Ubirajara: Lenda Tupi

Part 7

Chapter 73,719 wordsPublic domain

O governo da _taba_, essencialmente democratico, rezidia no conselho dos _moacaras_, entre os quais predominava a experiencia dos anciãos, que se chamavam _abarés_ ou _abaetês_; isto é, varões egrejios.

Nações essencialmente guerreiras, tinham um chefe para governal-as nas jornadas e batalhas. A estes davam o nome de _tuxava_, ou _tauxaba_, o dono da taba, _morubixaba_, o que governa o povo; de _moro_, gente, e _aba_, dezinencia.

Quando as nações eram grandes e não cabiam numa taba, destacavam-se alguns _moacaras_ com suas familias e formavam novas tabas, sujeitas á taba mãi. Daí se orijinaria a diferença das duas dezignações, vindo então _tauxaba_ a dezignar o simples chefe de uma taba; e _morubixaba_ o chefe da taba primitiva, ou da nação, _moro_.

Tambem acontecia que muitas vezes um _moacara_ poderozo separava-se de sua nação por cauza de alguma dissenção intestina, e constituia-se independente com seus decendentes, e os guerreiros a elle sujeitos pelo parentesco. Essa _oca_ independente, chamava-se _moroca_, isto é, oca de gente, de tribu e não mais de familia. O termo _moloca_ tão frequente nos cronistas não é senão corruptela daquelle, e póde corresponder ao de tribu ou horda.

A nomeação do chefe participava da natureza dessa sociedade democratica e guerreira. O mais audaz e o mais forte impunha-se: a permanencia de sua autoridade, bem como sua extensão, dependia do respeito que elle conseguia infundir a seus guerreiros.

No momento em que surjia outro ambiciozo a disputar o poder, este tornava-se o premio do mais valente. Acontecia então que o vencido com seus sectarios revoltava-se; e daí as frequentes guerras intestinas, que aniquilaram a raça indijena, ainda mais talvez do que a crueldade dos europeus.

Na morte do _morubixaba_ ocorria igual pleito. O filho apossava-se do poder pelo direito de herança; e o conservava se não aparecia algum emulo mais poderozo que lh'o arrebatasse.

Falando com as nossas teorias da civilização, podemos dizer que a baze desse poder executivo era, como nas republicas, o sufragio universal. Mas era o sufragio sempre ativo e vijilante, pronto a inclinar-se ao merecimento superior, onde elle se revelasse.

Entre o chefe guerreiro (poder executivo), e o conselho dos _moacaras_ (poder lejislativo) os conflitos eram inevitaveis. Morubixaba haveria, como o celebre Cunhanbebe, que era um verdadeiro despota. O tacape de muito heróe tupí ha de ter governado tão absolutamente como a espada de Cezar ou de Napoleão.

Outros conflitos tambem se deviam dar frequentemente entre a influencia dos _pajés_ e o poder do chefe ou dos anciãos. Aquelles sacerdotes, cercados do respeito dos guerreiros, fortes pelo prestijio de seus augurios e sortilejios, tentariam insuflados pela ambição governar a taba, ou pelo menos fomentar a rezistencia ao chefe.

Eis em escorço as paixões que deviam ajitar aquella sociedade politica, depois da guerra que era a maior preocupação.

Além das ocas, ou familias, havia na taba uma especie de oca mais vasta e comum. Nessa parece que moravam aquellas pessoas, que já não tinham oca, e estavam a cargo da nação; tais eram as _velhas_, e por este nome devem-se entender as mulheres sem companhia de marido, nem parentes; os orfãos, aos cuidados daquellas mãis emprestadas; e finalmente as moças que não faziam vida conjugal.

Vejamos agora a sociedade civil, tal como a podemos induzir dos acanhados esclarecimentos que nos deixaram os cronistas.

O cazamento, baze da familia, devia ter alguma ceremonia simbolica, ainda que não passasse da simples entrega da noiva ao varão. Essa minha supozição funda-se no fato de haver entre esses povos um cazamento bem caracterizado, e não simples coito.

A mulher lejitima distinguia-se pelo nome. O marido a chamava _temireco_, isto é, a verdadeira mãi de meus filhos; emquanto que ás outras mulheres, suas amantes, chamava _aguaçaba_. O marido tinha tambem um nome especial _menda_, que o distinguia do simples amante.

Acrece que para obter a noiva o varão sujeitava-se a certas condições, e até mesmo a provas de corajem; donde devemos inferir com boa razão, que não era esse um ato insignificante para os selvajens, a ponto de não o distinguirem com uma fórmula qualquer, elles que em outros pontos eram tão ceremoniozos, como na recepção do hospede, na declaração da paz ou da guerra.

Os cronistas, porém, não se ocuparam disso e todo seu tempo foi pouco para lamentarem a poligamia dos tupís, tirando logo dalí argumento para pintarem os selvajens vivendo a modo de cães.

É uma falsidade. Os tupís tinham moralidade conjugal, e até muito severa. O adulterio era punido de morte; e tambem por isso permitia-se o divorcio por mutuo consentimento.

A poligamia dos tupís foi da mesma natureza da que existiu entre os hebreus; era uma poligamia patriarcal, filha das condições da vida selvajem, e não a poligamia sensual dos turcos e outros povos do oriente, produzida unicamente pelo requinte da libidinajem.

Compreende-se que no estado selvajem ou primitivo, a mulher, fraca para rezistir aos perigos que a rodeavam, tinha necessidade de acolher-se ao amparo e proteção do homem. Por outro lado cada varão, no interesse não sómente de sua gloria, como de seu poder, carecia rodear-se de uma familia numeroza, e de gerar do seu proprio sangue, os seus guerreiros.

Entretanto, e é isto que distingue a poligamia patriarcal, a posse de muitas mulheres não destruia a instituição da familia, bem caracterizada pela preeminencia da primeira mulher ou a verdadeira espoza; e pela adoção dos filhos nacidos das outras mulheres, que se tornavam todos filhos da espoza, ou da verdadeira mãi, _temireco_.

Muita coiza poderia dizer ácerca da educação dos filhos e da condição da mulher, mas não cabe esse estudo em uma nota. Mais tarde e a propozito é possivel que o faça.

Para a intelijencia do texto basta saber-se que além da espoza, _temireco_, mãi da familia, das amantes, _aguaçabas_, que faziam parte da familia na condição de servas, havia--1.o as virjens, _cunhantem_, mulheres debalde, que pertenciam á familia, e se destinavam para espozas dos guerreiros que as obtivessem pelas provas de esforço e denodo; 2.o as velhas, ou mulheres já privadas de seus maridos, e que ficavam sob a proteção da comunhão, incumbidas da educação dos orfãos, e dos filhos anonimos; 3.o as _moças_ ou mulheres que desprezavam o cazamento e viviam livremente aceitando o amor do guerreiro que lhes agradava, e do qual tinham filhos, que não pertenciam á familia, mas á tribu; eram estas as mulheres que ofereciam seu amor como penhor de hospitalidade ao estranjeiro que chegava á taba; 4.o finalmente, a classe infeliz, abandonada de todo o sentimento e de todo o pudor, á qual davam o nome de _morixaba_, literalmente coiza de todos; ou, segundo o testemunho de Ives d'Evreux, _menondere_, que equivalia a ladra; porquanto entendiam os selvajens que a mulher roubava seu primeiro amante dando ou vendendo a outro o amor que lhe pertencia.

Ainda nesta ultima escala, se estão manifestando as leis severas do recato e fidelidade da união sexual entre os selvajens. Além do cazamento lejitimo, havia o concubinato, como existiu entre os romanos, produzindo direito e obrigação reciproca. A mulher que traía a fé conjugal, ou o concubinato, era uma adultera, isto é, uma ladra e decia á ultima infamia. O marido tinha o direito de matal-a; o amante entregava-a ao desprezo da tribu.

Paj. 10

_Jaguarê agradece a Tupan_.--Não achando entre os aborijenes templos e idolos, ainda que alguns cronistas atestam a existencia dos ultimos, foram os colonizadores peremptoriamente declarando ateus a esses povos. Mas logo, com incoerencia flagrante, reconheciam a existencia de uma superstição, que outra coiza não é a relijião na infancia da humanidade.

Os tupís adoravam uma excelencia superior, Tupan, que se manifestava pelo raio e pelo trovão; donde se induz o grande poder que atribuiam a essa divindade. Seu nome de raça aprezenta uma afinidade que faz prezumir a crença de uma decendencia celeste.

Tambem temiam os tupís o espirito do mal, personificado em Anhanga, o fantasma, que habitava as trévas, e a quem referiam um poder funesto. Para conjurar essa divindade malefica, tinham sacerdotes, os pajés, que buscavam sua força e virtude no fumo da planta sagrada, o tabaco.

Além disso contava a mitologia tupica genios bons e máus, que habitavam as florestas e os rios, e percorriam as solidões montados em caitetús, ou transformados em certos animais. Entre estes mencionarei o caipora e a mãi d'agua, cuja abuzão transmitiu-se á raça conquistadora, e de que ainda se encontram vestijios entre as populações do norte.

Não ha contestar que aí está uma relijião bem caracterizada. Mas como faltassem templos e idolos, os decendentes dos barbaros gaulezes, godos, francos e celtas não podiam admitir na America uma relijião sem culto regular, qual a tiveram aquelles selvajens europeus.

Entre os viajantes que mais tarde percorreram a America havia espiritos superiores, dedicados ao estudo da humanidade, que investigavam sem prevenções a orijem e indole das raças indijenas do novo mundo. Na primeira plaina destes sabios figura Alexandre de Humboldt.

O eminente naturalista assinalou a cauza dessa auzencia de culto dos aborijenes do Brazil, quando observou que o antropomorfismo da divindade se manifesta por dois modos: da terra ao céu, como na Grecia, ou do céu á terra, como na America. _Voyage au Nouveau Continent_--8.o volume, paj. 243.

Quando a imajinação do homem personificando a divindade á sua imajem a faz subir ao céu, como os numes pagãos da Grecia, ella é levada naturalmente a oferecer-lhe uma constante adoração com que mantêm o vinculo da creatura ao creador. Daí a necessidade de idolos, que simbolizem esses numes, e a tenham prezente aos olhos mortais.

Diverso, porém, é quando, concebendo a divindade á sua imajem, o mortal a humana inteiramente, transportando-a do céu á terra. Então o homem figura-se não a creatura, mas o decendente, o filho de seu deus.

Dezaparece a necessidade dos idolos, pois a verdadeira reprezentação da divindade na terra é o mesmo homem que a continúa. Cada um tem o seu nume em si. A adoração transforma-se naturalmente no culto da propria individualidade, nessa exajeração prodijioza do estalão humano, que distingue as idades heroicas.

É pela ostentação da corajem, da força, da grandeza de animo, que o selvajem se elevava até o deus, seu projenitor; e não pela adoração, pelas preces e oferendas uzadas no paganismo grego, o qual estava bem lonje da humildade evanjelica do cristianismo. Os tupís não careciam, pois, de orações e sacrificios; as façanhas com que se mostravam dignos de sua orijem celeste eram as melhores oblações do seu culto.

Tal era o respeito que o selvajem professava pela dignidade humana, que matava as pessoas mais caras quando não se podiam curar da enfermidade. Essa implacavel sujeição ao mal, abatia e humilhava uma raça forte e guerreira.

Muitos outros exemplos podia aprezentar dessa elevada conciencia da individualidade, que distinguia no mais alto ponto o selvajem brazileiro.

Eis o que não souberam ver os cronistas, quando taxaram de ateus aos indijenas americanos.

Abstraindo da moral absoluta em que só ha uma verdade, a do cristianismo, e tomada a questão no ponto de vista da arte, não se póde recuzar a essa relijião tupí, que nivela o homem á divindade, certo cunho de grandeza selvajem e um vigorozo sentimento da individualidade.

O paganismo grego lhe fica inferior nesse ponto da dignidade humana; ao passo que elle tornava a raça de Japeto escrava submissa dos deuzes, e vitima de seus caprichos e vinganças, na mitolojia americana o homem é o filho e o emulo da divindade.

Á parte as ficções graciozas do espirito helenico, a mitolojía grega só tem uma creação que reveste a majestade da relijião tupí; é a creação dos semi-deuzes, em que se operava o antropomorfismo terrestre da divindade, qual se deu na America.

Considerando-se divino, o selvajem americano acreditava-se combatido por um ente malefico, antagonista do deus de quem decendia. Nos achaques e mizeria que aflijem a humanidade via as manifestações desse poder funesto. Os sacerdotes o esconjuravam por sortilejios; os heróes, porém, rezistiam-lhe pela constancia e o afrontavam.

Á essa relijião simples e sem aparato, como devia ser uma relijião das florestas, professada por povos caçadores e guerreiros, coroava a crença profunda e inalteravel da imortalidade da alma, revelada pela veneração ás cinzas dos mortos, e pelas ceremonias da inhumação.

Os indijenas encerravam suas mumias em tumulos especiais, a que davam o nome de _Camucins_; e as acompanhavam não só das armas e objetos de uzo proprio, como de alimentos para a viajem aos campos alegres, onde iam reviver os guerreiros e suas mulheres.

Basta este rapido esboço para dar idéa da relijião dos tupís, e avaliar o criterio daquelles que os consideravam estranhos a qualquer noção da divindade.

Um povo que mantinha as tradições a que aludimos, não era certamente um acervo de brutos, dignos do desprezo com que foram tratados pelos conquistadores. E quando, através de suas falsas apreciações, a verdade pôde chegar até nossos tempos, o que não seria, se espiritos despreocupados e de vistas menos estreitas, vivendo entre essas nações primitivas, se aplicassem ao estudo de suas crenças, tradições e costumes?

Os jezuitas, que podiam melhor realizar esse estudo, eram induzidos a exajerar a ferocidade e ignorancia dos selvajens, no interesse de tornar indispensavel sua catequeze. Já imbuidos da intolerancia relijioza, a politica exajerava ainda mais sua suspeição.

Paj. 11

_Ubiratan_.--Páu-ferro; literalmente _ubira_--madeira, e _atan_--duro. _Atan_ não é senão a palavra _ita_ com a terminação _ana_, que na lingua tupí servia para a formação dos adjetivos. _Itana_, o que tem a natureza de pedra. Assim, de pedra fizemos nós pedregozo. Rigorozamente _ubiratan_ é _páu-pedra_; pois que os indijenas não conheciam o ferro. Era dessa madeira que faziam os tacapes.

Paj. 13

_O chefe tocantim_.--Os autores empregam em geral os termos maioral, principal, para dezignar o cabeça de uma tribu ou nação indijena. Alguns, como Southey, serviram-se do termo cacique adotado dos Araucanos; Barloeus chamou-os classicamente de reis.

Neste livro, como em _Iracema_, preferi traduzir o termo indijena _tuxaba_, por _chefe_; e fui levado pela razão de ser, além de muito apropriado e vulgar, um termo nobre e sucetivel de entrar no estílo o mais elevado, sem laivos de afetação. Ao _morubixaba_ pela mesma razão chamei chefe dos chefes.

Paj. 14

_Calcou a mão sobre o hombro esquerdo_.--Ácerca desse modo simbolico de assegurar o vencedor seu imperio sobre o cativo, é curiozo o que referiu e notou _Ives d'Evreux_, cap. XIV.

«Então eu soube que era uma ceremonia de guerra praticada entre essas nações, que quando um prizioneiro cae na mão de algum, aquelle que o toma, bate-lhe com a mão na espadua dizendo-lhe: «Eu te faço meu escravo»; e desde então esse pobre cativo, por maior que seja entre os seus, se reconhece escravo e vencido, segue o vitoriozo, o serve fielmente, sem que seu senhor se importe com elle; tem liberdade de andar por onde lhe pareça, não faz senão o que quer e ordinariamente espóza a filha ou irmã de seu senhor, até o dia em que deve ser, morto e comido.»

Depois o missionario lembra as palavras de Isaías cap. 9--_Factus est principatus super humerum ejus_--e cap. XXII--_Dabo clavem dominis David super humerum ejus_; e mostra a conformidade desse rito dos tupís com as tradições dos hebreus e outros povos primitivos.

Paj. 15

_Ubirajara_--senhor da lança, de _ubira_--vara e _jara_--senhor; aportuguezando o sentido, vem a ser lanceíro.

Com este nome existia ao tempo do descobrimento, nas cabeceiras do rio S. Francisco uma nação de que fala Gabriel Soares--Roteiro do Brazil, cap. 182.

«A peleja dos Ubirajaras, diz esse escritor, é a mais notavel do mundo, como fica dito, porque a fazem com uns páus tostados muito agudos, de comprimento de tres palmos pouco mais ou menos cada um, e tão agudos, de ambas as pontas, com os quais atiram a seus contrarios como com punhais, e são tão certos com elles que não erram tiro, com o que têm grande chegada; e desta maneira matam tambem a caça que, se lhe espera o tiro, não lhe escapa; os quais com estas armas se defendem de seus contrarios tão valorozamente como seus vizinhos com arcos e flexas, etc.»

Desta arma e da destreza com que a manejavam proveiu o nome de _bilreiros_ que lhe deram os sertanistas, significando assim que tanjiam suas lanças com ajilidade e sutileza igual á da rendeira ao trocar os bilros.

Paj. 15

_Preciza de um prizioneiro_.--Era entre os selvajens maior honra conduzir da guerra um prizioneiro, para ornar o seu triunfo e a festa de vitoria, do que matal-o em combate. Veja Gabriel Soares--cit. na nota 4a.

Paj. 15

_Chamas de alegria_.--Metafora tupí. Chamavam a alegria e a festa _toríba_, literalmente, grande quantidade de fogueiras.

Paj. 17

_Historia de guerra_.--Os tupís para exprimirem historia, ou narrativa, diziam _maranduba_, conto de guerra, de _mara_--guerra--_nheng_--falar e _tuba_--muito; falar muito de guerra.

Depois aplicaram os indijenas essa palavra a toda narrativa, se é que não crearam para as outras historias o termo analogo de _poranduba_, composto de _poro_, _nheng_, e _tuba_--falar muito da gente.

Os indios eram muito apaixonados dessas narrações, em que mostravam sua natural eloquencia. Informa-me o Dr. Coutinho, incansavel explorador do vale do Amazonas, que ainda hoje nenhum indio chega de viajem, que não diga a sua maranduba, que é o recito circumstanciado de quanto viu e lhe aconteceu em caminho.

Ás vezes traduzo o termo; outras o emprego orijinal para mais incutir no livro o espirito indijena. Do mesmo modo procedi ácerca de outros termos eufonicos tais como _tuxaba_, _moribixaba_, _moacara_, _nhengaçara_, _etc_.

Paj. 21

_Os cantores_.--Os tupís eram muito dados á muzica e á dansa.

Lery fala com entuziasmo da doçura de seus cantos; e Ferdinand Denis, paj. 21, afirma, não sei com que fundamento, que a imitação dos Chataws da America do Norte, certas nações do Brazil gozavam do privilejio de fornecer poetas e musicos aos outros povos, como sucedia com os tamoios entre os tupís.

Gabriel Soares--cap. 162--descreve os cantos, improvizos e dansas dos tupinambás, concluindo com estas palavras:

«Entre este gentio, os muzicos são muito estimados e por onde quer que vão, são bem agazalhados e muitos atravessaram já o sertão por entre seus contrarios, sem lhes fazerem mal.»

Paj. 24

_Como chefe pertence-lhe a virjem_, etc, Barloeus--2.a edic. paj. 483.--Quotquot luta, hastarum concursu ac venatu proecellunt, eminentiores habentur et ut hoeroum numero, qui ob virtutis fortitudinisque excellentiam ab ipsis virginibus ambire moerentur, cum meliores ex melioribus nasci opinentur, nec vanum esse nobilitatis nomen, sed cum sanguine transfundi.»--Quantos disputam em jogos de lança e caça; os eminentes são tidos no numero dos heróes; os quais pela excelencia da virtude e fortaleza merecem possuir as mesmas virjens; por quanto pensam que os melhores nacem dos melhores; nem é vão nome a nobreza, pois se comunica pela transfuzão do sangue.

Paj. 25

_Purifica o corpo_.--Os selvajens distinguiam-se pelo apurado asseio. Ives d'Evreux diz a este respeito: «Ils sont fort soigneux de tenir leur corps net de toute ordure: ils se lavent fort souvent tout le corps et ne se passe jour qu'ils ne jettent sur eux force eau et se frottent avec les mains de tous côtés et en toutes les parts, pour oster la poudre et autres ordures. Les femmes ne manquent de se peigner souvent.»

Pag. 25

_Urú_.--Tinham os indijenas varias especies de moveis para guardar objetos. O _urú_ era um cesto aberto. _Panacum_ era um cesto maior com tampa. _Samburá_ era cesto com orelha, corrupção de _nambi_ e _urú_, literalmente cesto de orelha. Tinham ainda os selvajens o _patiguá_ ou _patuâ_, que era uma caixa de palha ou couro; e o _mocô_, pequeno surrão da pele felpuda do coelho. Todos estes nomes ainda são uzados no norte para dezignar os mesmos objetos, produtos da industria indijena, aproveitada pelos colonizadores.

Paj. 26

_Coqueiros_.--Ao que disse em nota de Iracema ácerca do indijenismo desta planta acrecentarei a noticia que della nos deixou Guilherme Piso--_Historiæ Rerum Naturalium Brasiliæ_, Liv. 8o, p. 138.

«_Inaiá Guacuiba_ cujus fructus _inaiaguacu_ brasiliensibus; in congo vocatus _Ejaquiambutu_ et fructus _Quetiniga quiambutu_: Palma nucifera, lusitanis _coqueiro_ et fructus illius _coco_; qui tribus suis foraminulis lavam representat. Arbor caudice raro recto, sed plerumque incurvato, quatuor, quinque sex aut etiam septem pedes crasso, triginta, quadraginta et interdum quinquaginta pedes alto.»

É esta mesma palmeira que os Mexicanos chamavam _Cogolli_. Piso viu em 1640 na cidade Mauricéa (Recife) transplantarem-se pés que tinham mais de 24 anos.

Paj. 28

_Cabelos_.--Pelos cabelos costumavam distinguirem-se as diversas nações indijenas. Southey--I, cap. 8o. Das mulheres diz Barloeus:--_Foeminis coma promissa nisi per luctus tempora aut absens marito_.--paj. 36. Traziam as mulheres a madeixa longa, salvo no tempo do luto ou auzencia do marido.

Mais um traço do carater e costumes indijenas. Durante a auzencia do marido, a mulher trazia uma especie de luto, ou mostra de tristeza e saudade, que era simbolizada pelo sacrificio das longas tranças dos cabelos.

Paj. 28

_Braços que tu querias para tua cintura_.--Metafora da lingua tupí, que exprime o amor; _aguaçaba_, a amante, literalmente, o que se tem á cintura.

Paj. 31

_Escravo_.--Acerca das leis do cativeiro entre os indios leiam-se os dois capitulos XV e XVI, que a este assunto consagrou Ives d'Evreux, citado.

Os cativos viviam em plena liberdade na taba de seus senhores, e era muito raro que fujissem, porque se consideravam ligados por um vinculo desde o momento em que o vencedor lhes calcava a mão sobre a espadua. Quebrar esse vinculo, era por elles considerado uma dezhonra.

Até os prizioneiros destinados ao suplicio, preferiam a morte glorioza a se rebaixarem pela fuga no conceito de seus inimigos. «Muitas vezes as mulheres tomavam substancias que provocavam o aborto, não querendo passar pela mizeria de verem trucidada a prole; não raro favoreciam a fuga dos tristes maridos de alguns dias pondo-lhes comida nos bosques e até escapulindo-se com elles. Frequentemente sucedeu isto a prizioneiros portuguezes; os indios brazileiros, porém, julgavam dezhonroza a fuga, nem era facil persuadil-os a tomal-a.» Southey--cap. VII onde cita--Noticias do Brazil, II, 69 e Herrera 4, 3, 13.

Abbeville ainda é mais explicito:--Et bien que estant desliez et libres comme ils sont, ils puissent fuir et se sauver, si est ce que ils ne font jamais encore qu'ils soient assurez de estre tuez et mangez au bout de quelques temps. Car si quelqu'un des prisionniers s'etait eschapé pour retourner em son pays, non seulement il serai tenu pour un _couaen eum_, c'est a dire poltron et lasche de courage; mais aussi ceux de sa nation mesme ne manqueroient de le tuer avec mille reproches de ce qu'il n'aurait pas eu le courage d'endurer la mort parmi ses ennemis, comme si ses parents et tous ses semblables n'etaient assez puissants por venger sa mort, etc. pag. 290.

As leis da cavalaria no tempo em que ella floreceu em Europa não excediam por certo em pundonor e brios a bizarria dos selvajens brazileiros. Jámais o ponto de honra foi respeitado como entre estes barbaros, que não eram menos galhardos e nobres do que esses outros barbaros, godos e arabes, que fundaram a cavalaria.