Um club da Má-Lingua

Chapter 3

Chapter 33,896 wordsPublic domain

--E... stá claro! Gosto de ver um lacaio que não fure paredes, observou o principe, satisfeito, como aliás succede aos velhos, de que lhes escutem com respeito a tagarelice,--é até a principal qualidade de qualquer lacaio,... uma to... leima sincera... em certas occasiões. Incute-lhes uma certa imponencia... solemnidade! N'uma palavra, é mais distincto, e eu, a primeira qualidade que exijo a um serviçal é a distincção. É por isso, que conservo o Tarenty, estás lembrado do Tarenty, meu amigo? Assim que o vi, percebi-lhe a vocação: Has de ser porteiro. É phe... e-nome-nalmente es... tupido. Com aquelles olhos de carneiro mal morto: Mas que boa presença! que solemnidade! Em pondo a gravata branca, faz um figurão! Gosto d'elle deveras! Eu, ás vezes, ponho-me a olhar para elle, e não me canço de o ver: ali onde o vêem, está escrevendo um livro... É um verdadeiro philosopho a... al... lemão, o proprio Kant, ou antes, um, perú gordo e bem comido, um ser incompleto, tal qual cumpre a todo e qualquer se... er... viçal.

Maria Alexandrovna ri ás gargalhadas e bate palmas; Pavel Alexandrovitch faz côro: acha immensa graça ao tio. A Nastassia Petrovna ri tambem; e a propria Zina dá um ar de riso.

--Mas que graça, principe! que alegria! exclama Maria Alexandrovna. Que preciosa faculdade de observar ridiculos... E desappareceu o senhor da sociedade! Privar assim de um talento o mundo durante cinco annos inteiros!... Mas podia até escrever comedias, principe! Podia muito bem restituir-nos Visine, Griboiedov, Gogol!

--É verdade, é verdade!... confirma encantado o principe... eu podia restituir... Quer crêr? Eu d'antes tinha muita graça, até escrevi para o theatro um vô... ô... deville. Com umas coplas que eram uma delicia! Por signal que nunca foi representado.

--Que pena! Como havia de ser divertido? Sabes o que te digo, Zina, que vinha mesmo a proposito. Nós, justamente, principe, andamos a combinar umas récitas de amadores com um fim de beneficencia patriotica, em favor dos feridos... Vinha mesmo ao pintar o seu vaudeville.

--E... stá claro, estou prompto a escrevêl-o. De mais a mais, já nem me lembra uma palavra, mas tenho de memoria um ou dois trocadilhos que... (O principe beija as pontas dos dedos.) Eu, em geral, quando estava no estrangeiro... fazia um verda... deiro _furor_... Lembro-me de mylord Byron... fomos muito intimos... Dansava á maravilha a krakoviak no congresso de Vienna...

--Mylord Byron, meu tio? Ora vamos, que está para ahi a dizer!

--Está claro!... Byron. E d'ahi, talvez fosse outro. Exactamente, era um polaco, lembro-me agora muito bem; um grande original, o tal polaco! Intitulava-se conde, e porfim, veiu-se a saber que era cozinheiro.

Mas dansava lindamente a krakoviak. Quebrou uma perna. Foi n'essa occasião, até, que lhe fiz estes versos:

O nosso conde polaco Dansava a krakoviak

E d'ahi... já me esqueceu... ah!

Desde que partiu a perna, Nunca mais pôde dansar.

--Sim, sim, deve de ser isso, rico tiozinho! exclama Mozgliakov, pôdre de riso!

--Está c-claro! Quer-me parecer que seria isto ou coisa que o valha. E d'ahi é possivel que não seja. O que lhes sei dizer é que os versos me saíram muito bons. Escapam-me certas coisas, tenho tanto que fazer!

--Mas, não me dirá, principe, pergunta com muito interesse Maria Alexandrovna, em que é que se occupa n'aquella sua solidão? Lembrava-me tanta vez do principe! Estou a arder de impaciencia por saber tudo por miudos...

--Em que é que me occupo! Ora essa... immensa coisa em que me occupar... em geral. Umas vezes descanso, outras vezes dou o meu passeio... a imaginar cá umas coisas...

--Deve de ter muita imaginação, rico tiozinho.

--Muita, meu caro. Ás vezes, acontece-me imaginar coisas de que eu proprio fico pasmado. Quando eu estava em Kadnievo... A proposito, tu não foste vice-governador em Kadnievo?

--Eu, tiozinho? Que está dizendo! Pelo amor de Deus! exclama Pavel Alexandrovitch.

--E eu a confundir-te com elle...

E dizia eu commigo: Por que será que elle está tão mudado?... Porque o outro tinha uma phisionomia imponente, espirituosa... um homem extra-a-ordina... ria... mente intelligente. Compunha sempre versos... a proposito... De perfil, era tal qual um rei de copas.

--Acredite, principe, interrompeu Maria Alexandrovna, essa vida ha de deitál-o a perder, lhe juro eu! Encerrar-se durante cinco annos n'um ermo! Não ver, não ouvir pessoa alguma!... Sabe o que lhe digo, o principe é um homem perdido! Pergunte a algum dos seus amigos, que lhe sejam fieis, e todos lhe dirão isto mesmo: é um homem perdido!

--De... de... vé-éras? arrasta o principe.

--Com certeza... Digo-lh'o como se fôra uma irmã, porque sou muito sua amiga,--pois que as recordações do passado, para mim são sagradas. Que interesse poderia eu ter em o enganar? Nada, nada, é preciso absolutamente mudar de vida, aliás, não resiste?...

--Valha-me Deus! pois eu hei de morrer, assim, tão depressa? exclama o principe, assustadissimo. E caso é que adivinhou: as minhas humorroides dão cabo de mim, e ha uns tempos para cá, principalmente... e quando me atacam as crises, tenho sin-tó-ó-mas es... espan... tosos... Eu já lhe vou contar tudo... por miudos...

--Deixe lá, tiozinho, contará isso tudo, para outra vez. Agora, não será tempo de irmos dar o nosso passeio?

--Pois, sim, vá lá, ficará para outra vez; e d'ahi talvez não interésse... Mas com tudo isso... é uma doença... extrê-ê-mamente interessante. Com uma tal variedade de episodios! Vê se me lembras, meu caro, contar esta noite, com todos os pormenores, uma certa particularidade das humorroides.

--Ora, escute, principe, atalhou ainda Maria Alexandrovna. Devia ir ao estrangeiro, para ver se se curava.

--É isso, é! Ao estrangeiro, absolutamente. Lembro-me de que, ahi por 1820, a gente divertia-se im-men-sa-mente no estrangeiro. Estive para casar com uma viscondessa, e era francêsa. Eu estava apaixonado por ella, e queria consagrar-lhe toda a minha vida. Que ella, aliás, casou com outro... Caso exquisito!... Tinha estado em casa della não havia ainda duas horas, e foi n'este meio tempo que um barão allemão a conquistou. Veiu a acabar n'um hospital de doidos.

--Mas, caro principe, estavamos falando na sua saúde, e dizia-lhe eu que devia pensar n'isso muito a sério. Ha grandes medicos lá pelo estrangeiro. De mais a mais a mudança de ar, já por si, é importantissima. Terá que renunciar a Dukhanovo, por uns tempos, quando menos.

--Abso-o-lu-tamente! Já me conformei, tenciono tratar-me pela hy-dro... the... rapia.

--Pela hydrotherapia?

--Está claro! Foi isso mesmo que eu disse, pela hy... dro... the... rapia. Já me tratei pela hy... drotherapia. Estava eu nas aguas. Tambem lá estava uma senhora de Moscou, varreu-se-me o nome, uma mulher muito poetica, com setenta annos, ou coisa assim; tinha uma filha com uns cincoenta annos, e com uma belida n'um olho. Falavam ambas sempre em verso. Aconteceu-lhe um desastre! N'um fogacho de genio, matou o criado. Teve seus da-res e to... mares com a justiça. E como eu ia dizendo, puzeram-me no regimen da agua; que eu, ainda assim, não estava doente: mas se não faziam senão dizer-me "Trate de si! trate de si!" E eu, por delicadeza, puz-me a beber a agua e, effectivamente, senti allivio. Bebi, bebi, e tornei a beber! Acho que bebi um lago inteiro... É optima coisa a tal hy-dro-the-rapia. Dou-me muito bem. Eu, se não tivesse caído de cama, tinha passado lindamente.

--Lá isso é verdade, rico tio. Ora dize-me, rico tio, aprendeste logica?

--Valha-o Deus! Que pergunta? observa Maria Alexandrovna, escandalizada.

--Está c-claro, meu amigo... ha muito tempo, aqui para nós. Estudei philosophia, na Allemanha. Frequentei os cursos todos mas d'ali a pouco esqueceu-me tudo... Mas... confesso, metteu-me um tal susto no corpo com as taes do... enças que... fiquei atarantado... Eu volto já. Dêem-me licença!

--Aonde vae, principe? exclama, pasmada, Maria Alexandrovna.

--Não tardo aqui. Não me demoro... Vou apenas... assentar um pensamento... Até já...

--Que tal lhe pareceu? exclama Pavel Alexandrovitch, á gargalhada.

Maria Alexandrovna perde de todo a paciencia.

--Eu não o entendo, na verdade, não posso comprehender de que é que se ri!--começa ella com animação. Rir de um ancião respeitavel, de um parente! Rebentar a rir a cada palavra que elle solta da bôcca! Abusar d'aquella bondade evangelica! Tenho até vergonha de o ouvir, Pavel Alexandrovitch! Mas não me dirá o que é que lhe encontra de ridiculo? Ainda não fui capaz de lhe notar o lado ridiculo.

--Mas se nunca conhece ninguem, se não faz senão metter os pés pelas mãos!

--Ahi tem as consequencias do tal sequestro de cinco annos entregue á guarda d'aquella megéra! Devemos antes ter dó d'elle, em vez de rirmos á sua custa. Veja lá, nem a mim mesmo me conheceu, até! O senhor foi testemunha. Pois não é terrivel! É preciso salvá-lo. Eu, se lhe propuz ir ao estrangeiro, foi na esperança de que se resolva a largar de mão aquella... regateira.

--Sabe o que lhe digo, é preciso casál-o, Maria Alexandrovna.

--E o senhor a dar-lhe! É incorrigivel, senhor Mozgliakov.

--Não sou, acredite, Maria Alexandrovna, eu, d'esta vez, estou falando até muito a sério. Por que é que o não havemos de casar? É uma ideia como outra qualquer. Em que é que isso o pode prejudicar? No estado a que elle chegou, é um expediente que o pode salvar, creio eu. A lei ainda lhe permitte casar. D'esse modo, vê-se livre d'aquella desavergonhada, desculpe a expressão. Escolherá para ahi qualquer menina, ou qualquer viuva honesta, intelligente, carinhosa e pobre, sobretudo, que não deixará de o tratar como filha e que comprehenderá que lhe deve ser grata. Que coisa melhor lhe poderia acontecer? Um coração terno e fiel, em vez d'aquella... moita! Está claro que convem que seja bonita, pois o tio professa ainda o culto da belleza. Não viu os olhos que elle deitava á Zinaida Aphanassievna?

--E onde irá desencantar semelhante ideal? pergunta Nastassia Petrovna toda ella ouvidos.

--Não está má pergunta? A senhora, por exemplo, sem irmos mais longe... se me dá licença, perguntar-lhe-hei por que é que não ha de casar com o principe? Primeiro e segundo, porque é bonita, e viuva, ainda por cima. Terceiro, por que é fidalga. Quarto, por que é honestissima. Ha de amá-lo, amimá-lo, pôr na rua a tal carcereira, carregar com o principe para o estrangeiro, dar-lhe papinha e goloseimas... tudo isto até que chegue o dia em que elle diga adeus a este mundo de amarguras, o que tardará para ahi um anno, quando muito, ou um mez ou dois, quem sabe; depois fica sendo princesa, viuva, rica e, para compensar o trabalho, casa para ahi com um marquez qualquer, ou um general. É bonito, pois não acha?

--Ai! Deus meu! Que amor eu lhe havia de ter, por gratidão, quando por mais não fosse, se elle pedisse a minha mão! exclama Madame Ziablova.

Os olhos feriram-lhe lume, até.

--Mas, isso sim!... são sonhos!...

--Sonhos? Tem empenho em que se realisem? Experimente, peça-me que lhe alcance essa pechincha. E corto desde já este dedo se hoje mesmo não fôr noiva do principe. Não ha nada mais facil do que persuadir o meu tio. Diz sempre a tudo, que sim. A senhora bem o ouviu, ha boccado. Casamol-o sem elle dar por isso. Enganamol-o, é verdade, mas se é para seu bem, pois não acha? Em todo o caso, a senhora do que devia tratar era de ir arranjando uma _toilette_ á altura das circumstancias, Nastassia Petrovna.

A animação de Mozgliakov transforma-se em enthusiasmo. A Madame Ziablova, com o seu tino todo, está-lhe a crescer até agua na bôcca.

--Eu bem sei; nem é preciso que m'o lembre, que estou para aqui uma trapalhona... Pareço até uma cozinheira, pois não pareço?

Maria Alexandrovna está com um cara de palmo. Afoito-me a affirmar que ouviu a proposta de Pavel Alexandrovitch com uma pontinha de terror. Quer sim quer não, teve mão em si.

--Tudo isso é muito bonito, mas é um chorrilho de futilidades sem pés nem cabeça, e que não vem nada a proposito! disse, com sequidão, dirigindo-se ao Mozgliakov.

--Então por quê, minha querida Maria Alexandrovna? Por que é que diz que são futilidades fóra de proposito?

--O senhor está em minha casa, e o principe é meu hospede. Não consinto que ninguem se esqueça do respeito que se deve á minha casa! Tomo as suas palavras como mera brincadeira, Pavel Alexandrovitch; mas, ahi vem o principe, graças a Deus!

--Eu... c... cá... es... tou, guincha o principe ao entrar. É espantoso, querida amiga,... que fecundidade com que acordou hoje este m... meu espirito! Ás vezes--talvez não acredites--mas acontece-me estar um dia inteiro sem me accudir um pensamento a esta cabeça...

--Seria a tal queda d'inda agora que lhe abalou os nervos...

--Tambem me quer parecer, meu amigo, ach... acho util, até, o tal accidente, tanto assim que estou resolvido a perdoar ao meu Pheophilo. Queres que te diga?--Palpita-me que não premeditará attentar contra os meus dias. E demais... já está bem castigado, cortaram-lhe as barbas.

--Cortaram-lhe as barbas!--Que me diz? Elle, que tinha umas barbas mais compridas que um principado allemão.

--Es... tá c-claro!... sim... um principado. Em geral, meu amigo, são muito acertadas as tuas conclusões. Mas as barbas d'elle são postiças. Ora imaginem: Mandaram-me um catalogo: acabam de chegar do estrangeiro umas optimas barbas quer para cocheiros quer para gentlemen: suissas, barbas á hespanhola, pêras á império, etc.; tudo de primeira qualidade, por preços muito mó-mó-di... cos. E eu, então, encommendei umas barbas para cocheiro. Mandaram-m'as: Ma-a... gnificas! Mas a do Pheophilo era duas vezes mais comprida. E eu muito atrapalhado: que hei de eu fazer? Recambiar as barbas postiças, ou mandar rapar as do Pheophilo? Reflecti maduramente e resolvi em favôr das barbas postiças.

--Prefere a arte á natureza, rico tiozinho?

--Pois está claro!... E que desgosto que elle teve quando se viu de cara rapada. Cada pêllo que lhe cortavam era um dia de vida que lhe tiravam. Mas não serão horas de sair, meu caro?

--Estou ás suas ordens, tio.

--Principe, ouso esperar que só irá a casa do governador! exclamou Maria Alexandrovna, muito sobresaltada. O principe, _pertence-me_, faz parte da minha familia, por todo o dia. Escusado é dizer, que não tenho nada que ensinar-lhe, pelo que diz respeito a Mordassov. Talvez queira ir fazer a sua visita á Anna Nikolaievna, e não tenho direito de o dissuadir de dar semelhante passo. Tanto mais que estou persuadida de que a sua propria experiencia lhe servirá de guia. Lembre-se de que, hoje, sou sua irmã, sua mãe e sua aia por todo o dia... Ah! Estou toda a tremer por sua causa, principe!... O principe não conhece esta gente, não conhece, digo-lho eu... Não, que elle é preciso tempo para os conhecer.

--Deixe o caso por minha conta, Maria Alexandrovna, disse Mozgliakov; tudo se passará conforme lhe prometti.

--Entregar-me nas suas mãos, eu?... O senhor é um estouvado? Cá o espero para jantar, principe. Costumamos jantar cedo. Que pena que eu tenho de que, n'esta occasião, meu marido esteja no campo! Havia de gostar tanto de o ver! Estima-o tanto! Dedica-lhe tão sincera amizade!

--Seu marido?--Com que então,... tem marido?--

--Valha-me Deus! Que pessima memoria é a sua, principe? Pois esqueceu o passado a esse ponto? E meu marido, o Aphanassi Matveich, querem ver que tambem se não lembra d'elle? Está no campo, mas o principe, em tempos, viu-o, até, muita vez. Veja lá se se lembra; o Aphanassi Matveich?

--Aphanassi Matveich! No campo? Ora vejam lá! Mas é delicioso! Tem então marido! Que ratice! Existe um vô... ô... de ville versando sobre o mesmo assunto: _O marido á porta e a mulher na_... Conceda-me licença!... já me não lembro lá muito bem... a mulher safa-se para Tula... ou para Yoroslav!...

_O marido á porta e a mulher em Tver_, rico tio, sopra-lhe o Mozgliakov.

--Está c-claro, sim, é isso! Obrigado, caro amigo, exa... cta... mente... em Tver... É um encanto... um en... can... to... É assim,... é!... a mulher em Koxtroma... quero dizer... em conclusão... safou-se... Um encanto! um encanto! Mas já não sei o que é que eu ia dizendo!... Ah! sim! vamo-nos embora, hein? Até á vista! minha rica senhora! Adeus... minha linda menina!

O principe beija as pontas dos dedos á Zinaida.

--O jantar! O jantar, principe!

--Demore-se o menos que puder! brada Maria Alexandrovna deitando a correr atráz d'elle.

V

--Nastassia Petrovna, não seria mau ir deitar a sua rabisáca pela cozinha, disse ella apóz de haver acompanhado o principe. Palpita-me que aquelle traste do Nikitka é capaz de se tomar da pinga e deita-nos a perder o jantar.

Obedeceu Nastassia Petrovna. Á saída, olhou para Maria Alexandrovna e percebeu que estava animadissima a digna senhora. Em vez de ir vigiar o tratante do Nikitka, Nastassia Petrovna dirige-se a uma saleta contigua, d'alli, enfiando pelo corredor, vae ao quarto, e esgueira-se para um cubiculo de despejos, atulhado de bahús, de vestidos velhos e de roupa suja de toda a familia. Nos bicos dos pés, acerca-se de uma porta fechada, sustendo a respiração, e espreita pelo buraco da fechadura: Aquella porta é uma das três que abrem para a sala (está condemnada). Maria Alexandrovna sabe que a Nastassia Petrovna é velhaca, pouco delicada, de poucos escrupulos, e muito capaz de escutar ás portas. N'este momento, comtudo, Madame Moskalieva está tão preoccupada, que se descuida de toda e qualquer cautélla.

Senta-se n'uma poltrona e despede significativa olhadela á Zina. E a Zina a sentir o pêso d'aquelle olhar. Dá-lhe um pulo o coração!

--Zina!

A Zina volta com muito vagar para a mãe o descorado semblante e aquelles olhos sonhadores.

--Zina, tenho que te falar em negocio importante.

Está de pé a Zina; cruza os braços e espera. Deslisa-lhe pelo semblante expressão fugaz de despeito e de ironia.

--Quero perguntar-te qual é a tua opinião a respeito d'este tal Mozgliakov?

--Está farta de saber a conta em que o tenho, responde a Zina com modo constrangido.

--Pois sim, filha, mas está-me parecendo que se vae tornando um tanto ou quanto impertinente, atrevido; e em conclusão, aquella sua insistencia...

--Diz elle que me ama; se assim fôr, acho perdoavel a sua insistencia.

--Admiro-me de uma circumstancia: tu, d'antes, não o desculpavas, assim, tanto;... antes pelo contrario, eras, até, muito rispida para com elle, sempre que eu a elle me referia.

--E a mim, o que me causa admiração é outra circumstancia: A mamã, d'antes, estava sempre a defendêl-o, e é agora a propria a condemnál-o.

--Confesso que me sorria este casamento. Custava-me vêr-te assim sempre, tão triste.--Avaliava bem a tua tristeza,--pois sou capaz de a comprehender, seja qual fôr o juizo que faças a meu respeito.--Chegou até a tirar-me o somno! Em summa, estou convencida de que só uma mudança radical na tua vida te poderia salvar, e essa mudança, ha de ser o casamento. Não somos ricos, não podemos ir dar a nossa volta pelo estrangeiro. Os asnos que povoam esta cidade espantam-se de te ver ainda solteira aos vinte e três annos e inventam fabulas a tal respeito. Mas poderei eu dar-te por marido para ahi um conselheiro d'esta estupida cidade ou o Ivan Ivanovitch, nosso procurador? Haverá por aqui marido á altura dos teus merecimentos? É certo que o Mozgliakov é apenas um peralvilho, e com tudo isso, de todos elles, é ainda o mais acceitavel. É de boa familia, dôno de cincoenta mil almas: sempre valerá mais que um procurador que vive de propinas e á custa Deus sabe de que tranquibernias. E eis o motivo porque me lembrei d'elle. Tanto menos verdadeira simpathia me merecia, e tanto mais me convenço hoje de que era o Suprêmo Senhor quem me enviava semelhante desconfiança como advertencia. Pensa bem! Se porventura se offerecesse agora um partido mais vantajoso, não serias tu a propria a louvar-me de não ter até hoje dado a tua palavra a ninguem? Pois, ouso crer, Zina, que tu hoje, nada lhe terás dito de positivo.--Pois não é verdade?

--Para que servirão tantos rodeios, mamã? quando podia muito bem ter-me dito tudo isso em duas palavras, replica a Zina com modo resoluto.

--Rodeios, Zina! Serão coisas que se digam a tua mãe? Ah! Vejo que de modo nenhum te mereço confiança! Consideras-me como inimiga muito mais do que como mãe!

--Acabemos com isto, minha mãe. Parece-lhe bonito ficarmos para aqui a fazer questão de palavras? Não estaremos fartas de nos conhecermos uma á outra?

--Repara em que me estás offendendo, minha filha. Pois não vês que estou resolvida a tudo, a tudo, comtanto que tu sejas feliz?

A Zina põe-se a olhar para a mãe com aquella singularissima expressão de despeito e ironia.

--Não estará morrendo por que eu case com o principe para complemento da minha ventura? pergunta a joven com extranho sorriso.

--Nem sequer te disse uma palavra a semelhante respeito, mas visto que isso veiu á teia, dir-te-hei que, se fosse possivel, representaria para ti a felicidade, effectivamente.

--Pois eu acho isso pueril, exclama a Zina toda assommada, pueril, pueril e mais que pueril! e acho, ainda, que a mamã é dotada de excessiva imaginação: é uma mulher poetica; e tanto mais que é assim que a classificam em Mordassov. Está sempre a fazer planos. Nem lhe mettem medo impossibilidades. Assim que vi o principe, tive um presentimento, de como não deixaria de lhe accudir semelhante ideia. Quando o Mozgliakov mettia o caso a ridiculo e pretendia que era urgente casál-o, li no semblante á mamã o pensamento. E d'ahi, foi para me falar n'esse jarreta que a mamã principiou por se referir ao Mozgliakov. Mas esses seus sonhos aborrecem-me de morte, não sei se sabe? E peço-lhe que fiquêmos por aqui!... Nem mais uma palavra, entendeu, mamã? Nem mais uma palavra! Peço-lhe que tome a serio isto que acaba de ouvir da minha bocca.

--És uma criança, Zina, uma criança doente, e com mau genio! responde Maria Alexandrovna em voz meliflua; e estás-me faltando ao respeito.--Offendes-me! Não ha mãe que aturasse o que eu te tenho aturado! Mas padeces, e eu acima de tudo sou christã. Vou aturando, e perdôo-te. Responde-me a uma pergunta, só e mais nada, Zina. Vamos que eu, effectivamente, tivesse sonhado semelhante alliança, onde é que está a puerilidade?--Quanto a mim, nunca o Mozgliakov falou com tanto acerto como ainda agora, quando tentava demonstrar que o casamento é uma necessidade para o principe. O disparate era o ter-se lembrado d'aquella fufia da Nastassia.

--Mamã, declare-me com franqueza, se me está dizendo isso por méra curiosidade ou com um fim qualquer.

--Peço-te que me respondas: onde vês tu n'isto puerilidade?

--Que aborrecimento! Triste sorte é a minha! exclama a Zina a bater o pé. Vou dizer-lh'o, se é que ainda o não percebeu: aproveitar o ensejo d'esse velho se achar caído em demencia para o enganar, para o desposar, assim, enfermo e caduco, para lhe extorquir o dinheiro e andar todo o santo dia a desejar-lhe a morte, representa, a meu vêr, não só uma puerilidade, mas uma vilania, e não serei eu quem lhe dê os parabens por semelhante ideia, mamã.

Silencio.

--Zina, já te esqueceste d'aquillo que se passou ha dois annos? pergunta de chofre Maria Alexandrovna.

Estremece a Zina.

--Mamã, profere com accentuada seriedade, lembre-se de que me prometteu não me tornar a falar em semelhante coisa.

--Pois bem, minha filha--que eu até hoje ainda não tornei a dizer-te uma palavra--peço-te que por uma vez tão somente me desligues da minha promessa. Zina! Soou a hora de uma franca explicação. Foram mortaes estes dois annos de silencio! Isto assim não pode continuar!... Estou prompta a supplicar-te de joelhos que me permittas falar. Entendes, Zina, é a tua propria mãe que cae de joelhos a teus pés! E demais--dou-te a minha palavra solemne--a palavra de uma mãe desgraçada que adora a propria filha--seja qual for o pretexto, em circumstancia alguma d'este mundo, com risco até da propria vida, de nunca mais abrir a bocca a tal respeito.

--Fale! diz Zina, muito enfiada.