Triste Fim de Polycarpo Quaresma

Part 13

Chapter 133,793 wordsPublic domain

Conversaram ainda muito tempo. O Major contou a sua visita a Floriano, a sua proxima incorporação ao batalhão «Cruzeiro do Sul». O doutor teve uma ponta de inveja, quando elle se referiu ao modo familiar por que Floriano o tratara. Fizeram um pequeno _lunch_ e Quaresma saiu.

Sentia necessidade de rever aquellas ruas estreitas, com as suas lojas profundas e escuras, onde os empregados se moviam como em um subterraneo. A tortuosa Rua dos Ourives, a esburacada Rua da Assembléa, a casquilha rua do Ouvidor davam-lhe saudades.

A vida continuava a mesma. Havia grupos parados e moças a passeio; no Café do Rio, uma multidão. Eram os avançados, os _jacobinos_, a guarda abnegada da Republica, os intransigentes, a cujos olhos, a moderação, a tolerancia e o respeito pela liberdade e a vida alheias eram crimes de lesa-patria, sintomas de monarquismo criminoso e abdicação desonesta diante do estrangeiro. O estrangeiro era sobretudo o portuguez, o que não impedia de haver jornaes _jacobinissimos_ redigidos por portuguezes da mais bella agua.

A não ser esse grupo gesticulante e apaixonado, a rua do Ouvidor era a mesma. Os namoros se faziam e as moças iam e vinham. Se uma bala zunia no alto céo azul, luminoso, as moças davam gritinhos de gata, corriam para dentro das lojas, esperavam um pouco e logo voltavam sorridentes, o sangue a subir ás faces pouco e pouco, depois da pallidez do medo.

Quaresma jantou num _restaurant_ e dirigiu-se ao quartel, que funccionava provisoriamente num velho cortiço condemnado pela hygiene, lá pelos lados da cidade Nova. Tinha o tal cortiço andar terreo e sobrado, ambos divididos em cubiculos do tamanho de camarotes de navio. No sobrado, havia uma varanda de grade de páu e uma escada de madeira levava até lá, escada tosca e oscillante, que gemia á menor passada. A casa da ordem funccionava no primeiro quartinho do sobrado e o pateo, já sem as cordas de seccar ao sol a roupa, mas com as pedras manchadas das barrélas e da agua de sabão, servia para a instrucção dos recrutas. O instructor era um sargento reformado, um tanto coxo, e admittido no batalhão com o posto de alferes, que gritava com uma demora majestosa: _hom--brô_... armas!

O Major entregou a sua quota ao coronel e este esteve a mostrar-lhe o modelo do fardamento.

Era muito singular essa fantasia de seringueiro: o dolman era verde-garrafa e tinha uns vivos azul ferrete, alamares dourados e quatro estrellas prateadas, em cruz, na góla.

Uma gritaria fel-os vir até á varanda. Entre soldados entrava um homem, a se debater, a chorar e a implorar, ao mesmo tempo, levando de quando em quando uma reflada.

--É o Ricardo! exclamou Quaresma. O senhor não o conhece, Coronel? continuou ele com interesse e piedade.

Bustamante estava impassivel na varanda e só respondeu depois de algum tempo:

--Conheço... É um voluntario recalcitrante, um patriota rebelde.

Os soldados subiram com o _voluntario_ e Ricardo logo que deu com o major, suplicou-lhe:

--Salve-me major!

Quaresma chamou de parte o Coronel, rogou-lhe e supplicou-lhe, mas foi inutil... Ha necessidade de gente... Enfim, fazia-o cabo.

Ricardo, de longe, seguia a conversa dos dous: adivinhou a recusa e exclamou:

--Eu sirvo sim, sim, mas dêm-me o meu violão.

Bustamante perfilou-se e gritou aos soldados:

--Restituam o violão ao cabo Ricardo!

II

VOCÊ, QUARESMA, É UM VISIONARIO

Oito horas da manhã. A cerração ainda envolve tudo. Do lado de terra, mal se enxergam as partes baixas dos edificios proximos; para o lado do mar, então, a vista é impotente contra aquella treva esbranquiçada e fluctuante, contra aquella muralha de flócos e opaca, que se condensa ali e aqui em apparições, em semelhanças de cousas. O mar está silencioso: ha grandes intervallos entre o seu fraco marulho. Vê-se da praia um pequeno trecho, sujo, coberto de algas, e o odôr da maresia parece mais forte com a neblina. Para a esquerda e para a direita, é o desconhecido, o Mysterio. Entretanto, aquella pasta espessa, de uma claridade diffusa, está povoada de ruidos. O chiar das serras vizinhas, os apitos de fabricas e locomotivas, os guinchos do guindastes dos navios enchem aquella manhã indecifravel e taciturna; e ouve-se mesmo a bulha compassada de remos que ferem o mar. Accredita-se, dentro daquelle decoro, que é Charonte que traz a sua barca para uma das margens do Styge...

Attenção! Todos prescrutam a cortina de nevoa pastosa. Os rostos estão alterados; parece que, do seio da bruma, vão surgir demonios...

Não se ouve mais a bulha: o escaler afastou-se. As physionomias respiram aliviadas...

Não é noite, não é dia; não é o diluculo, não é o crepusculo: é a hora da angustia, é a luz da incerteza. No mar, não ha estrellas nem sol que guiem; na terra, as aves morrem de encontro ás paredes brancas das casas. A nossa miseria é mais completa e a falta daquelles mudos marcos da nossa actividade dá mais forte percepção do nosso isolamento no seio da natureza grandiosa.

Os ruidos continuam, e, como nada se vê, parece que vêm do fundo da terra ou são allucinações auditivas. A realidade só nos vem do pedaço de mar que se avista, marulhando com grandes intervallos, fracamente, tenuemente, a medo, de encontro a areia da praia, suja de bodelhas, algas e sargaços.

Aos grupos, após o rumor dos remos, os soldados deitaram-se pela relva que continua a praia. Alguns já cochilam; outros procuram com os olhos o céo atravez do nevoeiro que lhes humedece o rosto.

O cabo Ricardo Coração dos Outros, de rifle á cintura e gorro á cabeça, sentado numa pedra, está de parte, sósinho, e olha aquella manhã angustiosa.

Era a primeira vez que via a cerração assim perto do mar, onde ella faz sentir toda a sua força de desesperar. Em geral, elle só tinha olhos para as alvoradas claras e purpurinas, macias e fragrantes; aquelle amanhecer brumoso e feio, era uma novidade para elle.

Sob o fardamento de cabo, o menestrel não se aborrece. Aquella vida solta da caserna vai-lhe bem n'alma: o violão está lá dentro e, em horas de folga, elle o experimenta, cantarolando em voz baixa. É preciso não enferrujar os dedos... O seu pequeno aborrecimento é não poder, de quando em quando, soltar o peito.

O commandante do destacamento é Quaresma que, talvez, consentisse...

O Major está no interior da casa que serve de quartel, lendo. O seu estudo predilecto é agora artilharia. Comprou compendios; mas, como sua instrucção é insufficiente, da artilharia vai á balistica, da balistica á mecanica, da mecanica ao calculo e á geometria analytica; desce mais a escada; vai á trigonometria, á geometria e á algebra e á arithmetica. Elle percorre essa cadeia de sciencias entrelaçadas com uma fé de inventor. Aprende uma noção elementarissima após um rosario de consultas, de compendio em compendio; e leva assim aquelles dias de ocio guerreiro enfronhado na mathematica, nessa mathematica rebarbativa e hostil aos cerebros que já não são mais moços.

Ha no destacamento um canhão Krupp, mas elle nada tem a ver com o mortifero apparelho: comtudo, estuda artilharia. É encarregado delle o Tenente Fontes, que não dá obediencia alguma ao patriota Major. Quaresma não se incommoda com isso; vai aprendendo lentamente a servir-se da boca de fogo e submete-se á arrogancia do subalterno.

O Commandante do «Cruzeiro do Sul», o Bustamante da barba mosaica, continua no quartel, superintendendo a vida do batalhão, A unidade tem poucos officiaes e muito poucas praças; mas o Estado paga o pret de quatrocentas. Ha falta de capitães, o numero de alferes está justo, o de tenentes quasi, más já ha um major, que é Quaresma, e o commandante, Bustamante, que por modestia, se fez simplesmente Tenente-Coronel.

Tem quarenta praças o destacamento que Quaresma commanda, tres alferes, dous tenentes; mas os officiaes pouco apparecem. Estão doentes ou licenciados e só elle, o antigo agricultor do «Socego», e um alferes, Polydoro, este mesmo só á noite, estão a postos. Um soldado entrou:

--Sr. Commandante, posso ir almoçar?

--Póde. Chama-me o cabo Ricardo.

A praça sahiu capengando em cima de grandes botinas: o pobre homem usava aquella peça protectora como um castigo. Assim que se viu no matto, que levava á casa, tirou-as e sentiu pelo rosto o sopro da liberdade.

O commandante chegou á janella. A cerração se ia dissipando. Já se via o sol que brilhava como um disco de ouro fosco.

Ricardo Coração dos Outros appareceu. Estava engraçado dentro do seu fardamento de caporal. A blusa era curtissima, sungada; os punhos lhe apareciam inteiramente: e as calças eram compridissimas e arrastavam no chão.

--Como vaes Ricardo?

--Bem. E o Sr. Major?

--Assim.

Quaresma deitou sobre o inferior e amigo, aquelle seu olhar agudo e demorado:

--Andas aborrecido, não é?

O trovador sentiu-se alegre com o interesse do commandante:

--Não... Para que dizer, Major, que sim... Se a cousa for assim até ao fim, não é mau... O diabo é quando ha tiro... Uma cousa, Major; não se poderia, assim, ahi pelas horas em que não ha que fazer, ir nas mangueiras, cantar um pouco...

O Major coçou a cabeça, alisou o cavaignac e disse:

--Eu, não sei... É..

--O Sr. sabe que isso de cantar baixo é remar em secco... Dizem que no Paraguay...

--Bem. Cante lá; mas não grite, hein?

Calaram-se um pouco; Ricardo ia partir quando o Major recommendou:

--Manda-me trazer o almoço.

Quaresma jantava e almoçava ali mesmo. Não era raro tambem dormir. As refeições eram-lhe fornecidas por um _frege_ proximo e elle dormia em um quarto daquella edificação imperial. Porque a casa em que se acantonara o destacamento, era o pavilhão do Imperador, situado na antiga Quinta da Ponta do Cajú. Ficavam nella tambem a estação da estrada de ferro do Rio Douro e uma grande e bulhenta serraria. Quaresma veiu até á porta, olhou a praia suja e ficou admirado que o Imperador a quizesse para banhos. A cerração se ia dissipando inteiramente.

As formas das cousas sahiam modeladas do seio daquella massa de nevoa pesada; e, satisfeitas, como se o pesadello tivesse passado. Primeiro surgiam as partes baixas, lentamente: e por fim, quasi repentinamente, as altas.

Á direita, havia a Saude, a Gamboa, os navios de commercio: galeras de tres mastros, cargueiros a vapor, altaneiros barcos á vela--que iam sahindo da bruma, e, por instantes aquillo tudo tinha um ar de paysagem hollandeza, á esquerda, era o sacco da Raposa, o Retiro Saudoso, a Sapucaia horrenda, a ilha do Governador, os Orgãos Azues, altos de tocar no céo; em frente, a ilha dos Ferreiros, com os seus depositos de carvão; e, alongando a vista pelo mar socegado, Nictheroy, cujas montanhas acabavam de recortar-se no céo azul, á luz daquella manhã atrazada.

A neblina foi se e um gallo cantou. Era como se a alegria voltasse á terra: era uma alleluia. Aquelles chiados, aquelles apitos, os guinchos tinham um accento festivo de contentamento.

Chegou o almoço e o sargento veiu dizer a Quaresma que havia duas deserções.

--Mais duas? fez admirado o Major.

--Sim, senhor. O 125 e o 320 não responderam hoje a revista.

--Faça a parte.

Quaresma almoçava. O Tenente Fontes, o homem do canhão, chegou. Quasi nunca dormia ali; pernoitava em casa, e, durante o dia, vinha ver as cousas como iam.

Uma madrugada, elle não estava. A treva ainda era profunda. O soldado de vigia viu lá, ao longe, um vulto que se movia dentro da sombra, resvalando sobre as aguas do mar. Não trazia luz alguma; só o movimento daquella mancha escura, revelava uma embarcação, e tambem a ligeira phosphorescencia das aguas. O soldado deu rebate; o pequeno destacamento poz-se a postos e Quaresma appareceu.

--O canhão! Já! Avante! ordenou o commandante.

E, em seguida, nervoso, recommendou:

--Esperem um pouco.

Correu á casa e foi consultar os seus compendios e tabellas. Demorou-se e a lancha avançava, os soldados estavam tontos e um delles tomou a iniciativa: carregou a peça e disparou-a.

Quaresma reappareceu correndo, assustado, e disse, entrecortado pelo resfolegar:

--Viram bem... a distancia... a alça... o angulo... É preciso ter sempre em vista a efficiencia do fogo.

Fontes veiu e sabendo do caso no dia seguinte riu-se muito:

--Ora, Major, você pensa que está em um polygno, fazendo estudos praticos... Fogo para diante!

E assim era. Quasi todas as tardes havia bombardeio, do mar para as fortalezas, e das fortalezas para o mar; e, tanto os navios como os fortes, sahiam incolumes de tão terriveis armas.

Lá vinha uma occasião, porém, que acertavam, então os jornaes noticiavam: «Hontem, o forte Academico, fez um maravilhoso disparo. Com o canhão tal, metteu uma bala no «Guanabara». No dia seguinte, o mesmo jornal rectificava, a pedido da bateria do cáes Pharoux que era a que tinha feito o disparo certeiro. Passavam-se dias e a cousa já estava esquecida, quando apparecia uma carta de Nictheroy, reclamando as honras do tiro para a fortaleza de Santa Cruz.

O Tenente Fontes chegou e esteve examinando o canhão com o faro de entendedor. Havia uma trincheira de fardos de alfafa e a boca da peça sabia por entre os fiapos da palha, como as guellas de um animal feroz occulto entre hervas.

Olhava o horizonte, depois de exame attento ao canhão, e considerava a ilha das Cobras, quando ouviu o gemer do violão e uma voz que dizia:

_Prometto pelo Santissimo Sacramento_...

Dirigiu-se para o local donde partiam os sons e se lhe deparou este lindissimo quadro: á sombra de uma grande arvore, os soldados deitados ou sentados em circulo, em torno de Ricardo Coração dos Outros, que entoava endeixas magoadas.

As praças tinham acabado de almoçar e beber a pinga, e estavam tão embevecidas na canção de Ricardo que não deram pela chegada do joven official.

--Que é isto? disse elle severamente.

Os soldados levantaram-se todos, em continencia; e Ricardo, com a mão direita no gorro, perfilada, e a esquerda, segurando o violão, que repousava no chão, desculpou-se:

--_Seu_ Tenente, foi o Major quem permittiu, V. S. sabe que se nós não tivéssemos ordem, não iriamos brincar.

--Bem. Não quero mais isto, disse o official.

--Mas, objectou Ricardo, o Sr. Major Quaresma...

--Não temos aqui Major Quaresma. Não quero, já disse!

Os soldados debandaram e o Tenente Fontes seguiu para a velha casa imperial, ao encontro do Major do «Cruzeiro do Sul». Quaresma continuava no seu estudo, um rolar de Sysipho, mas voluntario, para a grandeza da patria. Fontes foi entrando e dizendo:

--Que é isto, _seu_ Quaresma! Então o senhor permitte cantorias no destacamento?

O Major não se lembrava mais da cousa e ficou espantado com o ar severo e rispido do moço. Elle repetiu:

--Então o senhor permitte que os inferiores cantem modinhas e toquem violão, em pleno serviço?

--Mas que mal faz? Ouvi dizer que em campanha...

--E a disciplina? e o respeito?

--Bem, vou prohibir, disse Quaresma.

--Não é preciso. Já prohibi.

Quaresma não se deu por agastado, não percebeu motivo para agastamento e disse com doçura:

--Fez bem.

Em seguida perguntou ao official o modo de extrahir a raiz quadrada de uma fracção decimal; o rapaz ensinou-lhe e elles estiveram cordialmente conversando sobre cousas vulgares. Fontes era noivo de Lalá, a terceira filha do General Albernaz, e esperava acabar a revolta para effectuar o casamento. Durante uma hora a conversa entre os dous versou sobre este pequenino facto familiar a que estavam ligados aquelles estrondos, aquelles tiros, aquella solemne disputa entre duas ambições. Subitamente, a corneta feriu o ar com a sua voz metallica. Fontes assestou o ouvido; o Major perguntou:

--Que toque é?

--Sentido.

Os dous sahiram. Fontes perfeitamente fardado; e o Major apertando o talim, sem encontrar geito, tropeçando na espada veneravel que teimava em se lhe metter entre as pernas curtas. Os soldados já estavam nas trincheiras, armas á mão; o canhão tinha ao lado a munição necessaria. Uma lancha avançava lentamente, com a prôa alta assestada para o posto. De repente, sahiu de sua borda um golfão de fumaça espessa: Queimou!--gritou uma voz. Todos se abaixaram, a bala passou alto, zunindo, cantando, inoffensiva. A lancha continuava a avançar impavida. Além dos soldados, havia curiosos, garotos, a assistir o tiroteio, e fôra um destes que gritara: queimou!

E assim sempre. Ás vezes elles chegavam bem perto á tropa, ás trincheiras, atrapalhando o serviço: em outras, um cidadão qualquer, chegava ao official e muito delicadamente pedia: o senhor dá licença que dê um tiro. O official accedia, os serventes carregavam a peça e o homem fazia a pontaria e um tiro partia.

Com o tempo, a revolta passou a ser uma festa, um divertimento da cidade... Quando se annunciava um bombardeio, num segundo, o terraço do Passeio Publico se enchia. Era como se fosse uma noite de luar, no tempo em que era do tom aprecial-as no velho jardim de D. Luiz de Vasconcellos, vendo o astro solitario pratear a agua e encher o céo.

Alugavam-se binoculos e tanto os velhos como as moças, os rapazes como as velhas, seguiam o bombardeio como uma representação de theatro: «queimou Santa Cruz! Agora é o «Aquidaban»! Lá vai»! E dessa maneira a revolvia correndo familiarmente, entrando nos habitos e nos costumes da cidade.

No cáes Pharoux, os pequenos garotos, vendedores de jornaes, engraxates, quitandeiros ficavam atrás das portadas, dos urinarios, das arvores, a ver, a esperar a quéda das balas; e quando acontecia cahir uma, corriam todos em bôlo, a apanhal-a como se fosse uma moeda ou guloseima.

As balas ficaram na moda. Eram alfinetes de gravata, berloques de relogio, lapizeiras, feitas com as pequenas balas de fuzis: faziam-se tambem collecções das medias e com os seus estojos de metal, areados, polidos, lixados, ornavam consolos, os _dunkerques_ das casas médias; as grandes, os _melões_ e as _aboboras_, como chamavam, guarneciam os jardins, como vasos de faiança ou estatuas.

A lancha continuava a atirar: Fontes fez um disparo. O canhão vomitou o projectil, recuou um pouco e logo foi posto em posição. A embarcação respondeu e o rapazote gritou: queimou!

Eram sempre esses garotos que a anunciavam os tiros do inimigo. Mal viam o fuzilar breve e a fumaça, lá longe, no navio, jorrar de vagar, muito pesada, gritavam queimou!

Houve um em Nictheroy que teve o seu quarto de hora de celebridade. Chamavam-n'o _trinta réis_; os jornaes do tempo occuparam-se com elle, fizeram-se subscripções a seu favor. Um heroi! Passou a revolta e foi esquecido, tanto elle como a «Lucy», uma lancha que chegou a fazer-se entidade na imaginação da _urbs_, a interessal-a, a criar inimigos e admiradores.

A embarcação deixou de provocar a furia do posto do Cajú, e Fontes deu instrucções ao seu chefe da peça, e foi-se embora.

Quaresma recolheu-se ao seu quarto e continuou os seus estudos guerreiros. Os mais dias que passou naquelle extremo da cidade não eram differentes deste. Os acontecimentos eram os mesmos e a guerra cahia na banalidade da repetição dos mesmos episodios.

A espaços, quando o aborrecimento lhe vinha, sahia. Descia a cidade e deixava o posto entregue a Polydoro ou a Fontes, se estava.

Raras vezes o fazia, de dia, porque Polydoro, o mais assiduo, marcineiro de profissão e em actividade numa fabrica de moveis, só vinha á noite.

No centro da cidade, a noite era alegre e jovial. Havia muito dinheiro, o Governo pagava soldos dobrados, e, ás vezes, gratificações, além do que havia tambem a morte sempre presente; e tudo isso estimulava o divertir-se. Os theatros eram frequentados e os _restaurants_ nocturnos tambem.

Quaresma, porém, não se mettia naquelle ruido de praça semi-sitiada. Ia ás vezes ao theatro, á paisana, e, logo acabado o espectaculo, voltava para o quarto da cidade ou para o posto.

Em outras tardes, logo que Polydoro chegava, sahia a pé, pelas ruas dos arredores, pelas praias até ao campo de São Christovão.

Ia vendo aquella successão de cemiterios, com as suas campas alvas que sobem montanhas, como carneiros tosqueados e limpos a pastar; aquelles cyprestes meditativos que as vigiam; e como que se lhe representava que aquella parte da cidade era feudo e senhorio da morte.

As casas tinham um aspecto funebre, recolhidas e concentradas; o mar marulhava lugubremente na ribanceira lodosa; as palmeiras ciciavam doridas; e até o tilintar da campainha dos bondes era triste e lugubre.

A paysagem se impregnara da Morte e o pensamento de quem passava ali mais ainda, para fazer sentir nella tão forte aspecto funereo.

Foi vindo ate ao Campo; ahi deu-lhe vontade de ver a sua antiga casa e afinal entrou na residencia do General Albernaz. Devia-lhe aquella visita e aproveitou o ensejo.

Acabavam de jantar e jantara com o General, além do Tenente Fontes e o Almirante Caldas, o commandante de Quaresma, o Tenente Coronel Innocencio Bustamante.

Bustamante era um commandante activo, mas dentro do quartel. Não havia quem como elle se interessasse pelos livros, pela boa calligraphia, com que eram escriptos os livros mestres, as relações de mostra, os mappas de companhia e outros documentos. Com auxilio delles, a organização do seu batalhão era irreprehensivel; e, para não deixar de vigiar a escripturação, apparecia de onde em onde nos destacamentos do seu corpo.

Havia dez dias que Quaresma o não via. Após os cumprimentos, elle logo perguntou ao Major:

--Quantas deserções?

--Até hoje, nove, disse Quaresma.

Bustamante coçou a cabeça desesperado e reflectiu:

--Eu não sei o que tem essa gente... É um desertar sem nome... Falta-lhes patriotismo!

--Fazem muito bem... Ora! disse o Almirante.

Caldas andava aborrecido, pessimista. O seu processo ia mal e até agora o Governo não lhe tinha dado cousa alguma. O seu patriotismo se enfraquecia com o diluir-se da esperança de ser algum dia Vice-Almirante. É verdade que o Governo ainda não organizara a sua esquadra; entretanto, pelo rumor que corria, elle não commandaria nem uma divisão. Uma inquidade! Era velho um pouco, é verdade; mas, por não ter nunca commandado, nessa materia elle podia despender toda uma energia moça.

--O Almirante não deve falar assim... A patria está logo abaixo da humanidade.

Meu caro Tenente, o senhor é moço... Eu sei o que são essas cousas...

--Não se deve desesperar... Não trabalhamos para nós, mas para os outros e para os vindouros, continuou Fontes persuasivo.

--Que tenho eu com elles? fez agastado Caldas.

Bustamante, o General e Quaresma assistiam a pequena discussão calados e os dous primeiros um tanto sorridentes com a furia de Caldas, que não se cansava de dansar a perna e alizar os longos favoritos brancos. O Tenente respondeu:

--Muito, Almirante. Nós todos devemos trabalhar para que surjam épocas melhores, de ordem, de felicidade e elevação moral.

--Nunca houve e nunca haverá! disse de um jacto Caldas.

--Eu tambem penso assim, accrescentou Albernaz.

--Isto ha de sempre ser o mesmo, adduziu scepticamente Bustamante.

O Major nada disse; parecia desinteressado da conversa. Fontes, em face daquellas contestações, ao contrario dos seus congeneres da seita, não se agastou. Elle era magro e chupado, moreno carregado e a oval do seu rosto estava amassada aqui e ali.

Com a sua voz arrastada e nazal, agitando a mão direita no geito favorito dos sermonarios, depois de ouvir todos, falou com uncção:

--Houve já um esboço: a idade média.

Ninguem ali lhe podia contestar. Quaresma só sabia historia do Brasil e os outros nenhuma.