Ubirajara: Lenda Tupi

Part 9

Chapter 91,257 wordsPublic domain

Barloeus, paj. 420:--«Lucta et hastarum concursu decertare gloriosum, finis spectanctium voluptas est, presertim amantium foemina de cujusque fortitudine et victoria pronuntiat, sic in proximo pignora, pugnandi irritamenta sunt fortitudinis præcones, ciborum administræ.»

Paj. 65

_A figura da noiva_.--Esta prova de destreza era muito uzada pelos selvajens. Marcgraff descreve a especie de torneio que elles faziam divididos em duas turmas, a ver qual levava mais depressa o seu tóro ao logar destinado para acampamento. Naturalis Historia Brazilia, liv. 8o, cap. 12.

Conclue com estas palavras:-«qui deinceps tempus terunt hastilibus certando, luctando, currendo; quibus certaminibus duæ fæminæ ad id selectoe proesident et judicant de singulorum virtute et victoribus.

Estes certamens guerreiros, esses jogos de luta, combate e carreira, prezididos por mulheres que julgavam do valor dos campeões e conferiam premio aos vencedores, não cedem em galanteria aos torneios da cavalaria.

Ácerca da prova a que acima nos referimos, escreveu o Dr. Gonçalves Dias--_Brazil_ e _Oceania_, cap. 10, _Revista do Instituto_, tom. 30, parte 2a, paj. 153:--Um tóro de barrigudo em um cabo delgado e de facil preensão, semelhante aos soquetes ou massetes de que ainda entre nós se uza em muitas partes para bater a terra das sepulturas, posto que mais poderozo que este, ou um grande pedaço de tronco de palmeira, era colocado no meio do terreiro. Vinha o guerreiro correndo, tomava o tronco, continuava a carreira, saltava fossos, subia elevações, arrojava-se ás vezes ao rio com elle e quem chegava primeiro e levava mais lonje a carga, esse ganhava a palma e a mulher que tinha de ser espozada. Explicou-se esse costume, de que trata Barloeus, Marcgraff e outros, e que ainda conservam algumas tribus do Piauí, pela necessidade que tinha o guerreiro de defender a mulher, e para que em ocazião de perigo a podesse salvar fujindo.»

Paj. 67

_O camucim da constancia_.--Lê-se no _Tezouro do Amazonas_, cit. tom. 3 da _Revista do Instituto_, paj. 169. «O 5o predicado que tambem, como muitas outras nações conservam os Arapiuns, é a prova da valentia quando cazam; é um exame prévio ou o primeiro principio, como se diz nas Universidades, a suas bodas, e uma experiencia ou tentativa de seu valor para mostrarem que posto cazem não é por afeminados, mas por valentes. Ha diversos generos dessa prova de valentia; mas uma mui ordinaria nos indios Arapiuns é encherem uns grandes e compridos cabaços das formigas que chamam saugas (_saúvas_) grandes e mui bravas; ferram na carne com tanta ou mais valentia que os cães de fila, com proporção á grandeza destes e pequenez daquellas; porque os cães assim vêm a largar; mas as saugas não largam ainda que as matem e antes perderão a cabeça ficando com as troquezes cravadas na carne do que soltarem ellas preza; por isso uzam dellas alguns cirurjiões quando querem cozer alguma cicatriz com segurança, sem uzarem pontos, como adiante dizemos. Cheios, pois, os cabaços de saugas, não só famintas, mas quando estão com fome talvez de dias ... e sobre isso bem enraivadas com sacudidelas, prezentes todos os velhos e graves da missão, sae a terreiro o noivo examinando, destapam-se os cabaços nos quais intrepido mete os braços, a que logo acodem as filas, já para saciar a fome, já para dezabafar a ira, e já para provar e castigar o bacharel, o qual posto que as dôres o façam mudar de côres, torcer a boca, tremer o corpo, levantar as sobrancelhas e arrebentar as lagrimas, tenha paciencia, que se quer, ha de aturar a bucha, emquanto os examinadores já bebendo-lhe á saude e já dando voltas em bailes se vão regalando á sua custa, etc.

Paj. 73

_Igapê_.--É o nenufar na lingua tupí, de _Ig_, _ipe_ e _potira_--flôr d'agua. Os portuguezes corromperam essa palavra transformando-a em _aguapé_, nome por que é vulgarmente conhecida. Penso eu, porém, que devemos restaurar o nome indijena, até mesmo porque _aguapé_ tem diversa significação em portuguez.

Uma dessas nímféas, a rainha das flôres, a que os indios chamavam milho d'agua, ou a flôr jaçanan, por servir de ninho a essas aves paludais, nace branca e com a luz do sol vai rozeando até se tornar escarlate.

Em uma noticia publicada pelos jornais li que o nome dessa flôr _napê jaçanan_ significa, forno das jaçanans, do que duvido. O genitivo exprimiam os indios com antepozição do nome rejido por esse cazo; assim _napê jaçanan_ significaria jaçanan do forno. Demais nem _napê_ quer dizer forno; nem forno indica a idéa que se pretende de pouzo ou ninho.

_Uapê_ aí é o mesmo _igapê_ com a simples diferença de figurar-se a vogal indijena por _u_ em vez de _ig_ adotada pelo geral dos autores.

Paj. 82

_Murinhem_.--Palavra composta de _morib_ afavel e _nheng_ falar.--Veja-se a respeito dos cantores, _nhengara_, o que se disse na nota a paj. 117.

Paj. 86

_Paan_.--Palavra da lingua Macaulí que significa seta--_Creban_ significa homem alvo; e _Agniná_, monte.

Paj. 97

_Tomou a espoza aos hombros_.--Era entre as mulheres selvajens prova de amor, suspenderem-se ás costas daquelles que preferiam, quando as requestavam com cantos e dansas. Assim o atesta Marcgraff cit. «Ubi vespera advenit, coeunt adolescentes in varias cohortes et castra perambulantes cantillant ante tuguria adolescentula autem quæ juvenibus delectantur, produnt et cantillantes atque tripudiantes sequuntur adolescentes _et á tergo consistunt eorum quos amant, id enim ipsis amoris testimonium est_. _Paj. 280_.»

Escaparam-me algumas notas que a intelijencia do leitor suprirá. Todavia rezumirei as de que me recordo neste momento.

Á paj. 44, quando diz Jurandir que conta os anos pelos dedos, quer dizer que não tem mais de vinte, pois tantos são os dedos das mãos e pés.

Á paj. 45, o grande lago que recolheu as aguas do diluvio é o _Manoa_, em cujas marjens se fabulou o _El-Dorado_. _Manoa_ em achagua é diluvio, segundo Gumilha, 2.o vol., 7; palavra homologa ao vocabulo tupí _amana_, que significa chuva.

Á paj. 45, o combate que Jurandir figura entre o mar e o Amazonas é a descrição da pororoca. Elle chama as aguas do mar-guerreiros azues-por causa da côr das vagas, e as aguas do rio-guerreiros vermelhos-porque a corrente do rio é então barrenta.

Á paj. 45, onde se diz que os anos de Guaribú enchiam a corda de sua existencia alude-se ao costume que tinham os selvajens de contar os anos pelos nós que davam em um cordel, outros pelos frutos do colar.

Á paj. 40 faz-se referencia á lenda de Sumê, já muito conhecida. Foi Sumê que ensinou aos tupís a agricultura e os primeiros rudimentos das artes.

Á paj. 54 fala-se de _matumbos_. São as leivas que se fazem no norte para a plantação da mandioca.

INDICE

I--O caçador 5

II--O guerreiro 15

III--A noiva 24

IV--A hospitalidade 37

V--Servo do amor 51

VI--O combate nupcial 61

VII--A guerra 74

VIII--A batalha 85

IX--União dos arcos 92

Notas 101

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