Ubirajara: Lenda Tupi

Part 6

Chapter 63,887 wordsPublic domain

Um mensajeiro de Itaquê o precedera no campo dos araguaias.

Ubirajara, cercado de seus abarés, chefes, moacaras e guerreiros, veiu ao encontro do morubixaba dos tocantins.

A alma do grande chefe araguaia encheu-se da alegria de ver Arací; mas elle retirou os olhos da espoza, para que o amor não perturbasse a serenidade do varão.

--Ubirajara está em face de Itaquê; para combatel-o se trouxe a guerra, para abraçal-o se trouxe a paz.

--Nunca Itaquê pediu a paz ao inimigo que lhe trouxe a guerra, antes de o vencer; nem teria vivido tanto para cometer essa fraqueza. Elle vem trazer-te a vitoria para que tu a repartas com seu povo.

O velho heróe avançou o passo:

--Chefe dos araguaias, tu levaste a guerra á taba dos tocantins para conquistar Arací, a filha de minha velhice.

«Por teu heroismo, e ainda mais pela nobreza com que restituiste a liberdade a Pojucan, tu merecias uma espoza do sangue tocantim.

«Mas desde que tu ameaçaste tomal-a pela força de teu braço, Itaquê não podia mais conceder-te a filha de sua velhice, senão depois que abatesse teu orgulho.

«Elle preparava-se para te combater, e á tua nação; mas fujiu-lhe dos olhos a luz que dirije a seta da guerra; e não ha entre seus guerreiros um que possa brandir o arco do grande Tocantim.»

Quando pronunciou estas palavras, a voz do velho guerreiro sossobrou-lhe no peito:

--O arco de Itaquê é como o gavião que perdeu as azas e não póde mais levar a morte ao inimigo. As andorinhas zombam de suas garras.

«Empunha o arco de Itaquê, chefe dos araguaias, e tu conquistarás por teu heroismo uma espoza e uma nação.

«Á espoza farás mãi de cem guerreiros como Itaquê; e á nação conservarás a gloria que ella conquistou quando o filho de Javarí a conduzia á guerra.

«Tupan dará a teu braço esta força para que o sangue de Itaquê brote mais vigorozo e os netos de Tocantim dominem as florestas.»

Ubirajara sorriu:

--Chefe dos tocantins, teus olhos não podem ver o grande arco da nação araguaia; mas pergunta á tua mão, se o arco que Camacan brandia invencivel e agora empunha Ubirajara, cede ao arco de Itaquê.

O velho heróe palpou o arco chefe dos araguaias e vergou-lhe a ponta ao hombro, como se a haste fosse de taquarí.

Ubirajara travou do arco de Itaquê e desdenhando fincal-o no chão, elevou-o acima da fronte. A flecha ornada de penas de tucano partiu.

O semblante de Itaquê remoçou, ouvindo o zunido que lhe recordava o tempo de seu vigor. Era assim que elle brandia o arco outr'ora, quando as luas creciam aumentando a força de seu braço.

O velho inclinou a fronte para escutar o sibilo de sua flecha que talhava o azul do céu. Os cantores não tinham para elle mais doce harmonia do que essa.

Ubirajara largou o arco de Itaquê para tomar o arco de Camacan. A flecha araguaia tambem partiu e foi atravessar nos ares a outra que tornava á terra.

As duas setas deceram trespassadas uma pela outra como os braços do guerreiro quando se cruzam ao peito para exprimir a amizade.

Ubirajara apanhou-as no ar:

--Este é o emblema da união. Ubirajara fará a nação tocantim tão poderoza como a nação araguaia. Ambas serão irmãs na gloria e formarão uma só, que ha de ser a grande nação de Ubirajara, senhora dos rios, montes e florestas.

O chefe dos chefes ordenou que tres guerreiros araguaias e tres guerreiros tocantins, ligassem com o fio do crautá as hastes dos dois arcos.

Quando o arco de Camacan e o arco de Itaquê não fizeram mais que um, Ubirajara o empunhou na mão possante e mostrou-o ás nações:

--Abarés, chefes, moacaras e guerreiros de minhas nações, aqui está o arco de Ubirajara, o chefe dos grandes chefes. Suas flechas são gemeas, como as duas nações, e voam juntas.

Ambas as cordas brandiram a um tempo. A seta araguaia e a seta tocantim partiram de novo como duas aguias que par a par remontam ás nuvens.

Quando se calou a pocema do triunfo, Ubirajara caminhou para a filha de Itaquê:

--Arací, estrela do dia, tu pertences a Ubirajara que te conquistou pela força de seu braço. Agora que é senhor, elle espera tua vontade.

A formoza virjem rompeu a liga vermelha que lhe cinjia a perna, e atou-a ao pulso de seu guerreiro.

Ubirajara tomou a espoza aos hombros e levou-a á cabana do cazamento.

O jasmineiro semeava de flôres perfumadas a rêde do amor.

* * * * *

O outro sol rompia, quando os tapuias estenderam pela campina a multidão de seus guerreiros.

Na frente assomava Agniná, a montanha dos guerreiros, ainda mais feroz do que o irmão, o terrivel Canicran.

De um lado e do outro seguiam-se os chefes, cada um á frente de seus guerreiros.

Ubirajara escolheu mil guerreiros araguaias e mil guerreiros tocantins, com que saiu ao encontro dos tapuias.

Depois que desdobrou sua batalha pela campina, o chefe dos chefes caminhou só para o inimigo.

Quando chegava a meio do campo, os tapuias levantaram a pocema de guerra, que atroou os ares, como o estrépito da cachoeira.

Um turbilhão de setas crivou o longo escudo do heróe, que ficou semelhante ao grosso tronco da jussára, erriçado de espinhos.

Ubirajara embraçou o escudo na altura do hombro, e com o pé brandiu sete vezes a corda do grande arco gemeo.

As setas vermelhas e amarelas subiram direitas ao céu e se perderam nas nuvens.

Quando voltaram, Agniná e os chefes que obedeciam a seu arco, tinham cada um fincado na cabeça o dezafio do formidavel guerreiro.

Enfurecidos mais pelo insulto, do que pela dôr, arremessaram-se contra o inimigo que os esperava coberto com seu vasto escudo.

Agniná era o primeiro na corrida, e o primeiro na sanha. Após elle vinham os outros, a dois e dois, lutando na rapidez.

Quando o espozo de Arací viu que elles se estendiam pela campina, como dois ribeiros que se aproximam para confundir suas aguas, o heróe empunhou a lança de duas pontas e soltou seu grito de guerra que era como o bramir do jaguar, senhor da floresta.

Seu pé devorou o espaço; e a lança de duas pontas girou em sua mão, como a serpente que se enrosca nos ares silvando.

Caiu Agniná do primeiro bote; após elle caíram aos dois os chefes tapuias, como caem os juncos talhados pelo dente afiado da capivara.

Então o heróe soltou seu grito de triunfo, que era como o rujido do vento no dezerto:

--Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro invencivel que tem por arma uma serpente.

«Eu sou Ubirajara, o senhor das nações, o chefe dos chefes, que varre a terra, como o vento do dezerto.»

O heróe estendeu a vista pela campina, e não descobriu mais o inimigo, que se sumia na poeira.

Ubirajara lançou-lhe seus guerreiros, que tinham fome de vingança; porém o terror de sua lança dava azas aos fujitivos.

Desde esse dia nunca mais um tapuia pizou as marjens do grande rio.

* * * * *

Ubirajara voltou á cabana, onde o esperava Arací.

A espoza despiu as armas de seu guerreiro, enxugou-lhe o corpo com o macio cotão da monguba, e cobriu-o do balsamo fragrante da embaiba.

Encheu depois de generozo cauim a taça vermelha feita do côco da sapucaia; e aplacou a sêde do combate.

Emquanto nas grandes tabas se preparava a festa do triunfo e o heróe repouzava na rêde, Arací foi ao terreiro, e voltou conduzindo Jandira pela mão.

--Arací, tua espoza, é irmã de Jandira. Ubirajara é o chefe dos chefes, senhor do arco das duas nações. Elle deve repartir seu amor por ellas, como repartiu sua força.

A virjem araguaia pôz no guerreiro seus olhos de corça.

--Jandira é serva de tua espoza; seu amor a obrigou a querer o que tu queres. Ella ficará em tua cabana para ensinar a tuas filhas como uma virjem araguaia ama seu guerreiro.

Ubirajara cinjiu ao peito com um e outro braço, a espoza e a virjem.

--Arací é a espoza do chefe tocantim; Jandira será a espoza do chefe araguaia; ambas serão as mãis dos filhos de Ubirajara, o chefe dos chefes, e o senhor das florestas.

* * * * *

As duas nações, dos araguaias e dos tocantins, formaram a grande nação dos Ubirajaras, que tomou o nome do heróe.

Foi esta poderoza nação que dominou o dezerto.

Mais tarde, quando vieram os caramurús, guerreiros do mar, ella campeava ainda nas marjens do grande rio.

FIM

NOTAS

ADVERTENCIA

Este livro é irmão de Iracema.

Chamei-lhe de lenda como ao outro. Nenhum titulo responde melhor pela propriedade, como pela modestia, ás tradições da patria indijena.

Quem por desfastio percorrer estas pajinas, se não tiver estudado com alma brazileira o berço de nossa nacionalidade, ha de estranhar entre outras coizas a magnanimidade que resumbra no drama selvajem e lhe fórma o vigorozo relevo.

Como admitir que barbaros, quais nos pintaram os indijenas, brutos e canibais, antes féras que homens, fossem sucetiveis desses brios nativos que realçam a dignidade do rei da creação?

Os historiadores, cronistas e viajantes da primeira época, se não de todo o periodo colonial, devem ser lidos á luz de uma critica severa. É indispensavel sobretudo escoimar os fatos comprovados das fabulas a que serviam de mote, e das apreciações a que os sujeitavam espiritos acanhados, por demais embuidos de uma intolerancia rispida.

Homens cultos, filhos de uma sociedade velha e curtida por longo trato de seculos, queriam esses forasteiros achar nos indijenas de um mundo novo e segregado da civilização universal uma perfeita conformidade de idéas e costumes. Não se lembravam, ou não sabiam, que elles mesmos provinham de barbaros ainda mais ferozes e grosseiros do que os selvajens americanos.

Desta prevenção não escaparam muitas vezes espiritos graves e bastante ilustrados para escreverem a historia sob um ponto de vista mais largo e filozofico.

Entre muitos citarei um exemplo. Barloeus referindo as justas que se faziam entre os selvajens para obterem em premio de seu valor a virjem mais formoza, não se esqueceu de acrecentar este comento--_finis spectantium est voluptas_.

Narrados com este pessimismo, as cenas da cavalaria, os torneios e justas não passariam de manejos inspirados pela sensualidade. Nada rezistiria á censura ou ao ridiculo.

Por igual teor, senão mais grosseiras, são as apreciações de outros escritores ácerca dos costumes indijenas. As coizas mais poeticas, os traços mais generozos e cavalheirescos do carater dos selvajens, os sentimentos mais nobres desses filhos da natureza, são deturpados por uma linguajem impropria, quando não acontece lançarem á conta dos indijenas as extravagancias de uma imajinação desbragada.

Releva ainda notar, que duas classes de homens forneciam informações ácerca dos indijenas: a dos missionarios e a dos aventureiros. Em luta uma com outra, ambas se achavam de acôrdo nesse ponto, de figurarem os selvajens como féras humanas. Os missionarios encareciam assim a importancia de sua catequese; os aventureiros buscavam justificar-se da crueldade com que tratavam os indios.

Faço estas advertencias para que, ao lerem as palavras textuais dos cronistas citados nas notas seguintes, não se deixem impressionar por suas apreciações muitas vezes ridiculas. É indispensavel escoimar o fato dos comentos de que vem acompanhado, para fazer uma idéa exata dos costumes e indole dos selvajens.

* * * * *

Paj. 5

_Grande rio_.--Os tupís chamavam assim ao maior rio que existia na rejião por elles habitada: e daí rezultou ficarem tantos rios com essa dezignação na lingua orijinal ou traduzida.

O rio grande de que se trata nesta lenda é o Tocantins, em cujas marjens se passa a ação dramatica.

Paj. 5

_Jaguarê_.--Nome composto de _Jaguar_, a onça e o sufixo _ê_ que na lingua tupí reforça emfaticamente a palavra a que se liga. _Jaguarê_, significa, pois, a onça, verdadeiramente onça, digna do nome, por sua força, corajem e ferocidade.

Paj. 5

_Uiraçaba_.--Nome que davam os tupís á aljava, de _uira_--seta e _aba_--dezinencia exprimindo o logar, modo e instrumento; literalmente «o que tem a seta.»

Os selvajens a faziam, ou do tubo de taquarussú, ou da casca de certas arvores, guarnecida de fios embebidos de rezina, o que as tornava muito rezistentes.

Paj. 6

_Nome de guerra_.--«Mal nacia a criança logo se lhe punha nome. Hans Stade achou-se prezente numa dessas ocaziões. Convocou o pai aos mais proximos vizinhos de dormitorio, pedindo-lhes para o filho um nome viril e terrivel; não lhe agradando nenhum dos propostos, declarou que ia escolher o de um de seus quatro antepassados, o que daria fortuna ao rapaz, e repetindo-o em voz alta, fixou a escolha. Ao chegar á idade de ir á guerra, dava-se outro nome ao mancebo que aos seus titulos ia acrecentando um por inimigo que trazia para caza a ser imolado. Tambem a mulher tomava adicional apelido quando o marido dava uma festa antropofaga. De objetos viziveis se tirava o cognome, determinando o orgulho ou a ferocidade a escolha. O epiteto _grande_ frequentemente se compunha com o nome. Southey, _H. do Brazil_, tom. 1o, cap. 8o, paj. 336.

Póde-se ler tambem a este respeito o que diz Gabriel Soares, cit. no cap. 160, ácerca do nome que tomava o tupinambá quando matava o contrario, e no cap. 164 onde acrecenta: «Acontece muitas vezes cativar um tupinambá a um contrario na guerra, onde o não quiz matar para o trazer cativo para sua aldêa, onde o faz engordar com as ceremonias já declaradas para o deixar matar a seu filho quando é moço e não tem idade para ir á guerra, o qual o mata em terreiro, como fica dito, com as mesmas ceremonias; mas atam as mãos ao que ha de padecer, _para com isso o filho tomar nome novo e ficar_ armado cavaleiro e mui estimado de todos.»

A este trecho de Gabriel Soares é precizo dar o devido desconto ácerca da engorda do cativo, e do papel insignificante que reprezenta o mancebo. Devemos crer que entre gente, cuja alma era a guerra, o titulo de guerreiro não se conferia ao mancebo que não fizesse prova real de seu esforço e corajem.

Ives d'Evreux, cap. XXI, trata minuciozamente da graduação que a idade estabelecia entre os tupís. Havia para os guerreiros seis classes: 1o das crianças até dois anos, _mitanga_, que significa chupador ou mamador; 2o _curumim mirim_, isto é o pequeno que balbucia; compreendia os meninos até sete anos; 3o _curumim_ simplesmente, correspondia á segunda infancia de 7 a 15 anos; 4o _curumim-guassú_, era a adolecencia, em que os rapazes se empregavam na caça e na pesca; 5o _aba_--o homem, indicava o principio da virilidade, o qual logo que se cazava tornava-se apiaba, o varão, ou como diz d'Evreux, _mendarama_, o cazado; 6o _tijubaê_, o ancião ou veterano, o homem de experiencia, guerreiro consumado.

Paj. 6

_Jandira_.--O nome é _jandaíra_, de uma abelha que fabrica excelente mel; Jandira é uma contração mais eufonica daquelle nome, que tambem por sua vez é contração de _Jemonhaíra_, que fabrica mel.

Paj. 6

_Aratuba_.--Palavra que se compõe de _ara_--o sol e _tuba_--infinito do verbo _ajub_--estar deitado. Vem a ser a significação _leito do sol_, aplicada pelos indios á montanha do poente, onde o sol se esconde no seu ocazo.

Paj. 6

_Lança_.--O uzo da lança não era comum aos selvajens, que empregavam de preferencia o arco, o tacape, a macana, e a igarapema, especie de remo, que fazia as vezes de partazana. Outros escrevem _iverapema_; mas o nome é aquelle de _igara-pema_, espada da canôa; basta ver-lhe a fórma para compreender seu duplo destino.

Paj. 6

_Craúba_.-É a mesma _carabiuba_ dos indios, assim contraída pelo uzo dos nossos sertanejos. Madeira roxa, excessivamente rija, que não cede ao páu-ferro no pezo e na dureza.

Paj. 7

_A liga vermelha_.--Era este um dos mais curiozos e interessantes ritos dos tupís.

Quando a menina atinjia a puberdade, depois de sua purificação, da qual tratam os autores, especialmente Orbigny e Thevet, a mãi punha-lhe nas pernas, abaixo do joelho, uma liga de fio de algodão tinta de vermelho, de tres dedos de largura, e tecida no proprio logar de modo que uma vez fechada, não era mais possivel tiral-a. Vide Gabriel Soares, cap. 153.

A essa liga chamavam _tapacora_, e não a podia trazer senão a virjem, de modo que se acontecesse quebrar a castidade havia de rompel-a, para que todos conhecessem sua falta. Eis como Gabriel Soares se exprime a este respeito no cap. 152: «E como o marido lhe leva a flôr, é obrigada a noiva a quebrar estes fios para que seja notorio que é feita dona; e ainda que uma moça destas seja deflorada por quem não seja seu marido, ainda que seja em segredo, ha de romper os fios de sua virjindade, que de outra maneira cuidará que a leva o diabo, os quais dezastres lhes acontecem muitas vezes, etc.»

Este simples traço é bastante para dar uma idéa da moralidade dos tupís, e vingal-a contra os embustes dos cronistas, que por não compreenderem seus costumes, foram-lhes emprestando gratuitamente, quanto inventavam exploradores mal informados e prevenidos.

Em que sociedade civilizada se observa tão profundo respeito pela união conjugal, a ponto de não consentir-se que a mulher decaída conserve o segredo de sua falta, e iluda o homem que a busque para espoza?

A rezignação com que a moça culpada rompia a liga da virjindade, e fazia confissão publica de seu erro, é um exemplo da lealdade do carater tupí e da veneração que inspiravam os ritos de sua relijião.

Nega Southey, cap. VIII, que a liga vermelha e o respeito que ella inspirava indicassem guarda da castidade, porquanto a castidade como a caridade é virtude da civilização; do mesmo modo considera o amor uma delicadeza da vida civilizada. São paradoxos de escritor. Sentimentos naturais á creatura humana, dezenvolvem-se nella em qualquer estado e condições.

Não é possivel negar a castidade da mulher tupí; além desse recato da virjindade, prova-a de modo cabal a continencia que homens e mulheres guardavam em certas circumstancias. Assim, nenhum homem tinha relações com a mulher inubil, nem ella o consentia; o proprio marido não violava essa lei, embora tivesse a espoza em seu poder. Gabriel Soares cit. Durante a gravidez e a amamentação interrompia-se absolutamente o ajuntamento conjugal. (Barloeus 2a edic.)

Onde está a sociedade civilizada, que observe leis tão rigorozas, e refreie os instintos sensuais com a severidade uzada pelos tupís?

Poderiamos fazer muitas outras observações que rezervamos para um estudo especial ácerca dos selvajens brazileiros.

Paj. 7

_Tocantim_.--Compõe-se de _tocano_ e _tim_; literalmente o nariz, o rostro do tucano. Nome que tomou um guerreiro por trazer na cabeça o despojo de um tucano com o grande bico da ave; e que transmitido a uma nação selvajem, ficou dezignando o rio a cujas marjens vivia.

Paj. 7

_Taarí_.--Rio que despeja no Tocantins, pouco depois da confluencia do Araguaia. Indica o logar da cena.

Paj. 7

_Araguaia_.--O nome é araguara, de _ara_ e _guara_, literalmente, os guerreiros das araras, porque uzavam nos seus ornatos das penas encarnadas daquellas aves. Conservei a versão que ficou no nome do rio.

Paj. 8

_Arací_.--Esta palavra tupí compõe-se de _ara_, dia, e _ceí_ ou _cejí_, grande estrela. Este ultimo nome davam os indijenas ás pleiades, que lhes serviam para contar os anos.

Paj. 8

_Cem dos melhores guerreiros_.--Nesta e outras frazes identicas, os numerais cem ou mil não reprezentam algarismo exato, que não os tinham os tupís para exprimir numero tão elevado. Traduzem apenas esses termos a dezinencia _tiba_, com que os tupís dezignavam cópia e multidão.

Paj. 9

_Canitar_.--Enfeite de cabeça. Adotei esta dezignação empregada pelos autores sob a autoridade de Hans Stade por me parecer mais eufonica. A exata lição pede _acanga atara_.

Paj. 9

_As duas nações não estão em guerra_.--As nações tupís não viviam em um estado perene de guerra, como propalaram alguns escritores. A guerra era frequente; mas não constante. As nações faziam a paz e nella se mantinham até que sobrevinha alguma cauza de rompimento. Então não começavam as hostilidades senão depois de anunciada a guerra ao inimigo, o que se fazia lançando-lhe uma flecha na taba, ou levando-lhe um guerreiro o dezafio.

É uma prova do carater leal dos selvajens. Foi depois da colonização, que os portuguezes, assaltando-os como a feras, e caçando-os a dente de cão, ensinaram-lhes a traição que elles não conheciam.

Paj. 10

_Pojucan_.--Contração de uma fraze tupica._I-pojuca_;--significa: eu mato gente. Essas contrações não são arbitrarias; ellas eram da indole da lingua e conformes ao seu sistema de aglutinação. Todas as vezes que os indijenas compunham uma palavra, cerceavam as sílabas dos vocabulos que entravam na compozição, para ligal-as mais eufonicamente.

Lemos em Alfred Maury _La Terre et l'homme_, cap. VIII, o seguinte trecho:

«Nas linguas americanas, não é sómente uma sinteze que concentra em uma palavra todos os elementos da idéa mais complexa; ha ainda engrazamento (enchevêtrement) das palavras umas nas outras; é o que M. F. Lieber chama _incapsulação_, comparando a maneira por que as palavras entram na fraze a uma caixa na qual se conteria outra que a seu turno conteria terceira, esta uma quarta, e assim por diante. A incorporação das palavras é por vezes levada á extrema exajeração nesses idiomas, o que produz a mutilação dos vocabulos incorporados.»

Esta observação é da maior justeza e conforma-se de todo o ponto com a indole da lingua, como se vê nas seguintes palavras--_A-por-u_--como gente--_A-poro-tim_--enterro gente--_A-po-çub_--vizito a gente. (Vide Figueira, _Gramatica da lingua do Brazil_, paj. 51.)

Paj. 10

_Tapuia_.--de _taba_ e _puir_, o que foje das tabas. Davam os indijenas esse nome a povos mais barbaros e de lingua diversa. Segundo as ultimas investigações etnolojicas, pertenciam esses povos a uma raça diversa da tupí, e muito aproximada, senão conjenere do tipo mongolico. Entretanto Orbigny, _L'Homme Américain_, sustenta a identidade das duas raças, tapuia e tupí.

Paj. 10

_Tacape_.--Davam os tupís o nome de _apem_, a um corpo alongado de fórma analoga á espada, e como ella cortante. Daí vinha chamarem a unha--_po-apem_, espada do dedo; e á raiz que surje da terra e se eleva como um galho--_sapopema_--raiz espada.

Á sua principal arma de guerra chamavam _ita-ca-apem_, espada de páu-pedra; ou _ita-qui-apem_, machado comprido de pedra, por ter sido dessa materia que primeiro o fabricaram, antes de aprenderem a lavrar a madeira.

Ácerca da força dessa arma e da destreza com que a manejavam, diz Lery que um tupinambá com ella armado daria que fazer a dois soldados de espada.

Paj. 10

_Guerreiro chefe_.--Para compreender-se bem a força dessa dezignação, diremos alguma coiza ácerca da hierarquia selvajem.

Como a relijião, era simples o governo dos tupís; mas não careciam delle, segundo inculcam os cronistas: antes o tinham, e bem regulado para o seu estado de civilização.

Podemos distinguir na taba selvajem uma sociedade civil e uma sociedade politica; a primeira reduzida á familia, e a segunda excluziva á subzistencia, defeza e guerra.

A sociedade civil era constituida pela _oca_, a caza, onde o varão, _aba_, morava com suas mulheres, sua prole, os servos que trabalhavam para granjear as filhas em cazamento, os cativos que fazia na guerra, e os parentes que agregava a si.

O dono da caza, ou literalmente o que fazia a caza, _moacara_, era a perfeita imajem do patriarca. Elle governava a sua gente; e formava uma sociedade independente, no seio da grande sociedade politica, de que era membro e para cuja defeza concorria não só por interesse proprio, mas pela honra da nação.

_Moacara_ nos dicionarios significa fidalgo. A tradução resente-se da preocupação do homem civilizado; mas havia realmente uma distinção entre o _moacara_, chefe da oca, pai de muitos guerreiros, e o simples individuo que ainda não possuia uma familia.

A sociedade politica, _taba_, era a reunião das ocas. Essa denominação vem de _tama_, a patria, o berço, a terra natal, e _aba_ dezinencia que indica o logar, modo, instrumento da coiza. Assim, _taba_ significa literalmente onde ou o que faz a patria, isto é, aldeia natal.