Ultimatum

Part 2

Chapter 2603 wordsPublic domain

No futuro cada individuo deve tender para realisar em si esta media. Tendencia, portanto de cada individuo, ou, pelo menos, de cada individuo superior, a ser uma harmonia entre as subjectividades alheias (das quaes a propria faz parte), para assim se approximar o mais possivel d'aquella Verdade-Infinito, para a qual idealmente tende a série numerica das verdades parciaes.

Resultado:

_a) Em politica_: O dominio apenas do individuo ou dos individuos que sejam os mais habeis Realizadores de Medias, desapparecendo por completo o conceito de que a qualquer individuo é licito ter opiniões sobre politica (como sobre qualquer outra cousa), pois que só pode ter opiniões o que fôr Media.

_b) Em arte_: Abolição do conceito de Expressão, substituido por o de Entre-Expressão. Só o que tiver a consciencia plena de estar exprimindo as opiniões de pessoa nenhuma (o que fôr Media portanto) pode ter alcance.

_c) Em philosophia_: Substituição do conceito de Philosophia por o de Sciencia, visto a Sciencia ser a Media concreta entre as opiniões philosophicas, verificando-se ser media pelo seu “caracter objectivo”, isto é, pela sua adaptação ao “universo exterior”, que é a Media das subjectividades. Desapparecimento portanto da Philosophia em proveito da Sciencia.

Resultados finaes, syntheticos:

_a) Em politica_: Monarchia Scientifica, anti-tradicionalista e anti-hereditaria, absolutamente expontanea pelo apparecimento sempre imprevisto do Rei-Media. Relegação do Povo ao seu papel scientificamente natural de mero fixador dos impulsos de momento.

_b) Em arte_: Substituição da expressão de uma epocha por trinta ou quarenta poetas, por a sua expressão por (por ex.), dois poetas cada um com quinze ou vinte personalidades, cada uma das quaes seja uma Media entre correntes sociaes do momento.

_c) Em philosophia_: Integração da philosophia na arte e na sciencia; desapparecimento, portanto, da philosophia como metaphysica-sciencia. Desapparecimento de todas as fórmas do sentimento religioso (desde o christianismo ao humanitarismo revolucionario) por não representarem uma Media.

Mas qual o Methodo, o feitio da operação collectiva que ha de organizar, nos homens do futuro, esses resultados? Qual o Methodo operatorio inicial?

O Methodo sabe-o só a geração por quem grito, por quem o cio da Europa se roça contra as paredes!

Se eu soubesse o Methodo, seria eu-proprio toda essa geração!

Mas eu só vejo o Caminho; não sei onde elle vae ter.

Em todo o caso proclamo a necessidade da vinda da Humanidade dos Engenheiros!

Faço mais: _garanto absolutamente a vinda da Humanidade dos Engenheiros_!

Proclamo, para um futuro proximo, a creação scientifica dos Superhomens!

Proclamo a vinda de uma Humanidade mathematica e perfeita!

Proclamo a sua Vinda em altos gritos!

Proclamo a sua Obra em altos gritos!

Proclamo-A, sem mais nada, em altos gritos!

E proclamo tambem: Primeiro:

=O Superhomem será, não o mais forte, mas o mais completo!=

E proclamo tambem: Segundo:

=O Superhomem será, não o mais duro, mas o mais complexo!=

E proclamo tambem: Terceiro:

=O Superhomem será, não o mais livre, mas o mais harmonico!=

Proclamo isto bem alto e bem no auge, na barra do Tejo, de costas para a Europa, braços erguidos, fitando o Atlantico e saudando, abstractamente o Infinito!

Alvaro de Campos.

de Alvaro de Campos

Opiario e Ode Triumphal (in Orpheu 1)

Ode Maritima (in Orpheu 2)

Saudação a Walt Whitman (in Orpheu 3 a apparecer em Outubro 1917)

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Nota do Transcritor:

Inconsistências que pareceram ser claramente erros tipográficos foram corrigidas; quaisquer outros erros ou inconsistências foram mantidos como na edição original.

Texto rodeado de carateres de "underscore" representa texto em itálico (_itálico_).

Algumas frases foram destacadas pelo uso de um tipo letra ligeiramente diferente na edição original, aqui são representadas pela habitual marcação de negrito (=negrito=).

Linhas indentadas em 8 espaços representam linhas alinhadas à direita.

End of Project Gutenberg's Ultimatum, by Álvaro de Campos and Fernando Pessoa