Ubirajara: Lenda Tupi

Part 4

Chapter 44,141 wordsPublic domain

«E o orvalho da noite decerá do céu para cobrir a varzea de verdura e de flôres. E Jandira achará outra vez seu sorrizo de mel.»

Assim cantou Arací, a estrela do dia; e a virjem araguaia respondeu:

--A arvore que morreu não sofre quando o fogo a queima. Jandira prefere a morte á vergonha de ser tua serva, e á tristeza de ver a cada instante a formozura da estranjeira que roubou seu amor.

«Arací, a estrela do dia, é mais bela do que Jandira, mas não sabe amar o guerreiro que a escolheu para mãi de seus filhos.

«Nunca Jandira ofereceria sua rêde de espoza a outra mulher; e aquella que recebesse o amor de seu guerreiro, morreria por sua mão.

«Ella amaria seu espozo tanto que sua graça nunca se retirasse della; pois saberia morrer quando não tivesse mais beleza para dar-lhe.

«A nação araguaia nunca levanta a taba do vale onde acampou, senão quando a terra já não póde dar-lhe mais frutos.

«Assim é o guerreiro. Elle não retira seu amor da espoza que habita, senão quando ella já não sabe alegrar sua alma.»

Tornou a virjem tocantim:

--A cajazeira, depois que dá seu fruto, perde a folha; o guerreiro busca a sombra de outra arvore para repouzar.

«Mas vem a lua das aguas e a cajazeira outra vez se cobre de folhas; sua sombra é doce ao guerreiro.

«A espoza é como a cajazeira. Quando o guerreiro não acha alegria em seus braços, ella sofre que busque outra sombra, e espera que lhe volte a flôr para chamal-o de novo ao seio.

«Arací ama seu guerreiro, como Jacamim ama Itaquê. A cabana do grande chefe dos tocantins está cheia de servas; mas seu amor nunca abandonou a espoza.

«As servas deram a Itaquê muitos filhos; mas os filhos da velhice, foi só Jacamim quem os deu ao grande chefe; porque o primeiro amor do guerreiro não morre nunca.

«Elle é como a grama que nunca mais deixa a terra onde naceu: podem arrancal-a que brota sempre.

«Arací quer apagar a tristeza de tua alma; e beber o teu sorrizo de mel, para que o espozo ache mais doces seus labios, quando os provar.

«Tu serás irmã de Arací, e lhe darás um filho de Jurandir, tão valente, como os que seu amor ha de gerar no seio da espoza.»

Jandira afastou os olhos da virjem dos tocantins, para desviar della sua ira.

--Tua palavra dóe como o espinho da jussara, que tem o côco mais doce que o mel.

«As flechas de teu arco não matam mais do que os sorrizos que o amor do guerreiro derrama em teu rosto, estrela do dia.

«Ubirajara deixou-me por ti; mas foi a Jandira que elle primeiro escolheu para espoza, quando ainda era joven caçador.

«Nos campos alegres, onde vão os guerreiros quando morrem, elle me chamará; e o guanumbí virá buscar a minha alma no seio da flôr do manacá para leval-a a seu amor.

«Mata-me, ou deixa que eu morra para não ver mais tua beleza, e não ouvir o canto de tua alegria.»

Arací caminhou para Jandira e dezatou-lhe os pulsos.

--O amor do guerreiro não pertence á mulher que seus olhos primeiro viram; mas áquella que elle escolheu. Apanha teu arco; e morra aquella que não souber defender seu amor, e merecer o espozo.

Arací disse, e tirou da uiraçaba uma seta. Jandira ficou imovel, com os pulsos cruzados, como se ainda estivessem prezos:

--A vontade de Ubirajara atou os braços de Jandira; ella rejeita a liberdade dada por ti. Arací póde ser preferida, porém não será mais generoza do que a filha de Majé.

VI

O COMBATE NUPCIAL

Chegou o dia em que os noivos de Arací deviam disputar a posse da formoza virjem.

Era a hora em que o sol transpondo a crista da montanha estende pelo vale sua arassoia de ouro.

A grande nação tocantim cerca a vasta campina. No centro estão os anciãos, que formam o grande carbeto.

Em frente aparece Arací, a estrela do dia, que ha de ser o premio da constancia e fortaleza do mais destro guerreiro.

Jacamim acompanha a filha; nesse momento remoça com a lembrança do dia em que Itaquê a conquistou, lutando com os mais feros mancebos tocantins.

De um e outro lado seguem pela ordem da idade os moacaras. Cada um cerca-se da espoza, das servas e das filhas, que vieram para assistir ao combate.

É a unica das festas guerreiras, em que o rito de Tupan consente a prezença das mulheres, porque se trata da sua gloria.

Contemplando o esforço heroico dos mais nobres guerreiros para conquistar a formozura de uma virjem, as outras virjens aprendem a prezar a castidade, e as espozas se ufanam de guardar a fé ao primeiro amor.

Itaquê, o grande chefe dos tocantins, prezide ao combate, orgulhozo pela valente nação que dirije, como pela formoza virjem de que é pai.

Quando seus olhos admiram a multidão de guerreiros, servos do amor de Arací, que se preparam a disputar a espoza, o grande chefe ergue a fronte soberba como o velho ipê da floresta coroado de flôres.

Os noivos distinguem-se dos outros guerreiros pelo bracelete de contas verdes, que o guerreiro cinje ao pulso da espoza, quando rompe a liga da virjindade.

Lá caminha Pirajá, o grande pescador, senhor dos peixes do rio, a quem obedece o manatí e o golfinho.

Junto delle ergue-se Uirassú, que tomou este nome do valente guerreiro dos ares, pelo ímpeto do assalto.

Vem depois Arariboia, a grande serpente das lagôas; Cauatá, o corredor das florestas; Corí, o altivo pinheiro; e tantos outros, ainda mancebos, e já guerreiros de fama.

Entre todos, porém, assoma Jurandir. Sua fronte passa por cima da cabeça dos outros guerreiros, como o sol quando se ergue entre as cristas da serrania.

Os muzicos fizeram retroar os borés, anunciando o começo da festa; e os servos do amor se estenderam em linha pelo meio da campina.

Então os nhengaçáras levantaram o canto nupcial.

«A espoza é a alegria e a força do guerreiro. Ella acende em suas veias um fogo mais generozo que o do cauim, e prepara para seu corpo o repouzo da cabana.

«Por isso o primeiro dezejo do mancebo, quando ganha nome de guerra é conquistar uma espoza.

«Não basta ser valente guerreiro para merecer a virjem formoza, filha de um grande chefe; é precizo a paciencia para sofrer, e a perseverança no trabalho.

«Arací, a estrela do dia, filha de Itaquê, será a alegria e a gloria do mais forte e do mais valente.

«Os filhos que ella gerar em seu seio, onde corre o sangue do grande chefe, serão os maiores guerreiros das nações.»

* * * * *

Itaquê deu sinal; o combate começou.

Pirajá foi o primeiro que saiu a campo, e clamou esgrimindo o tacape:

--Arací, estrela do dia, tu serás espoza do guerreiro Pirajá, que te vai conquistar pela força de seu braço.

Avançou Uirassú, e disse:

--A virjem formoza ama ao guerreiro Uirassú e ha de pertencer-lhe.

A noiva cantou:

«Arací ama o mais forte e mais valente. Ella pertencerá ao vencedor, que vencer a bravura dos outros guerreiros, como venceu a vontade da espoza.»

A voz mavioza da virjem afagou a esperança de todos os campeões; mas seus olhos ternos só viam o nobre semblante de Jurandir, o escolhido de sua alma.

Os dois guerreiros travaram a pugna; os tacapes girando nos ares encontravam-se como dois madeiros arrojados pelo remoinho da cachoeira.

Afinal Pirajá, ameaçado pelo bote do adversario, recuou um passo do logar em que se postára. Pela lei do combate estava vencido, e teve de deixar o campo.

Arariboia tomou seu logar; e o combate proseguiu com varia fortuna até Corí que, expelindo o vencedor, manteve-se firme contra todos que vieram disputal-o.

Faltava Jurandir. O estranjeiro avançou gravemente, como convinha a um grande guerreiro da nação araguaia.

Elle queria dar ao vencedor de tantos combates o tempo precizo para descansar.

A mão do guerreiro arrastava pelo chão o tacape, que desdenhava erguer para um combate sem gloria.

Quando Jurandir se achou em face do vencedor, levantou a voz e disse:

--Para merecer Arací, a estrela do dia, Jurandir queria vencer a cem guerreiros, e não combater um guerreiro fatigado.

«Tu empunhas um tacape; toma outro habituado a vencer; elle restituirá a teu braço a força que perdeu. Basta a Jurandir esta mão, para te arrebatar todas as tuas vitorias.»

Disse e arremessou a arma aos pés do adversario.

Corí, pensando que seu rival o atacava, desfechou-lhe o golpe. Mas Jurandir aparou-o na mão firme e arrebatando o tacape que o ameaçava arrancou o guerreiro do chão.

Assim o pinheiro que o tufão arrebata, antes de partir o tronco, desprende a raiz da terra, onde nada o abalava.

Jurandir ficou só no campo. Mas todos os noivos se haviam mostrado valentes guerreiros; talvez nas outras provas saíssem vencedores.

* * * * *

Os muzicos tocaram os borés; e os jovens caçadores trouxeram para o meio do campo a figura da noiva.

Era um grosso tóro de madeira, no qual a mão destra de um pajé entalhára com o dente da cotia a cabeça de uma mulher.

Tres caçadores vergavam com o pezo da carga; e foram precizos dez para trazel-o desde a cabana do pajé até o campo, onde ficou semelhante á uma mulher sentada.

Na vespera o pajé burnira de novo com a folha da sambaiba o tóro de madeira, e o esfregára com a banha do teú, para que elle escorregasse da mão do caçador.

Depois os mancebos guerreiros espalharam pelo campo troncos de arvores cortadas com as ramas e as folhas, e fincaram cercas de estacas entre os barrancos da varzea que ia morrer á marjem do rio.

Itaquê deu sinal, e os guerreiros começaram a nova prova, mais dificil que a primeira.

Era precizo que o guerreiro á disparada levantasse do chão, sem parar, o tóro de madeira; e se defendesse dos rivais que o assaltavam para tomal-o.

Esse jogo era o emblema da ajilidade e robustez que o marido devia possuir para disputar a espoza e protejel-a contra os que ouzassem dezejal-a.

Na primeira corrida foi Jurandir quem mais rapido chegou. Como o condor que rebatendo o vôo leva nas garras a tartaruga adormecida, assim o veloz guerreiro suspendeu a figura da espoza e com ella arremessou-se pela campina.

Os outros o seguiam ardendo em ímpetos de roubar-lhe a preza. Na planicie aberta seria vão intento, porque nenhum corria como o estranjeiro.

Mas Jurandir achava diante de si, para tolher-lhe o passo, as arvores derrubadas, os barrancos profundos e outros obstaculos de propozito acumulados.

Não hezitou, porém, o destemido mancebo. Salvou as corcovas, galgou as caiçaras, e subiu pelos galhos que estrepavam o chão.

Uma vez os guerreiros se aproximaram tanto, que Jurandir sentiu nos cabelos o sopro da respiração ofegante. Em frente erguia-se a alta estacada.

Se tentasse subir carregado como estava, os guerreiros com certeza o alcançariam a tempo de arrancar-lhe a preza.

Então arremessou pelos ares o tóro de madeira, como se fosse o tacape de um joven caçador; e seguiu após.

Sempre vencedor dos assaltos dos rivais, Jurandir percorreu a vasta campina, e foi colocar a figura da espoza no meio do carbeto dos anciãos.

Ali era o termo da correria. O guerreiro que chegava a esse ponto com a sua carga, saía triunfante da prova.

Elle mostrava como arrebataria a espoza do meio dos inimigos, e a defenderia contra seus ataques até recolhel-a em um azilo seguro.

De todos os guerreiros só Corí e Uirassú conseguiram ganhar a prova; mas nenhum com a galhardia de Jurandir.

Corí por vezes foi alcançado, e só á confuzão dos outros deveu escapar-se. Uirassú recuperou a preza já perdida, porque Pirajá, que a havia empolgado, falseou na corrida e tombou.

Os tres vencedores entraram de novo em campo para decidir entre si. O triunfo não se demorou. Jurandir o arrebatou, como o gavião arrebata a preza que disputam duas serpes.

Soaram os borés; e ao som do canto de triunfo entoado pelos nhengaçáras, os chefes e os guerreiros saudaram o vencedor dos vencedores.

* * * * *

Quando voltou o silencio, Ogib, o grande pajé dos tocantins, estava em pé no meio do campo.

Junto delle uma das velhas mãis dos guerreiros segurava o camucim da constancia, que tinha o bojo pintado de vermelho.

O pajé disse:

--Não basta que o guerreiro seja forte e valente, para merecer a espoza.

«É precizo que tenha a constancia do varão, e não se perturbe com o sofrimento.

«É precizo que elle tenha a paciencia do tatú, e suporte sereno as mortificações das mulheres e as importunações das crianças.

«O guerreiro que não tem constancia e paciencia, depressa gasta suas forças.

«O rio que se derrama pela varzea, nunca verá suas marjens cobertas de grandes florestas.

«Assim é o guerreiro que não sabe sofrer, e derrama sua alma em lamentações.

«Nunca elle será pai de uma geração forte e glorioza, nem verá sua cabana povoar-se dos guerreiros de seu sangue.

«Se queres merecer a filha de Itaquê, mostra, Jurandir, que és varão ainda maior do que o famozo guerreiro que todos admiram.»

O grande pajé levantou o tampo do camucim, e descobriu uma abertura, bastante para caber o punho do mais robusto guerreiro.

Jurandir meteu a mão no vazo. O semblante sempre grave do guerreiro cobriu-se de um sorrizo doce como a luz da alvorada; e seus olhos, mais contentes que dois saís, pouzaram no rosto de Arací.

O camucim da constancia continha um formigueiro de saúvas, que o pajé havia fechado ali na ultima lua.

Açuladas pela fome de tantos dias, as formigas vorazes se prepararam para dilacerar a primeira vitima que lhes caísse nas garras.

A dentada da saúva, que anda solta no campo, dóe como uma braza; quando são muitas e com fome, queimam como a fogueira.

Todas as vistas se fitaram no semblante do guerreiro, para espreitar-lhe o minimo gesto de sofrimento.

Mas Jurandir sorria; e seus labios ternos soltaram o canto do amor. De propozito o guerreiro adoçou a voz, para não parecer que disfarçava o gemido com o rumor do grito guerreiro.

Assim cantou elle:

«A dôr é que fortalece o varão, assim como o fogo é que enrija o tronco da crauba, da qual o guerreiro fabríca o arco e o tacape.

«A jussara tem setas agudas: mas Arací, quando atravessa a floresta, colhe o côco de mel, embora a palmeira lhe espinhe a mão.

«O ferrão da saúva dóe mais do que o espinho da jussara; mas Jurandir acha o mel dos labios de Arací mais doce do que o côco da palmeira.

«Quando Jurandir era joven caçador, gostava de tirar a cotia da toca, embora o seu dente agudo lhe sarjasse a carne.

«O ferrão da saúva não dóe como o dente afiado; e Jurandir sabe que o pelo dourado da cotia, não é tão macio como o colo de Arací.

«Jurandir despreza a dôr. Seus olhos estão bebendo o sorrizo da virjem, mais suave que o leite do sapotí. Sua mão está sentindo o roçar dos cabelos da virjem formoza.»

Os anciãos deram sinal para concluir a prova da constancia; mas o guerreiro continuou seu canto de amor.

«A cumarí arde no labio do guerreiro; mas torna mais gostoza a carne do veado assada no moquem.

«O cauim queima a boca do guerreiro; mas derrama a alegria dentro da alma.

«A saúva arde como a cumarí e queima como o cauim; porém torna os beijos de Arací mais saborozos: e o amor de Jurandir espuma como o vinho generozo.

«Arací ha de sorrir de felicidade, quando o filho de seu guerreiro lhe rasgar o seio.

«Jurandir não tem corpo para sofrer, quando o sorrizo de Arací lhe enche a alma de amor.»

Foi precizo quebrar o camucim para que o guerreiro podesse retirar a mão, de inflamada que ficára.

O grande pajé esfregou na pele vermelha, o suco de uma herva delle conhecida; e logo dezapareceu a inchação.

* * * * *

Faltava a ultima prova, chamada a prova da virjem.

As outras serviam para conhecer o valor, a destreza e robustez do guerreiro, assim como a força de seu amor.

Nesta era que a virjem podia mostrar seu agrado pelo vencedor ou livrar-se de um espozo, que não soubera ganhar-lhe o afeto.

Os cantores disseram:

«Tupan deu azas á nambú para que ella escape ás garras do carcará.

«Tupan deu lijeireza á virjem, para que ella fuja do guerreiro que não quer por espozo.

«Mas a nambú, quando ouve o canto do companheiro, espera que elle chegue para fabricar seu ninho.

«A virjem, quando a segue o guerreiro que ella prefere, pensa na cabana do espozo, e corre de vagar para chegar depressa.»

Arací deixou a mãi, e avançou até o meio do campo.

O grande pajé colocou Jurandir na distancia de uma mussurana, que cinje dez vezes a cintura do guerreiro.

Estrela do dia lançou para as espaduas as longas tranças negras que voaram ao sopro da briza.

Arqueou os braços mimozos, vestidos com franjas de penas, como as azas brilhantes do arirama; e quando soou o sinal, desferiu a corrida.

Jurandir seguiu-a. Elle conhecia a velocidade do pé gentil de Arací, que zombava do salto do jaguar.

Nem que podesse alcançal-a, o guerreiro o tentaria; depois de vencedor, queria dever a espoza ao amor della e não a seu esforço.

Disputaria Arací não só a todos os guerreiros das nações, como a todas as nações das florestas; só á vontade da propria virjem não a disputaria, pois a queria rendida, e não vencida.

Mas sua gloria mandava que elle, o chefe de uma grande nação, se mostrasse digno da formoza virjem, que o aceitasse por espozo.

Arací voava pela campina. Ás vezes trançava a corrida como o colibri que adeja de flôr em flôr, outras vezes fujia mais rapida do que a seta emplumada de seu arco.

Quando mostrou a todos que Jurandir não a alcançaria nunca, se ella quizesse fujir-lhe, reclinou a cabeça para esconder o rubor.

Jurandir abriu os braços e recebeu a espoza que se entregava a seu amor.

O guerreiro suspendeu a virjem formoza ao colo; e levou-a á cabana do amor que elle construira á marjem do rio.

* * * * *

As ramas de jasmineiro e do craviri vestiam a cabana, e matizavam o chão de flôres.

Arací foi buscar a rêde nupcial, que ella tecera de penas de tucano e arara; e Jurandir conduziu os utensilios da cabana.

Então o estranjeiro sentou-se com a virjem no terreiro, e antes de passar a soleira da porta, revelou a Arací quem era o guerreiro que ella aceitára por espozo.

--Arací pertence ao grande chefe da nação araguaia. Ella teve a gloria de vencer ao maior guerreiro das florestas. Ella será mãi dos filhos de Ubirajara; e terá por servas as virjens mais belas, filhas dos chefes poderozos.

«A palmeira é formoza quando se cobre de flôres e o vento ajita as suas folhas verdes, que murmuram; mais formoza, porém, é quando as flôres se mudam em frutos, e ella se enfeita com seus cachos vermelhos.

«Arací tambem ficará mais formoza quando de seu sorrizo saírem os frutos do amor, e quando o leite encher seus peitos mimozos, para que ella suspenda ao colo os filhos de Ubirajara.»

Arací ouviu as palavras do guerreiro, palpitante como a corça; e ornou a fronte do espozo com o cocar de plumas vermelhas, que tecera em segredo.

Depois, sentindo os olhos de Ubirajara que bebiam a sua formozura, ella vestiu o aimará mais alvo do que a pena da garça.

A tunica de algodão entretecida de penas de beija-flôr dece das espaduas até á curva da perna, cinjida pela liga da virjindade.

Quando Arací passava entre os guerreiros que admiravam sua beleza, ella não córava, porque sua castidade a vestia, como a flôr á sapucaia.

Mas agora em prezença do guerreiro a quem ama e para quem guardou a sua virjindade, tem pejo, e esconde sua formozura ás vistas de Ubirajara.

--Os olhos do espozo são como o sol, disse o guerreiro: elles queimam a flôr do corpo de Arací.

--Arací tem medo que os olhos do espozo não a achem digna de seu amor; e vestiu seus enfeites.

«Arací queria ser como a jurití, e ter no corpo uma penugem macia, que só a deixasse ver em sua formozura.

«Foi por isso que tua espoza se cobriu com o seu aimará. Os olhos de Ubirajara não lhe queimarão mais a flôr de seu corpo.

O guerreiro respondeu:

--A flôr do igapê é mais formoza quando abre e se tinje de vermelho aos beijos do sol, do que fechada em botão e coberta de folhas verdes.

Ubirajara tomou nos braços a espoza, e pôz o pé na soleira da porta.

Nesse momento soou um clamor; chegaram os guerreiros que vinham chamar o vencedor á prezença de Itaquê.

O carbeto dos anciãos tinha decidido que o vencedor antes de receber a espoza, devia declarar quem era; pois fôra recebido como estranjeiro, e ninguem na taba o conhecia.

VII

A GUERRA

Itaquê esperava sentado na cabana, e cercado do carbeto dos anciãos.

Jurandir entrou; Arací ficou na porta, orgulhoza do espozo que a conquistára e da admiração que elle ia inspirar aos guerreiros da sua nação.

Itaquê falou:

--Quando o estranjeiro chegou á cabana de Itaquê, ninguem lhe perguntou quem era e donde vinha. O hospede é senhor.

«Mas agora o estranjeiro saiu vencedor do combate do cazamento e conquistou uma espoza na taba dos tocantins.

«É precizo que elle se faça conhecer; porque a filha de Itaquê, o pai da nação dos tocantins, jámais entrará como espoza na taba onde habite quem tenha ofendido a um só de seus guerreiros.»

O estranjeiro disse:

--Morubixaba, abarés, moacaras e guerreiros da valente nação tocantim, vós tendes prezente o chefe dos chefes da grande nação araguaia.

«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança; e o maior guerreiro depois do grande Camacan, cujo sangue me gerou. Se quereis saber porque tomei este nome, ouvi a minha maranduba de guerra.»

Ubirajara contou o seu encontro com Pojucan; o combate em que o venceu, e a festa do triunfo, até o momento em que deixou a taba dos araguaias.

Terminou dizendo que no seguinte sol partiria, para assistir ao combate da morte, como prometera ao prizioneiro.

Ninguem interrompeu a maranduba de guerra. Ubirajara ouviu um gemido; mas não soube que rompera do seio de Arací.

Itaquê arquejou como o rio ao pezo da borrasca.

--Tu és Ubirajara, senhor da lança. Eu sou Itaquê, pai de Pojucan. Tenho em face o matador de meu filho; mas elle é meu hospede!

«Chefe dos araguaias, tu és um joven guerreiro; pergunta a Camacan que te gerou, qual deve ser a dôr do pai, que não póde vingar a morte do filho.»

O grande chefe vergou a cabeça ao peito, como o cedro altaneiro batido pelo tufão.

Pojucan tinha sua taba mais lonje, na outra marjem do rio. Elle partira na ultima lua para rastejar a marcha dos tapuias; e voltava senhor do caminho da guerra quando encontrou Ubirajara.

Seu pai e os guerreiros de sua taba pensavam que elle buscava na floresta o caminho da guerra. Mal sabiam que a essa hora esperava prizioneiro na taba dos araguaias o combate da morte.

Anciãos e guerreiros emudeceram. Todos respeitavam a dôr do pai, e não ouzavam perturbal-a.

Jacamim, a mãi de Pojucan, aproximára-se. O grande chefe ouviu seu gemido.

--A espoza de Itaquê não chora na prezença do matador de seu filho.

Á voz do espozo, a mãi teve força para esconder no seio sua tristeza, e mostrar-se digna do grande chefe dos tocantins.

Ubirajara falou:

--A vingança é a gloria do guerreiro; Tupan a deu aos valentes. Ubirajara venceu Pojucan em combate leal, e aceita o dezafio de Itaquê e de todos os chefes tocantins.

--Tu és meu hospede; emquanto Itaquê brandir o grande arco da nação tocantim, ninguem ofenderá o amigo de Tupan na taba de seus guerreiros.

Dizendo assim, o grande chefe ergueu-se e trocou com o estranjeiro a fumaça da despedida.

--Parte. O sol que viu o estranjeiro na cabana hospedeira o acompanhará amigo; mas com a sombra da noite, mil guerreiros, mais velozes que o nandú, partirão para levar-te a morte.

Ubirajara tomou suas armas e disse:

--O hospede vai deixar tua cabana, chefe dos tocantins; tu verás chegar o guerreiro inimigo.

* * * * *

Itaquê seguiu o estranjeiro até o terreiro; em torno delle se reuniram os abarés, os moacaras e os guerreiros para assistirem á partida.

Ubirajara caminhou com o passo lento e grave até o fim da taba.

Chegado ali, tornou rapido á entrada da cabana, e retrocedeu apagando no chão o vestijio de seus passos.

A nação tocantim o observava imovel.

Por fim o estranjeiro postou-se no centro da ocara e com o formidavel tacape vibrou no largo escudo um golpe que repercutiu pela taba como o estrondo da montanha.

--O hospede passou o lumiar da cabana que o tinha acolhido, e apagou seu rasto na taba dos tocantins.