Trovas do Bandarra natural da Villa de Trancoso, apuradas e impressas por ordem de um grande senhor de Portugal

Part 2

Chapter 24,183 wordsPublic domain

Tudo nos he sufraganho Montes, valles, e pastores, E repunhão os bailadores, Que não entre aqui estranho.

XXXVIII.

Fernando tanja a guitarra, Tu, João, o arrabil, Pouza teu surrão, e vara, Alegra bem tua cara Em tal bailo pastoril.

XXXIX.

E Pedro, que he mais subtil Entre, e baile com Florença, Jaque he dama gentil, He mui bem que lhe pertenca.

XL.

Andre baile com Paschoala, E venha apos a primeira, Antes de meter mais falla Entre, e baile esta Zagala, Em que sempre he referteira.

XLI.

Sempre foi mui agoureira Com os estranhos dançar E pois está tão cantadeira, Não seja ella a derradeira, Venha logo a bailar.

XLII.

Ha de ser mui de louvar Este auto, que aqui temos, E a todo o que bailar Hão lhe mui bem de pagar, E assim lho promettemos.

XLIII.

Sus! antes de mais estremos Baile Fernando, e Constança, E poisque tudo ja vemos, Pelo bem que lhe queremos Seja elle o mestre de dança.

XLIV.

João, o bom Ovelheiro, Sempre foi nobre Pastor, Não se conte derradeiro, Pois he igual ao primeiro, Este baile com Leonor.

XLV.

Sempre foi bom guardador Do gado, que lhe entregarão, Mui grande accomettedor, E mui grande corredor Dos lobos, que o acoçarão.

XLVI.

Por não ficar em olvido O nobre Pastor Garcia, Que sempre foi atrevido, E de nós muito querido, Este baile com Mecia.

XLVII.

Pois he de alta valia, Dêmos lhe outro montado, O monte que reluzia, Aonde faça a bailia, E paste bem o seu gado.

RODOÃO

XLVIII.

Tudos ja tendes partido, Todos os montados dais, Eu que fui de vós querido, E dos lobos mui ferido, De mim ja vos não lembrais?

PASTOR MOR.

XLIX.

Ainda fica mais, e mais, Vossos gados pastarão, Ficão terras de chão taes Os valles, e piornaes, Tudo vos dou, Rodoão.

L.

Tambem ficão umas ladeiras De hervas mui saboridas, Donde sahem umas ribeiras, Que regão muitas lameiras Com aguas esclarecidas.

LI.

A quellas serras erguidas, Onde está a nobre montanha, Pois por nós forão havidas, E ategora perdidas, Fiquem a toda a companha.

LII.

A quelle valle de alem He o valle de primor, He o valle de Salem, Onde acho que muitos tem Grande virtude, e valor.

GARCIA.

LIII.

Ja matarão o grão Pastor, Por inveja o matarão: Porque era bom guardador, Das ovelhas bom creador; Por cobiça o acabarão.

FERNANDO.

LIV.

Os bailos são acabados, Senhor, vamos a jantar, Que dos trabalhos passados Muitos ha aqui desmaiados, Que convem de repouzar.

LV.

Se algo lhe quereis dar, Sobre meza lho daremos, Onde bem pode mandar, E o seu gado bem pastar, Que assim por bem o temos. Cahe no bailo de João.

PEDRO.

LVI.

Tambem la naquella altura Está um lobo huivando, E no meio da espessura Um bufo está bufando, E um mocho está cantando, E Andre está sentindo Não bailar como Fernando.

JOÃO.

LVII.

Tambem Pedro, por quem procuro, He um barão singular, Que no claro, e no escuro Sempre bailou mui seguro, E hade ficar sem lhe dar?

PASTOR MOR.

LVIII.

Pois va o elle cercar, E far lhe hão grandes damnos; I-lo hemos ajudar, Até poder sugeitar Os cavallos Mariannos.

LIX.

Ao redor da grão cabana Na quelles montes erguidos, No valle que se diz Canna, Ouvimos esta semana, Lobos que andão fugidos, Dando grandes alaridos, Fazendo grande agonia, Muitos mortos, e feridos, E outros andão perdidos. Cahem no bailo de Garcia.

PASTOR MOR.

LX.

Quem mete ao estrangeiro Cá no meu nobre assento, Pois o defendi primeiro, Poisque do meu vencimento Lhe peza mui por inteiro?

ESTRANGEIRO.

LXI.

Em que vos hei offendido, E de mim sois anojado?

PASTOR MOR.

LXII.

He porque te hei requerido, Mil vezes commettido, E tu sempre desmandado: E porque estás abraçado Com os meus competidores, E com elles alliado, Naõ mereces ter montado Com estes nobres Pastores.

LXIII.

Tu me has sido revel Contra os meus ovelheiros, Abraçado com Babel Mui descrido, e cruel, Contra os meus pegureiros. Minhas ovelhas, carneiros Naõ lhe tinhas lealdade, Degolavas meus cordeiros, Derrubavas meus chiqueiros, Negavas me a verdade.

ANDRE.

LXIV.

I vos, Pastor, mui embora, Grande merce nos fareis. Que vos vades logo essa hora, E depois que fordes fóra, Alguma razão tereis.

JOÃO.

LXV.

Poraqui vos sahireis, Mentes o Pastor dá volta, Que depois não podereis, E quiçais nos metereis Nalguma grande revolta.

FERNANDO.

LXVI.

Não te queiras mais deter, Busca jogos, e harmonias, Poronde tomes alegrias, Antesque hajão de volver. Oh! Senhor, tomai prazer, Que o grão Porco selvagem Se vem ja de seu querer, Meter em vosso poder Com seus portos, se passagem.

LXVII.

Em os campos de Tropé Vossa frauta tangereis, E nos campos de Godofré, E nas terras de Thome Todos nellas bailareis, Com os filhos de Ullisse, Que gostão nosso tanger. Nenhum porco roncará, Nenhum lobo huivará Senão por vosso querer.

PROGNOSTICA O AUTHOR OS MALES DE PORTUGAL, CANTA SUAS GLORIAS COM A ACCLAMAÇÃO DO REI ENCUBERTO.

LXVIII.

Forte nome he Portugal, Um nome tão excellente, He Rei do cabo poente, Sobre todos principal. Não se acha vosso igual Rei de tal merecimento: Naõ se acha, segun sento, Do Poente ao Oriental.

LXIX.

Portugal he nome inteiro, Nome de macho, se queres: Os outros Reinos mulheres, Como ferro sem azeiro; E senão olha primeiro, Portugal tem a fronteira, Todos mudão a carreira Com medo do seu rafeiro.

LXX.

Portugal tem a bandeira Com cinco Quinas no meio, E segundo vejo, e creio, Este he a cabecêira, E porá sua cimeira, Que em Calvario lhe foi dada, E será Rei de manada Que vem de longa carreira.

LXXI.

Este Rei tem tal nobreza, Qual eu nunca vi em Rei: Este guarda bem a lei Da justica, e da grandeza. Senhorea Sua Alteza Todos os portos, e viagens, Porque he Rei das passagens Do Mar, e sua riqueza.

LXXII.

Este Rei tao excellente, De quem tomei minha teima, Naõ he de casta Goleima, Mas de Reis primo, e parente. Vem de mui alta semente De todos quatro costados, Todos Reis de primos grados De Levante ate ao Poente

LXXIII.

Serão os Reis concorrentes, Quatro serão, e naõ mais; Todos quatro principaes Do Levante ao Poente. Os outros Reis mui contentes De o verem Imperador, E havido por Senhor Naõ por dadivas, nem presentes.

LXXIV.

Commendadores, Prelados, Que as Igrejas comeis, Traçareis, e volvereis Por honra dos Tres Estados, E os mais serão taxados; Todos contribuirão E haverá grão confusão Em toda a sorte de estados.

LXXV.

Ja o Leaõ he experto Mui alerto. Ja acordou, anda caminho. Tirará cedo do ninho O porco, e he mui certo. Fugirá para o deserto, Do Leaõ, e seu bramido, Demostra que vai ferido Desse bom Rei Encuberto.

LXXVI.

Uma porta se abrirá N'um dos Reinos Africanos, Contraria aos Arrianos, Que nunca se cerrará. A vacca receberá A nova gente que vem, Com prázer de tanto bem Seu leite derramará.

LXXVII.

A lua dará grão baixa, Segundo o que se vê nella, E os que tem Lei com ella: Porque se acaba a taixa. Abrir se ha aquella caixa, Que ategora foi cerrada, Entregar se ha á forçada Envolta na sua faixa.

LXXVIII.

Um grão Leão se ergerá, E dará grandes bramidos; Seus brados serão ouvidos, E a todos assombrara; Correrá, e morderá E fará mui grandez damnos, E nos Reinos Africanos A todos sugeitará.

LXXIX.

Passará, e dará boccado Na terra da Promissão, Prenderá o velho Cão, Que anda mui desmandado.

LXXX.

De perdões, e orações Irá fortemente armado, Dará nelles S. Thiago, Na volta que faz depois.

LXXXI.

Entrara com dous pendões Entre os porcos sedeudos, Com fortes braços, e escudos De seus nobres Infanções.

INTRODUZ O AUTHOR POETICAMENTE DOUS JUDEOS, QUE VEM BUSCAR O PASTOR MOR UM CHAMADO FRAIM, E OUTRO DÃO, E ACHÃO FERNANDO OVELHEIRO Á PORTA.

FRAIM.

LXXXII.

Dizei, Senhor, poderemos Com o grão Pastor fallar? E daqui lhe prometemos Ricas joias que trazemos Se no las quizer tomar.

FERNANDO.

Judeos que lhe haveis de dar?

JUDEOS.

LXXXIII.

Dar lhe hamos grande thesouro Muita prata, muito ouro, Que trazemos de além mar. Far nos heis grande merce De nos dardes vista delle.

FERNANDO.

LXXXIV.

Entrai, Judeos, se quereis, Bem podeis fallar com elle, Que la dentro o achareis.

LXXXV.

Tomará com seu poder, E grão saber, Todos os portos de alem, Marrocos, e Tremecem, E Féz tambem: Fara tudo a seu querer, Vi lo hão a cometter Pelo deter, Que querem ser tributarios, E lhe querem dar dinheiros, Lisongeiros, Os quaes naõ deve querer.

LXXXVI.

E depois da Embaixada Declarada, Antesque cerrem quarenta, Erger se ha a grão tormenta, Do que intenta, E logo será amansada, E tomarão a estrada De calada, Naõ terão quem os affoite, Dar lhe hão aquella noite Tal açoite, Que a Fe seja exalçada.

LXXXVII.

Ja o tempo desejado He chegado, Segundo o firmal assenta: Ja se cerrão os quarenta, Que se emmenta, Por um Doutor ja passado. O Rei novo he alevantado, Ja dá brado; Ja assoma a sua bandeira Contra a Grifa parideira, La gomeira, Que taes prados tem gostado.

LXXXVIII.

Saia, saia esse Infante Bem andante, O seu nome he D. João,[3] Tire, e leve o pendão, E o guião Poderoso, e tryunfante. Vir lhe hão novas n'um instante Daquellas terras prezadas, As quaes estão declaradas, E affirmadas Pelo Rei dali em diante.

[3]Veja se ao principio a advertencia do primeiro Editor da maneira, como este Verso se lia errado em alguns manuscriptos por incuria de alguns copistas, e equivocação das duas letras.

LXXXIX.

Naõ acho ser deteudo O agudo, Sendo elle o instrumento, Naõ acho, segundo sento O Excellento Ser falso no seu Escudo. Mas acho, que o Lanudo Mui sezudo, Que arrepellará o gato, E far lhe ha murar o rato, De seu fato Leixando o todo desnudo.

XC.

Naõ tema o Turco, naõ Nesta sezão, Nem o seu grande Mourismo, Que naõ recebeu bautismo, Nem o chrismo, He gado de confusão. Firmal põe declaração Nesta tenção, Chama lhe animaes sedentos Que naõ tem os mandamentos, Nem Sacramentos; Bestiaes são, sem razão.

XCI.

Em que venhão mais, e mais Dos bestiaes, Pelo que mostra a figura, Haverão a sepultura Da amargura, Como brutos animaes. Que se o texto bem olhais, E declarais Com fundas serão feridos, Todos mortos, confundidos Nos abysmos infernaes.

XCII.

As chagas do Redemptor, E Salvador São as armas de nosso Rei: Porque guarda bem a Lei, E assim a grei Do mui alto Creador. Nenhum Rei, e Imperador, Nem grão Senhor Nunca teve tal signal, Como este por leal, E das gentes guardador.

XCIII.

As armas, e o pendão, E o guião Forão dadas por victoria Da quelle alto Rei da Gloria Por memoria A um Santo Rei barão. Succedeu a El Rei João, Em possessão O Calvario por bandeira, Leva lo ha por cimeira, Alimpará a carreira De toda a terra do Cão.

* * * * *

SONHO SEGUNDO.

XCIV.

Oh! quem tivera poder Pera dizer, Os sonhos que o homem sonha! Mas hei medo, que me ponha Grão vergonha De mos naõ quererem crer. Vi um grão Leão correr Sem se deter Levar sua viagem, Tomar o porco selvagem Na passagem, Sem nada lho defender.

XCV.

Tirará toda a escorta Será paz em todo o Mundo, De quatro Reis o segundo Haverá toda a victoria.

XCVI.

Será delle tal memoria Por ser guardador da Lei, Polas Armas deste Rei Lhe darão tryunfo, e gloria.

XCVII.

Trinta e dous annos e meis Haverá signaes na terra; A Escriptura naõ erra; Que aqui faz o conto cheio.

XCVIII.

Um dos tres que vão arreio Demostra ser grão perigo; Haverá açoite, e castigo Em gente que naõ nomeio.

XCIX.

Ja o tempo desejado He chegado Segundo o firmal assenta Ja se passão os quarenta Que se emmenta Por um Doutor ja passado. O Rei novo he acordado Ja dá brado: Ja arressoa o seu pregão Ja Levi lhe dá a maõ Contra Sichem desmandado. E segundo tenho ouvido, E bem sabido, Agora se cumprirá: A deshonra de Dina Se vingará Como está promettido.

C.

O Rei novo he escolhido, E elegido, Ja alevanta a bandeira Contra a Grifa parideira Que taes pastos tem comido; Porque haveis de notar, E assentar, Aprazendo ao Rei dos Ceos Trará por ambas as Leis, E nestes seis Vereis couzas de espantar.

CI.

O nescio quer affirmar, E declarar Desde seis ate setenta Que se emmenta, Do Rei que irá livrar. Louvemos este Barão Do coração, Porque he Rei de Direito; Deos o fez todo perfeito Dotado de perfeição.

CII.

Este Rei tem um Irmão, Bom Capitão. Não se sabe a irmandade? Todo he nobre, em bondade; E na verdade Que sahirá com o pendão.

CIII.

Muitos estão desejando, E altercando, Se o meu dito será certo, Se de longe, se de perto? E sobre o tal praticando. A quelle grão Patriarcha No lo mostra, e está fallando, E declara o grão Monarcha: Ser das terras, e comarca, Semente del Rei Fernando.

CIV.

Este Rei de grão primor, Com furor, Passará o mar salgado Em um cavallo enfreado, E não sellado, Com gente de grão valor.

CV.

Este diz, soccorrerá, E tirará, Aos que estão em tristura. Deste, conta a Escriptura, Que o campo despejará, Os Fidalgos estimados, E desprezados, Que ategora são corridos, Com o tal serão erguidos, E mui queridos, E com os Reis estimados.

CVI.

Se lerdes as Profecias De Jeremias, Irão dos cabos da terra Tomar os Valles, e Serra, Pondo guerra, E tirar as heregias, Derrubar as Monarchias, E fantezias Serão bem apontoadas, Serão todas derrubadas, Desconsoladas Fóra da possentadorias.

CVII.

Ainda mas profetizando, E declarando: Seus pequenos das manadas, Derrubar lhe hão as moradas Bem entradas, E assim o vai mostrando. Ja o Leão vai bradando, E desejando Correr o porco selvagem, E toma lo há na passagem Assim o vai declarando.

CVIII.

Muitos podem responder, E dizer: Com que próva o çapateiro Fazer isto verdadeiro, Ou como isto pode ser? Logo quero responder Sem me deter. Se lerdes as Profecias De Daniel e Jeremias Por Esdras o podeis ver.

* * * * *

SONHO TERCEIRO.

CIX.

Oh! quem pudéra dizer, Os sonhos que o homem sonha! Mas eu hei grão vergonha De mos não quererem crer.

CX.

Sonhava com grão prazer, Que os mortos resuscitavão, E todos se alevantavão, E tornavão a renascer.

CXI.

E que via aos que estão Tras os rios escondidos; Sonhava, que erão sahidos Fóra daquella prizaõ.

CXII.

Vi ao Tribu de Daõ Com os dentes arreganhados, E muitos despedaçados Da Serpente, e do Dragaõ.

CXIII.

E tambem vi a Rubem Com graõ voz de muita gente, O qual vinha mui contente Cantando, Jerusalem.

CXIV.

Oh! quem vira ja Belem E esse monte de Siaõ E visse o Rio Jordão Pera se lavar mui bem!

CXV.

Vi tambem a Simeão Que cercaua, todas as partes Com bandeiras, e estandartes Nephtalim, e Zabulaõ.

CXVI.

Gad vinha por Capitão Desta gente que vos fallo, Todos vinhão a cavallo Sem haver um só piaõ.

CXVII.

Eu por mais me affirmar, E ver se estava acordado Vi um velho mui honrado, Que me vinha a perguntar.

CXVIII.

Dize me, tu es de Agar, Ou como fallas Chananêo? Ou es porventura Hebrêo Dos que nos vimos buscar?

CXIX.

Tudo o que me purguntais (Respondi assim dormente) Senhor, naõ sou dessa gente, Nem conheço esses taes.

CXX.

Mas segundo os signaes Vós sois do povo cerrado, Que dizem estar ajuntado Nessas partes Orientaes.

CXXI.

Muitos estaõ desejando Serem os povos juntados: Outros muitos avizados O estaõ arreceando.

CXXII.

Arreceão vir no bando Esse Gigante Golias Mas por ver Henoch, e Elias Doutra parte estaõ folgando.

CXXIII.

Dizeime, nobre Barão, Pergunto, se sois contente Dizer me vossa semente Se he da casa de Abrahão?

CXXIV.

Que eu sam dessa geração Sahi do Tribo de Levi, Sacerdote como Heli, O meu nome he Araõ.

CXXV.

Eu quizera lhe responder, E tocar lhe em a Lei, Senão nisto acordei, E tomei grande prazer.

CXXVI.

E depois de acordado Fui a ver as Escripturas, E achei muitas pinturas E o sonho affigurado.

CXXVII.

Em Esdras o vi pintado, E tambem vi Isaias, Que nos mostra nestes dias Sahir o povo cerrado.

CXXVIII.

O qual logo fui buscar A Got, Magot, e Ezechiel, As Domas de Daniel Comecei de as olhar; E achei no seu cantar Segundo o que representa; E assim Gad, como Agar, Que tudo se ha de acabar Dizendo: Cerra os setenta.

RESPOSTA DO BANDARRA A ALGUMAS PERGUNTAS, QUE LHE FIZERÃO, E DA RESPOSTA DELLAS SE CONHECEM QUAES FORÃO.

CXXIX.

Os tempos que ja se vem Porque, Senhor, perguntais, Mui grande segredo tem, Que muitos dizem Amen, Mais se calão mais e mais.

CXXX.

O mais está por cumprir, O que a minha conta somma: Porque de partir a vir O texto se hade cumprir Primeiro, Senhor, em Roma.

CXXXI.

E nestes tresentos dias, Senhor, que agora contamos Se contém as Profecias De Daniel, e Jeremias, Nas quaes agora entramos.

CXXXII.

E depois de ellas entrarem Tudo será ja sabido, Aquelles que aos seis chegarem, Terão quanto desejarem, E um só Deos será conhecido.

CXXXIII.

Com vosco fallo estas couzas, Como com um grande letrado, As umas são perigosas, E as outras duvidosas Ainda naõ hão começado.

CXXXIV.

Antes destas couzas serem Desta era que dizemos, Mui grandes couzas veremos, Quaes naõ virão os que viverão, Nem vimos, nem ouviremos.

CXXXV.

Sahira o prisioneiro Da nova gente que vem, Dessa Tribu ds Rubem, Filho do Jacob primeiro Com tudo o mais quo tem.

CXXXVI.

O mocho está assobiando, Dizendo e chamando bois, E com medo de depois, Tudo se está arreceando.

CXXXVII.

Os dous bois estão berrando, Pelo tirar da barroca, Que naõ entre na sua toca O Bufo, que esta bufando.

CXXXVIII.

Acho em as Profecias Que a terra tremerá E como abobada soará Quando faz harmonias.

CXXXIX.

Dizem, que nos ultimos dias, Que aquestas couzas serão A vinte e quatro acharão Este dito de Isaias.

CXL.

Vejo os lobos comer As ovelhas degoladas, As vaccas mortas montadas E os cordeiros gemer.

CXLI.

Naõ deve a terra tremer Mas fundir se sem tardança, Pois os que tem a governança Os naõ querem defender.

CXLII.

Vejo o mundo em perigo, Vejo gentes contra gentes; Ja a terra naõ dá sementes, Senaõ favacas por trigo.

CXLIII.

Ja naõ nenhum amigo, Nenhum tem o ventre são, Somos ja vento soão, Que naõ tem nenhum abrigo.

CXLIV.

Vejo quarenta e um anno Pelo correr do cometa, Pelo ferir do planeta Que domostraser grão damno.

CXLV.

Vejo um grande Rei humano Alevantar sua bandeira, Vejo como por peneira A Grifa morrer no cano.

CXLVI.

Vejo o lobo faminto Concertado c'os rafeiros: Os pastores, e ovelheiros Saõ de um consentimento.

CXLVII.

Acho cá no instrumento, Que virá um contador Tomar conta ao pastor E pagará um por cento.

CXLVIII.

Revolvi o meu canhenho Sobre este forte barão, Naõ lhe acho nenhum senão; Dizer delle muito tenho.

CXLIX.

Vejo um alto engenho Em uma roda tryunfante, Vejo subir um Infante No alto de todo o lenho.

CL.

Vejo erguer um grão Rei Todo bem aventurado, E será tão prosperado, Que defenderá a grei.

CLI.

Este guardará a Lei De todas as heregias, Derrubará as fantezias, Dos que guardão, o que não sei.

CLII.

Vejo sahir um fronteiro Do Reino detrás da serra, Desejoso de por guerra Esforçado cavalleiro.

CLIII.

Este será o primeiro, Que porá o seu pendão Na cabeça do Dragão, Derruba lo há por inteiro.

CLIV.

Acho, que depois virá Ás ovelhas um pastor Mui manso, e bom guardador, Que o fato reformará.

CLV.

Este pastor lhe dará A comer herva mui sã, E de suas ovelhas, e lã Ao mesmo Deos vestirá.

CLVI.

Todos terão um amor, Gentios como pagãos, Os Judeos serão Christãos, Sem jamais haver error.

CLVII.

Servirão um so Senhor Jesu Christo, que nomeio, Todos crerão, que ja veio O Ungido Salvador.

CLVIII.

Tudo quanto aqui se diz, Olhem bem as Profecias De Daniel, e Jeremias, Ponderem nas de raiz.

CLIX.

Acharão, que nestes dias Serão grandes novidades, Novas leis, e variedades, Mil contendas, e porfias.

TROVAS NUNCA IMPRESSAS.

II. PARTE.

SEGUNDO CORPO DE TROVAS DO BANDARRA.

* * * * *

Estas Trovas naõ vem no antecedente Exemplar impresso, mas consta por antiga memoria muito authentica serem do mesmo Bandarra: forão extrahidas de uma copia, que o Cardial Nuno da Cunha deu ao P. Fr. Francisco de Almeida. Provincial, que foi da Ordem dos Heremitas de Santo Agostinho, Provisor do Priorado do Crato, da Casa dos Condes de Avintes, e tio do Cardial D. Thomas de Almeida, primeiro Patriarcha de Lisboa.

I.

Levanteime muito cedo, Puz me na minha tripeça, E lá de lonje começa Um bramido, que poem medo.

II.

Vão todos como forçados, Passão serras, e mais montes. Secão se rios e fontes, Tudo por nossos pecados.

III.

Furo co'a minha sovéla Meto seda meto fio: Quando far a neve, e frio, Naõ há quem possa soffrê la.

IV.

Vejo a terra dezerta, E parades levantadas: Vou dando quatro pancadas Na sola, quando se aperta.

V.

Vejo a guerra na paz, E muitos morrer no fosso: Foje o cavallo, e o mosso Depois que o soldado jaz.

VI.

Entre montes muito altos Há uma casa sagrada: Ja naõ quero ver mais nada, E vou batendo os meus saltos.

VII.

Arranha me o gato? sape: Olho outra vez da ladeira, Deita se o cordão á geira, Não acho poronde escape.

VIII.

Com o trinchete aparo a sola Furando com bróca a vira: Isto he que meu gosto aspira Pois vejo o jogo da bola.

IX.

Estão muitos páos armados Que lá de longe se vem; A quem naõ parecer bem, Perca o officio, e meta os gados.

X.

Com o cerol encero o linho; Puxo com torquez o couro; Gasta se todo o thesouro Pera abrir novo caminho.

XI.

Quando falho aos meus fregueses Ficão descalços com magoa: Naõ saõ os reaes pera a agua Que se botarão nas rezes.

XII.

Vejo posta toda a gente Trabalhando, sem comer: Vejo os mortos a correr, E os vivos jazer somente.

XIII.

Trabalha todo o sandeo, E tambem o nobre serve; Na certã a carne ferve Pera Mouro, e Judeo.

XIV.

O pobre morrendo á mingua; Outros tem a arca cheia; Chove na praça, e na areia, Como agua de seringa.

XV.

Vou botando o meu remendo Em quanto o Senhor se veste, Uma terra assas agreste. Estou entre serras vendo.

XVI.

Nove letras tem o nome Duas saõ da mesma casta: Olhe qualquer como o gasta Pera naõ morrer de fome.

XVII.

Na era de dous, e tres Depois e tres conta mais Haverá couzas fataes, Vistas em nenhuma vez.

XVIII.

Haverá tantos trabalhos, Gritos, surras barregadas, Porem ja sinto as pizadas Lá pera a banda dos malhos.

XIX.

O povo suspira, e brama Debaixo do seu chapeo; Naõ se enxerga mais que o Ceo Quando a neve se derrama.

XX.

Vejo por entre dous cabos O couro que vou cozendo; Ja após outros vou vendo Muitos mareantes bravos.

XXI.

Ja na carreira primeira Entra a bandeira Real, Ah! Portugal! Portugal! Ja lá vai tua canceira.

XXII.

Dará a serpe tal Brado Do ninho que jaz, e tem Quando vir que outrem lhe vem Tirar da vinha o cajado.

XXIII.

Deixa os filhos mui depressa, E outrem lhos guarda, e cria; Vai caminhando sem guia, Larga a corrôa da cabeça.

XXIV.

Subo me a o meu eirado, Já naõ sinto matinada, Fica a terra socegada O Encuberto declarado.

XXV.

Abre se a porta do Templo, Entra o cordeiro fiel, Veste da casa o burel, Dá a todos grande exemplo.

TERCEIRO CORPO DE TROVAS DO BANDARRA.

* * * * *

Forão tambem achadas estas Trovas, que se seguem na Igreja de S. Pedro da Villa de Trancoso por occasião de se desfazer a parede da Capella mór em 6 de Agosto do anno de 1729.; erão escriptas em pergaminho em 1532 por letra do P. Gabriel João, da dita Villa de Trancoso, e vizinho do mesmo Bandarra. Domingos Furtado de Mendonça, Commissario do Santo Officio lançou logo mão dellas, mas naõ faltarão pessoas graves, e de qualidade, que as trasladarão, e deixarão a seus filhos.

* * * * *

INTRODUCÇÃO.

I.

Em vos que haveis de ser quinto Depois de morto o segundo, Minhas Profecias fundo C'o estas letras, que aqui pinto.

II.

Inda o tronco está por vir, Ja vos vejo erguido cedro: Pouco vai de Pedro a Pedro Se a rama o tronco medir.

III.

Fiz Trovas de ferro, e prata Dignas de qualquer thesouro, Hoje quanto faço he ouro Que em vós, Senhor, se remata

IV.

Naõ conto çapatarias Que n'outros tempos sonhei, O que agora contarei Saõ mais altas Profecias.

V.

A giesta naõ se trosse, Muito amarga o sargaço: Tudo quanto agora faço São bocados de herva doce.

VI.

Faço Trovas muito inteiras Versos mui bem medidos, Que hão de vir a ser cumpridos Lá nas eras derradeiras.

VII.

Eu componho, mas naõ ponho As letrinhas no papel, Que o devoto Gabriel Vai riscando, quanto eu sonho.

* * * * *

SONHO PRIMEIRO.

VIII.