo na ferida, principiou por maguar sem precaução os pontos mais sensiveis das feridas ainda abertas, a despeito de um desenvolvimento por ahi além de sentimentos.
Agora, comtudo, logrou introduzir na mente da Zina o pensamento que a si lhe convinha: produzindo-se o effeito, alcançou-se o fim desejado. A Zina escuta com soffreguidão, com as faces afogueadas, o seio a arfar.
--Ora escute, mamã,... diz por fim, resoluta, comquanto a subita pallidez manifeste claramente quanto lhe custa semelhante resolução.
--Escute, mamã...
N'este ensejo, comtudo, resôa no vestibulo um ruido: uma voz aguda a chamar por Maria Alexandrovna.
Maria Alexandrovna levanta-se com vivacidade.
--Ah! meu Deus! demonios levem aquella pêga! É a coronela! E eu que quasi que a despedi, ha quinze dias! accrescenta, desesperada...
Mas é impossivel recebêl-a agora! De todo impossivel! E comtudo isso... quem me diz que me não virá trazer noticias... aliás, nunca se atreveria. É caso sério, Zina, é-me indispensavel sabêl-o, nada se póde desprezar...
--Como lhe fico grata por esta sua visita... quanto estimo!... exclama correndo ao encontro da coronela. A que feliz acaso serei eu devedora de se ter lembrado de mim, minha preciosa Sofia Petrovna? Encantadora surpreza!
A Zina deitou a fugir.
VI
A coronela Sofia Petrovna Farpukhina apenas suggere moralmente o tipo da pêga. Quanto ao phisico, participa antes do pardal. É uma mulherita cincoentona com sardas entre ruivas e amareladas pela cara e uns olhos que nunca param. O corpo ético, implantado sobre umas sólidas pernas de pardal, esconde-se por debaixo das amplas pregas d'um vestido escuro, de seda, em continuo restralar, visto como a coronela nunca póde estar quiéta. É uma linguareira ruim e vingativa, perde o tino com a seguinte ideia: "Sou coronela." Ella e o marido, coronel reformado, jogavam a unhada a toda a hora: elle ostentava no rosto os signaes das garras da consorte. Ella, préga no bucho com quatro copinhos de vodka, todas as manhãs, e outros tantos ao deitar. Vota um odio figadal a Anna Nikolaievna Antipova e á Natalia Dmitrievna Padknvina, que a sacudiram das suas salas, ha oito dias.
--Demoro-me apenas um instantinho, meu anjo, pia a dama; nem sequer me quero sentar. Traz-me aqui unicamente o desejo de lhe contar os singularissimos acontecimentos que se estão dando. O tal principe faz andar n'uma roda viva esta nossa Mordassov. Os nossos espertalhões--comprehende--não lhe largam o rastro, a farejál-o por todos os cantos, a puxál-o para todos os lados, obrigam-n'o a beber champanhe. Eu se o não visse não o acreditava. Como é que o deixou saír? Não sei se sabe que, n'este instante, está em casa da Natalia Dmitrievna?
--Em casa de Natalia Dmitrievna? exclama Maria Alexandrovna dando um pulo na cadeira. Mas se elle ia apenas fazer a sua visita ao governador e a casa de Anna Nikolaievna, e sem tenção de se demorar.
--Para se não demorar, isso sim! E agora, corra atrás d'elle!
Não encontrou em casa o governador, foi visitar a Anna Nikolaievna, e prometteu-lhe jantar com ella, e a Natachka[5], bem sabe, que nunca sáe de casa, lá estava pespegada; carregou com elle para almoçar. E ahi tem o seu principe!
--Que me diz! E o Mozgliakov a prometter-me...
--Pois sim! O tal seu Mozgliakov a quem a senhora não se farta de pôr nas nuvens!... Está em casa delles! Olho n'elle! Veja lá se o obrigam a jogar as cartas e principia para ahi a perder como succedeu o anno passado. E o principe é capaz de se deixar limpar que nem um prato. E que calumnias que ella inventa, aquella Natachka! A atordoar os ouvidos a toda a gente com a galga de como a senhora faz a côrte ao principe com o sentido em... com um certo sentido, não sei se m'entende? E pespega-lh'o a elle na cara, até; e elle sem perceber patavina, sentado para ali como um gato encharcado e a responder, a cada palavra: "Ah! Está claro, está claro!" E sabidas as contas é ella a propria que... Mandou saír a Sonka[6]. Ora imagine! Com quinze annos e anda ainda de vestido curto que mal lhe chega ao joelho; tambem mandou vir aquella orfã, a Machka,[7] com um vestido ainda mais curto. Impingiram a ambas uns casquêtesinhos encarnados cheios de plumas, não sei para quê, e ao som do piano põem-se a dansar, aquelles dois espinafres, deante do principe, a Kozatchok.[8] Ora a minha amiga está farta de conhecer o fraco ao principe! A babar-se todo: "Que... e... fó... órmas!" diz elle "... Que... e... fó... ó... órmas!" E a mirál-as pelo monóculo, e ellas com uns módinhos, as duas perúas! Todas afogueadas á força de levantarem a perna! E toda a gente a rir, faça ideia como e porquê!... Que nojo! E chamam áquillo dansar! Aqui estou eu que dansei de chale, quando saí do collegio aristocratico de Madame Jarmé: fiz sensação, acredite... pela nobreza!
Fartaram-se até de dar palmas uns senadores. Estavam a educar nesse mesmo collegio filhas de principes e de condes.--Mas a tal Kozatchok, aqui para nós, é tal qual o Cancan! E eu com a cara a arder, de envergonhada! Não me pude conter...
--Mas, então... tambem estava em casa da Natalia Dmitrievna? A senhora? Cuidei que...