Triste Fim de Polycarpo Quaresma
Part 10
Assim mesmo o seu orgulho não diminuiu e elle viu naquelle ridiculo lucro objecto para maior contentamento do que se recebesse um avultado ordenado.
Foi, portanto, com redobrada actividade que se poz ao trabalho. Para o anno, o lucro seria maior. Tratava-se agora de limpar as fructeiras. Anastacio e Felizardo continuavam occupados nas grandes plantações; contratou um outro empregado para ajudal-o no tratamento das velhas arvores fructiferas.
Foi, pois, com o Mané Candieiro que elle se pôz a serrar os galhos das arvores, os galhos mortos e aquelles em que a herva damninha segurava as suas raizes. Era arduo e difficil o trabalho. Tinham ás vezes que subir ás grimpas para a extirparão do galho attingido; os espinhos rasgavam as roupas e feriam as carnes; e em muitas occasiões estiveram em risco de vir ao chão serrote e Quaresma ou o camarada.
Mané Candieiro falava pouco, a não ser que se tratasse de cousas de caça; mas cantava que nem passarinho. Estava a serrar, estava a cantar trovas roceiras, ingenuas, onde com surpreza o Major não via entrar a fauna, a flora locaes, os costumes das profissões roceiras. Eram vaporosamente sensuaes e muito ternas, mellosas até; por acaso lá vinha uma em que um passaro local entrara; então o Major escutava.
_Eu vou dar a despedida Como deu o bacuráo, Uma perna no cantinho Outra no galho de páu._
Este bacuráo que entrava ahi satisfazia particularmente ás aspirações de Quaresma. A observação popular já começava a interessar-se pelo espectaculo ambiente, já se emocionava com elle e a nossa raça deitava, portanto, raizes na grande terra que habitara. Elle a copiou e mandou ao velho poeta de S. Christovão. Felizardo dizia que Mané Candieiro era um mentiroso, pois todas aquellas caçadas do caitetus, jacus, onças eram patranhas; mas, respeitava o seu talento poetico, principalmente no desafio: o moleque é bom!
Elle era claro e tinha umas feições regulares, cesarianas, duras e fortes, um tanto amollecidas pelo sangue africano.
Quaresma procurou descobrir nelle aquella odiosa catadura que Darwin achou nos mestiços; mas, sinceramente, não a encontrou.
Com auxilio de Mané Candieiro, foi que Quaresma conseguiu acabar de limpar as fructeiras daquelle velho sitio abandonado ha quasi dez annos. Quando o serviço ficou prompto, elle viu com tristeza aquellas velhas arvores amputadas, mutiladas, com folhas aqui e sem folhas ali... Pareciam soffrer e elle se lembrou das mãos que as tinham plantado ha vinte ou trinta annos, escravos, talvez, banzeiros e desesperançados!...
Mas não tardou que os botões rebentassem e tudo reverdescesse, e o renascimento das arvores como que trouxe o contentamento das aves e do passaredo solto. De manhã, esvoaçavam os tyês vermelhos, com o seu pio pobre, especie de ave tão inutil e tão bella de plumas que parece ter nascido para os chapéos das damas; as rolas pardas e caboclas em bando, mariscando, no chão capinado; pelo correr do dia, eram os sanhassús a cantar nos galhos altos, os papa-capins, as nuvens de colleiros; e de tarde como que todos elles se reuniam, piando, cantando, chilreando, pelas altas mangueiras, pelos cajueiros, pelos abacateiros, entoando louvores ao trabalho tenaz e fecundo do velho Major Quaresma.
Não durou muito essa alegria. Um inimigo appareceu inopinadamente, com a rapidez ousadissima de um general consumado. Até ali elle se mostrara timido, parecia que sómente mandava esclarecedores.
Desde aquelle ataque ás provisões de Quaresma, logo afugentadas, não mais as formigas reappareceram; mas, naquella manhã, quando contemplou o seu milharal, foi como se lhe tirassem a alma, e ficou sem acção e as lagrimas lhe vieram aos olhos.
O milho que já tinha repontado, muito verde, pequenino, com uma timidez de criança, crescera cerca de meio palmo acima da terra; o Major até mandara buscar o sulphato de cobre para a solução em que ia lavar a batata ingleza a plantar nos intervallos dos pés.
Toda a manhã, elle ia lá e já via o milharal crescido com o seu pendão branco e as suas espigas de coma cor de vinho, oscillando ao vento: naquella, elle não viu nada mais. Até os tenros colmos tinham sido cortados e levados para longe! A modo que e obra de gente, disse Felizardo; entretanto, tinham sido as saúvas, os terriveis hymhopteros, piratas infimos que lhe cahiam em cima do trabalho com uma rapacidade turca... Era preciso combatel-os. Quaresma poz-se logo em campo, descobriu as aberturas principaes do formigueiro e em cada uma queimou a formicida mortal. Passaram-se dias: os inimigos pareciam derrotados; mas, certa noite, indo ao pomar para melhor apreciar a noite estrellada, Quaresma ouviu uma bulha exquisita, como se alguem esmagasse as folhas mortas das arvores... Um estalido... E era perto... Accendeu um phosphoro e o que viu, meu Deus! Quasi todas as larangeiras estavam negras de iminensas saúvas. Havia dellas ás centenas, pelos troncos e pelos galhos acima e agitavam-se, moviam-se, andavam como em ruas transitadas e vigiadas a população de uma grande cidade: umas subiam, outras desciam; nada de atropellos, de confusão, de desordem. O trabalho como que era regulado a toques de corneta. Lá em cima umas cortavam as folhas pelo peciolo; cá em baixo, outras serravam-nas em pedaços e afinal eram carregadas por terceiros, levantando-as acima da descomunal cabeça, era longas fileiras pelo trilho limpo, aberto entre a herva rasteira.
Houve um instante de desanimo na alma do Major. Não tinha contado com aquelle obstaculo nem o suppuzera tão forte. Agora via bem que era a uma sociedade intelligente, organizada, ouzada e tenaz com quem se tinha de haver. Veio-lhe então á lembrança aquella phrase de Saint-Hilaire: se nós não expulsássemos as formigas ellas nos expulsariam.
O Major não estava lembrado ao certo se eram essas palavras, mas o sentido era, e ficou admirado que só agora ella lhe ocorresse.
No dia seguinte, tinha recobrado o amino. Comprou ingredientes e eil-o mais o Mané Candieiro, a abrir picadas a fazer esforços de sagacidade, para descobrir os reductos centraes, as _panellas_ dos insectos terriveis. Então era como se os bombardeassem: o sulpheto queimava, estourava em tiros seguidos, mortiferos, lethaes!
E dahi em diante, foi uma batalha sem treguas. Se apparecia uma abertura, um _olho_, logo se lhe applicava a formicida, pois do contrario, nenhuma plantação era possivel, tanto mais que extinctos os das suas terras, não tardariam os formigueiros das visinhanças ou dos logradouros publicos a deitar caniculos para o seu terreno.
Era um supplicio, um castigo, uma especie de vigilancia a dique hollandez e Quaresma viu bem que só uma autoridade central, um governo qualquer, ou um accôrdo entre os cultivadores, podia levar a effeito a extincção daquelle flagello, peor que a saraiva, que a geada, que a secca, sempre presente, inverno ou verão, outomno ou primavera.
Não obstante essa luta diaria, o Major não desanimou e pôde colher alguns productos das plantações que tinha feito. Se por occasião das fructas, a sua alegria foi grande, mais expressiva e mais profunda ella foi, quando viu partir para a estação em successivas carretas, as aboboras, os aipins, as batatas doces, em cestos cobertos com saccos cozidos. Os fructos, em parte, eram de outras mãos; as arvores não tinham sido plantadas por elle; mas aquillo não, vinha do seu suor, da sua iniciativa, do seu trabalho!
Elle ainda foi ver aquelles cestos na estação, com a ternura de um pai que vê partir seu filho para a gloria, e para a victoria. Recebeu o dinheiro dias depois, contou o e esteve deduzindo os lucros.
Não foi á roça nesse dia; o trabalho de guarda livros roubou o de cultivador. A sua attenção, já um tanto gasta, não lhe favorecia a tarefa das cifras, e só pelo meio do dia, pôde dizer a irmã:
--Sabes qual foi o lucro, Adelaide?
--Não, menor do que o dos abacates?
--Um pouco mais.
--Então... Quanto?
--Dous mil quinhentos e setenta réis, respondeu Quaresma, destacando syllaba por syllaba.
--O que?
--Foi isso. Só de frete paguei cento e quarenta e dous mil quinhentos.
D. Adelaide esteve algum tempo com os olhos baixos, seguindo a costura que fazia, depois, levantando o olhar:
--Homem, Polycarpo, o melhor é deixares isso... Tens gasto muito dinheiro... Só com as formigas!
--Ora, Adelaide! Pensas que quero fazer fortuna? Faço isso para dar exemplo, levantar a agricultura, aproveitar as nossas terras feracissimas...
--É isto... Queres sempre ser a abelha mestra... Já viste os grandes fazerem esses sacrificios... Vê lá se fazem! Historias... Mettem-se no café que tem todas as protecções...
--Mas, faço eu.
A irmã prestou mais attenção a costura, Polycarpo levantou-se, foi até á janella que dava para o gallinheiro. Fazia um dia fosco e irritante. Elle concertou o pince-nez, esteve olhando e de lá falou:
--Oh! Adelaide! Aquillo não é uma gallinha morta...
A velha senhora ergueu-se com a costura, foi até á janella e verificou com a vista:
--É... É já a segunda que morre hoje.
Após esta leve conversa, Quaresma voltou á sua sala de estudos. Meditava grandes reformas agricolas. Mandara buscar catalogos e ia examinal-os. Tinha já em mente uma charrúa dupla, um capinador mecanico, um semeador, um deslocador, grades, tudo americano, de aço, dando o rendimento effectivo de 20 homens. Até então, não quizera essas innovações; as terras mais ricas do mundo, não precisaram desse processos que lhe pareciam artificiaes, para produzir; estava, porém, agora disposto a empregal-os como experiencia. Aos adubos, no entretanto, o seu espirito resistia. Terra virada, dizia Felizardo, terra estrumada; parecia o Quaresma uma profanação estar a empregar nitratos, phosphatos ou mesmo estrume commum, numa terra brasileira... Uma injuria!
Quando se convencesse de que eram necessarios, parecia-lhe que todo o seu systema de idéas ia por terra e os moveis de sua vida desappareceriam. Estava assim a escolher arados e outros «Planets», «Bajacs» e «Brabants» de varios feitios, quando o seu pequeno copeiro lhe annunciou a visita do dr. Campos.
O edil entrou com a sua jovialidade, a sua mansidão, e o seu grande corpo. Era alto e gordo, pançudo um pouco, tinha os olhos castanhos, quasi á flôr do rosto, uma testa média e recta: o nariz, mal feito. Um tanto trigueiro, cabellos corridos e já grisalhos, era o que se chama por ahi um caboclo, embora o seu bigode fosse crespo. Não nascera em Curuzú, era da Bahia ou de Sergipe, habitava, porém, o logar ha mais de vinte annos, onde casara e prosperara, graças ao dote da mulher e á sua actividade clinica. Com esta, não gastava grande energia, mental: tendo de côr uma meia duzia de receitas, elle, desde muito, conseguira enquadrar as molestias locaes no seu reduzido formulario.
Presidente da Camara, era das pessoas mais consideraveis da Curuzú, e Quaresma o estimava particularmente pela sua familiaridade, pela sua affabilidade e simplicidade.
--Ora, viva Major! Como vai isto por ahi? muita formiga? Lá em casa já não ha mais.
Quaresma respondeu com menor enthusiasmo e jovialidade, mas comente com a alegria communicativa do doutor. Elle continuava a falar com desembaraço e naturalidade:
--Sabe o que me traz aqui, Major? Não sabe, não é? Preciso de um pequeno obsequio seu.
O Major não se espantou; sympathizava com o homem e abriu-se em offerecimentos.
--Como o Major sabe...
Agora a sua voz era doce, flexivel, subtil; as palavras cahiam-lhe da boca adocicadas, dobravam-se, colleavam-se:
--Como o Major sabe, as eleições se devem realizar por estes dias. A victoria é _nossa_. Todas as mezas estão comnosco, excepto uma... Ahi mesmo, se o Major quizer...
--Mas, como? se eu não sou eleitor, não me metto, nem quero metter-me em politica? perguntou Quaresma ingenuamente.
--Exactamente por isso, disse o doutor com voz forte: e em seguida brandamente: a secção funcciona na sua vizinhança, é ali, na escola, se...
--E dahi?
--Tenho aqui uma carta do Neves, dirigida ao senhor. Se o Major quer responder (é melhor já) que não houve eleição... Quer?
Quaresma olhou o doutor com firmeza, coçou um instante o cavaignac e respondeu claramente, firmemente:
--Absolutamente não.
O doutor não se zangou. Pôz mais uncção e maciez a na voz, adduziu argumentos: que era para o partido, o unico que pugnava pelo levantamento da lavoura. Quaresma foi inflexivel; disse que não, que lhe eram absolutamente antipathicas taes disputas, que não tinha partido e mesmo que tivesse não iria affirmar uma cousa que elle não sabia ainda se era mentira ou verdade.
Campos não deu mostras de aborrecimento, conversou um pouco sobre cousas banaes e despediu-se com o ar amavel, com a jovialidade mais sua que era possivel.
Isto se passou na terça-feira, naquelle dia de luz fosca e irritante. Á tarde houve trovoada, choveu muito. O tempo só levantou na quinta-feira, dia em que o Major foi surprehendido com a visita de um sujeito com um uniforme velho e lamentavel, portador de um papel official para elle, proprietario do «Socego», conforme mesmo disse o tal homem fardado.
Em virtude das posturas e leis municipaes, rezava o papel, O Sr. Polycarpo Quaresma, proprietario do sitio «Socego» era intimado, sob as penas das mesmas posturas e leis, a roçar e capinar as testadas do referido sitio que confrontavam com as vias publicas.
O Major ficou um tempo pensando. Julgava impossivel uma tal intimação. Seria mesmo? Brincadeira... Leu de novo o papel, viu a assignatura do Dr. Campos. Era certo... Mas que absurda intimação esta de capinar e limpar estradas na extensão de mil duzentos metros, pois seu sitio dava de frente para um caminho e de um dos lados acompanhava outro na extensão de oitocentos metros--era possivel!?
A antiga corvéa!... Um absurdo! Antes confiscassem-lhe o sitio. Consultando a irmã, ella lhe aconselhou que falasse ao Dr. Campos. Contou-lhe então Quaresma a conversa que tivera com elle dias antes.
--Mas és tolo, Polycarpo. Foi elle mesmo...
A luz se lhe fez no pensamento... Aquella rede de leis, de posturas, de codigos e de preceitos, nas mãos desses regulotes, de taes caciques, se transformava em pôtro, em polé, em instrumento de supplicios para torturar os inimigos, opprimir as populações, crestar-lhes a iniciativa e a independencia, abatendo-as e desmoralizando-as.
Pelos seus olhos passaram num instante aquellas faces amarelladas e chupadas que se encostavam nos portaes das vendas preguiçosamente; viu tambem aquellas crianças maltrapilhas e sujas, d'olhos baixos, a esmolar disfarçadamente pelas estradas; viu aquellas terras abandonadas, improductivas, entregues ás hervas e insectos damninhos; viu ainda o desespero de Felizardo, homem bom, activo e trabalhador, sem animo de plantar um grão de milho em casa e bebendo todo o dinheiro que lhe passava pelas mãos--este quadro passou-lhe pelos olhos com a rapidez e o brilho sinistro do relampago; e só se apagou de todo, quando teve que ler a carta que a sua afilhada lhe mandara.
Vinha viva e alegre. Contava pequenas historias de sua vida, a viagem proxima do papai, á Europa, o desespero do marido no dia em que sahiu sem annel, pedia noticias do padrinho, de D. Adelaide e, sem desrespeito, recommendava á irmã de Quaresma que tivesse muito cuidado com o manto de arminho da «Duqueza».
A «Duqueza» era uma grande pata branca, de penas alvas a macias ao olhar, que, pela lentidão e magestade do andar, com o pescoço alto e o passo firme, merecera de Olga esse appellido nobre. O animal tinha morrido havia dias. E que morte! Uma peste que lhe levara duas duzias de patos, levara a «Duqueza» tambem. Era uma especie de paralysia que tomava as pernas, depois o resto do corpo. Tres dias levou a agonizar. Deitada sobre o peito, com o bico collado ao chão, atacada pelas formigas, o animal só dava signal de vida por uma lenta oscillação do pescoço em torno do bico, espantando as moscas que a importunavam na sua ultima hora.
Era de ver como aquella vida tão extranha á nossa, naquelle instante penetrava em nós e sentiamo-lhe o soffrimento, a agonia e a dôr.
O gallinheiro ficou como uma aldeia devastada; a peste atacou gallinhas, perús, patos; ora sobre uma forma, ora sobre outra, foi ceifando, matando, até reduzir a sua população a menos de metade.
E não havia quem soubesse curar. Numa terra, cujo Governo tinha tantas escolas que produziam tantos sabios, não havia um só homem que pudesse reduzir, com as suas drogas ou receitas aquelle consideravel prejuizo.
Esses contratempos, essas contrariedades abateram muito o cultivador enthusiastico dos primeiros mezes; entretanto não passara pela mente de Quaresma abandonar os seus propositos. Adquiriu compendios de veterinaria e até já tratava de comprar as machinas agricolas descriptas nos catalogos.
Uma tarde, porém, estava á espera da junta de bois que encommendara para o trabalho do arado, quando lhe appareceu á porta um soldado de policia com um papel official. Elle se lembrou da intimação municipal. Estava disposto a resistir, não se incommodou muito.
Recebeu o papel e leu. Não vinha mais da municipalidade, mas da collectoria, cujo escrivão, Antonio Dutra, conforme estava no papel, intimava o Sr. Polycarpo Quaresma a pagar quinhentos mil réis de multa, por ter enviado productos de sua lavoura sem pagamento dos respectivos impostos.
Viu bem o que havia nisso de vingança mesquinha; mas o seu pensamento voou logo para as cousas geraes, levado pelo seu patriotismo profundo.
A quarenta kilometros do Rio, pagavam-se impostos para se mandar ao mercado umas batatas? Depois de Turgot da Revolução, ainda havia alfandegas interiores?
Como era possivel fazer prosperar a agricultura, com tantas barreiras e impostos? Se ao monopolio dos atravessadores do Rio se juntavam as exacções do Estado, como era possivel tirar da terra a remuneração consoladora?
E o quadro que já lhe passara pelos olhos, quando recebeu a intimação da municipalidade, voltou-lhe de novo, mais tetrico, mais sombrio, mais lugubre; e anteviu a epoca em que aquella gente teria de comer sapo, cobras, animaes mortos, como em França os camponezes, em tempos de grandes reis.
Quaresma veiu a recordar-se do seu tupy, do seu _folk-lore_, das modinhas, das suas tentativas agricolas--tudo isso lhe pareceu insignificante, pueril, infantil.
Era preciso trabalhos maiores, mais profundos; tornava-se necessario refazer a administração. Imaginava um Governo forte, respeitado, intelligente, removendo todos esses obices, esses entraves, Sully e Henrique IV, espalhando sabias leis agrarias, levantando o cultivador... Então sim! O celleiro surgiria e a patria seria feliz.
Felizardo entregou-lhe o jornal que toda a manhã mandava comprar á estação, e lhe disse:
--Seu patrão, amanhã não venho _trabaiá_.
--Por certo; é dia feriado... A Independencia.
--Não é por isso.
--Porque então?
--Ha _baruio_ na Côrte e dizem que vão _arrecutá_. Vou p'r'o mato... Nada!
--Que barulho?
--_Tá_ nas _foias_, sim _sinhô_.
Abriu o jornal e logo deu com a noticia de que os navios da esquadra se haviam insurgido e intimado ao Presidente a sahir do poder. Lembrou-se das suas reflexões de instantes atrás; um Governo forte, até á tyrannia... Medidas agrarias... Sully e Henrique IV...
Os seus olhos brilhavam de esperança. Despediu o empregado. Foi ao interior da casa, nada disse á irmã, tomou o chapéo, e dirigiu-se á estação.
Chegou ao telegrapho e escreveu: «Marechal Floriano, Rio. Peço energia. Sigo já.--Quaresma».
V
O TROVADOR
--De certo, Albernaz, não é possivel continuar assim... Então, mette-se um sujeito num navio, assesta os canhões p'ra terra e diz: sai d'ahi _seu_ presidente; e o homem vai sahindo?... Não! É preciso um exemplo....
--Eu penso tambem da mesma maneira, Caldas. A Republica precisa ficar forte, consolidada... Esta terra necessita de Governo que se faça respeitar... É incrivel! Um paiz como este, tão rico, talvez o mais rico do mundo, é, no emtanto, pobre, deve a todo o mundo... Porque? Por causa dos Governos que temos tido que não têm prestigio, força... É por isso.
Vinham andando, á sombra das grandes e magestosas arvores do parque abandonado; ambos fardados e de espada. Albernaz, depois de um curto intervallo, continuou:
--Você viu o imperador, o Pedro II... Não havia jornaleco, pasquim por ahi, que o não chamasse de «banana» e outras cousas... Sahia no Carnaval... Um desrespeito sem nome! Que aconteceu? Foi-se como um intruso.
--E era um bom homem, observou o Almirante. Amava o seu paiz... Deodoro nunca soube o que fez.
Continuavam a andar. O Almirante coçou um dos favoritos e Albernaz olhou um instante para todos os lados, accendeu o cigarro de palha e retomou a conversa:
--Morreu arrependido... Nem com a farda quiz ir para a cóva!... Aqui para nós que ninguem nos ouve: foi um ingrato; o Imperador tinha feito tanto por toda a familia, não acha?
--Não ha duvida nenhuma!... Albernaz, você quer saber de uma cousa: estavamos melhor naquelle tempo, digam lá o que disserem...
--Quem diz o contrario? Havia mais moralidade... Onde está um Caxias? um Rio Branco?
--E mais justiça mesmo, disse com firmeza o Almirante. O que eu soffri, não foi por causa do _velho_, foi a canalha... Demais, tudo barato...
--Eu não sei, disse Albernaz com particular accento, como ha ainda quem se case... Anda tudo pela hora da morte!
Elles olharam um instante as velhas arvores da Quinta Imperial, por onde vinham atravessando. Nunca as tinham contemplado; e, agora parecia-lhes que jamais tinham pousado os olhos sobre amores tão soberbas, tão bellas, tão tranquillas e seguras de si, como aquellas que espalhavam sob os seus grandes ramos uma vasta sombra, deliciosa e macia. Pareciam que medravam sentindo-se em terra propria, dellas, da qual nunca sahiriam desalojadas a machado, para edificação de casebres; e esse sentimento lhes havia dado muita força de vegetar e uma ampla vontade de se expandirem. O sólo sobre a qual cresciam, era dellas e agradeciam á terra extendendo muito os seus ramos, cerrando e tecendo a folhagem, para dar á boa mãe, frescura e protecção contra a inclemencia do sol.
As mangueiras eram as mais gratas; os ramos longos e cheios de folhas, quasi beijavam o chão. As jaqueiras se espreguiçavam; os bambus se inclinavam, de um lado e outro da aléa, e cobriam a terra com uma ogiva verde...
O velho edificio imperial se erguia sobre a pequena collina. Elles lhe viam o fundo, aquella parte de construcção mais antiga, joannina, com a torre do relogio um pouco afastada e separada do corpo do edificio.
Não era bello o palacio, não tinha mesmo nenhum traço de belleza, era até pobre e monotono. As janellas acanhadas daquella fachada velha, os andares de pequena altura impressionavam mal; todo elle, porém, tinha uma tal ou qual segurança de si, um ar de confiança pouco commum nas nossas habitações, uma certa dignidade, alguma cousa de quem se sente viver, não para um instante, mas para annos, para seculos... As palmeiras cercavam-n'o, erectas, firmes, com es seus grandes penachos verdes, muito altos, alongados para o céo...
Eram como que a guarda da antiga moradia imperial, guarda orgulhosa do seu mister e funcção.
Albernaz interrompeu o silencio:
--Em que dará isto tudo, Caldas?
--Sei lá.
--O _homem_ deve estar atrapalhado... Já tinha o Rio Grande, agora o Custodio... hum!
--O poder é o poder, Albernaz.
Vinham andando em demanda á estação de S. Christovão. Atravessaram o velho parque imperial transversalmente, desde o portão da Cancella até á linha da Estrada de Ferro. Era de manhã, e o dia estava limpido e fresco.
Caminhavam com pequenos passos seguros, mas sem pressa. Pouco antes de sahirem da Quinta, deram com um soldado a dormir numa moita. Albernaz teve vontade de acordal-o: camarada! camarada! O soldado levantou-se estremunhado: e, dando com aquelles dous officiaes superiores, concertou-se rapidamente, fez a continencia que lhes era devida e ficou com a mão no bonet, um instante firme, mas logo bambeou.
--Abaixe a mão, fez o General. Que faz você aqui?