Trovas do Bandarra natural da Villa de Trancoso, apuradas e impressas por ordem de um grande senhor de Portugal

Part 3

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Vejo, mas naõ sei se vejo; O certo he, que me cheira, Que me vem honrar á Beira Um Grande do pe do Tejo.

IX.

Formas, cabos, e sovelas Lavradinhas com primor Mandareis abrir, Senhor, Muitos folgarão de vê las.

X.

Mas ai! que ja vejo vir O Presbytero maior Arriscar todo o primor Que outra vez hade surgir.

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SONHO SEGUNDO.

XI.

Augurai, gentes vindouras Que o Rei que daqui ha de ir, Vos ha de tornar a vir Passadas trinta tizouras.

XII.

O Pastorzinho na serra Grita que tenhão cuidado, Que se vai perdendo o gado Por mais que gritando berra.

XIII.

Desamparar o cortiço Uma abelha mestra vejo; As outras com muito pejo Não tem azas pera isso.

XIV.

Irão tempos de lazeiras Virão tempos de farturas Os frades haverão tristuras Por acudirem as freiras.

XV.

Este sonho que sonhei He verdade muito certa, Que la da Ilha encuberta Vos hade chegar este Rei.

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SONHO TERCEIRO.

XVI.

Sonhei, que estava sonhando, Que passados cem Janeiros Os Portuguezes primeiros Se levantarão em bando.

XVII.

Ergue se a aguia Imperial Com os seus filhos ao rabo, E com as unhas no cabo Faz o ninho em Portugal.

XVIII.

Põe um A pernas acima, Tira lhe a risca do meio, E por detraz lha arrima, Saberás quem te nomeio.

XIX.

Tudo tenho na moleira O passado, e o futuro, E quem for homem maduro Ha de me dar fe inteira.

XX.

Vejo sem abrir os olhos Tanto ao longe como ao pérto; Virá do mundo encuberto Quem mate da aguia os polhos.

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SONHO QUARTO.

XXI.

Lá pera as partes do Norte Vejo como por peneira Levantar uma poeira Que nos ameaça a morte.

XXII.

Vosso grande Capitão, Ó povo errado, e perverso, Já caminha com o terço, E vós dormindo no chão?

XXIII.

Na era que eu nomear Terá fim a heregia; Verás certa a Profecia, Se bem souberes contar.

XXIV.

Poe[m] tres tizouras abertas, Diante um linhol direito, Contaras seis vezes cinco, E mais um, vai satisfeito.

XXV.

Muito rijo bate o vento Na parede da Igreja; Alguem cahida a deseja, No levantar vai o tento.

XXVI.

Mas ai! do calçado a obra Logo requer o salario; Porem naõ ha muita sobra Se naõ dobra o campanario.

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SONHO QUINTO.

XXVII.

Vejo, vejo, dizer vejo Andar a terra ao redor; E o borborinho com dor Revolve um, e outro sexo.

XXVIII.

Rugia a porca do sino, O sino naõ badalava, A grimpa se revirava, E o sino andáva a pino.

XXIX.

Meto a sovela nas viras, E vejo pelo buraco Os ossos de Pedro Jaco No penedo das mentiras.

XXX.

Que bellamente que soão As Profecias direitas! Depois que forem perfeitas Verão que a terra povoão.

XXXI.

Doutos, e sandeos conhecem Pelo volver das estrellas Puras verdades mui bellas, Que inda os Judeos naõ merecem.

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SONHO SEXTO.

XXXII.

Quando o sonho he verdadeiro Dá se uma lei muito clara: Sonho agora, que uma vara Vai dando luz a um outeiro.

XXXIII.

O outeiro he Portugal, E a vara Castelhana; Da minha pobre choupana. Vejo esta vara Real.

XXXIV.

Dará fruto em tudo santo, Ninguem ousará a negalo, O choro será regalo E será gostoso o pranto.

XXXV.

Bem cuido, que ja vem perto O fim destas Profecias; Passarão tresentos dias Depois de eu ser descuberto.

XXXVI.

Em dous sitios me achareis Por desdita, ou por ventura, Os ossos na sepultura, E a alma nestes papeis.

XXXVII.

Naõ ha pedra sobre pedra, Quando eu aqui for achado, E as letrinhas do Letrado Ha tresentos annos queda.

FIM.

End of Project Gutenberg's Trovas do Bandarra, by Bandarra Gonçalo Anes