Part 3
As servas pressurosas estenderam á sombra da gameleira as alvas esteiras de palmas entrançadas de airis e colocaram sobre ellas os urús cheios de farinha d'agua.
Trouxeram tambem os camocins razos, onde se apinhavam as moquecas envoltas em folha de banana, e peças de carne, assada no biaribí, que ainda fumegava nos pratos feitos de concha de tartaruga.
Depois suspenderam a caça mais volumoza, veados e antas, assim como as igaçabas de cauim, nos ramos inclinados da arvore, em altura que o braço do guerreiro podesse alcançar.
Frutas de varias especies, pencas douradas de banana, cachos rôxos de assaí, os rubros croás, e os fragrantes abacaxis, enchiam o giráu levantado no meio do terreiro.
* * * * *
Jacamim conduzira o hospede á sombra da gameleira, onde o esperava o banquete da chegada.
Ao lado de Ubirajara sentou-se Itaquê e depois os moacaras que tinham vindo para a festa da hospitalidade.
Os guerreiros comeram em silencio. As mulheres dilijentes os serviam, enchendo de vinho de cajú e ananaz as largas combucas, tintas com a pasta do crajurú que dá o mais brilhante carmim.
Quando o hospede, depois de satisfeito o apetite, lavou o rosto e as mãos, Jacamim ordenou ás servas que recolhessem os restos das provizões, e retirou-se com ellas.
Tambem se afastaram os jovens guerreiros que ainda não tinham voz no conselho. Só ficaram sentados com o hospede, Itaquê, e os moacaras senhores das cabanas.
O cachimbo do grande chefe passou de mão em mão e cada ancião bebeu a fumaça da herva de Tupan, que inspira a prudencia no carbeto.
Então disse o chefe:
--Itaquê dezeja dar a seu hospede um nome que lhe agrade, e preciza que o ajude a sabedoria dos anciãos.
A lei da hospitalidade não consentia que se perguntasse o nome ao estranjeiro que chegava, nem que se indagasse de sua nação.
Talvez fosse um inimigo, e o hospede não devia encontrar, na cabana onde se acolhia, senão a paz e a amizade.
O chefe, que tinha a fortuna de receber o viajante, escolhia o nome de que elle devia uzar emquanto permanecia na cabana hospedeira.
Foi Ipê quem primeiro falou:
--Tu chamarás ao hospede Jutaí, porque sua cabeça domina o cocar dos mais fortes guerreiros, como a copa do grande pinheiro aparece por cima da mata.
Disse Tapir:
--Chama ao hospede Boitatá, porque elle tem os olhos da grande serpente de fogo, que vôa como o raio de Tupan.
Os moacaras, cada um por sua vez, falaram; e como a voz começava do mais moço para acabar no mais velho, as ultimas falas eram menos guerreiras e traziam a prudencia da idade.
Assim Caraúba, que era o segundo antes do chefe, disse:
--Itaquê, o hospede é o nuncio da paz. Tu deves chamal-o Jutorib, porque elle trouxe a alegria á tua cabana.
Guaribú, cujos anos enchiam a corda de sua existencia de mais nós, do que tem o velho cipó da floresta, falou por ultimo:
--O viajante é senhor na terra que elle piza como hospede e amigo; e o nome é a honra do varão ilustre, porque narra sua sabedoria. Pergunta ao estranjeiro como elle quer ser chamado na taba dos tocantins.
--Bem dito!
Itaquê, aprovando as palavras prudentes do ancião, perguntou a Ubirajara que nome escolhia; este lhe respondeu:
--Eu sou aquelle que veiu trazido pela luz do céu. Chama-me Jurandir.
Nesse momento, Arací, a estrela do dia, apareceu por entre as palmeiras, e caminhou para a cabana.
Os mais valentes entre os jovens guerreiros tocantins acompanhavam a formoza caçadora. Eram os servos do amor, que disputavam a beleza da virjem.
Os cantores saudaram de novo o hospede pelo nome que elle escolhera:
--Tu és aquelle que veiu trazido pela luz do céu. Nós te chamaremos Jurandir; para que te alegres ouvindo o nome de tua escolha.
«Tu és aquelle que veiu trazido pela luz do céu. Nós te chamaremos Jurandir; e o nome de tua escolha alegrará o ouvido dos guerreiros.»
* * * * *
De longe Arací viu o estrangeiro, sentado entre os anciãos, como o frondoso jacarandá no meio dos velhos troncos das aroeiras.
A virgem reconheceu logo o caçador araguaia e adivinhou que ele viera á cabana de Itaquê para disputar sua beleza aos guerreiros tocantins.
O coração de Arací encheu-se de alegria. Seus negros cabelos estremeceram de contentamento, como as penas da jaçanan quando presente o formoso inverno.
O estrangeiro não queria ser conhecido; pois deixára o cocar das plumas da arara, que era o ornato guerreiro da sua nação. Mas a imagem do jovem caçador ficára na lembrança da virgem, como fica na terra a verde folhajem, depois da lua das aguas.
A lei da hospitalidade proíbia á virgem revelar o segredo do estranjeiro, só della sabido. Nesse momento foi á sua alma que obedeceu e não ao costume da nação.
Quando Arací chegou ao terreiro, os anciãos se preparavam para ouvir a maranduba do hospede. Os guerreiros e as mulheres escutavam em silencio.
O estrangeiro começou:
--Jurandir é moço; ainda conta os anos pelos dedos e não viveu bastante para saber o que os anciãos da grande nação tocantim aprenderam nas guerras e nas florestas.
«O moço é o tapir que rompe a mata, e vôa como a seta. O velho é o jabotí prudente que não se apressa.
«O tapir erra o caminho e não vê por onde passa. O jabotí observa tudo, e sempre chega primeiro.
«Jurandir é moço; mas conhece as grandes florestas, e atravessou mais rios do que as veias por onde corre o sangue valente de seu pai.
«A primeira agua em que Jaçanan, sua mãi, o lavou, quando elle lhe rasgou o seio, foi a do grande lago onde Tupan guardou as aguas do diluvio, depois que as retirou da terra.
«Ainda Jurandir não era um caçador, quando elle se banhou no pará sem fim, onde os rios despejam a sua corrente e cujas aguas quando dormem se mudam em sal.
«Duas vezes Jurandir seguiu o pai dos rios desde a grande montanha onde nace, até á varzea sem fim que elle enche com suas aguas.
«Elle viu o grande rio combater com o mar, no tempo da pororoca. Os dois chefes tocam as inubias antes da peleja, para chamar seus guerreiros.
«Vem de um lado as aguas do mar, são os guerreiros azues, com penachos de araruna; vem do outro as aguas do rio, são os guerreiros vermelhos com penachos de nambú.
«Começa a batalha. Os guerreiros se enrolam, como a corrente da cachoeira, batendo no rochedo; a terra estremece com o trovão das aguas.
«Mas o grande rio agarra o mar pela cintura. Arranca do chão o inimigo; carrega-o nos hombros; solta o grito de triunfo.
«Por muito tempo os Tetivas, que habitam sobre as arvores, vêem passar correndo as aguas do mar; são os guerreiros azues que fojem espavoridos e vão esconder-se na sombra das florestas.
«Jurandir tambem viu a terra onde habitam as mulheres guerreiras, senhoras de seu corpo, que vivem em baixo das aguas do grande rio.
«Só ellas sabem o segredo das pedras verdes, que tornam os guerreiros cativos de seu amor, sem prival-as da liberdade.
«Por isso todas as luas, grande numero de guerreiros as vizitam em sua taba; e ellas guardam para os mais valentes a flôr de sua beleza.
«Quando chega o tempo de vir o fruto do amor, guardam sómente as filhas; e enviam aos guerreiros os filhos, de onde saem os maiores chefes.
«Feliz o guerreiro que acha uma terra valente e fecunda para a flôr de seu sangue. O filho será maior do que elle; e o neto maior do que o filho.
«Sua geração vai assim crecendo de tronco em tronco; e fórma uma floresta de guerreiros, onde o ultimo cedro se ergue mais frondozo e robusto, porque recebe a seiva de seus avós.»
* * * * *
Quando Jurandir proferiu as ultimas palavras, seus olhos que tinham muitas vezes buscado Arací, repouzaram nella.
A virjem tocantim compreendeu que o estranjeiro se referia a si; e não escondeu sua alegria, como não esconde sua flôr a juquerí que o rio beija.
A formoza caçadora cantou. Sua voz era limpida e sonora como o gorjeio do sabiá, quando se deleita com o calor do sol.
--Feliz a terra que recebe a semente do cedro frondozo e robusto; ella se cobrirá de sombra e frescura. Os guerreiros gostarão de reunir-se aí para falar da paz e da guerra.
«Ella é como a virjem que um chefe ilustre escolheu para sua espoza, e que se povôa de uma prole numeroza. As nações a respeitam porque é a mãi de valentes guerreiros; os anciãos escutam seu conselho na paz e na guerra.
«As mulheres guerreiras, senhoras de seu corpo, são como a palmeira do murití, que rejeita o fruto antes que elle amadureça e o abandona á correnteza do rio.
«A espoza não desprende de si o filho, senão quando elle não chupa mais seu peito. Ella é como a mangabeira; nutre o fruto com seu leite, que é a flôr de seu sangue.
«Não é na terra das mulheres guerreiras que o estranjeiro deve buscar a espoza; mas na taba de sua nação, onde Tupan guarda para seu valor a mais bela das virjens, aquella que tem o sorrizo de mel.»
O hospede respondeu:
--Jurandir sabe onde encontrará a virjem que dezeja para espoza. A luz do céu o guia, e nada reziste á força de seu braço.
Depois de responder ao canto de Arací, o estranjeiro continuou sua maranduba, que todos ouviram silenciozos.
Elle contou o que havia aprendido nas praias do mar habitadas pela valente nação dos Tupinambás, decendentes da mais antiga geração de Tupi.
Os pajés dos Tupinambás lhe disseram que nas aguas do pará sem fim vivia uma nação de guerreiros ferozes, filhos da grande serpente do mar.
Um dia esses guerreiros saíriam das aguas para tomar a terra ás nações que a habitam; por isso os Tupinambás tinham decido ás praias do mar, para defendel-as contra o inimigo.
Os guerreiros do mar tambem tinham suas guerras entre si, como os guerreiros da terra. Então as aguas pulavam mais altas do que os montes; seu estrondo era como o trovão.
Jurandir contou mais que nas praias do mar se encontrava uma rezina amarela, muito cheiroza, a qual a grande serpente creava no bucho.
Os Tupinambás faziam dessa goma contas para seus colares; Jurandir mostrou a pulseira que lhe cinjia o artelho, prezente de um guerreiro daquella nação.
Essas contas tornavam o pé do guerreiro ajil na corrida, e protejiam o viajante contra os caiporas da floresta, que se apartavam de seu caminho.
Muitas outras coizas referiu Jurandir; e os anciãos admiravam-se de ver o juizo prudente de um abaré no corpo joven de tão forte guerreiro.
Os mais velhos dos moacaras acreditaram que o hospede era o filho de Sumê, mandado por seu pai correr as terras que o sabio tinha visto em sua mocidade.
Calaram, porém, seu pensamento, para o comunicarem aos anciãos quando se reunisse o carbeto da nação.
O sol já decia para as montanhas quando terminou a festa da hospitalidade na cabana de Itaquê.
Os moacaras partiram. Itaquê voltando á sua ocupação, deixou o hospede senhor de sua vontade para fazer o que lhe agradasse.
Vieram os jovens pescadores da taba com os anzóes e gequis saber do hospede que peixe elle preferia.
Depois delles chegaram os jovens caçadores que antes de partir para a floresta vinham receber os dezejos do hospede.
Por fim aproximaram-se as mulheres que já tinham rompido o fio da virjindade, mas não eram nem espozas, nem amantes de guerreiros.
Essas eram as mulheres livres, que davam seu amor e o retiravam quando queriam, mas não recebiam a proteção de um guerreiro nem podiam jámais ser mãis da prole.
Os filhos concebidos no proprio seio só tinham por mãi a espoza, que o guerreiro tomou por companheira de sua existencia e raiz de sua geração.
O rito da hospitalidade entre os filhos da floresta manda que se dê ao estranjeiro amigo tudo que deleita ao guerreiro.
Por isso vinham as moças oferecer a Jurandir sua beleza, para que elle escolhesse entre ellas uma companheira, que partilhasse sua rêde na cabana hospedeira.
Todas se tinham enfeitado com seus mais belos ornatos, para agradar aos olhos de Jurandir; pois não havia para ellas maior gloria do que a de merecer o amor do estranjeiro.
Umas traziam as tranças urdidas com penas vistozas dos passaros de sua predileção; outras haviam perfumado da essencia do sassafraz os cabelos soltos, que derramavam sua fragancia ao sopro da briza.
Chegando diante do estranjeiro, começaram uma dansa amoroza para mostrar a graça de seu corpo. Aquellas que tinham a voz doce cantavam em louvor de Jurandir.
Arací fôra buscar seu balaio de palha vermelha, e sentára-se no terreiro, junto á porta da cabana. Seus dedos ajeis enfiavam as sementes de jequerití, de que fazia um ramal para seu colo gentil.
Emquanto compunha o colar, a virjem percebia que os olhos de Jurandir abandonavam os encantos das mulheres, e buscavam seu rosto.
Mas ella voltava-se para a floresta; com o trinado de seus labios chamava o crajuá, que voava no olho da palmeira. O passarinho iludido vinha, cuidando ouvir o canto da companheira.
Jurandir apartou as mulheres e disse:
--As moças tocantins são formozas, qualquer dellas alegraria o sono do estranjeiro. Mas Jurandir não veiu á cabana de Itaquê para gozar do amor de uma noite; elle veiu buscar a espoza que ha de acompanhal-o até á morte, e a virjem que escolheu para mãi de seus filhos.
Quando Arací ouviu estas palavras cobriu-se de sorrizos, como o guajerú se cobre de suas flôres alvas e perfumadas com os orvalhos da manhã.
Jurandir voltou-se então para a virjem caçadora:
--Estrela do dia, Arací, conduze-me á prezença de Itaquê. É tempo que elle saiba o segredo do estranjeiro.
--Os sonhos disseram a Arací duas noites seguidas, que o joven caçador chegaria á cabana de Itaquê; ella te esperou. Quando meus olhos te viram sentado entre os moacaras, logo conheceram que tu vinhas buscar a espoza.
O estranjeiro respondeu:
--Jurandir chegou á taba dos seus, e recebeu um nome de guerra e o grande arco de sua nação. Mas a cabana do chefe estava dezerta; e sua rêde não lhe guardou o sono tranquilo do guerreiro. Elle ouviu tua voz que o chamava, virjem tocantim, e ergueu-se; tua luz o guiou, filha do sol, e o trouxe á tua prezença.
V
SERVO DO AMOR
Jurandir, conduzido pela virjem, caminhou ao encontro de Itaquê e disse:
--Grande chefe dos tocantins, Jurandir não veiu á tua cabana para receber a hospitalidade; veiu para servir ao pai de Arací, á formoza virjem, a quem escolheu para espoza. Permite que elle a mereça por sua constancia no trabalho, e que a dispute aos outros guerreiros pela força de seu braço.
Itaquê respondeu:
--Arací é a filha de minha velhice. A velhice é a idade da prudencia e da sabedoria. O guerreiro que conquistar uma espoza como Arací terá a gloria de gerar seu valor no seio da virtude. Itaquê não póde dezejar para seu hospede maior alegria.
Desde esse momento, Jurandir não foi mais estranjeiro na taba dos tocantins. Pertencia á oca de Itaquê, e devia, como servo do amor, trabalhar para o pai de sua noiva.
Os guerreiros, cativos da beleza de Arací, conheceram que tinham de combater um adversario formidavel; mas seu amor creceu com o receio de perder a filha de Itaquê.
Jurandir tomou suas armas e deceu ao rio. Era a hora em que o jacaré boia em cima das aguas como o tronco morto, e a jaçanan se balança no seio do nenufar.
O manatí erguia a tromba para pastar a relva na marjem do rio. Ouvindo o rumor das folhas, mergulhou na corrente; mas já levava o arpéu do pescador cravado no lombo.
Jurandir não esperou que o peixe ferido dezenrolasse toda a linha. Puxou-o para terra; e levou-o ainda vivo á cabana de Itaquê, onde tres guerreiros custaram a deital-o no giráu.
As mulheres cortaram as postas de carne, e os guerreiros cavaram a terra para fazer as grelhas do biaribí.
Jurandir partiu de novo, e entrou na floresta. Ao lonje reboavam os gritos dos caçadores, que perseguiam a féra.
Pelo assobio o guerreiro conheceu que era um tapir. O animal zombára dos caçadores e vinha rompendo a mata como a torrente do Xingú.
As arvores que seu peito encontrava caíam lascadas.
Jurandir estendeu o braço. O velho tapir, agarrado pelo pé, ficou suspenso na carreira, como o passarinho prezo no laço. Nunca até aquelle momento encontrára força maior que a sua.
Uma vez decera á lagôa para beber. A sucurí, que espreitava a caça, mordeu-o na tromba. Elle fujia, esticando a serpente; e a serpente encolhendo-se o arrastava até á beira d'agua.
Assim tornou, uma, duas, tres vezes. Mas o tigre urrou de fome. O velho tapir disparou pela floresta; e a sucurí com a cauda preza á raiz da arvore arrebentou pelo meio.
O velho tapir rompeu a serpente como se rompe uma corda de piassaba; mas não pôde abalar o braço de Jurandir, mais firme do que o tronco do guaribú.
O estranjeiro tornou á cabana com a caça. Nenhum dos guerreiros da taba, nem mesmo o velho Itaquê, pôde aguentar com as duas mãos a féra bravia.
Então Jurandir obrigou o animal a agachar-se aos pés de Arací e disse:
--O braço de Jurandir fará cair assim a teus pés o guerreiro que ouze disputar ao seu amor a tua formozura, estrela do dia.
* * * * *
Nunca a abundancia reinára na cabana sempre farta do chefe dos tocantins, como depois que a ella chegára o estranjeiro.
Jurandir era o maior caçador das florestas, e o primeiro pescador dos rios. Seu olhar seguro penetrava na espessura das brenhas, como na profundeza das aguas.
Nada escapava á destreza de sua mão. Onde ella não chegava, iam as unhas de suas flechas certeiras, que rasgavam o seio da vitima, como as garras do jaguar.
O estranjeiro soubera de Arací qual era a caça que Itaquê preferia, e qual o peixe que elle achava mais saborozo. Desde então nunca o velho chefe sentiu a falta do manjar predileto.
Se não era a lua propria do peixe dezejado, Jurandir sabia onde o podia encontrar. Não tornava á cabana sem a provizão necessaria para a refeição do dia.
Depois da caça e da pesca, Jurandir trabalhava nas roças de Itaquê. Fazia no taboleiro os matumbos, para que Jacamim enterrasse as estacas da maniva e semeasse o feijão, o milho e o fumo.
Entre os filhos das florestas a plantação devia ser feita pela mão da mulher, que era mãi de muitos filhos; porque ella transmitia á terra sua fecundidade.
A semente que a mão da virjem depozitava no seio da terra dava flôr; mas da flôr não saía fruto. E se era um guerreiro que plantava, o aipim endurecia como o páu de arco.
Nas vazantes do rio, Jurandir capinava a terra coberta de relva e outras plantas, e só deixava crecer o arroz, o inhame e as bananeiras.
Quando o estranjeiro partia pela manhã, Arací o acompanhava de lonje pela floresta.
Sua vontade a levava após elle.
O costume da taba não consentia que a virjem dezejada pelos servos de seu amor, preferisse um guerreiro antes de saber se elle a obteria por espoza.
A filha de Itaquê não queria pertencer a outro guerreiro; mas lembrava-se que a virjem deve merecer o espozo por sua paciencia, assim como o guerreiro merece a espoza por sua constancia e fortaleza.
Então voltava ao terreiro: emquanto os outros guerreiros espreitavam sua vontade, ella tecia as franjas para a rêde do cazamento.
Sua mão sutil urdia com o alvo fio do crauatá a fina penujem escarlate. Os noivos cuidavam que era a do peito do tucano; mas ella sabia que era do peito da arára e que tinha as côres de seu guerreiro.
Quando o sol chegava ao cimo dos montes, ouvia-se o canto de Jurandir que voltava da caça. A virjem seguida pelos guerreiros ia ao encontro do estranjeiro.
Então deciam ao rio. Era a hora do banho. Arací cortava as ondas mais linda que a garça côr de roza; e os guerreiros a seguiam de perto, como um bando de galeirões.
Mas nenhum, nem mesmo Jurandir, que nadava como um bôto, podia alcançar a formoza virjem. Ella parecia a flôr do mururê que se desprendeu da haste, e passa levada pela corrente.
Uma vez a filha das aguas soltou um grito, e dezapareceu no seio das ondas. Jacamim cuidou que o jacaré tinha arrebatado a filha de seu seio. Os guerreiros mergulharam para salval-a; mas não a encontraram.
Todos a julgavam perdida, quando apareceu Jurandir que trazia nos braços o corpo da virjem formoza. Pizando em terra, ella correu para a cabana, onde foi esconder sua alegria.
Desde então era no banho que Arací recebia o abraço de Jurandir, sem que os outros guerreiros suspeitassem da preferencia dada ao estranjeiro.
No seio das ondas ninguem a adivinhava, a não ser o ouvido sutil de Jurandir, a quem ella chamava com o doce murmurio do irerê.
Encontravam-se no fundo do rio emquanto durava a respiração. Depois desprendiam-se do abraço e surjiam lonje um do outro.
* * * * *
Á tarde, voltando da caça, Jurandir viu na floresta um rasto, que elle conhecia.
Chegado á cabana, entregou a Jacamim o veado que matára, e saiu para vizitar os arredores. Nada encontrou de suspeito; o rasto, que o inquietava, não chegára até ali.
No outro dia, ao romper da alvorada, logo depois do banho os guerreiros partiram para a caça e para a pesca. Só ficaram na cabana Jacamim e as mulheres de Itaquê.
Arací tomou o arco e entrou na floresta. A imajem do guerreiro amado fujia naquelle instante de seus olhos; elles buscaram entre as folhas o sinal de seus passos e não o descobriram.
Lembrou-se a virjem, que Jurandir gostava da polpa do guaranan adoçada com o mel da abelha, e colheu os frutos encarnados que pendiam dos ramos da trepadeira.
Nesse momento a arára cantou no olho do pirijá. Arací precizava de suas plumas vermelhas para o cocar que ella tecia em segredo.
Era o cocar do amor, com que dezejava ornar a cabeça de seu guerreiro senhor, no dia em que elle a conquistasse por espoza.
A virjem armou o arco e seguiu a arára rompendo a folhajem. Quando ia disparar a seta, ouviu ao lado um rumor dezuzado.
Jurandir estava perto della, e segurava o braço de uma mulher, que ainda tinha na mão a macana afiada.
Arací conheceu a virjem araguaia, pela faxa de algodão entretecida de penas que lhe apertava a curva da perna; e adivinhou que era Jandira, a noiva do guerreiro.
--Filha de Majé, tua mão quiz matar a virjem que Jurandir escolheu para espoza. Tu vais morrer.
--Desde que Ubirajara abandonou Jandira, ella começou a morrer, como a baunilha que o vento arranca da arvore. Acaba de matal-a, para que sua alma te acompanhe de dia na sombra das florestas e te fale de noite na voz dos sonhos.
--A virjem araguaia ameaçou a vida de Arací; ella lhe pertence, disse a filha de Itaquê.
Jurandir cortou na floresta uma comprida rama de imbê, e atou as mãos de Jandira.
--Jandira é tua escrava. Não lhe dês a liberdade. Ella tem a astucia da serpente e seu veneno.
--Eu era a cobra d'agua, amiga do guerreiro, que habita sua cabana e a guarda contra o inimigo. Quem foi que me fez a cascavel venenoza, que traz nos labios o sorrizo da morte?
Jurandir não respondeu. Nesse momento elle teve saudade de sua cabana; e lembrou-se do tempo em que, joven caçador, seguia na floresta a formoza virjem araguaia.
* * * * *
As duas virjens ficaram sós no claro da floresta.
Já o rumor dos passos de Jurandir se apagára ao lonje, e ainda tinham ambas os olhos cativos uma da outra.
Jandira pensou que ella não podia dar a Ubirajara a formozura da filha de Itaquê. Arací receiou que o amor do guerreiro se voltasse outra vez para a linda virjem araguaia.
A filha de Majé preparou-se para morrer á mão de sua rival, mas ella preferia a morte ao suplicio de contemplar sua beleza.
Arací, a estrela do dia, cantou:
--O amor do guerreiro é a alegria da virjem; quando elle foje, a virjem fica triste como a varzea que perdeu sua relva.
«Por isso Jandira está triste; o amor do guerreiro fujiu della; e a deixou solitaria como a nambú, a quem o companheiro abandonou.
«Mas o amor do guerreiro é como o orvalho da noite. Quando o sol queima a varzea, elle dece do céu para cobril-a de verdura e de flôres.
«Arací está alegre, porque o amor do guerreiro voltou-se para ella; e Jurandir vai fazel-a companheira de sua gloria e mãi de seus filhos.
«Quando a espoza de Jurandir não tiver mais beleza para dar a seu guerreiro, ella consentirá que Jandira durma em sua rêde.