Part 5
«Quem está aqui é um guerreiro armado, que piza senhor a taba de seus inimigos.
«Itaquê, morubixaba dos tocantins, Ubirajara, o senhor da lança, grande chefe dos araguaias, te envia a guerra na ponta de sua seta.»
Quando o guerreiro acabou de proferir estas palavras, Itaquê levantou os olhos e viu cravada na figura do tucano, que era o simbolo da nação, a seta de Ubirajara.
Mil arcos se ergueram, mil tacapes brandiram. A voz possante de Itaquê abateu as armas de seus guerreiros.
Disse o morubixaba:
--A lei de hospitalidade é sagrada. A cólera do estranjeiro não deve perturbar a serenidade do varão tocantim.
Depois voltou-se para o inimigo:
--Ubirajara, grande chefe dos araguaias: Itaquê, o pai da poderoza nação tocantim aceita a guerra que tu lhe enviaste. Recebe em teu escudo o penhor do combate.
A corda do grande arco da nação tocantim brandiu, e a seta de Itaquê mordeu o escudo de Ubirajara.
--Vai buscar teus guerreiros e nós combateremos á frente das nações.
--Ubirajara combaterá até que lhe restituas a espoza; assim como elle a conquistou a seus rivais, saberá conquistal-a a ti e á tua nação.
O chefe araguaia partiu. No seio da floresta encontrou Arací que o esperava.
A formoza virjem fôra á cabana do cazamento buscar a rêde nupcial e preparar-se para acompanhar o espozo.
--Ubirajara parte; mas antes de cinco sóes elle estará aqui para te conquistar á tua nação.
--A espoza te acompanha. Teu braço valente já a conquistou; e ella entregou-se a seu senhor. Arací te pertence; deves leval-a.
A virjem tocantim dezejava seguir Ubirajara á taba dos araguaias. Falava em sua alma a ternura da espoza e da irmã.
Partindo, ella unia-se para sempre a seu guerreiro, e esperava que o amor o moveria a salvar Pojucan.
Ubirajara pensou e disse:
--Se Ubirajara tivesse rompido a liga de Arací, ella era sua espoza, e ninguem a arrebataria de seus braços. Mas a virjem tocantim não póde abandonar a cabana onde naceu sem a vontade de seu pai.
Arací suspirou:
--Ubirajara vai deixar a lembrança de Arací nos campos dos tocantins. Jandira o espera na taba dos araguaias, e lhe guarda o seu sorrizo de mel.
--A luz de teus olhos, Arací, estrela do dia, foi buscar Ubirajara na taba dos seus, onde resoavam os cantos de seu triunfo, e o trouxe á tua cabana.
«Quando elle partiu encontrou Jandira, e para que a filha de Majé não o acompanhasse a deu a Pojucan, como espoza do tumulo.»
--O goaná do lago vôa lonje, para banhar-se nas aguas da chuva que alagaram a varzea; mas logo volta ao seu ninho, e não se lembra mais da moita onde dormiu.
--Ubirajara é um guerreiro; elle não aprende com o goaná do lago, que foje do perigo, mas com o gavião, grande chefe dos guerreiros do ar, que nunca mais abandona o rochedo onde assentou a sua oca.
--Se Ubirajara amasse a espoza, tambem não a abandonaria. Os braços de Arací já cinjiram o colo de seu guerreiro. O tronco não desprende de si a baunilha que se entrelaçou em seus galhos.
Ubirajara calcou a mão sobre a cabeça de Arací:
--Itaquê respeitou a lei de hospitalidade no corpo de Ubirajara, Ubirajara não deixará a traição na terra hospedeira.
«Arací não deve querer para espozo um guerreiro menos generozo do que seu pai.»
A virjem emudeceu. Ella sabia que a honra é a primeira lei do guerreiro.
Antes de partir, o chefe consolou a espoza:
--Ubirajara vai pedir ao gavião suas azas para voltar ao seio de Arací. Elle virá á frente de sua nação, conduzido pela luz de teus olhos.
«As outras mulheres são o premio de um combate entre os servos de seu amor. Arací terá essa gloria, que ella será o premio da maior guerra que já viram as florestas.»
O chefe araguaia pôz as mãos nos hombros de Arací; duas vezes uniu o seu ao rosto della, por uma e outra face, para exprimir que nada os podia separar.
Quando o guerreiro dezapareceu na floresta, Arací caminhou para a cabana do espozo, que ficára triste e solitaria.
A virjem fechou a porta; sentou-se na soleira, e cantou sua tristeza.
Dois sóes tinham passado, e viera a noite.
A ultima estrela se apagava no céu, quando Ubirajara pizou os campos dos araguaias.
Sua mão robusta, vibrando a clava, feriu o trocano. A voz da nação araguaia derramou-se ao lonje pelo vale, como o estrondo da montanha que arrebenta.
Com o primeiro raio do sol que subia o pincaro da serra, chegaram á grande taba os chefes das cem tabas araguaias, com todos seus guerreiros, convocados á ocara da nação.
Ubirajara mandou que Pojucan, o prizioneiro, viesse á sua prezença:
--Vê o mar dos meus guerreiros que enche a terra, como as aguas do grande rio quando alaga a varzea. Elles esperam o aceno de Ubirajara para inundarem teus campos.
«A nação tocantim carece neste momento do braço de seus maiores guerreiros; vai levar-lhe o socorro de teu valor, para que se aumente a gloria de Ubirajara, seu vencedor.
«Tu és livre, Pojucan; parte e vôa, que a guerra dos araguaias te segue os passos.»
O semblante do filho de Itaquê ficou sombrio:
--Pojucan é um chefe ilustre; não merece esta dezhonra. Tu lhe prometeste a morte dos bravos. Elle exije o combate.
O chefe araguaia contou a maranduba da hospitalidade:
--Ubirajara não sabia que Pojucan era filho de Itaquê; pois elle nunca pizaria como hospede a cabana de um guerreiro, a quem tivesse decepado um filho. É precizo que recuperes a liberdade para que não se diga que Ubirajara surpreendeu a hospitalidade do grande chefe dos tocantins.
Pojucan não respondeu. Elle reconhecera que a honra de seu vencedor exijia sua volta á taba dos seus.
--Parte. Nós combateremos á frente das nações. Ubirajara pertence a Itaquê; mas depois delle terás a gloria de ser vencido outra vez por este braço.
--Ubirajara é um grande chefe e maior guerreiro. Se Tupan não consente que Pojucan seja vencedor, elle não quer maior gloria do que a de morrer combatendo Ubirajara.
Pojucan foi á cabana de seu vencedor buscar as armas. Ubirajara arrimou-se ao tacape, como o rochedo que se apoia ao tronco do ipê, e meditou.
Quando passou o chefe tocantim que voltava á sua taba, Ubirajara levantou a cabeça e disse:
--Os olhos de Ubirajara te acompanham; tu és irmão de Arací, e vais para junto della. Dize á estrela do dia, que seu espozo está com ella.
O conselho dos abarés se reunira para meditar sobre a guerra. O velho Majé, a quem irritava o dezaparecimento da filha, reparou que sem o voto do carbeto se convocasse a nação.
Veiu um mensajeiro chamar o grande chefe para o carbeto. Ubirajara chegou. Antes que falasse a voz dos anciãos, o guerreiro levantou o arco e disse:
--O conselho dos anciãos governa a taba, e medita nella coizas da paz. Toda a nação respeita sua prudencia e sabedoria.
«Mas emquanto Ubirajara brandir o grande arco dos araguaias, tem a guerra fechada em sua mão.
«Quando elle soltar o grito de combate, a voz que falar da paz emudecerá para sempre, ainda que venha da cabeça do abaré que a lua já embranqueceu.
«Quem não quizer assim, venha arrancar da mão de Ubirajara este arco que elle conquistou por seu valor.»
Os abarés estremeceram. Mas o carbeto meditou, e decidiu que a maior gloria e sabedoria da nação era ter o seu grande arco de guerra na mão de um chefe como Ubirajara.
Camacan tratou com os anciãos ácerca da defeza das tabas; e o grande chefe abriu o caminho da guerra.
* * * * *
Quando Ubirajara desdobrou sua guerra pela marjem do grande rio, elle viu que uma nação tapuia se preparava para assaltar a taba dos tocantins.
O grande chefe tocou a inubia, cuja voz chamava o joven Murinhem, primeiro dos cantores araguaias.
Correu o nhengaçára á prezença do grande chefe, e delle recebeu a mensajem que devia levar ao campo inimigo.
Os cantores eram respeitados por todas as nações das florestas, como os filhos da alegria; pelo que serviam de mensajeiros entre as nações em guerra.
Elles penetravam no campo inimigo, entoando o seu canto de paz; e nenhum guerreiro ouzava ofender aquelle a quem Tupan concedera a fonte da alegria.
Murinhem atravessou rapido a campina e aprezentou-se em frente de Canicran, chefe dos tapuias.
--Ubirajara, o senhor da lança, que empunha o arco da poderoza nação araguaia, te manda, a ti quem quer que sejas, e a todos quantos te obedecem, a sua vontade.
O tapuia rujiu; mas seus olhos viam o mar dos guerreiros araguaias que o cercava, e na frente o grande vulto de Ubirajara, semelhante ao rochedo sombrio e imovel no meio dos borbotões da cachoeira.
Os guerreiros de Canicran só conhecem a vontade do seu chefe; e Canicran afronta a cólera de Tupan e das nações que elle gerou. Dize, mensajeiro, o que pede Ubirajara, ao grande chefe dos tapuias.
--Ubirajara te manda que encostes o tacape da guerra. A nação tocantim aceitou a sua flecha de dezafio, e elle não consente que ninguem combata seu inimigo, antes de o ter vencido.
--Torna e dize ao grande chefe araguaia, que Canicran veiu trazido pela vingança. Pojucan, um dos chefes tocantins penetrou em sua taba e incendiou a cabana do pajé, que foi devorado pelas chamas.
«Ubirajara é um grande chefe araguaia; elle que diga se o pai da nação póde sofrer tão dura afronta. Canicran escuta a voz de sua amizade.»
O chefe tapuia tomou uma de suas flechas; arrancou o farpão e deu ao mensajeiro a haste emplumada com azas negras do anun, que era o emblema guerreiro de sua nação.
--Toma; entrega ao grande chefe araguaia o penhor da aliança.
Murinhem partiu e foi á taba dos tocantins levar igual mensajem. Itaquê escutou o que lhe mandava Ubirajara e respondeu:
--Antes que Itaquê trocasse com Ubirajara a seta do dezafio, Pojucan tinha levado a guerra á taba dos tapuias.
«Canicran veiu trazido pela vingança; e a nação tocantim não póde recuzar o combate. Mas Itaquê sabe honrar seu nome; se Ubirajara quer, elle combaterá juntamente os dois inimigos.»
O mensajeiro tornou ao campo dos araguaias com as respostas dos dois chefes. Ubirajara ouviu e meditou.
--Escuta a vontade de Ubirajara para leval-a aos inimigos. O grande chefe araguaia não roubará a Canicran a gloria da vingança; elle respeita a honra da nação tapuia, mas rejeita sua aliança. Restitue o penhor que recebeste.
«Itaquê póde aceitar o combate que Pojucan foi buscar; Ubirajara não ofende o nome de um guerreiro, ainda mais de um morubixaba, e do pai de Arací.
«O chefe dos araguaias não carece de auxilio para triunfar de seus inimigos: dezeja que a nação tocantim derrote aos tapuias, para ter elle a gloria de vencer ao vencedor.
«Se Itaquê não póde repelir os tapuias, Ubirajara toma a si castigar os barbaros; e depois de varrel-os das florestas, combaterão as duas nações.
«Se os tocantins necessitam de aliados para rezistir ao ímpeto dos araguaias, Ubirajara espera que Itaquê os chame e que elles venham.
«Murinhem falará assim a um e outro chefe; a ambos dirá que a cabana onde estiver Arací fica sob a guarda de Ubirajara; quem nella penetrar como inimigo, sofrerá a morte vil do cobarde.»
O guerreiro deixou a voz do chefe e falou com a voz de espozo:
--A Arací levarás o canto de amor de Ubirajara. Tu lhe dirás que arme a rêde nupcial, e não deixe nossa cabana, emquanto Ubirajara não a fôr buscar.
«Conta-lhe tambem que o canitar que ella teceu, ainda não deixou a cabeça de seu guerreiro e ha de acompanhal-o sempre.»
VIII
A BATALHA
A um lado da imensa campina move-se a multidão dos guerreiros tocantins, do outro lado a multidão dos guerreiros tapuias.
As duas nações se estendem como dois lagos formados pelas grandes chuvas, que se transformam em rios e atravessam o vale.
De um e outro campo levantou-se a pocema guerreira; e os dois povos arremetendo travaram a batalha.
Itaquê achou-se em frente de Canicran. Ambos se buscavam; dez vezes tinham combatido; vencedores ambos, nenhum fôra vencido.
Emquanto viverem os formidaveis guerreiros, não é possivel quebrar a flecha da paz entre as duas nações.
Era precizo que um delles morresse, para que o vencedor encostasse o tacape do combate, e désse repouzo á sua nação para reparar os estragos da guerra.
Quando os dois chefes se encontraram, os guerreiros de um e outro campo ficaram imoveis, contemplando o pavorozo combate.
Ubirajara, de lonje, apoiado em seu grande arco, admirava os dois guerreiros, e pensava qual não seria o seu orgulho em vencel-os a ambos.
Durára a peleja o espaço de uma sombra. Em torno dos chefes lastravam o chão os tacapes e escudos que se tinham espedaçado aos golpes de cada um.
Imoveis no mesmo logar, só ajitavam a cabeça e os braços, semelhantes a dois condores que, de garras prezas aos pincaros do rochedo, se dilaceram com o bico adunco.
Um rujido espantoso atroou pela campina, que estremeceu a batalha e rolou pelas profundezas da floresta.
Paan, a seta, era o ultimo filho de Canicran. Ainda corumim, pelejava ao lado do irmão, o guerreiro Creban, cujo hombro mal alcançava com o braço.
Elle tinha nos olhos a vista da gaivota, e nas setas de seu arco, feitas de espinhos de ouriço, a velocidade e a certeza do vôo do guanumbí.
Quando caçava na floresta, divertia-se em matar as motuças traspassando-as com suas flechas, que voavam mais rapidas e certeiras que as vespas venenozas.
Paan saltára sobre os hombros do guerreiro Creban para assistir ao combate. Admirando o valor de Canicran, teve orgulho e inveja do pai.
Itaquê desfechára tão formidavel golpe, que o tacape e escudo de Canicran se espedaçaram em suas mãos, deixando-o á mercê do inimigo.
O chefe tocantim arrojou-se, e já sua mão decia sobre a espadua do tapuia para fazel-o prizioneiro.
O arco de Paan sibilou duas vezes. Os olhos de Itaquê, os olhos do varão forte que nunca humedecera uma lagrima, choraram sangue.
As setas do corumim tinham vazado as pupilas do fero guerreiro cuja vista era raio. Assim a jandaia rôe o grelo do procero coqueiro.
Foi então que Itaquê soltou o rujido pavorozo que fez tremer a terra. Mas o grito de espanto sossobrou no peito dos guerreiros, e rompeu em um grito de horror.
Itaquê estendera os braços, hirtos como duas garras de condor.
A mão direita abarcou o penacho e a cabeleira de Canicran, a esquerda entrou pela boca do tapuia e travou-lhe o queixo.
Separaram-se os braços do guerreiro cégo, e a cabeça de Canicran abriu-se como um côco que se fende pelo meio.
Ajitando no ar o craneo sangrento como um maracá de guerra, Itaquê arrojou-se contra os inimigos, buscando a morte que lhe fujia.
Quando o sol entrou, não havia na campina a sombra de um tapuia.
O velho heróe voltou á cabana conduzido por Pojucan:
--Tupan viu que Itaquê não podia ser vencido pela mão dos homens, e quiz vencel-o elle mesmo pela mão de um menino.
Quando Ubirajara viu o exito do combate, lamentou que dos dois grandes guerreiros não restasse nenhum, para que elle o vencesse.
Seus olhos descobriram Paan que fujia no meio dos destroços de sua nação. Ergueu a mão, mas não chegou a retezar a seta.
A aguia não persegue a andorinha. Era indigno de um guerreiro, quanto mais de um chefe, empregar seu valor contra um menino.
O chefe chamou á sua prezença Tubim, um dos jovens caçadores que tinham acompanhado a guerra para prover o alimento.
--Tubim tem as azas da abelha; se elle alcançar o corumim tapuia que eu estou olhando, Ubirajara lhe dará o nome de Abeguar.
O joven caçador seguiu o olhar do chefe, e sumiu-se num turbilhão de poeira. Quando os vagalumes começaram a luzir no escuro da mata, elle estava de volta no campo dos araguaias e trazia o corumim fechado nos braços.
Nessa mesma noite Tubim recebeu o nome de Abeguar, senhor do vôo, em honra da façanha que tinha realizado.
Os cantores entoaram seu louvor; e o joven caçador teve a gloria de receber os aplauzos dos moacaras de sua nação, e de um chefe como Ubirajara.
Ao raiar da manhã, Murinhem foi á taba dos tocantins, acompanhado por vinte guerreiros que conduziam o corumim.
Quando chegou em frente á cabana do grande chefe, o cantor viu Itaquê no terreiro sentado em uma sapopema.
O guerreiro fitava os olhos no céu, onde o calor lhe dizia que estava o sol. Mas não encontrava a luz que para sempre o abandonára.
Então o velho guerreiro abaixava os olhos para terra, como se buscasse o logar do repouzo.
Quando soaram lonje os passos dos estranjeiros, o chefe alongou a fronte para ver pelo ouvido o que os olhos lhe recuzavam.
Murinhem chegou e disse:
--Ubirajara envia a Itaquê o resto da vingança. Este é Paan, o filho de Canicran. Elle te roubou a vista; mas não salvou o pai de tua mão terrivel. Faze do corumim tapuia um mancebo tocantim; e elle será a luz de teus olhos e caminhará na frente do grande chefe para abrir-lhe o caminho da guerra.
Paan avançou:
--O filho de Canicran jámais será escravo; naceu tapuia e tapuia morrerá, como o grande chefe que o gerou. Emquanto o ouriço viver nas florestas, elle roubará seus espinhos para furar os olhos dos tucanos.
Itaquê pouzou a palma da mão na cabeça do menino:
--O corumim que ama seu pai é filho de Itaquê. Tu és livre, Paan; vai caçar o ouriço. Quando fôres um guerreiro, acharás cem mancebos do sangue de Itaquê para castigarem tua audacia.
O chefe voltou-se para o cantor:
--Tupan tirou a luz dos olhos de Itaquê; mas aumentou a força de seu braço. Ubirajara terá para combatel-o um inimigo digno de seu valor.
Murinhem tornou ao chefe araguaia com esta resposta.
* * * * *
Quando partia o cantor, chegaram á cabana de Itaquê os abarés da nação tocantim.
Os anciãos sentaram-se em torno do guerreiro cégo; e bebendo a fumaça da sabedoria, formaram o carbeto.
Falou Guaribú:
--O grande arco da nação carece de uma mão robusta para brandir sua corda, e de um olho seguro para dirijir sua seta. Itaquê é o maior guerreiro das florestas; seu nome faz tremer aos mais valentes dos inimigos; seu braço fere como o raio. Mas a luz fujiu de seus olhos e elle não póde mais abrir o caminho da guerra.
O velho chefe ergueu-se com o passo trôpego. Alcançando o grande arco dos tocantins abraçou-se com elle e falou-lhe.
--Quando Itaquê te recebeu da mão do grande Javarí elle pensava que só a morte o separaria de ti, para transmitir-te a um guerreiro de seu sangue. Mas Itaquê ficou na terra, como um tronco levado pela corrente, que não sabe onde vai.
Um esguicho de sangue saltou dos buracos, onde o velho tivera os olhos. Era a lagrima que a desgraça lhe deixára.
Os abarés meditaram. Guaribú falou de novo:
--O grande arco da nação que tu recebeste do grande Javarí, teu pai, não te abandonará. Elle fica em tua mão invencivel; haverá outro arco na mão do mais valente guerreiro, que abrirá o caminho da guerra. Mas emquanto Itaquê viver, sua voz governará a nação que elle defendeu com seu braço.
O semblante do velho chefe cobriu-se de um sorrizo como o negro rochedo sobre o qual desliza um raio do luar.
--Pais da sabedoria, abarés, olhai aquelle jatobá que se levanta no meio da campina, e que eu só posso ver agora na sombra de minha alma.
«Elle tem muitas raizes que o sustentam nos ares; tem muitos galhos que o cercam e estendem ao lonje a sua rama. Mas o tronco é um só.
«As grossas raizes são os abarés que sustentam o chefe com o seu conselho. Os galhos fortes são os moacaras que cercam o chefe e geram a multidão de guerreiros mais numeroza que as folhas das arvores. O tronco é o chefe da nação; se elle se dividir, o jatobá não subirá ás nuvens nem terá forças para rezistir ao tufão.
«O logar de Itaquê é no conselho. O ultimo dente de seu colar de guerra foi o que elle arrancou da boca de Canicran. Convocai os guerreiros, e o que fôr mais forte e mais valente empunhe o grande arco da nação.
O trocano chamou a nação ao carbeto. Vieram os moacaras, conduzindo suas tribus.
O velho Itaquê contava pelos passos os guerreiros que chegavam. O grande arco da nação, que elle segurava direito, parecia um dos esteios da cabana, e tinha a corda tão grossa como a da rêde do chefe.
Os mais famozos guerreiros tocantins se aprezentaram para disputar o grande arco; muitos conseguiram vergal-o; mas a seta não partiu.
Itaquê escutava com o ouvido atento: o som delle conhecido não feriu os ares.
--Onde está Pojucan? perguntou o velho chefe.
O valente guerreiro do sangue de Itaquê estava de parte, grave e taciturno. Algum motivo o separava do arco chefe, que elle devia ser o primeiro a disputar.
--Teu filho te escuta, respondeu.
--Empunha o arco chefe; se ha um guerreiro tocantim que possa conquistal-o esse deve ser do sangue de Itaquê.
Pojucan recebeu o arco. Fincando nelle os pés, o guerreiro arrojou-se para traz como a giboia quando se enrista para armar o bote.
A seta partiu, e foi cravar a cabeça de um chefe tapuia, fincada na estaca, á entrada da taba.
Itaquê curvára a cabeça. Elle ouviu brandir a arma; não era, porém, aquelle o zunido da corda do arco, quando o vergava sua mão possante.
Pojucan depôz o arco chefe aos pés de Itaquê e disse:
--Pojucan mostrou que em suas veias corre o sangue generozo de Itaquê. Mas o grande arco peza em sua mão. Só ha um guerreiro na terra que o possa brandir como Itaquê: e esse não cinje a fronte com o cocar das penas de tucano.
--Pojucan negou a Itaquê esta ultima consolação. O arco invencivel do grande Tocantim que foi o pai da nação, vai sair de sua geração. Tocantim o transmitiu a seu filho Javarí, que me gerou; mas eu não sube gerar com seu sangue um guerreiro digno delles.
IX
UNIÃO DOS ARCOS
Os tapuias voltaram; e com elles vinha Agniná á frente de sua nação, para vingar a morte de Canicran, seu irmão.
Era grande a multidão dos guerreiros; e maior a tornavam a sanha da vingança e a fama do chefe que a conduzia.
Não eram tantos os tocantins; mas bastaria seu valor para igualal-os, se não lhes faltasse a cabeça, que reje o corpo.
A poderoza nação estava como o bando de caitetús que perdeu o pai, e desgarra-se pela floresta, correndo sem rumo.
Os mais valentes moacaras, chefes das tribus, esperavam pelo grande chefe da nação para abrir-lhes o caminho da guerra.
Os abarés meditaram. Elles não podiam inventar um guerreiro capaz de suceder a Itaquê; mas não se rezignavam a abater a gloria da nação, trocando o arco invencivel do grande Tocantim por outro arco mais leve, que Pojucan manejasse.
Tambem Pojucan anunciára, que não podendo brandir o arco de Itaquê, jámais empunharia outro arco chefe, menos gloriozo do que o do grande Tocantim.
Abarés, chefes, moacaras, guerreiros, toda a nação se reuniu em torno do heróe cégo.
Daquelle que durante tantas luas defendera a nação com a força de seu braço, e a protejera com o terror de seu nome, esperavam ainda a salvação.
O velho ouviu a voz dos abarés, a voz dos chefes, a voz dos moacaras, a voz dos guerreiros, e disse:
--Itaquê ainda póde combater e morrer por sua nação; mas sem a luz do céu, elle não póde mais abrir a seus filhos o caminho da vitoria.
«O braço de Itaquê defendeu sempre a nação tocantim; quer ella ser defendida agora pela palavra daquelle, que não tem mais para dar-lhe senão a experiencia de sua velhice?
«Pensem os abarés, os chefes, os moacaras e os guerreiros.»
Guaribú respondeu:
--A nação pensou. Fala e todos obedecerão á tua palavra, como obedeciam ao braço de Itaquê.
--A voz do coração diz ao neto de Tocantim, que a gloria da nação que elle gerou, não se póde extinguir. O sangue de Itaquê, passando pelo seio de Arací, se unirá a outro sangue generozo para brotar maior e mais ilustre.
«Assim a terra onde naceu uma floresta de acajás recebe o limo do rio e gera nova floresta mais frondoza que a outra.
«Jacamim, chama Arací, a filha de nossa velhice. E vós, abarés, chefes, moacaras e guerreiros, seguí-me.»
O velho heróe atravessou a taba guiado por Arací.
A nação o seguia em silencio.
Quando o guerreiro cégo passava com a mão no hombro da virjem formoza que dirijia o seu passo incerto, os guerreiros lembravam-se do tronco já morto que a rama do maracujá ainda sustenta de pé junto ao penedo.
Os cantores iam adiante, e entoavam um canto de paz.
* * * * *